Há quinze dias que não sai de casa para o seu passeio habitual que incluia a visita obrigatória a algumas capelinhas de sua devoção. Um acidente isquémico desequilibrou-lhe a diabetes e atirou-o para o hospital.
Observação do dia:
-Como se chama?
-Augusto.
-Onde mora?
-Em casa.
-E que casa é esta, senhor Augusto?
-Um hospital.
-Como se chama este hospital?
-Hospital de São Cruel.
Parafasia ou lucidez, eis a questão.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
terça-feira, dezembro 18, 2007
Separar as águas
A vozinha melodiosa do marketing alerta-nos para os riscos de, no futuro, podermos vir a sentar-nos em meia cadeira, assistirmos só à primeira parte do filme, termos, enfim, só meia vida. É a meia reforma anunciada. Se quisermos a vida inteira, teremos de a entregar às companhias de seguros e desde novinhos.
Nos hospitais, há também em curso uma espécie de meia reforma. O Ministro CC tem sido mal criticado pelas medidas acertadas que tem tomado, mas pouco se deve importar, porque enquanto barafustam contra o registo electrónico do ponto, o fecho das maternidades e dos serviços de urgência (medidas acertadas!), o fundamental vai passando alegremente. E o fundamental deste Ministro reformador, aquilo que a História irá registar do seu período, é o desenvolvimento crescente de um sistema de saúde cada vez menos serviço público e mais sistema privado, ou seja o começo do fim do Serviço Nacional de Saúde e o desenvolvimento do Negócio da Saúde. Não estaremos muito longe do anúncio em que nos avisarão dos riscos de meias cirurgias, meios internamentos, meia saúde, se não fizermos o tal seguro salvador da outra metade da saúde. (Metade é apenas um número, que pode muito bem aumentar até limites insondáveis). É neste contexto, que me parece «coerente» a ideia que por aí anda de que ele vai dar «um prémio» aos médicos, permitindo-lhes reduzir o seu horário de trabalho a 20 horas por semana. Sob o ponto de vista da despesa do ministério nada mais acertado, vai reduzir de forma substancial os gastos e, para cúmulo, os doutores até vão ficar contentes por terem mais tempo para irem ganhar dinheiro noutros lados. Bingo!
Só que, num contexto em que a procura aumenta, a empresa (Serviços de Saúde) que o Professor CC dirige toma a decisão de reduzir a oferta! Estranha estratégia esta. Quando se anuncia a possibilidade de aumentar as vendas, a gerência dispensa os vendedores. Para quê? Não acreditando que o seu objectivo seja deixar sem cuidados a população, resta a hipótese de ser essa uma forma que encontrou de libertar mão de obra para os novos patrões privados, o que pressupõe, é claro, a transferência dos cuidados dos doentes para os serviços de quem tanto tem andado a investir. Os mesmos Mellos, Espíritos Santos e Cia de sempre. Assim se assegura também o negócio. Mas não seria mais certo e mais sério, profissionalizar o sector público com envolvimento dos seus médicos a tempo inteiro, aumentando a produção, criando um Sistema de concorrência em que se acabasse de vez com a promiscuidade?
A opção em curso vai desresponsabilizar de forma progressiva o Estado dos cuidados de saúde, que até pagará numa primeira fase nos privados, mas depois, as coisas mudarão e chegaremos ao dia em que serão os doentes a pagar o restabelecimento da sua saúde e é se quiserem. É o princípio do utilizador pagador trazido para um campo onde o acho inaceitável em nome de princípios de solidariedade de que não deveríamos abdicar.
Nos hospitais, há também em curso uma espécie de meia reforma. O Ministro CC tem sido mal criticado pelas medidas acertadas que tem tomado, mas pouco se deve importar, porque enquanto barafustam contra o registo electrónico do ponto, o fecho das maternidades e dos serviços de urgência (medidas acertadas!), o fundamental vai passando alegremente. E o fundamental deste Ministro reformador, aquilo que a História irá registar do seu período, é o desenvolvimento crescente de um sistema de saúde cada vez menos serviço público e mais sistema privado, ou seja o começo do fim do Serviço Nacional de Saúde e o desenvolvimento do Negócio da Saúde. Não estaremos muito longe do anúncio em que nos avisarão dos riscos de meias cirurgias, meios internamentos, meia saúde, se não fizermos o tal seguro salvador da outra metade da saúde. (Metade é apenas um número, que pode muito bem aumentar até limites insondáveis). É neste contexto, que me parece «coerente» a ideia que por aí anda de que ele vai dar «um prémio» aos médicos, permitindo-lhes reduzir o seu horário de trabalho a 20 horas por semana. Sob o ponto de vista da despesa do ministério nada mais acertado, vai reduzir de forma substancial os gastos e, para cúmulo, os doutores até vão ficar contentes por terem mais tempo para irem ganhar dinheiro noutros lados. Bingo!
