A propósito de um «protesto» a um dos meus protestos recentes, deixo aqui a definição de Desporto de acordo com a Wikipedia:
Um desporto é uma atividade física geralmente sujeita a determinados regulamentos. Para ser desporto tem que haver envolvimento de habilidades e capacidades motoras, regras instituídas por um confederação regente e competitividade entre opostos. Algumas modalidades esportivas se praticam mediante veículos ou outras máquinas que não requerem realizar esforço, em cujo caso é mais importante a destreza e a concentração do que o exercício físico. Idealmente o esporte diverte e entretém, e constitui uma forma metódica e intensa de um jogo que tende à perfeição e à coordenação do esforço muscular tendo em vista uma melhoria física e espiritual do ser humano. As modalidades desportivas podem ser coletivas, duplas ou individuais, mas sempre com um adversário.
Também podemos definir desporto como um fenômeno sócio-cultural, que envolve a prática voluntária de atividade predominantemente física competitiva com finalidade recreativa ou profissional, ou predominantemente física não competitiva com finalidade de lazer, contribuindo para a formação, desenvolvimento e/ou aprimoramento físico, intelectual e psíquico de seus praticantes e espectadores. Além de ser uma forma de criar uma identidade desportiva para um inclusão social.
A atividade desportiva pode ser aplicada ainda na promoção da saúde em âmbito educacional, pela aplicação de conhecimento especializado em complementação a interesses voluntários de uma comunidade não especializada.
Fica claro, que o objectivo do desporto deve ser a promoção da saúde, a melhoria das mentes em corpos sãos e, em nenhum lugar, compete ao desporto a promoção do que quer que seja. Embora o desporto possa ter uma componente de competição, será abusivo confundir as duas realidades. A competição em si não é desporto, obviamente. A competição serve os desportistas de bancada e muito mais quem em nome deles, usando despudoradamente o termo desporto, usa a competição para alienar as massas, vende os valores e prospera à custa dos artistas, que, submetidos a ritmos desumanos de trabalho acabam frequentemente nas malhas da batota da dopagem ou com doenças graves induzidas pela prática de modalidades que pretensamente lhes deveriam beneficiar a saúde. Segundo a prática mais corrente, hoje em dia, parece até que a competição é a negação do desporto.
Por isso, ir de Cascais ao Guincho de bicicleta parece-me ser desporto. Andar na torreira do Alentejo às 3 da tarde é outra coisa.
quarta-feira, agosto 23, 2006
terça-feira, agosto 22, 2006
A obra do Império

Curiosos estes testemunhos de um país «libertado» em nome da liberdade.
Macissamente destruído por armas que para lá levaram (as outras ainda ninguém as encontrou), este é o estado a que chegou. Neste caminho ao contrário do que a história precisa, não é de estranhar que o «terrorismo» avance. Penso eu que escrevo no conforto do ar condicionado, na vizinhança de supermercados cheios de comida, onde me posso deslocar sem carências de combustível e a preços, ainda assim, razoáveis. E se me tirassem toda a esperança, me humilhassem diariamente, como reagiria? Estaria aterrorizado, seguramente e a pensar se terror com terror se paga?
A imagem é do Líbano actual. Pode apreciar-se melhor esta obra na Verdadeira Face do Terrorismo.
domingo, agosto 20, 2006
Novas descobertas
Não sei ao certo o que significa o discurso do Ministro Luís Amado ao querer uma papel maior da Europa na relação com os países árabes. Mas começa a ser tempo do fim do medo e, já o velhinho Soares, dizia, sem tibiezas, que a negociação era necessária. Não faz sentido sermos livres numa liberdade que nos não permite viajar ao lado de outros, não faz sentido condenar-mo-nos ao medo permanente, não faz sentido desistir da vida, nós que não acreditamos, com a facilidade dos idiotas, na ideia maniqueista dos bons e dos maus. O mundo é demasiado complexo, para podermos dividi-lo de uma forma tão simples. Temos que redescobrir a forma de o habitarmos, mesmo que isso implique deitarmos borda fora alguns idiotas que ainda nos dominam.
A segurança que nos falta (aos bons e aos maus) é outra: a segurança do emprego, do ensino, da saúde. É essa que se preparam para nos roubar, os que tanto falam da nossa segurança face aos maus. Essa a cultura que temos de espalhar por todo o mundo, novamente à espera da redescoberta. Depois, os maus vão desaparecer naturalmente.
A segurança que nos falta (aos bons e aos maus) é outra: a segurança do emprego, do ensino, da saúde. É essa que se preparam para nos roubar, os que tanto falam da nossa segurança face aos maus. Essa a cultura que temos de espalhar por todo o mundo, novamente à espera da redescoberta. Depois, os maus vão desaparecer naturalmente.
sábado, agosto 19, 2006
Como no deserto australiano

Parece bem mais sereno e no silêncio entrecortado pelo sorriso adequado, não vejo qualquer esgar. E o sorriso induzido pela visão da neta não é acaso, com certeza. Os olhos vão seguindo aqui e ali e, por instantes, pareceu-me ouvir que, os figos são bem bons. Há momentos em que olho, com mais leveza, as nuvens brancas no fundo azul nas três dimensões do céu do deserto da Austrália.
sexta-feira, agosto 18, 2006
O centenário e o ditador
Já se começava a adivinhar no sábado passado no Expresso com as referências do Professor Marcelo ao seu colega. Durante a semana, continuou com o anúncio exaustivo da presença da filha do colega, na entervista com Judite de Sousa. O resto foi o que se viu, um magnífico pai de família, com as suas convicções certamente, um inultrapassável professor, um ser dotado de uma inteligência completamente fora do comum, só que com as suas convicções. Mas mais, cercado por uns maus, os ultras. Ele até mudou o nome das coisas e falou em família, ele era um anjo a quem prenderam as asas. Ele manteve Portugal com gente descalça, com analfabetismo, com uma mortalidade infantil e níveis de saúde miseráveis, com uma oligarquia dominante que fugiu com ele para Brasil em Abril de 74, com uma guerra colonial de opressão sobre outros povos, com presos políticos que lutavam por devolver a dignidade a um povo inteiro. Ele suportou com toda a sua inteligência um regime fora de tempo. Mas, terei ouvido mal, nem uma vez nesta semana do branqueamento a propósito do centenário foi chamado de ditador.
Na mesma Imprensa que alguns insistem em chamar livre, ditador é o outro, o que acabou com o prostíbulo americano que era a Ilha, que pôs fim ao analfabetismo dos cubanos e lhes deu saúde de forma universal, o que devolveu a dignidade a um povo que deixou para trás a miséria e continua a resistir apesar de selvaticamente bloqueado na sua Ilha. Ditador por ter presos políticos que desejariam impedir a libertação de um povo?
Parece que o branqueado achava que o sistema de partidos não era condição necessária para a democracia, que os partidos eram formas de impedir o bem-fazer dos dirigentes ao seu Povo, por se envolverem em lutas entre si com desejo de conquista de poder usando argumentos falsos e enganosos, como deixou escapar a sua filha. O homem até não pensaria sempre mal, mas na análise era pouco esclarecido. Por isso a sua ditadura foi estagnante e indigna, sem margem para perdão. Já na Ilha, o progresso social mostra como podem existir «ditaduras» libertadoras.
Na mesma Imprensa que alguns insistem em chamar livre, ditador é o outro, o que acabou com o prostíbulo americano que era a Ilha, que pôs fim ao analfabetismo dos cubanos e lhes deu saúde de forma universal, o que devolveu a dignidade a um povo que deixou para trás a miséria e continua a resistir apesar de selvaticamente bloqueado na sua Ilha. Ditador por ter presos políticos que desejariam impedir a libertação de um povo?
Parece que o branqueado achava que o sistema de partidos não era condição necessária para a democracia, que os partidos eram formas de impedir o bem-fazer dos dirigentes ao seu Povo, por se envolverem em lutas entre si com desejo de conquista de poder usando argumentos falsos e enganosos, como deixou escapar a sua filha. O homem até não pensaria sempre mal, mas na análise era pouco esclarecido. Por isso a sua ditadura foi estagnante e indigna, sem margem para perdão. Já na Ilha, o progresso social mostra como podem existir «ditaduras» libertadoras.
terça-feira, agosto 15, 2006
Protestos
Protesto 1

Israel acaba de ter uma derrota histórica. Fez uma guerra porque lhe raptaram dois soldados. Não parece ter conseguido o resgate. Números do Público de hoje: Israel perdeu 110 militares, conseguiu mais 300 feridos além de mais 41 mortos civis e 600 feridos. Em troca mataram 1109 libaneses e feriram 3697. Mas, convém lembrar que fizeram a guerra porque lhes tinham raptado 2 (dois) militares. Ineficácia em larga escala, chacina selvagem. Estúpidos ainda não perceberam que não é possível suprimir um povo: Hitler não o conseguiu e, também eles, não irão nunca conseguir.
Protesto 2

Em Roma, bárbaros deliravam com o lançamento de escravos às feras. Nos tempos modernos, queques e quecas sensíveis insurgem-se contra as lides de touros, negando a beleza das imagens. No mínimo, as touradas ainda têm isso. Pelo contrário, neste pesadelo do ciclismo, nem a estética me seduz. É absolutamente bárbaro, porem-se homens convertidos em cartazes publicitários ambulantes, a pedalar debaixo de 40ºC, bem na hora de máximo calor, não em nome de qualquer desporto (isso far-se-ia às seis da manhã, pela fresca), mas convertidos em meros objectos para gáudio e proveito de variados interesses comerciais.
E o povoléu assiste, contente, É de borla! Enganam-se!

Israel acaba de ter uma derrota histórica. Fez uma guerra porque lhe raptaram dois soldados. Não parece ter conseguido o resgate. Números do Público de hoje: Israel perdeu 110 militares, conseguiu mais 300 feridos além de mais 41 mortos civis e 600 feridos. Em troca mataram 1109 libaneses e feriram 3697. Mas, convém lembrar que fizeram a guerra porque lhes tinham raptado 2 (dois) militares. Ineficácia em larga escala, chacina selvagem. Estúpidos ainda não perceberam que não é possível suprimir um povo: Hitler não o conseguiu e, também eles, não irão nunca conseguir.
Protesto 2

Em Roma, bárbaros deliravam com o lançamento de escravos às feras. Nos tempos modernos, queques e quecas sensíveis insurgem-se contra as lides de touros, negando a beleza das imagens. No mínimo, as touradas ainda têm isso. Pelo contrário, neste pesadelo do ciclismo, nem a estética me seduz. É absolutamente bárbaro, porem-se homens convertidos em cartazes publicitários ambulantes, a pedalar debaixo de 40ºC, bem na hora de máximo calor, não em nome de qualquer desporto (isso far-se-ia às seis da manhã, pela fresca), mas convertidos em meros objectos para gáudio e proveito de variados interesses comerciais.
E o povoléu assiste, contente, É de borla! Enganam-se!
segunda-feira, agosto 14, 2006
É possível um mundo melhor!
Do lado de lá, deitados, haverá sempre algum desconforto da incerteza dos dias seguintes. Percebe-se também nas pequenas coisas que os estatutos de vida são muitas vezes demasiado efémeros. Julgo que a única coisa que se deseja será imaginar que não haverá muita gente a pensar, pode ser que não voltes. Quando se fez uma vida a criar bem para a maioria (que não nos iludamos, isso implica criar prejuízo sempre a alguns) haverá ao menos a certeza que muitos desejam que se volte.
Fazer anos nestas circunstâncias torna-se ainda mais significativo, sobretudo quando são 80. Muitos na Florida, depois da festa anunciada estarão agora algo embushados. Para eles,em especial, as palavras e um autógrafo:
A mis compañeros de lucha, eterna gloria por resistir y vencer al imperio, demostrando que un mundo mejor es posible.
Hoy, 13 de agosto, me siento muy feliz.
A todos los que desearon mi salud, les prometo que lucharé por ella.
Fazer anos nestas circunstâncias torna-se ainda mais significativo, sobretudo quando são 80. Muitos na Florida, depois da festa anunciada estarão agora algo embushados. Para eles,em especial, as palavras e um autógrafo:
A mis compañeros de lucha, eterna gloria por resistir y vencer al imperio, demostrando que un mundo mejor es posible.
Hoy, 13 de agosto, me siento muy feliz.
A todos los que desearon mi salud, les prometo que lucharé por ella.
domingo, agosto 13, 2006
O valor das felicidades
Houve na Grécia antiga filósofos e atletas, certamente celebrados distintamente pelos gregos de então. Ambos terão contribuído para alguma felicidade dos seus contemporâneos. O atletismo e a filosofia continuam hoje a ser actividades praticadas. Por que sabemos quem foram os filósofos e esquecemos o nome dos homens das proezas atléticas?
A literatura, a música, a pintura permitem-nos uma compreensão, uma reflexão sobre o mundo e, por isso, de alguma forma, são-nos úteis para a nossa forma de estar, melhorando a nossa sensação de felicidade pelo que nelas aprendemos a interagir com o que nos rodeia. A felicidade que nos dá uma vitória desportiva é imediata e não persiste no tempo. Pouco se aprende com o golo do Nuno Gomes, de calcanhar, a baralhar a defesa adversária. É lindo, manifesta inteligência, reflexos, mas acaba naquele instante. Por muito orgástico, catártico que seja não nos melhora a relação com os outros, não nos ajuda a compreender aqueles com quem lidamos, não nos ajuda a ser mais eficazes nos sentimentos da vida.
Mas as reflexões sobre o amor e o poder, sob a forma de tragédia ou de comédia, de alguma forma armam-nos para a vida. Essa a razão de Mozart persistir mais que Zatopek, da eternidade de Picasso e da efemeridade de todos os morangos por muito açúcar que lhes ponham. No momento, a dose de felicidade causada até pode ser a favor dos fenómenos mais instantâneos. Mas com o tempo, só os outros vão continuar, geração após geração, a ser fonte de felicidade.
A sociedade do imediatismo pode meter tudo no mesmo saco. Se o parâmetro de avaliação for o rendimento imediato dos fenómenos, até podem ganhar os reality shows de todos os dias. Mas o mundo não acaba hoje, há mais tempos além do instante e, por isso, as lebres se cansam e as tartarugas continuarão a vencer.
Na verdade, o que mais importa nem é tanto o valor das felicidades que se possam ter, mas muito mais a felicidade que os valores nos dão.
A literatura, a música, a pintura permitem-nos uma compreensão, uma reflexão sobre o mundo e, por isso, de alguma forma, são-nos úteis para a nossa forma de estar, melhorando a nossa sensação de felicidade pelo que nelas aprendemos a interagir com o que nos rodeia. A felicidade que nos dá uma vitória desportiva é imediata e não persiste no tempo. Pouco se aprende com o golo do Nuno Gomes, de calcanhar, a baralhar a defesa adversária. É lindo, manifesta inteligência, reflexos, mas acaba naquele instante. Por muito orgástico, catártico que seja não nos melhora a relação com os outros, não nos ajuda a compreender aqueles com quem lidamos, não nos ajuda a ser mais eficazes nos sentimentos da vida.
Mas as reflexões sobre o amor e o poder, sob a forma de tragédia ou de comédia, de alguma forma armam-nos para a vida. Essa a razão de Mozart persistir mais que Zatopek, da eternidade de Picasso e da efemeridade de todos os morangos por muito açúcar que lhes ponham. No momento, a dose de felicidade causada até pode ser a favor dos fenómenos mais instantâneos. Mas com o tempo, só os outros vão continuar, geração após geração, a ser fonte de felicidade.
A sociedade do imediatismo pode meter tudo no mesmo saco. Se o parâmetro de avaliação for o rendimento imediato dos fenómenos, até podem ganhar os reality shows de todos os dias. Mas o mundo não acaba hoje, há mais tempos além do instante e, por isso, as lebres se cansam e as tartarugas continuarão a vencer.
Na verdade, o que mais importa nem é tanto o valor das felicidades que se possam ter, mas muito mais a felicidade que os valores nos dão.
De pé!
Parabéns, comandante!

