terça-feira, março 15, 2016

Buenos Aires revisitada nas imagens




































Patagónia em 3 semanas (continuação)

Ushuaia
Ushuaia, a baía a ocidente, começou como necessidade de afirmação territorial e aí criaram os argentinos um presídio para criminosos perigosos. Sair de lá seria coisa quase impossível, pois mesmo que a fuga tivesse êxito imediato, logo surgiriam as condições climatéricas a tornar a sobrevivência impossível. Ushuaia é agora uma cidade de cerca de 80000 habitantes, dispersas em habitações ao longo da encosta até onde a mata ainda consegue resistir ao avanço das casas. Turismo é a grande vocação atual da cidade. Agências dispersas pelas duas ou três primeiras ruas vendem viagens à Reserva Nacional da Terra do Fogo e umas pequenas casinhas junto ao porto vendem viagens pelo canal Beagle. Já trazíamos tudo planeado e conforme o plano assim decorreu. Começámos por ir à Reserva Nacional da Terra do Fogo (os espanhóis quando aqui chegaram viram fumo e como acham que não o há sem fogo, apressaram-se a chamar assim a esta terra). Já nos vamos adaptando a esta maneira de ser argentino, onde a hora de partida é apenas indicativa, sendo sempre depois do anunciado. Desta vez teve um acrescento, a guia atrasou-se e esperámos pela senhora que algum tempo depois lá apareceu cheia de sorrisos. Iniciamos a viagem de comboio, por sítios onde os prisioneiros derrubaram árvores à machadada imaginando nós as condições em que o fizeram. O comboio é uma brincadeira para turista andar ao longo de 7 km dentro da Reserva, vendo-se os cotos das árvores cortadas, cavalos à solta e o resultado do efeito dos castores para aqui transportados por alguém que queria enriquecer com a sua pele e aqui introduziu 2 dúzias dos bichinhos. Esqueceu-se de os acompanhar de predadores que lhe dessem luta e os bichinhos ficaram nas suas sete quintas a reproduzirem-se e a roer árvores e a fazer barragens de barriga cheia. Resultado foram vastas clareiras de árvores mortas e barragens de troncos. Agora fica a noção de uma grande preocupação com tudo o que seja intervenção na natureza. No passeio no parque ainda nos levam a Lapataia, onde termina a Ruta numero 3. Os argentinos parecem ter uma tara pelo número das estradas, mas esta vai desde aqui até ao Alasca por mais de 17000 km. Uma sugestão de uma próxima viagem ...
Depois de mais umas voltas com avistamento de raposas e patos que pescam para dar aos filhos, acabámos a viagem a tempo de uma sandes antes de irmos até ao passeio no canal Beagle com esperança de pinguins, que não apareceram. Tínhamos marcado a viagem até ao farol e os ditos estão mais adiante na Pinguinera da ilha Martilho. Nas ilhotas muitos cormorans que à primeira vista até parecem pinguins (MAS NÃO SÃO!) e leões marinhos, até se chegar ao farol e volver. E pronto, temos um problema para resolver, ou seja, encontrar pinguins.

No dia seguinte também não dá, porque estamos ocupados manhã e tarde numa ida em 4x4 até aos lagos Escondido e Fagnano. Franco é um argentino que nos começa por informar que está nesta vida, depois de um curso de hotelaria, porque não gosta de trabalhar. É um discurso recorrente dos argentinos acharem que os argentinos não gostam de trabalhar. No entanto, a referência na primeira pessoa, só com o Franco. Argentino gosta de consumir, na expressão curiosa da nossa estalajadeira Cristina. O 4x4 começa de mansinho em direção à Serra até um ponto chamado de pico Garibaldi. A partir daqui, de onde a vista é deslumbrante sobre o Lago Escondido, começamos a descer por uma ribanceira de calhaus soltos, mas o off-road ainda não tinha começado. Acabámos numa praia onde existem várias cabanas e um hotel destruídos, resultado de uma parceria público privada que correu mal. Parece que o Estado os deixou falir e a destruição sobreveio. É um pouco mais à frente que a estrada começa a ter sulcos de meio metro e inclinações de mais de 45º, com alguns charcos enlameados que nos é anunciado que a animação vai começar. Com sorrisos por vezes nervosos, avançamos com todo o cuidado graças à perícia do Franco. E andamos, passando mais uma castoreiras até que chegamos à margem do lago Fagnano. Aí como a estrada acabou fomos por dentro do lago… Mais à frente, fomos largados para um curto passeio a pé para abrir o apetite enquanto os motoristas correm pela margem do lago para começarem a preparar o churrasco. Posta argentina bem regada com vinho do país e sobremesa com visão de uma raposa que sabe haver por ali umas patuscadas. Findo o almoço, havia a expectativa de ainda se chagar a horas ao balcão das Aerolineas e mudar para um voo mais tardio que nos permitisse ver de manhã os pinguins. Não, o voo que tínhamos comprado não era suscetível de alteração e, de qualquer forma, mesmo que comprássemos novos voos a coisa era arriscada por haver a possibilidade da viagem aos pinguins ter algum percalço. Assim, passámos a ter o risco de vir à Patagónia e não ver pinguins… É então que a nossa Cristina se lembra que em Punta Arenas há pinguins e nós vamos estar em Puerto Natales a uns escassos 300 km.

 Último dia de Ushuaia para ir às T-shirts de recuerdo e encontrar uns brincos de rosacrossita (a pedra or de rosa que é uma espécie de tara neste país). Ficar depois a apanhar sol junto ao porto sentindo a ida dos barcos que foram à Pinguinera. Fim da manhã para passar a recolher as malas e andar até a aeroporto. Desta vez de táxi, ligeiramente mais barato que com o Carlitos. O voo para Calafate pouco mais de uma hora e meia. Com vistas aéreas da Ushuaia, última espreitadela à terra do fim do mundo e ao lago Fagnano e quase logo a seguir aparecem as Torres del Paine vistas do ar na chegada a Calafate. O aeroporto surge num retângulo no meio da estepe patagónica e fica a cerca de 20 km da cidade. À chegada começamos a sentir alguma diferença de tratamento resultante de estarmos agora utilizar os serviços da argentina4u.com em vez da Viator brasileira. O motorista do transfer começa por nos entregar o programa com os vouchers todos, com todas as horas de nos virem buscar aos diferentes circuitos dos dias seguintes. Ao aproximarmo-nos de Calafate, vemos uma cidade de telhados zincados reluzentes, com casas de cores verdes, amarelas e azuis que abriga normalmente cerca de 20000 habitantes dispersos pela planície. O motorista vai-nos dizendo que é uma terra segura, sem desemprego na época alta, dedicada toda ao turismo durante cerca de oito meses por ano. Bom esquema de vida, oito meses a trabalhar quatro a descansar, o ideal para os argentinos que, já dizia, a Cristina, gostam pouco de trabalhar e gozar o mais possível a vida, não são como os bolivianos ou os chilenos. O Hotel Esplendor é um hotel de 4* no cimo de Calafate, com ótimo aspeto à primeira vista e ótimas vistas. Com olhos menos felizes fica-se depois de subir desde a rua do Libertador com compras na mochila. Mas avista do Lago Argentino compensa algum esforço. Como as jovens louras, lindas por fora, o problema é quando abrem a boca. Aqui o problema é quando o ar condicionado não funciona e os dias vão estando excecionalmente quentes nos 25ºC e a rede de wifi tem crises existenciais e só trabalha quando lhe apetece. Na receção dizem que não há nada a fazer, já está assim há bastante tempo. Logo, tudo bem. Os argentinos têm este sentido de adaptação, aparentemente.