Só que, num contexto em que a procura aumenta, a empresa (Serviços de Saúde) que o Professor CC dirige toma a decisão de reduzir a oferta! Estranha estratégia esta. Quando se anuncia a possibilidade de aumentar as vendas, a gerência dispensa os vendedores. Para quê? Não acreditando que o seu objectivo seja deixar sem cuidados a população, resta a hipótese de ser essa uma forma que encontrou de libertar mão de obra para os novos patrões privados, o que pressupõe, é claro, a transferência dos cuidados dos doentes para os serviços de quem tanto tem andado a investir. Os mesmos Mellos, Espíritos Santos e Cia de sempre. Assim se assegura também o negócio. Mas não seria mais certo e mais sério, profissionalizar o sector público com envolvimento dos seus médicos a tempo inteiro, aumentando a produção, criando um Sistema de concorrência em que se acabasse de vez com a promiscuidade?
A opção em curso vai desresponsabilizar de forma progressiva o Estado dos cuidados de saúde, que até pagará numa primeira fase nos privados, mas depois, as coisas mudarão e chegaremos ao dia em que serão os doentes a pagar o restabelecimento da sua saúde e é se quiserem. É o princípio do utilizador pagador trazido para um campo onde o acho inaceitável em nome de princípios de solidariedade de que não deveríamos abdicar.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Espera
Consegui transmitir algum conhecimento, mas muito mais difícil que transmitir a ciência, é transmitir as maneiras, as atitudes, numa altura em que deixaram, em certa medida, de ser necessárias a quem as deve usar, porque pressupõem o abismo a todo o momento. Na falta da velha cultura, têm uma de suicidários, vivendo de crédito (mal parado, necessariamente) e sem qualquer esperança no futuro, tendo apenas por bússola o instante em que estão a sobreviver.
Por isso espero, quando nunca fiz esperar. Eu tinha esperança no futuro, eles nem por isso.
Por isso espero, quando nunca fiz esperar. Eu tinha esperança no futuro, eles nem por isso.
sábado, dezembro 15, 2007
Agradecimento
É bom sentir, passados 53 anos, que a surpresa ainda é das melhores coisas que nos podem acontecer. Nem de propósito, poder experimentar isto, neste clima das normas onde se pretende tudo prever e matar a surpresa. A vidinha toda programada, sem êxtases nem sobressaltos, não obrigado! Pode ser que isso facilite a administração do sistema, a geração do valor e o diabo que os carregue, mas tira a graça toda a esta coisa efémera do passar por aqui.
Obrigado por me surpreenderem!
Obrigado por me surpreenderem!
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Normas
Repetem-me, até à exaustão, nestas aulas que qualidade é satisfação do cliente. Curiosamente, pouco se pergunta ao cliente como quer ser satisfeito. Em vez disso, alguém disfarçado de deus vai estabelecendo normas (vendidas a peso de ouro), que um exército de auditores irão depois verificar e declarar a conformidade das acções. Assim se assegura a segurança e a qualidade, se criam manuais de procedimentos volumosos para autómatos executarem a voz de Deus. Aos poucos, por esta via, deixaremos de comer pataniscas, beberemos o café em copos de plástico, proibem-nos os produtos da horta, vai-se o queijo da serra e, ainda acabamos todos a cantar o hino de mão no peito como oração da manhã. Toda a autenticidade da diferença desaparecerá numa imposição eugénica que fará Hitler parecer um anjo. Por este caminho, em vez de uma vida, temos um dia-a-dia de morte certa e segura de acordo com a Norma. É para isso que andamos aqui? Qual o gozo do colesterol normal à custa de só se comer queijo fresco?
terça-feira, dezembro 11, 2007
Para variar a maledicência
Nenhuma primeira página de jornal, o telejornal abre com a vitória do Porto. Saber que em cada 1000 miúdos nascidos cá na terra, só 3,3 morrem no primeiro ano é um resultado desprezível que não interessa mostrar, tanto mais que a maior parte dos putos têm a mania estranha de nascer em hospitais públicos e as mães continuam a receber os cuidados de saúde materna pública. É um paradoxo isto que acontece e de tal modo inexplicável que o melhor é ignorar.
Mas não se pode ignorar tudo e vale a pena perguntar a quem se deve o que se pensa do que se faz. E mais uma vez, as «vítimas» surpreendem e, por isso, não serão NUNCA notícia.
