sábado, abril 15, 2006

Os amigos do Casimiro

O Casimiro reformou-se. Não sei se ele pode sentir, mas este almoço foi a confirmação que a obra se mantém ainda que o cepticismo venha por ondas afectar-nos. O Casimiro foi um ensinador de atitudes e muito mais que doenças, que também nos ensinou, fez-nos aprender os doentes. Inoculou-nos com essa necessidade como atitude permanente. Ainda hoje nos disse que um pastor que vem ao médico pedir um «Taco» é um sinal de alerta para doença grave, como o é, igualmente, a mulher que vem ter connosco para lhe tratarmos o marido. Porque uma mulher não delega o tratamento do marido sem mais nem menos, tem de ser grave. Quem ensina hoje que não devemos sentar-nos na cama do doente? Quem passa visita às 8 da manhã com as enfermeiras? Quem é o Director de Serviço que é o primeiro a entrar pela manhã e o último a sair ao fim da tarde?
O Casimiro merece estar reformado. Mais que não seja para, estando mais perto de nós, nos podermos encontrar de vez em quando a falar das desgraças dos Serviços, para nos sentirmos impotentes para transformar as grandes coisas, mas, ainda assim, sabermos resolver as pequenas coisas do nosso sítio. Porque há muita coisa que podemos fazer melhor, sem retórica, com medidas simples. Mesmo sem jogos de poder ou usando alguns dos poderes com que ele de alguma forma nos armou.
Foi boa a discussão sobre o acesso aos serviços, sobre os tempos de espera nas urgências. Fiquei a olhar a realidade de outra forma depois de nos ter dito daquela forma simples com que sempre diz as coisas, que tudo isto terá começado com o Serviço Médico à Periferia e depois a criação dos SAPs. Primeiro a generosidade de médicos jovens, depois o interesse, a utilidade das horas extra na composição do ordenado dos médicos, tudo isto reforçado pelo gosto dos autarcas em facilitarem o acesso quando, por exemplo, as costas doem. Sempre numa dinâmica de consumo, reforçada pela «informação» dos media, a divulgarem doenças e «negligências» sem parar, reforçando a procura de certezas nas análises e nos exames de imagem. Fez-nos lembrar que uma amilasemia era mais complicada de pedir do que uma TC do crânio, nos dias de hoje. O sistema favorece os autarcas e outros políticos, os médicos e os fornecedores, é quase um mundo perfeito, não fosse tão insuficiente para os doentes. E essa insuficiência provém de se ter destruído a relação natural que seria o doente falar com o seu médico de clínica geral quando, por exemplos, as costas doem. Será que se está agora no caminho certo por vias tortas? Estaremos a regressar ao papel central do clínico geral no sistema ou vamos destruir tudo o que ainda resta subordinados a interesses de seguradoras e banqueiros? Melhoramos muito realizando este SNS, nada do que hoje fazemos tem alguma coisa que ver com o que fazíamos. A nossa história é um caso de sucesso. Com custos que podem ser racionalizados, mas com a certeza, que destruir o que foi conseguido, será um retrocesso lamentável.
Aqui nasce um papel decisivo para a terceira geração que nos ouvia: impedir a destruição daquilo que andámos a fazer, inspirados, muitas vezes, no que o Casimiro nos ensinou.

sexta-feira, abril 14, 2006

Elogio do simples

Parece haver um novo-riquismo pró-complexo, um inaceitar do simples. Simples é pobre, dispensável como agora se diz. Ao mesmo tempo há um elogio permanente do natural, fartos que estamos da sofisticação complexa que criámos. Mas natural também deixou de ser o que a natureza nos dá, não mais umas couves ou batatas o são. Natural agora são algas e coisas que tais, que a ninguém lembraria comer, naturalmente. Foi assim natural que tivesse que percorrer algumas dezenas de metros de prateleiras de iogurtes, mais ou menos complexos, na loja do senhor Belmiro antes de encontrar o iogurte simples que procurava. E é claro que, há muito, o marketing tinha substituído o simples pelo natural. Mas natural é o que é produzido pela natureza sem a intervenção do homem e, neste caso, parece-me deveras improvável que, espontaneamente, sem a intervenção do grande manipulador, o Lactobacilus bulgaricus tivesse causado a fermentação do leite dando origem aos produtos coagulados, alinhadinhos ao longo de todas aquelas estantes, cuidadosamente dispostos com os prazos de validade mais longos colocados em posições menos acessíveis e os mais caros ao nível onde mais fácil as mãos chegam. Por isso, com o devido respeito aos senhores do marketing, o coagulado é muito mais simples que natural.

quinta-feira, abril 13, 2006

Veja onde o faz

Não leia isto que é pecado. Leia o texto comprado na sua paróquia e conquiste a salvação!

Troica

«Graças ao Senhor,à Nossa Senhora de Fátima e ao Doutor ela fez-se senhora.»
De fora da troica ficou a pílula, verdadeiramente responsável, atestando, mais uma vez, que os verdadeiros construtores da obra ficam, com frequência, no anonimato e a fama é apoderada pelos que têm melhor promoção de imagem.

quarta-feira, abril 12, 2006

Manhã e tarde

Primeiro a casa nova, possivelmente, a última casa. Esta cheia de luz na principal diferença. Tudo começou por um acaso, num dia no piso 2, quando me calhou ir até ao piso 4 para fazer Medicina Interna. O local era absolutamente inadequado para isso. Aos poucos foi acontecendo a Endocrinologia, até ao dia em que uns estalos na cara do Director nos levaram até um exílio no piso 2. Mesmo assim, foi passar de uma assoalhada a 2... Depois, a longa estada no piso debaixo. Agora, a quase ascensão ao topo, até à luz.
Depois, o tributo ao bom senso. Uma forma de estar anti-liberal, trabalho solidário com a fragilidade. Só pelos sorrisos, mas com alguma noção de dever. Dever literal, que o crédito é grande de quem agora embrulha os passos no caminho e as palavras no discurso. Alturas houve em que me esperavam de braços estendidos quando era eu quem embrulhava os passos e ainda desconhecia as palavras que aos poucos me foram arrancando.

terça-feira, abril 11, 2006

Contradigo

Um mundo que gera cada vez mais fracos (os idosos) não pode ser governado pelo livre arbítrio dos mais fortes. Mais cedo ou mais tarde teríamos o genocídio dos velhos com todos os bons argumentos que o poder sempre inventa. A humanidade está condenada à solidariedade e esta é uma acção fundamental do Estado, seguramente mais importante do que a criação de condições para os mais fortes o serem cada vez mais, sendo cada vez menos. Não é com marginalização de grupos cada vez maiores que o Estado satisfaz a sua função; tem de orientar-se para a criação de barreiras e limitações à normal expansão da selvajaria que é da natureza dos homens. Por isso, precisamos de mais Estado e não do contrário.

segunda-feira, abril 10, 2006

Intervalo

Perdido no meio de nada acontecer, que quotas ou não para mulheres e nascer ou não em Elvas quando Badajoz está ali mesmo à vista e com maternidades seguras, é mesmo nada. Ou pior que nada, quando se vê o argumento patrioteiro sair da boca de quem parecia capaz de não ceder ao fácil. Nada, tudo isto é muito pouco ou quase nada.
De caminho passei por Glasgow, cidade onde apenas se deve ir a caminho de alguma coisa como a mim me aconteceu, de um Congresso Europeu de Endocrinologia, mas mais do que isso da possibilidade de nascer algo que enfrente a poderosa América, à primeira reunião da European Society, titubeante ainda entre interesses patrioteiros e a afirmação do global, condição única para ser grande, mesmo maior que a Endocrine Society. Que o Norte se imponha ao Sul e o caminho será fácil!
Em Glasgow vi, como um Lord de outras eras aqui viu também, gente porca cuspir no chão e disso aqui deixo registo. Uma terra onde é diariamente sexta-feira tal o índice de bebedeira que nas suas ruas se observa. Um escarro neoliberal. Em coisas e paisagens muito semelhante a cidades americanas do interior, de ruas direitas e largas onduladas pelas colinas suaves. São Francisco, sem porto nem leões marinhos e também sem Alcatraz e sobretudo sem Sausalito.
O resto foi tudo coisa vista. De cá meia centena de clínicos gerais em passeio com argumento de congresso, as mesmas conversas de jantares e de interesses que sempre se ouvem nestes locais. Tédio, bastante tédio e o risco de uns quilos a mais no regresso.
Chegado entre notícias de vitórias impossíveis, que Liverpool não acontece duas vezes, surge de novo o nada acontecer até que hoje, finalmente, Chirac cedeu e Prodi talvez ganhe. Do mal o menos, que mais não gozarei que pequenos contentamentos, tal a falta de crença a que cheguei.

quarta-feira, março 29, 2006

«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara»*

Depois de estar identificada, bem caracterizada, completamente demonstrado o seu crescimento, detectadas as suas causas, há a decisão sábia de combater o mal: a obesidade. Para o combate foi criada a Comissão, definidos os grupos de trabalho, que prontamente elaboraram as linhas de acção. Que fazer? Prevenir, facilitar o acesso às drogas, mutilar os estômagos. Parece fácil, até se sabe que as epidemias se tratam prevenindo. Mas isso, é quando há uma vacina à venda! Quando não, aceita-se com mais facilidade, a derrota, o tratamento da doença resultante da peste. Pior ainda quando, como é o caso, as causas são os hábitos condenáveis a que a sociedade liberal nos vai condenando: estar quieto, comer depressa e mal para que a santa Economia prospere. Comer até o lixo que ela produz para o seu engrandecimento. Mais fácil é facilitar o acesso às drogas, aos balões e às bandas, todos eles à venda, com a Economia desejosa de os ver mais comprados. Se isso lhes for garantido, até fornecerão uns trocos para se promover a prevenção, num risco calculado, até ao ponto exacto em que isso lhes não reduza em excesso o substrato.
Compete a uma Comissão técnica, propor não só as medidas, mas considerar a sua aplicação, a coerência das acções e, num ambiente de recursos limitados, propor até uma estratégia de hierarquia dos gastos. Não é inocente sugerir que se paguem as drogas e mutilem os estômagos e isso seja implementado e se fique pela sugestão das medidas de prevenção, sem as levar à prática COM RESULTADOS mensuráveis. Porque o tratamento desta peste é a prevenção, deixar alastrar o problema e tratá-lo a jusante, não é combate, é satisfação... da santa Economia. É aumentar o substrato!
E, realmente, nestas coisas das lutas tudo é político e quando os técnicos dizem que apenas o são, estão seguramente a fazer política, sendo que a tecnocracia é, habitualmente, política, mas da mais baixa. Por mim, prefiro ser técnico e político, obviamente, incorrecto, mas de um nível mais ao meu gosto. Fica-me, muitas vezes, a dúvida, se a cegueira existe ou se é apenas simulada. Como a mulher do médico «Hoje é hoje, amanhã é amanhã, é hoje que tenho a responsabilidade (...) de ter olhos quando os outros os perderam.*»

*Ensaio sobre a cegueira. José Saramago

terça-feira, março 28, 2006

O prazer

Quem irá ter mais gozo com a vitória, o Barcelona ou o Benfica? É claro para mim que seriam os benfiquistas, pois o verdadeiro gozo se obtém na empresa difícil, não provem do triunfo esperado e fácil. O prazer não está na vitória apenas, mas na superação de nós que a ela conduz. Mas não sei, se nos dias que passam, assim é para muitos. Instigados ao consumo, do inútil tantas vezes, o gozo abastardou-se para muitos confundido com o prazer supostamente existente nos bens tidos. Mas é só até se terem. Depois, da conquista, o prazer esvai-se e logo só volta a surgir na procura da seguinte. O gozo torna-se quase um bem consumível, também. E assim se mata.

