sexta-feira, dezembro 29, 2006

Segredos médicos

Esta é uma profissão de segredos. Faz parte do mais intocável da actividade dos médicos o segredo do que se passa entre nós e os doentes. Mas +para além desse segredo, há outros dois segredos que caracterizam os médicos tais como os conheço. O primeiro, é a denúncia, em privado, dos erros dos colegas. Mas ´so em privado, que em público, o que se sabe passa a estar sob segredo e não é dito. O outro é o (in)cumprimento dos horários nos hospitais públicos. Os directores dos serviços vão confirmando, no fim do mês, a presença e o cumprimento escrupuloso dos horários dos seus médicos. Mas todos sabem que têm um segredo que guardam bem guardado: Ninguém cumpre! O problema é que a temível informática veio agora perturbar a coisa. Malditos engenheiros! Será tempo de recorrer aos advogados?

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Não à pena de morte

Há um estranho e séptico silêncio à volta da sentença de Saddam. Obviamente, deve neutralizar-se quem como ele fez o que fez, mas vai uma grande distância entre isso e a condenação à morte. Temos obrigação de aguentar os monstros que criamos. Esta é uma das poucas certezas que tenho por estes dias. Estranho que a morte de alguém seja causa de regozijo como parece acontecer entre os cowboys que dominam este mundo. Fico algo aliviado por viver numa região onde a barbárie não é saudada. Mas não é bastante. É bom que se diga que a pena de morte é barbárie. Ponto.
Deve ser a mesma lógica de justiça que faz com que os seguidores destes bárbaros sejam defensores da penalização das mulheres que se vêem na necessidade de abortar, o célebre princípio do respeito pela vida humana. E vamos vê-los na defesa da sua convicção nos próximos tempos, tanto quanto os vemos agora a festejar a morte de mais um condenado.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Pós-Natal

Nas revistas cor de rosa, o Natal são lindas árvores com luzinhas que acendem e apagam sem parar. Mais recentemente, são também as mesas de Natal que as enchem. Os tios estão de sorriso de marca e abrem as portas de casa a quem quer espreitar. O Natal tem um glamour imenso.
Mas há outro fora das revistas. E muito mais Natal que esse das prendinhas e do Pai Natal, acidentalmente, vermelho. Sem renas nem trenós, que a vida às vezes puxa-se à mão contra os atritos que se lhe erguem e nem se sabe se avançamos ou ficamos. Muitas vezes, apenas se patina no chão do tempo, sem a alvura do frio que nos vendem embalada. O Natal das dúvidas que se acumulam sobre o sentido desta sucessão de coisas. Neste Natal, o outro glamouroso, só oprime ainda mais. Mas também há um sentir de bem ter feito, que liberta e nos ergue. A vida e a ética não vêm nas revistas que nos falam do Natal e são o que é, realmente, importante, muito mais que todo o glamour.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Marketing

Tenho, reconheço, uma má relação com o marketing. Mas não é por mal. Só que não entendo por que razão deveria ser contra os Impostos que o Estado me cobra e dos quais ainda obtenho alguns benefícios e não ter uma raiva profunda aos custos de produção que a publicidade representa sem que dela beneficie coisa alguma. Antes pelo contrário ao induzir-me a consumir aquilo de que não necessito, prejudica-me directamente, aumentando até o preço daquilo que eventualmente preciso. Não consigo imaginar uma sociedade (grupo de pessoas que vivem colectivamente) sem a existência de impostos estatais, mas nada me custa a vislumbrar um mundo sem publicidade, sem este espectáculo abjecto que é o meio que nos envolve nas cidades, cheias de outdoors, sem o ruído da TSF a debitar-me incentivos ao endividamento. Vivia muito bem sem isso e os produtos ser-me-iam bem mais baratos. Acho mesmo que, como cidadão, tenho o direito de reivindicar limitações à poluição que o marketing representa. Podemos não querer aceitar viver numa cidade que nos oprime para nos obrigar a comprar. Se podemos insurgir-nos contra a publicidade que nos colocam nas caixas do correio e proibi-la, por que não fazer o mesmo contra a que colocam à beira da nossa rua e que nos agride todos os dias quando saímos de casa?
Mas o marketing, às vezes, exagera. Como agora, quando recebo diariamente mensagens de e-mail a desejar-me as Boas Festas, assinadas pelos departamentos de Comunicação e Marketing de nem sei quantas empresas. Essas tretas são junk-mail, spam, nada dizem, apenas agridem um Natal já amplamente devorado pelas feras do consumo. Há Natal quando alguém quer partilhar umas cerejas ou uma garrafa de vinho, mas é anti-Natal o disfarce e a mentira do agradecimento interesseiro a pensar nas vantagens que poderão com isso advir para o próximo ano. De qualquer forma agradeço-lhes o reforço que fizeram à minha consciência e vou tentar ser mais prudente no ano que vem. Registo os nomes das vossas empresas e tentarei adequar os meus comportamentos.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Líquido

A água que escorre na parede pode distorcer a visão do que está do lado de lá. Muitas vezes há que ir lá para perceber o que nos espreita.




















Muito mais fácil é deixarmo-nos ir na onda

terça-feira, dezembro 19, 2006

carolina no país dos pintos

De passagem pela Bertrand ouço o funcionário perguntar ao outro, então vão chegar mais carolinas?, claro que sim, carolinas vendem-se como nunca! Só hoje chegaram mais de 1500 e amanhã já foram, venham mais. Não admira que a época vai fria e propícia para uma entrada no calor da noite, mais que não seja para uma inalação dos perfumes de pinto, adulterados por algum tabaco ou na ânsia de saborear alguns chocolatinhos. Finalmente, é um país que se revela e se verga diante de carolina, ávido de saber. E carolina domina, no top da coisa, perita que é na estimulação do consumo. No país dos pintos, encharca-os com o sonho do que nunca realizam. Pelo seu lado, vai acreditando no Pai Natal que é vermelho e no Benfica que é uma naçãog carago.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Público e privado

Num tempo em que tanto se critica o futebol, lamento não ver adoptados, na saúde, os métodos de gestão existentes nesta indústria. Neste campo, a medição do valor é mais intuitiva e objectiva (as vitórias e as derrotas), mas existem também em saúde métodos fiáveis de avaliação da produção e da sua qualidade. Haja vontade de os aplicar!
No futebol quando a equipa começa a perder de forma sucessiva há um procedimento quase constante, o treinador é dispensado. Na saúde não é assim, independentemente da eficácia, há directores que o são até que a reforme ou a morte os leve.
Agora que o Ministro da saúde veio dizer o óbvio, isto é, a simultaneidade de direcção de serviços públicos e privados «é passível de comprometer a isenção e imparcialidade com o consequente risco de prejuízo efectivo para o interesse público», logo temos o Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos a dizer que a medida é ilegal!! Defende o Dr. Pedro Nunes que «os médicos não são melhores nem piores por trabalharem no público ou no privado» e manifesta a sua preocupação dizendo «que é um suicídio, em termos do SNS, dizer aos médicos que se querem trabalhar no privado não podem trabalhar no público». Isto é, em seu entendimento, os Mourinhos podem treinar simultaneamente o Chelsea e o Manchester, possivelmente fazendo as manhãs em Londres e as tardes na cidade do concorrente.
Esquece o Senhor Bastonário dois aspectos importantes. Primeiro, ignora a concorrência de interesses entre as empresas públicas de saúde e as empresas privadas e entre estas entre si. Será que é concebível que o mesmo médico vá dirigir um serviço de medicina, simultaneamente, no Grupo CUF e no BES? Ou estará o Senhor Bastonário a admitir que a direcção de um serviço no sector público é diferente das mesmas funções numa empresa privada? Há um vício no raciocínio do Bastonário. Até agora, o prestígio ia-se procurar no público, e o dinheiro ia-se ganhar no privado, hipoteticamente «gerindo» com alguma superficialidade o primeiro, melhorando a situação no segundo. Se aos directores do público fosse exigida excelência, como o interesse público exige, necessariamente, este sector dos cuidados de saúde seria a referência. Se o não é, deve-o, antes de mais, ao deficiente desempenho de quem o dirige (os treinadores). No futebol já muitos teriam sido dispensados.
A segunda confusão do senhor Bastonário diz respeito ao suicídio do SNS. Não será certamente por migrarem algumas andorinhas que a Primavera acaba. Há muitos médicos que acreditam no SNS e acham imperiosa a sua defesa para benefício dos doentes e estarão, de certeza, disponíveis para o fazer, gerindo eficazmente os serviços públicos. Os serviços públicos serão para os pobres, se forem mal geridos face à gestão dos privados, como hoje já acontece, por exemplo, nos EUA.
O que é lamentável nesta decisão do Ministro da Saúde é que seja facilmente contornável e que não seja a declaração desejável de incompatibilidade entre exercício (e não apenas a Direcção) de actividade privada e pública e não introduza uma sã concorrência entre os dois sectores com águas rigorosamente separadas. Há um grande espaço de crescimento da actividade no sector Público, haja vontade de o estimular.

sábado, dezembro 16, 2006

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Mais um dia (diferente)

Passar este dia na escola soube-me bem. Não é que tenha de ser um dia diferente dos outros, mas sempre acaba por o ser. É incontornável, mais um risquinho nos molhinhos dos anos, que as mensagens não deixam esquecer ainda que se queira. Por isso acaba por saber tão bem ter estado de aluno neste dia. Enquanto aprender estarei vivo.
Só um bocado da noite me roubaram ao dia. Roubaram porque não é agradável ver sair de cena alguém que esteve no palco tanto tempo, mesmo que o tenha assobiado umas vezes e aplaudido outras, que nestes espectáculos os percursos não são invariavel e monotonamente ascendentes ou só de êxitos. Nem os humores de quem assiste. Pior foi sentir que não tem vontade de agradecer ao seu público, que fica sozinho algures na sua distância, sem encore. Estou só na plateia?

quinta-feira, dezembro 14, 2006

A liberdade dos burros

No sempre informativo curso de Gestão aprendi hoje a diferença entre Socialismo e Capitalismo (ultimamente designado por liberalismo). No primeiro caso, trata-se de um burro que tem garantida diariamente uma cenoura; no segundo, o burro tem às costas um tipo bem gordo que leva pendurado na ponta de uma cana em posição inacessível ao burro, um molho enorme de cenouras, que fazem o pobre do bicho ter a ilusão de que algum dia terá lhes acesso. E caminha e caminha muito livre, o desgraçado.
Os resultados da gestão deste sistema foram recentemente publicados pela ONU: 50% dos habitantes do mundo onde o sistema domina são donos de 1% da riqueza; 2% dos condutores de burros possuem 50%. É este o real valor da liberdade dos burros.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Uma medida certa e sem efeito

Decidir que os médicos gestores de serviços privados de saúde não possam acumular essas funções com a gestão de serviços públicos é uma medida que vai na direcção certa da preservação do bem público, mas vai ser ineficaz. Facilmente, os lugares de direcção dos privados serão ocupados por testas de ferro e as suas estratégias de demolição do público continuarão a ser executadas. É curto, senhor Ministro Correia de Campos! Serve para aliviar a consciência, parece moralizador, mas é absolutamente ineficaz.
A eficácia seria conseguida com uma sã concorrência entre público e privado. Quem trabalha num dos sectores, não poderia trabalhar no outro. Seria do mais elementar bom senso, pois se trata de sectores concorrenciais em que o controlo e os proventos são distintos para os executantes. De uma forma geral, são mais atraentes (leia-se é-se mais bem pago) os benefícios pessoais no sector privado, logo quem trabalhar nos dois, seguramente, não é inocente na forma como actua num e noutro, tentando (que diabo, até é humano) beneficiar a actividade no privado em detrimento do público. Não se lhes pode pedir que tentem reduzir listas de espera no público quando são elas que engrossam o recurso dos doentes aos privados! Ou pensam que os médicos são anjos! E, no limite, porque se pode abdicar do lucro no sector público, gerindo-o com firmeza e correcção, até se pode pagar aqui melhor aos técnicos que no sector privado, não havendo, por isso, o risco anunciado, mas não concretizado nunca do êxodo para os privados. O problema é outro: este poder está atado pela Banca e pelas companhias de seguros e tem de realizar a sua missão de estimular a «iniciativa» desses sectores no campo da saúde, onde, recentemente, têm vindo a fazer investimentos contando, claro, com o papel de destruição anunciada do Serviço Nacional de Saúde. Quem vai pagar a factura serão sempre os mesmos, os que, por engano, continuam a pensar que não há mais mundo além do PS/PSD/CDS.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Amizade

Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...
Antoine de Saint'Exupery




Neste tempo em que quase todos andam centrados nos vários megas e macros que os absorvem, tenho um especial gozo em «usar o tempo a desfrutar de pequenas coisas». Abomino as corridas natalícias, a pressão das prendas porque-tem-que-ser. Apetece-me deixar isso ao Pai Natal que é um lorpa que descansa todo o ano à espera que chegue o 13º mês. Deve ser por isso que me deu tanto gozo ter passado algum tempos destes últimos dias às voltas, a remexer lembranças, instantes e imagens, porque foi a forma certa para ter estado a desfrutar dessa «pequena coisa» que são os amigos. Estes surgiram quando já não se espera muito que aconteçam, já depois de bem entrados nos anos. Geralmente, porque os amigos fazem parte do micro e são «time-consuming» é preciso estar-se virado para «as pequenas coisas» e ter o tal tempo para se fazerem. Acho que será por isso que é habitual fazerem-se amigos enquanto crescemos, na juventude, quando existem as condições ideias de crescimento do substrato de que são feitas as amizades. Depois, quando muito, tentamos mantê-los e, muitas vezes, ainda perdemos alguns na caminhada. O mais que conseguem os adultos é, quase sempre e só, achar uns conhecidos ou colegas com quem se bebe uns copos, se faz um barbecue ou até se vai às compras. A vida não lhes dá para mais. Na minha tive esta sorte de encontar amigos fora de época, possivelmente também, porque gosto de «coisas pequenas».

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Tragicomédia

Fui ao teatro de manhã, o que não é a hora mais habitual. Mas estes rituais de doutoramentos outra coisa me não recordam, com o problema de ser mau teatro, geralmente. O texto hoje, era particularmente, trágico. Pelas entrelinhas pareceu-me ouvir que mesmo que a tese não confirme a hipótese o erro deve ser da matemática porque a hipótese era óptima. No mínimo, será um conceito revolucionário, que irá alterar toda a metodologia da ciência de agora em diante.
No fundo são tudo bons rapazes, mas depois de uma destas, fico cada vez com menos vontade de fazer «uma merda qualquer», na expressão ilustre de um catedrático nacional, para entrar nestas peças.
Realmente, estes dois dias de encontros apenas visam avaliar a docilidade do candidato, não tanto a sua ciência ou inovação. Para os candidatos são um ritual de iniciação que terão de ultrapassar para chegarem aos benefícios dos poderes. Para determinar o grau de aperto do atilho com que ficam seguros. Não estou pelos ajustes!

Menos um actor


Leituras recomendadas: 1.Pinochet, mucho peor que un simple dictador: el primer gobernante que puso en práctica el neoliberalismo
2.Augusto Pinochet: epitafio para un tirano
Só porque é importante que se não esqueça o 11 de Setembro, o outro, e tudo o resto que veio depois.

O novo ópio

A primeira Dama é de centro esquerda diz ela e a Visão reproduz em primeira página. O que quererá isto dizer num tempo em que se diz que já não há esquerda nem direita? Quer mais ou menos dizer que se estará por aí, como o outro que por aí também anda, nalgum sítio indefinido em que se tem solidariedade (outro termo que perdeu o significado) com uns e se apoiam os que os geram. Mas estas coisas escritas em primeiras páginas têm sempre um efeito calmante. Agora que a religião já não é o que era, cabe à imprensa ser o ópio do Povo.
À noite, o Professor lembra que isto de primeiras damas teve origem na tradição monárquica e foi sendo recuperado, depois de um interregno, pela II República. Com o devido respeito, acho que a origem será distinta. A culpa é das monarquias europeias que despertaram o gosto nos Americanos, que sem reis, precisavam da figura feminina para os fazer sonhar com Rainhas de Inglaterra e Princesas do Povo. Manuela Eanes e sucessoras foram apenas inspirar-se nas Primeiras Damas do lado de lá para criarem a moda entre nós. Sempre o País fácil! Já temos, como eles, Museu da Presidência. Muito tempo não faltará, até termos o das Primeiras Damas, com exposição de serviços de porcelana e vestidos de noite, como lá. Achava graça a que a Sra Hillary ganhasse as eleições, só para ver a posição do Clinton entre as velhas damas do museu de Washington... Castigo duro para os seus devaneios!

sábado, dezembro 09, 2006

Cidadão voluntário?

Nesta ânsia de liquidação do Estado, será que se não corre o risco de se perder a noção de pátria tão necessária para levar as gentes ao sacrifício, por exemplo da ida para as guerras, ou de apertar o cinto para salvar a dita? Se nos sentirmos, cada vez mais isolados, que sentido tem, então, a entrega a causas comuns, como essa da pátria? De repente, imagino que o fim do serviço militar obrigatório, substituído pela geração de corpos de mercenários, poderá fazer algum sentido. Com efeito, com uma pancada, matam, dois coelhos: os tipos que ficam armados dependem da sua actividade para viverem e devem o seu sustento a quem os domina, são dóceis e submissos; por outro lado, ficam literalmente desarmados aqueles que poderiam virar a arma no sentido certo, logo os poderes ficam, afinal, mais seguros. Ainda melhor, fica contente a multidão por lhe ser tirado algo desagradável em nome da facilidade. Duvido é que criem a categoria de cidadão voluntário, porque, na verdade, são eles que necessitam muito mais do Estado, dos cidadãos, e não tanto estes que precisam do Estado, isto é, do poder dominante.
Veio isto mais ou menos a propósito enquanto lia a Formação da Mentalidade Submissa de VIcente Romano.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Explicação simples

Já não estranho que me digam, e que ganhas com isso?, desde que dedico mais algumas horas à organização de um processo. Está entranhado na estrutura submissa das gentes que o trabalho quase deve ser um elemento negativo, algo em que desperdiçam pelo menos um terço das suas vidas. Daí a necessidade de obterem contrapartidas óbvias para o esforço. Isto advém de estarmos geralmente envolvidos em processos que não influímos e que nos devoram. Mas quando, por circunstâncias da sorte, passamos a realizar algo em que nos sentimos actuantes e temos consciência de que a transformação decorre também de nós, encontramos a disponibilidade para agir sem nos limitarmos a reagir pedindo mais para o que querem que façamos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Factores de acção (diferente de facturação)

Até é possível que os determinantes fundamentais das acções individuais sejam o dinheiro, as honrarias e o sexo. Pode também ser um conceito redutor e muito o resultado de auto-projecção de quem o descreve dessa forma. Só tenho a certeza de que pode haver excepções e que coisas simples como a oferta de uma cestinha de cerejas, certamente, não é um acto motivado por esses motores. Também o não é, o prazer de mudar para que, por exemplo, a ida a uma consulta de um hospital não junte ao mal estar da doença, o desconforto de um espaço escuro e velho. Ainda há outros prazeres que nos motivam e nos deixam menos deprimidos e tensos. De outra forma, como a apresentam, a vida seria uma enorme chatice. Alguns sorrisos são bem mais motivadores. Ainda há espaço nas acções para além das facturas.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

No fim de semana e princípio de uma nova

De raspão ouvi um ministro dizer o que me agradou ouvir. Só que não tive a certeza de que o disse. Será que o Prof Correia de Campos, percebeu que é preciso profissionalizar o atendimento d eurgência e decidiu que deixe de vez de ser assegurado por amadores, isto é, especialistas sem conhecimentos de doentes de clínica geral?

Bonito foi Chavez! Em Democracia com D, ganha-se depois de se ter ganho, não se alterna. Faz-se o que se prometeu e amplia-se a vantagem, porque se não engana o povo. Por isso foi bonito todo aquele mar de vermelho que as nossas televisões não apanharam. Imagine-se o que teria sido notícia a alternância! Realmente, não é notícia dizer que o povo confirma o poder, sobretudo para os que vivem do alterne.

Acabei o Peter Singer e retirando a ideia da libertação animal (que me perdoe mas deixa-la-ei para depois da libertação dos humanos, que nisto de obras há que definir prioridades)foi um tempo de boa companhia este que passei com ele. Afinal, há mais gente por aí a fazer-nos companhia, a «empurrar o amendoim». Os livros podem ser apenas isto também, algo que nos retira da solidão em que nos podemos sentir às vezes. Afinal, não estamos sós e, se calhar, o Cília tinha razão, somos milhões e milhões na terra inteira.

Também não foi mau saber que o salário mínimo vai aumentar de modo seguro nos próximos anos.

Já hoje, as notícias não são tão boas. Ter um património de 1700€ cola-nos no mundo dos ricos. Dois por cento têm 50% da riqueza do mundo e cinquenta por cento têm apenas 1% do total. Há muito «amendoim a empurrar»!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Surpresa quase

Há algum renascer já quase inesperado, um voltar lento até cá. Ri e fala ao telefone, tudo uma semana depois de uma sonolência inquietante. Anda assim a vida, em altos e baixos.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Cosi fan tutte

Cosi fan tutte tem essa coisa boa de mostrar onde mora a sabedoria, no Velho filósofo e na Criada Despina. Os outros são medrosos, cheios de cuidados com a imagem, agarrados ao ter de ser.
Mas é também denúncia clara:
Che vita maledetta
È il far la cameriera!
Dal mattino alla sera
Si fa, si suda, si lavora, e poi
Di tanto che si fa nulla è per noi.
È mezza ora che sbatto;
Il cioccolatte è fatto, ed a me tocca
Restar ad odorarlo a secca bocca?
Non è forse la mia come la vostra,
O garbate signore,
Che a voi dèssi l'essenza, e a me l'odore?

É a denúncia da desigualdade de forma doce, com chocolate.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dimensão

É pobre a obra de quem se enterra com ela e grande a que persiste depois de nós. Os maiores são os que estão substituíveis a toda a hora, porque criaram uma dimensão de irreversibilidade nos processos. Mas quando, durante toda a vida, o mundo de algumas pessoas nunca as ultrapassou, começando e terminado sempre nos seus limites, não se poderá esperar que outra coisa possam fazer que anunciar o dilúvio depois deles. Compreender essas suas limitações e perdoar-lhes, é também obrigação de quem fica. Com toda a serenidade, cabe a nós que continuamos o caminho, mostrar a realidade como ela é.

terça-feira, novembro 28, 2006

A Baixa

Ir à Baixa é sempre regressar a um tempo distante, aquela fotografia de boné e gabardina tirada à la minute no passeio dos Restauradores e aos cromos que se trocavam nas escadas da Estação do Rossio, à subida ,Rua do Carmo acima, com falta de ar, até ao aerosol salvador do alergologista milagreiro que me espicaçava o antebraço.

Também às decorações de Natal bem mais discretas do que as bolas de agora. E havia menos homeless nos passeios. Vivemos num tempo de exuberância.

Hoje achei as ruas bem mais largas, a Sá da Costa e a Bertrand persistem em não sair do lugar. A raiva só surgiu quando vi o Lourenço e Santos substituído por uma qualquer loja Calzedonia e, claro, mas essa já tinha dado conta noutras idas, a loja dos brinquedos onde tantas vezes encostei o nariz para sonhar substituída nem sei bem por que coisa. Ainda não consigo olhar direito para os invasores. Mas a Estação do Rossio foi lavada e está bem bonita até que a poluição uma vez mais a pinte de negro.