Mas não se pode ignorar tudo e vale a pena perguntar a quem se deve o que se pensa do que se faz. E mais uma vez, as «vítimas» surpreendem e, por isso, não serão NUNCA notícia.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Nota breve
Giro ver, de repente nos parceiros da urgência aqui em baixo à direita, um pontinho verde na Austrália. Mundo pequeno.
Paris-Lisboa
1. Paris
Não tem sido fácil encontrar espaço no tempo. Hoje surgiu uma aberta para me lembrar de Paris outonal ainda sem frenesins de Natal e com os streeses de um tempo que querem acabar. Na Praça da Concórdia protestavam juízes, nas ruas da Sorbonne acumulavam-se as carrinhas azuis cheias de ninjas prontos para a acção, mas indiferente a tudo na praça um sem abrigo lançava, um após outros, resíduos de plástico e metal para dentro da fonte tentando acertar não se sabe muito bem onde, num jogo de pontaria de que só ele entendia as regras e em que, aqui e além, havia lugar a um esgar de vitória. A greve dos transportes acumulava os transportes na superfície e todos pareciam pacientes, compreendendo o desfilar do Outono.
Paris desta vez foi uma compreensão diferente. Fora do Verão, menos japoneses a tirar fotografias, as folhas castanhas e vermelhas pelo chão, eu mais sereno, talvez outonal também, gozei o frio azul do céu no vai-vém sem destino absolutamente planeado numa agenda preenchida. Do Arco do Triunfo à Concórdia num desentorpecer de pernas como ambientação e depois até à Ponte Nova, junto ao Sena por baixo do Outono sempre presente, sentindo a cidade mantida igual sempre que cá se vem e ao mesmo tempo sempre nova pela maneira como a vemos. Dia seguinte de Marais, museu Picasso e Place des Vosges num deambular por uma espécie de cidade de província dentro da outra. De tarde a ilha e o Quartier Latin e Saint Michel de correrias de compras. Livrarias e restaurantes olhados e saboreados com o tempo que tive. Noite em Monmartre com cantores de há 40 anos e pintores em fim de dia. Descida até Pigale passando ao lado do Moulin de la Gallete sem baile, apenas encantado de noite.
No terceiro dia, vestimos o fato de turista e fizémos a coisa completa, Versalhes de manhã e tour de ville pela tarde, subida à Torre Eiffel e acabado com passeata de barco no rio e jantar de racletes.
Faltava, no dia do regresso, a Opera onde a visita guiada ficou frustrada após mais de uma hora de espera (coisas de greves? francesices?). Ninguém disse o porquê, mas em férias tudo se tolera melhor. Para acabar o Museu d'Orsay para contemplar as impressões e as sompras suspensas que percorrem os vidros do fundo da estação.
2. Lanzarote
Aquilo é uma colónia de férias, de casinhas brancas pequenas em manchas dispersas no negro. Não quero saber, estava de férias e estava sol.
Timanfaya foi uma visão negra da lua com a surpresa de um passeio de camelo a que a chuva trouxe novidade. Estranho estar em cima do bicho, movendo-se absolutamente sem mudar as rotações, indiferente ao molhar das calças. No fim sorria com ar de camelo a ver a corrida até aos autocarros.
O dia seguinte foi de romagem a Cesar Manrique, de que guardo a visão de Mirador del rio ao norte da ilha e tento esquecer a Cueva de los verdes. Puerto del Carmen à noite é uma Albufeira sem graça. Choviscava à volta.
Na manhã seguinte, ainda escrevi na agenda:
Correr a cortina e ver a ilha lá ao longe. Abrir a janela e ver o mar. Choveu, mas no ar não existe o cheiro de terra molhada. Nesta terra não há terra, apenas um pó preto onde nos apoiamos há 300 anos. Aqui tem-se a percepção da limitação do tempo em que cá estamos. Sobre a lava solidificada andam líquenes que a vão tornar terra daqui a centenas de anos. Entretanto fomos e testemunhámos apenas um instante de vida. Nestes momentos é que aprendemos a medir as coisas.
3. Lisboa
Deram-me há dois dias uma medalha. Vai ser uma coisa preciosa daqui a alguns anos por recordar um tempo em que as pessoas eram funcionários (colaboradores, agora) de uma empresa (organização, agora) durante 25 anos na mesma casa. Foi um momento estranho porque éramos muitos a fazer anos e porque nestes anos nunca tinha visto alguns deles. Os nossos mundo estão fechados muitas vezes. Quie fazemos do tempo que temos? Que farão os CEO daqui a uns anos sem ninguém para medalhar? Valor, claro, gerarão valor. E o valor da estabilidade, não o é? Talvez seja, que ouvi dizer, em Paris, não na que visitei, mas noutra mais à volta, já vai havendo sobressaltos. Quem sabe se a precaridade não atingirá os donos do sistema, mais cedo do que eles pensam.