 O primeiro dia em Calafate (é o nome de um fruto, dificilmente encontrado à venda por ser caro) tem por destino o Glaciar Perito Moreno. Pouco depois de mais uma travessia da estepe, com algumas haciendas perdidas no meio da paisagem, onde passeiam vacas e ovelhas e ultrapassadas zonas de árvores varridas pelos ventos, chega-se a um dos destinos mais visitados da região. Pelas passadeiras descemos, sempre com a consciência de quanto mais o fazemos mais logo teremos que subir, até balcões em vários níveis, virados à gigantesca massa de gelo. De repente é como se estivéssemos no meio de uma trovoada sem relâmpagos. De quando em onde um trovão de mais uma massa de gelo que se quebra e começa uma espécie de jogo no olhar para o local onde o gelo cairá no braço dos fragmentos levantando uma onda de chuveiro com vários metros de altura e comprimento. E fica-se neste jogo à procura da próxima rotura. Duas horas de magia antes de ir até mais perto do glaciar de barco, para ver o mesmo espetáculo. Até 200 m da barreira gelada com reflexos azulados passando por pequenos icebergues que correm no lago. Realmente, diferente de tudo. Hoje tinha-nos calhado uma guia farta de guiar. Quando chegámos à cidade a senhora entendeu que deveríamos ficar na rua do Libertador e apanhar um táxi para subirmos até ao Hotel. Valeu o motorista que achou a atitude idiota e nos levou estrada acima. Gorjeta merecida.

 Ao segundo dia de Calafate, o destino é o Fitz Roy… na base em Chaltén. Na estrada, vemos os primeiros guanacos e cicloturistas masoquistas em pleno esforço. Uma primeira pause em La Leona, um café abrigo numa curva da estrada, pausa de buses de turistas e motoqueiros. O telhado vermelho mostra escrito a branco LA LEONA, indicando aos abastecedores que lhes lançavam produtos de avião mais ou menos o local onde deveriam cair. Aqui andaram gringos fugidos à justiça americana, que comparam grandes extensões de terra com a receita do «trabalho» na América do Norte. Mas o ambiente era demasiado calmo para o seu metabolismo aventureiro. Assim, começaram por fazer amizade com os outros fazendeiros e um belo dia, decidiram voltar à vida. Foram até Rio Gallegos e começaram por fazer corridas a cavalo pelas ruas da cidade dando tiros para o ar, habituando os habitantes ao espetáculo insólito de gringos loucos. Um dia foram ao Banco local para abrir uma conta e, «mudando de ideias», saíram, logo depois, levantando todo o dinheiro que lá havia. Saíram depois do banco aos tiros dando o espetáculo habitual sem levantar suspeitas até que o alarme foi dado finalmente, demasiado tarde, já eles iam bastante longe da cidade. Os amigos que tinham feito aqui e além permitiram que tivessem oportunidade de mudar de montadas para outros cavalos mais frescos que os levassem para cada vez mais longe dos perseguidores. Reza a lenda que acabaram mortos num tiroteio na Bolívia, uma versão mais heroica que outra que os deu como tendo sido apanhados e presos. Depois da história e do café para nos despertar, continuámos viagem até Chaltén, uma base de montanha para caminheiros de todos os lugares e ponto de observação da elevação Fitz Roy (nome do comandante do navio Beagle que até aqui trouxe noutra altura o senhor Darwin). Escarpada na vertical desafiando montanhistas de muitos lugares ou simplesmente caminheiros por trilhos de montanha. Além das hostais para repouso ao fim do dia, há lojas que vendem e alugam todo o material de atividades e viagens por ali. Fomos de seguida almoçar numa clareira onde contruíram um campo ecológico, um conjunto de casas de madeira, com vista para as agulhas do Fitz Roy. Sopa de legumes, naco de carne e pudim flã retemperaram para a atividade seguinte no lago Viedma. Mais um passeio de barco de uma das pontas do lago até ao glaciar do mesmo nome, contornando mais uns icebergs pelo caminho. Começa a ficar uma atividade meio monótona, apesar de sempre variada, olhando blocos de formas onde nos projetamos nas formas que lá vemos. Chegamos a Calafate pelo fim da tarde depois de mais uns quantos guanacos pelo caminho. No céu, algumas nuvens patagónicas avermelhadas com forma de pincelada de cores quentes num quadro que nunca antes vi, possivelmente desenhadas por correntes de vento que as moldam.

Terceiro dia nesta cidade sendo o programa de hoje o passeio pelos Rios de Hielo. Pelo Braço Norte, vai-se até ao maior glaciar da região o Upsalla, estudado por cientistas suecos, contornando novos icebergs, estes um pouco maiores e mais logo acaba-se passando pelo glaciar Spegazinni, o mais alto de todos. Há sempre algo que distingue dos outros, ou mais altos ou mais largos ou maiores em massa de gelo. É assim, que se quebra a monotonia e se constrói a felicidade das pessoas, sempre a quererem as diferenças e especificidades e não um destino comum. Natureza humana, sempre uma realidade insondável. Passear é também contactar com as comidas da região e hoje foi a altura de saborearmos o cordeiro patagonico. Um bicho que é assado lentamente, como se fosse um frango, numa grelha disposta verticalmente sobre brasas. Saiu crocante e ligeiramente salgado, mas está aprovado sem dúvida.

