terça-feira, maio 02, 2006

Cócegas na memória

O mais angustiante, são os esgares da impotência, a irritação que se adivinha na impossibilidade de atingir algo ali em frente, a possível percepção da incapacidade. De forma persistente, reiterada, tenta a sua libertação do cadeirão, tentando fincar os pés no chão, agarrando lençóis ou qualquer roupa que ali esteja à mão, em pequenos avanços, sempre terminados num sentar, às vezes ainda mais para trás, pela inclinação do assento. Pelos intervalos, nas acalmias breves, parece mostrar, aqui e além, um ar de gratidão, talvez, quase um sorriso. Outras vezes salta, de súbito, um nome ou, de forma de todo inesperada, a tabuada dos cinco. Cinco vezes um, cinco, cinco vezes dois, dez. Absolutamente certa até ao cinco vezes dez. Como se cantasse numa língua estrangeira de que se não entendem as palavras, números sem quantidade dentro.

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