Não tem sido fácil encontrar espaço no tempo. Hoje surgiu uma aberta para me lembrar de Paris outonal ainda sem frenesins de Natal e com os streeses de um tempo que querem acabar. Na Praça da Concórdia protestavam juízes, nas ruas da Sorbonne acumulavam-se as carrinhas azuis cheias de ninjas prontos para a acção, mas indiferente a tudo na praça um sem abrigo lançava, um após outros, resíduos de plástico e metal para dentro da fonte tentando acertar não se sabe muito bem onde, num jogo de pontaria de que só ele entendia as regras e em que, aqui e além, havia lugar a um esgar de vitória. A greve dos transportes acumulava os transportes na superfície e todos pareciam pacientes, compreendendo o desfilar do Outono.
Paris desta vez foi uma compreensão diferente. Fora do Verão, menos japoneses a tirar fotografias, as folhas castanhas e vermelhas pelo chão, eu mais sereno, talvez outonal também, gozei o frio azul do céu no vai-vém sem destino absolutamente planeado numa agenda preenchida. Do Arco do Triunfo à Concórdia num desentorpecer de pernas como ambientação e depois até à Ponte Nova, junto ao Sena por baixo do Outono sempre presente, sentindo a cidade mantida igual sempre que cá se vem e ao mesmo tempo sempre nova pela maneira como a vemos. Dia seguinte de Marais, museu Picasso e Place des Vosges num deambular por uma espécie de cidade de província dentro da outra. De tarde a ilha e o Quartier Latin e Saint Michel de correrias de compras. Livrarias e restaurantes olhados e saboreados com o tempo que tive. Noite em Monmartre com cantores de há 40 anos e pintores em fim de dia. Descida até Pigale passando ao lado do Moulin de la Gallete sem baile, apenas encantado de noite.
No terceiro dia, vestimos o fato de turista e fizémos a coisa completa, Versalhes de manhã e tour de ville pela tarde, subida à Torre Eiffel e acabado com passeata de barco no rio e jantar de racletes.
Faltava, no dia do regresso, a Opera onde a visita guiada ficou frustrada após mais de uma hora de espera (coisas de greves? francesices?). Ninguém disse o porquê, mas em férias tudo se tolera melhor. Para acabar o Museu d'Orsay para contemplar as impressões e as sompras suspensas que percorrem os vidros do fundo da estação.
2. Lanzarote
Aquilo é uma colónia de férias, de casinhas brancas pequenas em manchas dispersas no negro. Não quero saber, estava de férias e estava sol.
Timanfaya foi uma visão negra da lua com a surpresa de um passeio de camelo a que a chuva trouxe novidade. Estranho estar em cima do bicho, movendo-se absolutamente sem mudar as rotações, indiferente ao molhar das calças. No fim sorria com ar de camelo a ver a corrida até aos autocarros.
O dia seguinte foi de romagem a Cesar Manrique, de que guardo a visão de Mirador del rio ao norte da ilha e tento esquecer a Cueva de los verdes. Puerto del Carmen à noite é uma Albufeira sem graça. Choviscava à volta.
Na manhã seguinte, ainda escrevi na agenda:
Correr a cortina e ver a ilha lá ao longe. Abrir a janela e ver o mar. Choveu, mas no ar não existe o cheiro de terra molhada. Nesta terra não há terra, apenas um pó preto onde nos apoiamos há 300 anos. Aqui tem-se a percepção da limitação do tempo em que cá estamos. Sobre a lava solidificada andam líquenes que a vão tornar terra daqui a centenas de anos. Entretanto fomos e testemunhámos apenas um instante de vida. Nestes momentos é que aprendemos a medir as coisas.
3. Lisboa
Deram-me há dois dias uma medalha. Vai ser uma coisa preciosa daqui a alguns anos por recordar um tempo em que as pessoas eram funcionários (colaboradores, agora) de uma empresa (organização, agora) durante 25 anos na mesma casa. Foi um momento estranho porque éramos muitos a fazer anos e porque nestes anos nunca tinha visto alguns deles. Os nossos mundo estão fechados muitas vezes. Quie fazemos do tempo que temos? Que farão os CEO daqui a uns anos sem ninguém para medalhar? Valor, claro, gerarão valor. E o valor da estabilidade, não o é? Talvez seja, que ouvi dizer, em Paris, não na que visitei, mas noutra mais à volta, já vai havendo sobressaltos. Quem sabe se a precaridade não atingirá os donos do sistema, mais cedo do que eles pensam.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Perguntas e uma resposta
A liberdade, que termina onde começa a dos outros, passou de moda? Será que já só existe a «minha» e tenho direito a tudo? Mas nesse caso, quais os limites que me imponho, que sentido tem então a ética? Um homem isolado e todo poderoso não pode entender o sentido ético de aqui estar, porque isso só tem razão de ser na experiência de vida em grupo. Se a experiência for individualista e liberal, a ética é um absurdo, porque, de repente, se tem o direito a tudo e a vontade deixou de ter fronteiras para a acção. A selva renasce, ganha o mais forte, não o mais merecedor, porque mérito é um conceito ético e a ética perdeu o sentido de existir.