 Turista sofre e hoje foi levantar antes do sol nascer para sair às 5 e meia da manhã com um vasto percurso a fazer. No fim da colheita dos companheiros de viagem pelos hotéis, já o sol começava a aparecer encarniçando as nuvens no horizonte. Começava a viagem de Calafate à fronteira com o Chile em Passo Guillermo ao fim de cerca de 4 horas de viagem. A fronteira é um barracão que surge depois de muita estepe patagónica, onde um jovem funcionário aparentemente ensonado, vai olhando passaportes e aplicando um carimbo. Cá fora, destaca-se um mastro com uma bandeira argentina esfarrapada pelo vento, uma fila de carros à espera dos carimbos e a romaria dos turistas a irem a um bidão deixar os restos de fruta que transportavam e que não podem ir poluir o Chile. Posto isto, algumas centenas de metros mais à frente, surge o lado chileno com instalações mais dignas, maior número de funcionários, que além dos carimbos nos vigiam as bagagens aparentemente também à procura de fruta e outras substâncias que nos responsabilizámos por escrito a não transportar. Ao lado do posto fronteiriço, um café-loja, com ar de saloon do faroeste, onde há artesanato para turista, alguns comes e um balcão de cambio, que convém, obviamente evitar, pois a troca é a mais desvantajosa que é possível fazer-se dada a situação de monopólio em que trabalha. E entra em campo, um guia chileno, tipo bem disposto, com vontade de promover as características de organização do seu país. Começa a ver-se nos cartazes e nos contactos que se têm esta ideia de que chegámos a uma terra diferente onde as pessoas valorizam o trabalho e alguma construção coletiva. Depois dizem-nos que há corrupção, que o poder é distribuído entre os amigos de quem o detém, mas, enfim, isso também não é nada de novo nem exclusivo. O dia está propício e raro segundo nos informa para a nossa viagem às Torres del Paine, ou montanhas azuis, ao longo da nossa viagem que hoje consistirá num circuito de cerca de 170 km à volta do maciço, com vários planos de observação. Lá dentro das montanhas há centenas de caminheiros aos Ws numa infinitude de trilhos. A primeira paragem é nas margens do lago Sarmiento, para umas primeiras fotografias das torres ao longe e do lago de águas azuis. Depois, mais ao perto, no Lago Amargo e pelo caminho vão surgindo guanacos e avestruzes e também um engarrafamento de trânsito por centenas de ovelhas pastoreadas por aqui. Em cada momento, há imagens que apetecem. Mais perto da hora de almoço chegamos a uma estalagem na margem do lago Pehoé, mais uma conceção a algum amigo do poder. O lago é vasto e à Hosteria acede-se por uma ponte que se percorre a pé, observando ao longe as montanhas que sempre nos vão agarrando o olhar desde que partimos da fronteira já faz umas horas. Gravar o mais possível em fotografias, que a memória sempre é curta e é preciso mais tarde recordar. Refrescados pela cerveja, sob calor inesperado, vamos regressar ao ponto de partida junto à fronteira antes de seguirmos rumo a Puerto Natales. Cinquenta e poucos quilómetros depois, surge-nos uma terra, aparentemente de pescadores, a dar-nos as boas vindas com esculturas de rua com ar mitológico, evocativas do Milodon. O Hotel Muelle Boutique é um pequeno edifício junto ao porto comercial, com ar de cais de atracagem e, por dentro, todo decorado em madeira de pinho. Já tínhamos experimentado a eficiência da receção com inúmeros mails enviados e prontamente recebidas as respostas nos últimos dias, na busca desesperada de pinguins. Esta era a terra onde tínhamos reservado, a confirmar, uma visita a mais um ou dois glaciares e tínhamos deixado um dia livre para a hipótese de a primeira tentativa das Torres del Paine ter corrido mal. Como tínhamos tido um bom dia na véspera, estávamos com um dia livre.

 Puerto Natales são uns poucos quarteirões desenhados em quadrícula limitados por uma estrada marginal tudo facilmente percorrido a pé. No meio uma praça com uma igreja, alguns bancos e um parque com bancos de madeira sugerindo barcos e miúdos pedalando em triciclos disfarçados de carros. As hipóteses dos pinguins eram duas: uma agência (Condor turismo) que fazia a viagem a partir de Puerto Natales, sendo os pinguins em Punta Arenas ou irmos até Punta Arenas de alguma maneira e amanharmos lá o ferry que leva até à Ilha Magdalena. Ainda assim começámos por ir confirmar a ida aos glaciares Balmaceda e Serrano que tínhamos marcado para o dia seguinte. Fica resolvida a viagem para esse dia com ideia de votarmos pelas seis e, depois, logo se marcariam os pinguins. Nesta altura as lojas fecham às 9-10 da noite e o sol põe-se por aí também. Mas fomos apalpar o terreno junto da tal Turismo Condor para marcar a viagem para o dia que tínhamos livre. Ao fim de algum tempo de pesquisa, localizámos a «agência» no vão de escada de uma loja. Somos gentilmente atendidos por um jovem de ar apiratado, lenço na cabeça atado atrás, que nos põe à vontade. Eles realmente fazem a viagem por 75000 pesos, mas talvez nos conviesse mais irmos à empresa de camionagem Bus Fernadez e irmos com eles por 13000 pesos mais 40000 para visitar a ilha… Ok, apesar de apiratado, o homem foi honesto, mas ainda bem que a viagem de autocarro não foi possível, porque ia-me custar muito fazer passar o VISA na máquina deste senhor… Restava pensar em alugar um carro e ir até Punta Arenas. Mas já era noite, as agências de aluguer estavam fechadas e via Net não havia carros para alugar. Os pinguins começavam a ficar cada vez mais distantes. Logo se veria, o melhor para já era desfutar da viagem no dia seguinte até aos glaciares e tentar marcar para dois dias depois o aluguer do carro. Ao fim de todos estes dias, o dia começou francamente nublado a prometer chuva. Chegados ao cais pelas 7 e meia da manhã, já chovia, quando entrámos no barco da Agunsa. Sentados nos lugares previamente marcados, que os chilenos são gente muito organizada, iniciámos a viagem rio acima até que, continuando a chover e ainda não era passada meia hora, nos informam que o motor estava avariado e teríamos de regressar a Puerto Natales. Nunca tinha ficado tão contente com a suspensão de uma viagem. Agora era só ir à agência reaver o dinheiro da viagem e tentar alugar um carro. Na primeira agência as coisas correram mal porque não havia carros disponíveis, mas lá me indicaram outra dois quarteirões ao lado. Na Amerindia, havia um Chevrolet todo empoeirado com mais de 100000 km, mas em ótimas condições com exceção de uma rachadela na carroceria por baixo do farol de nevoeiro do lado direito. Neste caso, era o melhor carro do mundo. Finalmente, tínhamos encontrado pinguins na Patagónia. Quase. Faltava marcar o ferry que ia aos pinguins a partir de Punta Arenas. Uns quarteirões ao lado, encontrámos a agência COMAPA, que vendia as tais viagens. Patrícia, mais uma chilena com ar bem eficiente, telefona para Punta Arenas e uns segundos depois respiramos aliviados: pinguins à vista. Eram 11 da manhã, estávamos a 300 km de Punta Arenas, faltava só fazer a Ruta 9, que avança pela estepe abaixo rumo ao sul com alguns guanacos na beira da estrada e muito vento, mesmo muito que dificultava ir a mais de 100 km/h. Tínhamos uma hora de margem… sem almoço. O vento era tanto, que perto de duzentos kms depois havia um monumento ao vento e uma ilustração menos artística de um camião virado na beira da estrada. Chegados à referência do barco negro, estaríamos no cais. E o barco negro, que nos evocou na memória o bairro negro, lá acabou por chegar eram pouco mais de 2 da tarde. E os pinguins cada vez mais perto. Faltava o barco. Devia chegar às 2 e meia, mas só pelas 3 e meia começou a aparecer um ponto no horizonte… Chegou finalmente e aí houve uma correria de mais de 200 pessoas à abordagem. Até parece que nunca tinham visto pinguins! A travessia demora duas horas sem vestígio de golfinhos, que ocasionalmente surgem a acompanhar estas viagens. Chegados finalmente à ilha dos senhores de casaca, iniciamos a trilha e ouvimos os cantares dos bichinhos, vemos as crias maiores que os pais de penugem mais acastanhada, ouvimos os cantares ao desafio de alguns deles e avistamos ao longe o farol da ilha. Há ainda corvos marinhos e gaivotas no fim da tarde, com o sol a descer no horizonte, mas ainda alto, porque estamos no verão. Durante uma hora assistimos à vida dos pinguins da ilha Magdalena que brincam, caminham, cantam e quase sorriem intrigados com tantas câmaras que sobre eles disparam sem flash e sem tripé, que isso é proibido. Uma hora bastante rápida, porque o espetáculo apetece. Mas não há encore. Terminada a hora, é preciso regressar que ninguém pode ficar na ilha. Regressados ao ferry, são mais duas horas de viagem em que uns dormem, outros revêm os registos dos pinguins e das selfies nos visores das câmaras. O mar estava agora mais agitado, mas duas horas depois, de novo em terra. Faltavam só mais três horas de viagem de carro. Quase ao por do sol, ainda andámos quase 180 km com luz do dia e o resto já às escuras com avistamentos de coelhos, raposas e lembranças de guanacos que por aí andaram durante o dia. Será que dormem à noite. E, de repente, um estrondo que me fez ver, claramente, algo a bater por baixo do farol direito do carro. Na mesma altura, caía o powerbank no chão do carro. Não valia a pena parar. Lo que sera, sera. O barulho seria do embate num bicho ou da queda do powerbank no chão do carro? As perceções são visões que às vezes nos enganam mesmo. Chegados a Puerto Natales não havia grande mossa. A carroceria continuava estalada por baixo do farolim direito. Tinha sido só a queda do powerbank e eu ando com visões desencadeadas por estímulos sonoros. Passadas dez horas de viagem, tínhamos tido a nossa hora de pinguins e tudo estava bem quando assim acaba. Vimos pinguins na Patagónia!

