terça-feira, novembro 21, 2006

À volta de Singer

Se estamos bem, podemos abster-nos; se estamos mal, devemos agir, realizar o bem. Ainda que nessa realização possamos fazer algo menos bom, pior seria ficar parado, inerte, porque o imobilismo não resolve o nosso incómodo de estarmos mal. Mesmo que agir, tenha quase necessariamente que dar, a quem não age, a possibilidade de reagir contra toda e qualquer mudança. O estado de espírito dos descontentes apáticos, curiosamente, exacerba-se quando algo muda, mesmo que adivinhem que a mudança possa ser benéfica. Mas mudar tem sempre algum incómodo associado, algum dispêndio de energia. Isso explica, provavelmente, o horror à mudança. Nessas alturas é de esperar que os acomodados se inquietem e procurem denegrir quem age pela mudança. É da natureza das coisas.
Não são pois de estranhar as campanhas mais ou menos espontâneas, de denúncia de quem se empenha na acção. Os políticos são umas das vítimas desta natureza das coisas. Aqui também e muito mais pelo horror a tudo o que é público, pois são eles os gestores dessa coisa. No primado do interesse próprio, chega a ser curioso que invocando princípios éticos se denunciem os pecados dos políticos. É, seguramente, correcto denunciá-los, mas estranha-se que, ao mesmo tempo, se não faça a denúncia dos não políticos que têm como único real valor a promoção pessoal em detrimento do bem comum. Quem sabe se essa não é uma arma do liberalismo para dissimular a ferocidade do interesse próprio, desviando a atenção para a observação e crítica da acção dos que se dedicam à causa comum. Por exemplo, se um gestor de uma empresa privada tiver um vencimento mais ou menos pornográfico e simultaneamente tiver uma reforma de uma participação anterior num organismo público, isso terá o mesmo impacto de um gestor público ter um vencimento bastante mais baixo do que o privado e ao mesmo tempo receber uma pensão equivalente? Estou convencido que o ataque aos políticos, como a idolatria do futebol ou a frenética devassa da vida privada das celebridades são o ópio que o sistema instila para se poder manter mais tranquilamente no poder. Ou os cães ladram, fazem barulho, agitam as matilhas e a caravana passa. Na verdade, a ausência de ética é uma das referências do liberalismo.

domingo, novembro 19, 2006

Desculpem lá

Com o parque de estacionamento já cheio, fica-se com a sensação de sorte grande quando vemos alguém aproximar-se do carro estacionado com ar de quem vai sair. Claro, que a coisa ainda vai demorar. Abrir as portas com o comando à distância, aproximar-se lentamente do carro, pôr o puto no banco de trás deixando obviamente a porta aberta, ir uma última vez ao porta-bagagens pôr mais um saco e, por fim, mas não menos importante, olhar para nós, com ar tranquilo, sem pressa, enquanto solta, finalmente, um: Desculpe, lá! Porque será que a desculpa é atirada para longe, porque não desculpe aqui ou somente desculpe, ou até apenas Bom-dia! Esta coisa de pedir desculpa longe, lá, é que eu não entendo. Mas, realmente, que a culpa fique longe de nós, que assim nos desresponsabilizamos. Podemos ainda ajeitar o banco e o retrovisor, abrir o vidro, que o tipo que está à espera, vai desculpar lá, que, aqui, até nem tem grande cara de perdão.

quarta-feira, novembro 15, 2006

O fim da bondade?

Lendo Retrato Político da Saúde (Jorge Simões):
Um dos problemas que alguns temos é acreditarmos na bondade. Pensamos, por exemplo, que ao perceber-se que a saúde era um bem para distribuir, se decidiu distribuí-la por todos. Engano! Foi preciso que houvesse mortos entre os operários que contríam um canal, vítimas de acidentes de trabalho e de epidemias e a produtividade diminuísse para se pensar em criar um sistema de saúde; foi preciso soldados morrerem na guerra, mais de doenças do que de tiros, para se pensar em dar-lhes saúde; foi preciso que os sindicatos alemães começassem a ter influência política, para que Bismarck criasse um sistema de seguros de saúde não por bondade, mas para retirar a simpatia dos trabalhadosres nas suas organizações. Nada acontece por bem, mas por necessidade. Estranha esta espécie que assim age.

Esquizofrenia

Só vê o caminho quem quer abrir os olhos. Ainda parece ser lícito andar cego no seu mundo, mas provavelmente, isso não poderá ser tolerado durante muito mais tempo no mundo cada vez mais comum de todos nós.

terça-feira, novembro 14, 2006

Hoje, SFF

Fez-me bem ter passado por organizações bem hierarquizadas, com controleiros e tudo, para perceber que não é razoável perder-se tempo em formalismos e em tem-que-seres. Isso deu-me uma urgência de acção que se não compadece com respeito por normas do deve-ser-assim. A dificuldade é o deparar-me quase sempre com gente que não envia um mail sem gastar tempo ao iniciá-lo por Exmo-Senhor-Doutor, em vez do simplesmente e suficiente Fernando ou um mais reduzido Olá. Depois desse desperdício vem o outro que é não se entender que o que tem de ser feito, escusa de ficar a ser feito amanhã. Hoje ainda há tempo. Este policronismo ou telecronismo que nos leva a pagar os impostos no último dia ou a preparar as comunicações de véspera sobre stresse, não se adapta bem comigo. Têm de se fazer alterações, fazem-se. JÁ! dizia-se em 75, quando havia pressa de fazer e qualquer coisa se fazia, nem que fosse a experimentar, porque só a inacção não leva a lugar nenhum. Se está mal, corrija-se! Não se perca tempo a comtemplar a asneira, que os pântanos nunca cheiraram bem.
Será que penso demasiado depressa ou não me exprimo como devia?

segunda-feira, novembro 13, 2006

Artes

No fim da tarde de ontem, aproveitei o tempo em olhares a Graça Morais e depois na Art Fair (chique hein, mas é assim que está escrito aí pela cidade). De certa forma fiquei surpreendido com a multidão que encontrei na Feira de Arte depois de passar pelo deserto da exposição na Cordoaria. Preferi a Graça Morais, que a Feira tem arte demasiado contemporânea, ainda na fase do bom investimento ou da percepção da insensatez absoluta. Vi um Pomar por 150000 euros, o que me pareceu fruta a mais a pedir vigilância activa pelo fisco a quem o comprar para detecção de sinais interiores (não devem pôr o quadro ao luar, não é?) de riqueza. Mas alguém fora daqui pagará aquilo por aquele quadro?
Estranho isto do valor da arte. Parece-me o valor do excesso que se tem. Ou será o do que se tem em excesso?

domingo, novembro 12, 2006

Algumas notas dos últimos dias

Uma semana razoável. Não só os Republicanos começaram a ser despedidos lá no grande Império, como, por aqui, algo timidamente, Sócrates esboça algum controlo sobre a banca. Aparentemente, muito tímido, mas o suficiente para eriçar João Salgueiro que o vem chamar de peronista. Só pela reacção parece poder ter algum significado, o suficiente para se esperar para ver o que dá. No fundo, o mais provável, é que seja apenas o meu desejo de viver no país mais limpo.
Tive a dose mínima possível do Congresso de Obesidade. Correu bem. Além de ter contribuído para que os participantes votassem (61% no final do debate) pelo não uso de fármacos no tratamento da obesidade, libertei-me da ligação à direcção da SPEO. Três anos foi tempo suficiente para perceber que a luta contra a obesidade tem de ser ganha fora dos conflitos de interesse, e a SPEO, como a maioria das sociedades científicas está amarrada aos financiamentos da indústria, o que de uma forma ou de outra sempre acabará por condicionar a sua acção. Para a tornar verdadeiramente independente será necessário criar fontes de financiamento alheias, o que até pode ser possível, mas está além da minha disponibilidade em termos de actividade possível a custo zero.
Foi também positivo verificar que o Ambulatório começa a acalmar e que é possível reforçar muito em breve a qualidade.
Por fim, as aulas de Gestão começam a ser instantes de bem-estar. Sabe bem aprofundar ideias e ir além do que se acha, começar a ter-se uma visão mais abrangente e séria das coisas com que estou a lidar todos os dias. A percepção dos fundamentos da mudança do mundo ajuda a encontrar melhores caminhos para nele se estar.
Bom entender as diferenças entre chefia e liderança percebendo que sem uma e sem a outra se vive na anarquia; entender que nos sistemas onde estou, um dos grandes problemas é a atribuição de direcção apenas por critérios, presumivelmente, técnicos, quando se pode ser um técnico excelente e ser-se absolutamente incapaz de liderar.
Compreender melhor a génese do SNS, perceber que ainda é um jovem adulto, que gasta quase 7,2% do PIB e quais as medidas de contenção de despesas. Estou, é verdade, a ser informado por uma informação classista, mas vai dar-me jeito conhecer esta argumentação para definir estratégias, possivelmente, mais justas.
Uma nota negativa na semana: Em Paris,dirigido por Christophe Honore (ponho aqui o nome para ter cuidado da próxima vez), um filme insuportável de feio. Quando o crítico escreve «Será mesmo possível que uma história de amor nos faça saltar de uma ponte?» isso é um aviso ao espectador menos forte emocionalmente. Mas o filme não merece que se morra por ele, apenas que se passe ao lado.

quarta-feira, novembro 08, 2006

A qualidade e o outsourcing

Para que conste aqui fica registado que no meu hospital público também tenho doentes finos. A Dra A., advogada, é uma delas. Hoje, quando chegou ao consultório, começou por me dar os parabéns pela melhoria do ambulatório do Hospital de Santa Maria. Sobretudo, estava bem impressionada com as recepcionistas. Com uma daquelas piscadelas de olho a armar ao cúmplice do vizinho de Cascais, foi-me dizendo que realmente os funcionários públicos eram uma desgraça. Afinal, confessava-me com ar de grande observadora, que o recurso ao outsourcing era decisivo. Outsourcing? perguntei eu timidamente. Sim, as senhoras (!) da recepção foram contratadas em outsourcing, não foram? Percebi, o bando das Sandras, essas inqualificáveis funcionárias públicas, agora têm uma farda nova. Bastou para passarem a pessoas com qualidade. Mais uma vez, o Senhor Presidente tinha razão quando manifestava a necessidade imperiosa de adquirir em tempo útil, nem que fosse no Rei das Fardas, o novo equipamento para aqueles «recursos». É a qualidade, estúpido!