Granma:
En porte firme como el caguairán
Un amigo cuenta que hace apenas unas horas, al visitar al Comandante a fin de despachar brevemente ciertos asuntos, fue testigo de una buena noticia que entusiasmado resumió en una frase: "El caguairán se levantó".
Dice que pudo apreciar cómo el Jefe de la Revolución, tras recibir un poco de fisioterapia, daba pasos en la habitación y luego, sentado en un sillón, conversó animadamente.
Como al árbol emblemático de la naturaleza cubana, enhiesto, con su madera fuerte, resistente e ideal para fabricar obras duraderas, nuestro amigo vio al Comandante, alentado y en pie, como quien anticipa nuevas victorias y en porte firme como el caguairán.

Granma:
En porte firme como el caguairán
Un amigo cuenta que hace apenas unas horas, al visitar al Comandante a fin de despachar brevemente ciertos asuntos, fue testigo de una buena noticia que entusiasmado resumió en una frase: "El caguairán se levantó".
Dice que pudo apreciar cómo el Jefe de la Revolución, tras recibir un poco de fisioterapia, daba pasos en la habitación y luego, sentado en un sillón, conversó animadamente.
Como al árbol emblemático de la naturaleza cubana, enhiesto, con su madera fuerte, resistente e ideal para fabricar obras duraderas, nuestro amigo vio al Comandante, alentado y en pie, como quien anticipa nuevas victorias y en porte firme como el caguairán.
sábado, agosto 12, 2006
Um dia... tem de ser mais cedo!
Acostumados aos fogos, aos mortos diários no Líbano, que quase já não contamos os do Iraque, aos medos das explosões dos aviões, seguimos. Cada vez há mais um estar acostumado a não viver, tal é a chegada das sempre mesmas notícias dos roubos, das guerras, das catástrofes naturais e das artificiais também. Aos poucos fica-se contente com a sobrevivência, com o ter-se escapado (da vida?). Dão-se graças a Deus por se estar vivo, sem que se entenda muito bem a utilidade da coisa. O grau de exigência com a vida vai-se reduzindo, fica-se dócil com a ideia do escapar do desastre, com a reacção possível, sem a acção necessária. Tudo isto é feito em nome de um Deus maior, um sentido de evolução com rumo não precisado, para um fim de história a que, querem convencer-nos, já chegámos, levados na vereda de sentido único do liberalismo, cegos de procurar outros carreiros. Mas lá que os há, há. Ou nada disto teria sentido. No limite, é esta esperança que nos move e mantém, mas a acção é necessária, muito rapidamente. Percebo, que nesta coisa, também´deve haver um ponto de espiral descendente e irreversível, de onde já não é possível fugir-se. A angústia é a não percepção dessa realidade, a tolerância com facínoras embushados nas decisões do Império, com fascistas sionistas, com as terceiras vias decadentes do blairismo, com a paralisia continental da Europa adormecida pela canção do bandido americano.
sexta-feira, agosto 11, 2006
Fogos
O país está a arder como é costume nesta altura. No entanto, algo está mudado. Este ano os fogos, para variar, lavram menos e adquiriram uma nova propriedade, são circulares. Daí ouvir tantas vezes que o fogo ficou (ou não) circunscrito. Sempre que ouço, imagino fogos redondos. Acho gira a expressão, porque até agora sempre os tinha imaginado como uma frente recta a avançar tocada pelo vento.
Até nos fogos me inquietam as diferenças. Morreu uma bombeira em combate e tem direito a visita de Ministro e Secretário e a família a apoio psicológico. Não que não seja desejável, mas penso que o desemprego dos psicólogis ficava resolvido se no Líbano houvesse o mesmo apoio de cada vez que alguém morre debaixo do fogo... E os ministros não chegariam para as encomendas.
Bom é nascer no sítio certo, podendo ser sempre alguns mais certos do que outros.
Até nos fogos me inquietam as diferenças. Morreu uma bombeira em combate e tem direito a visita de Ministro e Secretário e a família a apoio psicológico. Não que não seja desejável, mas penso que o desemprego dos psicólogis ficava resolvido se no Líbano houvesse o mesmo apoio de cada vez que alguém morre debaixo do fogo... E os ministros não chegariam para as encomendas.
Bom é nascer no sítio certo, podendo ser sempre alguns mais certos do que outros.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Colagens
First they came for the Communists,
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Communist.
Then they came for the Jews,
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Jew.
Then they came for the Catholics,
and I didn’t speak up,
because I was a Protestant.
Then they came for me,
and by that time there was no one
left to speak up for me.
by Rev. Martin Niemoller, 1945
Não são conteúdos fabricados, mas estão públicados na Fábrica de Conteúdos:
Um balanço oficial hoje divulgado revela que pelo menos 1.087 pessoas morreram e 3.568 ficaram feridas nos bombardeamentos israelitas no Líbano desde o início, há 29 dias, da ofensiva de Israel contra o grupo xiita libanês Hezbollah.
Desde o início da ofensiva a 12 de Julho, pelo menos 990 civis, dos quais cerca de 30% eram crianças com menos de 12 anos, morreram, bem como 30 militares e polícias libaneses, indicou a Comissão de Emergências do Governo libanês.
Entretanto, o Hezbollah anunciou a morte de 54 combatentes e o movimento aliado xiita Amal a de sete dos seus militantes. Também a FPLP-CG de Ahmad Jibril anunciou a morte de um combatente deste grupo palestiniano pró-sírio.
Como avança o site da RTP, durante o conflito também morreram quatro observadores da ONU e um membro da Força interina das Nações Unidas (Finul).
Toda a história está contada por António Vilarigues, recentemente no Público com o título «Cães de guerra ou a importância de se chamar Israel» O extracto gratuito fica aqui: O estado de Israel tem sido advogado de acusação, de defesa, juiz e carrasco de extremistas e de activistas palestinos. E nunca falha! Israel diz que é terrorista e está dito! O artigo na íntegra é de leitura obrigatória.
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Communist.
Then they came for the Jews,
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Jew.
Then they came for the Catholics,
and I didn’t speak up,
because I was a Protestant.
Then they came for me,
and by that time there was no one
left to speak up for me.
by Rev. Martin Niemoller, 1945
Não são conteúdos fabricados, mas estão públicados na Fábrica de Conteúdos:
Um balanço oficial hoje divulgado revela que pelo menos 1.087 pessoas morreram e 3.568 ficaram feridas nos bombardeamentos israelitas no Líbano desde o início, há 29 dias, da ofensiva de Israel contra o grupo xiita libanês Hezbollah.
Desde o início da ofensiva a 12 de Julho, pelo menos 990 civis, dos quais cerca de 30% eram crianças com menos de 12 anos, morreram, bem como 30 militares e polícias libaneses, indicou a Comissão de Emergências do Governo libanês.
Entretanto, o Hezbollah anunciou a morte de 54 combatentes e o movimento aliado xiita Amal a de sete dos seus militantes. Também a FPLP-CG de Ahmad Jibril anunciou a morte de um combatente deste grupo palestiniano pró-sírio.
Como avança o site da RTP, durante o conflito também morreram quatro observadores da ONU e um membro da Força interina das Nações Unidas (Finul).
Toda a história está contada por António Vilarigues, recentemente no Público com o título «Cães de guerra ou a importância de se chamar Israel» O extracto gratuito fica aqui: O estado de Israel tem sido advogado de acusação, de defesa, juiz e carrasco de extremistas e de activistas palestinos. E nunca falha! Israel diz que é terrorista e está dito! O artigo na íntegra é de leitura obrigatória.
Esquizofrenia nacional
Têm sido tempos de enriquecimento estes últimos. Tenho vindo a perceber melhor a causa de algumas coisas. No contacto com as pessoas que têm dirigido o hospital, verifico que é constante a noção de isolamento em que estão, voltados para dentro do seu mundo, não entendendo minimamente que estão integrados numa estrutura, muito menos numa empresa. É quase uma esquizofrenia. Querem definir tudo a partir do seu mundo, como as crianças mal educadas que se acham com direito a tudo. Insatisfeitos, pedem o mundo todo. Como eu, que pedi o mar quando me deram um barco pelo Natal. Exemplificando, funcionam assim: que espaço preciso para atendimento nas consultas? Tenho x médicos, mais y internos, logo preciso de x+y gabinetes alguns dias por semana. Como se a consulta servisse paa alojar os médicos do serviço e não para atender os doentes... Vai ser complicado, faze-los entender que têm x consultas a fazer e que para isso precisam de y horas nas quais vão empregar alguns dos seus médicos a trabalhar y horas e que o número de médicos não entra na equação.
Se calhar todo o país funciona assim, esquizofrenicamente a contemplar o umbigo. Ou não funciona...
Se calhar todo o país funciona assim, esquizofrenicamente a contemplar o umbigo. Ou não funciona...
segunda-feira, agosto 07, 2006
Os novos dos restelos
É desporto nacional a nostalgia do falhanço dos outros. É uma projecção das auto-insuficiências com que há que lidar, pacientemente e de uma forma, tanto quanto possível, pedagógica. Uns dias depois do êxito consumado, logo aparecerão a colher a «sua» quota parte da vitória. Entretanto, a caravana passou na direcção que se queria e isso é tudo o que importa.
Mas fica na memóriaa imagem da nervosa esperança ameaçadora que afirma, hoje correu menos mal, mas amanhã... Ou da insuperável ileteracía informática, fazem estes quadros bonitinhos (no Excel) e pensam que sabem alguma coisa da realidade...
Mas fica na memóriaa imagem da nervosa esperança ameaçadora que afirma, hoje correu menos mal, mas amanhã... Ou da insuperável ileteracía informática, fazem estes quadros bonitinhos (no Excel) e pensam que sabem alguma coisa da realidade...
sexta-feira, agosto 04, 2006
Misérias
Pior do que a miséria da falta de recursos, é esta de estarem atolhados nela e, de tal forma agarrados, que parece não quererem sair. Abdicaram da esperança tolhidos pelo hábito. Ou haverá algum sentimento de culpa que os paralisa?
Impressiona-me ver como criticam com firmeza toda e qualquer solução, sem apresentarem na verdade qualquer real alternativa. Basta-lhes ser parte do problema, não desejam fazer nunca parte da solução. Recusam as dores do parto, chegando-lhes o estado de aborto. Parece não quererem viver. Definitivamente.
Os hospitais para eles são o sítio de passagem, nunca um sítio de estar. Basta-lhes a indignidade de «viverem na merda» sem a coragem de dela saírem. Toda a mudança lhes estimula as resistências.
Impressiona-me ver como criticam com firmeza toda e qualquer solução, sem apresentarem na verdade qualquer real alternativa. Basta-lhes ser parte do problema, não desejam fazer nunca parte da solução. Recusam as dores do parto, chegando-lhes o estado de aborto. Parece não quererem viver. Definitivamente.
Os hospitais para eles são o sítio de passagem, nunca um sítio de estar. Basta-lhes a indignidade de «viverem na merda» sem a coragem de dela saírem. Toda a mudança lhes estimula as resistências.
quinta-feira, agosto 03, 2006
Semiótica (arte dos sinais e sintomas)
Veio sorridente nos seus 71 anos, bem diferente de há uns tempos atrás, quando o vi pela primeira vez. Mais cheinho como diz a «sua Maria» e enérgico me pareceu. Lá vimos a tensão arterial, conversámos, confirmámos os resultados das análises a afirmarem o equilíbrio. Feitas as prescrições e as despedidas, a «sua Maria» foi saindo, mas ele voltou atrás já com ela fora do consultório e foi aí que me atirou: «Oh sotor e pró sexo, isto já abalou?» Há perguntas que confirmam, bem melhor que os resultados das análises, o bem-estar do doente. Tem razão, veremos a próstata e vamos ver se o abalado, retorna.
quarta-feira, agosto 02, 2006
Gerir não é fechar a porta
O Estado gasta diariamente 20 milhões de euros em saúde. Na mesma notícia da TVI dão-se exemplos de gastos:
Exemplos dos gastos na saúde são um parto normal que custa em media 925 euros e as análises de rotina de um diabético que custam em media cerca de 172 euros.
E eu não percebo muito bem qual é a ideia. Será que para se reduzirem os gastos as grávidas devem deixar de parir, deverão pagar os partos ou irão ter os filhos em casa sozinhas? Afinal, um parto em África deve ficar mais barato... Quanto aos diabéticos deverão eles deixar de fazer análises?
Mais dúvidas, o custo de um parto e das análises dos diabéticos serão menores em sistemas privados de saúde? Porquê, se estes não podem prescindir do lucro (custo final = custo real+lucro), o qual não é necessário no sistema público e, logo, custo final= custo real? Portanto custo no público, necessariamente mais baixo que no privado. Mas dizem-me que não é. Há desperdício. Muito bem, então a via é o combate ao desperdício, gestão eficaz e rigorosa do público. Isso passa por profissionalização do sector público da saúde, privilegiando uma real dedicação exclusiva a quem nele trabalha, separando de vez e tornando concorrentes sector público e privado, acabar com esquemas de trabalho em part-time, despedir directores de serviço que não dirigem, pôr fim a relações estreitas entre indústria farmacêutica e médicos susceptíveis de aumentarem artificialmente os custos dos medicamentos por aumentarem as suas vendas. Isto seria racionalizar os custos, combater o desperdício.
Transferir os custos para os doentes, diminuindo a despesa do Estado não parece ser resolução. Mandava a decência que se reduzisse o que hoje se paga em Impostos ao Estado (e é aplicado em despesas de saúde) para os doentes para que pudessem pagar do seu bolso a factura da saúde. Então, que ganhariam as contas do Estado com a mudança? Para além do que o recurso à procura de cuidados de saúde não é um luxo nem um capricho do consumidor (doente). É antes, um azar seu, que justifica que numa sociedade solidária paguem os sãos os custos da doença dos doentes. E não é igual que sejam companhias de seguros a assegurar o sistema. Far-se-ia um seguro obrigatório? O seguro automóvel dito obrigatório não o é para muitos automobilistas e não tem grande importância. Se não existe, de alguma forma se pagarão as despesas da chapa batida. Mas o que aconteceria quando um doente não tivesse seguro de saúde? Deixa-se à porta do sistema de assistência para que as seguradoras e bancos associados possam continuar a acumular os lucros pornográficos que vemos publicados? Assim acontece no Império inspirador destes conceitos modernaços. Mas será isso que queremos?
Exemplos dos gastos na saúde são um parto normal que custa em media 925 euros e as análises de rotina de um diabético que custam em media cerca de 172 euros.
E eu não percebo muito bem qual é a ideia. Será que para se reduzirem os gastos as grávidas devem deixar de parir, deverão pagar os partos ou irão ter os filhos em casa sozinhas? Afinal, um parto em África deve ficar mais barato... Quanto aos diabéticos deverão eles deixar de fazer análises?
Mais dúvidas, o custo de um parto e das análises dos diabéticos serão menores em sistemas privados de saúde? Porquê, se estes não podem prescindir do lucro (custo final = custo real+lucro), o qual não é necessário no sistema público e, logo, custo final= custo real? Portanto custo no público, necessariamente mais baixo que no privado. Mas dizem-me que não é. Há desperdício. Muito bem, então a via é o combate ao desperdício, gestão eficaz e rigorosa do público. Isso passa por profissionalização do sector público da saúde, privilegiando uma real dedicação exclusiva a quem nele trabalha, separando de vez e tornando concorrentes sector público e privado, acabar com esquemas de trabalho em part-time, despedir directores de serviço que não dirigem, pôr fim a relações estreitas entre indústria farmacêutica e médicos susceptíveis de aumentarem artificialmente os custos dos medicamentos por aumentarem as suas vendas. Isto seria racionalizar os custos, combater o desperdício.
