terça-feira, janeiro 23, 2024

 A CAMA

Anda por cá há mais de 50 ou 60 anos. Resiste. Não é como algumas camas de bonecas que por aí há perfeitinhas made in China sob desenho de uma multinacional americana das prendinhas. Muito seguras, mas banalizadas, abandonadas por quem as recebe nos dias seguintes, porque depois delas logo virão outras e não há tempo para desfrutar tanta abundância na vertigem do consumo. As camas de agora são só mais uma.
Esta é única. Foi feita para a sobrinha, ferro a ferro, cortados por medida, soldados uns aos outros em esquadrias perfeitas, com colunas terminadas em perigosíssimos e aguçados cones, com um M na cabeceira. Foi concebida pelo artista para uma destinatária específica. Sobreviveram a cama, a dona e as memórias dela, a M. Mas sobretudo sobreviveu a ternura com que foi feita e usada. Foi um objeto de brincar, que continua a ser memória, quase uma relíquia.
É uma frase de velho, mas já houve tempos mais reais do que os de hoje.

sábado, janeiro 20, 2024

 O TRIUNFO DOS BIMBOS

Cerca de 40 anos depois da dupla que mudou o mundo inspirada pelos ventos de Chicago, chegamos aos tempos das contradições e enquanto alguns betos querem continuar a destruir o Estado já se começa a perceber que a desregulação realmente desorganiza e, ao contrário, é necessário reerguer o Estado. Durante estes 40 anos, aniquilou-se a cultura, a arte e o pensamento tendo havido uma tentativa mais ou menos conseguida de afirmação da ignorância, do artesanato e da fé. Impôs-se uma doutrina única com pezinhos de lã. Ainda estamos aí, como mostram as notícias que vêm da Argentina, dos Países Baixos ou da Alemanha, por exemplo, que mostram como se empurra com a barriga o que já quase não se mexe. A criatividade foi morta, o dinheiro manda. É o caminho não da felicidade, mas da facilidade. A filosofia fenece substituída pela influenciaria. A música pimba vence a clássica, menos notas dão mais notas, a leitura da literatura, substitui-se pela das Marias na revelação da vida das celebridades, nas artes reproduzem-se modelos de anões para os jardins. É o triunfo dos bimbos anunciando-se já próximos capítulos nos Estados Unidos e também por cá, como se fosse necessário provar o amargo antes de saborear o doce. É o tempo da careta, do esgar e do vómito.
Enojados já o vemos, ele que tem resposta para tudo, ficar em silêncio quando à sua frente alguém é arrastado pelo chão. Não restam dúvidas, a serpente revela-se dentro do ovo. Certamente, ficaremos aliviados no fim, mas vai ser necessária uma limpeza daqui a uns tempos, porque é sabido que o lixo nunca limpou. É preciso lembrar sempre que o melhor tratamento da indisposição é a sua prevenção.

sexta-feira, janeiro 19, 2024

 A SECA DA CHUVA

Aos dias de chuva chama-se mau tempo porque nos dão mais trabalho desde logo a vestir-nos e incomoda ficar-se molhado e termos de nos secar. Realmente, são uma seca. Mas também são eles que nos dão água e é esta que nos dá vida. Também na vida, o que acontece de mau, acaba por ser uma forma de se apreciar aquilo que é bom. Uma das estranhezas dos comportamentos é o pudor da divulgação das coisas más, muito mais ocultadas do que a exposição do que corre bem. Possivelmente, é uma forma de pouparmos aos outros alguma inquietação, de proclamarmos estoicismos ou escondermos sentimentos de falência. Precisamos de divulgar uma imagem de vitória. São exceção as vitimizações, uma busca de conforto, que procura ganhos secundários. De qualquer forma, quase intolerável é sentir-se a piedade dos outros. Ofende a autoestima da cultura individualista em que se mergulhou. Naturalmente, os problemas isolados do indivíduo revelam aos outros mais a sua insuficiência, negligência e falta de querer. A solidariedade é um bem despertado pelas dificuldades coletivas, que precisam ser organizadas para terem esse efeito.
Dizem que de tarde já vai haver sol de novo. Depois da borrasca a luz ganha um novo brilho.

quinta-feira, janeiro 18, 2024

 O OTIMISTA

Olhou em volta e pensou no que iria na cabeça da maioria daqueles todos sobre assuntos triviais como a supremacia branca ou a dos homens, direitos como o de abortar ou a eutanásia, direitos dos que têm opções de género diferentes do habitual ou que são de etnias diferentes da maioritária. Qual o critério que utilizariam para as suas escolhas se chamados a votar, o que mais vantagens lhes pudesse trazer pessoalmente ou outro que valorizasse a liberdade de cada um? E ficou com dúvidas sobre a causa das escolhas individuais e da maioria resultante, mas teve ao mesmo tempo a certeza de que os pretos, as mulheres, os desesperados com sofrimentos sem soluções ou os asiáticos têm direito natural de opção que se sobrepõe ao direito da maioria, por muito maioria que seja. Nessa altura, entendeu que a democracia diz respeito ao coletivo, mas tem de ser limitada pelos direitos do indivíduo, respeitando-se a lei da igualdade. Para torpedear a Igualdade já bastam as condições resultantes da origem social, pois na genética se não encontram tantas diferenças assim. Percebeu também que a Liberdade era um mito enquanto houver desigualdade e que a Fraternidade era uma inexistência perante a ganância individual. Mais de 200 anos depois, a Revolução Francesa continua à espera de ser feita. Habilidosos, os derrotados de então, criaram fantasias como a democracia liberal para se aguentarem à tona e os vencedores temporários da altura continuam à procura da forma de instaurar a Comuna de uma vez por todas. Os mais otimistas sabem que vai acontecer. Os hipócritas dizem que não há alternativa. E assim, nos continuamos a ir arrastados dentro do túnel, sem se ver o fundo, quando poderíamos estar a fazer um mundo de maravilhas sempre adiado para um futuro que teima em não chegar. O mais extraordinário é ainda cada um não ter percebido que andará por aí não mais de umas dezenas de anos e a vida do mundo se mede em biliões de anos, mas mais inacreditável é a maioria continuar a deixar-se levar pelas cantigas de uma ínfima minoria. Como diria o outro, ‘’não havia necessidade’’. Mas como se percebe, ainda há muito tempo para se chegar lá.

quarta-feira, janeiro 17, 2024

 O DISTRAÍDO

O problema começou ao fim de uns anos de por cá andar, naquela altura em que dizem que começamos a ter consciência de nós. Pelo caminho ia pensando se iria conseguir ter aquele brinquedo desejado e na altura em que o recebeu, percebeu também que todo o tempo em que pensou se aquilo iria acontecer tinha sido um tempo em que muito mais coisas teria havido para viver além da obsessão da sua dúvida. Teria sido, desse ponto de vista, um tempo perdido. De seguida, pensou se iria conseguir chegar ao fim do curso também de uma forma obsessiva. No dia da graduação, olhou para trás e percebeu o enorme tempo que tinha perdido com a sua dúvida obsessiva. Quanta coisa não teria havido para desfrutar para além daquela sua dúvida obsessivamente vivida e que lhe não deixava pensar em mais nada nem olhar à sua volta? Foi a altura em que começou a pensar se iria ter um emprego estável. Quando uns anos depois arranjou um, pensou o que teria andado a fazer durante todos aqueles anos, sempre preocupado com a sua nova incerteza. Afinal tinha chegado a sua ocupação garantida, mas ele tinha perdido imensas experiências para sentir sem angústias e tinha-se, afinal, deixado envolver por mais uma preocupação obsessiva. E agora, quando lhe apareceria uma doença, que acabaria por o matar? No dia em que morreu, já não teve oportunidade de pensar mais nas suas obsessões e nas perdas que tinha tido ao longo da sua vida por ter andado sempre com dúvidas sobre o seu futuro. Já era tarde para saber que a vida está no que acontece e não no que poderá acontecer. Como fora possível que durante toda a fase de crescimento, de educação e trabalho nunca tivesse percebido essa coisa tão simples e tenha passado pela vida sempre a olhar para a frente e sem a ver para a ter? Foi traído, o distraído.

segunda-feira, janeiro 15, 2024

 TEXTO EM BRANCO

O que mais o incomodava eram as paredes brancas das casas novas. Aquela uniformidade sem contraste, sem relevo ou profundidade causava-lhe angústia. Se havia um horror ao vácuo, o dele era às paredes novas e despidas, à sua falta de diálogo com o branco que nada lhe transmitia. Doía-lhe a solidão daquela cor que o convidava a que lhe espetasse pregos para lá pendurar quadros. Bolas, nem que fossem telas pintadas uniformemente de branco. Porque não havia dois brancos iguais, algum contraste se geraria devido às incidências variáveis da luz ao longo do dia. Finalmente, a parede branca teria sombras que já não eram absolutamente da cor de nenhum dos brancos que lá estavam e o seu desespero começava a diminuir na substituição da monstruosidade que era a parede branca, que era um muro que o oprimia. Aquela história medonha acabava por ter um final feliz ou, pelo menos, uma felicidade possível como a da visão das montanhas nevadas de neve branca e não da neve preta que o menino de Saramago representou no desenho que intrigou a professora. Afinal, naquele inverno, a mãe dele tinha morrido e isso tinha acabado com a alvura da neve no desenho. É essa capacidade de anulação do branco que pode dar sentido à vida, que tem de ser muito mais do que a busca de se ser adulto enquanto criança, a insegurança em ser-se adulto quando se é e a nostalgia de já o não poder continuar a ser quando se envelhece.
Sempre sentiu a necessidade de acabar com a monotonia do branco e dar-lhe cor. Era assim que também negava as folhas A4.