Tudo vale a pena (apesar de tudo)

Mesmo um povo por quem se pode não dar muito, muito espicaçado acaba por se erguer. Um dia puxa das vassouras e limpa o terreno do lixo maior. Mesmo que seja apenas para o pôr transitoriamente debaixo de algum tapete e o substituir por algum lixinho. Entretanto, pode ser que os iraquianos ganhem alguma coisa com isso e só por esse facto pode ter valido a pena.

terça-feira, novembro 07, 2006

Comunicação

Quase ao fim da tarde, tive a impressão de que, talvez desta vez, o informático tenha percebido a linguagem do médico. Com paciência, lhe expiquei que era importante fazer aquilo de forma que até os médicos percebessem. Prometeu-me que sim, espero que seja desta que eu tenha conseguido explicar a coisa de forma que até um informático possa entender.
Estou com esperança.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Poder e corrupção

Chegado a casa de mau humor, ouço que Blair é contra a pena de morte aplicada a Saddam e que Portugal, num relatório internacional, está em vigémimo qualquer coisa lugar dos países menos coruuptos, lista em que a Nova Zelândia, a Finlândia e a Islândia estão em primeiro lugar.
Lembrei-me de imediato de ovelhas que pastam tranquilas e da ausência de gente nos campos da NZ, da tranquilidade da paisagem, da ausência de pressa. Imagino-os à lareira, se calhar contando histórias, vivendo. Percebendo a verdadeira dimensão da vida (pouco mais de 70 anos na melhor das hipóteses, afinal). Essa duração escassa deve precisar do frio dos climas para ser percebida na sua verdadeira dimensão. O calor deve despertar uma fogosidade de vida que termina facilmente no golpe e na ausência de regras. Para aí também levará esta fúria desordenada de acabar com as regras sociais e o primado absoluto por determinação quase divina do privado.
A condenação de Saddam é um acto de poder sobre um poderoso e corrupto. Claramente, ineficaz será a sua morte, dado que nada na vida acontece pelo exemplo que os actos possam induzir e o desejo de corrupção existe nos que têm medo de vida curta. Esses, tentarão sempre, se outras regras não forem criadas. E não é fácil resistir pela vida fora às facilidades de ser corrupto, obviamente ao nível das oportunidades que vão surgindo. Poucos serão os eleitos que dirão nunca terem sido corruptos. Tudo é uma questão de dimensão e acção. Pode mesmo acontecer que se seja por inacção, passividade. Será a corrupção mais frequente, a do mundo dito desenvolvido, que aceita, sem reagir, as diferenças do mundo. Tudo tem graus, mas nalgumas coisas da vida mais ou menos viciantes, só há uma atitude possível, optar pela qualificação em vez da gradação quantificada, ter uma atitude de tudo ou nada. Claramente contra a pena de morte, sem mais argumentos de não, mas. Claramente, contra a corrupção, detectando bem a sua presença e não a aceitar com desculpas de, pois, mas eles também. É uma educação cara, mas fundamental para ultrapassar a tristeza, que a facilidade inevitavelmente acarreta. A coragem é um valor imenso, mas estranha-se a sua habitual desvalorização em detrimento de tácticas, estratégias e outras merdas do género.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Finalmente

Agora, sim, tudo vai ser diferente. Faltava isto! Depois disto, o rumo das coisas vai mudar. Em Israel pensa-se já na mudança para um cantinho dentro de um dos Estados dos EUA, num exílio. Subitamente, perceberam que não podiam continuar a fazer aquilo que sempre têm feito desde que estão naquela zona, lixar tudo à volta. Afinal, alguém tinha de pôr fim a este estado de coisas. Foi agora. A notícia, por isso, veio na primeira página de todos os jornais deste país. No telejornal a avozinha nem sabe onde é que fica a nova terra do seu neto. Mas sabe que as coisas com ele lá vão ser melhores. Tem fé. O pai assegura, dos seus já muitos anos bem bebidos e comidos, que, como aquele já se não fazem mais. Já perdeu a força, se calhar. A partir de agora, o Conselho de Segurança vai entra de férias.
E tudo isto por causa de uma coisa tão simples como esta. Por que já não nos tínhamos lembrado disto há mais tempo? O mundo anda tão distraído.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Alentejo

Comecei bem o dia a ler um mail que me pedia a utorização para utilização de uma fotografia. Também sou feito destas vaidades. Mas, certamente, que todas as fotografias que fiz são propriedade quando muito dos fotografados, que me deram o privilégio de estarem ali na frente para os olhar.
Tomo também a liberdade de publicitar o filme onde figura, porque mostra um pouco essa terra de liberdade que é o Alentejo.

terça-feira, outubro 31, 2006

Dúvidas com vontade de certezas

Afirma-se que se está a construir algo novo e alguma renovação é sentida dentro de quem ouve. Este pode ser, realmente, um grande hospital, quando souber deixar de repousar nalgum passado duvidoso e acreditar num futuro de rigor. Mas é muito de velho a cair para que o novo prevaleça. Tenho mais vontade de acreditar do que acredito, confesso. Mas vou continuar, apesar da dúvida.
Será que a conversa da irreversibilidade do processo é o anúncio de alguma partida? Mas porque quererão os homens ir mais além quando ainda não chegaram ao fim da obra que começaram?

domingo, outubro 29, 2006

Dia de pausa


Como eles, ir sem olhar para baixo, até onde calhar indiferentes a quem os agarra num instante. Os momentos todos feitos, uns seguindo os outros, até ao infinito. Gosto assim das coisas simples e ficava-me por elas sem quaisquer remorsos.

sábado, outubro 28, 2006

A culpa é deles

Em jeito de resposta ao anónimo que me questiona sobre a culpa de aqui estar (hoje outra vez!): Só um país muito rico pode, na verdade, aceitar uma coisa destas, isto é, manter um médico de urgência a pagar-lhe mais de 20 euros por hora (preço base sem custo de horas extra...) para fazer coisas mínimas que qualquer outro no serviço de urgência geral poderia assegurar sem prejuízo para os doentes. São estes luxos, quantas vezes estimulados pelos interessados, que comprometem a viabilidade de sistemas públicos de saúde e que urge corrigir em nome da defesa do serviço nacional de saúde. Às administrações cabe terem um papel mais incisivo na resolução destas situações de desperdício. Por mim acabariam com a sensação de vazio renovada a que isto sempre me leva. Portanto, a culpa chama-se Direcção de Serviço, Direcção Clínica, Conselho de Administração e afins. Está apontado o dedo! Eu sou obrigado, nada mais. Sempre que posso denuncio. Mais uma vez.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Vazio

Ao menos o deserto tem boas vistas em noites de luar. Aqui nem isso. Apenas vazio a toda a volta. Um vómito absoluto.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Regresso a momentos recentes

Outros de antes ainda virão. Estão dormentes em apontamentos dispersos à espera que dias de maior serenidade me cheguem. A pressa fez de um Ambulatório tranquilo um quase embrulhatório, onde a correcção dos desvarios me tem ocupado os dias numa tentativa, cada vez mais conseguida, de desembrulhar um novelo embaraçado, como fazia em pequeno a dois, cada um sabendo bem o que tem de fazer, com concentração e sem interferências externas.


22:52:58
Última partida da viagem, mas no torpor em que estava comecei a achar estranho que o avião continuasse a rolar na pista ao fim de tanto tempo. Estava já no ar.

26:06:03
É confortável este avião da Air Malaysia, quer no silêncio dos motores, quer na ergonomia das cadeiras. Mas nem isso me permite dormir depois do jantar. Estou trocado. Vou passear corredor abaixo, corredor acima. Usam vendas, cabeças tapadas com cobertores, jogam tetris, xadrez, vêem filmes, lêem, dormem simplesmente alguns. É curioso ver assim toda esta gente num transporte público. Ao contrário das viagens de carro ou de comboio, aqui não se viaja, espera-se só que se atinja o fim. Num ambiente quase sem luz, vamos andando.

26:43:47
O bonequinho do avião atinge a costa norte da Austrália, algures a oeste de Darwin entrando pelo Northern Territory. Meio avião dorme, eu procuro o sono.

….
Dormi. Passo por Brisbane e o sol nasceu pela segunda vez no mesmo dia.

32:32:57
Aterro finalmente em Auckland trinta e duas horas, trinta e dois minutos e cinquenta e sete segundos depois. Tudo porque vim à volta. Estivesse o Júlio Verne no activo e teríamos uma viagem de elevador, descendo primeiro até ao centro da Terra e subindo(?) depois até Auckland, numa qualquer travessia do planeta em elevador.

Primeiros contactos com o outro lado do mundo
Descida mesmo foi a da temperatura, dos 30ºC de Kuala Lumpur aqui não estão mais de 15. Passa-se por cenários de vidros com desenhos de pássaros e ramos de árvores (deve ser para me fazer lembrar as portas de vidro no novo hospital onde trabalho…) até à espera das malas. É nessa altura que chega o Beagle que desata a cheirar-me a mochila e começa o interrogatório: foi você que fez a mala? Que sim, digo. Tem comida aí dentro? Não sei, balbucio. Como não sabe se fez a mala? Começo a dizer que já a fiz várias vezes, mas não me lembro se lá terei posto comida. A polícia funcionária, pede-me para responder se sim, se não. Terei ou não uma bolacha? Um caroço de pêssego roído? Sei lá, porra! Esta gaja com treino de cão começa a irritar-me. Não ri, não entende nada. Yes or No. Não me lembro, que cheire ela dentro da mochila! Busca, rebusca e não há comida. A mulher fica com ar passado, como se não estivesse a entender que o Beagle possa ser demasiado sensível e bem menos específico. Na confusão nem reparei se era uma cadelita Beagle. Aí tudo estaria explicado. Estaria a cheirar-lhe a Bite!
Enquanto isto, chegaram as malas, o que é sempre um instante de alívio depois de duas transferências de bagagens. Assim, até fico com pena destes ilhéus sempre com medo de os infectarmos. No inquérito além da comida perguntavam se tinha tido contactos com animais, se tinha acampado recentemente, se trazia botas de caminhada. Portanto, fica registado que quando se vem à Nova Zelândia se devem trazer umas Timberland velhas, os tipos à entrada devem dar-nos umas novas, talvez…
Depois de sair, quase me sinto estrela ao ver aquele cartaz com os nossos nomes. Estes somos nós, e logo avança um cidadão aparentemente retired com ar de motorista de série da BBC, com o seu wellcome/Kia Ora contido e absolutamente correcto. Chuvisca. Entre conversa de circunstância, chega-se ao Heritage, uma revitalização de antigo Grande Armazém, para a urgência de um banho.
O corpo está mole, mas a ideia é não lhe dar sossego até à noite daqui, minha manhã ainda talvez.
Dois quarteirões ao lado, fica a Queen St, espécie de Rua Augusta, rua central nesta disposição de aberturas rasgadas até ao mar (a Norte) que Auckland possui dirigidas daí para o Sul. A chuva começa rapidamente a resolver-se. Devem ter-lhe dito que tínhamos chegado à cidade. Assim, vamos pela Queen St até ao porto, como todas as instalações portuárias convertidas em restaurantes e depois não parámos enquanto não entrámos numa Igreja numa habitual reza pela alma das pernas.
Em passagem entrámos no Museu de Arte de Auckland com entrada gratuita à segunda-feira. Assim, só têm protesto nos outros dias da semana. Rigorosamente, a não entrar de terça a domingo, a qualquer hora. A seguir caminhamos pelo Jardim Albert e chegámos à Universidade de Auckland em direcção para leste. Continuando a andar, só acabámos em Parnell, bairro a leste com casas rasteiras, de madeira, como num filme de charme. Ainda avistámos o Auckland Museum, onde tínhamos já decidido só ir no dia seguinte.
Quase nem consegui jantar com o peso das sobrancelhas. Devo ter entrado em coma rapidamente; pelas sete da tarde, ainda cheio de projectos para resistir ao jetlag. Projectos, rapidamente adiados.

