sábado, fevereiro 02, 2013

As duas medidas

A morte é fonte de virtude. É a melhor forma de ser reconhecido e, finalmente, ser um bom homem ou uma boa mulher. Mesmo quando o mesmo objeto, em vivo, era horroroso e criticável, se não insuportável.
A compreensão pela dor e infelicidade da mãe que mata os filhos apenas é possível porque decidiu acompanhá-los na morte. Caso contrário seria mais um objeto de uivos incontidos à porta de um Tribunal que a julgasse e o seu ato seria proclamado na primeira página do Correio da Manhã para gáudio dos leitores, que, pediriam punição máxima, mas, da forma como a história acabou, até sussurrarão um «coitada» piedoso.
É complexa a justiça, que, por necessidade de humanidade, deve ser mais governada pela razão que pela emoção.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

A luta (de classes) continua


É porque investir é uma coisa tão complexa, que os investidores têm, obrigatoriamente, que ser bem remunerados. Mais complexo ainda será dispensar o dinheiro para investir e é por isso, que os banqueiros têm ainda que ganhar mais do que os investidores. Simples é trabalhar, CRIAR TODA A RIQUEZA, para investidores e banqueiros, formar pessoas, tratar as doenças e todas essas coisas menores e essa é a razão por que esses devem ser menos bem pagos. Depois há os inúteis sociais, que só consomem, os desempregados, que ainda assim dão jeito existirem para que os que trabalham não sejam tão reivindicativos e justificam uns meses de subsídio. Finalmente, os reformados, outra corja de inúteis que em vez de morrerem persistem em sacar ao Estado as pensões de reforma.
Na verdade, são bem poucos aqueles para quem se governa e como é fácil governar para apenas esses, em comparação com a dificuldade que seria governar para todos. Ficam muitos de fora? Que importa? É a luta de classes (que foi abolida por decreto neoliberal)!

terça-feira, janeiro 29, 2013

Eles


Quando se vai a um hospital, a um tribunal, à caixa Geral de Aposentações ou a uma repartição de finanças há algum grau de conforto e modernidade, que se não encontra quando se tem de ir a um serviço de segurança social. Aqui os ambientes são mais escuros, faltam lâmpadas de iluminação ou os maus tratos nas paredes são frequentemente mais óbvios. A outra diferença encontra-se nas manjedouras de atendimento, onde os espaços individuais são bem mais estreitos prejudicando toda a privacidade necessária, aqui mais do que noutras situações, e no nível de equipamento, por exemplo informático, que os funcionários utilizam. O ruído das pancadas dos carimbos é um must por aqui.
Este ambiente faz que do outro lado das mesas se encontrem funcionários desmotivados, deprimidos mesmo, com o que estão ali a fazer, um enorme frete. Carimbam papéis e informam mecanicamente que a resposta irá para o domicílio. Quando? Ninguém sabe, talvez um ou dois meses. Não riem, estão cansados, têm derrota nas faces. Adivinha-se que, como os utentes, estão descrentes. Dizem, «eles» é que sabem, são quem decide, quem manda. Sempre «eles», os todo-poderosos, que nos roubaram até o «nós». Nunca perguntam sequer que vida é esta na dependência absurda e exclusiva d´«eles»? Será que um dia despertarão e vão-se a «eles»?
Um Estado que diferencia os ambientes desta forma, é um Estado que fez uma opção de classe. Realmente, quem vem a estes Serviços de Segurança Social, são maioritariamente uns tipos «dispensáveis» que apenas «dão despesa» ao Estado Social. No limite do pensamento gaspariano-coelhal, estaríamos muito melhor se não existissem e não justificam, seguramente, qualquer investimento em conforto.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Botero


Aquele quadro que tanto poderia seu o primeiro como o ultimo da exposição, relembrou-me que mesmo a representação da morte pode conter em si o renascimento da vida anunciado pela tocha iluminada do anjo que desce sobre algo que parece estar ali definitivamente caído. Olhando-o relembrei-me que há uma história que ainda não acabou, apesar desta hibernação de quase dois meses, onde muitas vezes o impulso de aqui vir foi adiado pela inércia de reiniciar amanhã. E houve tantos e variados motivos!
Ainda agora, há poucos dias, a festa do regresso aos mercados (ou a continuação do endividamento) numa hosana infindável da direita governante, poderia ter sido uma boa razão. Mas não chegou para me reacender a vontade, porque, na verdade, foi apenas um estrebuchar antes de uma morte anunciada, essa sim definitiva, a exibir em breve na nossa frente.
Em vez disso, a arte como fator de renascimento, é uma causa bem mais interessante. A arte que cada um vê com os seus próprios filtros, revelando-se com significâncias distantes consoante os olhos que a veem. Para os organizadores desta Via Sacra, ao que pareceu pelos comentários dos guias do museu, uma exposição reveladora de alguma religiosidade tardia na vida de Fernando Botero, para mim, pelo contrário, o regresso ao tema das séries mais recentes do autor, a denúncia da violência ou da tortura dos homens, revelado na crucificação do cristo com Nova Iorque em fundo ou na apresentação do Homem na frente de uma vila da Colômbia. E, possivelmente, também não é por acaso que o anúncio do anjo ocorre na frente de um cemitério colombiano, isto é, num qualquer lugar de gente que não domina. Há por ali uma morte que ri nos rostos das caveiras, anunciando algo que está para vir mais cedo do que alguns esperarão.

