segunda-feira, julho 09, 2012

População e médicos, a mesma luta

A resistência à tentação corporativa é agora mais importante do que nunca. É preciso ter abertura de espírito para emendar erros e definir uma estratégia clara de que o pretendido é criar melhor saúde para a população e ao mais baixo custo. A especificidade desta área é que não tem que haver conflitualidade de interesses entre doentes e prestadores, devendo ambos concorrer, num sistema eficiente, no mesmo sentido.
Isso implica, antes do mais, ter em conta a mudança da epidemiologia da saúde e a verificação da importância crescente das doenças crónicas, onde como hoje mais uma vez foi salientado, os cuidados devem ser centrados no doente. Isto é, são eles que devem passar a ser os proprietários dos médicos e não estes que têm os seus doentes. De uma vez por todas, a abominável expressão «o meu doente» deve  desaparecer da linguagem dos médicos. São os médicos das várias especialidades, com conhecimentos diversos, que devem procurar entreajudar-se e criar um processo de atuação que resolva o problema do doente específico. É fundamental acabar com doenças bonitas e feias, é imprescindível que quem não sabe resolver, saiba pedir ajuda aos colegas e não tente substituir-se a eles. A comunicação e a transparência de dados e resultados é absolutamente fundamental neste processo.
Da parte dos governos, espera-se a responsabilização para assumir este processo e não a desresponsabilização, a cedência de competências do Estado e mesmo o contributo para a criação de negócios que só beneficiarão alguns e implicarão a criação de cuidados mais caros para o contribuinte pelos impostos ou pelos seguros que terão que contratar.
Não será mais possível manter cuidados em que não há integração entre os cuidados primários e os hospitalares e dentro dos hospitais entre os seus «serviços». O doente no centro da questão é o fim de toda esta estrutura organizativa que serve apenas os prestadores ao dar-lhes títulos para uso individual nas placas dos consultórios e pouco mais.
Organizar um Serviço Nacional de Saúde articulado envolvendo os vários níveis com o apoio das novas tecnologias e uma planificação global de cuidados é o caminho, mostrando com clareza que a Saúde não é um negócio que possa ser deixado à solta nos jogos do mercado. Quem quiser investir a nível privado que o faça, mas por sua conta e risco. Separem-se as águas e haja concorrência, não subsidiação direta ou indireta dos privados pelo sistema público. Não se subfinancie cronicamente o público, para afirmar o seu custo excessivo. Comparem-se custos de sistemas diferentes como vários modelos europeus e os americanos e vejam-se os resultados. Depois faça-se uma escolha esclarecida.
Nisto tudo tem que se fazer uma opção clara: a saúde deve ser paga pelos doentes ou por todos, por estarmos solidariamente empenhados na sua promoção? Há muito se percebeu que ter uma população saudável é um ativo da sociedade e não necessariamente uma despesa. Avance-se pela via certa ou desperdice-se o dinheiro dos contribuintes. Mas não se peça aos médicos que, no curto prazo, não aproveitem as oportunidades que a ineficiência cria. 
Um sistema capaz, competente e eficiente será necessariamente um que procura ter nas suas fileiras os melhores médicos e enfermeiros. Procurar mão-de-obra barata numa situação destas apenas terá um resultado, diversão da qualidade para fora do sistema público, deterioração do funcionamento do setor público, ruína deste setor a curto-prazo e pujança crescente do anémico setor privado. Mas isso vai trazer custos muito elevados para a população. Esta é a realidade que alia conjunturalmente prestadores de cuidados e doentes do mesmo lado do combate. Assim o consigam perceber.

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