 5

5 é o número de hoje, mas o relatório da OXFAM 2024 (https://www.oxfam.org.au/.../INEQUALITY-INC-Oxfam-Report...) tem mais números:
Desigualdade em números
• Desde 2020, e o início desta década de divisão, os cinco homens mais ricos do mundo viram suas fortunas mais do que dobrar, enquanto quase cinco bilhões de pessoas viram sua riqueza cair.8
• Se cada um dos cinco homens mais ricos gastasse um milhão de dólares americanos diariamente, eles levariam 476 anos para esgotar sua riqueza combinada.9
• Sete em cada dez das maiores corporações do mundo têm um CEO bilionário ou um bilionário como seu principal acionista.10, 11
• Globalmente, os homens possuem US$105 trilhões a mais em riqueza do que as mulheres - a diferença de riqueza é equivalente a mais de quatro vezes o tamanho da economia dos EUA.12
• Os 1% mais ricos do mundo possuem 43% de todos os ativos financeiros globais.13
• Os 1% mais ricos do mundo emitem tanta poluição de carbono quanto os dois terços mais pobres da humanidade.14
• Nos EUA, a riqueza de uma família negra típica é apenas 15,8% da de uma família branca típica.15 No Brasil, em média, os brancos têm renda mais de 70% maior do que a dos afrodescendentes.16
• Apenas 0,4% das mais de 1.600 maiores e mais influentes empresas do mundo estão comprometidas publicamente em pagar um salário digno a seus trabalhadores e apoiar o pagamento de um salário digno em suas cadeias de valor.17
• Levaria 1.200 anos para uma trabalhadora do setor de saúde e social ganhar o que um CEO nas maiores empresas Fortune 100 ganha em média em um ano.18
Esta é a consequência do modelo de desenvolvimento capitalista dominante. MAS ISTO NÃO É UMA INEVITABILIDADE, tem de haver alternativas! É preciso procurá-las e não continuar a ser enganado pelas mentiras das direitas. O relatório aponta algumas medidas que deveriam constar dos programas dos governos que se elegem. É um pouco longo, mas vale a pena:
''1. REVITALIZAR O ESTADO. Um Estado forte e eficaz é o melhor baluarte contra o poder corporativo. Ele é um provedor de bens públicos; um criador e modelador de mercados; um corretor de falhas de mercado; e um proprietário e operador de empreendimentos comerciais nacionais, respondendo por até 40% da produção doméstica mundial em 2018.80 OS GOVERNOS precisam assumir um papel proativo na moldagem de suas economias para o bem comum. Eles DEVEM:
• GARANTIR SERVIÇOS PÚBLICOS que combatam a desigualdade, INCLUINDO SAÚDE, EDUCAÇÃO, SERVIÇOS DE CUIDADO E SEGURANÇA ALIMENTAR.
• INVESTIR EM TRANSPORTE PÚBLICO, ENERGIA, HABITAÇÃO E OUTRAS INFRAESTRUTURAS PÚBLICAS.
• Explorar um monopólio público ou uma opção pública em setores que são propensos ao poder de monopólio e fundamentais para enfrentar a desigualdade extrema e promover uma transição rápida para longe dos combustíveis fósseis. Estes poderiam incluir ENERGIA PÚBLICA, TRANSPORTE PÚBLICO (onde os custos de investimento em infraestrutura significam que só pode haver um provedor eficiente) e outros setores onde há um benefício nacional significativo.81
• MELHORAR A TRANSPARÊNCIA, A PRESTAÇÃO DE CONTAS E A SUPERVISÃO DAS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS (incluindo as empresas estatais).
• Fortalecer, FINANCIAR E DOTAR DE PESSOAL A CAPACIDADE REGULATÓRIA para fazer cumprir as regulamentações que garantam que o setor privado sirva ao bem comum.
2. REGULAR AS CORPORAÇÕES Os governos precisam usar seu poder para conter o poder desenfreado das corporações e prevenir injustiças em suas cadeias de fornecimento, nacional e internacionalmente. Eles devem:
• QUEBRAR OS MONOPÓLIOS PRIVADOS E LIMITAR O PODER CORPORATIVO. Os governos podem aprender com os casos atuais de antimonopólio, como os dos EUA e da Europa, e com as lições da história onde a concentração de riqueza foi combatida com sucesso.82 Eles também devem acabar com o monopólio sobre o conhecimento, democratizando o comércio e acabando com o abuso das regras de patentes (por exemplo, da Big Pharma sobre os medicamentos) que impulsionam a desigualdade.
• • EMPODERAR TRABALHADORES E COMUNIDADES. As CORPORAÇÕES DEVEM PAGAR SALÁRIOS DIGNOS e se comprometer a garantir a justiça climática e de gênero: pagamentos de dividendos e recompras de ações devem ser proibidos até que isso seja garantido. OS SINDICATOS DEVEM SER APOIADOS, PROTEGIDOS E INCENTIVADOS. A REMUNERAÇÃO DOS CEOS DEVE SER LIMITADA. Os governos devem introduzir medidas legalmente vinculantes para garantir os direitos das mulheres e dos povos racializados, e para garantir a devida diligência obrigatória em direitos humanos e ambientais.
• AUMENTAR RADICALMENTE OS IMPOSTOS SOBRE AS CORPORAÇÕES E OS RICOS INDIVÍDUOS. Isso inclui um imposto permanente sobre a riqueza e um imposto permanente sobre os lucros excessivos. O G20, sob a liderança brasileira, deve defender um novo acordo internacional para aumentar os impostos sobre a renda e a riqueza dos indivíduos mais ricos do mundo.
3. REINVENTAR OS NEGÓCIOS
OS GOVERNOS PODEM USAR SEU PODER PARA REINVENTAR E REORIENTAR O SETOR PRIVADO. Eles devem:
• Usar todo o seu poder para criar e promover uma nova geração de empresas que não colocam os acionistas em primeiro lugar - incluindo cooperativas de trabalhadores e locais, empresas sociais e negócios de comércio justo - que são
propriedade e governados no interesse dos trabalhadores, das comunidades locais e do meio ambiente. Negócios competitivos e lucrativos não precisam ser acorrentados pela ganância dos acionistas.
• FORNECER APOIO FINANCEIRO A NEGÓCIOS EQUITATIVOS. Eles também podem usar instrumentos econômicos como impostos e outros como compras públicas para priorizar modelos de negócios equitativos. Nenhuma ajuda econômica ou contrato governamental deve ser dado a empresas que não estão cumprindo suas metas de emissão zero, pagando salários abaixo do mínimo digno ou sonegando impostos.''

sábado, janeiro 13, 2024

 ‘’VEMOS, OUVIMOS E LEMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR’’