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segunda-feira, novembro 27, 2006

Instantes


Mesmo os dias de chuva por que passamos, têm momentos de sol nos intervalos. Gosto de os ver. Aos dias de chuva e aos intervalos. Só a monotonia me cansa.

domingo, novembro 26, 2006

Amadeo

" Vivo numa casa muito pequena, mas as minhas janelas dão para um mundo muito grande."
Confúcio ( 551 - 479 a. C. )


Vou lembrar-me desta exposição de Amadeo, não tanto pelos quadros que vejo, mas pela entrada na exposição. Uma fila! Num país onde as filas costumam ser apenas no trânsito, fico satisfeito por esperar, imaginando que o interesse por estas coisas está a aumentar. Rapidamente (a fila também não era assim tão grande) surge a explicação para o entupimento. Por motivos de segurança, as senhoras não podem entrar com malas de mão!!! Isso mesmo, não se trata de mochilas ou guarda-chuvas, malas de mão mesmo que pequenas, mínimas mesmo. O funcionário da empresa de segurança esclarece que se trata de uma norma determinada pelo valor da obra exposta. Amadeo Souza Cardoso é, como se sabe um pintor de obras valiosas. Vai daí, toda a gente tem de entrar de mão e ombros a abanar. O presumível responsável desta situação chama-se Paulo Salgueiro. Já o imagino a organizar a segurança de uma exposição de Van Gogh ou Picasso. De certeza que obrigará os visitantes a entrarem nus.
Depois, olhando os quadros, fico com a impressão de que Amadeo fez aquilo que os portugueses para serem grandes (na sua terra) devem fazer, emigrar. Quanto ao que vi não me parece ser assim tão grande. Viveu num tempo de originalidade, viu a pintura que se fazia em Paris e integrou-se. Depois colocou umas casinhas de aldeia dentro dos quadros e essa parece-me ser a sua diferença. Tudo o mais já tinha visto em muitos outros. O resto é a histório do peixe e do aquário. Pode ser-se um peixe pequeno em aquário grande, ou tendo o mesmo tamanho, pode ser-se um grande peixe em aquário pequeno. A dimensão é a mesma quando se é pequeno. Tudo é relativo, mas a pequenez pode sufocar.

sábado, novembro 25, 2006

Temporal

Árvores na linha, troços cortados pela água. Comboio parado durante mais de duas horas. Um silêncio inquietante, sobretudo depois de terem semi-fechado a luz da carruagem. Finalmente, comunicam-nos que não vamos poder prosseguir viagem. Como alternativa, iremos de autocarrro até Lisboa. Voltarão a falar connosco em breve. É curioso, como nesta altura começa a debandada dos passageiros. Saem sem saber para onde ir. Na verdade, os autocarros ainda não devem ter chegado, nem se sabe onde irão chegar, nem muito menos para onde se dirigirão. Alguns dos que ficam desenham cenários tenebrosos de circuitos infindáveis pelo país fora a satisfazer todos os destinos.
Uma meia hora depois, o revisor passa triunfante, anunciando que os autocarros chegaram. Chove copiosamente e o vento é de virar guarda-chuvas. Umas dez carruagens acabam de esvaziar em direcção ninguém sabe muito bem ao quê. É a coisas como esta que se chama banhada geral. Afinal, os autocarros, acabavam de chegar, cheios com os passageiros vindos de Aveiro, que fugiam precipitrando-se para a estação de onde saíamos, sem saber para onde íamos, quais os autocarros que apanharíamos. Vai para Lisboa? para o Entroncamento? De carro em carro, à procura. Um condutor berra, informando que aquilo não é um comboio, que se não pode entrar com as malas no autocarro, que têm de ser postas na bagageira, por baixo. Agora é dentro do autocarro, uns a entrar outros a sair... com as malas. Cá fora continua a banhada.
Já passava das oito da noite. A CP não nos deu nem uma sandocha. Acalmados com a expectativa de uma viagem rápida até Lisboa, tenho ainda assim de ir todo o tempo a ouvir o jovem do banco de trás, num palavreado que em programa de TV antes das dez dava um texto em piiiiii.....piiiiiiiiii quase contínuo. Está curiosa a linguagem nesta terra. Será que já não há escolas depois de terem acabado as famílias?
Ao fim de oito horas cheguei a Lisboa! E nunca me tinha sentido evacuado.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Chove lá fora

Peter Singer continua a ser um bom companheiro de viagem, agora, a caminho do Porto para uma reunião da Ordem dos Médicos. Há momentos em que estas companhias são fundamentais. Estar acompanhado num mundo em que quase tudo parece ser diferente, sabe muito bem.
Não se está tão longe da felicidade quanto muitas vezes se pensa. Temos, para a atingirmos, que definir com precisão os objectivos. É como irmos a um centro comercial, podemos ir com uma lista de compras precisa, daquilo que necessitamos e irmos sem ter pensado previamente o que precisamos. No primeiro caso viremos de lá com as nossas necessidades satisfeitas (se tivermos ido ao sítio certo), na segunda hipótese havemos de trazer uma quantidade de inutilidades de que, na verdade, não necessitamos e não nos darão grande prazer (para além daquele que estiver associado ao consumo imediato). Também já é assim na infância, não é a abundância de brinquedos, geradora de dificuldades de escolha, que torna as crianças mais felizes. È o brinquedo necessário, o favorito, o que gera o prazer. E esse é com frequência aquele a que se atribui, mesmo que o não tenha objectivamente, uma característica única, qualquer coisa nossa que o torna mais valioso que todos os outros. A nossa felicidade tem origem não na coisa, mas no que dela fazemos, no que lhe acrescentemos de significado. O triunfo actual do liberalismo, ao criar a necessidade do consumo, não acrescenta felicidade às pessoas. Olhem-se os sobreviventes ambulantes nos Centros Comerciais aos fins-de-semana. Aquela massa de gente que espreita montras tem um ar feliz?
Às vezes, distraímo-nos e deixamo-nos ir pelos conceitos, transitoriamente dominantes, de identificarmos o ter com o bem-estar e, afinal, este está muito mais no ser. Confunde-me que se sacrifique tanto o ser ao ter, ver tanta gente desaparecer na busca do ter e depois ficar sem tempo para ser. Tanto mais que o ter é um monstro sem limites, insaciável, por isso inatingível. Há sempre mais além do que tem e, não tendo feito a lista do que se quer, resta-nos ficar sempre mais infelizes por ainda nos faltar ter algo a que ainda se não chegou.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Os atados

Não vejo o poder como um fim em si, a realização de um título ou de uma linha de curriculum. O poder contem agarrado a possibilidade de mudar, transformar, inovar e melhorar. É muito mais que estadias em estâncias de luxo em reuniões de trabalho. Só vale a pena tê-lo quando temos um programa para melhorar alguma coisa. Poder não é também um trampolim para ir fazer mais acima o mesmo que se não faz aqui em baixo. É desta forma que o entendo. Mas eu sou livre. Tenho essa sorte. Concluí hoje, ao ver-me rodeado de chefes (líderes era demais chamar-lhes) atados de pés e mãos ou por outros órgãos ainda mais vitais. Antes de cada decisão que até lhes apetece ter, vejo-os a calcular, a ver as implicações no aperto dos atilhos que os paralisam: quem irá fazer parte do juri do meu concurso de catedrático? será que se eu fizer isso, o poder dele não irá implicar a minha destituição do lugar que consegui? Atados de pés e mãos ou noutros órgãos que se calhar já secaram e que tanta falta fazem à vida das pessoas.

terça-feira, novembro 21, 2006

À volta de Singer

Se estamos bem, podemos abster-nos; se estamos mal, devemos agir, realizar o bem. Ainda que nessa realização possamos fazer algo menos bom, pior seria ficar parado, inerte, porque o imobilismo não resolve o nosso incómodo de estarmos mal. Mesmo que agir, tenha quase necessariamente que dar, a quem não age, a possibilidade de reagir contra toda e qualquer mudança. O estado de espírito dos descontentes apáticos, curiosamente, exacerba-se quando algo muda, mesmo que adivinhem que a mudança possa ser benéfica. Mas mudar tem sempre algum incómodo associado, algum dispêndio de energia. Isso explica, provavelmente, o horror à mudança. Nessas alturas é de esperar que os acomodados se inquietem e procurem denegrir quem age pela mudança. É da natureza das coisas.
Não são pois de estranhar as campanhas mais ou menos espontâneas, de denúncia de quem se empenha na acção. Os políticos são umas das vítimas desta natureza das coisas. Aqui também e muito mais pelo horror a tudo o que é público, pois são eles os gestores dessa coisa. No primado do interesse próprio, chega a ser curioso que invocando princípios éticos se denunciem os pecados dos políticos. É, seguramente, correcto denunciá-los, mas estranha-se que, ao mesmo tempo, se não faça a denúncia dos não políticos que têm como único real valor a promoção pessoal em detrimento do bem comum. Quem sabe se essa não é uma arma do liberalismo para dissimular a ferocidade do interesse próprio, desviando a atenção para a observação e crítica da acção dos que se dedicam à causa comum. Por exemplo, se um gestor de uma empresa privada tiver um vencimento mais ou menos pornográfico e simultaneamente tiver uma reforma de uma participação anterior num organismo público, isso terá o mesmo impacto de um gestor público ter um vencimento bastante mais baixo do que o privado e ao mesmo tempo receber uma pensão equivalente? Estou convencido que o ataque aos políticos, como a idolatria do futebol ou a frenética devassa da vida privada das celebridades são o ópio que o sistema instila para se poder manter mais tranquilamente no poder. Ou os cães ladram, fazem barulho, agitam as matilhas e a caravana passa. Na verdade, a ausência de ética é uma das referências do liberalismo.

domingo, novembro 19, 2006

Desculpem lá

Com o parque de estacionamento já cheio, fica-se com a sensação de sorte grande quando vemos alguém aproximar-se do carro estacionado com ar de quem vai sair. Claro, que a coisa ainda vai demorar. Abrir as portas com o comando à distância, aproximar-se lentamente do carro, pôr o puto no banco de trás deixando obviamente a porta aberta, ir uma última vez ao porta-bagagens pôr mais um saco e, por fim, mas não menos importante, olhar para nós, com ar tranquilo, sem pressa, enquanto solta, finalmente, um: Desculpe, lá! Porque será que a desculpa é atirada para longe, porque não desculpe aqui ou somente desculpe, ou até apenas Bom-dia! Esta coisa de pedir desculpa longe, lá, é que eu não entendo. Mas, realmente, que a culpa fique longe de nós, que assim nos desresponsabilizamos. Podemos ainda ajeitar o banco e o retrovisor, abrir o vidro, que o tipo que está à espera, vai desculpar lá, que, aqui, até nem tem grande cara de perdão.

quarta-feira, novembro 15, 2006

O fim da bondade?

Lendo Retrato Político da Saúde (Jorge Simões):
Um dos problemas que alguns temos é acreditarmos na bondade. Pensamos, por exemplo, que ao perceber-se que a saúde era um bem para distribuir, se decidiu distribuí-la por todos. Engano! Foi preciso que houvesse mortos entre os operários que contríam um canal, vítimas de acidentes de trabalho e de epidemias e a produtividade diminuísse para se pensar em criar um sistema de saúde; foi preciso soldados morrerem na guerra, mais de doenças do que de tiros, para se pensar em dar-lhes saúde; foi preciso que os sindicatos alemães começassem a ter influência política, para que Bismarck criasse um sistema de seguros de saúde não por bondade, mas para retirar a simpatia dos trabalhadosres nas suas organizações. Nada acontece por bem, mas por necessidade. Estranha esta espécie que assim age.