Versão Auckland em 24 horas
Começa-se com um pequeno almoço na Vulcan Lane, onde, dizia o guia, comiam os locais. No Vulcan encontrámos alguns a tomar o pequeno-almoço e decidimos fazer-lhes companhia.
Enquanto o panini não desaparece, entro na origem da humanidade. Era uma vez Ranguinui (Pai Céu) e Papatuanuku (Mãe Terra), que estavam ligados. Tiveram muitos filhos, os mais importantes de todos foram Tawhiri-matea (Deus dos Ventos e Tempestades), Tangaroa (Deus dos Oceanos), Tane-mahuta (Deus das Floresytas), Haumia-tike-tike (deus dos Alimentos Silvestres), Rongo-matane (Deus da Paz e dos Alimentos Cultivados) e Tu-matuenga (Deus da Guerra e dos Homens).
Depois de muito tempo às escuras porque a união de Ranguinui e Papatuanaku não deixava a luz entrar, os filhos quiseram ver a luz. Depois de discutirem o que fazer, decidiram separar os pais para que a luz pudese entrar no mundo. Coube a Tane-mahuta o feito de conseguir separar os pais e fazer assim entrar a luz no mundo. Porque só havia homens e uma sociedade assim não tinha graça, foi também Tane quem criou a mulher, Hine-ahune. Com ela tiveram uma filha, Hine-Titama, que veio a casar com Tane e assim nasceu a humanidade (com grande vergonha de Hine-titama quando veio a descobrirque o seu marido era também o seu pai). Uma origem complicada como se vê ou outra coisa não poderia ter sido, basta ver o que por aí vai.
Esta história Maori até tem graça, mais não seja por mostrar o que as crenças representam: geralmente, ignorância ou tentativas de explicar o desconhecido. Pena que nos dias de hoje, depois de tanto conhecimento adquirido ainda sejam alegadamente as crenças que separam judeus e árabes por exemplo. Ou talvez as separações tenham outras causas.
E se a origem do mundo foi assim, a origem de todos os caminhos em Auckland é em Britomart. Começa com um bilhete de 10 dólares que dá direito a todas as viagens que se possam consumir em 24 horas. Só no balcão das informações é possível aceder a alguma fiável. Tudo o que se pergunte a quem anda pela rua ou aos próprios motoristas dos autocarros é perfeitamente inútil. Ninguém sabe orientar-se nesta terra, embora até pareçam ter alguma boa vontade para nos dizerem o caminho. Simplesmente não sabem e sem conhecimento não há boa vontade que valha.
Primeira viagem do dia: chegada às 11h ao Auckland Museum que vale fundamentalmente para ver a Manaia, uma representação de cultura Maori (dança, canções, jogos). O resto é arte Maori e memorial da participação da Nova Zelândia em várias guerras.
Depois da visita, voltámos à origem das viagens e apanhámos o ferry para Devonport. É aquela viagem que se faz de Lisboa a Cacilhas, de São Francisco a Sausalito ou de Salvador a Itaparica. Aqui vai-se ver o Monte Victoria, o vulcão onde depois da erupção da lava, colocaram baterias anti-aéreas para outras deflagrações. De lá tem-se a linha de céu de Auckland e toda a frente marítima (um passeio que dizem ter 16 km). Visitado o Monte, desce-se até o porto parando antes no Sierra, junto à estação dos Correios, para comer uma sandocha enquanto se ouve Cesária Évora. Há restaurantes assim, em que o melhor é o que se ouve e a ida à casa de banho. Esta fica num pátio interior, tem um metro quadrado e uma porta com fecho improvisado por mau cálculo do artista (há engenheiros Mendes em todo o lado). Mas a obra acabou por sair bem depois de soldado no fecho uma pecinha. Isto mostra-me que aqui ainda há tempo para gastar no improviso, o que será bem melhor que a precisão absoluta que leva ao desperdício.
De novo a caminho da origem de todas as viagens, Britomart, para partir para o Monte Éden, outro vulcão com boa vista sobre a cidade. Eu que já tinha ido a uma das catedrais de São Pedro dos vulcões, o Vesúvio, fiquei com uma sensação de saber a pouco. Mas em vez da aridez da cratera ainda com restos de fumaça, aqui aparece-me uma cratera relvada e para mais sagrada. São 360º de vistas sobre Auckland e subúrbios.
Voltados a Britomart mais uma vez para uma ida até Ponsoby e a K St. Era já pouco do que faltava na check-list do a visitar em Auckland. Chegámos já depois do pôr do sol e pedimos ao motorista que nos dissesse onde era. Mais ou menos como pedir ao motorista no autocarro para Benfica nos avise onde é Benfica… Matreiro, quando chegámos perguntou-nos onde queríamos ir. A Ponsoby! Ok, podem sair e andar a pé umas três horas por aí. Lá nos orientámos com boas vistas sobre a cidade à noite e ainda percorremos a K St, de artistas, restaurantes vazios e clubes nocturnos.
Virámos a pé para a já nossa bem conhecida Queen St, a tal Rua Augusta que leva até ao mar. Enquanto procurávamos um restaurante no centro da cidade, chegou o Link que faz o giro no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Andou 100 metros na Queen St e saiu dela em menos de nada continuando em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio a fazer-nos um flashback dos percursos da manhã, passando pelo Museu e acabando em Parnell St. E assim, absolutamente ao acaso, acabámos a jantar no Oh Calcutá, um restaurante indiano. A comida satisfez, a conta 2 por 1 ainda mais.
Poderiam ser 11 da noite, mas afinal ainda eram só 9 e deu para começar a escrever parte disto, acabado já hoje no aeroporto enquanto espero pelo avião para Christchurch, depois de umas pedaladas no health club e um banho de sol breve, junto à piscina do Heritage.



Christchurch numa tarde
A maior cidade da Ilha do Sul é bem mais pequena para um turista apressado. Depois de instalado no Heritage, mesmo ao lado da praça principal da cidade, a da Catedral, inicia-se a visita, exactamente pela dita feita de pedra branca e cinzenta num efeito final bem interessante. A visita à torre não pode ser feita para grande satisfação das nossas pernas. Esta catedral anglicana é lugar de culto e das mais variadas vendas desde a autorização para fazer fotografias ao ao marchandising e até tem um café aberto ao público. Sentido prático que leva a que numa igreja também se crie um playcenter para os mais miúdos que se chateiam com as homilias. No largo da catedral um enorme cálice aí colocado pela altura do milénio e a velha estação dos correios transformada em Centro de Visitantes. Oportunidade para comprar agasalhos com receios de frio nos próximos dias.
Depois Christchurch é uma linha que vai pelo Mall, até ao arco de triunfo já nas margens do Rio Avon, onde os chorões napoleónicos ainda se debruçam, fazendo ocasionalmente sombra aos patos. Nas margens são resturantes e mais além o Centro das Artes, que a esta hora já tardia tem como atracção principal o Dux de Lux, onde o marisco é fresco e os vegetais dominam.
A noite anunciava-se de repouso que o Heritage a isso convidava. Mas podem sempre ficar no quarto do lado umas bestas em orgia. É raro, mas aconteceu.

6-10-06

De Ceduna a Caiguna

A etapa mais longa. Grande, muito grande mesmo, pela visão das baleias em Head of Bight numa dança sossegada com as crias. O resto é quase nada, passando pela estranheza de uma fronteira entre Estados, onde se recolhe o mel e a fruta de quem passa. Que lhes faça bom proveito. A mim chateia-me esta assepsia, mas não tenho nada com isso, afinal.
Aqui dá para perceber que um deserto pode ser bem mais cheio do que se pensa. Na rolagem dos quilómetros, passando sobre pistas de aterragem de Flying doctors, pensa-se no fim que se procura e sente-se que se está algures noutro sítio. Onde vale a pena estar, vale mesmo muito a pena, é nas planícies douradas antes de Caiguna com o sol a pôr-se à direita, pintando o dourado, cada vez de mais quente, quase até começar a doer continuar a andar. E na paragem a visão não cabe na máquina por mais disparos que se façam. Simplesmente, fica-se a olhar para a visão mais quente da viagem e de muitas outras já andadas, tentando impressionar de forma indelével os neurónios da memória de que, por vezes, já duvido.
Depois desses instantes, pode vir a lua cheia sobre as árvores e o sono nesta terra de 10 pessoas atípicas e cobertas de algumas nódoas. O mundo é mesmo grande, não adianta nada minimizá-lo ao tamanho de pequeninas coisas que nunca poderão apagar a memória de um pôr-do-sol perto de Caiguna.


7-10-06

De Caiguna a Esperance

É preciso uma recta assim, com 145 km entre Caiguna e Balladonia, envolta em 360º de nada, para se perceber o tamanho do mundo. Primeiro torna-se óbvio que o mundo é redondo, embora os sentidos nos enganem, mas isso nem é o que mais importa. Importante é a pequenês dos pequenos a quem literalmente, a partir desta recta, me vai dar vontade de mandar passear. Nesta recta do tamanho do mundo é possível esquecê-los e lembrar-me de ir comprar giz para fazer desenhos no chão da cozinha, repetindo, na viagem da casa à drogaria, a lenga-lenga do quero um pau de giz se faz favor. E passa muita gente por quem passei e me deixa, agora, sorrir a alguns dos que temi. Ficam lá nos sítios que habitam e onde já há muito os não encontrava. Uma recta deste tamanho, deixa-os do tamanho que têm. Onde andará o Matateu, o aborígene que encontrei de navalha afiada naquela subida da rua dos Soeiros?
E passamos Balladonia onde houve um acontecimento há uns anos. Nada mais nada menos do que um resto do Skylab aqui caiu, tornando a terra mais conhecida aos que nela habitam na sua necessidade de protagonismo. Porque não basta ser mediano, ser simplesmente como os outros? De onde esta necessidade de ser maior ou diferente?
Cerca de 200 km depois faz-se um gancho em Norseman deixando Kalgoorlie e a Rock Wave à distância do provavelmente nunca verei, e ruma-se a Esperance com um desanuviar progressivo, apesar da direcção do mar. Ventosa, junto a um pontão com ilhas ao longe. Uma volta de quase 40 km mostra praias, algumas das cem ilhas que habitam o mar aqui ao perto e um lago que, quando choveu menos, é rosado.




15-10-06
Já há quase um mês que não sei notícias do meu país. Provavelmente, é um lugar que não existe ou onde nada existe que valha a pena. Se não existisse uma coisa a que chamam o meu país, o que lá acontece não acontecia, porque tirando a importância que lhe dão os que lá existem, mais ninguém fala deste país. É bom não haver notícias do meu país, sinal de que lá deve haver sol e uns arranhões costumeiros entre as tribos que lá moram, que não sendo notícia provavelmente não têm a importância que lhes dão as tribos que os produzem.
Em Amesterdão está cinzento como sempre e ninguém fala deste país também ele chato e chão. Bom sinal. Na verdade poderíamos muito bem viver sem as notícias dos nossos países ou mesmo sem os países de que somos. Os aeroportos são isto, gente de muitos países que passam e sorriem muitas vezes apesar de serem de muitos países. Assim deixados, não tem importância que leiam na viagem o Corão ou um qualquer policial, sorriem uns aos outros como se não fossem de países diferentes. Gente que foge das notícias e vive bem assim. Quem os torna diferentes e coloca nas aberturas dos telejornais?
Por mim vejo mais diferenças nas bâncsias da Austrália e nas pinhas do pinheiro bravo do meu país, mas as duas são pinhas do meu país maior, aquele que não precisa de pequenos países para existir, com toda a diversidade.

19-10-06
Voltei hoje aos bancos da escola. De uma escola diferente onde me falam do mundo que aí está sem que o queira aceitar muito bem como está. A primeira impressão é que vão ser aulas que o explicam, que me ajudarão, talvez, a percebe-lo melhor e às batotas que o gerem. Porque o objectivo de uma humanidade tem de ir além da geração de valor, por um imperativo maior, por um Valor muito mais importante do que os pequenos valores que, dizem, serem os nossos objectivos de gestão.


20-10-06

De alguma forma, este jantar está a continuar a minha primeira aula de Gestão. Numa demonstração das ideias de Michael Porter, neste restaurante de onde espreitamos a Acrópole iluminada lá no alto, há duas mesas, a dos médicos dos países desenvolvidos e a nossa. Aparentemente tudo é igual e vamos comer da mesma comida e beber do mesmo vinho. A diferença é que naquela mesa está o conhecimento que permitiu que estivéssemos nós, aqui à mesa também. Nós os vendedores que induzimos o consumo do que eles produzem. Um mundo em que uns fazem e os outros consomem não nos deve espantar que tenha diferenças. O maior problema é que ainda alguns aqui pensam que os espertos somos nós que temos o mesmo jantar despendendo menos esforço. Mas cada vez mais espertalhões não irão sobreviver muito tempo e, em breve, a comida será distribuída doutra forma.

21-10-06
Vã glória de pequenos prazeres de hotéis de charme. Do que se enche a vida das pessoas! A ilusão da grandeza sem perceber o seu absurdo.