Enganei-me quando a 31 de janeiro de 2022 escrevi o Funeral de Mozart e disse «Dos vitoriosos de ontem, dois há que atingiram o seu provável máximo de progressão, um porque os betos não são infinitos, outro porque a falta de escolaridade está a reduzir-se e à medida que o tempo passa alguns dos adeptos já terão partido daqui a quatro anos.» Quanto aos betos ainda estou para ver se o ar carrancudo e zangado do líder atual é mais eficaz que a pose do galã anterior, mas quanto aos outros, ao ouvir certos entrevistados durante a convenção de Viana, houve um erro de análise seguramente. Há um país de gente vingativa, deseducada, miserável, sem esperança e sebastianista que espera que as respostas ao seu infortúnio venham de alguém inspirado num qualquer deus e são também gente jovem que falhou na escola, bebeu demais como tinham feito os seus pais, sempre pronta para dar o golpito, fugir ao imposto ou à dízima como alguns dirão, com um mundo pequenino à sua volta, gente incapaz e preguiçosa para ver para além do nevoeiro, um lúmpen que está por tudo e que, sentindo-se vítimas de tudo, estão dispostas a tudo e que se lixe. Já os houve noutros sítios e na incapacidade que têm de pensar, resta-lhes a capacidade de urrar e porem-se de braço esticado como aconteceu recentemente em Itália. Ufanos, preparam-se para fazer a festa por cá também. Esta gente esteve neutralizada, mas nunca deixou de existir, esta gente assaltou e incendiou sedes de partidos de esquerda depois de abril e foi tolerada pelo silêncio cobarde da imprensa sempre predominantemente comunistofóbica como agora se mantém, pré-anunciando o desaparecimento dos que sempre combateram pela liberdade e deixando à solta os sucessores dos tiranos de então. É a gente que andou de moca em Rio Maior, que foi por duas vezes travada, a 28 de setembro e no 11 de março. Não se lhes pode franquear a porta à chegada, porque eles continuam a andar por aí para comer tudo. Também a 10 de março têm de ser travados.

quarta-feira, janeiro 10, 2024

 HOJE

Ainda há dias que têm horas a menos.
E os livros ficam sossegados, empilhados esperando o próximo nascer do sol.

segunda-feira, janeiro 08, 2024

 A REVISÃO ANUAL

Aparentemente, nascemos como há milhares de anos inaptos, indefesos, incapazes de sobreviver, apenas dotados de reflexos básicos, mas capazes de desenvolvimento, se cuidados. À nossa volta cresceu o conhecimento até agora criado por nós. Durante muito tempo foi transmitido entre gerações, mesmo antes da escrita, através do conto que os mais velhos faziam aos mais novos. Claro que, muitas vezes, os contadores lhe acrescentavam pontos, enriquecendo a narrativa, gerando ao mesmo tempo conhecimentos diversos. Depois colecionaram-se os conhecimentos nos livros e, lendo-os, obtínhamos a compreensão do mundo. A certa altura, percebeu-se a necessidade do conhecimento especializado, porque o limite da capacidade de desenvolvimento individual não permitia organizar todo o conhecimento. Sentimos então a necessidade da interação e de acreditarmos uns nos outros apesar das assimetrias de conhecimentos. Criou-se um exercício complexo gerido pela invenção da ética, que se tornou imperiosa para se evitarem conflitos, que, mostra toda a história, não temos sabido prevenir. Quando há conflitos porque alguém admite comportamentos não éticos no outro, recorre-se a outra invenção, a justiça ou resolve-se a coisa, da forma mais ancestral, através da imposição do mais forte.
Mas na maioria dos casos, somos seres gregários, que aceitamos, por termos uma relação de confiança, o preço do conhecimento dos outros mesmo quando não sabemos nada do assunto. É isso, que permite sairmos da oficina do automóvel e continuarmos a sorrir. Pior será o dia em que uma máquina dialogará connosco cheia de inteligência artificial. Nessa altura, não sei se me irei a ela.

sábado, janeiro 06, 2024

Pequenos diálogos

Ia animada a conversa sobre roubos de telemóveis sempre a aumentar devido à vinda dos imigrantes, claro. «Já passou no Martim Moniz? Qualquer dia nem a polícia lá entra.» O Sr. Manuel dono da mercearia onde vou fazer pequenas compras no comércio local, parece que vai ter de substituir o sapo que tem à porta por outro bicho mais abrangente, porque agora a culpa dos males do mundo já não é só dos ciganos. Abandonei a superioridade moral e o desprezo que às vezes se tem perante a cultura dos leitores do Correio da Manhã e fui à luta manifestando a minha gratidão aos novos ‘’invasores’’ por me assegurarem a reforma que recebo todos os meses e também a não contração da população do país e a sua contribuição para a atenuação da inversão da pirâmide etária. Ao menos quebrou aquele sentimento de impunidade que começa a reinar na afirmação do disparate xenófobo. Calaram-se com algum ar de espanto, pagaram e saíram da loja. Ao Sr. Manuel ainda disse, que mais grave que o roubo dos telemóveis (serão mesmo os imigrantes que os fazem?) são os roubos legais que os bancos nos fazem. Concordou comigo e sorrimos com alguma cumplicidade, desejando um ao outro um bom fim de semana. No comércio local há estes tempos de diálogo.

sexta-feira, janeiro 05, 2024

CADA VEZ MAIS POBRES, DIZEM OS RICOS

Introdução: Portugal cada vez mais pobre, dizem. Já fomos ultrapassados pela Eslovénia, Malta, Chéquia, Eslováquia, Lituânia, Estónia, Polónia, Hungria. Visitei alguns desses países e, sinceramente, fiquei com dúvidas.

Métodos: Agora fui consultar os dados de alguns parâmetros, nomeadamente, ordenado mínimo, taxa de desemprego, despesa per capita em saúde, nível de educação terciária até aos 35 anos e alguns índices do NUMBEO, tais como o índice de qualidade de vida, Índices de Cuidados de saúde e o Índice de custo de vida.
Resultados: Ordenado mínimo: com exceção da Eslovénia todos os países referidos têm salários mimos inferiores ao de Portugal oscilando entre 542€ na Hungria até aos 792€ em Malta; Taxa de desemprego: em Portugal é de 6,6% e dois países têm taxas ligeiramente superiores (até 7,9% na Lituânia) e seis têm taxas inferiores (até 3,4% na Polónia); Despesa per capita em Saúde: todos os países têm despesa em saúde per capita inferiores a Portugal; Nível de educação analisado: só a Eslovénia e a Lituânia têm maiores percentagens do que Portugal, a Estónia a percentagem é igual e nos restantes 5 é inferior; Índice de Qualidade de vida: melhor do que em Portugal em dois (Eslovénia e Estónia), pior em seis. Índice de Cuidados em Saúde: melhor na Chéquia e na Estónia, pior nos outros seis; e Índice de custo de vida: mais elevado em todos, com exceção da Polónia.
Discussão: Os resultados confirmam a impressão subjetiva que já tinha. Globalmente, os resultados sugerem que viver em Portugal continua a ser melhor do que viver nos países que dizem nos terem ultrapassado pela direita. Não se confirma a tese dos ricos, que dizem estarem os portugueses cada vez mais pobres. Há duas realidades distintas, a das pessoas e a dos países como, aliás, o grande ideólogo e grande líder Montenegro já tinha referido quando estavam no poder: "A vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor".
Conclusâo: Em março, vai ser necessário optar entre a melhoria de Portugal e a dos portugueses. Que cada português escolha segundo o seu interesse tendo em conta que as ultrapassagens pela direita além de ilícitas, levam a resultados duvidosos para as pessoas.

quinta-feira, janeiro 04, 2024

PAROLE

Hoje aconteceu, a acompanhar o esparguete com gambas, ouvir ao almoço música italiana, daquela que existia antes da colonização cultural da Europa. Houve um tempo em que em Itália, França e até no Reino Unido nasciam canções e se fazia cinema de grande qualidade. Depois o rolo compressor das audiências impôs-se e o santo mercado com o critério único da quantidade e das vendas matou as Gigliola Cinquetti, os Nicola di Bari e os Gianni Morandi de Itália e os Jacques Brel, Aznavour, Brassens, Leo Ferré, Ferrat e tantos outros em França. Dominados pelos critérios americanos, a Europa desistiu, parou, rendeu-se. Ainda se fosse em nome de um mundo melhor seria aceitável o sacrifício, mas o que obtivemos em troca foi apenas conteúdo oco e alienação onde as ideias foram espezinhadas pelo poder dos milhões de dólares das indústrias do entretenimento. O dito mundo livre, ditou a sua lei e impôs o seu modelo vazio. O tal cheio de virtudes ocidentais que poderá levar Trump de novo ao poder, eleito democraticamente, como dizem. Parole, parole.

Foi um misto de saudade e revolta que me aconteceu ao almoço.

quarta-feira, janeiro 03, 2024

SOS SNS

Na terra dos apaixonados que nunca experimentaram, ouvimos as opiniões que têm, só porque lhes contaram. São crentes, sempre prontos a espalhar a fé que lhes pregam. E fazem-no com a convicção dos pregadores, por exemplo, daquelas que de microfone apertado na mão ali à porta das urgências dos hospitais anunciam a sua verdade, gritando mais do que muitas parturientes no ato que as levou ali. Lá dentro há a tranquilidade com que agora se resgata o que esteve guardado nove meses e que até já parece rir pelo meio de algum choro que anuncia vitalidade. Mas à porta da urgência a gritaria é aflita. Não sei quantas horas de espera, aqui 15, no Porto são só 2. Até dá para apanhar o Alfa e ir à invicta, carago!