terça-feira, novembro 27, 2012

Uma aposta?

Imaginemos que temos uma dívida para pagar e que nos estão a cobrar um juro alto. Fazemos um orçamento em que prevemos produzir menos, isto é, ganhar menos. Daqui a um ano como estaremos? Como a diferença entre o que ganhávamos e o que gastávamos já era negativa e vamos ainda produzir menos, o lógico é que dentro de um ano a dívida esteja ainda maior e, consequentemente, os juros a pagar serão ainda maiores.
Não é assim, diz o sábio Gaspar. Mas já é quase o último a dizê-lo. Daqui a um ano (tempo demais?) faremos contas! Ou vamos ajustá-las mais cedo...

quinta-feira, novembro 22, 2012

Olá

Olá, pá, fizeste um ano. Foi rápido, não foi? Quantas conquistas, quantos avanços e progressos numa velocidade absolutamente incrível. Sempre a procurar desde um olhar perdido algures até à tua mais recente dedicação na arrumação dos meus papéis no escritório. Acredita que, de tanto os espalhares no chão, já organizei alguns. Tens razão, porque às vezes é necessário o caos, para que uma nova ordem possa aparecer. Mexes-te bem, comunicas, não te calas. Se te não ligam chegas a gritar um olá, desconcertante. Comunicas bem. E quase já andas.
Hoje eras o mais novo na exposição das Idades do Mar. Eras tu de um lado e um desfile de reformados do outro e pareceu-me que eras tu quem mais olhava, mesmo que não visses. Sim, eu sei, viste os cavalos e quase os puseste a andar. Os outros, na sua maioria, olhavam menos os quadros, mais  fixados que estavam na vida que maioritariamente já passou e estavam ali pelo encontro de se não sentirem vazios. Só tu tinhas a promessa de ires ver cada vez mais. Muito mais.
As Idades do mar na tua idade, quem diria, pá?

quarta-feira, novembro 21, 2012

Há dias em que os casos vêm aos pares:
Primeiro, um caso clínico interessante, porque a memória recente costuma ser a mais afetada, preservando-se melhor a remota. Ou isto será uma auto-crítica?
Depois o esclarecimento oportuno de que a vaca e o burro afinal não testemunharam a virgindade de Maria, o que é, realmente, uma questão de fé. Absolvidos a vaca, o burro e, talvez, os infiéis!