22-10-06
Vinte e seis anos depois, vista aqui da Acrópole a cidade a perder de branco continua como sempre foi, uma mancha sem resolução. Na ingenuidade da guia elogia-se a inexistência de prédios altos e a grande vantagem de em qualquer ponto de Atenas se poder ver a Acrópole. O prazer de ver a ruína a toda a hora, sem o remorso das razões por que aconteceu uma civilização ter cedido a sua liderança. Contemplando estas pedras, sorrio na certeza de que todos os Impérios, por mais fortes que sejam, acabarão por cair um dia. O problema até agora tem sido que são substituídos por outros, não necessariamente melhores. Como um castigo da espécie que os gera e tolera.

Vista ao perto, a mancha perde o imaculado do branco e fica disforme e mal cheirosa nas montanhas de lixo não recolhido. Os passeios são estreitos, os automóveis omnipresentes apertam-nos contra as paredes dos prédios tornando desconfortável o andar a pé. Os prédios vistos de mais perto são monotonamente horrendos de feios, fazendo uma cidade chata e sem graça.
Tanta indisciplina e desordenamento faz-me ter saudades do excesso de ordem das ruas das cidades da Austrália. Afinal, o caminho da evolução não está assim tão mal definido, tem direcção.

Boa é a imagem da cidade obscurecida na noite e a Acrópole iluminada vista de longe, do último piso do Hotel St George.

23-10-06
Rever um restaurante onde houve na primeira vez a vontade de voltar é agradável. Mas ainda não foi desta que a companhia era a mais certa. E nisto dos restaurantes, às vezes, a comida nem é o principal. É mais com quem se come, apesar de ser no Ithaki.

24-10-06
Não me acontece muitas vezes, estar hoje com mais vontade de viajar no regresso do que no dia em que parti. Realmente, fiz esta viagem sem grande entusiasmo e, além de algum descanso que me deu, não vou ficar com mais saudades. Apesar de Atenas estar diferente da que vi há muitos anos ou até há dois. Tem auto-estradas e um Metro simpático. Continuam a vaguear os cães, a dormirem esparramados pelo chão. O lixo salta dos caixotes. Para qualquer fumador é uma Meca. Por vezes, os gregos riem, um riso meio triste, todavia. Não serão os únicos que riem sem sentido.
Enquanto passeio na Plaka, lembro-me dos receios infundados de outros. Há gente que sem fazer grande coisa na vida, teme, possivelmente, mais a vida do que a morte, sem perceber que o medo de viver é a mais desgraçada das mortes. Não admira, todos os dias nos impingem esta cultura do medo em nome de uma vida mínima, afastando-nos de todo a ideia épica de uma morte gloriosa, que garanta uma vida que valha a pena.

Isto escrevi em Atenas enquanto aguardava o avião atrasado para Milão. Mais logo quando chegava a Lisboa vi um avião silencioso, passageiros a fazer que dormiam, antes do enorme alívio de chegar a terra, depois de um desce e sobe difícil de passar. Lisboa envolta em temporal à chegada.

domingo, setembro 17, 2006

Meia volta nalgumas horas

Menos qualquer coisa

Já estou a entrar de férias, levantei-me às 7 da manhã e não às cinco.
Ainda havia uns e-mails para enviar e depois fiquei por conta, isto é, a Manela fez-me a dieta da mala para evitar excessos de peso e para eu ficar ainda mais leve as minhas duas mulheres de serviço cortaram-me o cabelo em casa, deixando-me a cabeça bem exposta nos seus contornos.
No aeroporto grandes filas e uma funcionária de check-in que só consegue fazer uma coisa de cada vez, tipo não apertem comigo que não dou mais. Acabou por fazer tudo, mas realmente não estava nos seus melhores dias ou então estaria nalguns especiais.
Estas esperas do check-in são uma seca desnecessária. Fica aqui uma ideia para algum empreendedor com ideias de negócio global: uma empresa de colheita de bagagem no domicílio e entrega no destino. A coisa pode funcionar com colheita na véspera e entrega antes do cliente chegar ao destino. Tudo o resto é criação de circuitos de colheita e entrega e alguma organização tipo DHL… E nós poupamos a espera e o ar de enfado das assistentes, fazendo a marcação do lugar directamente na Net. É claro que a bagagem viaja em aviões cargueiros.

00:25:34
Que verão os olhos verdes de uma hospedeira, enquanto faz aquela sessão de ginástica apontando saídas e quedas de máscaras de oxigénio? Os braços avançam percorrendo corredores até ao fundo e voltando, mostrando saídas de emergência. Se isto fosse pensado seria uma irritação maior que distribuir médicos por horas de consulta (9 horas por semana, que exploração!). Estar ali a fazer aquela ginástica gestual e ver todos a lerem o jornal ou em início de sesta deve realmente ser frustrante demais.
E acabada a dança lá vai corredor abaixo ver se as cadeiras estão direitas e os cintos apertados. Desaparece.

00:39:02
Sinto-me estranho neste avião. Já estou mais habituado a hospedeiras que falam português aqui neste sítio. Mas é giro este logo de um traço com quatro bolinhas em cima, tudo terminado por uma cruzinha.
Depois de uma curva, os motores roncam mais forte e começa a corrida cada vez mais rápida, com a potência ao máximo e um minuto depois a Ponte Vasco da Gama aparece numa sucessão de riscos sobre uma curva prolongada. Até depois!

01:00:28
Uma caixa de almoço com uma particularidade: um lápis azul. A ideia não será a de censurar, que era o que fazia o outro lápis desta cor, mas talvez para fazer a encomenda do almoço depois de comer este aperitivo.
Por sobremesa, li o Expresso. Muito mais fácil, agora dobra-se ao meio e lê-se a parte de cima. Quem perde são os anunciantes que ficam com os anúncios virados de cabeça para baixo, estimulando a curiosidade de quem for no banco da frente no comboio ou no Metro. Mas lêem-se tão poucos jornais nos nossos transportes públicos…

03:11:51
Depois de me desforrar destes últimos dias de levantar de madrugada, chego a Amesterdão em tons de canais e céu cor de laranja. Com pouco tempo para ver as lojas da free-shop. A electrónica vai esperar.

04:04:33
Vai ser necessário repensar isto das casas de banho na Holanda. Meninos para um lado, meninas para o outro. Um destes dias começo a achar mais cómodo ir à das meninas… pelo menos para mim.

05:12:51
Este 747-400 apinhado de indonésios levanta ainda com mais energia que o de há pouco e diz-me que são 3:24 PM e que irei chegar a Kuala Lampur às 14:47.
No início de viagem leio o Sol, que, com grande pena minha, me não aqueceu. Falta-lhe identidade. O jornal principal começa da pior forma com uma notícia sobre o Isaltino. Obviamente que este senhor não tem estatuto para tanto, primeira página. Aqui faz-me lembrar o Independente. Uma revista chamada Tabu (!!!) desfolhada parece-me a Hola, tanto no aspecto como nos conteúdos. O caderninho dos espectáculos é o do antigo Expresso. Sabe a pouco. É pena, ando farto do Expresso e, para cúmulo, até melhorou…

06:55:54
O bolinho da sorte dizia qualquer coisa como «Esta semana vai ser muito boa» Acertaram, já tinha imaginado.

08:21.32
Ninguém neste avião vai para Kuala Lampur. Quase todos para a Indonésia… Laços holandeses.

11:00:26
Pela janela espreito uma paisagem castanha clara lá em baixo com sugestão de um rio seco aqui e além. Devo estar por cima do Irão. Os americanos ainda não chegaram…

14:52:01
O traço vermelho vem desde Amesterdão e passa agora ao largo de Banguecoque, na direcção de Phucket, a 922 km/h.
O sol nasceu às 2 da manhã e sinto que estranhamente estive a dormir até à uma da tarde.

16:24:59
Aterrei em Kuala Lampur.

18:45:20
No aeroporto mais estranho do mundo. Enorme e só. Em quatro monitores estão os voos de quatro horas.
Aqui e além uma mulher de burca segue dois passos atrás um homem. Por momentos Bin Laden apareceu na CNN. Não sei o que disseram, só vi a imagem. As mulheres de burca continuam a passar o que me faz imaginar a lotaria a que os homens estão sujeitos quando as escolhem…

19:56:24
Escrevo no Starbucks no KLIA (KUala Lampur International Airport). O recibo do café tem escrito: Have a Grande Day! Efeito Fernão Mendes Pinto?

O timer regista agora 20:57:50

terça-feira, setembro 12, 2006

Menos nuvens?

Sabe bem sentir que algumas dúvidas se esfumam nos dias que passam. Aos poucos a antevisão de alguns começa a ser a visão de quase todos e o ambiente serena na espera de mais alguns dias. Já se adivinha alguma bonança nos dias de hoje. Mas mantenho a interrogação, tanto mais que não vou estar cá para ver...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Pequenos deuses e pequenos terrorismos

O passatempo favorito é o aproveitamento para a rasteira. Vejo-lhes algum brilhozinho nos olhos só de pensarem que podem usar um argumento para ajustar velhas contas. Há quem se recuse a perder oportunidades, sempre em nome de boas causas.
No fundo, são privilégios que se não explicam, derivados de outros poderosos. O difícil e o que doi é aceitar-se que acabem, mesmo reconhecendo-se alguma razão para a mudança.
Não tendo eu nada com o assunto, fico mais sabedor destas gentes.
Nem de propósito neste dia.

A abrir!

Isto não é retoma, nem arranque da economia, pode mesmo falar-se que a Economia quase que voa neste país.
Ou os riscos que eles correm para nos fazerem viver melhor...

domingo, setembro 10, 2006

Simples

Bons dias são estes em que o roupão não nos sai de cima do pelo o dia todo! O mundo deve estar tranquilo lá fora ou nem quero saber.

sábado, setembro 09, 2006

Imprensa Livre?

«A forma inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro da opinião aceitável, mas estimular muito intensamente o debate dentro daquele espectro... Isto dá às pessoas a sensação de que o livre pensamento está pujante, e ao mesmo tempo os pressupostos do sistema são reforçados através desses limites impostos à amplitude do debate».

Noam Chomsky

Gil Vicente ou Belenenses? Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira? Apitos para todas as cores, a discussão é livre na nossa Imprensa manipulada, progressivamente mais concentrada em grupos económicos poderosos. Sob a capa de Imprensa livre, os grandes títulos são curiosamente idênticos em todos os jornais e telejornais. Já tenho saudades da República e do Diário de Lisboa, que, mesmo controlados, tinham informação diferente do Século, Diário de Notícias e Diário da Manha. Será que há mais Liberdade de informação hoje? Vivemos numa «Epoca» monolítica, onde aos três FFF já ninguém acusa de reacionarismo tal a conveniência que dão, objectivamente, ao sistema.
Manhosamente, malham nos políticos, apresentando-os como sendo todos iguais, deixando a populaça sem vontade de ir escolher. Mas lá que há diferenças, há. Garanto.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Bem pagos?

Curiosa esta notícia sobre os vencimentos dos professores. Tomando como referência o PIB, em que ordem ficarão os lucros dos «nossos» Bancos comparativamente à Banca de outras paragens? Destacados na frente do mundo? Finalmente, mas com escasso benefício.
E que tal passarmos a ter os preços do que consumimos também indexados ao PIB?

quarta-feira, setembro 06, 2006

Feijão com arroz e companhia

Jovem brasileira, residente em Portugal há seis anos, conta que desde que chegou aumentou cerca de 25 kg. Por isso foi enviada a uma consulta de Endocrinologia pelo seu médico de família como se nós tivéssemos a arma secreta. Neste caso nem são precisas a análises para ver a etiologia. A história é por demais clara:
-Então por que aumentou de peso?
-Sabe, dotô, nós os brasileiros sempre comemos muito feijão com arroz. Depois de chegá, a coisa complica, começamos a comer a vossa comida, mas não deixamos de comê o feijão com arroz, né?
Tudo explicado, lá faço mais uma vez a demorada demonstração do que deve ser uma alimentação normal. Será que consegue fazer-se? Complicado, né, a vida da gente não é fácil, dotô.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Produtividade para quê?