Transferir os custos para os doentes, diminuindo a despesa do Estado não parece ser resolução. Mandava a decência que se reduzisse o que hoje se paga em Impostos ao Estado (e é aplicado em despesas de saúde) para os doentes para que pudessem pagar do seu bolso a factura da saúde. Então, que ganhariam as contas do Estado com a mudança? Para além do que o recurso à procura de cuidados de saúde não é um luxo nem um capricho do consumidor (doente). É antes, um azar seu, que justifica que numa sociedade solidária paguem os sãos os custos da doença dos doentes. E não é igual que sejam companhias de seguros a assegurar o sistema. Far-se-ia um seguro obrigatório? O seguro automóvel dito obrigatório não o é para muitos automobilistas e não tem grande importância. Se não existe, de alguma forma se pagarão as despesas da chapa batida. Mas o que aconteceria quando um doente não tivesse seguro de saúde? Deixa-se à porta do sistema de assistência para que as seguradoras e bancos associados possam continuar a acumular os lucros pornográficos que vemos publicados? Assim acontece no Império inspirador destes conceitos modernaços. Mas será isso que queremos?
terça-feira, agosto 01, 2006
Instante
Imagem na tarde em que me faltaram os tinteiros e tive de ir ao Colombo: A rigor vestidos de negligé soft comprado nas lojas espanholas com nomes italianos passeiam-se, de férias, pelos corredores do shopping.
segunda-feira, julho 31, 2006
Repórter
A vida tem esta exigência de forçar as opções certas a cada instante. Depois, pode ser-se mais ou menos bem sucedido. Não se estranha, por isso, que por vezes se sonhe em ter outra diferente, perguntar e se tivesse ido por ali, como teria sido? A imaginação da fuga. Em parte pode ter sido isto que levou Antonioni a fazer O repórter. Este é um dos filmes que daria para ficar lá, no fim, a conversar. A ouvir o que cada um viu, tão diferente do que viu quem esteve ao lado. Num mundo com tempo, sem a exigência da receita da sessão seguinte. Mas não é possível, a cinemateca já não existe. Agora é cada um por si, isto é, cada um desiste por si. O cinema não pode ser motivo de reflexão. Aliás, nestes dias nada o deve ser. A cultura dominante não o permite, pela sofrega necessidade de consumo. Tudo é produzido para descartar no momento seguinte. Numa gigantesca montanha de nada, que nos esvazia se não estivermos atentos e resistentes.
domingo, julho 30, 2006
Ainda não chega?
Cruz Vermelha contou 56 mortos em Qana, incluindo 34 crianças
30.07.2006 - 14h11 PUBLICO.PT, AP
O ataque aéreo israelita esta manhã em Qana, no Sul do Líbano, matou pelo menos 56 pessoas, entre as quais 34 crianças, segundo um balanço actualizado da Cruz Vermelha Libanesa.
O total de libaneses mortos por Israel na campanha em curso desde dia 12 sobre assim para mais de 500, disse também a Cruz Vermelha, citada pela AP. Informações anteriores davam conta de 51 mortos, entre os quais 22 crianças.
Mísseis israelitas atingiram um edifício em Qana onde durante a noite se tinham refugiado famílias, tornando este ataque no mais mortífero nesta campanha israelita, que suscitou generalizada condenação internacional.
Responsáveis da segurança libanesa, citados também pela AP, falam em 57 mortos, entre os quais 16 mulheres adultas, mas é possível que estes números ainda subam, pois os trabalhos de remoção de escombros ainda prosseguiam. Disseram também que num dos quartos do edifício foram encontradas 18 pessoas de duas famílias.
O ataque eleva o número total de mortos dos 18 dias de ataques israelitas para pelo menos 514. Além dos mortos em Canaã, este número os 403 civis anunciados ontem pelo ministro da Saúde, bem como 20 soldados libaneses e 35 guerrilheiros confirmados pelos militares e pelo Hezbollah
Fica a notícia toda. A chacina continua e deixá-la prolongar-se não será pactuar com a absolvição de Hitler, Stalin, Milosevic, Saddam? Qual é a diferença? Ou a intenção de matar crianças não será a de evitar futuros soldados inimigos? Genocídio, óbvio.
Que nojo de argumento é esse de que a culpa foi deles por não terem saído, pois tinham sido avisados? Que noção básica de direito é esta? Então agora, a culpa de alguém ser morto é do morto por não ter fugido antes que lhe tenham disparado em cima?
30.07.2006 - 14h11 PUBLICO.PT, AP
O ataque aéreo israelita esta manhã em Qana, no Sul do Líbano, matou pelo menos 56 pessoas, entre as quais 34 crianças, segundo um balanço actualizado da Cruz Vermelha Libanesa.
O total de libaneses mortos por Israel na campanha em curso desde dia 12 sobre assim para mais de 500, disse também a Cruz Vermelha, citada pela AP. Informações anteriores davam conta de 51 mortos, entre os quais 22 crianças.
Mísseis israelitas atingiram um edifício em Qana onde durante a noite se tinham refugiado famílias, tornando este ataque no mais mortífero nesta campanha israelita, que suscitou generalizada condenação internacional.
Responsáveis da segurança libanesa, citados também pela AP, falam em 57 mortos, entre os quais 16 mulheres adultas, mas é possível que estes números ainda subam, pois os trabalhos de remoção de escombros ainda prosseguiam. Disseram também que num dos quartos do edifício foram encontradas 18 pessoas de duas famílias.
O ataque eleva o número total de mortos dos 18 dias de ataques israelitas para pelo menos 514. Além dos mortos em Canaã, este número os 403 civis anunciados ontem pelo ministro da Saúde, bem como 20 soldados libaneses e 35 guerrilheiros confirmados pelos militares e pelo Hezbollah
Fica a notícia toda. A chacina continua e deixá-la prolongar-se não será pactuar com a absolvição de Hitler, Stalin, Milosevic, Saddam? Qual é a diferença? Ou a intenção de matar crianças não será a de evitar futuros soldados inimigos? Genocídio, óbvio.
Que nojo de argumento é esse de que a culpa foi deles por não terem saído, pois tinham sido avisados? Que noção básica de direito é esta? Então agora, a culpa de alguém ser morto é do morto por não ter fugido antes que lhe tenham disparado em cima?
sábado, julho 29, 2006
Assinemos!
Se não desistirmos nunca, podemos evitar que a barbárie continue. A eficácia de uma criança que sobreviva ao nosso acto é eficiência bastante. Quem quiser vá ler e assinar a petição.
3 anos
Três anos de ouvidos e sentidos aqui têm ficado, numa actividade lúdica de registo para memória futura, se ainda conseguirmos desfrutar as memórias que se vão construindo. Se da grande história aqui pouco permanece, fica a forma como vi alguns dos seus bocados. Permanece a ilusão de ser ouvido às vezes. A sensação do impacto esmorece com a confrontação coma realidade. Tentando a distância possível, acho que se perde no emaranhado do blogório quase tudo o que vou registando. Vou assistindo também à desistência de outros que deram comigo os primeiros passos. Por agora, vou continuar com o desabafo do presente e a ilusão da leitura recordatória mais além. Aos que insistem em por cá parar de vez em quando, simplesmente, que vos aproveite qualquer coisa.
sexta-feira, julho 28, 2006
Mas é possível mudar...
Nada é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar B Brecht
Em termos de Economia sou uma nódoa. É que não percebo mesmo nada do assunto. Fico, então, com o choque dos ignorantes, abismado quando leio as notícias e vejo o Ministro das Finanças angustiado a dizer que o número de funcionários públicos (para os que não acreditam já nestas coisas, direi que continuam a ser PESSOAS) não aumentou, parecendo que o objectivo máximo dos governantes é criarem condições para despedir funcionários públicos (relembro, PESSOAS. (Vou, aliás, gostar de ver na próxima campanha eleitoral, os candidatos de PSD e CDS terem como bandeira de propaganda o anúncio de que se forem eleitos vão acabar de vez com essa espécie...)
Angustiado fico também, quando, neste contexto, sei do aumento dos lucros da banca: 31% de aumento face a período idêntico do ano anterior. Neste caso trata-se da melhoria de meia dúzia de famílias (boas famílias, claro)em detrimento de alguns milhares de funcionários (leia-se pessoas).
De que lado está o Governo quando permite isto? Querem que façamos sacrifícios em nome de que razão superior?
Alguém me diz quantos pobres são necessários para fazer um rico? E, também, para que serve fazê-lo.
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar B Brecht
Em termos de Economia sou uma nódoa. É que não percebo mesmo nada do assunto. Fico, então, com o choque dos ignorantes, abismado quando leio as notícias e vejo o Ministro das Finanças angustiado a dizer que o número de funcionários públicos (para os que não acreditam já nestas coisas, direi que continuam a ser PESSOAS) não aumentou, parecendo que o objectivo máximo dos governantes é criarem condições para despedir funcionários públicos (relembro, PESSOAS. (Vou, aliás, gostar de ver na próxima campanha eleitoral, os candidatos de PSD e CDS terem como bandeira de propaganda o anúncio de que se forem eleitos vão acabar de vez com essa espécie...)
Angustiado fico também, quando, neste contexto, sei do aumento dos lucros da banca: 31% de aumento face a período idêntico do ano anterior. Neste caso trata-se da melhoria de meia dúzia de famílias (boas famílias, claro)em detrimento de alguns milhares de funcionários (leia-se pessoas).
De que lado está o Governo quando permite isto? Querem que façamos sacrifícios em nome de que razão superior?
Alguém me diz quantos pobres são necessários para fazer um rico? E, também, para que serve fazê-lo.
quinta-feira, julho 27, 2006
Nunca é demais lembrar
Relendo Brecht
Elogio da Dialéctica
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
Elogio da Dialéctica
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
segunda-feira, julho 24, 2006
Protesto
Nas insanas contabilidades,quantificam-se os artigos que ninguém lê e esquecem-se os actos que ninguém descreve. Porque são os actos do senso comum, solidários afinal, o que se espera que surja normalmente. Só que muitas vezes, demasiadas vezes mesmo não surge. Quando aparece vem sempre quase e sempre dos mesmos lados. E não aparecem registados nas trezentas páginas dos curricula. Escandalosamente estão omissos. Em vez disso, um relambório desinteressante de participações em reuniões turísticas e escritos para nada.
domingo, julho 23, 2006
Contra a corrente
Inocentemente, na primeira página do Expresso e com chamada para um dos cadernos, lê-se que em Portugal há 11000 milionários. Depois as habituais comparações mostram que percentualmente estamos abaixo do que acontece em Espanha e etc pela Europa fora. Fica-se quase com o desejo de que deveriam ser mais para grandeza do país. Agora, um país é próspero quando o número de milionários é grande, um outro parâmetro de avaliar o produto nacional bruto. O grande desígnio dos portugas patriotas, além de porem as bandeirinhas na janela por ordem do senhor Scolari e com a benção dominical do Professor Marcelo, é contribuirem e depressa para que o país tenha mais milionários. Digam quantos pobres precisamos de fazer para criar mais uns quantos milionários e eles farão o que for preciso. Não se pode deixar o país das bandeirinhas ter este ar pobretana com tão poucos milionários. Façam-se mais uns quantos, mesmo que isso faça mais uns milhares de pobres, que o país precisa ter um ar renovado e próspero.
Se for preciso, acabem-se os tempos livres e os fins de semana. Acabem-se as garantias de emprego e façam-se preces ao São Precário. Basta de preguiça, é preciso fazer mais uns milionários.
Gosto de saborear um fim de semana em que não há nada à espera de ser feito, só o que o apetite dita. Acabei-o sem remorsos. O meu projecto de vida não é produzir milionários.
Se for preciso, acabem-se os tempos livres e os fins de semana. Acabem-se as garantias de emprego e façam-se preces ao São Precário. Basta de preguiça, é preciso fazer mais uns milionários.
Gosto de saborear um fim de semana em que não há nada à espera de ser feito, só o que o apetite dita. Acabei-o sem remorsos. O meu projecto de vida não é produzir milionários.
sexta-feira, julho 21, 2006
quinta-feira, julho 20, 2006
Complicómetros
A vida pode ser complicada nalguns dias. Noutros, é mais a complicação que lhe arranjamos. Muitas vezes, só pela falta de estética, tristemente esmagada por grosserias mal dominadas. Deve dar alguma insónia, epigastralgia, mal-estar ou mesmo náuseas. Para quem assiste é mais o mau cheiro do vómito que se avizinha. Alguma pena, que assim seja. Na verdade, as coisas até são simples, não adinata fugir delas nem ter receios sem fundamento. Podemos ou não ajudar a que se resolvam, com a certeza de que não seremos nunca fundamentais, insubstituíveis, na sua ultrapassagem. Essa consciência, que vem depois, também deve ser incómoda, pois quanta vontade não há de ser-se a peça sem a qual a máquina não mexe? Mas não, não só são dispensáveis como até chegam a ser escolhos no caminho e tudo seria mais fácil se a dragagem fosse feita. Felizmente, convenço-me que já faltou mais para que a porta se abra e possam ir arejar. Para que o ar que respiramos se possa renovar, que bem necessário é.
quarta-feira, julho 19, 2006
À atenção da comunidade internacional
Porque realmente é revelador, não resisti a copiar do resistir.info.
Os computadores já deitam fumo
Patético perguntava o elemento do Hezzbollah ao repórter da CNN, onde estava a comunidade internacional? Possivelmente, estão a fazer contas. Ainda não chegaram a uma conclusão exacta sobre o valor de dois soldados israelitas. Parece que valem muito mais que mais de trezentos mortos,perto de um milhar de feridos e meio milhão (ouvi dizer) de refugiados. Só que a tal comunidade, ainda não acabou de computar, quantos mortos, quantos feridos, quantos refugiados, valem afinal dois soldados israelitas. Por sinal ainda vivos, prisioneiros de guerra. Imagine-se, se forem mortos! Lá irá a comunidade fazer mais contas, regras de três, integrais e tendências para infinitos de inacção. Quanto valem soldados palestineanos raptados, presos por Israel? A comunidade internacional já há muito chegou a uma conclusão: NADA!
Diana Krall
Na noite anunciavam temporais, numa ânsia de tufões e sermos notícia que não entendo. Ainda assim, o jardim destapado encheu e não havia grandes notícias de nuvens pelo céu, também sem estrelas, diga-se.
Meia hora depois do prometido ela chegou, mais três amigos e começaram a tocar e ela a tocar e a cantar. E continuaram durante duas horas seguidas numa diversão que se via que tinham, mas separados pela distância que vai do palco às plateias. Gostei de ouvir, ainda que o desfrute se possa mais ter em casa sem ameaças de chuva não cumpridas. Alguns espectáculos não o são, alguma música e músicos são para se ouvir em recinto fechado, com boa acústica, no sossego da session. Porque foi boa música e bons músicos que ali estiveram. Só não houve espectáculo. E não sendo giro (cool) teve a vantagem de não ter chegado a ser wet jazz.
Meia hora depois do prometido ela chegou, mais três amigos e começaram a tocar e ela a tocar e a cantar. E continuaram durante duas horas seguidas numa diversão que se via que tinham, mas separados pela distância que vai do palco às plateias. Gostei de ouvir, ainda que o desfrute se possa mais ter em casa sem ameaças de chuva não cumpridas. Alguns espectáculos não o são, alguma música e músicos são para se ouvir em recinto fechado, com boa acústica, no sossego da session. Porque foi boa música e bons músicos que ali estiveram. Só não houve espectáculo. E não sendo giro (cool) teve a vantagem de não ter chegado a ser wet jazz.
domingo, julho 16, 2006
Gratidão
Aos poucos a distância tem-se encurtado. Primeiro até Torres Vedras, depois Óbidos, agora Peniche. Está pronto o IP-16. E quase todos os dias assisto à diferença e ouço dizer que está tudo igual.
Tenho a sorte de viver num local anabólico, sem vizinhos israelitas, que, periodicamente, destruam o construído e sem ter a felicidade de já ter nascido com tudo isto construído há muito, já quase velho.
Tenho a sorte de viver num local anabólico, sem vizinhos israelitas, que, periodicamente, destruam o construído e sem ter a felicidade de já ter nascido com tudo isto construído há muito, já quase velho.
sexta-feira, julho 14, 2006
Ao contrário, no caminho
A pretexto do rapto de 2 soldados a agressão terrorista (para amedrontar) continua no Líbano. Ainda não perceberam que a ausência de esperança que querem induzir vai ser o limite da sua viabilidade. Quando nos retiram o futuro, desvalorizamos o presente e ficamos dispostos ao que for preciso. A força bruta não faz desaparecer os argumentos da razão.
Foi neste dia que aconteceu há já tanto tempo:

A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais na França e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité). Há quem vaticine que os revolucionários instituiram à força das armas estas três premissas, que se nao completam sem uma quarta: a Morte. Assim era o grito da revolução: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou a Morte!" (Wikipédia)
E quando olhamos, passados todos estes anos, onde estão a Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Há algum movimento às arrecuas na história deste tempo. Para produzirmos o progresso a que nos querem convencer, criamos desigualdades crescentes, tornando-nos efectivamente em produtores de uns poucos ricos à custa da geração de muitíssimos pobres. São necessários muitos pobres para produzir um rico, quando a pergunta a fazer poderia ser, de quantos ricos precisamos para reduzir os pobres?
É por se não conseguir a Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que cresce a disponibilidade para a alternativa, a MORTE. E é abusivo chamar terrorismo à falta de alternativas. Terrorismo é o outro, organizado e apoiado pelo senhor Bush e seus amigos israelitas, que mata para meter medo. Mas medo só tem, quem tem esperança. Quando esta é aniquilada, perde-se o medo e vem a disponibilidade da MORTE.
Foi neste dia que aconteceu há já tanto tempo:

A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais na França e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité). Há quem vaticine que os revolucionários instituiram à força das armas estas três premissas, que se nao completam sem uma quarta: a Morte. Assim era o grito da revolução: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou a Morte!" (Wikipédia)
E quando olhamos, passados todos estes anos, onde estão a Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Há algum movimento às arrecuas na história deste tempo. Para produzirmos o progresso a que nos querem convencer, criamos desigualdades crescentes, tornando-nos efectivamente em produtores de uns poucos ricos à custa da geração de muitíssimos pobres. São necessários muitos pobres para produzir um rico, quando a pergunta a fazer poderia ser, de quantos ricos precisamos para reduzir os pobres?
É por se não conseguir a Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que cresce a disponibilidade para a alternativa, a MORTE. E é abusivo chamar terrorismo à falta de alternativas. Terrorismo é o outro, organizado e apoiado pelo senhor Bush e seus amigos israelitas, que mata para meter medo. Mas medo só tem, quem tem esperança. Quando esta é aniquilada, perde-se o medo e vem a disponibilidade da MORTE.
quinta-feira, julho 13, 2006
Dizer bem
Sabe-me bem viver num país assim. Estou a falar a sério, depois de pagar o Imposto automóvel no site da DGCI. Simples, realmente. Era isto que queria sentir com muitos outros actos do dia-a-dia.
Curioso foi ouvir logo de seguida o pessimismo. Dizem-me que não me alegre, que dentro de dias me vão enviar um papel para ir buscar os selos. Quem inventa este tipo de coisas? É o pessimismo habitual, o fado do desgraçadinho, o horror ao Estado.
Curioso foi ouvir logo de seguida o pessimismo. Dizem-me que não me alegre, que dentro de dias me vão enviar um papel para ir buscar os selos. Quem inventa este tipo de coisas? É o pessimismo habitual, o fado do desgraçadinho, o horror ao Estado.
quarta-feira, julho 12, 2006

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Soube muito bem mudar de feitos, sair da pressão do dever.
terça-feira, julho 11, 2006
Surpresa
Quando ouvi isto hoje de manhã, percebi que realmente isto não é bem um país. Só a sugestão deveria ser punida por lei! Realmente, desde que um certo estilo sul-americano começou a dominar o futebol, alguns ter-se-ão convencido que isto já não fazia parte da Europa. É o primarismo das bandeiras, a miserável prestação dos jornalistas-claque patrioteira e, finalmente, a cereja: isentem quem trabalha (medianamente) de impostos! Por ganharem, sabe Deus como, 5 jogos e por perderem 2 sem margem para dúvidas, estes rapazes ganharam 10 vezes o que muitos portugueses ganham a trabalhar um ano inteiro. Num país onde o desemprego grassa, vem agora o tio Madaíl pedir que os rapazes não paguem impostos. É o TUDO PELO FUTEBOL da camioneta. Francamente, chocado. Apesar de tudo ainda me conseguem surpreender depois de terem estádios Às moscas (nós pagámos), lhes darem terrenos para especularem à volta dos estádios (nós pagamos), terem ordenados escondidos (nós pagamos), terem ligações perigosas com as autarquias (nós pagamos), paralisarem de idiotice um país durante um mês (nós pagamos) ainda queriam mais... Querem mais, querem mais, querem mais? Ok, a cantiga acabou, meninos!
segunda-feira, julho 10, 2006
O elogio do desporto
O desporto de competição tem esta dimensão interessante de nos revermos nos melhores. Com isso estimula-se a juventude e os craques são o exemplo pelos seus bons comportamentos. Por isso, muitas vezes se estimulam os jovens a perseguir os estilos dos grandes craques.
Este dizem é o melhor jogador do mundo, o seu exemplo deve ser seguido?

Mas se nem serve para estimular a juventude e ser escola de virtudes para que serve, afinal, a alta competição? Para vender sapatilhas, camisolas e funcionar como anestésico?
Este dizem é o melhor jogador do mundo, o seu exemplo deve ser seguido?

Mas se nem serve para estimular a juventude e ser escola de virtudes para que serve, afinal, a alta competição? Para vender sapatilhas, camisolas e funcionar como anestésico?
domingo, julho 09, 2006
Acaba hoje... Uff
Mesmo com todo o esforço da claque jornalista da terrinha, a festa saiu pífia, pequenina, portuguesinha. Bem podem esticar nos comentários, apertar os ângulos das imagens, mas o mar de gente mais não foi que uma nascente.
TODOS PELO FUTEBOL mostrava a camioneta. Foram poucos, afinal. Pena que sejam dos mais carentes, dos mais sem esperança, agarrados a esta boia que lhes prolonga o naufrágio. Dentro em pouco, um qualquer Banco tomará conta das camisolas dos «heróis». É o fim do ciclo e a demonstração que o futebol continua a ser um bom objecto do sistema, mas só isso. Desculpem, mas não posso estar pelo futebol, estou antes por outro sistema.
Escrevo isto enquanto vejo o último jogo, a final, o jogo dos melhores. Isto são as duas melhores equipas do mundo! Ao que chegou o futebol! Ciência, táctica, técnica, rigor e a imaginação onde fica? Emoção deve ser esta marrada de Zidane, mais não há. Uma coisa destas devia levar à expulsão da equipa toda e a uma profunda reflexão sobre os motivos por que acontece. Jogo ou guerra económica? Desporto já sabia que não era, que há muito me acabaram as ilusões. Mas está a tornar-se demasiado desengraçado, talvez acabe.
TODOS PELO FUTEBOL mostrava a camioneta. Foram poucos, afinal. Pena que sejam dos mais carentes, dos mais sem esperança, agarrados a esta boia que lhes prolonga o naufrágio. Dentro em pouco, um qualquer Banco tomará conta das camisolas dos «heróis». É o fim do ciclo e a demonstração que o futebol continua a ser um bom objecto do sistema, mas só isso. Desculpem, mas não posso estar pelo futebol, estou antes por outro sistema.
Escrevo isto enquanto vejo o último jogo, a final, o jogo dos melhores. Isto são as duas melhores equipas do mundo! Ao que chegou o futebol! Ciência, táctica, técnica, rigor e a imaginação onde fica? Emoção deve ser esta marrada de Zidane, mais não há. Uma coisa destas devia levar à expulsão da equipa toda e a uma profunda reflexão sobre os motivos por que acontece. Jogo ou guerra económica? Desporto já sabia que não era, que há muito me acabaram as ilusões. Mas está a tornar-se demasiado desengraçado, talvez acabe.
sábado, julho 08, 2006
Ao ataque!
Como se houvesse uma imperiosa necessidade de drama, dificilmente hoje se consegue dizer que alguém é saudável. É só procurar um pouco mais, fazer umas análises mais, acabar-se-á por encontrar qualquer coisa. Parece ser esse o objectivo de alguns médicos e, estranhamente, dos próprios doentes. Acha mesmo que está tudo bem? A melhoria é franca, mas há uma interiorização do mal, da necessidade do drama. Estamos num mundo pouco optimista, à defesa. Donde nos vem este medo que nos leva à contenção, à falta do golpe de génio, a arriscar? Há demasiada ciência e matemática nas nossas vidas, estamos a ficar demasiado precisos e prudentes, numa palavra, sem graça. Será o medo a arma de que o sistema carece para se manter? Tudo tão longe do Vitória ou Morte! Mas afinal que é a vida sem vitórias? Prolongamentos e mais prolongamentos para tudo se decidir na lotaria das penalidades.
Foi o jogo de que mais gostei, três grandes golos! Que importa a derrota?
Foi o jogo de que mais gostei, três grandes golos! Que importa a derrota?
sexta-feira, julho 07, 2006
Consumo e produção
Reflectir sobre a necessidade, o modo e os efeitos deviam ser preocupações dos organizadores. No entanto, parece-me que apenas se procuram os efeitos e desses apenas os que não serão os mais justificáveis. Racionalmente, só a suspensão de tanta desta actividade seria defensável. Quanto custa isto? Quem quantifica os benefícios? Será que alguém faz a análise custo-benefício ou não será isto um exercício só para negativos, primeiro com consumo de informação e depois consumo da informação. Qual foi o produto?
quinta-feira, julho 06, 2006
Trégua
Por que compro guerras? Só porque deve ser! Que disparate, era muito mais cómodo estar em paz. O problema seria a podridão. Gosto de bom cheiro, é isso.
São cómodos os instantes das tréguas que tenho comigo.
São cómodos os instantes das tréguas que tenho comigo.
quarta-feira, julho 05, 2006
Prontos!!!
No meio do silêncio do país emigrado das ruas enquanto chegava a casa, parecia-me já ouvir aquele enorme comentário: Prontos!!
Assim foi. A frança multicultural ganhou. Le Pen perdeu. Ganhou o exemplo da tolerância, ganhou a França, não o chauvinismo. Eu destes franceses argelinos e pretos até gosto. Primeiro, contribuiram para aumentar a produção no Brasil, depois a nossa. Espera-se.
Assim foi. A frança multicultural ganhou. Le Pen perdeu. Ganhou o exemplo da tolerância, ganhou a França, não o chauvinismo. Eu destes franceses argelinos e pretos até gosto. Primeiro, contribuiram para aumentar a produção no Brasil, depois a nossa. Espera-se.
terça-feira, julho 04, 2006
Nas nuvens
A verdade é que no país suspenso, só as conferências de imprensa do senhor Scolari interessam e nada mais acontece. Amanhã logo se vê. A quem interessa o futuro além do tempo das 24 horas?
(Título do USA today depois da eliminação dos EUA pelo Gana)
Afinal, a culpa foi do mundo ter ousado continuar sem eles...
Só que a história continua e poucos sabem quem ganhou o tal campeonato TÃO IMPORTANTE em 1930 e tal...
Entretanto, vamos passeando nas nuvens:
(Título do USA today depois da eliminação dos EUA pelo Gana)Afinal, a culpa foi do mundo ter ousado continuar sem eles...
Só que a história continua e poucos sabem quem ganhou o tal campeonato TÃO IMPORTANTE em 1930 e tal...
Entretanto, vamos passeando nas nuvens:
domingo, julho 02, 2006
Fim de fim de semana
Por instantes, os sorrisos levantam-nos as dúvidas sobre os significados de existirem. Mas não me recordo que possam ser actos reflexos e aí também esboço um.
No regresso, ao pôr do sol, o dia começa. Como todos os dias, no anúncio de um amanhã.
No regresso, ao pôr do sol, o dia começa. Como todos os dias, no anúncio de um amanhã.
sábado, julho 01, 2006
A nova bandeira nacional