segunda-feira, novembro 19, 2012

Boas novas

Boas novas do fim de um mundo

CARTA ABERTA

Meus caros concidadãos,
numa altura em que tantos escrevem cartas aos políticos e fazem circular os enormes escândalos dos políticos, apetece remar contra a maré da alienação instalada. Em primeiro lugar, porque acho inestético o refúgio cobarde e generalizado do «eu não tive nada que ver com isso». Na verdade, estes políticos vencedores foram os políticos eleitos pelos meus caros concidadãos, portanto não se queixem. Em vez da queixa, percebam as causas do vosso engano: a vossa crença nas virtudes do alterne «democrático» em que deixaram o país desde que votam. Em segundo lugar, porque lamento que, de acordo com as sondagens, a vossa burrice pareça querer continuar. Teimosos e sem imaginação continuam a dança do vira do alterne PS/PSD/CDS. O arco do poder a quem os meus caros concidadãos entregam o balão para que a marcha antipopular continue o seu caminho.
E estamos a chegar a um ponto em que a sustentabilidade desta idiotice em que caíram, meus caros concidadãos, começa a não ter saída. O fim do Estado para que uns e outros nos querem levar não é caminho, é suicídio. Na  realidade precisamos de um Estado melhor, liderado por políticos melhores. E os políticos melhores serão, seguramente, não estes ou aqueles que tanto os meus caros concidadãos têm criticado, mas os que se não deixam manipular pelo poder financeiro, o nosso verdadeiro inimigo. Se agora nos impõem um caminho de empobrecimento a quase todos, isso é para que uns muito poucos tenham enriquecimento e, muitas vezes, nem serão os que nos dizem que aguentamos, mas outros mais distantes que neles mandam. Na teia dos interesses e dos privilégios dos grandes senhores do mundo, temos que identificar com precisão o inimigo para o podermos derrotar eficazmente. O que temos hoje não é para reformar, mas para renascer, porque este sistema, enleado nas suas contradições internas, chegou ao fim da sua história. Nós, porém, sabemos que ainda não chegámos ao fim da história, como há uns anos aqui se escreve.
Com efeito, há mais políticos além deste políticos que os meus caros concidadãos criticam tanto. São os que não querem ir por aí. E se, na vossa ideia, os disponíveis também não servem, resta-vos uma saída, substituam-nos, ousem avançar. É pela política que a história vai continuar, ser contra a política é o caminho da autodestruição e, no limite, é favorecer quem até agora fez crescer a descrença na política e até aqui nos conduziu.
O caminho não é fácil e exige rigor, muita verdade técnica. Mas a verdade técnica depende do rumo que se escolher e essa definição é a primeira tarefa sem a qual o barco continuará à deriva. Temos que entender as causas, compreender a história e encontrar um rumo diferente para os nossos objetivos. Temos que definir o conceito de evolução, temos de perceber se o que queremos é o ideal expresso por Obama no discurso de vitória: o triunfo dependente do arriscar. Efetivamente, o nosso ideal será o risco, o jogo, a incerteza? Em nome de que objetivo?
Sim, é preciso definir que Estado queremos, mas antes disso sabermos se o que desejamos é, apenas, um Estado croupier que regule a jogatina.
Meus caros concidadãos, faites vos jeux ou melhor digam da vossa justiça.
Aqui fica a carta aberta num mundo cada vez mais fechado e  cercado, mas, certamente, com saída. Pensar é o único caminho para descobrir as saídas.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Lucidez


Obama 2


O menos mau já chegou e prometeu que o melhor está para vir. A ver vamos. Que deus o ajude disse o outro. Ajude a quê? Que poderá deus contra o poder financeiro?
Mudança, qual?

segunda-feira, novembro 05, 2012

Intervalo


A coincidência de começar num dia feriado em véspera de fim de semana, tornou tudo mais suave, quase impercetível. Tempo foi de preparar gatas e lavrar a terra. Além de colher o semeado.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Final feliz

Na pequena janela retangular as folhas saltam de pasta em pasta sobre um corrupio de números e extensões .doc e .xls. Em poucos minutos move-se o produto dos últimos anos de trabalho. Notas de evolução, melhorias e insucessos. No final, a p
asta de share com número mecanográfico fica branca, num silêncio prolongado. Tudo transferido para a minha pen. Fim.
Iniciar, encerrar, reiniciar. Reiniciar aqui? Não, outros que carreguem as teclas do Cntr-alt-del.
19:54 pela última vez o dedo no relógio de ponto e saí para a noite. Ali dentro as alegrias e os dramas vão continuar todos os dias... sem mim.

terça-feira, outubro 30, 2012

Boa nova

Empurrado pela angústia da incerteza, acabei ausente. O mês caminhava para o fim e a notícia tardava em chegar e a irritação crescia pelo cerco da impotência. Todo o sistema é opaco, suscetível de corrupção nessa falta de transparência. Tudo está irritante e imprevisível. Impossível.
Chegou ao início da manhã do dia 30, finalmente,a  notícia que era libertação.
A partir de amanhã estarei between jobs com todas as incertezas e garantias de um mundo cada vez mais incerto. Mas vai saber bem enquanto durar.

sexta-feira, outubro 19, 2012

No meio da «ciência»


E fiquei a pensar se pode haver empowerment sem responsabilidade individual, isto é, o doente pode ser convidado a decidir a sua terapêutica se não tiver que acarretar com os seus custos? Pelo mesmo custo, escolher-se-á sempre o mais caro, que geralmente é o melhor. Isto desde que se não tenha que ter em conta a relação custo-benefíicio. Mas no caso do nosso sistema de saúde nem é o doente que escolhe, é o médico, muitas vezes premiado por fazer a escolha mais onerosa. Está tudo do avesso, não é só a bandeira.