Esquizofrenia

Só vê o caminho quem quer abrir os olhos. Ainda parece ser lícito andar cego no seu mundo, mas provavelmente, isso não poderá ser tolerado durante muito mais tempo no mundo cada vez mais comum de todos nós.

terça-feira, novembro 14, 2006

Hoje, SFF

Fez-me bem ter passado por organizações bem hierarquizadas, com controleiros e tudo, para perceber que não é razoável perder-se tempo em formalismos e em tem-que-seres. Isso deu-me uma urgência de acção que se não compadece com respeito por normas do deve-ser-assim. A dificuldade é o deparar-me quase sempre com gente que não envia um mail sem gastar tempo ao iniciá-lo por Exmo-Senhor-Doutor, em vez do simplesmente e suficiente Fernando ou um mais reduzido Olá. Depois desse desperdício vem o outro que é não se entender que o que tem de ser feito, escusa de ficar a ser feito amanhã. Hoje ainda há tempo. Este policronismo ou telecronismo que nos leva a pagar os impostos no último dia ou a preparar as comunicações de véspera sobre stresse, não se adapta bem comigo. Têm de se fazer alterações, fazem-se. JÁ! dizia-se em 75, quando havia pressa de fazer e qualquer coisa se fazia, nem que fosse a experimentar, porque só a inacção não leva a lugar nenhum. Se está mal, corrija-se! Não se perca tempo a comtemplar a asneira, que os pântanos nunca cheiraram bem.
Será que penso demasiado depressa ou não me exprimo como devia?

segunda-feira, novembro 13, 2006

Artes

No fim da tarde de ontem, aproveitei o tempo em olhares a Graça Morais e depois na Art Fair (chique hein, mas é assim que está escrito aí pela cidade). De certa forma fiquei surpreendido com a multidão que encontrei na Feira de Arte depois de passar pelo deserto da exposição na Cordoaria. Preferi a Graça Morais, que a Feira tem arte demasiado contemporânea, ainda na fase do bom investimento ou da percepção da insensatez absoluta. Vi um Pomar por 150000 euros, o que me pareceu fruta a mais a pedir vigilância activa pelo fisco a quem o comprar para detecção de sinais interiores (não devem pôr o quadro ao luar, não é?) de riqueza. Mas alguém fora daqui pagará aquilo por aquele quadro?
Estranho isto do valor da arte. Parece-me o valor do excesso que se tem. Ou será o do que se tem em excesso?

domingo, novembro 12, 2006

Algumas notas dos últimos dias

Uma semana razoável. Não só os Republicanos começaram a ser despedidos lá no grande Império, como, por aqui, algo timidamente, Sócrates esboça algum controlo sobre a banca. Aparentemente, muito tímido, mas o suficiente para eriçar João Salgueiro que o vem chamar de peronista. Só pela reacção parece poder ter algum significado, o suficiente para se esperar para ver o que dá. No fundo, o mais provável, é que seja apenas o meu desejo de viver no país mais limpo.
Tive a dose mínima possível do Congresso de Obesidade. Correu bem. Além de ter contribuído para que os participantes votassem (61% no final do debate) pelo não uso de fármacos no tratamento da obesidade, libertei-me da ligação à direcção da SPEO. Três anos foi tempo suficiente para perceber que a luta contra a obesidade tem de ser ganha fora dos conflitos de interesse, e a SPEO, como a maioria das sociedades científicas está amarrada aos financiamentos da indústria, o que de uma forma ou de outra sempre acabará por condicionar a sua acção. Para a tornar verdadeiramente independente será necessário criar fontes de financiamento alheias, o que até pode ser possível, mas está além da minha disponibilidade em termos de actividade possível a custo zero.
Foi também positivo verificar que o Ambulatório começa a acalmar e que é possível reforçar muito em breve a qualidade.
Por fim, as aulas de Gestão começam a ser instantes de bem-estar. Sabe bem aprofundar ideias e ir além do que se acha, começar a ter-se uma visão mais abrangente e séria das coisas com que estou a lidar todos os dias. A percepção dos fundamentos da mudança do mundo ajuda a encontrar melhores caminhos para nele se estar.
Bom entender as diferenças entre chefia e liderança percebendo que sem uma e sem a outra se vive na anarquia; entender que nos sistemas onde estou, um dos grandes problemas é a atribuição de direcção apenas por critérios, presumivelmente, técnicos, quando se pode ser um técnico excelente e ser-se absolutamente incapaz de liderar.
Compreender melhor a génese do SNS, perceber que ainda é um jovem adulto, que gasta quase 7,2% do PIB e quais as medidas de contenção de despesas. Estou, é verdade, a ser informado por uma informação classista, mas vai dar-me jeito conhecer esta argumentação para definir estratégias, possivelmente, mais justas.
Uma nota negativa na semana: Em Paris,dirigido por Christophe Honore (ponho aqui o nome para ter cuidado da próxima vez), um filme insuportável de feio. Quando o crítico escreve «Será mesmo possível que uma história de amor nos faça saltar de uma ponte?» isso é um aviso ao espectador menos forte emocionalmente. Mas o filme não merece que se morra por ele, apenas que se passe ao lado.

quarta-feira, novembro 08, 2006

A qualidade e o outsourcing

Para que conste aqui fica registado que no meu hospital público também tenho doentes finos. A Dra A., advogada, é uma delas. Hoje, quando chegou ao consultório, começou por me dar os parabéns pela melhoria do ambulatório do Hospital de Santa Maria. Sobretudo, estava bem impressionada com as recepcionistas. Com uma daquelas piscadelas de olho a armar ao cúmplice do vizinho de Cascais, foi-me dizendo que realmente os funcionários públicos eram uma desgraça. Afinal, confessava-me com ar de grande observadora, que o recurso ao outsourcing era decisivo. Outsourcing? perguntei eu timidamente. Sim, as senhoras (!) da recepção foram contratadas em outsourcing, não foram? Percebi, o bando das Sandras, essas inqualificáveis funcionárias públicas, agora têm uma farda nova. Bastou para passarem a pessoas com qualidade. Mais uma vez, o Senhor Presidente tinha razão quando manifestava a necessidade imperiosa de adquirir em tempo útil, nem que fosse no Rei das Fardas, o novo equipamento para aqueles «recursos». É a qualidade, estúpido!

Tudo vale a pena (apesar de tudo)

Mesmo um povo por quem se pode não dar muito, muito espicaçado acaba por se erguer. Um dia puxa das vassouras e limpa o terreno do lixo maior. Mesmo que seja apenas para o pôr transitoriamente debaixo de algum tapete e o substituir por algum lixinho. Entretanto, pode ser que os iraquianos ganhem alguma coisa com isso e só por esse facto pode ter valido a pena.

terça-feira, novembro 07, 2006

Comunicação

Quase ao fim da tarde, tive a impressão de que, talvez desta vez, o informático tenha percebido a linguagem do médico. Com paciência, lhe expiquei que era importante fazer aquilo de forma que até os médicos percebessem. Prometeu-me que sim, espero que seja desta que eu tenha conseguido explicar a coisa de forma que até um informático possa entender.
Estou com esperança.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Poder e corrupção

Chegado a casa de mau humor, ouço que Blair é contra a pena de morte aplicada a Saddam e que Portugal, num relatório internacional, está em vigémimo qualquer coisa lugar dos países menos coruuptos, lista em que a Nova Zelândia, a Finlândia e a Islândia estão em primeiro lugar.
Lembrei-me de imediato de ovelhas que pastam tranquilas e da ausência de gente nos campos da NZ, da tranquilidade da paisagem, da ausência de pressa. Imagino-os à lareira, se calhar contando histórias, vivendo. Percebendo a verdadeira dimensão da vida (pouco mais de 70 anos na melhor das hipóteses, afinal). Essa duração escassa deve precisar do frio dos climas para ser percebida na sua verdadeira dimensão. O calor deve despertar uma fogosidade de vida que termina facilmente no golpe e na ausência de regras. Para aí também levará esta fúria desordenada de acabar com as regras sociais e o primado absoluto por determinação quase divina do privado.
A condenação de Saddam é um acto de poder sobre um poderoso e corrupto. Claramente, ineficaz será a sua morte, dado que nada na vida acontece pelo exemplo que os actos possam induzir e o desejo de corrupção existe nos que têm medo de vida curta. Esses, tentarão sempre, se outras regras não forem criadas. E não é fácil resistir pela vida fora às facilidades de ser corrupto, obviamente ao nível das oportunidades que vão surgindo. Poucos serão os eleitos que dirão nunca terem sido corruptos. Tudo é uma questão de dimensão e acção. Pode mesmo acontecer que se seja por inacção, passividade. Será a corrupção mais frequente, a do mundo dito desenvolvido, que aceita, sem reagir, as diferenças do mundo. Tudo tem graus, mas nalgumas coisas da vida mais ou menos viciantes, só há uma atitude possível, optar pela qualificação em vez da gradação quantificada, ter uma atitude de tudo ou nada. Claramente contra a pena de morte, sem mais argumentos de não, mas. Claramente, contra a corrupção, detectando bem a sua presença e não a aceitar com desculpas de, pois, mas eles também. É uma educação cara, mas fundamental para ultrapassar a tristeza, que a facilidade inevitavelmente acarreta. A coragem é um valor imenso, mas estranha-se a sua habitual desvalorização em detrimento de tácticas, estratégias e outras merdas do género.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Finalmente

Agora, sim, tudo vai ser diferente. Faltava isto! Depois disto, o rumo das coisas vai mudar. Em Israel pensa-se já na mudança para um cantinho dentro de um dos Estados dos EUA, num exílio. Subitamente, perceberam que não podiam continuar a fazer aquilo que sempre têm feito desde que estão naquela zona, lixar tudo à volta. Afinal, alguém tinha de pôr fim a este estado de coisas. Foi agora. A notícia, por isso, veio na primeira página de todos os jornais deste país. No telejornal a avozinha nem sabe onde é que fica a nova terra do seu neto. Mas sabe que as coisas com ele lá vão ser melhores. Tem fé. O pai assegura, dos seus já muitos anos bem bebidos e comidos, que, como aquele já se não fazem mais. Já perdeu a força, se calhar. A partir de agora, o Conselho de Segurança vai entra de férias.
E tudo isto por causa de uma coisa tão simples como esta. Por que já não nos tínhamos lembrado disto há mais tempo? O mundo anda tão distraído.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Alentejo

Comecei bem o dia a ler um mail que me pedia a utorização para utilização de uma fotografia. Também sou feito destas vaidades. Mas, certamente, que todas as fotografias que fiz são propriedade quando muito dos fotografados, que me deram o privilégio de estarem ali na frente para os olhar.
Tomo também a liberdade de publicitar o filme onde figura, porque mostra um pouco essa terra de liberdade que é o Alentejo.

terça-feira, outubro 31, 2006

Dúvidas com vontade de certezas

Afirma-se que se está a construir algo novo e alguma renovação é sentida dentro de quem ouve. Este pode ser, realmente, um grande hospital, quando souber deixar de repousar nalgum passado duvidoso e acreditar num futuro de rigor. Mas é muito de velho a cair para que o novo prevaleça. Tenho mais vontade de acreditar do que acredito, confesso. Mas vou continuar, apesar da dúvida.
Será que a conversa da irreversibilidade do processo é o anúncio de alguma partida? Mas porque quererão os homens ir mais além quando ainda não chegaram ao fim da obra que começaram?

domingo, outubro 29, 2006

Dia de pausa


Como eles, ir sem olhar para baixo, até onde calhar indiferentes a quem os agarra num instante. Os momentos todos feitos, uns seguindo os outros, até ao infinito. Gosto assim das coisas simples e ficava-me por elas sem quaisquer remorsos.

sábado, outubro 28, 2006

A culpa é deles

Em jeito de resposta ao anónimo que me questiona sobre a culpa de aqui estar (hoje outra vez!): Só um país muito rico pode, na verdade, aceitar uma coisa destas, isto é, manter um médico de urgência a pagar-lhe mais de 20 euros por hora (preço base sem custo de horas extra...) para fazer coisas mínimas que qualquer outro no serviço de urgência geral poderia assegurar sem prejuízo para os doentes. São estes luxos, quantas vezes estimulados pelos interessados, que comprometem a viabilidade de sistemas públicos de saúde e que urge corrigir em nome da defesa do serviço nacional de saúde. Às administrações cabe terem um papel mais incisivo na resolução destas situações de desperdício. Por mim acabariam com a sensação de vazio renovada a que isto sempre me leva. Portanto, a culpa chama-se Direcção de Serviço, Direcção Clínica, Conselho de Administração e afins. Está apontado o dedo! Eu sou obrigado, nada mais. Sempre que posso denuncio. Mais uma vez.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Vazio

Ao menos o deserto tem boas vistas em noites de luar. Aqui nem isso. Apenas vazio a toda a volta. Um vómito absoluto.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Regresso a momentos recentes

Outros de antes ainda virão. Estão dormentes em apontamentos dispersos à espera que dias de maior serenidade me cheguem. A pressa fez de um Ambulatório tranquilo um quase embrulhatório, onde a correcção dos desvarios me tem ocupado os dias numa tentativa, cada vez mais conseguida, de desembrulhar um novelo embaraçado, como fazia em pequeno a dois, cada um sabendo bem o que tem de fazer, com concentração e sem interferências externas.