Depois virá Madaíl para Presidente, Scolari para Primeiro Ministro e far-se-á um governo com mais 20 e tal ministros e secretários de Estado.
Este é o verdadeiro motivo da demissão de Freitas do Amaral, afinal um dos poucos cidadãos que sabe onde está a coluna vertebral. Na verdade, foi apenas uma jogada de antecipação.
Fica-se assim também a saber a que se referia hoje o Senhor Alberto, quando disse que era necessário demitir este governo e criar um de unidade nacional. Nem mais!
sexta-feira, junho 30, 2006
A comunicação
«Já se não encontra gente dessa hoje em dia». Ouvi no corredor quando chegava ao hospital. É curiosa esta afirmação que traduz a percepção de que, como espécie, estaremos a piorar. Gente dessa era gente com preocupações com os outros, que tinha como valor negativo o individualismo, que achava a hipervalorização pessoal algo de quase criticável. Gente dessa, era afinal gente boa que dava jeito ter à mão. Gente generosa muitas vezes, porque treinada a pensar e a encontrar respostas.
Lembrei-me então de como na época da facilidade de comunicação, é difícil ter gente à mão. Por exemplo, ligamos para um serviço e começam por dar-nos música. Depois, vem a gravação dizer-nos que a chamada está em espera. Segue-se outra gravação (ao vivo), que nos «agradece o tempo que esperámos» e que, após a nossa pergunta, logo nos pede para esperarmos mais um pouco. Momentos depois, retoma a conversa com o novo agradecimento por termos estado à espera. Mas é como se nada estivesse a dizer-nos. Realmente, a jovem não nos está a agradecer nada, está a debitar uma mensagem que lhe gravaram na cabeça. Depois de consultar o algoritmo, sai a resposta. Se não nos convencemos, teremos nova pausa e novo agradecimento gravado e ao vivo minutos depois. E tudo sempre de acordo com o algoritmo, sem margem para pensar, para reflectir, para ter opinião. Afinal não falamos, não comunicamos, do outro lado está apenas um folheador de algoritmos elaborados por entidades ocultas que esperaram ter todas as respostas para as nossas perguntas. Dantes, alguém de quem não sabíamos o nome (agora dizem-nos como se chamam, mas também ficamos sem lhe sabermos os nomes) dizia-nos o que pensava, o que sabia sobre o que lhe perguntávamos. Agora só ficamos com as meias respostas de seres ocultos. Quem nos responde já se habituou a não ter opiniões nem conhecimentos, apenas folheia algoritmos. Desiludidos com isto, destreinamo-nos de questionar, porque o mais certo é não obtermos respostas. Tempo perdido.
Lembrei-me então de como na época da facilidade de comunicação, é difícil ter gente à mão. Por exemplo, ligamos para um serviço e começam por dar-nos música. Depois, vem a gravação dizer-nos que a chamada está em espera. Segue-se outra gravação (ao vivo), que nos «agradece o tempo que esperámos» e que, após a nossa pergunta, logo nos pede para esperarmos mais um pouco. Momentos depois, retoma a conversa com o novo agradecimento por termos estado à espera. Mas é como se nada estivesse a dizer-nos. Realmente, a jovem não nos está a agradecer nada, está a debitar uma mensagem que lhe gravaram na cabeça. Depois de consultar o algoritmo, sai a resposta. Se não nos convencemos, teremos nova pausa e novo agradecimento gravado e ao vivo minutos depois. E tudo sempre de acordo com o algoritmo, sem margem para pensar, para reflectir, para ter opinião. Afinal não falamos, não comunicamos, do outro lado está apenas um folheador de algoritmos elaborados por entidades ocultas que esperaram ter todas as respostas para as nossas perguntas. Dantes, alguém de quem não sabíamos o nome (agora dizem-nos como se chamam, mas também ficamos sem lhe sabermos os nomes) dizia-nos o que pensava, o que sabia sobre o que lhe perguntávamos. Agora só ficamos com as meias respostas de seres ocultos. Quem nos responde já se habituou a não ter opiniões nem conhecimentos, apenas folheia algoritmos. Desiludidos com isto, destreinamo-nos de questionar, porque o mais certo é não obtermos respostas. Tempo perdido.
quarta-feira, junho 21, 2006
De Cape Cod
Afinal ainda não foi desta que o blog morreu. Excesso (nunca é!) de férias tem impedido vir aqui deixar algumas notas.
Acontece que hoje cheguei onde a geografia deste país faz músculo com o braço esquerdo e sobrou um pouco de tempo no meio desta azáfama.
A viagem desde Bóston faz-se, em ritmo americano sem conflitos com a polícia, em cerca de 3 horas até Hyannis, quase no meio do antebraço de Cape Cod. A auto-estrada é um rasgão pelo meio de uma floresta. A península tem o charme habitual destes locais de ir no Verão, com as pequenas casas de madeira, frequentemente enfeitadas pela bandeira americana como agora está na moda. Optámos por vir pela 6A, mais perto da costa, em vez de usar a auto-estrada que corre a meio do braço.
De um lado e do outro da estrada ou a vegetação e os relvados das casas numa sucessão de inns, B&Bs e restaurantes onde domina o marisco como oferta. Parece que é para isso que aqui se vem. E nós fizemos o que tem de se fazer, no Marathon seafood em Dennis, um tasco de beira de estrada (como nos filmes) onde os lombos de lagosta e a clam chowder cumpriu acompanhada da Budweiser clássica.
Durante a manhã ainda se tinha andado pelo Quincy Market e percorrido a Beacon Hill St em Bóston na busca do Cheers que agora, afinal, se transplantou para Quincy Market, ficando na Beacon nº 84, o Bull and Finch, onde a ligação ao bar da série se limita à bandeira e à loja de franchising do Cheers. De volta passou-se pelo Public Garden e pelo Bóston Common antes de chegar à agência de aluguer do carro em que viajámos. Como já nos habituámos, não se pode parar a olhar para um mapa que logo vem um simpático americano safar-nos da desorientação. Mas sobre América e americanos, tentarei voltar nos próximos dias, recordando aos poucos o que tem sido esta viagem desde o dia 10 de Junho.
Acontece que hoje cheguei onde a geografia deste país faz músculo com o braço esquerdo e sobrou um pouco de tempo no meio desta azáfama.
A viagem desde Bóston faz-se, em ritmo americano sem conflitos com a polícia, em cerca de 3 horas até Hyannis, quase no meio do antebraço de Cape Cod. A auto-estrada é um rasgão pelo meio de uma floresta. A península tem o charme habitual destes locais de ir no Verão, com as pequenas casas de madeira, frequentemente enfeitadas pela bandeira americana como agora está na moda. Optámos por vir pela 6A, mais perto da costa, em vez de usar a auto-estrada que corre a meio do braço.
De um lado e do outro da estrada ou a vegetação e os relvados das casas numa sucessão de inns, B&Bs e restaurantes onde domina o marisco como oferta. Parece que é para isso que aqui se vem. E nós fizemos o que tem de se fazer, no Marathon seafood em Dennis, um tasco de beira de estrada (como nos filmes) onde os lombos de lagosta e a clam chowder cumpriu acompanhada da Budweiser clássica.
Durante a manhã ainda se tinha andado pelo Quincy Market e percorrido a Beacon Hill St em Bóston na busca do Cheers que agora, afinal, se transplantou para Quincy Market, ficando na Beacon nº 84, o Bull and Finch, onde a ligação ao bar da série se limita à bandeira e à loja de franchising do Cheers. De volta passou-se pelo Public Garden e pelo Bóston Common antes de chegar à agência de aluguer do carro em que viajámos. Como já nos habituámos, não se pode parar a olhar para um mapa que logo vem um simpático americano safar-nos da desorientação. Mas sobre América e americanos, tentarei voltar nos próximos dias, recordando aos poucos o que tem sido esta viagem desde o dia 10 de Junho.
quinta-feira, junho 08, 2006
Obviamente
Naquele mês a conta da electricidade foi quase dez vezes o habitual. Como se a luz tivesse estado apagada todo o ano e, subitamente, todas as lâmpadas tivessem ficado acesas o mês todo. Expliquei-lhe que, agora, já só vinham verificar os consumos uma vez por ano, que não era necessário ter funcionários a registar as medições todos os meses. Faziam uns cálculos e uma vez ao ano acertavam contas. Não percebeu, logo agora que há tanta gente desempregada! disparou. Faz realmente todo o sentido a dúvida. Numa Economia para as pessoas, sem a preocupação de economizar nas pessoas.
segunda-feira, junho 05, 2006
Em dois dias seguidos
1. Chega o café, acompanhado do respectivo pacote de açúcar. A cliente pergunta, tem adoçante? A resposta, vem seca: tenho! Segue-se uma pausa e alguma estupefação da cliente, após o que vem a pergunta inesperada, quer que lhe traga? Como se fosse admissível que a cliente apenas tivesse feito a pergunta para saber se havia adoçante naquele restaurante... simples curiosidade, sei lá.
2. Telefono para o secretário administrativo e pergunto-lhe o número de telefone da senhora Administradora e obtenho como resposta «parece-me que é o 1111». Parece-lhe ou tem a certeza, arrisco. Ah, quer telefonar-lhe? Claro, seria por andar a coleccionar números de telefone, que lhe pedia a informação? Depois de verificado, não era... Moral: nem tudo o que parece, é.
Mas que se passa? Será que certas perguntas não contêm uma intenção manifesta quando são formuladas? Será só para manter conversa? Às vezes penso que isto pode ser uma manifestação de uma doença a descrever brevemente, caracterizada por um não me chateis que tenho mais que fazer. Só que ninguém percebe muito bem o que seja.
2. Telefono para o secretário administrativo e pergunto-lhe o número de telefone da senhora Administradora e obtenho como resposta «parece-me que é o 1111». Parece-lhe ou tem a certeza, arrisco. Ah, quer telefonar-lhe? Claro, seria por andar a coleccionar números de telefone, que lhe pedia a informação? Depois de verificado, não era... Moral: nem tudo o que parece, é.
Mas que se passa? Será que certas perguntas não contêm uma intenção manifesta quando são formuladas? Será só para manter conversa? Às vezes penso que isto pode ser uma manifestação de uma doença a descrever brevemente, caracterizada por um não me chateis que tenho mais que fazer. Só que ninguém percebe muito bem o que seja.
sábado, junho 03, 2006
Pipi
É cada vez mais um país pipi ou polifónico. Em todo o lado irrompe o Toreador ou o Bolero. Nunca se ouviu tanta música clássica. Diz a notícia que há mais de 11 milhões de utilizadores e que a taxa de penetração se aproxima dos 110%. Não há dúvida: bem penetrados, geralmente mal pagos e com muita vibração... Lá vamos, telefonando e rindo, levados, levados, sim. É que não há tempo a perder!
quinta-feira, junho 01, 2006
Segurança anti-social
Tinha um ar aliviado nas palavras, mas alguma tristeza nos olhos. Tristeza ou remorso, não percebi bem. Anunciava-me, talvez, pela décima vez que tinha entregue a papelada para se reformar usando o sentido de oportunidade que é acessível aos que nasceram até ao ano certo. Fazendo-o agora, conseguia ter cerca de 2500 euros, amanhã ninguém sabe quanto seria, por isso vamos antes que se faça tarde. O incómodo existia, pois foi-lhe necessário dizer que não era propriamente uma pensão milionária. Deixou-me a meditar nestas coisas da segurança social e na facilidade com que se usam palavras simpáticas para designar exactamente o contrário. Segurança social, imaginava eu, diria respeito a manter os cidadãos de uma comunidade preservados do meio hostil, isto é, dar-lhes uma casa, cuidados de saúde, alimentação e por aí adiante. Acho que esta realidade não rima bem com pensões que ultrapassam, como tem sido descrito nos jornais, mais de 10 vezes o ordenado mínimo. Traduzo, há uns tipos que têm de trabalhar quase durante um ano para obter o que outros conseguem, num mês, a descansar, (os quais tinham passado a vida a descontar mensalmente, enquanto trabalharam, aproximadamente um mês de vencimento dos outros). Ou seja, este comportamento anti-social já vem de longe. Porque muitas vezes, já a força se lhes foi e mais não conseguem que ir passando o tempo de forma a não desarranjar de vez o coração, os pulmões e outras peças, mais não conseguirão do que acumular capital sem proveito próprio. Assim, a segurança social destes milionários das reformas nem sequer é a deles, é a dos filhos e sobrinhos, os quais, em grande medida, já dela não careciam também, por terem tido possibilidades de formação e ocupação que os isentaram do risco social. Por ironia, poderão mesmo estar nos lugares onde se decide a segurança social. Francamente, isto parece-me tudo muito pouco social e mais, não me garante segurança nenhuma, diria mesmo que terá de acabar em barricada um destes dias.
quarta-feira, maio 31, 2006
Momento II
Vitória contra-relógio, isto é a correr sozinhos, por menos de 20% de votos. A culpa nem é de quem se absteve, mas de quem não cria sedução no processo. Ou será, atendendo a que são os votos dos mais antigos, daqueles que sentiram sempre a necessidade de votar, a prova de que algo mudou na gente nova. Será indiferença ou desespero, mas seguramente é a prova de que isto está errado, de é preciso mudar processos.
Momento I
Ainda sobre um mar de aparente serenidade, adivinham-se os ventos fortes, a tempestade. Só não entendo a sua utilidade. Será apenas a prova de que o precurso avança, por vezes, com passos para trás. Antes da inevitável corrida para a frente.
segunda-feira, maio 29, 2006
Esquizofrenia
Tenho este defeito de começar o dia a ouvir a TSF, o que, percebo cada vez mais me dá uma terrível sensação de esquizofrenização. Basicamente, ouço publicidade onde os bancos, aos milhares, me mandam comprar tudo, procurar todos os caminhos fáceis possíveis, que na sua imensa simpatia me pagarão tudo. Mostram-me como é bom e fácil este país dos Bancos. Nos curtos intervalos sem publicidade, há uns blocos de notícias, onde os mais variados Ministros, quando não mesmo o Primeiro de todos eles, me vem falar da crise e da necessidade de sacrifícios, dos mais variados. Como é dramático este país do Poder. É complicado seguir entre duas versões tão antagónicas da coisa que aparentemente será a mesma. Pode mesmo acontecer que ambos tenham razão, que seja o país da felicidade banqueira, que depois causa a necessidade de tantos sacrifícios e que alguém não esteja a contar a história toda. Mas, a Direcção Geral de Saúde devia intervir nesta coisa e esclarecer-nos de vez para não acabarmos ainda mais (já andamos um pouco à margem da realidade, não é?) esquizofrénicos.
Sem comentários
«Onde estava Deus nos tempos do Holocausto?» Perguntou o Papa de visita a Auschwitz.
domingo, maio 28, 2006
Medeia
(Medeia, Cezanne)E quase nada mudou, porque os homens são afinal iguais no fim de todo este tempo. Gregos ou agora, as mesmas traições e vinganças, a mesma percepção de continuidade ou do seu fim necessário. E o público de teatro, será o mesmo aqui e lá? Estariam também os anfiteatros meio vazios ou ainda não havia futebol e vacas na cidade?
quinta-feira, maio 25, 2006
Du(r)as realidades
Título em branco
Uns dias, ao entrar, já sei o que vai sair. Outros, como hoje, entro por desafio, com a sensação de vazio do papel em branco. Vou pelas palavras que estão nos dedos sem saber onde me leva o caminho. E neste instante, parece que as palavras devem estar arrumadas nalgum sítio, a dificuldade é ir buscá-las. Como um piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii prolongado no texto a gritar silêncios.
quarta-feira, maio 24, 2006
Os chatos
Não é novo, já os romanos achavam que o povo era estranho, nem governava, nem se deixava governar. É genético. Geralmente, temos o prazer de contestar, sem nunca nos pormos em causa. Toda a culpa é de algo impreciso, fora de nós, as vítimas de sempre. Reage-se sem acção. Em tempos de pró-actividade, esta atitude conduz à depressão e à asneira.
O que queremos? Eis a questão.
O que queremos? Eis a questão.
Privados e público
A sport TV não deixa que os jogos de futebol sejam transmitidos em lugares públicos. Até acho óptimo! Era só o que nos faltava agora, ter as praças cheias de cachecóis e berraria histérica e, espero, desespero passados os 90 minutos. Mas o que isto tem de mais curioso, é a chamada defesa do interesse público pela iniciativa privada. Como se vê pelo exemplo, privados, como é próprio da sua natureza, estão-se nas tintas para os interesses públicos. O negócio deles é maximizar os rendimentos privados, não defender o público (isto é, nós). E o que acontece com o futebol, poderá acontecer com outras actividades como a saúde. Como habitualmente acontece, o futebol vai à frente, mostrando-nos o que nos espera. A opção será de cada um. Eu estou decidido há muito.
terça-feira, maio 23, 2006
Le Prince (nada petit)
Ajudar os amigos é do mais louvável que há. Pois será, mas quantos, às vezes, poderão ser prejudicados, pela ajuda que lhes damos? Ou seja,nesta teia dos interesses, ajudar uns, vai muitas vezes ser o prejuízo de outros, eventualmente, nossos amigos também. Tanto mais que também os amigos se banalizaram. São de consumo e uso fácil. E, por definição, deviam ser únicos, alguém que cativamos.
domingo, maio 21, 2006
Ficar na margem (com a Berlenga em fundo)