Um dia inteiro a fazer flores à volta de um artigo do Diabetes Care. De várias formas, com graças (poucas!) diversas lá se vai mostrando que são os doentes que têm que decidir, uma vez aconselhados, que tratamentos devem fazer depois de aconselhados pelos seus médicos. Pelo meio alguma ciência comprometida manifestando as tendências dominantes do Mercado (farmacêutico), sempre as mesmas na substância: os medicamentos muito bons do passado (baratos) devem ser substituídos pelos mais recentes (mais caros). É a evolução científica a bem dos doentes, mesmo que a eficácia seja semelhante há sempre algum efeito acessório menos frequente (menos de 5%), alguma facilidade de administração, alguma coisa pequena que justifica uma enorme diferença de preço.  E já não tenho energia para falar de uma coisa simples como seja a responsabilidade do doente na implementação de medidas não medicamentosas (corrigir a causa da diabetes), porque a defesa da facilidade tudo justifica. Mas tenho para mim que a sociedade só deveria pagar estes custos da negligência individual se fosse provado que os custos das complicações são superiores aos custos da terapêutica. De outra forma é irracional que o faça. Não negando a possibilidade dos tratamentos, é inaceitável que a falta de cuidado de quem os poderia ter seja custeada por todos. Nestes casos, seria razoável indexar os custos do tratamento à capacidade económica do indivíduo prevaricador. Isso iria contribuir para opções mais conscientes dos doentes e a escolha aí já não seria mesma de sempre, o melhor de todos, porque o fator preço entraria na equação da decisão. Então o empowerment faria sentido.
Uma gestão decente (justa) dos recursos implica que se façam opções e se privilegie o pagamento integral apenas das doenças em que os doentes são vítimas inocentes da sua patologia, por exemplo as doenças genéticas, auto-imunes, degenerativas e as ambientais de causa não controlável individualmente. A responsabilização dos doentes é da mais elementar justiça.
Mas isto é conversa séria demais para um público ávido do bem-estar e tranquilidade que tudo isto dá.

O Expresso chega só depois do meio-dia. São os custos da insularidade, o atraso nas notícias. Mas há a TV Madeira que nos mostra nos interlúdios borboletas de asas salpicadas de muitas cores e nos diz que não havendo um especialista por perto as não devemos tentar apanhar porque as podemos amputar irreversivelmente. E que úteis são na defesa do ecossistema. Ternurenta a informação da TV regional… Aqui para cerca de 250000 pessoas há um canal de televisão, ou seja os custos da continentalidade nada têm que ver com esta realidade ou teríamos que ter a TV Almada, a TV Amadora, a TV Lisboa (vários canais, claro…).
Na falta do Expresso, percorro os andares do Centro Comercial Madeira (ou será Madeira Shopping?) constatando as lojas vazias com vitrines cobertas de jornais e folhas de A4 com a inscrição VENDE_SE.  A crise chegou à pérola esburacada.
Melhor fico olhando o mar azul na frente da janela do quarto. Sereno, quase sem ondas, de vez em quando um barco. Na piscina, reformados da Europa do meio, esperneiam numa aula de hidroginástica que nunca lhes irá diminuir os excessos das barrigas.  

quarta-feira, outubro 17, 2012

Economia tótó


A confusão das receitas e despesas vai grande. Tentando simplificar tão complexa coisa, diria que as receitas do estado (impostos, taxas e companhia) são, curioso, as despesas dos cidadãos e que as despesas do estado (fornecimento de saúde, educação pública, segurança social, p ex.) são as receitas dos cidadãos (isto é, servimo-nos das coisas e não pagamaos).
O que é estranho neste acerto de receitas e despesas é que queiram que paguemos mais para recebermos menos. Fica a ideia de que o dinheiro que sobra deste desacerto não se volatiliza, mas cai bem concreto nalgum lado. 

segunda-feira, outubro 15, 2012

Fora do contexto

A Berta que ia ganhar, afinal teve uma derrota colossal. Mas não foi da Berta, foi do contexto nacional, tranquilizaram Coelho e Portas. E fiquei ali a meditar no que aquilo quereria dizer. O contexto nacional! Os princípios programáticos da Berta eram contra o contexto nacional, contra o assalto orçamental e o Coelho tinha já prometida uma caçada e o tiroteio dos parlamentares da região. Porque o contexto nacional é realmente intolerável, inqualificável de tal forma que um curioso comentador do PSD até dizia num canal de televisão que o contexto poderia ter sido mostrado mais tarde, depois das eleições. Espera, então teria sido preferível levar os ilhéus ao engano, ocultando-lhes o contexto? o homem de cabelos brancos achava que teria sido melhor, mas os miúdos governantes não pensaram assim e o contexto nacional tramou a Berta.
Nunca tinha visto tanto descaramento. Na verdade a confissão do contexto nacional mostra que estes rapazes acham que o que andam a fazer tem a oposição generalizada do povo. Só que não se importam, a cruzada fanática em que estão envolvidos tudo justifica. Assumem a mentira e conseguem dormir descansados depois de saberem que foram eleitos na base de promessas do contexto oposto, mas uma vez no poder regozijam coma  ideia de terem enganado o maralhal. É tempo de defenestração que estes são piores que espanhóis.

sábado, outubro 13, 2012

Resignação?