Revi hoje Séneca e aqui deixo este pedaço:

Porquê espantar-nos que possa ser vantajoso, por vezes mesmo desejável, expor-nos ao fogo, às feridas, à morte, à prisão? Para o homem esbanjador a austeridade é um castigo, para o preguiçoso o trabalho equivale a um suplício; ao efeminado toda a labuta causa dó, para o indolente qualquer esforço é uma tortura: pela mesma ordem de ideias toda a actividade de que nos sentimos incapazes se nos afigura dura e intolerável, esquecendo-nos de que para muitos é uma autêntica tortura passar sem vinho ou acordar de madrugada! Qualquer destas situações não é difícil por natureza, os homens é que são moles e efeminados!
Para formar juízos de valor sobre as grandes questões há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objectos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade!

Indica-me um jovem ainda incorrupto e de espírito alerta, e ele não hesitará em julgar mais afortunado o homem capaz de suportar todo o peso da adversidade sem dobrar os ombros, o homem capaz de alçar-se acima da fortuna. Não é proeza nenhuma manter a calma quando a situação é tranquila; é admirável, pelo contrário, conservar o ânimo quando todos se deixam abater, mantermo-nos em pé quando todos jazem por terra. O que há de mal na tortura e em tudo o mais a que damos o nome de «adversidade»? Apenas isto, segundo penso: o facto de nos abaixar, abater, humilhar o espírito. Ora nada disto pode suceder ao homem sábio, o qual se mantém vertical seja qual for o peso sobre os seus ombros. A um tal homem, coisa alguma deste mundo pode humilhar; um tal homem a nada do que é inevitável se recusa. O sábio não se lamenta se lhe acontecer algo daquilo a que a condição humana está sujeita. Conhece as próprias forças, sabe que não vergará sob o peso. Com isto eu não estou a colocar o sábio à parte do comum dos homens nem a julgá-lo inacessível à dor como se de um penedo inacessível se tratasse. Apenas recordo que o sábio é composto de duas partes: uma é irracional, e sensível, portanto, às feridas, às chamas, à dor; a outra é racional, dotada de convicções inabaláveis, inacessível ao medo, indomável. É nesta parte que reside o bem supremo para o homem. Enquanto o seu bem próprio ainda está por preencher, o espírito do homem pode resvalar na incerteza, mas desde o momento em que atinge a perfeição adquire para sempre a estabilidade total.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

segunda-feira, março 27, 2006

O surrealismo da escolha

Fácil é decidir quando o resultado está feito antes da decisão. Decide facilmente quem não tem dúvidas, quem escolheu antes da escolha. A justificação da escolha é, apenas nestes casos, a fabricação dum somatório.
Fácil também é decidir, quando é incomparável o objecto da escolha que se faz, quando a diferença é de tal forma abissal que até os cegos a veriam.
Fácil, diria eu, é decidir quando, bem ou mal decidido, ainda somos responsabilizados pela escolha, quando somos nós que definimos os critérios para escolher.
Escolher sem ter escolhido antes, entre realidades de perto comparáveis e sem aplicarmos os nossos critérios para decidir tendo em vista objectivos a atingir, é a verdadeira dificuldade. Por mais, que tentemos satisfazer-nos com a escolha, resta-nos sempre a dúvida de termos feito o melhor. Mas isso acontece com qualquer escolha que fizessemos nestas circusntâncias, porque se calhar, o melhor, é um conceito inatingível no contexto em que nos mexemos.
Tanto mais que, nos dias que correm, já ninguém escolhe com este carácter de escolha definitiva. Mas isso é nas outras escolhas, que nestas ainda temos essa ideia de utopia e estabilidade. Daí a surrealidade de tudo isto.

domingo, março 26, 2006

Boa noite e boa sorte

A prostituição é uma forma de ganhar a vida. Raramente, será uma forma de vida por que se opte. Mas as vantagens que traz, farão com que as profissionais tenham dificuldade em de lá sair. Com o passar do tempo, com a aquisição dos hábitos, poderá mesmo chegar-se a um estado de racionalização em que admitam ser uma actividade como outra qualquer, uma forma de ganhar a vida. Numa sociedade onde o triunfo do individual sobre o colectivo até é a regra, ninguém terá nada com isso e cada um come do que gosta ou pelo menos do que mais rendimento lhe dá, com o menos de esforço envolvido. Neste contexto, também, não é de estranhar a submissão das programações às audiências, do triunfo dos conteúdos fáceis, para entreter, sobre aqueles que poderiam levar à reflexão e, possivelmente, incómodos que levariam ao zapping imediato. Os meios como a TV, são exactamente o que poderemos fazer com eles e muitas vezes o caminho mais fácil não será eticamente o preferível, embora possa ser o que tem melhor relação custo-benefício. Daí a facilidade com que se pode cair na tentação da prostituição. Nos anos 50, nos Estados Unidos, houve quem o não fizesse. O capitalismo estava ainda noutra fase de desenvolvimento, havia ainda conceitos muito fortes, moralidades que impediam o percurso mais fácil. Por isso se resistiu, acarretando com as consequências. Mas hoje, como é?
Boa noite e boa sorte!

sábado, março 25, 2006

Todos iguais

Trabalham na construção civil,vivem perto daquela rua na margem de Toronto a que, por ironia, chamaram de Augusta. Alguns estão lá há vários anos, os filhos frequentam as escolas canadianas. De repente, um governo conservador, deporta-os. De Portas já tínhamos ouvido coisas idênticas. Está-lhes na natureza. Curioso era ouvir agora Portas sobre o tema. Mas não só. Todos aqueles que se sentem incomodados com a presença entre nós de cabo-verdianos e outros, também por cá a trabalharem na construção civil, sem papéis, contratados à jorna à porta do Colombo pela manhã. Ironicamente, pretos e brancos, todos muito iguais.

quinta-feira, março 23, 2006

O Império do mal

Este texto é de leitura difícil. A náusea surge à medida que se apela à humanidade da morte. Este país está cheio de preocupações humanitárias para manter hábitos bárbaros e o desrespeito total pela vida. Puritanismo, politicamente correcto e totalmente abjecto. Isto não é um conflito de interesses, é simplesmente, abominável.

quarta-feira, março 22, 2006

O futebol é uma escola (até para as escolhas)

A aplicação da legislação dos concursos médicos para provimento de lugares é um exercício de absurdo. Selecciona-se uma equipa com base num molho de critérios gerais. Imagine-se um treinador de futebol a escolher os elementos da equipa com base numa grelha muito objectiva que aponta alguns grupos de critérios que no caso poderiam ser muito lógicos. Os parâmetros de avaliação poderiam ser, por exemplo,tempo de prática da modalidade, tempo em que foi foi capitão de equipa, golos marcados, golos sofridos e por aí adiante. Muito objectivo, muito independente, mas um absurdo completo. O que importa à equipa é sê-lo, isto é, ter guarda-redes, defesas, médios e avançados. Cada um dos grupos terá necessariamente de ser avaliado de acordo com perfis de avaliação distintos. Não se pode usar o mesmo critério para seleccionar uns e outros. Exactamente o que se faz nesta coisa dos concursos médicos é o contrário, tenta-se aplicar uma grelha uniforme não tendo em conta as necessidades da equipa. O resultado é o funcionamento das equipas. Imagine-se uma equipa de futebol constituída só por avançados ou só por guar-redes... Era muito melhor deixar ao Director de Serviço a escolha dos seus elementos e despedi-lo, como se faz aos treinadores, quando os resultados não aparecessem. E só não é assim, porque essa seria a forma de lhes pôr o poder em jogo. E eles até agora não têm permitido.

terça-feira, março 21, 2006

Doentes ou utentes

Olhando as palavras concluo que não é inocente chamarem-se os doentes de utentes. Chamá-los doentes implica de alguma forma sentir solidariedade com o seu azar, perceber que fazem esse papel sem gosto. Se os chamarmos utentes, pelo contrário, estamos primariamente a considerá-los consumidores de bens quase por um gozo primário que terão. E torna-se muito mais fácil falar do princípio do utilizador-pagador, sendo quase impossível aceitar-se como razoável o princípio do doente-pagador. Assim, me parece que as palavras que mudam o não fazem com toda a inocência. Também aqui, palavras diferentes, têm consequências distintas. E no fundo, doente só é utente, se alguma cultura de que é também vítima, o incentivar ao consumo. Ninguém, na verdade, gosta de ser doente e, por isso, quando é utente sem ser doente, alguma coisa o fez ser, alguém o estimulou a usar. Mas neste caso, o pagador deve ser quem estimula o uso e não a vítima. Em resumo, a saúde deve ser paga fundamentalmente pelos saudáveis e quase nunca pelos doentes.

Il gattopardo

O encanto dos príncipes é levantado sobre ruínas que aparentemente nem fazem. Para eles fica a imagem de charme, até de alguma humanidade, quase de exemplo a seguir. Mas seria possível a imagem do príncipe se outros não fizessem as acções que nos repugnam? Daí a minha pouca identificação com estas personagens, a minha atitude calculista, a minha percepção de que algo vai mal no reino destes príncipes. Como os comuns mortais, também eles encaram a morte como inevitável, sentem as saudades da juventude, só com a vantagem de lamentarem mais a primeira e se irritarem mais com a falta da segunda, porque a sua vida fácil lhes deixa, possivelmente, mais saudades. Os simples mortais como eu, poderão sentir alguma tranquilidade quando no fim do baile, os vemos caminhar sozinhos pelas vielas, expiando algum castigo. É a caminhada de alguma justiça que ainda anda por aí.

domingo, março 19, 2006

Os cães

De barriga cheia, mas sabendo que há futuro e apesar de, no passado, não ter cultura de ficar com fome, ei-lo que cobre o prato com o tapete do chão. Quanto mais cobre mais o arrasta, tornando barulhenta esta sua manobra meio clandestina. Mas continua apressado, temeroso e determinado, quase com ganas de morder quem se aproxime. Por que o faz? Provavelmente, pela incerteza do prazer garantido, nessa coisa meio obscura que é o futuro, o tal que pertence a Deus, um companheiro em que, afinal, se assim se procede pouco se acredita. Quantos dos comportamentos dos homens não são também determinados apenas por vagos receios? Outros sê-lo-ão pela rotina de os ter, pela falta de imaginação de fazer diferente ou mesmo pela falta de rotina de pensar por que se faz, mas ancestralmente serão muitas vezes os medos que geram a acção.
Na adivinhação do futuro se tem investido perscrutando o presente e o passado, usando a metodologia da ciência ou mesmo, quando dela alheados, através pelo recurso à adivinhação por outros métodos ou às mesmo só pela fé. A ciência, o conhecimento das leis que nos regem tem, ao longo dos tempos, gerado respostas para alguns dos medos, tem acabado com alguns deles, mas também não tem deixado de criar novas dúvidas, para a geração de novos medos. É difícil, pois saber qual o balanço, mas, possivelmente, será impossível fazer de outra forma.
Algumas vezes acontece criar-se uma ferramenta que simplifica a existência, como os computadores. Só que logo a seguir, a descoberta é desvirtuada pelos receios de quem manda (ou pela sua incapacidade de imaginar diferente) e aquilo que deveria simplificar, acaba complicando. Estas máquinas que nos poderiam libertar o tempo para actividades de lazer, acabam por nos encher o pouco tempo que disso tínhamos, por nos aumentarem ritmos de trabalho e porque, quem manda, tira em seu proveito o efeito libertador que em si encerravam. Na ânsia de criar mais vantagem, substituem os homens pelas máquinas, criando legiões crescentes de desempregados, melhorando a sua Economia, dispensando custos com recursos humanos (chateia-me esta expressão de recursos humanos. Gostava muito mais de serviço de pessoal. Esta considerava-nos pessoas, a outra coisas a que se pode recorrer. Acho que devíamos reinstituir os serviços de pessoal e recusar-nos a ser recursos humanos, dispensáveis a todo o instante.), gerando sempre mais lucro para si ou para um grupo cada vez mais restrito. E a descoberta que nos libertava, acaba, por fim, por nos oprimir. E tudo isto porque têm mais afectividade por um computador do que por uma pessoa. O primeiro reduz os custos de produção, a segunda aumenta-os. Só que se não percebe, exactamente, para que serve a redução dos custos se as pessoas ficam de fora. É aquilo que o cão faz ao tapar a comida só pelo hábito ou pelo medo do que vai vir, sem nenhuma evidência da necessidade do acto, só pela rotina de o fazer, sem a capacidade de reflectir na coisa. Atitude certamente justificável num cão, mas não seremos diferentes? Alguns, pelos vistos, não!