domingo, novembro 18, 2007
Futebol e fado
Quando vou a um espectáculo, aplaudo, fico indiferente ou pateio de acordo com o grau de apreciação que faço do desempenho dos actores. Num negócio, premeio, fico igual ou critico, de acordo com o retorno que me advém do investimento. O futebol de hoje não sei se é um espectáculo se um negócio, mas em qualquer das circusntâncias é lícito que quem está nas bancadas aplauda, fique quedo ou assobie os actores da coisa. O que já não parece normal é que haja uns a ganhar milhões, mesmo quando se refastelam em colchões e depois se manifestem incomodados com os assobios com que o seu mau desempenho é apreciado. Os actores não assobiam os espectadores, pode ser, senhor Cristiano Ronaldo e companhia? Não trabalharem e exigirem carneirada apoiante em nome de uma quase causa é excessivo. Tanto mimo, devia exigir protesto dos senhores jornalistas, mas esses andam demasiado empenhados a defender a pátria.
Depois do futebol da manhã, à noite os fados. Fados de Carlos Saura. Fados e não fado, possivelmente porque se não trata aqui tanto do Fado, mas mais dos fados de vários povos que se encontraram alguma vez no caminho. Essa a graça do filme, que não chega a ter uma história nem muito menos faz a história do fado deixando assim a possibilidade de ser documentário. O filme é um longo e esteticamente adequado Saurão para Trabalhadores com muito fado, de onde perspassa a ideia dos encontros dos povos e onde, à maneira do que diz Saramago, se não percebem as razões de certas fronteiras. Fado e flamenco são fados comuns, afinal. Custa a perceber o Caia entre Elvas e Badajoz e de todo se não entendem os protestos de alguns patrioteiros ofendidos por as mulheres da raia irem parir a Espanha. Não tanto pelo fado, mas por esta ideia, o filme Vale!
Depois do futebol da manhã, à noite os fados. Fados de Carlos Saura. Fados e não fado, possivelmente porque se não trata aqui tanto do Fado, mas mais dos fados de vários povos que se encontraram alguma vez no caminho. Essa a graça do filme, que não chega a ter uma história nem muito menos faz a história do fado deixando assim a possibilidade de ser documentário. O filme é um longo e esteticamente adequado Saurão para Trabalhadores com muito fado, de onde perspassa a ideia dos encontros dos povos e onde, à maneira do que diz Saramago, se não percebem as razões de certas fronteiras. Fado e flamenco são fados comuns, afinal. Custa a perceber o Caia entre Elvas e Badajoz e de todo se não entendem os protestos de alguns patrioteiros ofendidos por as mulheres da raia irem parir a Espanha. Não tanto pelo fado, mas por esta ideia, o filme Vale!
sábado, novembro 17, 2007
Vila Franca
Vila Franca de Xira sem tourada tem mais encanto. Pelo menos, eu prefiro-a com o museu recém-inaugurado (azar que o Presidente da fita tenha sido o Senhor que é, o que não deixa de destoar na parede da casa) onde se relembra o neo-realismo português da pintura ao cinema com literatura pelo meio.
Tenho vindo a perceber que nos fazemos dos quinze aos vintes. Por aí já estamos completos. Foi exactamente nessa altura que contactei e me enchi de Soeiro Pereira Gomes, Redol, Gomes Ferreira e me embalava o Acordai do Lopes Graça. Hoje percebi o quanto esta gente me fez também. Quer se queira quer não, há por aqui uma superioridade moral, que se não deve menosprezar. Foi uma altura em que se agiu, não por necessidade ou pelo desprezível cálculo, mas tão só pelo dever de agir. Nenhum incómodo impediu alguns da acção e a história foi-se fazendo como foi necessário.
Em dia de sorte, ainda pude desfrutar de uma conferência de Rui Vieira Nery sobre o neo-realismo na música e, na discussão, veio à baila o fado, que afinal, pasmei!, foi durante tempos canção do povo e de resistência. Por exemplo, «Não entres na igreja, cavador/é falsa a religião dessa canalha/os santos são de pau e sem valor/só deves dar valor a quem trabalha».
