segunda-feira, agosto 22, 2005

Momentos de férias

Tempos
Era relativamente frequente ouvir falar na vontade de sacrifício no presente para se ter um futuro melhor. O engraçado é que geralmente resultava. Vivia-se num sistema seguro, de garantias e valores, em que o controlo sobre a vida era grande. Se actuássemos de determinada forma, era previsível que o resultado algum tempo depois fosse o esperado. Acreditava-se na capacidade individual de, agindo dentro da colectividade, transformar o nosso mundo, porque havia um cimento de regras que tornavam o efeito uma consequência da acção. Podíamos agir com um sentido.
Aos poucos, porém, o mundo foi-se transformando, dando-nos a ideia da possibilidade de futuro incerto ou mesmo inexistente. Apressámo-nos num desejo irracional de voracidade de presente. Agora, omnipresente, único espaço de se estar. Nesta mudança começou-se por despeitar o passado, considerado coisa morta. É a queda da importância das biografias e o apogeu das celebridades. O exemplo mudou-se de modelos passados para ícones presentes. Passámos a reagir ao momento em vez de agir para criação do novo.
Nesta transformação fica-se diferente, a insegurança gera os medos, a falta de futuro, termina a esperança. Estaremos preparados para viver sem ela?
Por que mudámos? O mais provável é não termos percebido a razão. Teremos já percebido que mudámos ou à força de nos vermos todos os dias, nem demos conta das diferenças? A recente vitória do Liberalismo criou no mundo a anestesia do fim da história através de um sistema bem montado de marketing em que nos é apresentado como única via. Na verdade, a história é feita de fluxos e refluxos, ascensões e quedas, com presentes transitórios e futuros sempre triunfantes sobre os presentes dominantes. Assim irá provavelmente continuar a ser. Mais importante que a liberdade do indivíduo, iremos ter a nostalgia da liberdade do Homem, porque a solidão não é estado de espírito que nos faça sentir bem. Sempre acabamos por precisar dos outros. De outra forma não teríamos feito a história de grupos, nações e de toda a Humanidade. Teríamos simplesmente criado currículos de vida. E isso, todos perceberemos, teria sido pouco. Por isso, tenho esperança, coisa de que o Liberalismo abdicou, na sua submissão à realização do momento.
Novos amanheceres acabarão por surgir, como sempre tem acontecido, porque a esperança é vital ou a última a morrer, como dizem.

Numa semana de tempo, apenas rabisquei isto. Hoje sobrou-me tempo para fazer o copy paste deste bocado de férias. Num dos intervalos de ir em busca de vistos. Pelo caminho dei conta de que os big five afinal andam à solta debaixo dum viaduto em Sete Rios, desenhados por Resende, numa antevisão do Quénia. Já lá tinha passado antes, mas foi hoje que os vi, confirmando que são precisos os contextos para vermos os textos com outros olhos.

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