sábado, março 18, 2006

Curricula

Os curricula são quantas vezes o contrário do que parece. Classifica-se melhor o candidato que escreveu muitos textos, quando possivelmente, ao fazê-lo só retirou tempo ao que seria útil ter feito. Realmente, se desses textos nada resultou para a melhoria da sua actividade ou da dos outros seus pares, de que valeu a pena tê-lo feito? Este é um vício do meio em que nos movemos, este fazer de conta que se investiga, sem que dessa investigação nada resulte de eficaz, simplificador da actividade. Desta forma muita da investigação feita é desperdício, geradora de despesa em vez de lucro. Por absurdo, ainda lhe atribuímos valor, quando, na realidade, deveria ser factor de desvalorização pessoal.

Comissões

Atribui-se a Salazar ter dito que criar uma comissão era a melhor forma de não actuar. A comissão discute, propõe, mas tudo fica na mesma. Não é de estranhar pela forma como se nomeiam. Para começar, uma comissão é constituída por vários tipos que se dispõem a trabalhar sem nada receber. Mesmo agora que toda a gente já sabe que não há almoços grátis. Depois, os comissários geralmente têm de decidir sobre aquilo em que laboram. Parece que se não se encontrassem não saberiam como laborar. Vão assim, tentar convencer-se uns aos outros como deverá ser feita a coisa, mas sempre com pouca vontade de cada um deles fazer a sua coisa de forma diferente. O resultado, geralmente, é sempre o mesmo: eles continuam a fazer como faziam, os que não fizeram parte da comissão tendem a não fazer o que a comissão (aqueles pretensos iluminados!) disse para se fazer. Realmente, no fim tudo fica na mesma ou pior. Pois é, não se pode pedir aos árbitros que criem as regras do jogo e as vão de seguir aplicar, ainda por cima jogando por uma das equipas. É desejável que haja comissões de peritos, mas terão de ser independentes do jogo e, não podendo beneficiar dos proventos dos jogos, terão necessariamente de ser pagos. E quem lhes pagar dessa forma poderá organizar campeonatos mais baratos e acabará, apesar de lhes pagar, lucrar com a despesa.

quinta-feira, março 16, 2006

Relatividade

À volta pouco estimula, tirando talvez umas rixas na Sorbonne, mas deve ser mais o meu desejo que Maio renovado. E pode até ser que seja apenas reprise de subúrbios. De resto, é apenas mais do mesmo. Bush continua ao ataque e ameaça o Irão e todos os maus do mundo, para me deixar invejoso de não conseguir ser assim simples. Que tranquilidade deve ser esta coisa dos bons e dos maus! Onde aprendi a misturar as cores e ver esta paleta infinita de combinações possíveis? Era bom quando só via a duas cores. Mas agora é mais perfeito.
O triste é não se ver a preacaridade de tudo isto, os tais 70 e tal anos (em média!) que nos separam de um tempo bem mais eterno, sem que ninguém escape a esta sina. Valerá assim tanto este tempo tão breve?

quarta-feira, março 15, 2006

Escolhas

Uma coisa são concursos para atribuição de competências, outra bem diferente são os destinados a atribuir lugares para constituição de uma equipa. No primeiro caso basta definir critérios mínimos de perícia e verificar se os candidatos os possuem. Quando atingem um determinado valor, é-lhes concedido o grau. Mesmo aqui devem privilegiar-se critérios objectivos de análise, definidos sem a participação dos júris. As regras devem ser aplicadas pelo júri, mas definidas por terceiros. Estranhamente, no casos dos concursos médicos, ainda são os júris que definem os critérios, isto é, as regras. Mas, nestes concursos de obtenção de graus, o problema não é tão grave, ou se obtem ou não a graduação e geralmente o problema decorre pacificamente.
Os problemas agudizam-se quando se fazem concursos de provimento. Existem umas normas gerais vagas sobre as quais os júris definem grelhas de avaliação que, à partida, podem valorizar o candidato eleito do júri. E não chega não se saber quem vai concorrer, basta conhecer-se o concorrente que queremos escolher. Nestes casos, a escolha só acaba por ser minimamente objectiva quando o juri não quer escolher ninguém em particular. Ou seja, o juri põe e dispõe, tem todo o poder. Seja feita a sua vontade. Trata-se de um exercício de pretensa independência, uma farsa para legitimar o ilegitimável. Curiosamente, apesar do rei ir nu, ninguém lhe aponta o dedo e acaba de vez com estes exercícios de estilo em que as pessoas se cansam em argumentos em que não acreditam e de que sempre resultam incómodos e sensações de injustiçados. Isto é, fica tudo chateado e nem mesmo os vencedores têm o prazer da vitória porque a dúvida (ou certeza) de terem sido beneficiados lhes retira essa oportunidade. Acedem ao poder, podem continuar a farsa. Então por que se mantêm estes exercícios? Por necessidade, porque se não existissem a subjectividade seria ainda maior, o compadrio exacerbava-se. É falso, em nada estes concursos o evitam, apenas aliviam a consciência (se existisse) dos elementos dos júris. A sua irresponsabilização mantém-se intacta, nunca a sua vida vai depender das escolhas que façam. Aliás, se optarem pelo mais cordatos e burros em detrimento de alguns mais brilhantes e naturalmente com ideias próprias, até acabarão por ter menos problemas de futuro. Conclui-se assim, que os concursos se mantêm para perpetuar o poder das chefias, para lhes conservar a irresponsabilidade e garantir os lugares. Mas tudo isto poderia ser diferente e menos doloroso se paenas se avaliasse com objectividade a chefia através de critérios de qualidade da acção produzida. Só que neste caso alguma coisa poderia ser posta em causa, especialmente seria colocado em cheque o poder. E como o poder não se oferece, não esperemos que nada mude, se nada fizermos para o mudar.

terça-feira, março 14, 2006

À volta

Paradoxalmente, ao mesmo tempo que a vista se vai cansando, começamos a ver melhor, com outra nitidez o que antes a vontade esfumava. Ficaremos, por ventura mais cinzentos, mas na verdade nem sempre é colorida a realidade e, com efeito, muitas vezes mesmo são os nossos olhos que a pintam. Ela esteve lá sempre onde a vemos da mesma cor e nós é que somos seus pintores.
Foi assim que comecei o passado sábado, a reflectir sobre a generosidade dos homens. Com uma triste sensação de que, naturalmente, ela não existe, não passando de uma construção elaborada pela psicose de alguns. E mesmo esses, ao sentirem-se generosos, correm o risco de o deixar de ser. Porque a generosidade deixa de o ser quando percebida, naquele instante em que se converte em mais uma mercadoria que se tenta passar ao próximo. Aí, nesse instante, até pode converter-se no seu contrário. Conceitos destes devem ter nascido pela necessidade, ainda acredito que natural, de vivermos juntos uns com os outros, gerada pela natureza insuportável de vivermos cada um para seu lado. Fomos longe na psicose, criámos a necessidade das leis justas e até o Estado. E sempre que o medo nos assaltou, imaginámos o surreal para explicar o que não explicamos e criámos a religião. E assim temos vivido contranatura, quando como se vê que o que gostamos é do prazer, muito mais do que da realidade. E este conflito entre o prazer natural e a realidade criada nos tem acompanhado desde sempre. Hedonistas e estóicos por aí temos andado, criando éticas e morais.
Nos últimos tempos anunciaram-nos o fim da história e, depois de derrubarem o muro, querem convencer-nos a derrubar o Estado e a viver cada um por si, não percebendo bem que depois de estarmos sós logo iremos a correr reconstruir tudo de novo. Gostamos de andar às voltas. Afinal é assim que tudo parece andar desde os electrões aos astros todos. Era assim, de roda, que gostava de andar quando miúdo girava até vir a vertigem de um enorme prazer.

E neste intervalo apareceu morto o Milosevic, o Sampaio foi ver o Sporting, o Benfica teve o seu dia de azar (para variar), os iraquianos continuam a morrer como nunca, o Irão está quase a seguir-lhe as pisadas, as OPAs continuam animar as bolsas, as direcções dos hospitais continuam a vender o que é rentável aos privados e o Sócrates já está no poleiro há um ano. E está tão contentinho com o que fez!!! E já foi à Finlândia ver o que lhe falta fazer: pôr toda a gente a pagar impostos, dar ensino gratuito e universal, além da saúde e... ele deve ter visto. Vamos nós ver se viu.

quinta-feira, março 09, 2006

Hoje é o primeiro dia


Hoje é um dia histórico para o país: O Benfica ontem eliminou o Liverpool.
O resto são histórias do passado, a relembrar num futuro próximo. Só que agora deixou de haver recurso para leis mais selvagens. Ao contrário do que, de alguma forma, acontecia antes.

quarta-feira, março 08, 2006

2-0

É sempre necessário bater na bola e depois ter o momento de sorte de ela, ainda que batendo na rede, passe para o outro lado. As vitórias e a vida são cheias destes momentos. Há dias em que a bola passa sempre para o lado de lá, outros em que bate forte e volta. Hoje foi dia de match point (e duplo!!). E a sorte de uns acaba por ser o azar dos outros. A justiça é perceber que ela não existe nestas coisas da vida e que as coisas têm esta natureza. Simplesmente. A justiça é uma busca de racionalidade num processo de outra natureza e nesta não entra esse conceito. Mas não deixa de ficar bem se, ainda que contrariando a natureza, soubermos torná-la mais humana, não procurando, de forma cega, apenas a sorte.

terça-feira, março 07, 2006

O terror do medo

Pode ser demais num só dia ter uma dor violenta num pé e acabar a saber que também se é diabético. Juntar a isto 8 horas de espera num serviço de urgência tira do sério o mais bem intencionado dos cidadãos. Depois vem o medo de todas as novidades que lhe são dadas. É preciso drenar o fleimão! E nuvens negras de dores e mais complicações dresencadeiam a tempestade. Pelo meio há cansaço, opressão pelas condições em que também se vive do outro lado e quem não quer ser tratado não merecerá que se perca tempo com ele; há mais quem queira. A radicalização do conflito, acaba muitas vezes com aquele, se não quer assine aqui, que podendo ser mais uma forma de pressão com vista a fazer mudar a opinião, pode também ser manifestação de desinteresse e até de algum alívio. Para mim, sempre me soube a derrota, no entanto. Foi por isso, que comecei por o abordar chamando-o pelo nome e depois lhe expliquei, como se ele fosse a pessoa mais razoável e inteligente que houvesse, os riscos de não fazer a cirurgia, a relativa facilidade que o processo envolvia, a excelência do hospital onde estava, sobretudo porque aqui gostamos de tratar bem os doentes e não lhes causar dor. Dez minutos de conversa mudaram decisões irrevogáveis de 8 horas de conflito. Suspirou e concordou. O medo por instantes deu lugar à disponibilidade. Nestes casos é bom não agigantar o medo, sendo mais útil derretê-lo com bom senso.
Da derrota passei a um sentimento de vitória. Há assim uns dias em que a ciência é, com vantagem, substituída pelo bom senso. São aqueles em que eta actividade se torna gratificante.

domingo, março 05, 2006

A fotografia

É muito importante a maneira como encaramos as câmaras. Um dia só ficamos no registo do clique. E tudo o resto se desvanece. Se calhar nem será assim tão importante, porque até o registo acabará reciclado por aí. Fica a valer o instante, este. Acabou, aproveite-se o seguinte e assim por diante, com toda a energia possível.

quinta-feira, março 02, 2006

Democracias do Demo

Ou de como se prova que há povos terroristas e outros com maiorias não democráticas.