 Conseguido um early chek-out do carro às 6 e meia da manhã, no dia seguinte lá fomos ao glaciar de Balmaceda e Serrano, mas no barco da COMAPA (que entretanto nos tinha informado que era habitual o barco da concorrência avariar por ser demasiado frágil para fazer a viagem). Rio acima passamos várias ilhotas e vamos vendo cerros altos ao longe nas margens. Num dos ilhéus há corvos marinhos na margem ainda se acvista uma queda de água que vem lá das alturas esfumando-se quase sobre o barco. Ao fim de 3 horas de navegação avistamos o glaciar de Balmaceda escorrendo pelo vale nos habituais tons de branco e azul. Um pouco mais ao lado, descemos para andar um pouco no parque natural e chegarmos ao glaciar Serrano que acaba num lago onde flutuam nacos de gelo ou pequenos icebergues. Um caminho pela margem do lago leva até à origem do glaciar, com boas vistas sobre os gelos que flutuam no lago, onde são possíveis visões de patos e outras formas. Já no regresso, servem-nos whisky com gelo do glaciar, gelo sem o aspeto compacto do que sai dos frigoríficos, mas poroso. Não é do gelo certamente, mas assim caído na fraqueza algo nos dá algum sono na aproximação do almoço. Valeu a conversa com parceiros de viagem chilenos, de Santiago, ambos psiquiatras. Elogio das viagens e da vida simples, que para a complicar há por aí muito quem. Ficam combinados os contactos para quando visitarmos os respetivos países. Ele até já tinha estado em Lisboa e feito os percursos que os turistas todos fazem. O almoço foi numa quinta, para provarmos mais um cordeiro patagónico, não tão satisfatório quanto o de Calafate. É como no leitão, o bom é a pele tostada e este tinha pouco disso. Primeira prova de vinho argentino, que cumpre sem espantar. Segue-se o habitual fim de viagem onde se dormita e espera a chegada ao porto. Depois da chegada, faltava ainda comprar os bilhetes do autocarro para nos levar no dia seguinte para o aeroporto de Punta Arenas. Marcado para partir às 11 íamos, finalmente, poder acordar ligeiramente mais tarde. Faltava apenas o safari fotográfico do fim de tarde em Punta Arenas com o velho molhe e o pôr do sol nas montanhas do outro lado do lago.