O Museu foi o motivo da deslocação, mas outro há para lá voltar: o Recanto do Ti Pedro, onde a começar nos perguntou se já tínhamos escolhido, para logo continuar a dizer se sabíamos escolher! Logo ali se viu que não estavamos numa correcta casa de pasto, mas muito mais que isso. Mesmo não estando nada arrependido da escolha feita, que incluiu uns deliciosos feijões «sezudos», para a próxima será o Senhor Pedro Miguel Gil a servir-me do que entender (só exigindo que venham também os tais feijões).
Tenho vindo a perceber que nos fazemos dos quinze aos vintes. Por aí já estamos completos. Foi exactamente nessa altura que contactei e me enchi de Soeiro Pereira Gomes, Redol, Gomes Ferreira e me embalava o Acordai do Lopes Graça. Hoje percebi o quanto esta gente me fez também. Quer se queira quer não, há por aqui uma superioridade moral, que se não deve menosprezar. Foi uma altura em que se agiu, não por necessidade ou pelo desprezível cálculo, mas tão só pelo dever de agir. Nenhum incómodo impediu alguns da acção e a história foi-se fazendo como foi necessário.
Em dia de sorte, ainda pude desfrutar de uma conferência de Rui Vieira Nery sobre o neo-realismo na música e, na discussão, veio à baila o fado, que afinal, pasmei!, foi durante tempos canção do povo e de resistência. Por exemplo, «Não entres na igreja, cavador/é falsa a religião dessa canalha/os santos são de pau e sem valor/só deves dar valor a quem trabalha».
O Museu foi o motivo da deslocação, mas outro há para lá voltar: o Recanto do Ti Pedro, onde a começar nos perguntou se já tínhamos escolhido, para logo continuar a dizer se sabíamos escolher! Logo ali se viu que não estavamos numa correcta casa de pasto, mas muito mais que isso. Mesmo não estando nada arrependido da escolha feita, que incluiu uns deliciosos feijões «sezudos», para a próxima será o Senhor Pedro Miguel Gil a servir-me do que entender (só exigindo que venham também os tais feijões).
sexta-feira, novembro 16, 2007
Revisão da semana
Mergulha-se na urgência do tempo, quando, finalmente, se percebem os seus limites. Apetece então, saborear os instantes, usá-los de uma forma selvagem, possuí-los na totalidade. Tal desfrute conduz, no entanto, à falta do tempo para aqui vir fazer o registo. É essa, possivelmente, a causa dos intervalos cada vez maiores entre os posts. Depois, um dia, surge um instante, em que se faz uma revisão breve, em forma de vertigem, como a paisagem que se escoa na janela do Alfa pendular e sai à maneira de registo uma enumeração de instantes.
1. A semana decorre numa sucessão de Domingos. É o gozo de estar de férias de uma forma diferente, iniciada por um Congresso sobre obesidade, onde, como é hábito, na quarta-feira seguinte tudo será como era na sexta-feira anterior. Para quem pode usar o Hotel foi agradável e a relação custo-benefício simpática… Cada vez mais a lucidez me impele a considerar estas reuniões como recreios, por vezes, de duvidoso merecimento, e, seguramente, de utilidade questionável. Como «louco manso, tentando antecipar algum futuro», lá fui dizendo que a obesidade é problema sem solução enquanto se não alterarem as suas causas. Outros preferem as corridinhas e marchas folclóricas ou a promoção do exercício, como se ainda restasse energia depois da sobrevivência do quotidiano. A prevenção não são consumos de sapatilhas de marca, mas muito mais, o combate ao consumo. Loucuras…
2. O êxito fabrica-se e antes que não exista é preciso afirmá-lo até que a voz lhes doa. Por mim, continuarei a fugir do auto-elogio, deixando, assim, aos outros apenas o esquecimento da obra. De outra forma, é demasiado deselegante para alguns padrões.
3. Tem sido enriquecedor o contacto com os Serviços da Segurança Social. Há um buraco imenso entre os dois lados da secretária. Do lado de lá, a frustração do contacto com a incompreensão da iletracia. Em português tentam comunicar, mas ao receptor não chega a mensagem simples, porque a distância é um oceano pacífico e de bons costumes. Ali ainda vejo a obediência do «porque eles é que podem». E pela quarta vez, irão buscar o papel que ainda falta, balbuciando que «são todos o mesmo». É urgente, pôr ali gente a traduzir conceitos e a adaptar serviços, na mudança que é possível.
4. Lá longe um rei mandou calar um presidente eleito. Só que o democrata é o rei, assim reza a Santa Madre Imprensa. Mas por mais que queiram o tal do Presidente não se cala e ainda lhes poupou a lembrança da varíola.