22:52:58
Última partida da viagem, mas no torpor em que estava comecei a achar estranho que o avião continuasse a rolar na pista ao fim de tanto tempo. Estava já no ar.

26:06:03
É confortável este avião da Air Malaysia, quer no silêncio dos motores, quer na ergonomia das cadeiras. Mas nem isso me permite dormir depois do jantar. Estou trocado. Vou passear corredor abaixo, corredor acima. Usam vendas, cabeças tapadas com cobertores, jogam tetris, xadrez, vêem filmes, lêem, dormem simplesmente alguns. É curioso ver assim toda esta gente num transporte público. Ao contrário das viagens de carro ou de comboio, aqui não se viaja, espera-se só que se atinja o fim. Num ambiente quase sem luz, vamos andando.

26:43:47
O bonequinho do avião atinge a costa norte da Austrália, algures a oeste de Darwin entrando pelo Northern Territory. Meio avião dorme, eu procuro o sono.

….
Dormi. Passo por Brisbane e o sol nasceu pela segunda vez no mesmo dia.

32:32:57
Aterro finalmente em Auckland trinta e duas horas, trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos depois. Tudo porque vim à volta. Estivesse o Júlio Verne no activo e teríamos uma viagem de elevador, descendo primeiro até ao centro da Terra e subindo(?) depois até Auckland, numa qualquer travessia do planeta em elevador.

Primeiros contactos com o outro lado do mundo
Descida mesmo foi a da temperatura, dos 30ºC de Kuala Lumpur aqui não estão mais de 15. Passa-se por cenários de vidros com desenhos de pássaros e ramos de árvores (deve ser para me fazer lembrar as portas de vidro no novo hospital onde trabalho…) até à espera das malas. É nessa altura que chega o Beagle que desata a cheirar-me a mochila e começa o interrogatório: foi você que fez a mala? Que sim, digo. Tem comida aí dentro? Não sei, balbucio. Como não sabe se fez a mala? Começo a dizer que já a fiz várias vezes, mas não me lembro se lá terei posto comida. A polícia funcionária, pede-me para responder se sim, se não. Terei ou não uma bolacha? Um caroço de pêssego roído? Sei lá, porra! Esta gaja com treino de cão começa a irritar-me. Não ri, não entende nada. Yes or No. Não me lembro, que cheire ela dentro da mochila! Busca, rebusca e não há comida. A mulher fica com ar passado, como se não estivesse a entender que o Beagle possa ser demasiado sensível e bem menos específico. Na confusão nem reparei se era uma cadelita Beagle. Aí tudo estaria explicado. Estaria a cheirar-lhe a Bite!
Enquanto isto, chegaram as malas, o que é sempre um instante de alívio depois de duas transferências de bagagens. Assim, até fico com pena destes ilhéus sempre com medo de os infectarmos. No inquérito além da comida perguntavam se tinha tido contactos com animais, se tinha acampado recentemente, se trazia botas de caminhada. Portanto, fica registado que quando se vem à Nova Zelândia se devem trazer umas Timberland velhas, os tipos à entrada devem dar-nos umas novas, talvez…
Depois de sair, quase me sinto estrela ao ver aquele cartaz com os nossos nomes. Estes somos nós, e logo avança um cidadão aparentemente retired com ar de motorista de série da BBC, com o seu wellcome/Kia Ora contido e absolutamente correcto. Chuvisca. Entre conversa de circunstância, chega-se ao Heritage, uma revitalização de antigo Grande Armazém, para a urgência de um banho.
O corpo está mole, mas a ideia é não lhe dar sossego até à noite daqui, minha manhã ainda talvez.
Dois quarteirões ao lado, fica a Queen St, espécie de Rua Augusta, rua central nesta disposição de aberturas rasgadas até ao mar (a Norte) que Auckland possui dirigidas daí para o Sul. A chuva começa rapidamente a resolver-se. Devem ter-lhe dito que tínhamos chegado à cidade. Assim, vamos pela Queen St até ao porto, como todas as instalações portuárias convertidas em restaurantes e depois não parámos enquanto não entrámos numa Igreja numa habitual reza pela alma das pernas.
Em passagem entrámos no Museu de Arte de Auckland com entrada gratuita à segunda-feira. Assim, só têm protesto nos outros dias da semana. Rigorosamente, a não entrar de terça a domingo, a qualquer hora. A seguir caminhamos pelo Jardim Albert e chegámos à Universidade de Auckland em direcção para leste. Continuando a andar, só acabámos em Parnell, bairro a leste com casas rasteiras, de madeira, como num filme de charme. Ainda avistámos o Auckland Museum, onde tínhamos já decidido só ir no dia seguinte.
Quase nem consegui jantar com o peso das sobrancelhas. Devo ter entrado em coma rapidamente; pelas sete da tarde, ainda cheio de projectos para resistir ao jetlag. Projectos, rapidamente adiados.

Versão Auckland em 24 horas
Começa-se com um pequeno almoço na Vulcan Lane, onde, dizia o guia, comiam os locais. No Vulcan encontrámos alguns a tomar o pequeno-almoço e decidimos fazer-lhes companhia.
Enquanto o panini não desaparece, entro na origem da humanidade. Era uma vez Ranguinui (Pai Céu) e Papatuanuku (Mãe Terra), que estavam ligados. Tiveram muitos filhos, os mais importantes de todos foram Tawhiri-matea (Deus dos Ventos e Tempestades), Tangaroa (Deus dos Oceanos), Tane-mahuta (Deus das Floresytas), Haumia-tike-tike (deus dos Alimentos Silvestres), Rongo-matane (Deus da Paz e dos Alimentos Cultivados) e Tu-matuenga (Deus da Guerra e dos Homens).
Depois de muito tempo às escuras porque a união de Ranguinui e Papatuanaku não deixava a luz entrar, os filhos quiseram ver a luz. Depois de discutirem o que fazer, decidiram separar os pais para que a luz pudese entrar no mundo. Coube a Tane-mahuta o feito de conseguir separar os pais e fazer assim entrar a luz no mundo. Porque só havia homens e uma sociedade assim não tinha graça, foi também Tane quem criou a mulher, Hine-ahune. Com ela tiveram uma filha, Hine-Titama, que veio a casar com Tane e assim nasceu a humanidade (com grande vergonha de Hine-titama quando veio a descobrirque o seu marido era também o seu pai). Uma origem complicada como se vê ou outra coisa não poderia ter sido, basta ver o que por aí vai.
Esta história Maori até tem graça, mais não seja por mostrar o que as crenças representam: geralmente, ignorância ou tentativas de explicar o desconhecido. Pena que nos dias de hoje, depois de tanto conhecimento adquirido ainda sejam alegadamente as crenças que separam judeus e árabes por exemplo. Ou talvez as separações tenham outras causas.
E se a origem do mundo foi assim, a origem de todos os caminhos em Auckland é em Britomart. Começa com um bilhete de 10 dólares que dá direito a todas as viagens que se possam consumir em 24 horas. Só no balcão das informações é possível aceder a alguma fiável. Tudo o que se pergunte a quem anda pela rua ou aos próprios motoristas dos autocarros é perfeitamente inútil. Ninguém sabe orientar-se nesta terra, embora até pareçam ter alguma boa vontade para nos dizerem o caminho. Simplesmente não sabem e sem conhecimento não há boa vontade que valha.
Primeira viagem do dia: chegada às 11h ao Auckland Museum que vale fundamentalmente para ver a Manaia, uma representação de cultura Maori (dança, canções, jogos). O resto é arte Maori e memorial da participação da Nova Zelândia em várias guerras.
Depois da visita, voltámos à origem das viagens e apanhámos o ferry para Devonport. É aquela viagem que se faz de Lisboa a Cacilhas, de São Francisco a Sausalito ou de Salvador a Itaparica. Aqui vai-se ver o Monte Victoria, o vulcão onde depois da erupção da lava, colocaram baterias anti-aéreas para outras deflagrações. De lá tem-se a linha de céu de Auckland e toda a frente marítima (um passeio que dizem ter 16 km). Visitado o Monte, desce-se até o porto parando antes no Sierra, junto à estação dos Correios, para comer uma sandocha enquanto se ouve Cesária Évora. Há restaurantes assim, em que o melhor é o que se ouve e a ida à casa de banho. Esta fica num pátio interior, tem um metro quadrado e uma porta com fecho improvisado por mau cálculo do artista (há engenheiros Mendes em todo o lado). Mas a obra acabou por sair bem depois de soldado no fecho uma pecinha. Isto mostra-me que aqui ainda há tempo para gastar no improviso, o que será bem melhor que a precisão absoluta que leva ao desperdício.
De novo a caminho da origem de todas as viagens, Britomart, para partir para o Monte Éden, outro vulcão com boa vista sobre a cidade. Eu que já tinha ido a uma das catedrais de São Pedro dos vulcões, o Vesúvio, fiquei com uma sensação de saber a pouco. Mas em vez da aridez da cratera ainda com restos de fumaça, aqui aparece-me uma cratera relvada e para mais sagrada. São 360º de vistas sobre Auckland e subúrbios.
Voltados a Britomart mais uma vez para uma ida até Ponsoby e a K St. Era já pouco do que faltava na check-list do a visitar em Auckland. Chegámos já depois do pôr do sol e pedimos ao motorista que nos dissesse onde era. Mais ou menos como pedir ao motorista no autocarro para Benfica nos avise onde é Benfica… Matreiro, quando chegámos perguntou-nos onde queríamos ir. A Ponsoby! Ok, podem sair e andar a pé umas três horas por aí. Lá nos orientámos com boas vistas sobre a cidade à noite e ainda percorremos a K St, de artistas, restaurantes vazios e clubes nocturnos.
Virámos a pé para a já nossa bem conhecida Queen St, a tal Rua Augusta que leva até ao mar. Enquanto procurávamos um restaurante no centro da cidade, chegou o Link que faz o giro no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Andou 100 metros na Queen St e saiu dela em menos de nada continuando em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio a fazer-nos um flashback dos percursos da manhã, passando pelo Museu e acabando em Parnell St. E assim, absolutamente ao acaso, acabámos a jantar no Oh Calcutá, um restaurante indiano. A comida satisfez, a conta 2 por 1 ainda mais.
Poderiam ser 11 da noite, mas afinal ainda eram só 9 e deu para começar a escrever parte disto, acabado já hoje no aeroporto enquanto espero pelo avião para Christchurch, depois de umas pedaladas no health club e um banho de sol breve, junto à piscina do Heritage.