 O terminal de autocarros localiza-se na periferia da cidade. Chegamos de táxi que aqui têm uma tarifa fixa de 1300 pesos. Lá se encontram várias companhias de transportes, cada uma com destinos mais ou menos fixos, sem aparente grande concorrência entre si. Ainda assim os preços são razoáveis e o serviço é certinho com lugares marcados e partida e chegada a horas. Voo ao fim da tarde para Puerto Montt, onde chegamos sempre dentro dos horários e nos espera o motorista combinado com o hotel. Óscar é um taxista conversador que tem pena de não passarmos um dia mais em Puerto Varas para onde nos leva, pois poderíamos ir ao vulcão ou mesmo à Ilha Chilué. Terá de ser para uma próxima, que desta vez não tínhamos programado tal coisa. Vinte e cinco quilómetros depois estávamos a chegar ao Hotel Raddison, mesmo à beira lago… e do Casino. A terra estava em festa, com espetáculo musical na rua e eleição de reis locais, mas não de Carnaval aparentemente. A paisagem lembra terras de Europa Central e a bebida local parece ser a cerveja, pelo número de beerhouses à maneira da terra da senhora Merkel. Terra pequena, na ordem dos 20 e tal mil habitantes, agora cheia de turistas. O Raddison com quarto com vista sobre o lago, foi um pouso particularmente bem escolhido para uma noite de descanso antes de iniciarmos no dia seguinte a travessia dos Andes. Pelas oito da manhã, depois de apreciarmos o nascer do sol sobre o lago, com vulcão do outro lado, ao fundo, partimos de autocarro para a primeira etapa da travessia dos lagos andinos por entre vulcões à esquerda (Osorno) e à direita (Calbuco) sendo que este ainda o ano passado tinha estado ativo, lançando lava fina e pó sobre a região onde passamos de tal forma que a travessia esteve bloqueada quase 3 semanas. A fumarada terá subido aos 15000 m de altitude antes de se espalhar na região. A primeira paragem é nas quedas de água de Petrohué, uma espécie de Pulo do Lobo, com um estreito entre basalto e quedas de água, únicas no mundo, claro. Prossegue a viagem até ao cais um pouco mais à frente onde se apanha o catamaran que nos leva pelo lago de Todos os Santos com vista de ilhas e mais montanhas altas mais ou menos despidas no cimo e com formas mais ou menos aguçadas (monte Ponteagudo, Tronador e Ososrno). A habitual capa branca até meio do Osorno é agora uma memória fotográfica. O aquecimento tem vindo a mostrar a terra que estava por baixo e isso é uma manifesta preocupação para os chilenos de aqui. Pela hora do almoço chega-se à Ilha Peulla (Peuja, dizem e quer dizer finalmente a Primavera! Numa celebração de fim do tempo rigoroso). A família Roth aqui se estabeleceu nos anos primeiros do século XX e criou uma fazendo que agora é o Hotel Natura, uma construção de madeira co disponibilidade de alojamento para uma noite durante a travessia (que agora também se pode fazer num único dia com mais algum cansaço). Tínhamos optado pela versão mais tranquila pelo que podemos, após o almoço no hotel, servido em aflição pelos empregados que de repente se viram invadidos por uma pequena multidão de uns 300 turistas, fazer de tarde um pequeno passeio pela propriedade, que inclui uma visita a um pequeno jardim zoológico de fauna mais ou menos exótica, atravessarmos numa correria patética o rio com direito a banho dentro do camião feito 4x4, conduzidos pelo «melhor (e por acaso o único) condutor de todo o terreno da ilha» até chegarmos a uma jangada que nos leva a um local de meditação na audição do silêncio só perturbada pelos meus ataques de tosse. À volta mais correria sobre as águas do rio e nova molha. Saída e entrada na clandestinidade pela fronteira chilena situada logo à saída do Hotel Natura Patagonia. As formalidades de registo de saída ficarão para o dia seguinte. Pelas 10 da manhã inicia-se de combibus, a travessia da cordilheira, depois da cerimónia do carimbo no passaporte na fronteira chilena e entrada na terra de ninguém. Ladeamos o rio durante algum tempo e iniciamos a subida na cordilheira de floresta densa numa estrada estreita de sentido único, graças às comunicações, via rádio, com eventuais condutores em sentido contrário, vindos da Argentina. Avistamos, junto a um posto de carabineiros, o Monte Tronador com direito a descer e ir aliviar bexiga no posto dos militares, antes de continuarmos a subir a cordilheira até 976 m acima do nível do mar por uma estrada de macadame com curvas à maneira dos Alpes (ou dos Andes). A seguir desce-se até Puerto Frias e de novo num barco navega-se no Lago Frias até porto Blest, onde nos espera um almoço breve ou a opção de subir 700 degraus. Mais sensato ficar quieto a ver o lago que se segue, o Nahuel Huapi até chegar depois a Puerto Pañuelo, fim das viagens pelos lagos e com o espetáculo de gaivotas a comer bolachas nas pontas dos dedos dos passageiros. Tudo para a fotografia. Já ninguém atenta na paisagem embrenhados que estão no picar das gaivotas. A última etapa da travessia até Bariloche é feita outra vez de autocarro por uma estrada ladeada de chalés suíços. Bariloche foi em tempos uma pequena cidade de 5000 pessoas e terá agora 150000 habitantes permanentes que se expandem até mais de 300000 nestes meses de verão. Dispõe-se pela colina em alinhamentos de ruas mais ou menos paralelas, sendo as duas principais vizinhas do Hotel Kenton Palace onde iremos estar as próximas três noites. À chegada constatamos os maus tratos de uma das malas que ficou descosida numa das pontas e isso deu-nos motivo para irmos à procura de linha e uma agulha. A agulha foi encontrada num empréstimo de uma artesã numa loja da rua abaixo do hotel, a linha mais adiante no Carrefour depois de passados seis quarteirões. Ao fim de três semanas quase já havia algumas saudades de uma grande superfície. Lá se encontrou a linha. Estava constituído o kit que permitiria remendar a mala para as etapas finais. No caminho para casa deparamos com um restaurante suíço da família Weiss, onde se come depois de uma espera longa, servido por funcionários mascarados de suíços. No andar de cima dança-se o tango. Restaurante de fusão, portanto. Deitamo-nos na incerteza do horário do tour do dia seguinte. Oito ou nove horas para a saída, dependia das fontes disponibilizadas pela argentina4u.

 O dia de hoje anunciava-se longo e começou às oito e meia, uma solução de compromisso entre as informações que tínhamos. O guia, outro Óscar, é desta vez um argentino na sexta década de vida, homem de muitas atividades prévias como se apresenta, antigo motorista, agora freelancer da condução a passear turistas pelos sete lagos à volta de Bariloche a que ele acrescente mais alguns a caminho de San Martin de Los Andes expectativa algo frustada de uma cidade mais encantadora do que realmente se revelou ser. Pelo caminho vai-se parando junto aos lagos, com cenários sempre semelhantes, que Óscar se disponibiliza a identificar posteriormente se lhe enviarmos as fotos. Como diz têm sempre três zonas, água, terra e céu. Com este entusiasmo vai-nos desvendando a paisagem. A meio da manhã passamos na vila de Angostura com uma rua central incluída na Ruta 40, ladeada de áreas de comércio para turistas. Pois a verdadeira ruta 40, mais interior, aqui se divide em 3 que mais a sul se reencontrarão e para que nenhuma se sinta prejudicada todas 3, são chamadas de 40. Faz-se então um desvio que nos leva a uma casa de férias da argentina agora rainha da Holanda, com vista sobre o lago e depois até Baía Mansa de onde se pode aceder ao Bosque dos Arrayanas (mas este fica para amanhã), que hoje a rota continua até San Martin de Los Andes que atingimos pela hora do almoço no restaurante La Barra à entrada para mais chouriço e cordero assado que nos encurtou a visita à terra em cerca de 1 hora, das duas de que dispúnhamos. Nada de grave, que a vastidão da terra não é assim tão grande. A municipalidade, a Igreja de São José do outro lado da rua e uma praça com estátua equestre à volta da qual se dispõem artesãos em tendas. As casas continuam a ser do padrão do eixo suiça-alemanha-austria numa habitual quadrícula, mais certa do que em Bariloche e mais contidas na altura. Harmoniosa, sem nada de especial. Subitamente começou a instalar-se um vento que desencadeia nuvens de poeira na cidade e convida a uma saída sem mais demoras, até porque mais nada havia para fazer ali. Toma-se então uma rua sem asfalto que leva a uma casa de chá e lá mais para cima é possível ter uma visão de condor da cidade e do lago adjacente. As nuvens ficam cada vez mais cinzentas como já Oscar nos tinha dito que iria acontecer, porque na passagem pelo Tronador de manhã se avistava um nuvem atrás do monte e sempre que assim era, o tempo ia mudar. Conhecimento empírico que confirmava o que já sabíamos da visão do weather channel. São as fontes de ontem e de hoje. Mas tudo estava tranquilo ou não fosse a aplicação ter-nos já dito na véspera que para o fim da tarde em Bariloche voltaria o sol sem nuvens. E assim foi, para uma visão ao cair da tarde da praça central de Bariloche, com recordações desenhadas de desaparecidos na história recente da argentina e espetáculos de artistas de rua frente à câmara local.