Fez-me imensa confusão ouvir o senhor cardeal. A palavra da Igreja imaginava-a eu mais perto do que diz D. Januário. Ao menos nas aparências fazia-me mais sentido.
Mas senhor Cardeal  o que corrói a harmonia democrática, não é o governo do povo na rua, mas o governo dos talibãs liberais no palácio.
Fiquei a pensar por que raio seria o discurso contra as manifestações e o elogio da resignação. Ter-se-á o cardeal convertido ao fundamentalismo liberal?
Deus me livre de pensar isto, mas só me ocorreu que o dislate possa ter tido motivações pouco católicas. Por exemplo, Gaspar, na sua fúria insana de arrecadar e mexer em tudo o que bula, pode lembrar-se do IMI que a Igreja está dispensada de pagar. É que parece não ser assim tão pouco.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Coisas nos muros

A vantagem da lentidão do trânsito é dar-nos a possibilidade de lermos as inscrições feitas nas paredes. Já ali tinha passado várias vezes, mas nunca tinha lido aquilo. Só por preguiça sou feliz. Assim lido na manhã a caminho do trabalho. Na verdade, será possível ser feliz quem não seja preguiçoso e se ponha a fazer perguntas? 
É possível andar por aí e não olhar, seguir e ser feliz na rotina dos dias. Mas se olharmos, arriscamo-nos a ver e fica a felicidade perturbada.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Mintam-lhes que eles gostam

The pervasiveness of campaign lies tells us something we’d rather not acknowledge, at least not publicly: On many issues, voters prefer lies to the truth. That’s because the truth about the economy, the future of Social Security and Medicare, immigration, the war in Afghanistan, taxes, the budget, the deficit, and the national debt is too dismal to contemplate. As long as voters cast their votes for candidates who make them feel better, candidates will continue to lie. And to win.
em http://blogs.reuters.com/jackshafer/2012/10/09/why-we-vote-for-liars/

E a ser assim, a democracia corre perigo e o populismo pode muito bem resultar. As coisas não são fáceis, mas a educação reinante diz que tudo tem de ser fácil. Por isso se inventaram as escadas rolantes e as compras a crédito.As primeiras engordam-nos, as segundas emagrecem-nos, mas a lógica é comum: à primeira vista facilitam-nos a vida. As consequências só vêem depois. E a lógica dominante é vivermos tudo como se tivéssemos chegado ao dia final. De momento satisfaz, depois pode doer.
O populismo é uma linguagem infantil que nos leva ao mundo do tudo ser possível. O sistema infantilizou as pessoas, destreinou-as de pensar que têm futuro e que, por isso, a mensagem é que podem comer o saco das gomas todo de seguida sem poupar para o próximo dia. Amanhã haverá sempre mais gomas, se lá chegarem depois da dificuldade da dor de barriga quase fatal.
Na escola adquirem-se conhecimentos técnicos para resolver os problemas das organizações e promover a geração de valor, mas, cada vez mais, convencem as pessoas da inutilidade da literatura ou da filosofia. Pensar é perda de tempo, que a vida vai demasiado rápida para se desperdiçar o prazer imediato, enquanto se pensa o futuro. Ser deixou de ter qualquer importância ao lado do ter todo poderoso.
Por tudo isto, mais vale sem enganado desde que não doa, a ter as dores da verdade. Dos que não pensam é o reino dos céus, para que a alguns possa ser dado o privilégio do céu na terra.
Mas a economia é complexa, na verdade, porque tem por objetivo a geração de valor, o crescimento e não a satisfação das necessidades gerais. Segundo a doutrina dominante a natureza dos homens é a ganância.
E os resultados  da reflexão pós revolução industrial e algumas guerras (o Estado Social nas suas várias dimensões de Segurança Social, Educação e Saúde para todos) são agora postos em causa pelas forças da ganância. Mais lamentável do que tentem fazer isso, é não haver uma exposição séria, adulta das realidades por parte dos que não alinham no pensamento da ganância dominante. Possuídos que também estão da ideia da facilidade, procuram ignorar a realidade e não a discutir com profundidade, atirando populisticamente com os argumentos da espuma da facilidade, convencidos que é dessa forma que chegam ao poder. Até poderiam chegar em tese, mas de nada lhes serviria porque teriam também de desdizer o que prometeram.