Pode a vida ser este confronto com o meio que nos envolve. Para sobrevivermos fomos criando a ciência, escondemos conhecimentos para os vendermos melhor pelas incertezas de novas descobertas, descobrimos as falhas de ética nos relacionamentos com os outros, inventámos o remorso, elaborámos conceitos e chegámos ao Direito, à medida que as diferenças foram nascendo. Para nos apaziguarmos, esquecidos já das origens comuns, precisámos de Deus para nos acudir nas insuficiências dos nossos saberes ou para acautelar os privilégios dos dominantes e moderar os desejos legítimos dos dominados. Regulámos quase tudo para podermos viver juntos e, subitamente, começaram a difundir-se cânticos de sereia que nos isolam dos outros face ao mundo, com promessas de bem-estar definitivo. Fácil, sem luta, tudo conseguido com golpes de mágica. Vendem-nos ídolos e imagens de sucesso, celebridades. Atordoam-nos os sentidos com o sucesso das nossas equipas, que nos representam e que à falta dos nossos êxitos, nos garantem sucessos colectivos que temos ilusão de partilhar. Nos intervalos assustam-nos com perigos de todas as espécies, com roubos e fraudes, violações e espancamentos, quase nos dando a ideia de não podermos mais sair à rua, de ser necessário a todo o instante desconfiar daqueles com que nos cruzamos. Aceleram-nos até ao limite da vertigem, para que sintamos a náusea da paragem. E como marionetas temos ido neste rumo sem destino.
Na margem desta corrente, ficam alguns, cada vez mais sós, olhando, às vezes gritando inutilmente no meio do ruído ambiente. Só por necessidade e em homenagem a uma história que só em conjunto se pode realizar. A tal que não faz sentido seguir sozinho, apenas porque a vida não é para isso. A sobrevivência faz-se colectivamente, o resto é torpor. A história tem sentido, o torpor, por mais adrenalina que contenha, para que serve?
quarta-feira, maio 17, 2006
Relatividade
Razão teria o tio Joaquim, quando confrontado com os conselhos de perder peso, beber menos e não fumar, tinha aquele ar em que os lábios encolhiam os ombros, dizendo com os olhos que bem pouco sabíamos da vida. Desconcertante, completamente alheio às estatísticas, se calhar bem sábio. Sorriu até ao fim.
terça-feira, maio 16, 2006
A árvore de pé
Antes, logo imediatamente antes da saída para Sesimbra, do outro lado da auto-estrada, fica, num intervalo súbito sem prédios, aquele tronco elevado antes do azul do céu. É uma árvore seca, ainda com ramos desenhando quase uma cornucópia tombada sobre a esquerda, de ramos cada vez mais finos, em várias ordens de emergência como uns brônquios. Ali erguida com toda a dignidade da sua secura, deixando quase ouvir o crepitar de lenha seca do lado de cá da estrada. Nem uma folha, só a silhueta em contraluz numa afirmação de verticalidade, num intervalo do betão. Tenho ganas de trazer a Canon e a tele e disparar uma única vez para a fixar, porque é enormemente bonita na sua secura e no seu som de vida já passada.
Problemas
Houvesse o ranking da criação de problemas e lá estaríamos destacados em primeiro lugar. Antes de mais gostamos de criar problemas, em quantidade suficiente que daria para exportar e encher o mundo deles. Só que o mundo se defendeu desta forma de estar e nos devolveu, depois da expansão, para este canto, onde a vocação inata nos leva compulsivamente à produção. O mundo está a globalizar, a ficar com regras, onde esta forma de estar não se encaixa. E desta forma a vocação da criação dos problemas vai começar a ser problema e, esta forma de estar, não parece vir a ter grande futuro. Ou deixamos de criar problemas e descobrimos soluções ou vamos, realmente, além de sermos um problema, ter grandes problemas.
Esta maneira de estar a olhar para nós é própria de um país de vagabundos solitários e anti-sociais. Será o fado o caminho para debaixo da ponte, a resmungar contra um mundo do qual nos alheamos, fugindo, esquizofrenicamente, para um mundo nosso separado do real?
Esta maneira de estar a olhar para nós é própria de um país de vagabundos solitários e anti-sociais. Será o fado o caminho para debaixo da ponte, a resmungar contra um mundo do qual nos alheamos, fugindo, esquizofrenicamente, para um mundo nosso separado do real?
domingo, maio 14, 2006
Pesadelos
É por uma questão de bom senso e boa educação que nos dias de hoje não comento as concentrações de milhares no Santuário, nem as práticas masoquistas que até lá levam. Já não ando por aí a falar dos ópios de multidões. Não é que tenha renegado a análise desta realidade. É mesmo só porque seguro do que sou, posso não ser fanático e fundamentalista manipulador. Por isso sorrio quando ouço um bispo polaco fanático e fundamentalista falar de pesadelos passados na Polónia. Pesadelos do presente no Iraque e em toda a África serão hoje mais motivo de reflexão. Ainda penso que há verdadeiras libertações a conseguir nos dias de hoje, mas não sei se cabem em certas orações ou se teremos de esperar por novas revelações.
sábado, maio 13, 2006
Casa de sonhar

Dizem-me que sonho todas noites quando durmo, mas sempre ao levantar tenho dúvidas por já me ter esquecido dos gozos e tormentos desses instantes. Geralmente, é assim no dia-a-dia da cidade. Mas aqui é diferente. De manhã levanto-me, quase 10 horas depois de ter adormecido, e lembro-me das impossibilidades e incoerências desses momentos. Para além de tudo o mais, esta é também a casa dos meus sonhos.
sexta-feira, maio 12, 2006
Ao pôr do sol
Havia desenhos de água na areia e a ilha ao longe a desaparecer na tarde. Bolas, esqueci-me de trazer a máquina! Deixa-me guardar aqui. E guardo também novas certezas de que a vida podem ser pequenas reacções hesitantes e inconsequentes, esquecidas. Pode muito bem ser verdade, que reacções aparentemente patéticas sejam bem mais complexas e sinónimos de vida que o abanar da cauda cortada de um cão em busca de um toro de couve.
quinta-feira, maio 11, 2006
Sem solução?
Agora me apercebo como cada um sabe tão bem a solução do que lhe diz respeito. Os outros é que têm a culpa de a perfeição desta solução não ser posta em prática. Por isso, o senso comum de que a culpa é sempre dos outros. O problema é que não vivendo sozinhos, saber bem a solução que nos diz respeito, implica mais do que sabermos a nossa solução, torna necessário sabermos a solução colectiva de com quem também vivemos. Não descobrir essa solução implica não encontrarmos a nossa própria.
Será que somos um povo anti-social?
Será que somos um povo anti-social?
quarta-feira, maio 10, 2006
Mudar
Nesta terra aposta-se na desvalorização do técnico. Entre um parecer dele e o de qualquer grávida, prevalece o da segunda, porque ela acha que sim no seu saber mais do que iluminado. O mais engraçado é o ar tímido com que os técnicos vêem esgrimir os seus argumentos, perante quem tem a barriga cheia de certezas irrefutáveis (neste caso doutras coisas, mas enfim). Realmente, fica a sensação que a barriguda é que tem razão, tal a forma assertiva como expõe a coisa. O Ministro toma a decisão duvidosa de ouvir os técnicos em vez das barrigudas e a bronca está armada. Mais lhe valeria ter uns técnicos a rabujar nos gabinetes do que as barrigudas no meio da rua. Era mais tranquilo para ele. Depois, se os recém-nascidos tivessem problemas, a culpa seria dos técnicos que se não pronunciaram, etc e tal. Demitia-se o ministro, que é o projecto máximo de qualquer oposição que se preze e tudo ficava bem. Mas há uns tipos teimosos.
Nesta terra, quase tudo está mal até ao momento em que se vai mudar. Há um horror há mudança, que torna simpática a merda em que se está. Será porque se alguma coisa melhorar, desaparecem os argumentos?
Vale isto para maternidades e reestruturações de consultas por exemplo.
Nesta terra, quase tudo está mal até ao momento em que se vai mudar. Há um horror há mudança, que torna simpática a merda em que se está. Será porque se alguma coisa melhorar, desaparecem os argumentos?
Vale isto para maternidades e reestruturações de consultas por exemplo.
terça-feira, maio 09, 2006
Instante de fotografia
O fundo pode ser imaculadamente branco, mas atravessado por uma faixa de rua preta. No passeio de lá, o pai empurra o bébé no carro; no passeio de cá, o filho empurra o pai na cadeira de rodas. Caminham os dois para a mesma parte do tempo. Só que o fazem em sentidos opostos, para espaços contrários.
domingo, maio 07, 2006
Onde estar?
Tenho vontade de estar onde não estou e desta forma se escoam os dias, estes dias. Se aqui estou era lá que queria estar, mas estando lá, estaria aqui melhor. Aonde vou nem eu sei.
sábado, maio 06, 2006
Paralisia
O silêncio incomoda, a agitação doi. Um e outra despertam dúvidas, incertezas sobre o caminho mais certo. Mais, não sei escrever.
sexta-feira, maio 05, 2006
Limitações
É limitado afirmar-se que pensar a acromegalia é o que é necessário. Tem toda a razão aquela colega ao dizer que temos de pensar outras coisas, que temos de resistir à fúria da produtividade, que temos de ter tempo para falar e olhar os doentes (mas é para isso, não para deixar os consultórios vazios, direi eu) , que temos de ter espaço para continuarmos a obra de termos o 12º melhor SNS do Mundo. Está enganado o moderador que acha não ser o espaço indicado, nem sermos nós os indicados para fazer esta discussão. Todos os momentos são indicados e todos somos os indicados para fazermos esta coisa simples que é pensar, perguntar porquê. Há coisas muito mais importantes do que vender drogas. Quem nos anda a acelerar, quando é de parar por momentos aquilo de que mais necessitamos?
quinta-feira, maio 04, 2006
Tempo
Dei agora conta que ontem escrevi que «estamos agora a viver mais tempo». Ao ler, fiquei na dúvida se estamos mais vividos ou, simplesmente, mais prolongados. Ou não será vida, estar somente livre, ter tempo para ver o sol a esconder-se. O que acontece é que aos poucos estamos, entregando-o à empresa, a abdicar do bem insubstituível que é o tempo. Em troca de realmente pouca coisa, mais uns trocos para podermos chegar onde não temos nenhuma necessidade de ir. Quem nos roubou o tempo e o prazer, vende-nos agora, também, a inutilidade.
Acabaram os horários de trabalho, terminaram os fins-de-semana. Para cúmulo, agora já nos assaltam o tempo do futuro em nome, ainda por cima, da esperança de vida aumentada. Já é preciso descaramento.
Acabaram os horários de trabalho, terminaram os fins-de-semana. Para cúmulo, agora já nos assaltam o tempo do futuro em nome, ainda por cima, da esperança de vida aumentada. Já é preciso descaramento.
quarta-feira, maio 03, 2006
Inevitabilidades?
Há já muito tempo que não sentia a forma tridimensional do tempo. Acontecia-me, quando fazia serviços de noite, sentir-me a avançar no tempo, numa espécie de linha com largura e altura também. Tem acontecido agora, nesta altura em que tento arrumar as várias tarefas nessa caixa do tempo. Fora deste mundo, discute-se a inviabilidade de se ter segurança social, tudo pelo problema da vida prolongada, por causa da natalidade reduzida e outros argumentos irrefutáveis. Até era capaz de aderir a esta tese se não fosse, ao mesmo tempo, ver a Banca a ter lucros como nunca teve. Assim, queiram desculpar, mas não acredito nesta via única das verdades; há, seguramente, outros caminhos. E vem-me à memória Brecht. Realmente, se os banqueiros não existissem, quem nos pediria pagamento de juros? Se os Bancos não existissem, que necessidade teríamos, de ter a casa onde podíamos viver sem que fosse nossa. No fundo, para que a queremos? Para ser nossa ou para nela vivermos? Se não fosse a Banca, não poderíamos estar tranquilos adquirindo o que «precisamos» quando tivéssemos capacidade de adquirir sem pedir emprestado? Realmente, qual a vantagem de ter já, o que se pode ter mais logo, ainda por cima, estando nós, agora, a viver mais tempo? Na verdade, sem os Bancos, também provavelmente as batatas cresceriam com a rama para baixo e mais nenhuma mulher engravidaria. É que toda a produção do país é feita nas novas fábricas que são as instituições bancárias… Sem eles, nem mais um parafuso.
terça-feira, maio 02, 2006
Cócegas na memória
O mais angustiante, são os esgares da impotência, a irritação que se adivinha na impossibilidade de atingir algo ali em frente, a possível percepção da incapacidade. De forma persistente, reiterada, tenta a sua libertação do cadeirão, tentando fincar os pés no chão, agarrando lençóis ou qualquer roupa que ali esteja à mão, em pequenos avanços, sempre terminados num sentar, às vezes ainda mais para trás, pela inclinação do assento. Pelos intervalos, nas acalmias breves, parece mostrar, aqui e além, um ar de gratidão, talvez, quase um sorriso. Outras vezes salta, de súbito, um nome ou, de forma de todo inesperada, a tabuada dos cinco. Cinco vezes um, cinco, cinco vezes dois, dez. Absolutamente certa até ao cinco vezes dez. Como se cantasse numa língua estrangeira de que se não entendem as palavras, números sem quantidade dentro.
segunda-feira, maio 01, 2006
Diálogo nos meios do silêncio
De vigia à cadeira onde o sentámos, não vá o regressado resvalar, às voltas sem saber ainda bem qual o papel do clínico geral no rastreio da acromegalia, sou de repente despertado por um breve e explosivo, «está boa a música!». Pois estava, era a 40ª sinfonia de Mozart, que tocava a acompanhar-me o enchimento dos slides do PowerPoint com a raridade da doença. O meu papel eu vou sabendo, é o diálogo com as intermitências do silêncio, aproveitar a música que surgiu e ir à procura de referências de outra música, das bandas em festas de Vouzela, daquelas onde também havia ranchos folclóricos (até estrangeiros!) e «fogo de artifício» desencantado no meio das gavetas desarrumadas do que resta da memória. E continuamos por caminhos de feiras de vacas e rebanhos com cabras e ovelhas até chegarmos ao Marioilo e à Penoita, que já «ardeu toda». Claro, as ovelhas agora já não limpam os matos… Mas despertam esboços de sorrisos entremeados por vagos esgares de dor quando as palavras ficam presas no silêncio. Podia ter sido um erro, mas foi feito com boa vontade, de boa consciência e isso é que foi importante. Foi, afinal, desta vez, a coisa certa.
domingo, abril 30, 2006
Música e imagem