 O tempo passou depressa e chegamos ao último dia da viagem em que vamos visitar o lago Vitória e o Bosque dos Arrayanes. Começa-se por percorrer em sentido inverso a estrada já conhecida até Porto Pañuelo, onde se apanha o barco Cau Cau (gaivota grande em mapuxe primitivo), que nos leva, depois de mais um show frenético gaivotas comer bolachas nas pontas dos turista até à extremidade da península de Angostura onde está localizado o Bosque que é a maior concentração destas árvores de cor acastanhada, de troncos descamados como os seu primos eucaliptos, que lhes dão um aspeto invulgarmente fotogénico, onde não ficariam mal uns bâmbis aos pulos. Houve quem visse uma raposa avermelhada, que até as há por lá afinal. Passada meia hora da visita, continua-se até à Ilha Vitória, onde teremos um período maior de relaxamento de 4 horas. Aqui está incluída uma visita guiada às árvores oriundas de vários continentes e que no passado aí foram colocadas em experiências de colonos primitivos em busca de criação de madeiras de qualidade. As experiências nem sempre tiveram bons resultados, porque estas coisas não gostam de grandes variações e experiências e têm equilíbrios instáveis que deverão ser respeitados se houver vontade de evitar desastres ecológicos. Está-se bem na contemplação do lago entre o silêncio do Bosque Diria que é o final de viagem tranquilo que constitui um verdadeiro final feliz da experiência patagónica. Tranqüilo também o jantar escolhido no restaurante Alto El Fuego, recomendado pelo Trip Adviser como dos melhores sítios de Parrilha de Bariloche. Sítio simpático, empregados eficientes e gente jovem a encher a casa. Para mais, o olho de boi tinha 500 gramas e dava bem para dois, o que torna o preço francamente acessível para a experiência.

 Dia final para viagem de volta a Buenos Aires e daí até Lisboa via Madrid. Um tempo longo, onde se terminam estas notas ditadas pela memória ainda recente. Três semanas transformaram a Patagónia de um sonho imaginado numa realidade palpável e conhecida. Num clima de verão fantástico e pouco habitual ao que nos contam, com dias de luz muito duradoura. Há uma outra lá mais para o inverno, onde a neve e o gelo revelam outra realidade que alimenta a nossa imaginação de outros sonhos. Será que voltaremos? Era mais certo se tivéssemos comido o calafate, conforme reza a lenda, mas ainda assim, nunca se sabe. Para já fica também a ideia de uma Argentina de argentinos gaúchos e indomáveis na sua vontade de viver e de chilenos mais austeros e organizados, mais colados às realidades terrenas, sem os dramas do tango e com sonoridades agudas, puras e frescas de flautas andinas com tanto mar a chamá-los. Fim de viagem em que novas realidades se desenham nos sonhos da Ilha da Páscoa e deserto de Atacama com eventuais extensões à Bolívia e ao Perú ou mesmo à imensidão da Amazónia.

(Publicado agora, mas escrito no regresso a Lisboa)

terça-feira, janeiro 26, 2016

Patagónia em 3 semanas

Partir
No aeroporto de Lisboa não havia sistema informático, seguramente uma falha por ineficiência se fosse uma empresa pública, na sua nova situação, possivelmente uma falha técnica. Check-in manual e nevoeiro das 6 da manhã a fazerem partir com atraso de mais de uma hora e valeram as quase 3 horas de que dispúnhamos em Madrid, para que o dominó de eventos pacientemente organizado não começasse a ruir logo às primeiras. A paragem de Madrid foi à conta para fazer check-in para Buenos Aires. Passadas as dúvidas sentámo-nos num avião moderno da Ibéria. Confirmei mais uma vez que no aeroporto de Madrid é bom planear sempre uma estadia razoável entre voos ou, pensar vir de véspera no comboio e dormir tranquilamente toda a noite na couchette. Quase 14 horas de avião voadas tranquilamente com sestas pelo meio e muitas interrupções com avisos histéricos de turbulências que não passaram de ligeiros solavancos. Pessoal de bordo quase sempre ausente, exceto a pedido. Lá nos trouxeram uns snacks que não passaram disso e o resto é self-service. A hidratação preventiva nos voos não existe na Ibéria. À chegada o aeroporto apresentou-se algo usado, mas decente. E lá fora mais de 30ºC à nossa espera. Um calor húmido. E lá estava um simpático taxista da Uber com o nosso nome à nossa espera para uma viagem de 30 km até ao hotel. Na saída dos aeroportos a paisagem está diferente, na autoestrada, agora, sempre vários carros particulares parados na berma, esperam a nossa chegada evitando assim mais despesas de estacionamento nos parques dos aeroportos. A recepção do hotel é correta sem aventuras e o quarto correto para o preço. Limpo, decente, bem situado e com wifi (intermitente, mas deu para avisar a família que chegámos). O banquete da Ibéria manifesta-se insuficiente e vamos passada a meia-noite procurar À volta do hotel algum sítio para aconchegar o estômago para noite. O único aberto é o café London City com retratos de Cortazar pelas paredes e a lembrança de espaços como eram o Império e o Monte Carlo. As sandes vieram generosas acompanhadas de chocolate e café com leite e… dois copos de gasosa fria com os cumprimentos da casa. Ainda estávamos acabados e sentar e dois trovões depois, abate-se uma chuvada diluviana na noite quente de verão. Então é assim à traição? Algo pingados, chegamos ao hotel passados uns 500 metros. Fim de primeiro dia de objetivos cumpridos.