Assim, uma legião de não conhecedores da realidade das urgências ou da assistência nos serviços públicos, acredita que o SNS está completamente decrépito. Para o descrédito, contribuem a quase generalidade dos políticos, ávidos ou da facilidade dos votos ou envolvidos na promoção ativa dos negócios privados da doença.
Na verdade, das hordas que vão às urgências só uma ínfima minoria ali deveria ir à semelhança do que acontece nos países civilizados. Aqui, criado que foi o hábito desde sempre e por todos os governos, de não haver acesso à medicina de proximidade nos cuidados primários, subalternizando-se os cuidados à loucura do hospitalocentrismo, ainda se não se experimentou ir onde se deve quando se tem tosse ou doi a barriguinha cheias de sonhos e coscorões. E parece que algum acesso se tem criado, nos tempos mais recentes. Parece que à maneira do Norte onde a espera é mais curta… Há que experimentar, mas vai levar tempo. A ansiedade e gritaria que aí vai é capaz de traduzir o receio de que as coisas melhorem por aqui e lá se vai o negócio da saúde privada, que segundo uma notável gestora, será o terceiro mais rentável depois da droga e da guerra.
Mas ao lado da desgraça de quem nunca praticou, há uma certa confiança e aprovação dos praticantes. Todos já ouvimos alguém falar da excelência de atendimento nos serviços públicos, da simpatia e competência dos seus vários profissionais. Mas isso só está ao alcance de quem pratica, o que não é o caso da maioria dos palradores. Por outro lado, não há informação validada sobre o que se passa na presumida excelência dos cuidados privados, cujos créditos se manifestam logo que se lá entra pela exigência de apresentação dos respetivos cartões… de crédito.
Como experiência pessoal, testemunho que das vezes que recorri aos serviços públicos, fui atendido e tratado com toda a amabilidade e eficiência. Acaba-se vivo.
A experiência que tive num hospital privado foi de aluguer de instalações para uma intervenção delicada, isto é, toda a equipa médica deslocou-se de Santa Maria para lá executar o procedimento. Beneficiário da ADSE (devo fazer parte do terço de portugueses que se considera ter um seguro de saúde) quis saber quanto me iria custar o procedimento, alguns meses antes. Criada uma expectativa de pouco mais de uma dezena de milhar de euros, perante a minha insistência em ter uma estimativa rigorosa, fui procurando uma resposta definitiva que só veio dois dias antes de marcada a intervenção e inflacionada para o quádruplo da conversa inicial. Nesta coisa da saúde, não há tempo para pedir mais orçamentos a outras entidades e, quando é possível, avança-se e o pagamento é feito, não como nas oficinas de automóveis quando se vai buscar viatura, mas à cabeça (devem ter medo de causarem uma avaria definitiva e já não haver quem pague a conta…) Acontece que o tal seguro que tenho acabou por só comparticipar cerca 10% dos custos. Neste sistema acaba-se quase ou mesmo falido.
Fica o registo, como aviso, para os ansiosos do Sistema Nacional de Saúde. Todo o cuidado é pouco e tudo tem de ser feito na melhor gestão do SERVIÇO Nacional de Saúde para que este nunca acabe. O SNS é a grande manifestação e demonstração prática da liberdade conquistada há quase 50 anos.

terça-feira, janeiro 02, 2024

DESEJOS

Nesta coisa dos desejos e votos de Ano Novo, assim de repente, parece-me que ganha a saúde. A paz também não estará mal classificada e, às vezes, há os mais realistas a falar de dinheiro. Há também uns manhosos e jovens liberais que desejam boas realizações. Suponho que estão a falar de comissões e coisas do género, ou seja, de mais uns pontos percentuais de aumento na folha de Excel. São os que querem subir sempre, todos os anos, a gerar valor para o acionista. De tanto subirem, os pés vão descolar um dia do chão e o risco de queda séria é real. Curiosamente, o antigo desejo de prosperidade está quase desaparecido. Será que isso traduz o conformismo com a crise permanente? As expectativas andam por baixo. Mas o mais estranho e inquietante é a quase ausência do Amor nos desejos. Se pensarmos que não é um bem tão universalmente distribuído, fica-se a pensar que a omissão possa traduzir desilusão e desistência.

Para a sobrevivência é necessária a paz e a saúde, na vida muito mais do que isso. Voemos.

segunda-feira, janeiro 01, 2024

VOTOS DE ANO NOVO

Quem diz isto, é alguém que dentro de horas passará pela septuagésima vez de um Ano Velho para um Ano Novo. Ao fim de 70 vezes, já dá para perceber que a maior parte do novo será apenas mais do velho e, por isso, não há grandes expectativas de novidades surpreendentes. Afinal as guerras irão continuar, mesmo que acabem algumas e surjam novas, a maioria dos companheiros de jornada continuará apenas a sobreviver, mesmo que uns poucos, com mais sorte, possamos continuar a viver, a saúde terá tendência a piorar porque a idade não perdoa, mesmo que transitoriamente possa melhorar e continuaremos a rir, mesmo que choremos algumas vezes. Setenta vezes depois, posso apenas desejar que tenham vontade de celebrar todos os dias novos sem vontade de perder tempo com o passado. Pensar o passado é um exercício inútil, pois não quereremos repetir as coisas más e, mesmo as coisas boas que aconteceram, já passaram e só nos resta fazer outras tão boas ou melhores do que essas. Regressemos ao futuro, porque o passado está morto. No próximo abril terão passado 50 anos em que mudou a vida de quase todos. Que o próximo março, não estrague o que abril abriu. Juntem os vossos aos meus votos e o sol brilhará para todos nós.

Recomeço

A partir de 1 de janeiro 2024, publicarei aqui alguns dos textos também publicados no Facebook.

terça-feira, março 15, 2016

Buenos Aires revisitada nas imagens




































Patagónia em 3 semanas (continuação)

Ushuaia
Ushuaia, a baía a ocidente, começou como necessidade de afirmação territorial e aí criaram os argentinos um presídio para criminosos perigosos. Sair de lá seria coisa quase impossível, pois mesmo que a fuga tivesse êxito imediato, logo surgiriam as condições climatéricas a tornar a sobrevivência impossível. Ushuaia é agora uma cidade de cerca de 80000 habitantes, dispersas em habitações ao longo da encosta até onde a mata ainda consegue resistir ao avanço das casas. Turismo é a grande vocação atual da cidade. Agências dispersas pelas duas ou três primeiras ruas vendem viagens à Reserva Nacional da Terra do Fogo e umas pequenas casinhas junto ao porto vendem viagens pelo canal Beagle. Já trazíamos tudo planeado e conforme o plano assim decorreu. Começámos por ir à Reserva Nacional da Terra do Fogo (os espanhóis quando aqui chegaram viram fumo e como acham que não o há sem fogo, apressaram-se a chamar assim a esta terra). Já nos vamos adaptando a esta maneira de ser argentino, onde a hora de partida é apenas indicativa, sendo sempre depois do anunciado. Desta vez teve um acrescento, a guia atrasou-se e esperámos pela senhora que algum tempo depois lá apareceu cheia de sorrisos. Iniciamos a viagem de comboio, por sítios onde os prisioneiros derrubaram árvores à machadada imaginando nós as condições em que o fizeram. O comboio é uma brincadeira para turista andar ao longo de 7 km dentro da Reserva, vendo-se os cotos das árvores cortadas, cavalos à solta e o resultado do efeito dos castores para aqui transportados por alguém que queria enriquecer com a sua pele e aqui introduziu 2 dúzias dos bichinhos. Esqueceu-se de os acompanhar de predadores que lhe dessem luta e os bichinhos ficaram nas suas sete quintas a reproduzirem-se e a roer árvores e a fazer barragens de barriga cheia. Resultado foram vastas clareiras de árvores mortas e barragens de troncos. Agora fica a noção de uma grande preocupação com tudo o que seja intervenção na natureza. No passeio no parque ainda nos levam a Lapataia, onde termina a Ruta numero 3. Os argentinos parecem ter uma tara pelo número das estradas, mas esta vai desde aqui até ao Alasca por mais de 17000 km. Uma sugestão de uma próxima viagem ...
Depois de mais umas voltas com avistamento de raposas e patos que pescam para dar aos filhos, acabámos a viagem a tempo de uma sandes antes de irmos até ao passeio no canal Beagle com esperança de pinguins, que não apareceram. Tínhamos marcado a viagem até ao farol e os ditos estão mais adiante na Pinguinera da ilha Martilho. Nas ilhotas muitos cormorans que à primeira vista até parecem pinguins (MAS NÃO SÃO!) e leões marinhos, até se chegar ao farol e volver. E pronto, temos um problema para resolver, ou seja, encontrar pinguins.