Evidências (ou serão provas?)

Nesta ciência exacta em que me movo, numa manhã li três textos com opções terapêuticas diversas para a mesma situação. Como o assunto era de outra especialidade, consultámos dois colegas avalizados. Foram mais dois resultados diversos, afirmados com toda a convicção. Só que até eram antagónicos. Num dos casos a afirmação era mesmo de fatalidade possível com uma das alternativas e a proposta era qualquer coisa que pode fazer desaparecer os leucócitos. Qualquer das opções na ordem dos 100 euros o mês de tratamento. Como o doente era especial, acabei por optar pelo velhinho haloperidol a pouco mais de 2 euros. Dez gotas e parece ter bastado... até a próxima complicação ou insucesso terapêutico. Será o sucesso tão diferente com as alternativas da moda?
Num tempo de medicina baseada na evidência (aquela que muitas vezes a indústria cria ao sabor das cotações) não deixa de ser curioso ver toda a eficácia da arte de que esta actividade tanto é feita. Sem dúvida que, entre les deux, o meu coração balança.
Ainda deu este episódio, para andar a ler as portarias (543/2001 de 30 de Maio) de comparticipação do Estado nos preços e a polémica que foi a determinação de ter de se escrever o nome da doença nas receitas e da tentativa de restrição de prescrição, para se obter a comparticipação, a certos especialistas. Em nome da ética, disse-se que não podia ser, a primeira violava o segredo profissional, a segunda discriminava os médicos e dava-lhes diferentes competências. É claro que o sigilo quebrado com a menção da doença é uma opção do doente, que poderá sempre optar pelo pagamento integral e que os médicos não são de forma alguma igualmente competentes para prescreverem tudo e mais alguma coisa. Pode até dizer-se que a decisão de autorizar a escrever o diagnóstico é discriminatória para os doentes, tramando os mais pobres, obrigando-os a deixar que a menção seja feita e favorecendo os que podem pagar os medicamentos. Claro, que esta deve ser a única desigualdade que existe em todas estas e outras muitas coisas... Pois os princípios éticos são muitas vezes o favorecimento da ética do vendedor e facilitar as prescrições é, seguramente, o melhor meio de aumentar as vendas e lucros, afinal, pouco éticos a quem basta soprar a cultura, deixando a outros a sujeira nas mãos. Como se constata, afinal, dá jeito ter um Estado gastador, embora se continue a exigir-lhe que baixe os impostos, não se percebendo muito bem como o fazendo poderá garantir os pagamentos.

quarta-feira, março 01, 2006

Festa

Eu queria estar na festa, pá!

Solidariedade

Começa tranquilo o dia em que Bush anuncia que vai apanhar o Bin Laden. Os ventos passam a soprar de forma diferente depois deste anúncio. No Iraque, hoje, até talvez não morram 30 para compensar os 60 que ontem morreram na celebração da paz e da liberdade. Importante é o louvor do individual, da capacidade sobre-humana de alguns semi-deuses. Enquanto houver quem acredite nos génios do mundo, só mesmo eles continuarão a não perceber por que raio têm de morrer como os outros. Mas para satisfação dos mesquinhos e vingativos em que me incluo, também eles não ficarão para semente. E ainda bem, porque os frutos do futuro merecem melhores genes. Mas a manutenção da diferença, exige o seu conceito e a sua imposição como realidade. Se assim não fosse, seria difícil justificar as outras diferenças que dão acesso ao poder de mandar nos que são simplesmente iguais.
Felizmente, como no Astérix, há sempre quem resista às certezas do Império e continue a pensar que o mundo é feito de pessoas empenhadas num precurso comum. É por isso, que vão a casa de quem vive só, conversar um pouco ou comprar um pacote de manteiga ou, simplesmente, permitir que a mulher saia da prisão que é a casa onde se vive com alguém dependente, preso com o receio de que possa acontecer alguma coisa. Esta gente sabe a palavra proibida, marginal, que, ainda não há muito, era propaganda: solidariedade. São eles que aprenderam (e me ensinaram) que a televisão não é companhia para esta gente idosa. Realmente, tanta exuberância, riso e felicidade, só os isola mais, só os humilha, mostrando-lhes um mundo a que, definitivamente, não pertencem e que os domina.

domingo, fevereiro 26, 2006

1-0


Fim de tarde avermelhado. Só uma bola foi pouco... mas chega para recomeço.

sábado, fevereiro 25, 2006

Anjos com pés de burro

É nisto que dá. Ainda há sítios no mundo onde o fanatismo não oculta a caricatura do invencível.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Modelos

Há uns separadores de promoção na SIC Notícias onde se promove a estação com a participação bem humorada de algumas das nossas celebridades (não os consigo referir pelos nomes porque já me esqueci, desculpem...). É uma cultura muito em voga esta da promoção dos que saltam mais alto, batem mais forte na bola, aceleram melhor. Pelo contrário ninguém ousa falar de tipos como o Jorge Calado, que ainda ontem mostrou na Gulbenkian o que é ser-se grande, o que deveria ser modelo. Há uma falsa proximidade do povo relativamente aos primeiros e uma fatal distância para os segundos. Por isso os primeiro induzem a ilusão, os outros a frustração, os primeiros a facilidade, os outros a realidade e o trabalho. Dos primeiros ninguém saberá daqui a 10 anos os nomes, os outros serão recordados daqui a muitos.
É que as mensagens querem-se alienantes, emotivas, com tudo o que possa afastar a mais breve reflexão. Nos dias em que andamos, reflectir é subversão, algo que deve ser evitado de todas as formas. Mostrem-nos as lágrimas e os risos dos outros para que não nos passe pela cabeça rir ou chorar e nos limitemos a andar por aí, máquinas obedientes.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Combates

Se não nos acautelarmos, a Indústria Alimentar ainda nos tenta convencer que são os líderes da Educação Alimentar. Veja-se o esforço que fazem pela transformação dos conteúdos fornecidos, cada vez mais saudáveis, com menos açúcar e menos gordura. No fundo só querem defender a liberdade de escolha, embora não consigam explicar por que não pôr no mercado outras drogas mais ou menos duras. Dizem tudo isto com uma inocência chocante.
Por mim fica-me a ideia de que precisamos continuar a proibir (lixo alimentar nas escolas e não só), para que eles promovam cada vez mais alimentos saudáveis.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Consulta

Olhou-me e disse, vou morrer, e morreu mesmo, o estúpido. É a crónica de uma morte anunciada num momento de consulta em que a doente explica os motivos de não cumprir a dieta. O stresse é um momento entre o estúpido e o coitadinho. Há a ternura e o horror, tudo misturado na impotência da vida. Fico limitado a um olhar solidário. No fundo, andamos todos a fazer o melhor que sabemos, com a excepção dos que sabem demais. Pelo meio, faz-se muita asneira com a melhor das boas vontades e debitam-se desculpas de culpas não sentidas, mais desejos e impotências de fazer diferente.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Breve

Há dias em que me fico pelos dias na marca que o calendário me imprime. Ontem aconteceu assim e tem ciclicamente acontecido, como hoje e amanhã. E sempre nesta coincidência mágica de sequência todos os anos. É no mês mais pequeno do ano que tudo acontece. Há estrelas amarelas a saltar da ponta da varinha a deixar-me a sentir um pequeno príncipe contente com o mundo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Negligência

Cada vez mais assisto a uma cultura de crítica, de pesquisa fanática do erro para obtenção de lucro, procurando má intenção no erro, agora geralmente chamado negligência. O árbitro erra e pede-se a cabeça. Antes de mais, foi comprado. O médico engana-se, pede-se indemnização, prisão até. Crime, grita-se. Há uma fogueira ateada para onde se querem atirar todos os que ainda vão tomando decisões, o primeiro passo para se poder errar. O motivo é muitas vezes bem mesquinho e não ultrapassa a vingança em relação ao que se pensa ser poder, algo em que vivem os frustrados famintos de sangue. Corrigir erros com penas, não os vai evitar no futuro, porque ninguém erra por querer errar. O erro maior é a admissão da infalibilidade, a fé numa ciência exacta. É essa fé um produto vendido a cada esquina, uma mentira repetida incessantemente, para nos atirar uns contra os outros num caldo de intolerância fundamentalista. Enquanto nos vergastarmos, outros assistem ao espectáculo na pacatez dos seus palácios, em orgias de poder sem fim. O verdadeiro poder precisa desta diversão para continuar a reinar. Esta é uma realidade que, muitas vezes, nos escapa e não o entender pode ser negligência.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Momentos de uma profissão

Há algum pudor que nos impede de olhar a morte com naturalidade como se de uma senhora bonita e bem vestida se tratasse, como Saramago no-la apresenta. Pior do que a nossa, muito pior, é olhar a dos outros. E o pior de tudo é decidir sobre ela. Hoje, cada vez mais, depois de escolhermos o momento de nascer, começamos a ter nas mãos a decisão do momento de deixar a morte chegar. Muitas vezes, por um receio, possivelmente natural, tentamos encarniçadamente afastá-la, pesando mal o equilíbrio entre o sofrimento de estar vivo e a tranquilidade de o não estar. A todo o custo, muitas vezes, identificamos vida com prolongamento de tempo sofrido, quando, talvez, mais a devessemos identificar com esperança. Que vida há, além da esperança? Decidir o fim da esperança, é dos actos mais dramáticos desta profissão. Mas quando o olhar de desespero nos enfrenta, nem sempre devemos ser passivos e fazer de conta que não é nada connosco. Se dar esperança é obrigatório, menos não é, concordar com a falta dela, quando não o fazer é um prolongamento insano de dor. Fica um grande alívio, quando os corticóides, desta vez pelo menos, voltam a transformar o olhar e o oxímetro vai mostrando saturações crescentes, quando minutos antes desciam de forma angustiante. Mas se não, impõe-se ajudar o olhar a ficar tranquilo. Muito difícil, mesmo assim racionalizado.
Hoje ainda respirava e, tranquilamente, com olhar agradecido dizia, foi este, apontando-me o dedo. Mas afinal foi apenas ela, eu poderia ter sido obrigado a fazer outras coisas. E naquele momento de agradecimento, fico com o desejo inconfessável de que tenha alta, de que seja transferida para outro lugar qualquer antes da minha próxima urgência interna.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A santa