Poderá chocar gestores politicamente correctos que se promova uma marcha pelo emprego em vez de se promover uma pela produtividade. Na verdade, precisamos de um país mais produtivo gerador de mais riqueza para, globalmente, podermos viver melhor.
Já em tempos vi, trabalhadores oferecerem dias de trabalho ao seu país. Era o tempo em que outros emigravam, espoliando, literalmente, o país. São, muitas vezes, os que agora pugnam pela produtividade e vão apresentando lucros escandalosos da sua actividade. Continuam a espoliar de uma forma despudorada como verdadeiros carteiristas (Jerónimo de Sousa encontrou a expressão certa!)com protecção estatal, demonstrando que os barbudos teóricos tinham razão quando diziam que o Estado mais não é que a ditadura da classe dominante.
Mas enquanto se assiste a este roubo descarado, aumenta o desemprego e todas as consequências que arrasta atrás de si. Por isso, parece amplamente justificável que se façam marchas pelo emprego, pois não estamos todos no mesmo barco ou estando, uns vão no convés superior e outros no porão amontoados. É preciso contenção nos andares de cima, perda de privilégios a esse nível e não a sua ampliação. Na verdade, o aumento da produtividade não se faz para que alguns comam mais bolo deixando aos outros as migalhas que vão caindo distraídas. Para esse peditório já muito se deu, é tempo de mudar o rumo. De outra forma sempre se perguntará, produtividade para quê?

A falência da manipulação da informação

Ao contrário da opinião corrente, segundo a qual o funcionamento do Sistema Nacional de Saúde deixa muito a desejar, os utentes dos hospitais EPE (Empresas Públicas Empresariais) dizem-se «globalmente satisfeitos», mais até do que os clientes da banca ou das empresas de combustível.
A conclusão é do Instituto Superior de Estatística e Gestão de Informação (ISEGI), da Universidade Nova de Lisboa, que ao comparar inquéritos de satisfação (de utilizadores de serviços de vários sectores) reparou que para os utentes dos 31 hospitais EPE o índice de satisfação nos internamentos é de 81,7% e nas consultas de 78,5%, em média. A banca e as empresas de combustível satisfazem, respectivamente, 72,3% e 71,8%.

A opinião corrente é a de quem a põe a correr, os senhores jornalistas. Afinal, a opinião corrente não é a mais sentida pelos utilizadores, isto é, corre mesmo muito pouco entre eles. Os senhores que a põem a correr é que não perguntam, nem leem os relatórios científicos, limitam-se a pôr a correr aquilo que acham no tal país dos achadores. Fiquei com imensa curiosidade de saber a opinião dos utilizadores dos serviços privados e, já agora, dos americanos sobre o seu sistema de saúde. Quase de certeza teriam os senhores jornalistas que tanto põem a correr mais algumas surpresas interessantes.Já agora, atente-se na pérola com que termina esta citação do Expresso, mais até do que os clientes da banca e das empresas de combustíveis. Este até é a expressão do ultraje máximo, afinal como pode um serviço público ser melhor cotado do que serviços privados de tão grande eficiência. Logo a banca, santo Deus!

sábado, setembro 02, 2006

Uma semana

Quase a tornar-se semanário este blog! A semana foi curta para tanta aquisição e correcção de obra quase acabada. Mas como dizia o arquitecto Siza, na Holanda o projecto demora dois anos e a obra executa-se em 6 meses, mas em Portugal, o projecto faz-se em meses, a obra vai-se fazendo durante anos.
Tem sido uns tempos cheios, até de novidades sobre outras realidades. Não me vou esquecer tão cedo de ter aceite sem reserva que pessoal e doentes tenham retretes separadas. Na verdade, como pode quem gere para os doentes, aceitar que eles tenham de usar retretes onde se não nos dispomos a entrar? É tão óbvio que até me senti chocado por não ter pensado antes no assunto.
Diariamente se sente cada mais mais objectivamente que os privilégios do Poder são, muitas vezes, bem menores que os poderes dos privilégios estabelecidos. Fácil deve ser o poder que se orienta na consolidação dos privilégios, outra coisa é quando se vai contra eles e se tem de enfrentar todo o Poder que têm. É uma batalha no mínimo muito dura e de vitória incerta, mas também é a única que vale a pena fazer, mesmo que os privilégios mostrem mais poder do que o Poder.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Um material fundamental, as pessoas

Serão práticas correntes em gestão, mas faz-me alguma confusão ter de comprar tudo de novo para um serviço que se vai abrir. Já tudo funcionava com outros mnateriais... Várias reuniões e nada mais se discute do que aquisições de material, não aparecendo sequer haver reservas quanto a gastos. Parece que tudo só depende do material, como se as coisas funcionassem sem pessoas. Desde o princípio que me preocupo mais com as pessoas do que com tudo o resto, mas sinto que sou formiga isolada no carreiro. Ora o que se quer fazer vai mexer drasticamente com a estrutura, o modo de funcionarem as pessoas. Só com elas pode funcionar e parece-me urgente a sua adesão, tanto mais que basta bom senso para aderir. Só que, muitas vezes, o bom-senso é ultrapassado por outras emoções e é fundamental afastar os medos e fazer compreender aquilo que, à primeira vista, até pela falta de hábito, pode não parece desejável.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Cartazes e desporto

A propósito de um «protesto» a um dos meus protestos recentes, deixo aqui a definição de Desporto de acordo com a Wikipedia:
Um desporto é uma atividade física geralmente sujeita a determinados regulamentos. Para ser desporto tem que haver envolvimento de habilidades e capacidades motoras, regras instituídas por um confederação regente e competitividade entre opostos. Algumas modalidades esportivas se praticam mediante veículos ou outras máquinas que não requerem realizar esforço, em cujo caso é mais importante a destreza e a concentração do que o exercício físico. Idealmente o esporte diverte e entretém, e constitui uma forma metódica e intensa de um jogo que tende à perfeição e à coordenação do esforço muscular tendo em vista uma melhoria física e espiritual do ser humano. As modalidades desportivas podem ser coletivas, duplas ou individuais, mas sempre com um adversário.
Também podemos definir desporto como um fenômeno sócio-cultural, que envolve a prática voluntária de atividade predominantemente física competitiva com finalidade recreativa ou profissional, ou predominantemente física não competitiva com finalidade de lazer, contribuindo para a formação, desenvolvimento e/ou aprimoramento físico, intelectual e psíquico de seus praticantes e espectadores. Além de ser uma forma de criar uma identidade desportiva para um inclusão social.
A atividade desportiva pode ser aplicada ainda na promoção da saúde em âmbito educacional, pela aplicação de conhecimento especializado em complementação a interesses voluntários de uma comunidade não especializada.

Fica claro, que o objectivo do desporto deve ser a promoção da saúde, a melhoria das mentes em corpos sãos e, em nenhum lugar, compete ao desporto a promoção do que quer que seja. Embora o desporto possa ter uma componente de competição, será abusivo confundir as duas realidades. A competição em si não é desporto, obviamente. A competição serve os desportistas de bancada e muito mais quem em nome deles, usando despudoradamente o termo desporto, usa a competição para alienar as massas, vende os valores e prospera à custa dos artistas, que, submetidos a ritmos desumanos de trabalho acabam frequentemente nas malhas da batota da dopagem ou com doenças graves induzidas pela prática de modalidades que pretensamente lhes deveriam beneficiar a saúde. Segundo a prática mais corrente, hoje em dia, parece até que a competição é a negação do desporto.
Por isso, ir de Cascais ao Guincho de bicicleta parece-me ser desporto. Andar na torreira do Alentejo às 3 da tarde é outra coisa.

terça-feira, agosto 22, 2006

A obra do Império


Curiosos estes testemunhos de um país «libertado» em nome da liberdade.
Macissamente destruído por armas que para lá levaram (as outras ainda ninguém as encontrou), este é o estado a que chegou. Neste caminho ao contrário do que a história precisa, não é de estranhar que o «terrorismo» avance. Penso eu que escrevo no conforto do ar condicionado, na vizinhança de supermercados cheios de comida, onde me posso deslocar sem carências de combustível e a preços, ainda assim, razoáveis. E se me tirassem toda a esperança, me humilhassem diariamente, como reagiria? Estaria aterrorizado, seguramente e a pensar se terror com terror se paga?
A imagem é do Líbano actual. Pode apreciar-se melhor esta obra na Verdadeira Face do Terrorismo.

domingo, agosto 20, 2006

Novas descobertas

Não sei ao certo o que significa o discurso do Ministro Luís Amado ao querer uma papel maior da Europa na relação com os países árabes. Mas começa a ser tempo do fim do medo e, já o velhinho Soares, dizia, sem tibiezas, que a negociação era necessária. Não faz sentido sermos livres numa liberdade que nos não permite viajar ao lado de outros, não faz sentido condenar-mo-nos ao medo permanente, não faz sentido desistir da vida, nós que não acreditamos, com a facilidade dos idiotas, na ideia maniqueista dos bons e dos maus. O mundo é demasiado complexo, para podermos dividi-lo de uma forma tão simples. Temos que redescobrir a forma de o habitarmos, mesmo que isso implique deitarmos borda fora alguns idiotas que ainda nos dominam.
A segurança que nos falta (aos bons e aos maus) é outra: a segurança do emprego, do ensino, da saúde. É essa que se preparam para nos roubar, os que tanto falam da nossa segurança face aos maus. Essa a cultura que temos de espalhar por todo o mundo, novamente à espera da redescoberta. Depois, os maus vão desaparecer naturalmente.

sábado, agosto 19, 2006

Como no deserto australiano


Parece bem mais sereno e no silêncio entrecortado pelo sorriso adequado, não vejo qualquer esgar. E o sorriso induzido pela visão da neta não é acaso, com certeza. Os olhos vão seguindo aqui e ali e, por instantes, pareceu-me ouvir que, os figos são bem bons. Há momentos em que olho, com mais leveza, as nuvens brancas no fundo azul nas três dimensões do céu do deserto da Austrália.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O centenário e o ditador

Já se começava a adivinhar no sábado passado no Expresso com as referências do Professor Marcelo ao seu colega. Durante a semana, continuou com o anúncio exaustivo da presença da filha do colega, na entervista com Judite de Sousa. O resto foi o que se viu, um magnífico pai de família, com as suas convicções certamente, um inultrapassável professor, um ser dotado de uma inteligência completamente fora do comum, só que com as suas convicções. Mas mais, cercado por uns maus, os ultras. Ele até mudou o nome das coisas e falou em família, ele era um anjo a quem prenderam as asas. Ele manteve Portugal com gente descalça, com analfabetismo, com uma mortalidade infantil e níveis de saúde miseráveis, com uma oligarquia dominante que fugiu com ele para Brasil em Abril de 74, com uma guerra colonial de opressão sobre outros povos, com presos políticos que lutavam por devolver a dignidade a um povo inteiro. Ele suportou com toda a sua inteligência um regime fora de tempo. Mas, terei ouvido mal, nem uma vez nesta semana do branqueamento a propósito do centenário foi chamado de ditador.
Na mesma Imprensa que alguns insistem em chamar livre, ditador é o outro, o que acabou com o prostíbulo americano que era a Ilha, que pôs fim ao analfabetismo dos cubanos e lhes deu saúde de forma universal, o que devolveu a dignidade a um povo que deixou para trás a miséria e continua a resistir apesar de selvaticamente bloqueado na sua Ilha. Ditador por ter presos políticos que desejariam impedir a libertação de um povo?
Parece que o branqueado achava que o sistema de partidos não era condição necessária para a democracia, que os partidos eram formas de impedir o bem-fazer dos dirigentes ao seu Povo, por se envolverem em lutas entre si com desejo de conquista de poder usando argumentos falsos e enganosos, como deixou escapar a sua filha. O homem até não pensaria sempre mal, mas na análise era pouco esclarecido. Por isso a sua ditadura foi estagnante e indigna, sem margem para perdão. Já na Ilha, o progresso social mostra como podem existir «ditaduras» libertadoras.

terça-feira, agosto 15, 2006

Protestos

Protesto 1

Israel acaba de ter uma derrota histórica. Fez uma guerra porque lhe raptaram dois soldados. Não parece ter conseguido o resgate. Números do Público de hoje: Israel perdeu 110 militares, conseguiu mais 300 feridos além de mais 41 mortos civis e 600 feridos. Em troca mataram 1109 libaneses e feriram 3697. Mas, convém lembrar que fizeram a guerra porque lhes tinham raptado 2 (dois) militares. Ineficácia em larga escala, chacina selvagem. Estúpidos ainda não perceberam que não é possível suprimir um povo: Hitler não o conseguiu e, também eles, não irão nunca conseguir.