5. Por cá e a acabar a semana mais uma reunião corporativa em que, pasme-se, alguém pede à mítica Ordem autorização para fazer comunicações aos farmacêuticos sobre douta coisa que é isso da insulinoterapia. Passamos do cómico ao trágico quando se sugere que tal ciência se não passe, que a ela só os sábios endocrinologistas devem ter acesso. Investe então o louco farto de Idades Médias renascidas e a coisa acaba por poder ser feita nos moldes que o prelector considere serem os mais convenientes. Às vezes me amofino.
6. Na semana em que os diabéticos já são mais de um milhão, o poder, perante tanto voto potencial, decide oferecer insulina lenta e bombas infusoras à legião dos comilões. Bem vistas as coisas, a medida tem justiça enquanto atinja aqueles que realmente são vítimas da comida tóxica a que têm acesso. Menos justa será para outros que têm toda a possibilidade de optar e não o fazendo por facilitismo e negligência, vêem ao bolso de todos sacar os fundos que os tratam das consequências do vício. Esta é uma medida igualitária que tem pouco de equidade e menos de justiça distributiva. Aplicar-se-ia talvez neste consumo o princípio da proporção do pagamento em função do rendimento para dar mais responsabilidade e tornar a questão mais justa. Um milhão e meio de idosos com carências não retribuídas terão de levantar a voz e acenar com os votos, reivindicando a sua parte do bolo. Mas a sua fragilidade pouco lhes permite e o disparate continua.
1. A semana decorre numa sucessão de Domingos. É o gozo de estar de férias de uma forma diferente, iniciada por um Congresso sobre obesidade, onde, como é hábito, na quarta-feira seguinte tudo será como era na sexta-feira anterior. Para quem pode usar o Hotel foi agradável e a relação custo-benefício simpática… Cada vez mais a lucidez me impele a considerar estas reuniões como recreios, por vezes, de duvidoso merecimento, e, seguramente, de utilidade questionável. Como «louco manso, tentando antecipar algum futuro», lá fui dizendo que a obesidade é problema sem solução enquanto se não alterarem as suas causas. Outros preferem as corridinhas e marchas folclóricas ou a promoção do exercício, como se ainda restasse energia depois da sobrevivência do quotidiano. A prevenção não são consumos de sapatilhas de marca, mas muito mais, o combate ao consumo. Loucuras…
2. O êxito fabrica-se e antes que não exista é preciso afirmá-lo até que a voz lhes doa. Por mim, continuarei a fugir do auto-elogio, deixando, assim, aos outros apenas o esquecimento da obra. De outra forma, é demasiado deselegante para alguns padrões.
3. Tem sido enriquecedor o contacto com os Serviços da Segurança Social. Há um buraco imenso entre os dois lados da secretária. Do lado de lá, a frustração do contacto com a incompreensão da iletracia. Em português tentam comunicar, mas ao receptor não chega a mensagem simples, porque a distância é um oceano pacífico e de bons costumes. Ali ainda vejo a obediência do «porque eles é que podem». E pela quarta vez, irão buscar o papel que ainda falta, balbuciando que «são todos o mesmo». É urgente, pôr ali gente a traduzir conceitos e a adaptar serviços, na mudança que é possível.
4. Lá longe um rei mandou calar um presidente eleito. Só que o democrata é o rei, assim reza a Santa Madre Imprensa. Mas por mais que queiram o tal do Presidente não se cala e ainda lhes poupou a lembrança da varíola.
5. Por cá e a acabar a semana mais uma reunião corporativa em que, pasme-se, alguém pede à mítica Ordem autorização para fazer comunicações aos farmacêuticos sobre douta coisa que é isso da insulinoterapia. Passamos do cómico ao trágico quando se sugere que tal ciência se não passe, que a ela só os sábios endocrinologistas devem ter acesso. Investe então o louco farto de Idades Médias renascidas e a coisa acaba por poder ser feita nos moldes que o prelector considere serem os mais convenientes. Às vezes me amofino.
6. Na semana em que os diabéticos já são mais de um milhão, o poder, perante tanto voto potencial, decide oferecer insulina lenta e bombas infusoras à legião dos comilões. Bem vistas as coisas, a medida tem justiça enquanto atinja aqueles que realmente são vítimas da comida tóxica a que têm acesso. Menos justa será para outros que têm toda a possibilidade de optar e não o fazendo por facilitismo e negligência, vêem ao bolso de todos sacar os fundos que os tratam das consequências do vício. Esta é uma medida igualitária que tem pouco de equidade e menos de justiça distributiva. Aplicar-se-ia talvez neste consumo o princípio da proporção do pagamento em função do rendimento para dar mais responsabilidade e tornar a questão mais justa. Um milhão e meio de idosos com carências não retribuídas terão de levantar a voz e acenar com os votos, reivindicando a sua parte do bolo. Mas a sua fragilidade pouco lhes permite e o disparate continua.