No dia em que anunciou um aumento dos lucros de 62 por cento em 2005, a Volkswagen prepara a redução de 20 mil postos de trabalho nos próximos três anos. Em causa está o facto de os lucros serem inferiores ao esperado pela administração.
É com esta simplicidade de texto que a TSF nos dá a notícia. Quando alguém vos disser que os salários não podem aumentar porque há necessidade de criar riqueza antes de a distribuir e que temos de fazer sacrifícios e tal, expliquem-lhes que estão amentir a toda a força. Não é assim que funciona a sagrada economia que os inspira. Essa é mais como explica a notícia acima. A tal economia em nome da qual passam o tempo a pedir-nos sacrifícios, não é para melhorar a vida das pessoas, é para corresponder, para se aproximar dos lucros esperados, especulados. Nos últimos tempos a dita tem procurado chantagear-nos, dividir-nos, negociar caso a caso, destruindo a coesão que nos pode fazer fazer-lhes frente. Ontem no Hospital de São João, enfermeiros protestaram contra a precaridade do emprego. Querem tornar-nos precários, sem qualquer tipo de garantias e em troco de pouco mais do que insegurança. Andam a vender o Estado, delapidando tudo o que pode dar lucro, oferecendo-o aos privados. Houve um tempo em que se resistia e ram tempos duros de resistência. Que se passa agora? Como aceitamos a mordaça?
Esta economia, que nos querem fazer passar por única, não nos serve, queremos outra. A história continua, há mais mundos além dos desenhados pelos sábios do Império e adoptados pelos subditos da terra.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Agostinho da Silva e o outro Silva

“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se a1guns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem”

(Agostinho da Silva, "Cartas a um jovem filósofo")



«Raramente me engano e nunca tenho dúvidas»

(outro Silva)

Um é filósofo o outro nem sei que diga, mas dizem ser economista. Se calhar melhor se vive sem a sua economia do que sem a filosofia do primeiro, que partiu há 10 anos.

domingo, fevereiro 12, 2006

Ideias soltas

Prevaricar em benefício próprio deverá ser um dos principais combustíveis que nos fazem mexer. O gozo maior vem de enganar o outro, seja ele Estado ou colega. Cada vez que mais olho à procura da natureza dos homens, mais me parece ser isto verdade. O hedonismo é o nosso estado natural. Que poderíamos fazer e faríamos se tudo nos fosse permitido? Pois é, foram precisas as religiões e as leis do Estado para nos controlar. Acontece, que nos últimos anos temos cada vez mais abandonado a religiosidade e agora nos esforçamos por liquidar também o Estado. Se calhar é a Natureza e esta Evolução que explicam o estado a que estamos a chegar. O avanço da ciência retira-nos os medos e a necessidade de acreditar, porque só é preciso acreditar no que se não sabe. Quando sabemos, não precisamos de crer, sabemos simplesmente. à medida que sabemos, dominamos, temos novos poderes, não precisamos de invocar os favores de Deus. Compreendemos os fenómenos e controlamo-los. Tudo por nossa conta, sem apelar a ajudas. Qual então a necessidade de um estado para nos limitar os nossos poderes?

Mas o conhecimento não é universal, por isso o que ficou dito aplica-se a quem o tem e são esses quem propõe a sua libertação. Já agora em nome de todos para facilitar o seu domínio.

Aos outros, que por acaso são a esmagadora maioria, compete caminhar contra-natura, o que é, obviamente, uma caminhada bem difícil.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Liberdade

Fazer um quadro visível melhor ainda que escrever um livro, mesmo que de linguagem quase matemática como as intermitências da morte, é programa de uma vida. O que é já em si uma expressão curiosa, porque programa será qualquer coisa que a vida deve ou não ter. Aqui os conceitos divergirão entre os que opinam que a vida é um momento e os outros que mais a vêem como uma sucessão deles com um destino a construir. Para os últimos o programa acaba por ser a própria vida, enquanto que para os primeiros um obstáculo que se lhe põe no caminho. É difícil decidir qual a opção mais valiosa. Tenho de aceitar que me atirem na cara que fumam estando conscientes dos riscos, que comem pelo gozo que lhes dá sem que ninguém tenha nada que ver com a obesidade de que sofrem ou a diabetes que virá, que bebem porque aquela colheita é o complemento necessário do prato que os deleita. E até podem ter toda a razão, que destas há mais do que uma e cada qual se não deve impor às concorrentes tudo dependendo das convicções mais profundas de cada um. Até entendo que um cidadão americano não use cinto de segurança, nem capacete na cabeça quando corre recostado na Harley. Quando se estampa é ele que paga a conta… Nos grupos em que há compromissos repartidos, onde o indivíduo ainda não esmagou a ideia do conjunto, as coisas possivelmente terão de ser vistas de forma mais prudente. Temos os direitos que acordámos ter com os que nos estão à volta. Neste caso, as nossas opções sofrem desse condicionamento, somos menos livres à custa de sermos mais tranquilos. Podemos optar entre o momento e o programa dos compromissos, o que se não pode ter, é estarmos com um pé de cada lado da parte boa da coisa, toda a liberdade e alguém que pague a conta. Sapo estas coisas que às vezes são pouco pensadas.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Caricato

Esta é uma crise que a direita provocou. Foram eles que fizeram o desafio. Por mim, precisava ser muçulmano para perceber. Como não sou, não sei julgar. Mas assusta-me a ideia de haver preocupação com os efeitos, quando se escreve ou se desenha. Quase todo o texto ou desenho, afecta de alguma forma as convicções íntimas de cada um. Resta-nos o silêncio se formos por aí. Andam agora por aí alguns chefes ocidentais muito preocupados com o ultraje. Alguns acharam natural a proibição dos véus, outros não desdenhariam recolocar os crucifixos nas escolas. As motivações cheiram-me a petróleo e o fanatismo religioso nem chegaria a existir se a libertação económica fosse o dia-a-dia de todos.
Vivemos num mundo irreal, distorcido, caricaturado e em equilíbrios de medos.

domingo, fevereiro 05, 2006

A morte e o poder

Depois de uma sexta-feira nauseada apesar da domperidona, preparava-me para um fim-de-semana calmo de reorganização de papéis. Estava eu nessa actividade quando, durante uma chamada telefónica, a minha mãe que descrevia em directo o desmaio. Mais uma corrida estrada fora a imaginar cenários, nesta viagem já a tornar-se rotina, até chegar a um cenário de todo inesperado. Sob o alpendre, sentado na cadeira, debaixo do chapéu-de-sol verde, jazia (quase!) o meu pai. O médico que tentei ser detectou palidez, ausência de resposta a ordens e à dor, pulso ausente, movimentos respiratórios presentes, desvio conjugado dos olhos, flacidez dos membros. À falta de melhor puxei a cadeira para dentro de casa e atirei-o para o chão de pernas para o ar. Melhorou ligeiramente a palidez, o pulso melhorou qualquer coisa e comecei a chamar reforços. O 112 e uma médica. Os bombeiros devem ter chegado um quarto de hora depois, a médica logo a seguir. Aos poucos as coisas foram-se compondo e os serviços de urgência receberam menos um doente. Em vez de arrumar papeis, arrumei ideias sobre a incapacidade de raciocinar com clareza em circunstâncias destas, sobre heroínas que aguentam estes sustos uma e outra vez e se mantêm de pé, generosamente em combate de uma forma já quase ultrapassada. À noite, durante o regresso, impressionei-me com a previsibilidade destes episódios. Prognósticos fáceis de fim de jogo. Factor desencadeante, baixo débito, por estase periférica em circulação cerebral limiar. Como um lago onde os peixes tivessem subitamente ficado sem água deixando os peixes em movimentos rápidos, de cauda, atordoados, também os neurónios ficam hibernados, a fazer sacudir os membros, até que chegue de novo o líquido que de novo os faz nadar. E tudo acontece segundo um horário quase exacto de episódio para episódio. Pela noite estrelada, vou andando por entre as intermitências da vida.

Precisava de um domingo de repouso e consegui! O rapto no serralho já estava à espera de ser visto há uns dias e foi o primeiro momento alto do dia. Há um tipo que há 250 anos, nos fala de coisas simples como o de resistir por ideais, da possibilidade de o fazer (continuo a acreditar que ainda é, mas já somos poucos), de que a morte pode ser uma passagem para a paz, e de que o verdadeiro poder é a generosidade de perdoar e respeitar a vontade dos outros. Este é o poder que dura séculos, bem diferentes dos breves poderes que matam por necessidade, por medo. Os poderosos não têm medo, não precisam de subidas imediatas de cotações das acções. Bem diferente, do que se vê no Fiel Jardineiro, o filme da tarde. Também aqui a morte garante melhor a paz do que a força bruta do poder.

No meio disto, a discussão das caricaturas de Maomé não merece mais comentários do que os feitos por Miguel Sousa Tavares no (para quem paga, claro!) Expresso. O Hemingway a que temos direito, quando não fala de FCP, fala direito geralmente e lá diz tudo o que há para dizer.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O prémio

Já ando farto de ser juri nesta aldeia com delírios de país. Ao Prémio concorre um único trabalho. Custa chamar isso a um conjunto de páginas alinhadas, onde se não percebe quais os objectivos ou a hipótese a testar, em que os métodos são duvidosos e a discussão é uma repetição dos resultados, ficando a conclusão a iniciar-se com um esclarecedor parece que. É o país das aparências, dos eu acho, tudo a condizer com a aldeia. Só que na aldeia, os prémios têm dimensão de cidade. Mandava o pudor, que tal exuberância de coisa não tivese saído da gaveta. Aliás, muitos outros pares lá terão permanecido em descanso. Este é um país de ousados, há uns que avançam. Até fizeram decobrimentos ou achamentos que nesta coisa do achar ninguém nos leva a melhor. E os sensatos ficam na praia. Depois, há o sentimento do coitado, a falsa solidariedade de se não poder criticar naturalmente, explicar que assim não serve.
Já ontem a entrevista feita ao Bill Gates mostrava o fosso dos conceitos, neste caso da jornalista pobrezinha e do homem (é assim que se chamam os que não são doutores, engenheiros e tal) rico. Ela a falar de protecção, ele de livre inovação. Ela não percebia, ele explicava por que não pode parar de inovar.
Somos um país de cansados, desistentes por falta de estímulo e rigor nos contendores. Andamos em correrias pequeninas na pequena aldeia, sem nos confrontarmos com o deafio global, sem perceber que de nada serve sermos os melhores na pequena aldeia, razão de patrioteirismos de bandeira na janela, E vivam os nossos heróis mourinhos de além mar cantados nos sermões dominicais do professor. Nada nos safa desta pequenez. Mas, na verdade, não é inocente a coisa que assim se determina. Os prémios são razoáveis, muito acima mesmo dos méritos dos concorrentes. E assim se vão criando mitos e autoridades em matérias no país. Autoridades no sentido policial ou guarda-republicano do conceito, autoridades e não referências como bom seria que fosse.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Sem óculos

Ficar sem a prótese deixou-me, de repente, à deriva. As palavras desapareceram, as fotografias desfocaram-se. Impressiona a desvalorização que fazemos do adquirido. É no momento em que falha que o sobrevalorizamos a ponto de deixar quase de ter preço, de passar a valer o que for preciso. É preciso olhar com atenção redobrada para o que nos faz mexer no dia a dia e se esfuma no tempo cheio de pressa em que se anda. Só damos conta dos dedos quando a ferida os afecta e começamos a tocar com eles nos objectos à volta. Aí percebemos toda a importância que têm apesar da desatenção que lhes votamos todos os dias. E a vida está muitas vezes e quase só aí, no que nos não apercebemos por andarmos distraídos a valorizar o que, afinal, nem será assim tão importante.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Dilema

Julgar o trabalho de alguém que se conhece é duplamente difícil. Complexo é distinguir o que se conhece do trabalho a conhecer. A certa altura a dimensão em que se está fica esfumada na impossibilidade de se ser objectivo sobre o objecto que se julga pela intensidade do conhecimento que se tem de quem o produziu.

terça-feira, janeiro 31, 2006

O Aparelho

A direcção política do PS reuniu-se e decidiu não aplicar sanções aos militantes em função dos resultados ocorridos na eleição para PR. Ou seja Sócrates e o aparelho escaparam aos castigos merecidos! Sempre o aparelho a dominar...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Palestina

As forças do bem e do mal são uma simplificação necessariamente grosseira, uma definição do poder. Uns definem o bem e o mal, outros seguem a definição, outros como eu, mesmo que «tentados» a admitirem a possibilidade de existência de organizações terroristas, têm alguma dificuldade (mesmo muito grande) de admitir a existência de povos terroristas. Mesmo quando possam defender meios «terroristas» de acção, isso poderá dever-se apenas ao medo em que os fazem viver.

domingo, janeiro 29, 2006

Deslocalização (cá dentro lá fora)

(Imagem do chaparro com neve)

1. Desde quinta-feira que ando a viajar cá dentro, lá fora. Primeiro foi durante a manhã de quinta, quando na Aula Magna me informaram que agora tinha ao dispor uma biblioteca digital ao alcance de uns cliques. Não mais necessidade de assinar revistas, gastar milhares. Agora a parceria HSM-FML põe ao dispor dos seus funcionários envolvidos na prestação de cuidados aos doentes toda a informação útil disponível. Ainda não tentei, mas parece que estou lá fora, estando cá dentro.