Protesto 2

Em Roma, bárbaros deliravam com o lançamento de escravos às feras. Nos tempos modernos, queques e quecas sensíveis insurgem-se contra as lides de touros, negando a beleza das imagens. No mínimo, as touradas ainda têm isso. Pelo contrário, neste pesadelo do ciclismo, nem a estética me seduz. É absolutamente bárbaro, porem-se homens convertidos em cartazes publicitários ambulantes, a pedalar debaixo de 40ºC, bem na hora de máximo calor, não em nome de qualquer desporto (isso far-se-ia às seis da manhã, pela fresca), mas convertidos em meros objectos para gáudio e proveito de variados interesses comerciais.
E o povoléu assiste, contente, É de borla! Enganam-se!

segunda-feira, agosto 14, 2006

É possível um mundo melhor!

Do lado de lá, deitados, haverá sempre algum desconforto da incerteza dos dias seguintes. Percebe-se também nas pequenas coisas que os estatutos de vida são muitas vezes demasiado efémeros. Julgo que a única coisa que se deseja será imaginar que não haverá muita gente a pensar, pode ser que não voltes. Quando se fez uma vida a criar bem para a maioria (que não nos iludamos, isso implica criar prejuízo sempre a alguns) haverá ao menos a certeza que muitos desejam que se volte.
Fazer anos nestas circunstâncias torna-se ainda mais significativo, sobretudo quando são 80. Muitos na Florida, depois da festa anunciada estarão agora algo embushados. Para eles,em especial, as palavras e um autógrafo:
A mis compañeros de lucha, eterna gloria por resistir y vencer al imperio, demostrando que un mundo mejor es posible.
Hoy, 13 de agosto, me siento muy feliz.
A todos los que desearon mi salud, les prometo que lucharé por ella.

domingo, agosto 13, 2006

O valor das felicidades

Houve na Grécia antiga filósofos e atletas, certamente celebrados distintamente pelos gregos de então. Ambos terão contribuído para alguma felicidade dos seus contemporâneos. O atletismo e a filosofia continuam hoje a ser actividades praticadas. Por que sabemos quem foram os filósofos e esquecemos o nome dos homens das proezas atléticas?
A literatura, a música, a pintura permitem-nos uma compreensão, uma reflexão sobre o mundo e, por isso, de alguma forma, são-nos úteis para a nossa forma de estar, melhorando a nossa sensação de felicidade pelo que nelas aprendemos a interagir com o que nos rodeia. A felicidade que nos dá uma vitória desportiva é imediata e não persiste no tempo. Pouco se aprende com o golo do Nuno Gomes, de calcanhar, a baralhar a defesa adversária. É lindo, manifesta inteligência, reflexos, mas acaba naquele instante. Por muito orgástico, catártico que seja não nos melhora a relação com os outros, não nos ajuda a compreender aqueles com quem lidamos, não nos ajuda a ser mais eficazes nos sentimentos da vida.
Mas as reflexões sobre o amor e o poder, sob a forma de tragédia ou de comédia, de alguma forma armam-nos para a vida. Essa a razão de Mozart persistir mais que Zatopek, da eternidade de Picasso e da efemeridade de todos os morangos por muito açúcar que lhes ponham. No momento, a dose de felicidade causada até pode ser a favor dos fenómenos mais instantâneos. Mas com o tempo, só os outros vão continuar, geração após geração, a ser fonte de felicidade.
A sociedade do imediatismo pode meter tudo no mesmo saco. Se o parâmetro de avaliação for o rendimento imediato dos fenómenos, até podem ganhar os reality shows de todos os dias. Mas o mundo não acaba hoje, há mais tempos além do instante e, por isso, as lebres se cansam e as tartarugas continuarão a vencer.
Na verdade, o que mais importa nem é tanto o valor das felicidades que se possam ter, mas muito mais a felicidade que os valores nos dão.

De pé!

Parabéns, comandante!

Granma:
En porte firme como el caguairán

Un amigo cuenta que hace apenas unas horas, al visitar al Comandante a fin de despachar brevemente ciertos asuntos, fue testigo de una buena noticia que entusiasmado resumió en una frase: "El caguairán se levantó".

Dice que pudo apreciar cómo el Jefe de la Revolución, tras recibir un poco de fisioterapia, daba pasos en la habitación y luego, sentado en un sillón, conversó animadamente.

Como al árbol emblemático de la naturaleza cubana, enhiesto, con su madera fuerte, resistente e ideal para fabricar obras duraderas, nuestro amigo vio al Comandante, alentado y en pie, como quien anticipa nuevas victorias y en porte firme como el caguairán.

sábado, agosto 12, 2006

Um dia... tem de ser mais cedo!

Acostumados aos fogos, aos mortos diários no Líbano, que quase já não contamos os do Iraque, aos medos das explosões dos aviões, seguimos. Cada vez há mais um estar acostumado a não viver, tal é a chegada das sempre mesmas notícias dos roubos, das guerras, das catástrofes naturais e das artificiais também. Aos poucos fica-se contente com a sobrevivência, com o ter-se escapado (da vida?). Dão-se graças a Deus por se estar vivo, sem que se entenda muito bem a utilidade da coisa. O grau de exigência com a vida vai-se reduzindo, fica-se dócil com a ideia do escapar do desastre, com a reacção possível, sem a acção necessária. Tudo isto é feito em nome de um Deus maior, um sentido de evolução com rumo não precisado, para um fim de história a que, querem convencer-nos, já chegámos, levados na vereda de sentido único do liberalismo, cegos de procurar outros carreiros. Mas lá que os há, há. Ou nada disto teria sentido. No limite, é esta esperança que nos move e mantém, mas a acção é necessária, muito rapidamente. Percebo, que nesta coisa, também´deve haver um ponto de espiral descendente e irreversível, de onde já não é possível fugir-se. A angústia é a não percepção dessa realidade, a tolerância com facínoras embushados nas decisões do Império, com fascistas sionistas, com as terceiras vias decadentes do blairismo, com a paralisia continental da Europa adormecida pela canção do bandido americano.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Fogos

O país está a arder como é costume nesta altura. No entanto, algo está mudado. Este ano os fogos, para variar, lavram menos e adquiriram uma nova propriedade, são circulares. Daí ouvir tantas vezes que o fogo ficou (ou não) circunscrito. Sempre que ouço, imagino fogos redondos. Acho gira a expressão, porque até agora sempre os tinha imaginado como uma frente recta a avançar tocada pelo vento.
Até nos fogos me inquietam as diferenças. Morreu uma bombeira em combate e tem direito a visita de Ministro e Secretário e a família a apoio psicológico. Não que não seja desejável, mas penso que o desemprego dos psicólogis ficava resolvido se no Líbano houvesse o mesmo apoio de cada vez que alguém morre debaixo do fogo... E os ministros não chegariam para as encomendas.
Bom é nascer no sítio certo, podendo ser sempre alguns mais certos do que outros.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Colagens

First they came for the Communists,
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Communist.
Then they came for the Jews,
and I didn’t speak up,
because I wasn’t a Jew.
Then they came for the Catholics,
and I didn’t speak up,
because I was a Protestant.
Then they came for me,
and by that time there was no one
left to speak up for me.


by Rev. Martin Niemoller, 1945

Não são conteúdos fabricados, mas estão públicados na Fábrica de Conteúdos:

Um balanço oficial hoje divulgado revela que pelo menos 1.087 pessoas morreram e 3.568 ficaram feridas nos bombardeamentos israelitas no Líbano desde o início, há 29 dias, da ofensiva de Israel contra o grupo xiita libanês Hezbollah.

Desde o início da ofensiva a 12 de Julho, pelo menos 990 civis, dos quais cerca de 30% eram crianças com menos de 12 anos, morreram, bem como 30 militares e polícias libaneses, indicou a Comissão de Emergências do Governo libanês.

Entretanto, o Hezbollah anunciou a morte de 54 combatentes e o movimento aliado xiita Amal a de sete dos seus militantes. Também a FPLP-CG de Ahmad Jibril anunciou a morte de um combatente deste grupo palestiniano pró-sírio.

Como avança o site da RTP, durante o conflito também morreram quatro observadores da ONU e um membro da Força interina das Nações Unidas (Finul).

Toda a história está contada por António Vilarigues, recentemente no Público com o título «Cães de guerra ou a importância de se chamar Israel» O extracto gratuito fica aqui: O estado de Israel tem sido advogado de acusação, de defesa, juiz e carrasco de extremistas e de activistas palestinos. E nunca falha! Israel diz que é terrorista e está dito! O artigo na íntegra é de leitura obrigatória.

Esquizofrenia nacional

Têm sido tempos de enriquecimento estes últimos. Tenho vindo a perceber melhor a causa de algumas coisas. No contacto com as pessoas que têm dirigido o hospital, verifico que é constante a noção de isolamento em que estão, voltados para dentro do seu mundo, não entendendo minimamente que estão integrados numa estrutura, muito menos numa empresa. É quase uma esquizofrenia. Querem definir tudo a partir do seu mundo, como as crianças mal educadas que se acham com direito a tudo. Insatisfeitos, pedem o mundo todo. Como eu, que pedi o mar quando me deram um barco pelo Natal. Exemplificando, funcionam assim: que espaço preciso para atendimento nas consultas? Tenho x médicos, mais y internos, logo preciso de x+y gabinetes alguns dias por semana. Como se a consulta servisse paa alojar os médicos do serviço e não para atender os doentes... Vai ser complicado, faze-los entender que têm x consultas a fazer e que para isso precisam de y horas nas quais vão empregar alguns dos seus médicos a trabalhar y horas e que o número de médicos não entra na equação.
Se calhar todo o país funciona assim, esquizofrenicamente a contemplar o umbigo. Ou não funciona...

segunda-feira, agosto 07, 2006

Os novos dos restelos

É desporto nacional a nostalgia do falhanço dos outros. É uma projecção das auto-insuficiências com que há que lidar, pacientemente e de uma forma, tanto quanto possível, pedagógica. Uns dias depois do êxito consumado, logo aparecerão a colher a «sua» quota parte da vitória. Entretanto, a caravana passou na direcção que se queria e isso é tudo o que importa.
Mas fica na memóriaa imagem da nervosa esperança ameaçadora que afirma, hoje correu menos mal, mas amanhã... Ou da insuperável ileteracía informática, fazem estes quadros bonitinhos (no Excel) e pensam que sabem alguma coisa da realidade...

sexta-feira, agosto 04, 2006

Misérias

Pior do que a miséria da falta de recursos, é esta de estarem atolhados nela e, de tal forma agarrados, que parece não quererem sair. Abdicaram da esperança tolhidos pelo hábito. Ou haverá algum sentimento de culpa que os paralisa?
Impressiona-me ver como criticam com firmeza toda e qualquer solução, sem apresentarem na verdade qualquer real alternativa. Basta-lhes ser parte do problema, não desejam fazer nunca parte da solução. Recusam as dores do parto, chegando-lhes o estado de aborto. Parece não quererem viver. Definitivamente.
Os hospitais para eles são o sítio de passagem, nunca um sítio de estar. Basta-lhes a indignidade de «viverem na merda» sem a coragem de dela saírem. Toda a mudança lhes estimula as resistências.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Semiótica (arte dos sinais e sintomas)