Espero que ninguém me volte a dizer que os fármacos para a obesidade devem ser comparticipados. Posso reagir mal, se souber que ainda não são comparticipados os cuidados continuados. Cuidado!
Apesar de tudo, tem sido simpático verificar que de alguma forma as coisas se vão fazendo. Juntas de Freguesia que cedem camas articuladas, serviço social com capacidade de apoio domiciliário, medicina familiar com consultas domiciliárias. E ninguém dizia nada, envoltos que andam entre importantes celebridades e campeonatos mundiais de glorificação da Pátria. É um mundo estranho este, alienado da realidade, devorado por sonhos.
Num certo torpor que sempre me deixam as perturbações do sono, o dia vai correndo, tendo por fundo a Paixão de São Mateus e recordações de Picasso ainda jovem.
sábado, abril 29, 2006
Lição
Afinal, 81 anos depois e à medida que conseguiu eliminar os tóxicos, ao fim da tarde, lá voltou abrir timidamente o olho, naquela atitude de olho que não olha, só procura. Como 81 anos antes, possivelmente. Embora sem a esperança de então. E, durante a noite, resmungou e revoltou-se, arrancou a sonda nasogástrica, disponibilizando-se para engolir.
Se pensarmos bem, é em casos como este, que o risco de errar é, ainda assim, mais pequeno. Este caso de «sucesso» é bem a demonstração de que os exames curam bem menos que o bom senso. Num doente previamente já agitado, não é muito necessário procurar as causas que já eram conhecidas, em busca de uma probabilidade reduzida de surpresa, tanto mais que essa procura não é inócua e, aliás, se existisse, teria algum efeito prático na história natural da decisão? Trata-se de um frenesim de busca de prova que fará mais sentido noutras artes, seguramente a evitar nesta que é muito especial, imprópria para cientistas curiosos e pesquisadores do exótico. A vida, é uma coisa simples se a não complicarmos, o problema é que na ânsia idiota de ser diferente, somos educados para a excepção, para a raridade e aos poucos vamos esquecendo a média de que somos feitos. Depois, todos sabemos que no meio é que está a virtude, não é?
Se pensarmos bem, é em casos como este, que o risco de errar é, ainda assim, mais pequeno. Este caso de «sucesso» é bem a demonstração de que os exames curam bem menos que o bom senso. Num doente previamente já agitado, não é muito necessário procurar as causas que já eram conhecidas, em busca de uma probabilidade reduzida de surpresa, tanto mais que essa procura não é inócua e, aliás, se existisse, teria algum efeito prático na história natural da decisão? Trata-se de um frenesim de busca de prova que fará mais sentido noutras artes, seguramente a evitar nesta que é muito especial, imprópria para cientistas curiosos e pesquisadores do exótico. A vida, é uma coisa simples se a não complicarmos, o problema é que na ânsia idiota de ser diferente, somos educados para a excepção, para a raridade e aos poucos vamos esquecendo a média de que somos feitos. Depois, todos sabemos que no meio é que está a virtude, não é?
sexta-feira, abril 28, 2006
quinta-feira, abril 27, 2006
Eis a questão
A questão é, será preferível fazer a coisa certa, com a consciência de estar a fazer a coisa errada, ou fazer a coisa errada consciente de estar a fazer a coisa certa? Por estranho que pareça, a minha opção é peça segunda, mais não seja porque o erro é humano, como será igualmente a consciência tranquila.
E sobretudo não é decente comer sopa, quando se está em coma.
E sobretudo não é decente comer sopa, quando se está em coma.
quarta-feira, abril 26, 2006
Alcatruzes
terça-feira, abril 25, 2006
Carnaval fora de época

É triste que neste dia tenhamos ouvido um Presidente que não usando a máscara do cravo (e ainda bem que assim se não conspurcam os símbolos), usou um discurso mascarado: Quero propor um compromisso cívico, um compromisso para a inclusão social, um compromisso que envolva não só as forças políticas, mas que congregue as instituições nacionais, as autarquias, as organizações da sociedade civil, dos sindicatos às associações cívicas e às instituições de solidariedade".
Foi triste que em dia de memória se tenha lembrado de retomar a campanha eleitoral. Ainda falta muito para o segundo mandato e sempre que este não político abre a boca (podia ter continuado com o silêncio) a Grândola sai-lhe desafinada, um falsete. Nem o otorrino do Porto lhe poderá valer, o defeito é estrutural e irreparável.
Também triste foi não o ouvir sobre o trauliteiro da Madeira, que hoje não ofendeu o Senhor Silva, mas a memória de toda uma gente, que não deveria ter de o aturar. Talvez porque ambos gostem de se mascarar em dias de festa. Mas esta terra merece mais que Carnaval.
domingo, abril 23, 2006
Fim de tarde
Bem-estar, mal-estar. Não usar o nosso mal-estar para o bem-estar dos outros. A generosidade de algumas pessoas não tem limites, deveria ser delas o bem-estar. Saber que não acontece assim, perturba ainda mais o bem-estar dos que o têm. Numa forma de mitigar o mal-estar, para sabermos que não há mundos perfeitos.
sábado, abril 22, 2006
Drug dealers
Médico ou drug dealer, temos de decidir.

Para quem estiver interessado, pode aqui ser consultada a referência feita ontem.
Imagem de Anthony Flores, do referido artigo.