No dia seguinte também não dá, porque estamos ocupados manhã e tarde numa ida em 4x4 até aos lagos Escondido e Fagnano. Franco é um argentino que nos começa por informar que está nesta vida, depois de um curso de hotelaria, porque não gosta de trabalhar. É um discurso recorrente dos argentinos acharem que os argentinos não gostam de trabalhar. No entanto, a referência na primeira pessoa, só com o Franco. Argentino gosta de consumir, na expressão curiosa da nossa estalajadeira Cristina. O 4x4 começa de mansinho em direção à Serra até um ponto chamado de pico Garibaldi. A partir daqui, de onde a vista é deslumbrante sobre o Lago Escondido, começamos a descer por uma ribanceira de calhaus soltos, mas o off-road ainda não tinha começado. Acabámos numa praia onde existem várias cabanas e um hotel destruídos, resultado de uma parceria público privada que correu mal. Parece que o Estado os deixou falir e a destruição sobreveio. É um pouco mais à frente que a estrada começa a ter sulcos de meio metro e inclinações de mais de 45º, com alguns charcos enlameados que nos é anunciado que a animação vai começar. Com sorrisos por vezes nervosos, avançamos com todo o cuidado graças à perícia do Franco. E andamos, passando mais uma castoreiras até que chegamos à margem do lago Fagnano. Aí como a estrada acabou fomos por dentro do lago… Mais à frente, fomos largados para um curto passeio a pé para abrir o apetite enquanto os motoristas correm pela margem do lago para começarem a preparar o churrasco. Posta argentina bem regada com vinho do país e sobremesa com visão de uma raposa que sabe haver por ali umas patuscadas. Findo o almoço, havia a expectativa de ainda se chagar a horas ao balcão das Aerolineas e mudar para um voo mais tardio que nos permitisse ver de manhã os pinguins. Não, o voo que tínhamos comprado não era suscetível de alteração e, de qualquer forma, mesmo que comprássemos novos voos a coisa era arriscada por haver a possibilidade da viagem aos pinguins ter algum percalço. Assim, passámos a ter o risco de vir à Patagónia e não ver pinguins… É então que a nossa Cristina se lembra que em Punta Arenas há pinguins e nós vamos estar em Puerto Natales a uns escassos 300 km.

 Último dia de Ushuaia para ir às T-shirts de recuerdo e encontrar uns brincos de rosacrossita (a pedra or de rosa que é uma espécie de tara neste país). Ficar depois a apanhar sol junto ao porto sentindo a ida dos barcos que foram à Pinguinera. Fim da manhã para passar a recolher as malas e andar até a aeroporto. Desta vez de táxi, ligeiramente mais barato que com o Carlitos. O voo para Calafate pouco mais de uma hora e meia. Com vistas aéreas da Ushuaia, última espreitadela à terra do fim do mundo e ao lago Fagnano e quase logo a seguir aparecem as Torres del Paine vistas do ar na chegada a Calafate. O aeroporto surge num retângulo no meio da estepe patagónica e fica a cerca de 20 km da cidade. À chegada começamos a sentir alguma diferença de tratamento resultante de estarmos agora utilizar os serviços da argentina4u.com em vez da Viator brasileira. O motorista do transfer começa por nos entregar o programa com os vouchers todos, com todas as horas de nos virem buscar aos diferentes circuitos dos dias seguintes. Ao aproximarmo-nos de Calafate, vemos uma cidade de telhados zincados reluzentes, com casas de cores verdes, amarelas e azuis que abriga normalmente cerca de 20000 habitantes dispersos pela planície. O motorista vai-nos dizendo que é uma terra segura, sem desemprego na época alta, dedicada toda ao turismo durante cerca de oito meses por ano. Bom esquema de vida, oito meses a trabalhar quatro a descansar, o ideal para os argentinos que, já dizia, a Cristina, gostam pouco de trabalhar e gozar o mais possível a vida, não são como os bolivianos ou os chilenos. O Hotel Esplendor é um hotel de 4* no cimo de Calafate, com ótimo aspeto à primeira vista e ótimas vistas. Com olhos menos felizes fica-se depois de subir desde a rua do Libertador com compras na mochila. Mas avista do Lago Argentino compensa algum esforço. Como as jovens louras, lindas por fora, o problema é quando abrem a boca. Aqui o problema é quando o ar condicionado não funciona e os dias vão estando excecionalmente quentes nos 25ºC e a rede de wifi tem crises existenciais e só trabalha quando lhe apetece. Na receção dizem que não há nada a fazer, já está assim há bastante tempo. Logo, tudo bem. Os argentinos têm este sentido de adaptação, aparentemente.

 O primeiro dia em Calafate (é o nome de um fruto, dificilmente encontrado à venda por ser caro) tem por destino o Glaciar Perito Moreno. Pouco depois de mais uma travessia da estepe, com algumas haciendas perdidas no meio da paisagem, onde passeiam vacas e ovelhas e ultrapassadas zonas de árvores varridas pelos ventos, chega-se a um dos destinos mais visitados da região. Pelas passadeiras descemos, sempre com a consciência de quanto mais o fazemos mais logo teremos que subir, até balcões em vários níveis, virados à gigantesca massa de gelo. De repente é como se estivéssemos no meio de uma trovoada sem relâmpagos. De quando em onde um trovão de mais uma massa de gelo que se quebra e começa uma espécie de jogo no olhar para o local onde o gelo cairá no braço dos fragmentos levantando uma onda de chuveiro com vários metros de altura e comprimento. E fica-se neste jogo à procura da próxima rotura. Duas horas de magia antes de ir até mais perto do glaciar de barco, para ver o mesmo espetáculo. Até 200 m da barreira gelada com reflexos azulados passando por pequenos icebergues que correm no lago. Realmente, diferente de tudo. Hoje tinha-nos calhado uma guia farta de guiar. Quando chegámos à cidade a senhora entendeu que deveríamos ficar na rua do Libertador e apanhar um táxi para subirmos até ao Hotel. Valeu o motorista que achou a atitude idiota e nos levou estrada acima. Gorjeta merecida.

 Ao segundo dia de Calafate, o destino é o Fitz Roy… na base em Chaltén. Na estrada, vemos os primeiros guanacos e cicloturistas masoquistas em pleno esforço. Uma primeira pause em La Leona, um café abrigo numa curva da estrada, pausa de buses de turistas e motoqueiros. O telhado vermelho mostra escrito a branco LA LEONA, indicando aos abastecedores que lhes lançavam produtos de avião mais ou menos o local onde deveriam cair. Aqui andaram gringos fugidos à justiça americana, que comparam grandes extensões de terra com a receita do «trabalho» na América do Norte. Mas o ambiente era demasiado calmo para o seu metabolismo aventureiro. Assim, começaram por fazer amizade com os outros fazendeiros e um belo dia, decidiram voltar à vida. Foram até Rio Gallegos e começaram por fazer corridas a cavalo pelas ruas da cidade dando tiros para o ar, habituando os habitantes ao espetáculo insólito de gringos loucos. Um dia foram ao Banco local para abrir uma conta e, «mudando de ideias», saíram, logo depois, levantando todo o dinheiro que lá havia. Saíram depois do banco aos tiros dando o espetáculo habitual sem levantar suspeitas até que o alarme foi dado finalmente, demasiado tarde, já eles iam bastante longe da cidade. Os amigos que tinham feito aqui e além permitiram que tivessem oportunidade de mudar de montadas para outros cavalos mais frescos que os levassem para cada vez mais longe dos perseguidores. Reza a lenda que acabaram mortos num tiroteio na Bolívia, uma versão mais heroica que outra que os deu como tendo sido apanhados e presos. Depois da história e do café para nos despertar, continuámos viagem até Chaltén, uma base de montanha para caminheiros de todos os lugares e ponto de observação da elevação Fitz Roy (nome do comandante do navio Beagle que até aqui trouxe noutra altura o senhor Darwin). Escarpada na vertical desafiando montanhistas de muitos lugares ou simplesmente caminheiros por trilhos de montanha. Além das hostais para repouso ao fim do dia, há lojas que vendem e alugam todo o material de atividades e viagens por ali. Fomos de seguida almoçar numa clareira onde contruíram um campo ecológico, um conjunto de casas de madeira, com vista para as agulhas do Fitz Roy. Sopa de legumes, naco de carne e pudim flã retemperaram para a atividade seguinte no lago Viedma. Mais um passeio de barco de uma das pontas do lago até ao glaciar do mesmo nome, contornando mais uns icebergs pelo caminho. Começa a ficar uma atividade meio monótona, apesar de sempre variada, olhando blocos de formas onde nos projetamos nas formas que lá vemos. Chegamos a Calafate pelo fim da tarde depois de mais uns quantos guanacos pelo caminho. No céu, algumas nuvens patagónicas avermelhadas com forma de pincelada de cores quentes num quadro que nunca antes vi, possivelmente desenhadas por correntes de vento que as moldam.