Veio sorridente nos seus 71 anos, bem diferente de há uns tempos atrás, quando o vi pela primeira vez. Mais cheinho como diz a «sua Maria» e enérgico me pareceu. Lá vimos a tensão arterial, conversámos, confirmámos os resultados das análises a afirmarem o equilíbrio. Feitas as prescrições e as despedidas, a «sua Maria» foi saindo, mas ele voltou atrás já com ela fora do consultório e foi aí que me atirou: «Oh sotor e pró sexo, isto já abalou?» Há perguntas que confirmam, bem melhor que os resultados das análises, o bem-estar do doente. Tem razão, veremos a próstata e vamos ver se o abalado, retorna.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Gerir não é fechar a porta

O Estado gasta diariamente 20 milhões de euros em saúde. Na mesma notícia da TVI dão-se exemplos de gastos:
Exemplos dos gastos na saúde são um parto normal que custa em media 925 euros e as análises de rotina de um diabético que custam em media cerca de 172 euros.
E eu não percebo muito bem qual é a ideia. Será que para se reduzirem os gastos as grávidas devem deixar de parir, deverão pagar os partos ou irão ter os filhos em casa sozinhas? Afinal, um parto em África deve ficar mais barato... Quanto aos diabéticos deverão eles deixar de fazer análises?
Mais dúvidas, o custo de um parto e das análises dos diabéticos serão menores em sistemas privados de saúde? Porquê, se estes não podem prescindir do lucro (custo final = custo real+lucro), o qual não é necessário no sistema público e, logo, custo final= custo real? Portanto custo no público, necessariamente mais baixo que no privado. Mas dizem-me que não é. Há desperdício. Muito bem, então a via é o combate ao desperdício, gestão eficaz e rigorosa do público. Isso passa por profissionalização do sector público da saúde, privilegiando uma real dedicação exclusiva a quem nele trabalha, separando de vez e tornando concorrentes sector público e privado, acabar com esquemas de trabalho em part-time, despedir directores de serviço que não dirigem, pôr fim a relações estreitas entre indústria farmacêutica e médicos susceptíveis de aumentarem artificialmente os custos dos medicamentos por aumentarem as suas vendas. Isto seria racionalizar os custos, combater o desperdício.
Transferir os custos para os doentes, diminuindo a despesa do Estado não parece ser resolução. Mandava a decência que se reduzisse o que hoje se paga em Impostos ao Estado (e é aplicado em despesas de saúde) para os doentes para que pudessem pagar do seu bolso a factura da saúde. Então, que ganhariam as contas do Estado com a mudança? Para além do que o recurso à procura de cuidados de saúde não é um luxo nem um capricho do consumidor (doente). É antes, um azar seu, que justifica que numa sociedade solidária paguem os sãos os custos da doença dos doentes. E não é igual que sejam companhias de seguros a assegurar o sistema. Far-se-ia um seguro obrigatório? O seguro automóvel dito obrigatório não o é para muitos automobilistas e não tem grande importância. Se não existe, de alguma forma se pagarão as despesas da chapa batida. Mas o que aconteceria quando um doente não tivesse seguro de saúde? Deixa-se à porta do sistema de assistência para que as seguradoras e bancos associados possam continuar a acumular os lucros pornográficos que vemos publicados? Assim acontece no Império inspirador destes conceitos modernaços. Mas será isso que queremos?

terça-feira, agosto 01, 2006

Instante

Imagem na tarde em que me faltaram os tinteiros e tive de ir ao Colombo: A rigor vestidos de negligé soft comprado nas lojas espanholas com nomes italianos passeiam-se, de férias, pelos corredores do shopping.

segunda-feira, julho 31, 2006

Repórter

A vida tem esta exigência de forçar as opções certas a cada instante. Depois, pode ser-se mais ou menos bem sucedido. Não se estranha, por isso, que por vezes se sonhe em ter outra diferente, perguntar e se tivesse ido por ali, como teria sido? A imaginação da fuga. Em parte pode ter sido isto que levou Antonioni a fazer O repórter. Este é um dos filmes que daria para ficar lá, no fim, a conversar. A ouvir o que cada um viu, tão diferente do que viu quem esteve ao lado. Num mundo com tempo, sem a exigência da receita da sessão seguinte. Mas não é possível, a cinemateca já não existe. Agora é cada um por si, isto é, cada um desiste por si. O cinema não pode ser motivo de reflexão. Aliás, nestes dias nada o deve ser. A cultura dominante não o permite, pela sofrega necessidade de consumo. Tudo é produzido para descartar no momento seguinte. Numa gigantesca montanha de nada, que nos esvazia se não estivermos atentos e resistentes.

domingo, julho 30, 2006

Ainda não chega?

Cruz Vermelha contou 56 mortos em Qana, incluindo 34 crianças
30.07.2006 - 14h11 PUBLICO.PT, AP


O ataque aéreo israelita esta manhã em Qana, no Sul do Líbano, matou pelo menos 56 pessoas, entre as quais 34 crianças, segundo um balanço actualizado da Cruz Vermelha Libanesa.

O total de libaneses mortos por Israel na campanha em curso desde dia 12 sobre assim para mais de 500, disse também a Cruz Vermelha, citada pela AP. Informações anteriores davam conta de 51 mortos, entre os quais 22 crianças.

Mísseis israelitas atingiram um edifício em Qana onde durante a noite se tinham refugiado famílias, tornando este ataque no mais mortífero nesta campanha israelita, que suscitou generalizada condenação internacional.

Responsáveis da segurança libanesa, citados também pela AP, falam em 57 mortos, entre os quais 16 mulheres adultas, mas é possível que estes números ainda subam, pois os trabalhos de remoção de escombros ainda prosseguiam. Disseram também que num dos quartos do edifício foram encontradas 18 pessoas de duas famílias.

O ataque eleva o número total de mortos dos 18 dias de ataques israelitas para pelo menos 514. Além dos mortos em Canaã, este número os 403 civis anunciados ontem pelo ministro da Saúde, bem como 20 soldados libaneses e 35 guerrilheiros confirmados pelos militares e pelo Hezbollah


Fica a notícia toda. A chacina continua e deixá-la prolongar-se não será pactuar com a absolvição de Hitler, Stalin, Milosevic, Saddam? Qual é a diferença? Ou a intenção de matar crianças não será a de evitar futuros soldados inimigos? Genocídio, óbvio.
Que nojo de argumento é esse de que a culpa foi deles por não terem saído, pois tinham sido avisados? Que noção básica de direito é esta? Então agora, a culpa de alguém ser morto é do morto por não ter fugido antes que lhe tenham disparado em cima?

sábado, julho 29, 2006

Assinemos!

Se não desistirmos nunca, podemos evitar que a barbárie continue. A eficácia de uma criança que sobreviva ao nosso acto é eficiência bastante. Quem quiser vá ler e assinar a petição.

3 anos

Três anos de ouvidos e sentidos aqui têm ficado, numa actividade lúdica de registo para memória futura, se ainda conseguirmos desfrutar as memórias que se vão construindo. Se da grande história aqui pouco permanece, fica a forma como vi alguns dos seus bocados. Permanece a ilusão de ser ouvido às vezes. A sensação do impacto esmorece com a confrontação coma realidade. Tentando a distância possível, acho que se perde no emaranhado do blogório quase tudo o que vou registando. Vou assistindo também à desistência de outros que deram comigo os primeiros passos. Por agora, vou continuar com o desabafo do presente e a ilusão da leitura recordatória mais além. Aos que insistem em por cá parar de vez em quando, simplesmente, que vos aproveite qualquer coisa.

sexta-feira, julho 28, 2006

Mas é possível mudar...

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar
B Brecht

Em termos de Economia sou uma nódoa. É que não percebo mesmo nada do assunto. Fico, então, com o choque dos ignorantes, abismado quando leio as notícias e vejo o Ministro das Finanças angustiado a dizer que o número de funcionários públicos (para os que não acreditam já nestas coisas, direi que continuam a ser PESSOAS) não aumentou, parecendo que o objectivo máximo dos governantes é criarem condições para despedir funcionários públicos (relembro, PESSOAS. (Vou, aliás, gostar de ver na próxima campanha eleitoral, os candidatos de PSD e CDS terem como bandeira de propaganda o anúncio de que se forem eleitos vão acabar de vez com essa espécie...)
Angustiado fico também, quando, neste contexto, sei do aumento dos lucros da banca: 31% de aumento face a período idêntico do ano anterior. Neste caso trata-se da melhoria de meia dúzia de famílias (boas famílias, claro)em detrimento de alguns milhares de funcionários (leia-se pessoas).
De que lado está o Governo quando permite isto? Querem que façamos sacrifícios em nome de que razão superior?
Alguém me diz quantos pobres são necessários para fazer um rico? E, também, para que serve fazê-lo.

quinta-feira, julho 27, 2006

Nunca é demais lembrar

Relendo Brecht

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã

segunda-feira, julho 24, 2006

Protesto

Nas insanas contabilidades,quantificam-se os artigos que ninguém lê e esquecem-se os actos que ninguém descreve. Porque são os actos do senso comum, solidários afinal, o que se espera que surja normalmente. Só que muitas vezes, demasiadas vezes mesmo não surge. Quando aparece vem sempre quase e sempre dos mesmos lados. E não aparecem registados nas trezentas páginas dos curricula. Escandalosamente estão omissos. Em vez disso, um relambório desinteressante de participações em reuniões turísticas e escritos para nada.

domingo, julho 23, 2006

Contra a corrente

Inocentemente, na primeira página do Expresso e com chamada para um dos cadernos, lê-se que em Portugal há 11000 milionários. Depois as habituais comparações mostram que percentualmente estamos abaixo do que acontece em Espanha e etc pela Europa fora. Fica-se quase com o desejo de que deveriam ser mais para grandeza do país. Agora, um país é próspero quando o número de milionários é grande, um outro parâmetro de avaliar o produto nacional bruto. O grande desígnio dos portugas patriotas, além de porem as bandeirinhas na janela por ordem do senhor Scolari e com a benção dominical do Professor Marcelo, é contribuirem e depressa para que o país tenha mais milionários. Digam quantos pobres precisamos de fazer para criar mais uns quantos milionários e eles farão o que for preciso. Não se pode deixar o país das bandeirinhas ter este ar pobretana com tão poucos milionários. Façam-se mais uns quantos, mesmo que isso faça mais uns milhares de pobres, que o país precisa ter um ar renovado e próspero.
Se for preciso, acabem-se os tempos livres e os fins de semana. Acabem-se as garantias de emprego e façam-se preces ao São Precário. Basta de preguiça, é preciso fazer mais uns milionários.
Gosto de saborear um fim de semana em que não há nada à espera de ser feito, só o que o apetite dita. Acabei-o sem remorsos. O meu projecto de vida não é produzir milionários.

quinta-feira, julho 20, 2006

Complicómetros

A vida pode ser complicada nalguns dias. Noutros, é mais a complicação que lhe arranjamos. Muitas vezes, só pela falta de estética, tristemente esmagada por grosserias mal dominadas. Deve dar alguma insónia, epigastralgia, mal-estar ou mesmo náuseas. Para quem assiste é mais o mau cheiro do vómito que se avizinha. Alguma pena, que assim seja. Na verdade, as coisas até são simples, não adinata fugir delas nem ter receios sem fundamento. Podemos ou não ajudar a que se resolvam, com a certeza de que não seremos nunca fundamentais, insubstituíveis, na sua ultrapassagem. Essa consciência, que vem depois, também deve ser incómoda, pois quanta vontade não há de ser-se a peça sem a qual a máquina não mexe? Mas não, não só são dispensáveis como até chegam a ser escolhos no caminho e tudo seria mais fácil se a dragagem fosse feita. Felizmente, convenço-me que já faltou mais para que a porta se abra e possam ir arejar. Para que o ar que respiramos se possa renovar, que bem necessário é.

quarta-feira, julho 19, 2006

À atenção da comunidade internacional

Porque realmente é revelador, não resisti a copiar do resistir.info.