2. A viagem até Vilamoura fez-se entre habituais conversas de circunstância e uma surpresa ao falarmos da Pátria. Percebo que esta minha insensibilidade pelo amor a um pedaço onde aleatoriamente nasci, será chocante e estranha para muitos. Realmente, acabo por me sentir bem mais identificado com os mesmos explorados de outras pátrias do que com os exploradores da minha. Ou dito de outra forma, a minha pátria cá dentro se calhar está lá fora, em muitos sítios. Uma Pátria grande, onde não há espaço para os gozos vaidosos de sermos os primeiros. É a história de preferirmos ser peixe grande em aquário minúsculo ou peixe maior e pequeno em aquário grande. Essa é a função justificativa das Pátrias: encher alguns egos.

3. Estes congressos cá dentro têm pouco factor de notícia. Só que em Vilamoura chovia. Isso deslocalizava-me, pois o paradigma algarvio não estava ali. Mas apenas isso seria pouco para ser notícia. Este ano a reunião era conjunta da SPEDM e da AACE, o que poderia já ser motivo de algum sentimento de estar lá fora, cá dentro. Acabou por ser causa de mais pátria. Chateia-me a subserviência ao Império. Se calhar nem existe, é apenas o ser-se simpático, mas quando se faz uma reunião luso-espanhola ou luso-brasileira, não me lembro da bandeira lusa morar por baixo da americana nos logótipos. Geralmente, andam lado a lado. Mas a verdadeira sensação de deslocalização foi a entrada na sala ao jantar. A alcatifa no chão, as mesas redondas, a banda no palco, o cenário completo e acabado do jantar de congresso em hotel americano. E a música a pretender ser jazz. No final, nem faltaram os discursos a que faltou a graça, como à banda, na verdade, faltou o jazz. Uma americanada pífia que me fez sentir num estado americano, mas fake. Não havia necessidade. E provavelmente, os americanos até teriam preferido ver algo de algarvio ou coisa assim. No fundo, é pouco provável que num próximo congresso nos EUA nos recebam com fado. Ao menos têm esse lado menos saloio. Geralmente, mostram-nos o seu primarismo sem complexos.

4. No regresso nevava em Alcácer a lembrar-me outras viagens no Colorado, onde a viagem começa com sol e aos poucos a neve vai cobrindo a beira da estrada e o gelo se acumula nos limpa para-brisas. Neve no Alentejo, para estar dentro e a sentir-me lá fora mais uma vez. Numa demonstração de que os mundos são muito iguais e que as diferenças terão de procurar-se noutros sítios ou no que a história foi fazendo às gentes que os habitam.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Crise, foi o que disse?

Vinte e quatro por cento de lucro, o melhor resultado de sempre (resultados Millenium 2005). Mais palavras para quê?

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Um dia depois

A evolução dos resultados das eleições foi bem curiosa. No início, traduzindo a votação das pequenas freguesias do interior do país, Cavaco ia bem destacado, quase ao nível das sondagens de há uns tempos. Depois, à medida que os votos do litoral e dos centros maiores foi tomando maior expressão, caiu, caiu quase até ao limiar do que seria a sua desgraça e teria tido imensa graça. Acabou a ganhar pela margem escassa que se viu. Mas isto é como no futebol, não interessa como se ganha e só há dois resultados que importam. Mas a primeira reflexão é esta, os mais abandonados, as gentes do interior ficam ainda deslumbrados com os Professores de Finanças. O outro ainda anda por cá muitos anos depois. A boa coisa, é que as coisas terão obrigatoriamente que mudar, porque não somos eternos, nem continuamos descalços.
Ainda me não tinha dado conta da incapacidade de Soares. Ele está em boa forma física, pensa bem aparentemente, mas, na verdade, faltou-lhe discernimento para recusar a armadilha dos cortesãos. Convenceu-se que bastava ter a corte, que menciona à exaustão, de intelectuais, artistas, pintores e outros doutores para ganhar. Tem um conceito aristocrático da política. Depois de ter há anos metido o socialismo na gaveta, pensava agora que lhe bastaria a corte, para fazer o seu passeio triunfal. Pecado original, esqueceu-se dos plebeus e que vivemos na República, onde os votos dos notáveis são iguais aos dos outros. A sua visão de um mundo pequeno e estreito não lhe permitiu ver mais amplo. Às vezes, escreve-se direito por linhas tortas e cá se fazem, cá se pagam. Merece, ainda assim, umas boas férias (espero que pagas pelo Engenheiro Sócrates).
De positivo, a vitória de Jerónimo no campeonato da esquerda que tem alguma semelhança com o que aconteceu a Cavaco. Louçã manifesta as preocupações elevadas dos filhos da burguesia, com complexos de esquerda, Jerónimo está mais perto do povo, é mais básico, não publica em revistas internacionais como o povo também não, não está assim tão preocupado com alguns lobbies da cidade a quem o povo chama nomes feios. E que é feito dessa imagem de linha dura que lhe davam os sábios da terra há uns tempos mais atrás?
De negativo, o episódio arrastão número 2. Falava Alegre, quando noutro lado, por uma coincidência do caraças, começou Sócrates a falar. Os jornalistas em bando subserviente foram arrastados para ouvir e fazer-nos ouvir o Engenheiro deixando Alegre a falar para os ouvintes daquela sala. Mais um case-study para alunos de jornalismo. Até parecia que o Manuel Alegre continuava a ser o terceiro candidato, como foi toda a campanha na palavra dos sábios comentadores.
E agora, que fazer no dia seguinte? Não me parece errado pensar que o país tinha esquerda que chegasse para derrotar o Professor na segunda volta. O que aconteceu ontem foi que alguma classe média relativamente bem na vida, decidiu punir o Engenheiro pelas recentes medidas que tem tomado. Funcionários públicos, professores, juízes, gente perto da reforma, não tem gostado desta governação e numa atitude fácil, decidiu castigar o Governo. Aliás, isso faz-me pensar que teria sido mais complicado a Alegre conseguir o que se conseguiu se tivesse o PS por trás. Corria o risco de ser ele o alvo da ira desgovernada daquela gente para quem Cavaco, afinal, nem é assim tão grande problema. Assim, apesar da derrota, houve uma oportunidade de criar alguma esperança de que as ideias e vontades de cada um não sejam assim tão desprezíveis e inúteis. Nos últimos meses, verificou-se que quando as ideias e vontades se juntam, algo nasce. Mas percebeu-se também que falta a máquina por trás. Na verdade, a campanha Alegre pode ter sido fundamentalmente uma comunhão de gente contra. Contra Cavaco, contra os aparelhos partidários, contra o facto de se ser velho, sem um programa bem definido, apenas unidos por esse cimento de se ser contra coisas que não gostamos. Se assim tiver sido, foi um erro sem grandes consequências. Mas pode ter sido também, um alinhamento à volta de ideias de solidariedade, de anti-neoliberalismo. Nesse caso, pode vir a ter pernas para caminhar. Compete aos socialistas que estiveram neste combate irem para dentro do Partido, obrigar à mudança de rumo, acreditarem que o caminho é para a esquerda e que o alvo do crescimento não são os descontentes rolha que ora viram para cá, ora se afastam. Isso garantirá alguns empregos de tempos a tempos, mas não a melhoria do país. Consolidar a esquerda à esquerda deveria ser o caminho. Sócrates, com poder garantido por mais 3 anos, devia igualmente apostar nesta via. Se o não fizer terá um destes dias um lugar honorário e bem pago numa qualquer organização internacional. Deixará o caminho aberto à maioria com Presidente de direita e a selva terá, então, um bom clima para se desenvolver na plenitude.

domingo, janeiro 22, 2006

60000 e tal

Por pouco mais de 60000, ele ganhou e nós perdemos. Precisavamos que tivesse aberto mais a boca. Mas cidadãos nasceram uns quantos, há que continuar. O pesadelo ainda seria maior se este fosse Presidente e o Santana Lopes PM. Um já foi, compete-nos despachar este dentro de alguns anos. Que a cidadania continue a avançar.

2745491

Dentro de seis meses vamos ver onde eles andam. São 2745491. Se então virem algum, digam-me.

Ele é o senhor Presidente

E cá está o Presidente de todos os portugueses. Sinta-se à vontade, as minhas acções nesta sociedade estão ao seu dispor. Não me agradeça, portanto. Curioso foi não haver aplausos quando disse ir ser o Presidente de todos os portugueses enquanto jurava a solidariedade ao Governo. O magote não gostou. Afinal como é, o gajo não vai arranjar um tachito cá pró pessoal? Esperem só mais uns mesitos... e depois falamos.

Maus sinais

Andam por aqui uns tipos do PS a dizer que o melhor candidato era o Mário Soares. São maus sinais, Como diz o outro, «quando a evidência está nas coisas e a inteligência não está nas pessoas, é isto, pouco ou nada há a fazer!»

Perdemos... A luta continua!

O discurso da direita vai ser agora dirigido contra Alegre, pelo receio de alguma inversão no rumo político da direcção do PS. Compete a Sócrates e aos amigos escolher, manterem-se mais 3 anos em aliança com o novo Presidente e perderem as próximas eleições ou fazerem a inversão de rumo e ganharem as próximas eleições e depois impedir Cavaco de estar mais 5 anos em Belém. Páro aqui. Esta imagem é tenebrosa, quase igual a ter D Duarte a representar o Estado.

Ainda mexe....

Cavaco tem 52% neste momento. Alegre 20,4%. Faltam 1000 e tal freguesias.
Se isto se não inverter definitivamente será bom reconhecer que foi uma derrota e ter o bom senso de resistir a tentações de continuar a dividir ainda mais a esquerda. Unir a esquerda com estes resultados significa também para Sócrates a obrigação de mudar de rumo, perceber que apesar dos seus erros o país é maioritariamente de esquerda. Dessa forma terá o apoio do povo da esquerda e o problema será eventualmente de Cavaco.