sexta-feira, novembro 02, 2007
Certidão
Aos tantos de tal nasceu, no local indicado e averbado vem que casou e faleceu. Assim, tudo numa página, primeiro em letra bem desenhada como se fazia há oitenta e tal anos, depois em letra mais jovem. Cabe tudo numa página apenas. Assim passam as pessoas pelos arquivos no registo que fica da sua passagem.
terça-feira, outubro 30, 2007
Outpatient
Uma consulta é um encontro de emoções. Logo a abrir, a afirmação de uma que não foi ouvida no inquérito de ontem: ''isto está a parecer-se cada vez mais com um hospital!''. São estas que nos fazem ganhar os dias.
Depois, a penúltima doente, com a tristeza dos olhos que transpiram por uma gata ascítica terminada ontem para não mais sofrer. ''Era um cancro que a tomou toda'' Coitadinha! Apenas o consolo da morte piedosa. ''O seu colega (!) anestesiou-a, antes de lhe pôr fim e parecia que tinha um sorriso por baixo dos bigodes''. Hoje não queria que lhe dissesse nada sobre dietas, apenas uma espécie de colinho.
Uma consulta é muito maior que os números, vai muito além dos tempos de espera, da entrada e saída dos doentes no consultório.
Depois, a penúltima doente, com a tristeza dos olhos que transpiram por uma gata ascítica terminada ontem para não mais sofrer. ''Era um cancro que a tomou toda'' Coitadinha! Apenas o consolo da morte piedosa. ''O seu colega (!) anestesiou-a, antes de lhe pôr fim e parecia que tinha um sorriso por baixo dos bigodes''. Hoje não queria que lhe dissesse nada sobre dietas, apenas uma espécie de colinho.
Uma consulta é muito maior que os números, vai muito além dos tempos de espera, da entrada e saída dos doentes no consultório.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Que fazer, privatizar o Governo?
Privado melhor que o público? Anda por aí esta questão recorrente. Numa semana comparam-se os colégios dos meninos família com as escolas da populaça e conclui-se que a nata é da Opus Dei. Sugestão, enviem-se os miúdos da Curraleira para o Planalto e a coisa resolve-se. Alternativa, destrua-se a Curraleira, que estão a perturbar os resultados.
Hoje ficamos a saber que perguntaram a 300 eleitos o que achavam dos serviços públicos e privados e a resposta, uma vez mais, foi clara: Privado melhor do que o público! (Embora haja algumas melhorias!!) Claro, o Governo encomandante do inquérito tem feito já alguma coisita. Fica-me a dúvida sobre se o Governo é público ou privado. Tivesse eu possibilidade de encomendar um estudo à Universidade Católica e logo veríamos.
Hoje ficamos a saber que perguntaram a 300 eleitos o que achavam dos serviços públicos e privados e a resposta, uma vez mais, foi clara: Privado melhor do que o público! (Embora haja algumas melhorias!!) Claro, o Governo encomandante do inquérito tem feito já alguma coisita. Fica-me a dúvida sobre se o Governo é público ou privado. Tivesse eu possibilidade de encomendar um estudo à Universidade Católica e logo veríamos.
domingo, outubro 28, 2007
O silvo metálico da vingança
Sweeny Todd é uma história amoral, dizem. É curioso como a amoralidade é sempre atribuída a quem reage contra a prepotência e nunca contra quem domina prepotentemente. Isso é a norma que muitas vezes está bem longe da ética. A vingança metafórica de comer as bestas é, afinal, merecida. Possivelmente, indigesta.
Um bom bocado de teatro, só estragado pela deficiência de alguns intérpretes. A certa altura, ansiei que tivesse legendas tal era o grau de incompreensão do texto (cantado?).
Um bom bocado de teatro, só estragado pela deficiência de alguns intérpretes. A certa altura, ansiei que tivesse legendas tal era o grau de incompreensão do texto (cantado?).
quinta-feira, outubro 11, 2007
Pôr do sol
Pôs-se o sol era quase meio-dia. Sem a beleza quente dos dias anteriores, mas com toda a calma serena do mundo num só instante inadiável e definitivo. Alguns dizem que renasce.
quarta-feira, outubro 10, 2007
A árvore
Seca, mirrada, continua de pé na beira do caminho. Olhei para ela com fome de esperança apesar de serem quase 11 da noite. Sempre nos agarramos a imagens quando o que resta já é pouco. A sua aridez ainda foi um bafo de esperança naquele momento, numa tentativa de ligar o que não está, realmente, relacionado.
terça-feira, outubro 09, 2007
A recta e o círculo
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