Os computadores já deitam fumo

Patético perguntava o elemento do Hezzbollah ao repórter da CNN, onde estava a comunidade internacional? Possivelmente, estão a fazer contas. Ainda não chegaram a uma conclusão exacta sobre o valor de dois soldados israelitas. Parece que valem muito mais que mais de trezentos mortos,perto de um milhar de feridos e meio milhão (ouvi dizer) de refugiados. Só que a tal comunidade, ainda não acabou de computar, quantos mortos, quantos feridos, quantos refugiados, valem afinal dois soldados israelitas. Por sinal ainda vivos, prisioneiros de guerra. Imagine-se, se forem mortos! Lá irá a comunidade fazer mais contas, regras de três, integrais e tendências para infinitos de inacção. Quanto valem soldados palestineanos raptados, presos por Israel? A comunidade internacional já há muito chegou a uma conclusão: NADA!

Diana Krall

Na noite anunciavam temporais, numa ânsia de tufões e sermos notícia que não entendo. Ainda assim, o jardim destapado encheu e não havia grandes notícias de nuvens pelo céu, também sem estrelas, diga-se.
Meia hora depois do prometido ela chegou, mais três amigos e começaram a tocar e ela a tocar e a cantar. E continuaram durante duas horas seguidas numa diversão que se via que tinham, mas separados pela distância que vai do palco às plateias. Gostei de ouvir, ainda que o desfrute se possa mais ter em casa sem ameaças de chuva não cumpridas. Alguns espectáculos não o são, alguma música e músicos são para se ouvir em recinto fechado, com boa acústica, no sossego da session. Porque foi boa música e bons músicos que ali estiveram. Só não houve espectáculo. E não sendo giro (cool) teve a vantagem de não ter chegado a ser wet jazz.

domingo, julho 16, 2006

Gratidão

Aos poucos a distância tem-se encurtado. Primeiro até Torres Vedras, depois Óbidos, agora Peniche. Está pronto o IP-16. E quase todos os dias assisto à diferença e ouço dizer que está tudo igual.
Tenho a sorte de viver num local anabólico, sem vizinhos israelitas, que, periodicamente, destruam o construído e sem ter a felicidade de já ter nascido com tudo isto construído há muito, já quase velho.

sexta-feira, julho 14, 2006

Ao contrário, no caminho

A pretexto do rapto de 2 soldados a agressão terrorista (para amedrontar) continua no Líbano. Ainda não perceberam que a ausência de esperança que querem induzir vai ser o limite da sua viabilidade. Quando nos retiram o futuro, desvalorizamos o presente e ficamos dispostos ao que for preciso. A força bruta não faz desaparecer os argumentos da razão.
Foi neste dia que aconteceu há já tanto tempo:

A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais na França e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité). Há quem vaticine que os revolucionários instituiram à força das armas estas três premissas, que se nao completam sem uma quarta: a Morte. Assim era o grito da revolução: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou a Morte!" (Wikipédia)
E quando olhamos, passados todos estes anos, onde estão a Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Há algum movimento às arrecuas na história deste tempo. Para produzirmos o progresso a que nos querem convencer, criamos desigualdades crescentes, tornando-nos efectivamente em produtores de uns poucos ricos à custa da geração de muitíssimos pobres. São necessários muitos pobres para produzir um rico, quando a pergunta a fazer poderia ser, de quantos ricos precisamos para reduzir os pobres?
É por se não conseguir a Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que cresce a disponibilidade para a alternativa, a MORTE. E é abusivo chamar terrorismo à falta de alternativas. Terrorismo é o outro, organizado e apoiado pelo senhor Bush e seus amigos israelitas, que mata para meter medo. Mas medo só tem, quem tem esperança. Quando esta é aniquilada, perde-se o medo e vem a disponibilidade da MORTE.

quinta-feira, julho 13, 2006

Dizer bem

Sabe-me bem viver num país assim. Estou a falar a sério, depois de pagar o Imposto automóvel no site da DGCI. Simples, realmente. Era isto que queria sentir com muitos outros actos do dia-a-dia.
Curioso foi ouvir logo de seguida o pessimismo. Dizem-me que não me alegre, que dentro de dias me vão enviar um papel para ir buscar os selos. Quem inventa este tipo de coisas? É o pessimismo habitual, o fado do desgraçadinho, o horror ao Estado.

quarta-feira, julho 12, 2006


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!

Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Soube muito bem mudar de feitos, sair da pressão do dever.

terça-feira, julho 11, 2006

Surpresa

Quando ouvi isto hoje de manhã, percebi que realmente isto não é bem um país. Só a sugestão deveria ser punida por lei! Realmente, desde que um certo estilo sul-americano começou a dominar o futebol, alguns ter-se-ão convencido que isto já não fazia parte da Europa. É o primarismo das bandeiras, a miserável prestação dos jornalistas-claque patrioteira e, finalmente, a cereja: isentem quem trabalha (medianamente) de impostos! Por ganharem, sabe Deus como, 5 jogos e por perderem 2 sem margem para dúvidas, estes rapazes ganharam 10 vezes o que muitos portugueses ganham a trabalhar um ano inteiro. Num país onde o desemprego grassa, vem agora o tio Madaíl pedir que os rapazes não paguem impostos. É o TUDO PELO FUTEBOL da camioneta. Francamente, chocado. Apesar de tudo ainda me conseguem surpreender depois de terem estádios Às moscas (nós pagámos), lhes darem terrenos para especularem à volta dos estádios (nós pagamos), terem ordenados escondidos (nós pagamos), terem ligações perigosas com as autarquias (nós pagamos), paralisarem de idiotice um país durante um mês (nós pagamos) ainda queriam mais... Querem mais, querem mais, querem mais? Ok, a cantiga acabou, meninos!

segunda-feira, julho 10, 2006

O elogio do desporto

O desporto de competição tem esta dimensão interessante de nos revermos nos melhores. Com isso estimula-se a juventude e os craques são o exemplo pelos seus bons comportamentos. Por isso, muitas vezes se estimulam os jovens a perseguir os estilos dos grandes craques.
Este dizem é o melhor jogador do mundo, o seu exemplo deve ser seguido?

Mas se nem serve para estimular a juventude e ser escola de virtudes para que serve, afinal, a alta competição? Para vender sapatilhas, camisolas e funcionar como anestésico?

domingo, julho 09, 2006

Acaba hoje... Uff

Mesmo com todo o esforço da claque jornalista da terrinha, a festa saiu pífia, pequenina, portuguesinha. Bem podem esticar nos comentários, apertar os ângulos das imagens, mas o mar de gente mais não foi que uma nascente.
TODOS PELO FUTEBOL mostrava a camioneta. Foram poucos, afinal. Pena que sejam dos mais carentes, dos mais sem esperança, agarrados a esta boia que lhes prolonga o naufrágio. Dentro em pouco, um qualquer Banco tomará conta das camisolas dos «heróis». É o fim do ciclo e a demonstração que o futebol continua a ser um bom objecto do sistema, mas só isso. Desculpem, mas não posso estar pelo futebol, estou antes por outro sistema.
Escrevo isto enquanto vejo o último jogo, a final, o jogo dos melhores. Isto são as duas melhores equipas do mundo! Ao que chegou o futebol! Ciência, táctica, técnica, rigor e a imaginação onde fica? Emoção deve ser esta marrada de Zidane, mais não há. Uma coisa destas devia levar à expulsão da equipa toda e a uma profunda reflexão sobre os motivos por que acontece. Jogo ou guerra económica? Desporto já sabia que não era, que há muito me acabaram as ilusões. Mas está a tornar-se demasiado desengraçado, talvez acabe.

sábado, julho 08, 2006

Ao ataque!

Como se houvesse uma imperiosa necessidade de drama, dificilmente hoje se consegue dizer que alguém é saudável. É só procurar um pouco mais, fazer umas análises mais, acabar-se-á por encontrar qualquer coisa. Parece ser esse o objectivo de alguns médicos e, estranhamente, dos próprios doentes. Acha mesmo que está tudo bem? A melhoria é franca, mas há uma interiorização do mal, da necessidade do drama. Estamos num mundo pouco optimista, à defesa. Donde nos vem este medo que nos leva à contenção, à falta do golpe de génio, a arriscar? Há demasiada ciência e matemática nas nossas vidas, estamos a ficar demasiado precisos e prudentes, numa palavra, sem graça. Será o medo a arma de que o sistema carece para se manter? Tudo tão longe do Vitória ou Morte! Mas afinal que é a vida sem vitórias? Prolongamentos e mais prolongamentos para tudo se decidir na lotaria das penalidades.
Foi o jogo de que mais gostei, três grandes golos! Que importa a derrota?

sexta-feira, julho 07, 2006

Consumo e produção

Reflectir sobre a necessidade, o modo e os efeitos deviam ser preocupações dos organizadores. No entanto, parece-me que apenas se procuram os efeitos e desses apenas os que não serão os mais justificáveis. Racionalmente, só a suspensão de tanta desta actividade seria defensável. Quanto custa isto? Quem quantifica os benefícios? Será que alguém faz a análise custo-benefício ou não será isto um exercício só para negativos, primeiro com consumo de informação e depois consumo da informação. Qual foi o produto?

quinta-feira, julho 06, 2006

Trégua

Por que compro guerras? Só porque deve ser! Que disparate, era muito mais cómodo estar em paz. O problema seria a podridão. Gosto de bom cheiro, é isso.
São cómodos os instantes das tréguas que tenho comigo.

quarta-feira, julho 05, 2006

Prontos!!!

No meio do silêncio do país emigrado das ruas enquanto chegava a casa, parecia-me já ouvir aquele enorme comentário: Prontos!!
Assim foi. A frança multicultural ganhou. Le Pen perdeu. Ganhou o exemplo da tolerância, ganhou a França, não o chauvinismo. Eu destes franceses argelinos e pretos até gosto. Primeiro, contribuiram para aumentar a produção no Brasil, depois a nossa. Espera-se.

terça-feira, julho 04, 2006

Nas nuvens

A verdade é que no país suspenso, só as conferências de imprensa do senhor Scolari interessam e nada mais acontece. Amanhã logo se vê. A quem interessa o futuro além do tempo das 24 horas? (Título do USA today depois da eliminação dos EUA pelo Gana)
Afinal, a culpa foi do mundo ter ousado continuar sem eles...
Só que a história continua e poucos sabem quem ganhou o tal campeonato TÃO IMPORTANTE em 1930 e tal...
Entretanto, vamos passeando nas nuvens:

domingo, julho 02, 2006

Fim de fim de semana

Por instantes, os sorrisos levantam-nos as dúvidas sobre os significados de existirem. Mas não me recordo que possam ser actos reflexos e aí também esboço um.
No regresso, ao pôr do sol, o dia começa. Como todos os dias, no anúncio de um amanhã.

sábado, julho 01, 2006

A nova bandeira nacional


Depois virá Madaíl para Presidente, Scolari para Primeiro Ministro e far-se-á um governo com mais 20 e tal ministros e secretários de Estado.
Este é o verdadeiro motivo da demissão de Freitas do Amaral, afinal um dos poucos cidadãos que sabe onde está a coluna vertebral. Na verdade, foi apenas uma jogada de antecipação.
Fica-se assim também a saber a que se referia hoje o Senhor Alberto, quando disse que era necessário demitir este governo e criar um de unidade nacional. Nem mais!