Terceiro dia nesta cidade sendo o programa de hoje o passeio pelos Rios de Hielo. Pelo Braço Norte, vai-se até ao maior glaciar da região o Upsalla, estudado por cientistas suecos, contornando novos icebergs, estes um pouco maiores e mais logo acaba-se passando pelo glaciar Spegazinni, o mais alto de todos. Há sempre algo que distingue dos outros, ou mais altos ou mais largos ou maiores em massa de gelo. É assim, que se quebra a monotonia e se constrói a felicidade das pessoas, sempre a quererem as diferenças e especificidades e não um destino comum. Natureza humana, sempre uma realidade insondável. Passear é também contactar com as comidas da região e hoje foi a altura de saborearmos o cordeiro patagonico. Um bicho que é assado lentamente, como se fosse um frango, numa grelha disposta verticalmente sobre brasas. Saiu crocante e ligeiramente salgado, mas está aprovado sem dúvida.

 Turista sofre e hoje foi levantar antes do sol nascer para sair às 5 e meia da manhã com um vasto percurso a fazer. No fim da colheita dos companheiros de viagem pelos hotéis, já o sol começava a aparecer encarniçando as nuvens no horizonte. Começava a viagem de Calafate à fronteira com o Chile em Passo Guillermo ao fim de cerca de 4 horas de viagem. A fronteira é um barracão que surge depois de muita estepe patagónica, onde um jovem funcionário aparentemente ensonado, vai olhando passaportes e aplicando um carimbo. Cá fora, destaca-se um mastro com uma bandeira argentina esfarrapada pelo vento, uma fila de carros à espera dos carimbos e a romaria dos turistas a irem a um bidão deixar os restos de fruta que transportavam e que não podem ir poluir o Chile. Posto isto, algumas centenas de metros mais à frente, surge o lado chileno com instalações mais dignas, maior número de funcionários, que além dos carimbos nos vigiam as bagagens aparentemente também à procura de fruta e outras substâncias que nos responsabilizámos por escrito a não transportar. Ao lado do posto fronteiriço, um café-loja, com ar de saloon do faroeste, onde há artesanato para turista, alguns comes e um balcão de cambio, que convém, obviamente evitar, pois a troca é a mais desvantajosa que é possível fazer-se dada a situação de monopólio em que trabalha. E entra em campo, um guia chileno, tipo bem disposto, com vontade de promover as características de organização do seu país. Começa a ver-se nos cartazes e nos contactos que se têm esta ideia de que chegámos a uma terra diferente onde as pessoas valorizam o trabalho e alguma construção coletiva. Depois dizem-nos que há corrupção, que o poder é distribuído entre os amigos de quem o detém, mas, enfim, isso também não é nada de novo nem exclusivo. O dia está propício e raro segundo nos informa para a nossa viagem às Torres del Paine, ou montanhas azuis, ao longo da nossa viagem que hoje consistirá num circuito de cerca de 170 km à volta do maciço, com vários planos de observação. Lá dentro das montanhas há centenas de caminheiros aos Ws numa infinitude de trilhos. A primeira paragem é nas margens do lago Sarmiento, para umas primeiras fotografias das torres ao longe e do lago de águas azuis. Depois, mais ao perto, no Lago Amargo e pelo caminho vão surgindo guanacos e avestruzes e também um engarrafamento de trânsito por centenas de ovelhas pastoreadas por aqui. Em cada momento, há imagens que apetecem. Mais perto da hora de almoço chegamos a uma estalagem na margem do lago Pehoé, mais uma conceção a algum amigo do poder. O lago é vasto e à Hosteria acede-se por uma ponte que se percorre a pé, observando ao longe as montanhas que sempre nos vão agarrando o olhar desde que partimos da fronteira já faz umas horas. Gravar o mais possível em fotografias, que a memória sempre é curta e é preciso mais tarde recordar. Refrescados pela cerveja, sob calor inesperado, vamos regressar ao ponto de partida junto à fronteira antes de seguirmos rumo a Puerto Natales. Cinquenta e poucos quilómetros depois, surge-nos uma terra, aparentemente de pescadores, a dar-nos as boas vindas com esculturas de rua com ar mitológico, evocativas do Milodon. O Hotel Muelle Boutique é um pequeno edifício junto ao porto comercial, com ar de cais de atracagem e, por dentro, todo decorado em madeira de pinho. Já tínhamos experimentado a eficiência da receção com inúmeros mails enviados e prontamente recebidas as respostas nos últimos dias, na busca desesperada de pinguins. Esta era a terra onde tínhamos reservado, a confirmar, uma visita a mais um ou dois glaciares e tínhamos deixado um dia livre para a hipótese de a primeira tentativa das Torres del Paine ter corrido mal. Como tínhamos tido um bom dia na véspera, estávamos com um dia livre.

 Puerto Natales são uns poucos quarteirões desenhados em quadrícula limitados por uma estrada marginal tudo facilmente percorrido a pé. No meio uma praça com uma igreja, alguns bancos e um parque com bancos de madeira sugerindo barcos e miúdos pedalando em triciclos disfarçados de carros. As hipóteses dos pinguins eram duas: uma agência (Condor turismo) que fazia a viagem a partir de Puerto Natales, sendo os pinguins em Punta Arenas ou irmos até Punta Arenas de alguma maneira e amanharmos lá o ferry que leva até à Ilha Magdalena. Ainda assim começámos por ir confirmar a ida aos glaciares Balmaceda e Serrano que tínhamos marcado para o dia seguinte. Fica resolvida a viagem para esse dia com ideia de votarmos pelas seis e, depois, logo se marcariam os pinguins. Nesta altura as lojas fecham às 9-10 da noite e o sol põe-se por aí também. Mas fomos apalpar o terreno junto da tal Turismo Condor para marcar a viagem para o dia que tínhamos livre. Ao fim de algum tempo de pesquisa, localizámos a «agência» no vão de escada de uma loja. Somos gentilmente atendidos por um jovem de ar apiratado, lenço na cabeça atado atrás, que nos põe à vontade. Eles realmente fazem a viagem por 75000 pesos, mas talvez nos conviesse mais irmos à empresa de camionagem Bus Fernadez e irmos com eles por 13000 pesos mais 40000 para visitar a ilha… Ok, apesar de apiratado, o homem foi honesto, mas ainda bem que a viagem de autocarro não foi possível, porque ia-me custar muito fazer passar o VISA na máquina deste senhor… Restava pensar em alugar um carro e ir até Punta Arenas. Mas já era noite, as agências de aluguer estavam fechadas e via Net não havia carros para alugar. Os pinguins começavam a ficar cada vez mais distantes. Logo se veria, o melhor para já era desfutar da viagem no dia seguinte até aos glaciares e tentar marcar para dois dias depois o aluguer do carro. Ao fim de todos estes dias, o dia começou francamente nublado a prometer chuva. Chegados ao cais pelas 7 e meia da manhã, já chovia, quando entrámos no barco da Agunsa. Sentados nos lugares previamente marcados, que os chilenos são gente muito organizada, iniciámos a viagem rio acima até que, continuando a chover e ainda não era passada meia hora, nos informam que o motor estava avariado e teríamos de regressar a Puerto Natales. Nunca tinha ficado tão contente com a suspensão de uma viagem. Agora era só ir à agência reaver o dinheiro da viagem e tentar alugar um carro. Na primeira agência as coisas correram mal porque não havia carros disponíveis, mas lá me indicaram outra dois quarteirões ao lado. Na Amerindia, havia um Chevrolet todo empoeirado com mais de 100000 km, mas em ótimas condições com exceção de uma rachadela na carroceria por baixo do farol de nevoeiro do lado direito. Neste caso, era o melhor carro do mundo. Finalmente, tínhamos encontrado pinguins na Patagónia. Quase. Faltava marcar o ferry que ia aos pinguins a partir de Punta Arenas. Uns quarteirões ao lado, encontrámos a agência COMAPA, que vendia as tais viagens. Patrícia, mais uma chilena com ar bem eficiente, telefona para Punta Arenas e uns segundos depois respiramos aliviados: pinguins à vista. Eram 11 da manhã, estávamos a 300 km de Punta Arenas, faltava só fazer a Ruta 9, que avança pela estepe abaixo rumo ao sul com alguns guanacos na beira da estrada e muito vento, mesmo muito que dificultava ir a mais de 100 km/h. Tínhamos uma hora de margem… sem almoço. O vento era tanto, que perto de duzentos kms depois havia um monumento ao vento e uma ilustração menos artística de um camião virado na beira da estrada. Chegados à referência do barco negro, estaríamos no cais. E o barco negro, que nos evocou na memória o bairro negro, lá acabou por chegar eram pouco mais de 2 da tarde. E os pinguins cada vez mais perto. Faltava o barco. Devia chegar às 2 e meia, mas só pelas 3 e meia começou a aparecer um ponto no horizonte… Chegou finalmente e aí houve uma correria de mais de 200 pessoas à abordagem. Até parece que nunca tinham visto pinguins! A travessia demora duas horas sem vestígio de golfinhos, que ocasionalmente surgem a acompanhar estas viagens. Chegados finalmente à ilha dos senhores de casaca, iniciamos a trilha e ouvimos os cantares dos bichinhos, vemos as crias maiores que os pais de penugem mais acastanhada, ouvimos os cantares ao desafio de alguns deles e avistamos ao longe o farol da ilha. Há ainda corvos marinhos e gaivotas no fim da tarde, com o sol a descer no horizonte, mas ainda alto, porque estamos no verão. Durante uma hora assistimos à vida dos pinguins da ilha Magdalena que brincam, caminham, cantam e quase sorriem intrigados com tantas câmaras que sobre eles disparam sem flash e sem tripé, que isso é proibido. Uma hora bastante rápida, porque o espetáculo apetece. Mas não há encore. Terminada a hora, é preciso regressar que ninguém pode ficar na ilha. Regressados ao ferry, são mais duas horas de viagem em que uns dormem, outros revêm os registos dos pinguins e das selfies nos visores das câmaras. O mar estava agora mais agitado, mas duas horas depois, de novo em terra. Faltavam só mais três horas de viagem de carro. Quase ao por do sol, ainda andámos quase 180 km com luz do dia e o resto já às escuras com avistamentos de coelhos, raposas e lembranças de guanacos que por aí andaram durante o dia. Será que dormem à noite. E, de repente, um estrondo que me fez ver, claramente, algo a bater por baixo do farol direito do carro. Na mesma altura, caía o powerbank no chão do carro. Não valia a pena parar. Lo que sera, sera. O barulho seria do embate num bicho ou da queda do powerbank no chão do carro? As perceções são visões que às vezes nos enganam mesmo. Chegados a Puerto Natales não havia grande mossa. A carroceria continuava estalada por baixo do farolim direito. Tinha sido só a queda do powerbank e eu ando com visões desencadeadas por estímulos sonoros. Passadas dez horas de viagem, tínhamos tido a nossa hora de pinguins e tudo estava bem quando assim acaba. Vimos pinguins na Patagónia!