Christchurch numa tarde
A maior cidade da Ilha do Sul é bem mais pequena para um turista apressado. Depois de instalado no Heritage, mesmo ao lado da praça principal da cidade, a da Catedral, inicia-se a visita, exactamente pela dita feita de pedra branca e cinzenta num efeito final bem interessante. A visita à torre não pode ser feita para grande satisfação das nossas pernas. Esta catedral anglicana é lugar de culto e das mais variadas vendas desde a autorização para fazer fotografias ao ao marchandising e até tem um café aberto ao público. Sentido prático que leva a que numa igreja também se crie um playcenter para os mais miúdos que se chateiam com as homilias. No largo da catedral um enorme cálice aí colocado pela altura do milénio e a velha estação dos correios transformada em Centro de Visitantes. Oportunidade para comprar agasalhos com receios de frio nos próximos dias.
Depois Christchurch é uma linha que vai pelo Mall, até ao arco de triunfo já nas margens do Rio Avon, onde os chorões napoleónicos ainda se debruçam, fazendo ocasionalmente sombra aos patos. Nas margens são resturantes e mais além o Centro das Artes, que a esta hora já tardia tem como atracção principal o Dux de Lux, onde o marisco é fresco e os vegetais dominam.
A noite anunciava-se de repouso que o Heritage a isso convidava. Mas podem sempre ficar no quarto do lado umas bestas em orgia. É raro, mas aconteceu.

6-10-06

De Ceduna a Caiguna

A etapa mais longa. Grande, muito grande mesmo, pela visão das baleias em Head of Bight numa dança sossegada com as crias. O resto é quase nada, passando pela estranheza de uma fronteira entre Estados, onde se recolhe o mel e a fruta de quem passa. Que lhes faça bom proveito. A mim chateia-me esta assepsia, mas não tenho nada com isso, afinal.
Aqui dá para perceber que um deserto pode ser bem mais cheio do que se pensa. Na rolagem dos quilómetros, passando sobre pistas de aterragem de Flying doctors, pensa-se no fim que se procura e sente-se que se está algures noutro sítio. Onde vale a pena estar, vale mesmo muito a pena, é nas planícies douradas antes de Caiguna com o sol a pôr-se à direita, pintando o dourado, cada vez de mais quente, quase até começar a doer continuar a andar. E na paragem a visão não cabe na máquina por mais disparos que se façam. Simplesmente, fica-se a olhar para a visão mais quente da viagem e de muitas outras já andadas, tentando impressionar de forma indelével os neurónios da memória de que, por vezes, já duvido.
Depois desses instantes, pode vir a lua cheia sobre as árvores e o sono nesta terra de 10 pessoas atípicas e cobertas de algumas nódoas. O mundo é mesmo grande, não adianta nada minimizá-lo ao tamanho de pequeninas coisas que nunca poderão apagar a memória de um pôr-do-sol perto de Caiguna.


7-10-06

De Caiguna a Esperance

É preciso uma recta assim, com 145 km entre Caiguna e Balladonia, envolta em 360º de nada, para se perceber o tamanho do mundo. Primeiro torna-se óbvio que o mundo é redondo, embora os sentidos nos enganem, mas isso nem é o que mais importa. Importante é a pequenês dos pequenos a quem literalmente, a partir desta recta, me vai dar vontade de mandar passear. Nesta recta do tamanho do mundo é possível esquecê-los e lembrar-me de ir comprar giz para fazer desenhos no chão da cozinha, repetindo, na viagem da casa à drogaria, a lenga-lenga do quero um pau de giz se faz favor. E passa muita gente por quem passei e me deixa, agora, sorrir a alguns dos que temi. Ficam lá nos sítios que habitam e onde já há muito os não encontrava. Uma recta deste tamanho, deixa-os do tamanho que têm. Onde andará o Matateu, o aborígene que encontrei de navalha afiada naquela subida da rua dos Soeiros?
E passamos Balladonia onde houve um acontecimento há uns anos. Nada mais nada menos do que um resto do Skylab aqui caiu, tornando a terra mais conhecida aos que nela habitam na sua necessidade de protagonismo. Porque não basta ser mediano, ser simplesmente como os outros? De onde esta necessidade de ser maior ou diferente?
Cerca de 200 km depois faz-se um gancho em Norseman deixando Kalgoorlie e a Rock Wave à distância do provavelmente nunca verei, e ruma-se a Esperance com um desanuviar progressivo, apesar da direcção do mar. Ventosa, junto a um pontão com ilhas ao longe. Uma volta de quase 40 km mostra praias, algumas das cem ilhas que habitam o mar aqui ao perto e um lago que, quando choveu menos, é rosado.




15-10-06
Já há quase um mês que não sei notícias do meu país. Provavelmente, é um lugar que não existe ou onde nada existe que valha a pena. Se não existisse uma coisa a que chamam o meu país, o que lá acontece não acontecia, porque tirando a importância que lhe dão os que lá existem, mais ninguém fala deste país. É bom não haver notícias do meu país, sinal de que lá deve haver sol e uns arranhões costumeiros entre as tribos que lá moram, que não sendo notícia provavelmente não têm a importância que lhes dão as tribos que os produzem.
Em Amesterdão está cinzento como sempre e ninguém fala deste país também ele chato e chão. Bom sinal. Na verdade poderíamos muito bem viver sem as notícias dos nossos países ou mesmo sem os países de que somos. Os aeroportos são isto, gente de muitos países que passam e sorriem muitas vezes apesar de serem de muitos países. Assim deixados, não tem importância que leiam na viagem o Corão ou um qualquer policial, sorriem uns aos outros como se não fossem de países diferentes. Gente que foge das notícias e vive bem assim. Quem os torna diferentes e coloca nas aberturas dos telejornais?
Por mim vejo mais diferenças nas bâncsias da Austrália e nas pinhas do pinheiro bravo do meu país, mas as duas são pinhas do meu país maior, aquele que não precisa de pequenos países para existir, com toda a diversidade.

19-10-06
Voltei hoje aos bancos da escola. De uma escola diferente onde me falam do mundo que aí está sem que o queira aceitar muito bem como está. A primeira impressão é que vão ser aulas que o explicam, que me ajudarão, talvez, a percebe-lo melhor e às batotas que o gerem. Porque o objectivo de uma humanidade tem de ir além da geração de valor, por um imperativo maior, por um Valor muito mais importante do que os pequenos valores que, dizem, serem os nossos objectivos de gestão.


20-10-06

De alguma forma, este jantar está a continuar a minha primeira aula de Gestão. Numa demonstração das ideias de Michael Porter, neste restaurante de onde espreitamos a Acrópole iluminada lá no alto, há duas mesas, a dos médicos dos países desenvolvidos e a nossa. Aparentemente tudo é igual e vamos comer da mesma comida e beber do mesmo vinho. A diferença é que naquela mesa está o conhecimento que permitiu que estivéssemos nós, aqui à mesa também. Nós os vendedores que induzimos o consumo do que eles produzem. Um mundo em que uns fazem e os outros consomem não nos deve espantar que tenha diferenças. O maior problema é que ainda alguns aqui pensam que os espertos somos nós que temos o mesmo jantar despendendo menos esforço. Mas cada vez mais espertalhões não irão sobreviver muito tempo e, em breve, a comida será distribuída doutra forma.

21-10-06
Vã glória de pequenos prazeres de hotéis de charme. Do que se enche a vida das pessoas! A ilusão da grandeza sem perceber o seu absurdo.

22-10-06
Vinte e seis anos depois, vista aqui da Acrópole a cidade a perder de branco continua como sempre foi, uma mancha sem resolução. Na ingenuidade da guia elogia-se a inexistência de prédios altos e a grande vantagem de em qualquer ponto de Atenas se poder ver a Acrópole. O prazer de ver a ruína a toda a hora, sem o remorso das razões por que aconteceu uma civilização ter cedido a sua liderança. Contemplando estas pedras, sorrio na certeza de que todos os Impérios, por mais fortes que sejam, acabarão por cair um dia. O problema até agora tem sido que são substituídos por outros, não necessariamente melhores. Como um castigo da espécie que os gera e tolera.

Vista ao perto, a mancha perde o imaculado do branco e fica disforme e mal cheirosa nas montanhas de lixo não recolhido. Os passeios são estreitos, os automóveis omnipresentes apertam-nos contra as paredes dos prédios tornando desconfortável o andar a pé. Os prédios vistos de mais perto são monotonamente horrendos de feios, fazendo uma cidade chata e sem graça.
Tanta indisciplina e desordenamento faz-me ter saudades do excesso de ordem das ruas das cidades da Austrália. Afinal, o caminho da evolução não está assim tão mal definido, tem direcção.

Boa é a imagem da cidade obscurecida na noite e a Acrópole iluminada vista de longe, do último piso do Hotel St George.

23-10-06
Rever um restaurante onde houve na primeira vez a vontade de voltar é agradável. Mas ainda não foi desta que a companhia era a mais certa. E nisto dos restaurantes, às vezes, a comida nem é o principal. É mais com quem se come, apesar de ser no Ithaki.

24-10-06
Não me acontece muitas vezes, estar hoje com mais vontade de viajar no regresso do que no dia em que parti. Realmente, fiz esta viagem sem grande entusiasmo e, além de algum descanso que me deu, não vou ficar com mais saudades. Apesar de Atenas estar diferente da que vi há muitos anos ou até há dois. Tem auto-estradas e um Metro simpático. Continuam a vaguear os cães, a dormirem esparramados pelo chão. O lixo salta dos caixotes. Para qualquer fumador é uma Meca. Por vezes, os gregos riem, um riso meio triste, todavia. Não serão os únicos que riem sem sentido.
Enquanto passeio na Plaka, lembro-me dos receios infundados de outros. Há gente que sem fazer grande coisa na vida, teme, possivelmente, mais a vida do que a morte, sem perceber que o medo de viver é a mais desgraçada das mortes. Não admira, todos os dias nos impingem esta cultura do medo em nome de uma vida mínima, afastando-nos de todo a ideia épica de uma morte gloriosa, que garanta uma vida que valha a pena.

Isto escrevi em Atenas enquanto aguardava o avião atrasado para Milão. Mais logo quando chegava a Lisboa vi um avião silencioso, passageiros a fazer que dormiam, antes do enorme alívio de chegar a terra, depois de um desce e sobe difícil de passar. Lisboa envolta em temporal à chegada.

domingo, setembro 17, 2006

Meia volta nalgumas horas

Menos qualquer coisa

Já estou a entrar de férias, levantei-me às 7 da manhã e não às cinco.
Ainda havia uns e-mails para enviar e depois fiquei por conta, isto é, a Manela fez-me a dieta da mala para evitar excessos de peso e para eu ficar ainda mais leve as minhas duas mulheres de serviço cortaram-me o cabelo em casa, deixando-me a cabeça bem exposta nos seus contornos.
No aeroporto grandes filas e uma funcionária de check-in que só consegue fazer uma coisa de cada vez, tipo não apertem comigo que não dou mais. Acabou por fazer tudo, mas realmente não estava nos seus melhores dias ou então estaria nalguns especiais.
Estas esperas do check-in são uma seca desnecessária. Fica aqui uma ideia para algum empreendedor com ideias de negócio global: uma empresa de colheita de bagagem no domicílio e entrega no destino. A coisa pode funcionar com colheita na véspera e entrega antes do cliente chegar ao destino. Tudo o resto é criação de circuitos de colheita e entrega e alguma organização tipo DHL… E nós poupamos a espera e o ar de enfado das assistentes, fazendo a marcação do lugar directamente na Net. É claro que a bagagem viaja em aviões cargueiros.

00:25:34
Que verão os olhos verdes de uma hospedeira, enquanto faz aquela sessão de ginástica apontando saídas e quedas de máscaras de oxigénio? Os braços avançam percorrendo corredores até ao fundo e voltando, mostrando saídas de emergência. Se isto fosse pensado seria uma irritação maior que distribuir médicos por horas de consulta (9 horas por semana, que exploração!). Estar ali a fazer aquela ginástica gestual e ver todos a lerem o jornal ou em início de sesta deve realmente ser frustrante demais.
E acabada a dança lá vai corredor abaixo ver se as cadeiras estão direitas e os cintos apertados. Desaparece.