Pois... (real-time)

Podia ter sido hoje a tal segunda volta. Se tivesse sido, se o bom senso tivesse prevalecido, quem estaria agora em primeiro lugar nas projecções? Entretanto, no país mais pequenino, Cavaco vai em 54,5 (56 há bocado) e o Alegre em 19 (18 há pouco), ou seja como nos últimos dias, um desce e outro sobe. O tempo vai andando, a bandeira ainda espera para ser agitada.

Crime! Haverá castigo?

Muitas vezes me aconteceu sair dos filmes dele com a sensação de, uma vez mais vim ajudar a pagar-lhe a psicanálise. Woody Allen, realmente, deu-me com frequência a impressão de recorrer a esta forma de terapêutica ocupacional para se tratar. Fez-lhe bem ao que parece, já se notavam algumas melhorias no filme anual dos últimos anos, mas com este Match Point quase diria que está curado. É diferente em quase tudo, deixou de centrar o tema nas suas angústias (ou terá angústias novas), saiu de cena, mudou de cenário. Constroi uma história simples à volta de relações interpessoais, mas esse não parece ser o tema deste filme. Talvez pela primeira vez terá feito um filme com pessoas que não necessitam ser inventadas, estas pessoas existem e o filme é hiperrealista. Tendo por fundo essas relações fala-nos do papel da sorte nas vidas, dos valores e da culpa ou da falta dela. Interroga-se se existem sentimentos de culpa se o crime não tiver castigo num jogo de amoralidade em que o crime talvez possa ser perfeito. E se o for haverá sentimento de culpa ou haverá antes, alguma sensação de triunfo por se ter conseguido enganar os outros? Aquele ar confiante de, se não fosse para ganhar não estaria aqui! Retrato hiperrealista de uma sociedade amoral, onde o triunfo está ligado à especulação bolsista. Uma sociedade onde o crime, existindo, so o é, verdadeiramente, se for descoberto. Caso contrário é mérito, sinónimo de progresso e bem estar dos criminosos. Para cúmulo, há também neste filme uma aristrocracia que beneficia, sem sujar as mãos, deste estado de coisas enquanto vai caçando, frequenta a ópera ou afoga os seus vazios no álcool. A parte suja é feita por fantoches, yuppies devoradores das migalhas que sobram. Às vezes o controlo perde-se neste estilo de vida angustiado e infeliz. E cabe a nós decidir, se no final, a imagem à janela traduz algum sentimento de culpa ou, antes, a dúvida se o crime ainda virá a ter castigo. E cada um de nós terá, talvez, respostas diferentes.

sábado, janeiro 21, 2006

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Resistir!

A casa era grande e pobre o candidato. Ainda assim, não faltaram os amigos, com a tristeza compreensível da ausência dos muitos que se imagina existirem. Não havia bifanas, nem vinho tinto, nem autocarros. Assim, a casa fica demasiado grande. Mas candidato pobre em vez de dar, pedia. Pedia 10 euros pela entrada. E ainda assim, sem atocarros, sem bifanas e sem vinho tinto, tinha ali os amigos que acreditam. Amigos sem faixas impressas em agências publicitárias, com boas cores e letra de forma. Como dantes, as palavras iam escritas com letras a preto com a tinta escorrida. Escritas militantemente.
Só isso valeu a pena. E eu dei comigo, quase 30 anos depois a ir a um comício. Já valeu a pena. Esperemos por domingo à noite. Desistir seria grande falta de educação!
Desejos de um fim-de-semana o mais ALEGRE possível.
Citação:


«Que o poema vista de domingo cada dia

e atire foguetes para dentro do quotidiano.

Que o poema vista a prosa de poesia

ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada

funcionário já farto de funcionar.

Ah que de novo acorde no lusíada

a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso

que chegue disfarçado ao pé de ti

e aponte a terra que tu pisas e eu piso.

E que o poema diga: o longe é aqui.»


Deram-me ontem a bandeira que quero agitar domingo à noite. Vamos a isto!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sempre a abrir!

Já falta pouco, mas a questão é de tudo ou nada, porque não há vitórias morais. O objectivo está bem definido: é necessário que não aconteça nesta terra o que aconteceu nos Estados Unidos. Hoje, parece claro para muitos, o que era menos claro há uns meses. Bush mentiu, Bush mente sempre que isso lhe interessa e ao grupo que o apoia. Cavaco, também! É importante que daqui a uns tempos, os crédulos de hoje se não sintam enganados. D.Sebastião basta um na história de um país.
Este é o combate, derrotar o Professor. E mesmo aqueles que se identificam com a esquerda consequente e normalmente estariam a apoiar Jerónimo no combate contra o Professor, necessitam de também de acertar na opção. A decisão é perceberem se lhes é indiferente Soares ou Alegre. Soares já foi uma vez sapo, hoje há uma alternativa. Por isso, a escolha nunca me foi difícil desde há muito. Porque é claro que no país saloio, não será Jerónimo nem Louçã que terão alguma possibilidade. esse seria um país de vanguardas. Resta saber até que ponto vai o orgulho saloio. Nos States foi até à reeleição. Queiramos que aqui não seja assim, sejamos Deuses por uma vez. Sempre a abrir!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

--> = <-- (Ou o enigma d' OCAVACO)

«Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação - a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.» (Fernando Pessoa)
O texto não é novo, mas continua actual. Acontece de tempos a tempos. Acontece agora numa variante curiosa que é o mito associado à amnésia, com uns posinhos de magia de ilusão de mudança. Tudo isto temperado com silêncio quanto baste. Uma receita que os mágicos do marketing consideram infalível. Mas é apenas isso, o mito por mais bem vestido qe o sirvam, não será nunca realidade. E na verdade, há coisas que não mudam. Quer o leiamos da direita para a esquerda, quer da esquerda para a direita O CAVACO, será sempre e apenas OCAVAC O. Igual agora ao que sempre foi, por mais artifícios cosméticos que o marketing lhe faça. O homem continuará realmente a mentir, quando trauteia a Grândola, quando não ouviu na véspera a entrevista do senhor Lopes ou simplesmente quando não dá crédito às sondagens que mostram a sua queda. E mentir, ainda mais com a sua falta de jeito, é coisa que fica muito mal a um presidente. Por uma questão de educação, mas também estética, compete-nos impedi-lo.

terça-feira, janeiro 17, 2006

O Mourito

Já não nos chegava o Mourinho, eis que agora se perfila aí um Mourito. Quer ser o treinador, imagina-se, do Governo. Mas este é especial (como o outro), porque se a equipa perder, quer mandar embora os jogadores. Toda a gente sabe que isto se não faz assim. Por isso é importante que o sujeito não comande a equipa a partir de domingo.

Pausa apátrida

Quando soube que em Portugal 2 milhões de pessoas vivem com menos de 350 euros por mês, entrei em reflexão.
Mais reflexivo fiquei quando ontem vi o princípio de um debate sobre a Pátria. Por mim não preciso de Pátria, mas de libertação daqueles 2 milhões e de muitos outros mais. O nome do país, a pátria são secundários. Até hoje, esta coisa da pátria só serve para se dizer que fomos os primeiros em Portugal (quando a façanha já foi realizada por quase todos os outros) ou que um nosso qualquer teve um qualquer feito lá fora (até deliramos quando um piloto de F1 fica em último com grande regularidade). Como eles diziam, somos saloios, mas, sinceramente, eu não fico particularmente feliz com isso. Da mesma forma que feliz não fico, com os muitos milhares de milhões que por esse mundo fora vivem com menos de 2 dólares por dia, muitos a fazerem aquilo que desfrutamos. Nem quero que a minha pátria sirva para manter esse estado de coisas.

sábado, janeiro 14, 2006

De encavacado a escavacado


Encavacado com a entrevista de Santana Lopes. Confesso, que é fotogénico o especimen, mas fico ansioso pelo próximo boneco no dia 22, quando vier ilustrar a imagem do escavacado.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Maus sinais

Nesta fase fazer uma afirmação como esta é já de muito mau prognóstico. Vivessemos num país de alfabetizados e não haveria possibilidade de alguém dizer este tipo de coisas. Governar bem para todos é uma boca sem qualquer tipo de sentido. Ele sabe que não é isso que se pode fazer. Governar será sempre escolher uma parte dos todos e tomar o seu partido. Não há volta a dar, os interesses de uns colidem com os de outros e a arte está em saber de que lado da barreira nos colocamos. É que a luta de classes não se extingue por decreto ou por desejo, ela existe. E nem é preciso procurar muito. Por exemplo, governar para o bem de todos é propor aumentos de 1,5%, como hoje faz o senhor ministro das finanças? É a perguntas destas que o senhor professor deveria responder, sem evasivas, em vez de atirar bocas non sense para o ar.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Cidadania - a nova descoberta no país dos mudos

Naquele país, agora reinam os mudos. Deve ter-se tratado de uma adaptação genética, fruto de mecanismos de selecção natural. Depois de cerca de 50 anos de mutismo, ficaram surdos. Ouvir de nada lhes servia, já que não podiam falar. Pouparam assim uma função. Os mudos dão aos lábios, mas os sons não saem. Fazem apenas que falam, sem dizerem rigorosamente nada. Depois são os eleitos dos surdos. Como sempre acontece nestes processos, há uns quantos que não adquirem a tara e neste caso, alguns continuam a falar. São os marginais. Necessariamente condenados ao insucesso (segundo as sondagens) pois, no país dos surdos, só a voz dos mudos pode ser ouvida.
Naquele país, não ficaram apenas surdos. Também ficaram sem gosto. Até se diz que é uma pátria de desgostosos.
Naquele país, além de surdos e sem gosto, também perderam o tacto. Incapazes de se sentirem apalpados, continuam a sê-lo à fartazana, mas já não sentem e muito menos ainda lhes resta a vontade de apalpar alguma coisa.
Aliás, naquele país, alguns até já nem querem ver, o maior desejo que têm é mesmo ignorar a realidade. E, assim, avançam determinados para a cegueira.
Naquele país, o imobilismo cresce, a podridão avança, lançando um cheiro fétido no ar. Alguém já disse mesmo tratar-se de um pântano. Mas, naquele país, também já perderam o olfacto. Uma adaptação fundamental para se poder viver no meio da podridão.
Naquele país, foram-se já os sentidos todos. Resta só saber se faz sentido um país onde os que lá estão já não têm sentidos.
Como no Astérix, contudo, naquele país, ainda há, num cantinho, um quadrado que resiste. Um grupo de cidadãos que escapou a esta epidemia de liquidação dos sentidos. Segundo as vozes da ciência, terão em circulação uma substância (cidadania), recentemente (re)descoberta, que os protegeu e lhes permitiu resistir e continuar a serem Cidadãos. Esperam conseguir disseminar esse produto a muitos outros, ressuscitando-lhes os sentidos, a tempo de evitar, uma vez mais, a vitória dos mudos.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Reformas