 Conseguido um early chek-out do carro às 6 e meia da manhã, no dia seguinte lá fomos ao glaciar de Balmaceda e Serrano, mas no barco da COMAPA (que entretanto nos tinha informado que era habitual o barco da concorrência avariar por ser demasiado frágil para fazer a viagem). Rio acima passamos várias ilhotas e vamos vendo cerros altos ao longe nas margens. Num dos ilhéus há corvos marinhos na margem ainda se acvista uma queda de água que vem lá das alturas esfumando-se quase sobre o barco. Ao fim de 3 horas de navegação avistamos o glaciar de Balmaceda escorrendo pelo vale nos habituais tons de branco e azul. Um pouco mais ao lado, descemos para andar um pouco no parque natural e chegarmos ao glaciar Serrano que acaba num lago onde flutuam nacos de gelo ou pequenos icebergues. Um caminho pela margem do lago leva até à origem do glaciar, com boas vistas sobre os gelos que flutuam no lago, onde são possíveis visões de patos e outras formas. Já no regresso, servem-nos whisky com gelo do glaciar, gelo sem o aspeto compacto do que sai dos frigoríficos, mas poroso. Não é do gelo certamente, mas assim caído na fraqueza algo nos dá algum sono na aproximação do almoço. Valeu a conversa com parceiros de viagem chilenos, de Santiago, ambos psiquiatras. Elogio das viagens e da vida simples, que para a complicar há por aí muito quem. Ficam combinados os contactos para quando visitarmos os respetivos países. Ele até já tinha estado em Lisboa e feito os percursos que os turistas todos fazem. O almoço foi numa quinta, para provarmos mais um cordeiro patagónico, não tão satisfatório quanto o de Calafate. É como no leitão, o bom é a pele tostada e este tinha pouco disso. Primeira prova de vinho argentino, que cumpre sem espantar. Segue-se o habitual fim de viagem onde se dormita e espera a chegada ao porto. Depois da chegada, faltava ainda comprar os bilhetes do autocarro para nos levar no dia seguinte para o aeroporto de Punta Arenas. Marcado para partir às 11 íamos, finalmente, poder acordar ligeiramente mais tarde. Faltava apenas o safari fotográfico do fim de tarde em Punta Arenas com o velho molhe e o pôr do sol nas montanhas do outro lado do lago.

 O terminal de autocarros localiza-se na periferia da cidade. Chegamos de táxi que aqui têm uma tarifa fixa de 1300 pesos. Lá se encontram várias companhias de transportes, cada uma com destinos mais ou menos fixos, sem aparente grande concorrência entre si. Ainda assim os preços são razoáveis e o serviço é certinho com lugares marcados e partida e chegada a horas. Voo ao fim da tarde para Puerto Montt, onde chegamos sempre dentro dos horários e nos espera o motorista combinado com o hotel. Óscar é um taxista conversador que tem pena de não passarmos um dia mais em Puerto Varas para onde nos leva, pois poderíamos ir ao vulcão ou mesmo à Ilha Chilué. Terá de ser para uma próxima, que desta vez não tínhamos programado tal coisa. Vinte e cinco quilómetros depois estávamos a chegar ao Hotel Raddison, mesmo à beira lago… e do Casino. A terra estava em festa, com espetáculo musical na rua e eleição de reis locais, mas não de Carnaval aparentemente. A paisagem lembra terras de Europa Central e a bebida local parece ser a cerveja, pelo número de beerhouses à maneira da terra da senhora Merkel. Terra pequena, na ordem dos 20 e tal mil habitantes, agora cheia de turistas. O Raddison com quarto com vista sobre o lago, foi um pouso particularmente bem escolhido para uma noite de descanso antes de iniciarmos no dia seguinte a travessia dos Andes. Pelas oito da manhã, depois de apreciarmos o nascer do sol sobre o lago, com vulcão do outro lado, ao fundo, partimos de autocarro para a primeira etapa da travessia dos lagos andinos por entre vulcões à esquerda (Osorno) e à direita (Calbuco) sendo que este ainda o ano passado tinha estado ativo, lançando lava fina e pó sobre a região onde passamos de tal forma que a travessia esteve bloqueada quase 3 semanas. A fumarada terá subido aos 15000 m de altitude antes de se espalhar na região. A primeira paragem é nas quedas de água de Petrohué, uma espécie de Pulo do Lobo, com um estreito entre basalto e quedas de água, únicas no mundo, claro. Prossegue a viagem até ao cais um pouco mais à frente onde se apanha o catamaran que nos leva pelo lago de Todos os Santos com vista de ilhas e mais montanhas altas mais ou menos despidas no cimo e com formas mais ou menos aguçadas (monte Ponteagudo, Tronador e Ososrno). A habitual capa branca até meio do Osorno é agora uma memória fotográfica. O aquecimento tem vindo a mostrar a terra que estava por baixo e isso é uma manifesta preocupação para os chilenos de aqui. Pela hora do almoço chega-se à Ilha Peulla (Peuja, dizem e quer dizer finalmente a Primavera! Numa celebração de fim do tempo rigoroso). A família Roth aqui se estabeleceu nos anos primeiros do século XX e criou uma fazendo que agora é o Hotel Natura, uma construção de madeira co disponibilidade de alojamento para uma noite durante a travessia (que agora também se pode fazer num único dia com mais algum cansaço). Tínhamos optado pela versão mais tranquila pelo que podemos, após o almoço no hotel, servido em aflição pelos empregados que de repente se viram invadidos por uma pequena multidão de uns 300 turistas, fazer de tarde um pequeno passeio pela propriedade, que inclui uma visita a um pequeno jardim zoológico de fauna mais ou menos exótica, atravessarmos numa correria patética o rio com direito a banho dentro do camião feito 4x4, conduzidos pelo «melhor (e por acaso o único) condutor de todo o terreno da ilha» até chegarmos a uma jangada que nos leva a um local de meditação na audição do silêncio só perturbada pelos meus ataques de tosse. À volta mais correria sobre as águas do rio e nova molha. Saída e entrada na clandestinidade pela fronteira chilena situada logo à saída do Hotel Natura Patagonia. As formalidades de registo de saída ficarão para o dia seguinte. Pelas 10 da manhã inicia-se de combibus, a travessia da cordilheira, depois da cerimónia do carimbo no passaporte na fronteira chilena e entrada na terra de ninguém. Ladeamos o rio durante algum tempo e iniciamos a subida na cordilheira de floresta densa numa estrada estreita de sentido único, graças às comunicações, via rádio, com eventuais condutores em sentido contrário, vindos da Argentina. Avistamos, junto a um posto de carabineiros, o Monte Tronador com direito a descer e ir aliviar bexiga no posto dos militares, antes de continuarmos a subir a cordilheira até 976 m acima do nível do mar por uma estrada de macadame com curvas à maneira dos Alpes (ou dos Andes). A seguir desce-se até Puerto Frias e de novo num barco navega-se no Lago Frias até porto Blest, onde nos espera um almoço breve ou a opção de subir 700 degraus. Mais sensato ficar quieto a ver o lago que se segue, o Nahuel Huapi até chegar depois a Puerto Pañuelo, fim das viagens pelos lagos e com o espetáculo de gaivotas a comer bolachas nas pontas dos dedos dos passageiros. Tudo para a fotografia. Já ninguém atenta na paisagem embrenhados que estão no picar das gaivotas. A última etapa da travessia até Bariloche é feita outra vez de autocarro por uma estrada ladeada de chalés suíços. Bariloche foi em tempos uma pequena cidade de 5000 pessoas e terá agora 150000 habitantes permanentes que se expandem até mais de 300000 nestes meses de verão. Dispõe-se pela colina em alinhamentos de ruas mais ou menos paralelas, sendo as duas principais vizinhas do Hotel Kenton Palace onde iremos estar as próximas três noites. À chegada constatamos os maus tratos de uma das malas que ficou descosida numa das pontas e isso deu-nos motivo para irmos à procura de linha e uma agulha. A agulha foi encontrada num empréstimo de uma artesã numa loja da rua abaixo do hotel, a linha mais adiante no Carrefour depois de passados seis quarteirões. Ao fim de três semanas quase já havia algumas saudades de uma grande superfície. Lá se encontrou a linha. Estava constituído o kit que permitiria remendar a mala para as etapas finais. No caminho para casa deparamos com um restaurante suíço da família Weiss, onde se come depois de uma espera longa, servido por funcionários mascarados de suíços. No andar de cima dança-se o tango. Restaurante de fusão, portanto. Deitamo-nos na incerteza do horário do tour do dia seguinte. Oito ou nove horas para a saída, dependia das fontes disponibilizadas pela argentina4u.