00:39:02
Sinto-me estranho neste avião. Já estou mais habituado a hospedeiras que falam português aqui neste sítio. Mas é giro este logo de um traço com quatro bolinhas em cima, tudo terminado por uma cruzinha.
Depois de uma curva, os motores roncam mais forte e começa a corrida cada vez mais rápida, com a potência ao máximo e um minuto depois a Ponte Vasco da Gama aparece numa sucessão de riscos sobre uma curva prolongada. Até depois!

01:00:28
Uma caixa de almoço com uma particularidade: um lápis azul. A ideia não será a de censurar, que era o que fazia o outro lápis desta cor, mas talvez para fazer a encomenda do almoço depois de comer este aperitivo.
Por sobremesa, li o Expresso. Muito mais fácil, agora dobra-se ao meio e lê-se a parte de cima. Quem perde são os anunciantes que ficam com os anúncios virados de cabeça para baixo, estimulando a curiosidade de quem for no banco da frente no comboio ou no Metro. Mas lêem-se tão poucos jornais nos nossos transportes públicos…

03:11:51
Depois de me desforrar destes últimos dias de levantar de madrugada, chego a Amesterdão em tons de canais e céu cor de laranja. Com pouco tempo para ver as lojas da free-shop. A electrónica vai esperar.

04:04:33
Vai ser necessário repensar isto das casas de banho na Holanda. Meninos para um lado, meninas para o outro. Um destes dias começo a achar mais cómodo ir à das meninas… pelo menos para mim.

05:12:51
Este 747-400 apinhado de indonésios levanta ainda com mais energia que o de há pouco e diz-me que são 3:24 PM e que irei chegar a Kuala Lampur às 14:47.
No início de viagem leio o Sol, que, com grande pena minha, me não aqueceu. Falta-lhe identidade. O jornal principal começa da pior forma com uma notícia sobre o Isaltino. Obviamente que este senhor não tem estatuto para tanto, primeira página. Aqui faz-me lembrar o Independente. Uma revista chamada Tabu (!!!) desfolhada parece-me a Hola, tanto no aspecto como nos conteúdos. O caderninho dos espectáculos é o do antigo Expresso. Sabe a pouco. É pena, ando farto do Expresso e, para cúmulo, até melhorou…

06:55:54
O bolinho da sorte dizia qualquer coisa como «Esta semana vai ser muito boa» Acertaram, já tinha imaginado.

08:21.32
Ninguém neste avião vai para Kuala Lampur. Quase todos para a Indonésia… Laços holandeses.

11:00:26
Pela janela espreito uma paisagem castanha clara lá em baixo com sugestão de um rio seco aqui e além. Devo estar por cima do Irão. Os americanos ainda não chegaram…

14:52:01
O traço vermelho vem desde Amesterdão e passa agora ao largo de Banguecoque, na direcção de Phucket, a 922 km/h.
O sol nasceu às 2 da manhã e sinto que estranhamente estive a dormir até à uma da tarde.

16:24:59
Aterrei em Kuala Lampur.

18:45:20
No aeroporto mais estranho do mundo. Enorme e só. Em quatro monitores estão os voos de quatro horas.
Aqui e além uma mulher de burca segue dois passos atrás um homem. Por momentos Bin Laden apareceu na CNN. Não sei o que disseram, só vi a imagem. As mulheres de burca continuam a passar o que me faz imaginar a lotaria a que os homens estão sujeitos quando as escolhem…

19:56:24
Escrevo no Starbucks no KLIA (KUala Lampur International Airport). O recibo do café tem escrito: Have a Grande Day! Efeito Fernão Mendes Pinto?

O timer regista agora 20:57:50

terça-feira, setembro 12, 2006

Menos nuvens?

Sabe bem sentir que algumas dúvidas se esfumam nos dias que passam. Aos poucos a antevisão de alguns começa a ser a visão de quase todos e o ambiente serena na espera de mais alguns dias. Já se adivinha alguma bonança nos dias de hoje. Mas mantenho a interrogação, tanto mais que não vou estar cá para ver...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Pequenos deuses e pequenos terrorismos

O passatempo favorito é o aproveitamento para a rasteira. Vejo-lhes algum brilhozinho nos olhos só de pensarem que podem usar um argumento para ajustar velhas contas. Há quem se recuse a perder oportunidades, sempre em nome de boas causas.
No fundo, são privilégios que se não explicam, derivados de outros poderosos. O difícil e o que doi é aceitar-se que acabem, mesmo reconhecendo-se alguma razão para a mudança.
Não tendo eu nada com o assunto, fico mais sabedor destas gentes.
Nem de propósito neste dia.

A abrir!

Isto não é retoma, nem arranque da economia, pode mesmo falar-se que a Economia quase que voa neste país.
Ou os riscos que eles correm para nos fazerem viver melhor...

domingo, setembro 10, 2006

Simples

Bons dias são estes em que o roupão não nos sai de cima do pelo o dia todo! O mundo deve estar tranquilo lá fora ou nem quero saber.

sábado, setembro 09, 2006

Imprensa Livre?

«A forma inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro da opinião aceitável, mas estimular muito intensamente o debate dentro daquele espectro... Isto dá às pessoas a sensação de que o livre pensamento está pujante, e ao mesmo tempo os pressupostos do sistema são reforçados através desses limites impostos à amplitude do debate».

Noam Chomsky

Gil Vicente ou Belenenses? Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira? Apitos para todas as cores, a discussão é livre na nossa Imprensa manipulada, progressivamente mais concentrada em grupos económicos poderosos. Sob a capa de Imprensa livre, os grandes títulos são curiosamente idênticos em todos os jornais e telejornais. Já tenho saudades da República e do Diário de Lisboa, que, mesmo controlados, tinham informação diferente do Século, Diário de Notícias e Diário da Manha. Será que há mais Liberdade de informação hoje? Vivemos numa «Epoca» monolítica, onde aos três FFF já ninguém acusa de reacionarismo tal a conveniência que dão, objectivamente, ao sistema.
Manhosamente, malham nos políticos, apresentando-os como sendo todos iguais, deixando a populaça sem vontade de ir escolher. Mas lá que há diferenças, há. Garanto.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Bem pagos?

Curiosa esta notícia sobre os vencimentos dos professores. Tomando como referência o PIB, em que ordem ficarão os lucros dos «nossos» Bancos comparativamente à Banca de outras paragens? Destacados na frente do mundo? Finalmente, mas com escasso benefício.
E que tal passarmos a ter os preços do que consumimos também indexados ao PIB?

quarta-feira, setembro 06, 2006

Feijão com arroz e companhia

Jovem brasileira, residente em Portugal há seis anos, conta que desde que chegou aumentou cerca de 25 kg. Por isso foi enviada a uma consulta de Endocrinologia pelo seu médico de família como se nós tivéssemos a arma secreta. Neste caso nem são precisas a análises para ver a etiologia. A história é por demais clara:
-Então por que aumentou de peso?
-Sabe, dotô, nós os brasileiros sempre comemos muito feijão com arroz. Depois de chegá, a coisa complica, começamos a comer a vossa comida, mas não deixamos de comê o feijão com arroz, né?
Tudo explicado, lá faço mais uma vez a demorada demonstração do que deve ser uma alimentação normal. Será que consegue fazer-se? Complicado, né, a vida da gente não é fácil, dotô.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Produtividade para quê?

Poderá chocar gestores politicamente correctos que se promova uma marcha pelo emprego em vez de se promover uma pela produtividade. Na verdade, precisamos de um país mais produtivo gerador de mais riqueza para, globalmente, podermos viver melhor.
Já em tempos vi, trabalhadores oferecerem dias de trabalho ao seu país. Era o tempo em que outros emigravam, espoliando, literalmente, o país. São, muitas vezes, os que agora pugnam pela produtividade e vão apresentando lucros escandalosos da sua actividade. Continuam a espoliar de uma forma despudorada como verdadeiros carteiristas (Jerónimo de Sousa encontrou a expressão certa!)com protecção estatal, demonstrando que os barbudos teóricos tinham razão quando diziam que o Estado mais não é que a ditadura da classe dominante.
Mas enquanto se assiste a este roubo descarado, aumenta o desemprego e todas as consequências que arrasta atrás de si. Por isso, parece amplamente justificável que se façam marchas pelo emprego, pois não estamos todos no mesmo barco ou estando, uns vão no convés superior e outros no porão amontoados. É preciso contenção nos andares de cima, perda de privilégios a esse nível e não a sua ampliação. Na verdade, o aumento da produtividade não se faz para que alguns comam mais bolo deixando aos outros as migalhas que vão caindo distraídas. Para esse peditório já muito se deu, é tempo de mudar o rumo. De outra forma sempre se perguntará, produtividade para quê?

A falência da manipulação da informação

Ao contrário da opinião corrente, segundo a qual o funcionamento do Sistema Nacional de Saúde deixa muito a desejar, os utentes dos hospitais EPE (Empresas Públicas Empresariais) dizem-se «globalmente satisfeitos», mais até do que os clientes da banca ou das empresas de combustível.
A conclusão é do Instituto Superior de Estatística e Gestão de Informação (ISEGI), da Universidade Nova de Lisboa, que ao comparar inquéritos de satisfação (de utilizadores de serviços de vários sectores) reparou que para os utentes dos 31 hospitais EPE o índice de satisfação nos internamentos é de 81,7% e nas consultas de 78,5%, em média. A banca e as empresas de combustível satisfazem, respectivamente, 72,3% e 71,8%.

A opinião corrente é a de quem a põe a correr, os senhores jornalistas. Afinal, a opinião corrente não é a mais sentida pelos utilizadores, isto é, corre mesmo muito pouco entre eles. Os senhores que a põem a correr é que não perguntam, nem leem os relatórios científicos, limitam-se a pôr a correr aquilo que acham no tal país dos achadores. Fiquei com imensa curiosidade de saber a opinião dos utilizadores dos serviços privados e, já agora, dos americanos sobre o seu sistema de saúde. Quase de certeza teriam os senhores jornalistas que tanto põem a correr mais algumas surpresas interessantes.Já agora, atente-se na pérola com que termina esta citação do Expresso, mais até do que os clientes da banca e das empresas de combustíveis. Este até é a expressão do ultraje máximo, afinal como pode um serviço público ser melhor cotado do que serviços privados de tão grande eficiência. Logo a banca, santo Deus!

sábado, setembro 02, 2006

Uma semana

Quase a tornar-se semanário este blog! A semana foi curta para tanta aquisição e correcção de obra quase acabada. Mas como dizia o arquitecto Siza, na Holanda o projecto demora dois anos e a obra executa-se em 6 meses, mas em Portugal, o projecto faz-se em meses, a obra vai-se fazendo durante anos.
Tem sido uns tempos cheios, até de novidades sobre outras realidades. Não me vou esquecer tão cedo de ter aceite sem reserva que pessoal e doentes tenham retretes separadas. Na verdade, como pode quem gere para os doentes, aceitar que eles tenham de usar retretes onde se não nos dispomos a entrar? É tão óbvio que até me senti chocado por não ter pensado antes no assunto.
Diariamente se sente cada mais mais objectivamente que os privilégios do Poder são, muitas vezes, bem menores que os poderes dos privilégios estabelecidos. Fácil deve ser o poder que se orienta na consolidação dos privilégios, outra coisa é quando se vai contra eles e se tem de enfrentar todo o Poder que têm. É uma batalha no mínimo muito dura e de vitória incerta, mas também é a única que vale a pena fazer, mesmo que os privilégios mostrem mais poder do que o Poder.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Um material fundamental, as pessoas