Estamos a atingir um limiar de irracionalidade em que a argumentação está cada vez mais desvalorizada face à afirmação de direitos inalienáveis. Eu não quero saber (da viabilidade, das possíveis soluções), quero é que me dêem aquilo a que tenho direito (divino?). Foi nesta base que hoje me argumentaram contra a ideia de alterar os regimes de pensões. Não importa apresentar soluções para o problema, eu quero é o meu e o resto que se lixe, que anda por aí muito menino a safar-se e eu a ver! É nesta selva bárbara que desagua a corrente da ideologia individualista que nos têm propagandeado nos últimos tempos. Mas, quer queiram quer não, tem de ser encontrada uma solução que esta coisa da matemática é mesmo lixada e não permite falácias nem retórica. Uma solução que não seja a criação de esquemas que aproveitem ainda mais a alguns, aos mesmos de sempre, do tipo de criação de uma alternativa privada que implicará sempre a necessidade de criação de lucro, ou seja, teremos de pagar mais para receber o possível, nem que implique o sacrifício de uma geração, aquela que se reforma dentro de 10 a 15 anos, com manutenção de privilégios dos que nasceram por acaso uns anos mais cedo. Neste caso parece ser razoável a criação de um tecto para as reformas, obviamente, com efeitos retroactivos, implicando, se necessário, a suspensão de acumulações de reformas ou mesmo o seu pagamento quando se continua a ter rendimentos por continuação da actividade. Não se poderá é actuar de forma cega, afectando um grupo em detimento dos benefícos mantidos aos outros.
Por exemplo, se chegassemos à conclusão que o nível máximo de reforma seriam 3500 euros por mês (dez vezes o ordenado mínimo, isto é, pagar por não trabalhar, 10 vezes mais do que se paga a quem trabalha), o Professor Cavaco, deixaria de poder auferir da sua tripla reforma (Banco Portugal, ex-PM e professor) de mais de 9000 euros, para ter apenas 3500 (se fosse eleito, com o vencimento de PR, deixaria de ter reforma por o vencimento já ultrapassar o tal plafond). Só para dar um exemplo de um cidadão que se diz preocupado com esta coisas...

terça-feira, janeiro 10, 2006

Boa educação

É bom quando ele fala. Hoje disse mais esta pérola. Para bom entendedor, pode já imaginar-se o relacionamento construtivo que ele se propõe ter com o Governo. Ao contrapor as afirmações do Minsitro das Finanças feitas ontem, o Professor refere simplesmente que são necessários ESTUDOS SÉRIOS. Ou seja o Ministro faz afirmações menos sérias, não é, candidato a Presidente? Bastam meia dúzia de sondagens bem orientadas e as unhas começam a ficar de fora, o homem começa a mostrar-se para além do script que lhe desenharam. Esta é a guerrilha que se avizinha, emboscada atrás de emboscada, crítica atrás de crítica como, aliás, bem se percebe no post de hoje do Abrupto. Desenfadado, JPP, esfrega já as mãos com imaginações de revanchismo à vista.
Entretanto, Soares já chama a si a responsabilidade da derrota. Seria altura de levar a ideia às últimas consequências e deixar campo aberto à única verdadeira alternativa da esquerda.
Cada vez mais me parece que é verdadeiramente uma questão de boa educação votar Manuel Alegre.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Campanha triste

Curioso seria ver o momento em que recolhidos ao fim do dia, passam pela cabeça as imagens do que foi a caminhada das últimas horas. As caras encontradas no estaleiro, no mercado, na baixa da cidade. A necessidade de fingir afectos inexistentes, de contactar os cheiros que se não procuram. Daqui a uns meses lembrarão as viagens de transporte público, as caminhadas, os beijos e abraços e que pensarão? Haverá ainda espaço para a reflexão, um bocadinho em que digam para si, que raio de figura que ando a fazer?
Há, no entanto, momentos altos. como aquele de ouvir Cavaco apelar ao diálogo e necessidade de concertação social. É o insólito absoluto. Ou laranja com muita Vodka.

domingo, janeiro 08, 2006

Estado

"O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tão pouco, “a realidade da Ideia moral", “a imagem e a realidade da Razão como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagónicas, com interesses económicos contrários, não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da “ordem”. Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado”.

Eis, expressa com toda a clareza, a idéia fundamental do marxismo no que concerne ao papel histórico e à significação do Estado. O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classes são inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados. E, reciprocamente, a existência do Estado prova que as contradições de classe são inconciliáveis.
Vem isto, de alguma forma, a propósito do post precedente e para se entender que nada surge por acaso. É curioso como o neoliberalismo faz a apologia do menos Estado, quando só com ele beneficia. Na verdade, querem o reforço do seu Estado para poderem manter o chamado estado das coisas.

Negligência de Estado

Cada 3 em 4 vezes que se come fora, a cena repete-se. Na altura da conta dão-nos um papel, que não é factura. Factura só a pedido. Este hábito de desperdiçar papel acabaria no dia em que a Lei estabelecesse penalização avultada para quem não fornecesse à primeira a factura. Era simples, meia dúzia de linhas no DR. Por que não está feito?

sábado, janeiro 07, 2006

Lamento

Fotografia no Expresso de hoje.
Isto é, claramente, um jornalismo rasca! É também a demonstração do poder de um dos donos do Poder, a quem a meio da semana Soares importonou, chamando a atenção para a campanha contra a sua campanha. Uma reacção, muito possivelmente motivada pela passagem da resposta que deu há dias em altura de cansaço e que um mínimo de seriedade jornalística teria ocultado. Na verdade, o homem não deve ser eleito Presidente por estar velho (que até nem está tanto assim), ele não deve ser eleito porque as suas ideias não servem, porque está a ser apoiado pela ala direita de um Partido que se quer ver livre dele, empurrando-o para a frente. Em certa medida apostam no seu lado bonacheirão e deixa andar, que permitiria se fosse eleito continuar, a lamentável política de direita do Socratismo. Esse seria o risco da sua eleição, a facilitação das orientações direitistas deste executivo. Por isso, é Soares tão apoiado por alguns financeiros.
Na prática, ao insistirem na ideia da incapacidade de Soares, pode até ser possível que acabem por aumentar o peso da única alternativa de esquerda nesta eleição. Mas também não é por essa via que Alegre devia lá chegar, mas, e somente, pela afirmação de que há uma esquerda que não mete o socialismo e a solidariedade na gaveta, que existem mais mundos e histórias para além da oficial.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Crossroads

Alcochete é a imagem de um arrabalde de uma cidade americana. Foi assim que a vi ao chegar ao Freeport. O fim da ponte, as gasolineiras à saída, as marcas nas áreas de serviço, a ausência de tudo. Marcas e mitos no vazio do consumo.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Diferentes e iguais

Tenho alguma dificuldade em perceber a celebração da morte de alguém, mas a história fornece pistas (não atenuantes, contudo) para o seu entendimento. O sujeito da morte desejada pelos palestinianos foi aquele que, tempos atrás, pedia desculpa de não ter morto o seu líder anos antes.
Mas o que os motiva (a uns e aos outros) não é muito diferente. Uma forma absurda de obscurantismo, a visão maniqueísta de um mundo de forças do bem e do mal. Depois, tudo acaba de uma forma bem democrática, à qual ninguém sabe escapar, porque ainda há alguma coisa que se não compra para tranquilidade dos que pouco têm. Chegada a altura, as diferenças esbatem-se e tudo acaba de forma bem igual. Podemos imaginar o reencontro e pensar se não haverá lugar para auto-crítica.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Intervalo

Tinha a pachorra de esfregar o chão comigo às cavalitas. Que descanse agora.

Dois reparos

O ministro veio hoje dizer-nos que daqui para a frente tudo vai ser diferente. Como na cantiga. Veio dizer que sabe ouvir, mas na hora de decidir, é ele quem o faz. Diz ele, porque em democracia tem capacidade de decidir quem o povo elegeu. Irrepreensível em tese. Mas não poderá esquecer-se que na tal democracia, há igualmente o dever de cumprir o programa que determinou a escolha, porque nem queira saber como reagem os enganados. E como a história recente bem tem mostrado, os eleitos de hoje, são os demitidos de amanhã. A memória às vezes é curta, mas a capacidade de reacção é a última a morrer.
Depois, subitamente, na cerimónia que já estava a ser chata, acordou a sala. Informa-nos que andam a ameaçar o Conselho de Administração!! Ele sabia muito bem que essa ia ser a notícia. Teria sido necessário ser o Ministro a dá-la? Com esta saída, penso que saberia que ninguém mais iria discutir a EPE (ainda não sei se o E primeiro, é de entidade ou empresa, ou se isso tem alguma diferença...). Logo, nas notícias era o crime prometido e anunciado por ele, que iria ser a notícia. Perdeu-se assim a oportunidade de divulgar o significado da sigla e, fundamentalmente, explicar qual a diferença que se anuncia e que assim continua promessa oculta em nevoeiro. Mas mais grave, atirou para o ar uma suspeita que recai sobre mais de 5000 funcionários. Noutras ocasiões partiu cadeiras, hoje mostrou um estilo tipo 24 horas, cheio de pressa de fazer notícia, quando a verdadeira só o será quando a Polícia nos contar o que se passou. Julgo que não haveria necessidade e foi gratuito. Ou haverá algo de mais maquiavélico por trás deste incidente? Estará a preparar alguma para o que necessita de ter algum clima propício?
Estariam cerca de 300 pessoas na sala, logo, gastaram-se 300 horas mais coisa menos coisa? Será que valeu a pena?

terça-feira, janeiro 03, 2006

EDP

Acho sempre comovente esta preocupação com a necessidade de manter a influência portuguesa nas decisões das empresas importantes. Primeiro, privatizam, depois entusiasmam-se (para não dizer que dão outras coisas) com a economia global, a livre concorrência e outros mitos de que tanto gostam, depois invocam os santos porque há trovoada. Se há empresas de sectores estratégicos que devem manter-se sob orientação nacional, o caminho é simples, garantir capital maioritariamente do Estado.
A independência depende da capacidade de decisão e esta da posse dos bens. Em troca de migalhas, como no século XIV, uma burguesia sem princípios nem pátria, nega o Estado em benefício próprio, ao sabor das conveniências (basta lembrar a história do Totta e Champallimaud).
Vai ter novamente que ser a arraia miúda a matar os novos Andeiros. As independências hoje, não se definem por linhas de fronteiras terrestres, mas mais por conceitos de evolução histórica. Patriota, da minha pátria, é quem puser areia nas engrenagens do liberalismo, quem o conseguir fazer gripar. Esse é o caminho. Ainda temos algumas acções no Estado, nas empresas mandam os accionistas que não somos. Garantir o Estado é a melhor forma de preservar a independência, isto é, a nossa capacidade de decidir.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Ritmos e azuis

A paisagem era de fim-de-semana, sem filas de trânsito, na transmissão de uma irrealidade, tanto mais que estamos em crise. De vez em quando há esta espécie de feriados auto instituídos. Noutras alturas de crise, faziam-se jornadas de trabalho voluntário ao domingo, num sentido de existência colectiva. O ano inicia-se tranquilo por entre desejos automáticos de prosperidade, mas, se nada mudar, fica a amarga certeza de que a prosperidade de uns quantos será feita, novamente, à custa da precaridade da maioria. E este é um sentido errado para a história. Ainda não desisto de o achar.
A partir de hoje trabalho numa empresa pública do estado. A Santa Maria estilizou-se na imagem e continua pública, sabendo-se que do Estado já seria. A dúvida é a inovação da empresa. Uma dúvida grande ainda assim.

domingo, janeiro 01, 2006

Nuvens (exactamente como noutros dias)

Tolerar-se-á a recorrência da mentira pela incapacidade de aceitar a verdade, a realidade do dia-a-dia. Dá, assim, jeito fixarmo-nos nestas circunstâncias circulares dos tempos e imaginar recomeços, no que na verdade são continuações. Nada de substancial acontece que motive os clarões de luz na noite entre Dezembro e Janeiro. Apenas a ilusão de que se carece, para a dor dos dias ser, episodicamente, aliviada. De outro modo, apenas os rubicundos rostos dos Casinos sorririam no aplicar das marteladas nas carecas dos vizinhos e a Praça do Comércio estaria praticamente vazia. Hoje, porém, faz-se um dia de pausa, o que já é de saudar.