 O dia de hoje anunciava-se longo e começou às oito e meia, uma solução de compromisso entre as informações que tínhamos. O guia, outro Óscar, é desta vez um argentino na sexta década de vida, homem de muitas atividades prévias como se apresenta, antigo motorista, agora freelancer da condução a passear turistas pelos sete lagos à volta de Bariloche a que ele acrescente mais alguns a caminho de San Martin de Los Andes expectativa algo frustada de uma cidade mais encantadora do que realmente se revelou ser. Pelo caminho vai-se parando junto aos lagos, com cenários sempre semelhantes, que Óscar se disponibiliza a identificar posteriormente se lhe enviarmos as fotos. Como diz têm sempre três zonas, água, terra e céu. Com este entusiasmo vai-nos desvendando a paisagem. A meio da manhã passamos na vila de Angostura com uma rua central incluída na Ruta 40, ladeada de áreas de comércio para turistas. Pois a verdadeira ruta 40, mais interior, aqui se divide em 3 que mais a sul se reencontrarão e para que nenhuma se sinta prejudicada todas 3, são chamadas de 40. Faz-se então um desvio que nos leva a uma casa de férias da argentina agora rainha da Holanda, com vista sobre o lago e depois até Baía Mansa de onde se pode aceder ao Bosque dos Arrayanas (mas este fica para amanhã), que hoje a rota continua até San Martin de Los Andes que atingimos pela hora do almoço no restaurante La Barra à entrada para mais chouriço e cordero assado que nos encurtou a visita à terra em cerca de 1 hora, das duas de que dispúnhamos. Nada de grave, que a vastidão da terra não é assim tão grande. A municipalidade, a Igreja de São José do outro lado da rua e uma praça com estátua equestre à volta da qual se dispõem artesãos em tendas. As casas continuam a ser do padrão do eixo suiça-alemanha-austria numa habitual quadrícula, mais certa do que em Bariloche e mais contidas na altura. Harmoniosa, sem nada de especial. Subitamente começou a instalar-se um vento que desencadeia nuvens de poeira na cidade e convida a uma saída sem mais demoras, até porque mais nada havia para fazer ali. Toma-se então uma rua sem asfalto que leva a uma casa de chá e lá mais para cima é possível ter uma visão de condor da cidade e do lago adjacente. As nuvens ficam cada vez mais cinzentas como já Oscar nos tinha dito que iria acontecer, porque na passagem pelo Tronador de manhã se avistava um nuvem atrás do monte e sempre que assim era, o tempo ia mudar. Conhecimento empírico que confirmava o que já sabíamos da visão do weather channel. São as fontes de ontem e de hoje. Mas tudo estava tranquilo ou não fosse a aplicação ter-nos já dito na véspera que para o fim da tarde em Bariloche voltaria o sol sem nuvens. E assim foi, para uma visão ao cair da tarde da praça central de Bariloche, com recordações desenhadas de desaparecidos na história recente da argentina e espetáculos de artistas de rua frente à câmara local.

 O tempo passou depressa e chegamos ao último dia da viagem em que vamos visitar o lago Vitória e o Bosque dos Arrayanes. Começa-se por percorrer em sentido inverso a estrada já conhecida até Porto Pañuelo, onde se apanha o barco Cau Cau (gaivota grande em mapuxe primitivo), que nos leva, depois de mais um show frenético gaivotas comer bolachas nas pontas dos turista até à extremidade da península de Angostura onde está localizado o Bosque que é a maior concentração destas árvores de cor acastanhada, de troncos descamados como os seu primos eucaliptos, que lhes dão um aspeto invulgarmente fotogénico, onde não ficariam mal uns bâmbis aos pulos. Houve quem visse uma raposa avermelhada, que até as há por lá afinal. Passada meia hora da visita, continua-se até à Ilha Vitória, onde teremos um período maior de relaxamento de 4 horas. Aqui está incluída uma visita guiada às árvores oriundas de vários continentes e que no passado aí foram colocadas em experiências de colonos primitivos em busca de criação de madeiras de qualidade. As experiências nem sempre tiveram bons resultados, porque estas coisas não gostam de grandes variações e experiências e têm equilíbrios instáveis que deverão ser respeitados se houver vontade de evitar desastres ecológicos. Está-se bem na contemplação do lago entre o silêncio do Bosque Diria que é o final de viagem tranquilo que constitui um verdadeiro final feliz da experiência patagónica. Tranqüilo também o jantar escolhido no restaurante Alto El Fuego, recomendado pelo Trip Adviser como dos melhores sítios de Parrilha de Bariloche. Sítio simpático, empregados eficientes e gente jovem a encher a casa. Para mais, o olho de boi tinha 500 gramas e dava bem para dois, o que torna o preço francamente acessível para a experiência.

 Dia final para viagem de volta a Buenos Aires e daí até Lisboa via Madrid. Um tempo longo, onde se terminam estas notas ditadas pela memória ainda recente. Três semanas transformaram a Patagónia de um sonho imaginado numa realidade palpável e conhecida. Num clima de verão fantástico e pouco habitual ao que nos contam, com dias de luz muito duradoura. Há uma outra lá mais para o inverno, onde a neve e o gelo revelam outra realidade que alimenta a nossa imaginação de outros sonhos. Será que voltaremos? Era mais certo se tivéssemos comido o calafate, conforme reza a lenda, mas ainda assim, nunca se sabe. Para já fica também a ideia de uma Argentina de argentinos gaúchos e indomáveis na sua vontade de viver e de chilenos mais austeros e organizados, mais colados às realidades terrenas, sem os dramas do tango e com sonoridades agudas, puras e frescas de flautas andinas com tanto mar a chamá-los. Fim de viagem em que novas realidades se desenham nos sonhos da Ilha da Páscoa e deserto de Atacama com eventuais extensões à Bolívia e ao Perú ou mesmo à imensidão da Amazónia.

(Publicado agora, mas escrito no regresso a Lisboa)