Serão práticas correntes em gestão, mas faz-me alguma confusão ter de comprar tudo de novo para um serviço que se vai abrir. Já tudo funcionava com outros mnateriais... Várias reuniões e nada mais se discute do que aquisições de material, não aparecendo sequer haver reservas quanto a gastos. Parece que tudo só depende do material, como se as coisas funcionassem sem pessoas. Desde o princípio que me preocupo mais com as pessoas do que com tudo o resto, mas sinto que sou formiga isolada no carreiro. Ora o que se quer fazer vai mexer drasticamente com a estrutura, o modo de funcionarem as pessoas. Só com elas pode funcionar e parece-me urgente a sua adesão, tanto mais que basta bom senso para aderir. Só que, muitas vezes, o bom-senso é ultrapassado por outras emoções e é fundamental afastar os medos e fazer compreender aquilo que, à primeira vista, até pela falta de hábito, pode não parece desejável.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Cartazes e desporto

A propósito de um «protesto» a um dos meus protestos recentes, deixo aqui a definição de Desporto de acordo com a Wikipedia:
Um desporto é uma atividade física geralmente sujeita a determinados regulamentos. Para ser desporto tem que haver envolvimento de habilidades e capacidades motoras, regras instituídas por um confederação regente e competitividade entre opostos. Algumas modalidades esportivas se praticam mediante veículos ou outras máquinas que não requerem realizar esforço, em cujo caso é mais importante a destreza e a concentração do que o exercício físico. Idealmente o esporte diverte e entretém, e constitui uma forma metódica e intensa de um jogo que tende à perfeição e à coordenação do esforço muscular tendo em vista uma melhoria física e espiritual do ser humano. As modalidades desportivas podem ser coletivas, duplas ou individuais, mas sempre com um adversário.
Também podemos definir desporto como um fenômeno sócio-cultural, que envolve a prática voluntária de atividade predominantemente física competitiva com finalidade recreativa ou profissional, ou predominantemente física não competitiva com finalidade de lazer, contribuindo para a formação, desenvolvimento e/ou aprimoramento físico, intelectual e psíquico de seus praticantes e espectadores. Além de ser uma forma de criar uma identidade desportiva para um inclusão social.
A atividade desportiva pode ser aplicada ainda na promoção da saúde em âmbito educacional, pela aplicação de conhecimento especializado em complementação a interesses voluntários de uma comunidade não especializada.

Fica claro, que o objectivo do desporto deve ser a promoção da saúde, a melhoria das mentes em corpos sãos e, em nenhum lugar, compete ao desporto a promoção do que quer que seja. Embora o desporto possa ter uma componente de competição, será abusivo confundir as duas realidades. A competição em si não é desporto, obviamente. A competição serve os desportistas de bancada e muito mais quem em nome deles, usando despudoradamente o termo desporto, usa a competição para alienar as massas, vende os valores e prospera à custa dos artistas, que, submetidos a ritmos desumanos de trabalho acabam frequentemente nas malhas da batota da dopagem ou com doenças graves induzidas pela prática de modalidades que pretensamente lhes deveriam beneficiar a saúde. Segundo a prática mais corrente, hoje em dia, parece até que a competição é a negação do desporto.
Por isso, ir de Cascais ao Guincho de bicicleta parece-me ser desporto. Andar na torreira do Alentejo às 3 da tarde é outra coisa.

terça-feira, agosto 22, 2006

A obra do Império


Curiosos estes testemunhos de um país «libertado» em nome da liberdade.
Macissamente destruído por armas que para lá levaram (as outras ainda ninguém as encontrou), este é o estado a que chegou. Neste caminho ao contrário do que a história precisa, não é de estranhar que o «terrorismo» avance. Penso eu que escrevo no conforto do ar condicionado, na vizinhança de supermercados cheios de comida, onde me posso deslocar sem carências de combustível e a preços, ainda assim, razoáveis. E se me tirassem toda a esperança, me humilhassem diariamente, como reagiria? Estaria aterrorizado, seguramente e a pensar se terror com terror se paga?
A imagem é do Líbano actual. Pode apreciar-se melhor esta obra na Verdadeira Face do Terrorismo.

domingo, agosto 20, 2006

Novas descobertas

Não sei ao certo o que significa o discurso do Ministro Luís Amado ao querer uma papel maior da Europa na relação com os países árabes. Mas começa a ser tempo do fim do medo e, já o velhinho Soares, dizia, sem tibiezas, que a negociação era necessária. Não faz sentido sermos livres numa liberdade que nos não permite viajar ao lado de outros, não faz sentido condenar-mo-nos ao medo permanente, não faz sentido desistir da vida, nós que não acreditamos, com a facilidade dos idiotas, na ideia maniqueista dos bons e dos maus. O mundo é demasiado complexo, para podermos dividi-lo de uma forma tão simples. Temos que redescobrir a forma de o habitarmos, mesmo que isso implique deitarmos borda fora alguns idiotas que ainda nos dominam.
A segurança que nos falta (aos bons e aos maus) é outra: a segurança do emprego, do ensino, da saúde. É essa que se preparam para nos roubar, os que tanto falam da nossa segurança face aos maus. Essa a cultura que temos de espalhar por todo o mundo, novamente à espera da redescoberta. Depois, os maus vão desaparecer naturalmente.

sábado, agosto 19, 2006

Como no deserto australiano


Parece bem mais sereno e no silêncio entrecortado pelo sorriso adequado, não vejo qualquer esgar. E o sorriso induzido pela visão da neta não é acaso, com certeza. Os olhos vão seguindo aqui e ali e, por instantes, pareceu-me ouvir que, os figos são bem bons. Há momentos em que olho, com mais leveza, as nuvens brancas no fundo azul nas três dimensões do céu do deserto da Austrália.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O centenário e o ditador

Já se começava a adivinhar no sábado passado no Expresso com as referências do Professor Marcelo ao seu colega. Durante a semana, continuou com o anúncio exaustivo da presença da filha do colega, na entervista com Judite de Sousa. O resto foi o que se viu, um magnífico pai de família, com as suas convicções certamente, um inultrapassável professor, um ser dotado de uma inteligência completamente fora do comum, só que com as suas convicções. Mas mais, cercado por uns maus, os ultras. Ele até mudou o nome das coisas e falou em família, ele era um anjo a quem prenderam as asas. Ele manteve Portugal com gente descalça, com analfabetismo, com uma mortalidade infantil e níveis de saúde miseráveis, com uma oligarquia dominante que fugiu com ele para Brasil em Abril de 74, com uma guerra colonial de opressão sobre outros povos, com presos políticos que lutavam por devolver a dignidade a um povo inteiro. Ele suportou com toda a sua inteligência um regime fora de tempo. Mas, terei ouvido mal, nem uma vez nesta semana do branqueamento a propósito do centenário foi chamado de ditador.
Na mesma Imprensa que alguns insistem em chamar livre, ditador é o outro, o que acabou com o prostíbulo americano que era a Ilha, que pôs fim ao analfabetismo dos cubanos e lhes deu saúde de forma universal, o que devolveu a dignidade a um povo que deixou para trás a miséria e continua a resistir apesar de selvaticamente bloqueado na sua Ilha. Ditador por ter presos políticos que desejariam impedir a libertação de um povo?
Parece que o branqueado achava que o sistema de partidos não era condição necessária para a democracia, que os partidos eram formas de impedir o bem-fazer dos dirigentes ao seu Povo, por se envolverem em lutas entre si com desejo de conquista de poder usando argumentos falsos e enganosos, como deixou escapar a sua filha. O homem até não pensaria sempre mal, mas na análise era pouco esclarecido. Por isso a sua ditadura foi estagnante e indigna, sem margem para perdão. Já na Ilha, o progresso social mostra como podem existir «ditaduras» libertadoras.

terça-feira, agosto 15, 2006

Protestos

Protesto 1

Israel acaba de ter uma derrota histórica. Fez uma guerra porque lhe raptaram dois soldados. Não parece ter conseguido o resgate. Números do Público de hoje: Israel perdeu 110 militares, conseguiu mais 300 feridos além de mais 41 mortos civis e 600 feridos. Em troca mataram 1109 libaneses e feriram 3697. Mas, convém lembrar que fizeram a guerra porque lhes tinham raptado 2 (dois) militares. Ineficácia em larga escala, chacina selvagem. Estúpidos ainda não perceberam que não é possível suprimir um povo: Hitler não o conseguiu e, também eles, não irão nunca conseguir.

Protesto 2

Em Roma, bárbaros deliravam com o lançamento de escravos às feras. Nos tempos modernos, queques e quecas sensíveis insurgem-se contra as lides de touros, negando a beleza das imagens. No mínimo, as touradas ainda têm isso. Pelo contrário, neste pesadelo do ciclismo, nem a estética me seduz. É absolutamente bárbaro, porem-se homens convertidos em cartazes publicitários ambulantes, a pedalar debaixo de 40ºC, bem na hora de máximo calor, não em nome de qualquer desporto (isso far-se-ia às seis da manhã, pela fresca), mas convertidos em meros objectos para gáudio e proveito de variados interesses comerciais.
E o povoléu assiste, contente, É de borla! Enganam-se!

segunda-feira, agosto 14, 2006

É possível um mundo melhor!

Do lado de lá, deitados, haverá sempre algum desconforto da incerteza dos dias seguintes. Percebe-se também nas pequenas coisas que os estatutos de vida são muitas vezes demasiado efémeros. Julgo que a única coisa que se deseja será imaginar que não haverá muita gente a pensar, pode ser que não voltes. Quando se fez uma vida a criar bem para a maioria (que não nos iludamos, isso implica criar prejuízo sempre a alguns) haverá ao menos a certeza que muitos desejam que se volte.
Fazer anos nestas circunstâncias torna-se ainda mais significativo, sobretudo quando são 80. Muitos na Florida, depois da festa anunciada estarão agora algo embushados. Para eles,em especial, as palavras e um autógrafo:
A mis compañeros de lucha, eterna gloria por resistir y vencer al imperio, demostrando que un mundo mejor es posible.
Hoy, 13 de agosto, me siento muy feliz.
A todos los que desearon mi salud, les prometo que lucharé por ella.

domingo, agosto 13, 2006

O valor das felicidades

Houve na Grécia antiga filósofos e atletas, certamente celebrados distintamente pelos gregos de então. Ambos terão contribuído para alguma felicidade dos seus contemporâneos. O atletismo e a filosofia continuam hoje a ser actividades praticadas. Por que sabemos quem foram os filósofos e esquecemos o nome dos homens das proezas atléticas?
A literatura, a música, a pintura permitem-nos uma compreensão, uma reflexão sobre o mundo e, por isso, de alguma forma, são-nos úteis para a nossa forma de estar, melhorando a nossa sensação de felicidade pelo que nelas aprendemos a interagir com o que nos rodeia. A felicidade que nos dá uma vitória desportiva é imediata e não persiste no tempo. Pouco se aprende com o golo do Nuno Gomes, de calcanhar, a baralhar a defesa adversária. É lindo, manifesta inteligência, reflexos, mas acaba naquele instante. Por muito orgástico, catártico que seja não nos melhora a relação com os outros, não nos ajuda a compreender aqueles com quem lidamos, não nos ajuda a ser mais eficazes nos sentimentos da vida.
Mas as reflexões sobre o amor e o poder, sob a forma de tragédia ou de comédia, de alguma forma armam-nos para a vida. Essa a razão de Mozart persistir mais que Zatopek, da eternidade de Picasso e da efemeridade de todos os morangos por muito açúcar que lhes ponham. No momento, a dose de felicidade causada até pode ser a favor dos fenómenos mais instantâneos. Mas com o tempo, só os outros vão continuar, geração após geração, a ser fonte de felicidade.
A sociedade do imediatismo pode meter tudo no mesmo saco. Se o parâmetro de avaliação for o rendimento imediato dos fenómenos, até podem ganhar os reality shows de todos os dias. Mas o mundo não acaba hoje, há mais tempos além do instante e, por isso, as lebres se cansam e as tartarugas continuarão a vencer.
Na verdade, o que mais importa nem é tanto o valor das felicidades que se possam ter, mas muito mais a felicidade que os valores nos dão.