 Pela manhã tínhamos debaixo da porta a confirmação da ida ao show gaúcho. Mais vale tarde do que nunca, mas a Viator provoca alguma tensão nos viajantes. Fora isso, a guia que nos leva apresentou-nos o mate contando-nos que na sua origem está uma lenda de duas deusas, a lua e a nuvem, que curiosas desceram à Terra tendo caído nas florestas das cataratas de Iguaçú, onde como costuma acontecer às meninas que se aventuram na floresta apareceu um jaguar, que logo se preparava para as almoçar. Mas eis que nessa altura, surge o caçador que espanta o jaguar e salva as meninas indefesas e as leva para sua casa dando-lhes o conforto e alimento que podia mesmo sendo muito pobre. Gratas, depois de terem voltado para o seu meio, o céu, pensaram como haviam de recompensar o seu salvador e foi então que lhe fizeram entrega do arbusto do mate, a partir do que o caçador fez a infusão que, generoso, sempre partilhou de roda com os amigos. E por isso, ainda hoje, o mate é servido numa cabacinha pequena que corre de mão em mão, ignorando contágios ou, melhor, promovendo o contágio da amizade e da partilha entre as pessoas. E depois de provado o mate, veio a informação sobre gaúchos, homens valentes que ninguém agarra e que defendem na ponta da faca a sua forma de estar. Mais real a sua história é a de quem durante a guerra civil entre unionistas e federalistas não tomou partido, sendo desejado por uns e por outros e resistiu a defender um dos lados porque o seu lema de vida era outro, a liberdade total. Em Santa Susana, ao norte de Buenos Aires, tivemos um dia de folclore gaúcho, com alguma história, passeios a cavalo e de carroça e costumes musicais e artísticos e culinária local desde as empanadas até ao assado com vinho e cerveja em bar aberto. A sentir-me um pouco turista tótó, mas tudo bem. No final do dia, passagem breve pela Praça de Maio com olhar para a Casa Rosada (já não com a mistura de sangue de vacas e cal, mas mantendo o tom), protegida a distancia por barreiras metálicas e com polícias de colete à prova de bala ou não seja aqui que os argentinos desgostam dos seus políticos de forma tradicional. Quase junto, o Banco Nacional e a Catedral Municipal, última igreja do Papa Francisco antes do upgrade que lhe fizeram para a Igreja de São Pedro. Por fora, tem um aspeto clássico com colunas que suportam um vasto frontão triangular. Por dentro, a luminosidade de um templo românico, rica sem impressionar. Uma praça, portanto, onde capital, política e fé coexistem como convém ao poder instituído. A troica habitual. Pela avenida larga do outro extremo da praça, caminhamos entre comércios fechados e paredes bastante pinchadas passando cafés com ar de mulheres velhas e ricas, com dignidades presentes numa beleza já disfarçada por anos que não perdoaram. È nesse trajeto que chegámos ao Café Tortoni, apinhado de turistas e com uma argentina jovem e arrogante que quase não nos deixava entrar por estar o café cheio. Depois de uma espera breve, lá ultrapassámos o bloqueio da senhora. Já sentados e ao fim de alguma espera não desperdiçada ver vitrais do teto, o mobiliário das mesas e a decoração das paredes, onde visitantes ilustres foram deixando pinturas, desenhos e poemas, chamámos a empregada, outra mal encarada que com algum esforço acabou por nos trazer a cidra sob pressão, salada e tostado Tortoni. Do fundo saiam sons de tango e, ao fim da sala, uma barbearia e um canto de poetas num passado bem distinto.

 Mais um dia começado com alguma preocupação porque os tours de hoje não nos tinham sido confirmados pela Viator. Depois de alguns mails ao fim do dia de ontem, acabaram por responder de manhã que tinham confirmado com a recepção do hotel. Verificámos depois que efetivamente o tinham feito. Desta vez foi a recepção que decidiu guardar segredo e nos não disse nada… Chegarem meia hora atrasados também não tem nada de extraordinário, é só mesmo para mais algum tempo para o pequeno-almoço ou criar alguma emoção a viajantes mais ansiosos. Depois sempre chega uma guia cheia de sorrisos que se desdobra em explicação em três línguas para que não nos escape nenhum pormenor enquanto vamos começar a viagem para Tigre, um arredor de pequenas ilhas onde a classe média de BA, tem as suas casas de fim-de-semana no delta do rio. Ficamos a saber que as casas nem são caras (30000 a 100000 dólares), mas a manutenção não é barata. Há barcos supermercado, barcos assistência médica, barco de recolha de lixo, tudo a levar pesos. No barco vamos indo de rio em rio com casas pequenas coloridas nas margens, de onde sentados a apanhar sol nos vão acenando uns enquanto outros vão pescando ou preparando os assados do almoço. As águas são castanhas dos sedimentos que transportam e trazem arrastadas plantas à superfície vindas das cheias a norte, possivelmente também com cobras, aranhas e outros animais não residentes habituais, que estão a preocupar a tranquilidade dos habitantes. Desta vez ainda não vieram os jaguares que por aqui andaram e que os espanhóis tinham confundido com tigres, razão por que a cidade assim se chama. Por agora, a ferocidade animal está confinada aos argentinos segundo a apreciação da guia. Passamos depois pela parte costeira de Tigre em direção a Santo Isidro, com mais segundas residências de gente de BA. Em Santo Isidro haverá uma Igreja que os 20 minutos de paragem não permitem ver, porque nos despejam num mercado de aretesanato do mundo naquilo que já foi uma estação de comboio que fazia a ligação a BA. Depois de nacionalizada há uns anos, o novo dono terá perdido o relógio e a incerteza da existência das viagens de regresso deste tour levou as companhias destes tours a terminar o serviço, substituindo-o por viagem também em autocarro como à ida.