Para quem estiver interessado, pode aqui ser consultada a referência feita ontem.
Imagem de Anthony Flores, do referido artigo.
sexta-feira, abril 21, 2006
Haja doenças!
Cada vez temos mais publicações para o público em geral a falar de temas de saúde. Sob a capa da promoção da informação da saúde, de um modo geral, há um incentivo ao consumo de cuidados e de medicamentos, muitas vezes com interesse pelo menos duvidoso. Está na moda a divulgação de doenças que afectam multidões crescentes de indivíduos, parecendo que se quer fazer de cada pessoa um doente. (talvez devesse ser mais exigente e escrever cliente, porque é disso que se trata). Será possível escapar simultaneamente a ser obeso, ter hipertensão, ser fumador, ter osteoporose, ter colesterol alto, ser diabético ou simplesmenete, ter disfunção eréctil ou disfunção sexual nas mulheres? Se conseguir não ter nenhuma dessas, terá certamente depressão... Ainda escapou? Não tem problema, a demência acabará por o apanhar! Ou seja, de uma ou outra forma, acabar-se-á sempre por ter indicação para comprar uma das últimas drogas que a Indústria farmacêutica generosamente anda a investigar para nos prolongar a vida até aos 200 anos.
Desde há uns tempos para cá, prevenção das doenças é continuar a ter maus hábitos (comer a gordura do Império, estar sentado o dia todo, viver em stresse nas empresas, não ter horários de trabalho, não ter espaço para pensar, ficar esparramado em frente do telejornal do crime) e depois usar drogas. Recentemente, na Austrália, um estudo de David Henry e Ray Moynilhan, apresentado numa conferência médica referiu que as grandes empresas são responsáveis por muitas prescrições desnecessárias de medicamentos. Mas, mais grave do que isso, chegam ao ponto de promover tratamentos para doenças cuja existência nem sequer está comprovada. Não será novidade, mas é bom que seja dito. E já agora que se pense no papel que nisto pode ter, o facto de a investigação ter saído completamente da alçada do Estado e ter sido entregue completamente a interesses privados, onde as conclusões dos estudos podem ser fabricadas de acordo com as necessidades das cotações das empresas que as promovem. Com a privatização do conhecimento, resta aos cidadãos serem consumidores, voatarem nos eleitos das companhias de tempos a tempos e continuar a pagar. Alienados da verdade.
Desde há uns tempos para cá, prevenção das doenças é continuar a ter maus hábitos (comer a gordura do Império, estar sentado o dia todo, viver em stresse nas empresas, não ter horários de trabalho, não ter espaço para pensar, ficar esparramado em frente do telejornal do crime) e depois usar drogas. Recentemente, na Austrália, um estudo de David Henry e Ray Moynilhan, apresentado numa conferência médica referiu que as grandes empresas são responsáveis por muitas prescrições desnecessárias de medicamentos. Mas, mais grave do que isso, chegam ao ponto de promover tratamentos para doenças cuja existência nem sequer está comprovada. Não será novidade, mas é bom que seja dito. E já agora que se pense no papel que nisto pode ter, o facto de a investigação ter saído completamente da alçada do Estado e ter sido entregue completamente a interesses privados, onde as conclusões dos estudos podem ser fabricadas de acordo com as necessidades das cotações das empresas que as promovem. Com a privatização do conhecimento, resta aos cidadãos serem consumidores, voatarem nos eleitos das companhias de tempos a tempos e continuar a pagar. Alienados da verdade.
quinta-feira, abril 20, 2006
Casino
A partir de ontem Lisboa tem um Casino. Para quem possa interessar (parece que 1-3% dos indivíduos que residem na proximidade de casinos) aqui fica, transcrito do DSM-IV:
Critérios Diagnósticos para F63.0 - 312.31 Jogo Patológico
A. Comportamento de jogo mal-adaptativo, persistente e recorrente, indicado por cinco (ou mais) dos seguintes quesitos:
(1) preocupação com o jogo (por ex., preocupa-se com reviver experiências de jogo passadas, avalia possibilidades ou planeja a próxima parada, ou pensa em modos de obter dinheiro para jogar)
(2) necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores, a fim de obter a excitação desejada
(3) esforços repetidos e fracassados no sentido de controlar, reduzir ou cessar com o jogo
(4) inquietude ou irritabilidade, quando tenta reduzir ou cessar com o jogo
(5) joga como forma de fugir de problemas ou de aliviar um humor disfórico (por ex., sentimentos de impotência, culpa, ansiedade, depressão)[586]
(6) após perder dinheiro no jogo, freqüentemente volta outro dia para ficar quite ("recuperar o prejuízo")
(7) mente para familiares, para o terapeuta ou outras pessoas, para encobrir a extensão do seu envolvimento com o jogo
(8) cometeu atos ilegais, tais como falsificação, fraude, furto ou estelionato, para financiar o jogo
(9) colocou em perigo ou perdeu um relacionamento significativo, o emprego ou uma oportunidade educacional ou profissional por causa do jogo
(10) recorre a outras pessoas com o fim de obter dinheiro para aliviar uma situação financeira desesperadora causada pelo jogo.
B. O comportamento de jogo não é melhor explicado por um Episódio Maníaco.
Critérios Diagnósticos para F63.0 - 312.31 Jogo Patológico
A. Comportamento de jogo mal-adaptativo, persistente e recorrente, indicado por cinco (ou mais) dos seguintes quesitos:
(1) preocupação com o jogo (por ex., preocupa-se com reviver experiências de jogo passadas, avalia possibilidades ou planeja a próxima parada, ou pensa em modos de obter dinheiro para jogar)
(2) necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores, a fim de obter a excitação desejada
(3) esforços repetidos e fracassados no sentido de controlar, reduzir ou cessar com o jogo
(4) inquietude ou irritabilidade, quando tenta reduzir ou cessar com o jogo
(5) joga como forma de fugir de problemas ou de aliviar um humor disfórico (por ex., sentimentos de impotência, culpa, ansiedade, depressão)[586]
(6) após perder dinheiro no jogo, freqüentemente volta outro dia para ficar quite ("recuperar o prejuízo")
(7) mente para familiares, para o terapeuta ou outras pessoas, para encobrir a extensão do seu envolvimento com o jogo
(8) cometeu atos ilegais, tais como falsificação, fraude, furto ou estelionato, para financiar o jogo
(9) colocou em perigo ou perdeu um relacionamento significativo, o emprego ou uma oportunidade educacional ou profissional por causa do jogo
(10) recorre a outras pessoas com o fim de obter dinheiro para aliviar uma situação financeira desesperadora causada pelo jogo.
B. O comportamento de jogo não é melhor explicado por um Episódio Maníaco.
Hipótese
Possivelmente, uma explicação para não agir ou para ter dúvidas antes.
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'
quarta-feira, abril 19, 2006
Privatizemos o Parlamento!
(Os deputados (alguns!) foram de escapadinha, mas não escaparam!)
Neste país onde ninguém faz pontes, onde toda a gente entra a horas e sai depois de ter feito tudo aquilo que podia fazer em cada dia, neste país onde a produção é o que se sabe, onde tanta gente abdica de férias em nome do trabalho, onde ninguém se reforma enquanto consegue trabalhar, há finalmente um escândalo que se lamenta: os deputados foram de férias um dia mais cedo!
Bolas, os tipos que já são dos poucos que têm os impostos em dia, ganham miseravelmente, quando comparados com o CEO do Millenium (670 ordenados mínimos por mês!!!!), agora não podem baldar-se um dia? Será que tudo isto é porque são uma espécie de funcionários públicos? Claro, que se a Assembleia da República subcontratasse uns quantos empregados a uma empresa privada para fazerem o trabalho de deputados, tudo correria sobre rodas, trabalhariam sem horários nem garantias e todos ganharíamos, que os gajos, na sua fúria liberal, fariam todas as leis necesárias para nos tratar de vez.
Neste país onde ninguém faz pontes, onde toda a gente entra a horas e sai depois de ter feito tudo aquilo que podia fazer em cada dia, neste país onde a produção é o que se sabe, onde tanta gente abdica de férias em nome do trabalho, onde ninguém se reforma enquanto consegue trabalhar, há finalmente um escândalo que se lamenta: os deputados foram de férias um dia mais cedo!
Bolas, os tipos que já são dos poucos que têm os impostos em dia, ganham miseravelmente, quando comparados com o CEO do Millenium (670 ordenados mínimos por mês!!!!), agora não podem baldar-se um dia? Será que tudo isto é porque são uma espécie de funcionários públicos? Claro, que se a Assembleia da República subcontratasse uns quantos empregados a uma empresa privada para fazerem o trabalho de deputados, tudo correria sobre rodas, trabalhariam sem horários nem garantias e todos ganharíamos, que os gajos, na sua fúria liberal, fariam todas as leis necesárias para nos tratar de vez.
Dogmas e dúvidas
Sempre foi um defeito de juventude que me acompanhou, esta minha dificuldade em separar os bons dos maus. Muitas vezes olho para a bondade dos maus e a maldade dos bons e a decisão fica difícil. Este anti-maniqueísmo apenas complica a vida, reconheço, mas está-me na natureza. Quando me falam de alimentos transgénicos tenho dessas crises de confiança. Fará talvez pouco sentido dizer aos indianos que comam cenouras para terem vitamina A em vez de culivarem arroz modificado que já a contém. Mas talvez não. Fosse a produção mais fácil, mais generalizada e não tão dependente das Monsantos e talvez o mundo corresse menos riscos e os povos tivessem menos fome. Torna-se urgente que gente mais normal, como os europeus, comecem a ter capacidade de criação e competitividade também nestes campos da ciência. Ideal mesmo seria que os indianos deste mundo, pudessem pensar no assunto.
segunda-feira, abril 17, 2006
domingo, abril 16, 2006
Páscoa
O dia de Páscoa era uma altura de juntar tios e primos e muitas vezes acabava em animados jogos de sueca.
Hoje voltou a ser um pouco disso. E foi também um passeio gigante entre os maracujás e a árvore do abacate. «Está um bocado amarelada!». Se calhar nem nunca deu abacates, pensei eu. Do amarelado da árvore fez-se a ligação ao esforço da mulher «mártir do trabalho» para manter as árvores verdes? Num reconhecimento de fragilidade assumida e doída. Por momentos, as ligações restabelecem-se, o discurso toma forma e tem sentido, orientação. Às pernas vem a energia necessária para ir fechar a porta lá do fundo. Como um sol que rompe as nuvens, surge fugazmente um sorriso aqui e além.
Hoje voltou a ser um pouco disso. E foi também um passeio gigante entre os maracujás e a árvore do abacate. «Está um bocado amarelada!». Se calhar nem nunca deu abacates, pensei eu. Do amarelado da árvore fez-se a ligação ao esforço da mulher «mártir do trabalho» para manter as árvores verdes? Num reconhecimento de fragilidade assumida e doída. Por momentos, as ligações restabelecem-se, o discurso toma forma e tem sentido, orientação. Às pernas vem a energia necessária para ir fechar a porta lá do fundo. Como um sol que rompe as nuvens, surge fugazmente um sorriso aqui e além.
sábado, abril 15, 2006
Os amigos do Casimiro
O Casimiro reformou-se. Não sei se ele pode sentir, mas este almoço foi a confirmação que a obra se mantém ainda que o cepticismo venha por ondas afectar-nos. O Casimiro foi um ensinador de atitudes e muito mais que doenças, que também nos ensinou, fez-nos aprender os doentes. Inoculou-nos com essa necessidade como atitude permanente. Ainda hoje nos disse que um pastor que vem ao médico pedir um «Taco» é um sinal de alerta para doença grave, como o é, igualmente, a mulher que vem ter connosco para lhe tratarmos o marido. Porque uma mulher não delega o tratamento do marido sem mais nem menos, tem de ser grave. Quem ensina hoje que não devemos sentar-nos na cama do doente? Quem passa visita às 8 da manhã com as enfermeiras? Quem é o Director de Serviço que é o primeiro a entrar pela manhã e o último a sair ao fim da tarde?
O Casimiro merece estar reformado. Mais que não seja para, estando mais perto de nós, nos podermos encontrar de vez em quando a falar das desgraças dos Serviços, para nos sentirmos impotentes para transformar as grandes coisas, mas, ainda assim, sabermos resolver as pequenas coisas do nosso sítio. Porque há muita coisa que podemos fazer melhor, sem retórica, com medidas simples. Mesmo sem jogos de poder ou usando alguns dos poderes com que ele de alguma forma nos armou.
Foi boa a discussão sobre o acesso aos serviços, sobre os tempos de espera nas urgências. Fiquei a olhar a realidade de outra forma depois de nos ter dito daquela forma simples com que sempre diz as coisas, que tudo isto terá começado com o Serviço Médico à Periferia e depois a criação dos SAPs. Primeiro a generosidade de médicos jovens, depois o interesse, a utilidade das horas extra na composição do ordenado dos médicos, tudo isto reforçado pelo gosto dos autarcas em facilitarem o acesso quando, por exemplo, as costas doem. Sempre numa dinâmica de consumo, reforçada pela «informação» dos media, a divulgarem doenças e «negligências» sem parar, reforçando a procura de certezas nas análises e nos exames de imagem. Fez-nos lembrar que uma amilasemia era mais complicada de pedir do que uma TC do crânio, nos dias de hoje. O sistema favorece os autarcas e outros políticos, os médicos e os fornecedores, é quase um mundo perfeito, não fosse tão insuficiente para os doentes. E essa insuficiência provém de se ter destruído a relação natural que seria o doente falar com o seu médico de clínica geral quando, por exemplos, as costas doem. Será que se está agora no caminho certo por vias tortas? Estaremos a regressar ao papel central do clínico geral no sistema ou vamos destruir tudo o que ainda resta subordinados a interesses de seguradoras e banqueiros? Melhoramos muito realizando este SNS, nada do que hoje fazemos tem alguma coisa que ver com o que fazíamos. A nossa história é um caso de sucesso. Com custos que podem ser racionalizados, mas com a certeza, que destruir o que foi conseguido, será um retrocesso lamentável.
Aqui nasce um papel decisivo para a terceira geração que nos ouvia: impedir a destruição daquilo que andámos a fazer, inspirados, muitas vezes, no que o Casimiro nos ensinou.
O Casimiro merece estar reformado. Mais que não seja para, estando mais perto de nós, nos podermos encontrar de vez em quando a falar das desgraças dos Serviços, para nos sentirmos impotentes para transformar as grandes coisas, mas, ainda assim, sabermos resolver as pequenas coisas do nosso sítio. Porque há muita coisa que podemos fazer melhor, sem retórica, com medidas simples. Mesmo sem jogos de poder ou usando alguns dos poderes com que ele de alguma forma nos armou.
Foi boa a discussão sobre o acesso aos serviços, sobre os tempos de espera nas urgências. Fiquei a olhar a realidade de outra forma depois de nos ter dito daquela forma simples com que sempre diz as coisas, que tudo isto terá começado com o Serviço Médico à Periferia e depois a criação dos SAPs. Primeiro a generosidade de médicos jovens, depois o interesse, a utilidade das horas extra na composição do ordenado dos médicos, tudo isto reforçado pelo gosto dos autarcas em facilitarem o acesso quando, por exemplo, as costas doem. Sempre numa dinâmica de consumo, reforçada pela «informação» dos media, a divulgarem doenças e «negligências» sem parar, reforçando a procura de certezas nas análises e nos exames de imagem. Fez-nos lembrar que uma amilasemia era mais complicada de pedir do que uma TC do crânio, nos dias de hoje. O sistema favorece os autarcas e outros políticos, os médicos e os fornecedores, é quase um mundo perfeito, não fosse tão insuficiente para os doentes. E essa insuficiência provém de se ter destruído a relação natural que seria o doente falar com o seu médico de clínica geral quando, por exemplos, as costas doem. Será que se está agora no caminho certo por vias tortas? Estaremos a regressar ao papel central do clínico geral no sistema ou vamos destruir tudo o que ainda resta subordinados a interesses de seguradoras e banqueiros? Melhoramos muito realizando este SNS, nada do que hoje fazemos tem alguma coisa que ver com o que fazíamos. A nossa história é um caso de sucesso. Com custos que podem ser racionalizados, mas com a certeza, que destruir o que foi conseguido, será um retrocesso lamentável.
Aqui nasce um papel decisivo para a terceira geração que nos ouvia: impedir a destruição daquilo que andámos a fazer, inspirados, muitas vezes, no que o Casimiro nos ensinou.
sexta-feira, abril 14, 2006
Elogio do simples
Parece haver um novo-riquismo pró-complexo, um inaceitar do simples. Simples é pobre, dispensável como agora se diz. Ao mesmo tempo há um elogio permanente do natural, fartos que estamos da sofisticação complexa que criámos. Mas natural também deixou de ser o que a natureza nos dá, não mais umas couves ou batatas o são. Natural agora são algas e coisas que tais, que a ninguém lembraria comer, naturalmente. Foi assim natural que tivesse que percorrer algumas dezenas de metros de prateleiras de iogurtes, mais ou menos complexos, na loja do senhor Belmiro antes de encontrar o iogurte simples que procurava. E é claro que, há muito, o marketing tinha substituído o simples pelo natural. Mas natural é o que é produzido pela natureza sem a intervenção do homem e, neste caso, parece-me deveras improvável que, espontaneamente, sem a intervenção do grande manipulador, o Lactobacilus bulgaricus tivesse causado a fermentação do leite dando origem aos produtos coagulados, alinhadinhos ao longo de todas aquelas estantes, cuidadosamente dispostos com os prazos de validade mais longos colocados em posições menos acessíveis e os mais caros ao nível onde mais fácil as mãos chegam. Por isso, com o devido respeito aos senhores do marketing, o coagulado é muito mais simples que natural.
quinta-feira, abril 13, 2006
Veja onde o faz
Não leia isto que é pecado. Leia o texto comprado na sua paróquia e conquiste a salvação!
Troica
«Graças ao Senhor,à Nossa Senhora de Fátima e ao Doutor ela fez-se senhora.»
De fora da troica ficou a pílula, verdadeiramente responsável, atestando, mais uma vez, que os verdadeiros construtores da obra ficam, com frequência, no anonimato e a fama é apoderada pelos que têm melhor promoção de imagem.
De fora da troica ficou a pílula, verdadeiramente responsável, atestando, mais uma vez, que os verdadeiros construtores da obra ficam, com frequência, no anonimato e a fama é apoderada pelos que têm melhor promoção de imagem.
quarta-feira, abril 12, 2006
Manhã e tarde
Primeiro a casa nova, possivelmente, a última casa. Esta cheia de luz na principal diferença. Tudo começou por um acaso, num dia no piso 2, quando me calhou ir até ao piso 4 para fazer Medicina Interna. O local era absolutamente inadequado para isso. Aos poucos foi acontecendo a Endocrinologia, até ao dia em que uns estalos na cara do Director nos levaram até um exílio no piso 2. Mesmo assim, foi passar de uma assoalhada a 2... Depois, a longa estada no piso debaixo. Agora, a quase ascensão ao topo, até à luz.
Depois, o tributo ao bom senso. Uma forma de estar anti-liberal, trabalho solidário com a fragilidade. Só pelos sorrisos, mas com alguma noção de dever. Dever literal, que o crédito é grande de quem agora embrulha os passos no caminho e as palavras no discurso. Alturas houve em que me esperavam de braços estendidos quando era eu quem embrulhava os passos e ainda desconhecia as palavras que aos poucos me foram arrancando.
Depois, o tributo ao bom senso. Uma forma de estar anti-liberal, trabalho solidário com a fragilidade. Só pelos sorrisos, mas com alguma noção de dever. Dever literal, que o crédito é grande de quem agora embrulha os passos no caminho e as palavras no discurso. Alturas houve em que me esperavam de braços estendidos quando era eu quem embrulhava os passos e ainda desconhecia as palavras que aos poucos me foram arrancando.
terça-feira, abril 11, 2006
Contradigo
Um mundo que gera cada vez mais fracos (os idosos) não pode ser governado pelo livre arbítrio dos mais fortes. Mais cedo ou mais tarde teríamos o genocídio dos velhos com todos os bons argumentos que o poder sempre inventa. A humanidade está condenada à solidariedade e esta é uma acção fundamental do Estado, seguramente mais importante do que a criação de condições para os mais fortes o serem cada vez mais, sendo cada vez menos. Não é com marginalização de grupos cada vez maiores que o Estado satisfaz a sua função; tem de orientar-se para a criação de barreiras e limitações à normal expansão da selvajaria que é da natureza dos homens. Por isso, precisamos de mais Estado e não do contrário.
segunda-feira, abril 10, 2006
Intervalo
Perdido no meio de nada acontecer, que quotas ou não para mulheres e nascer ou não em Elvas quando Badajoz está ali mesmo à vista e com maternidades seguras, é mesmo nada. Ou pior que nada, quando se vê o argumento patrioteiro sair da boca de quem parecia capaz de não ceder ao fácil. Nada, tudo isto é muito pouco ou quase nada.
De caminho passei por Glasgow, cidade onde apenas se deve ir a caminho de alguma coisa como a mim me aconteceu, de um Congresso Europeu de Endocrinologia, mas mais do que isso da possibilidade de nascer algo que enfrente a poderosa América, à primeira reunião da European Society, titubeante ainda entre interesses patrioteiros e a afirmação do global, condição única para ser grande, mesmo maior que a Endocrine Society. Que o Norte se imponha ao Sul e o caminho será fácil!
Em Glasgow vi, como um Lord de outras eras aqui viu também, gente porca cuspir no chão e disso aqui deixo registo. Uma terra onde é diariamente sexta-feira tal o índice de bebedeira que nas suas ruas se observa. Um escarro neoliberal. Em coisas e paisagens muito semelhante a cidades americanas do interior, de ruas direitas e largas onduladas pelas colinas suaves. São Francisco, sem porto nem leões marinhos e também sem Alcatraz e sobretudo sem Sausalito.
O resto foi tudo coisa vista. De cá meia centena de clínicos gerais em passeio com argumento de congresso, as mesmas conversas de jantares e de interesses que sempre se ouvem nestes locais. Tédio, bastante tédio e o risco de uns quilos a mais no regresso.
Chegado entre notícias de vitórias impossíveis, que Liverpool não acontece duas vezes, surge de novo o nada acontecer até que hoje, finalmente, Chirac cedeu e Prodi talvez ganhe. Do mal o menos, que mais não gozarei que pequenos contentamentos, tal a falta de crença a que cheguei.
De caminho passei por Glasgow, cidade onde apenas se deve ir a caminho de alguma coisa como a mim me aconteceu, de um Congresso Europeu de Endocrinologia, mas mais do que isso da possibilidade de nascer algo que enfrente a poderosa América, à primeira reunião da European Society, titubeante ainda entre interesses patrioteiros e a afirmação do global, condição única para ser grande, mesmo maior que a Endocrine Society. Que o Norte se imponha ao Sul e o caminho será fácil!
Em Glasgow vi, como um Lord de outras eras aqui viu também, gente porca cuspir no chão e disso aqui deixo registo. Uma terra onde é diariamente sexta-feira tal o índice de bebedeira que nas suas ruas se observa. Um escarro neoliberal. Em coisas e paisagens muito semelhante a cidades americanas do interior, de ruas direitas e largas onduladas pelas colinas suaves. São Francisco, sem porto nem leões marinhos e também sem Alcatraz e sobretudo sem Sausalito.
O resto foi tudo coisa vista. De cá meia centena de clínicos gerais em passeio com argumento de congresso, as mesmas conversas de jantares e de interesses que sempre se ouvem nestes locais. Tédio, bastante tédio e o risco de uns quilos a mais no regresso.
Chegado entre notícias de vitórias impossíveis, que Liverpool não acontece duas vezes, surge de novo o nada acontecer até que hoje, finalmente, Chirac cedeu e Prodi talvez ganhe. Do mal o menos, que mais não gozarei que pequenos contentamentos, tal a falta de crença a que cheguei.
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