E hoje é um dia cheio, mal chegados à idade temos à espera outra carrinha para nos apresentar BA na sua diversidade. Primeiro para norte até Palermo, com longas áreas de jardins e para atividades desportivas, um enorme parque onde também está parte da Universidade de BA, depois pela elegância afrancesada de Recoleta mais a sul até à já nossa conhecida praça de Maio onde se faz uma primeira paragem para ir a correr ver a Catedral. E BA em três horas continua passando por San Telmo (onde estamos alojados) até ao jardim/praça de Lezama, onde avistamos a Igreja Ortodoxa Russa lá ao longe e continuamos para Boca, passando a Bombonera, um estádio azul e amarelo com bancadas bem inclinadas onde joga uma das loucuras da terra. Finalmente, chegamos ao porto onde parte da história começou com a chegada de emigrantes europeus. Aqui se instalaram trabalhando nos portos e nas indústrias afins e com restos dos matérias com que trabalharam ergueram as suas casas, que coloriram de cores quentes e primárias na expressão do afastamento da tristeza possível das suas vidas sublimada no Tango que criaram. Agora para os turistas, tocam nos bares, dançam tango e vendem toda a quinquilaria tradicional do artesanato que possamos conceber num Caminito absolutamente a não perder. De toda a volta é aqui que mais alma argentina se pode sentir, sem a sofisticação com que o poder come a autenticidade. Na volta, literalmente debaixo da ponte que os viadutos estabelecem, os novos emigrantes vivendo como podem, nas casas que podem, acenam e riem sentados na rua, alguns banhando-se em piscinas de plástico que hoje a temperatura chega aos 36ºC. Um pouco mais à frente na substituição de um porto que tinha substituído o primeiro de Boca, mas que também não durou mais de 10 anos, há agora Puerto Madero, zona sofisticada de arranha-céus e restaurantes à maneira das docas. Uma cidade de contrastes como o mundo em que se vive, com realidade e faz de conta e onde se sente que algo diferente também seria possível. Globalmente, parece entristecida e suja, mas tem a avenida mais larga do undo. Possivelmente para condizer com um país com o rio mais largo do mundo. Uau! Para o retrato de BA ficar mais completo, faltava o Tango da cidade. No espetáculo do Café de los Angelitos, de azul angelical decorado. Num palco de dois níveis, os músicos tocam do pico, enquanto em baixo outros artistas cantam e dançam num tango recreado pela burguesia de séculos passados, três-chique, com coreografias perfeitas muito técnicas e bailarinos de escola. É sempre assim, os poderosos sempre acabam por roubar também a cultura de quem a cria, dando-lhe roupas melhores, outro charme, à custa de alguma autenticidade, que essa não se expropria. No planeamento da viagem tinha ficado o terceiro dia para revisões. Assim fizemos com passagem pela Casa Rosada, onde o novo Presidente, não autoriza visitas, até Porto Madero para ficar na margem do cais a ver a skyline. Depois de táxi até Boca para mergulhar de novo na experiência das cores e dos cheiros. A chegada logo fizemos poses de passos de Tango para mais tarde sorrirmos e na varanda, ao lado de Francisco, também acenei para a praça. Depois tango enquanto se almoça. Tango, muito tango na milonga. Com bailarinos que não vão aos casinos, de olhar duro e exigente, sem luxos no corpo picado até dos mosquitos, que rodopiam, de cá para lá e de lá para cá, num palco estreito de menos de um metro por cinco metros de largura. Trazem alguma verdade, até na necessidade que têm de vir no fim da algumas danças de chapéu estendido buscar alguns pesos. Mais uns momentos de encher os olhos dos amarelos, vermelhos, azuis e verdes das paredes de madeira ou de chapa ondulada e apanhamos novo táxi, com um destino preciso, encontrar a Mafalda no cruzamento entre Defesa e Chile. Desta vez um taxista conversador, 50 e poucos anos a transbordar empreendedorismo. Curioso da nossa origem, da forma como estávamos na Argentina, do que tínhamos visto para logo abanar a cabeça e torcer o nariz quando lhe dissemos o que pagámos à Viator pelos tours a Tigre e na cidade. Que pena não nos ter encontrado antes. Mas eram quatro da tarde, muito a tempo de nos levar a uma Igreja da sua devoção a 58 km da cidade, em Lujan. Local santo, onde no século XVII ou seria XIX não interessa, uma carroça que levava uma vIrgem para o Perú, encalhou por milagre, impedindo a virgem de sair da Argentina. Foi intervenção divina a Virgem ter ficado na Argentina e logo ali ficou decidido fazer uma capela que depois, entre 1887 e 1932, deu lugar a uma Basílica com torres de mais de 100 metros que se vê até da autoestrada e que, nem por milagre, vai crescendo cada vez mais à medida que nos aproximamos. Sempre que cá vem trazer turistas tira uma foto com a Basílica em fundo e enche uma garrafa de água para ser abençoada por um dos padres residentes para levar desta vez para uma «amiga» que foi picada por uma agulha infetada pelo vírus da sida. À entrada da igreja, passadas as enormes portas de bronze e ultrapassados os cães deitadas logo ali, há vários cadernos de encomendas de desejos à Virgem. Lá foi escrever, com grande demora, talvez o pedido de salvação da amiga ou o seu também. Fui deambulando pela Igreja por entre cães deitados aqui e ali e quase junto ao altar, deitado no chão, estava Alberto, um velhote peregrino ao fim de uma caminhada de mais de 40 km sob calor intenso, que decidiu apesar de toda a miraculosidade do lugar, ir-se abaixo, suando abundantemente com sinais de falta de corrente sempre que se levantava um pouco. Conferida a glicemia e o pulso, conseguidas algumas intermitências dialogantes, tentou-se sentar o homem, que logo revirou os olhos e foi quase até ao encontro da Virgem, não fossem uns enérgicos apertos de mamilos, que ressuscitam o mais adormecido. Afinal a Virgem, tinha enviado naquele instante uma notável intensivista aquela igreja, conduzida por um taxidriver, com um carro a abarrotar de pedras semi-preciosas e as mais variadas coisas de vender, numa tarde em que teria de ser inventada, mas que afinal existiu. Só uma nota, fica o mail (comacristian@gmail.com) para, quando voltarmos ou amigos cá vierem, não haver necessidade de desperdiçar dinheiro com agências de viagem. Cristian fará uma pausa nas voltas da cidade e irá onde for preciso a preço módico, incluindo borlas dos transferes do aeroporto, permitindo assim evitar os «parasitas» da Uber que lhes fazem perder a cabeça e lhe dão ganas de destruir carros ou algo mais. No final, foi-nos dizendo que lhe tínhamos resolvido o dia. Pelo carro dava ao dono 700 pesos por dia, em pagamentos à semana. Nesta deslocação que seriam 800 pesos ou 50 euros e que acabou em 40 euros mais 10 dólares, menos 5 pesos de recordação oferta de uma nova nota acabada de editar, ainda ouviu, graças ao spotify, a Ana Moura para perceber o que era fado. Ficou contente, enriquecido com o dia. E nós também. Fim de BA absolutamente não programado tem outro gosto.

 E agora voamos até às terras do Fim do Mundo aproveitando as três horas e meia de viagem para escrever estas notas. Nesta altura, aqui à esquerda no GPS do ecrã, estão as Malvinas da discórdia de há uns anos. À chegada um carro do Carlitos estava à nossa espera, rigorosamente como combinado no whatsapp com a dona da B&B Nahuel. A viagem foi curta e logo aí percebi que no booking.com os mapas não têm indicada a inclinação das encostas e o que parecia ser perto do porto só o é quando se desce… Mas enfim, os motoristas de táxi são mais simpáticos que alguns de Lisboa e sobem, agradados, a encosta. Deu então para passear até à beira mar, ver o Chile do outro lado e deste a perícia dos estivadores no empilhamento dos contentores no porto. Junto ao porto observam-se mensagens de ternura para os originários do Reino Unido, ainda resquícios da guerra que perderam mas de que não aceitam o resultado. Até ao quase fim da terra são meia dúzia de quarteirões em direção ao norte, até um restaurante chamado Volver, uma clara indicação de voltarmos para trás. Atraem-me sempre estes pontos de chegada ao fim, seja o Cabo da Roca, Key West ou este aqui. Depois de chegar ao fim, vem a enorme oportunidade de recomeçar. Aqui até a palavra passe do wifi tem significado: findelmundo. É aqui que estamos hoje e nos dois dias que se vão seguir.