segunda-feira, novembro 07, 2011

Procrastinação

Fica um enorme hiato entre a ação e o desejo, quase sempre este a vingar. A ação que é dita necessária acabará por vir. Demorará o mesmo tempo agora e depois? Ou realmente precisa da compressão do não mais poder esperar para surgir mais rápida? Entretanto o desejo consuma-se, sempre cheio de algum remorso pela dúvida da realização da ação no tempo útil. Há uma tensão sempre a estragar os dias que passam, gerando-se apenas um prazer limitado na efetivação dos desejos.
Há-de chegar o dia em que o desejo e  a necessidade sejam uma e a mesma coisa. pelo menos é o que se deseja.

domingo, novembro 06, 2011

Da importância das coisas

Pode subitamente tudo o que era muitíssimo importante, perder toda a importância e ficar toda mesmo reduzida  ao único instante que é este. Como se os outros se esfumassem na inexistência inatingida. A história é conhecida de todos, por tantas vezes repetida, mas  a irracionalidade leva sempre a ser ignorada até ao momento em que, de novo, se repete para glória do presente absoluto. Nessa altura vêm à memória as listas dos temas adiados para melhor oportunidade, porque havia outros que sempre se lhes disputavam a primeira linha da ordem. E como vinham, passavam, tendo apenas a importância de ali terem estado... à espera. Depois ficam apenas as cinzas da sua utilização no braseiro da vida.
Realmente, devem contar-se pelos dedos as coisas mesmo importantes, excetuando as que nesses instantes em que tudo perde importância, adquirem, de forma inesperada, toda a importância. Não há desculpa para as adiarmos. Mas de nada servem estes avisos fora de tempo.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Parcerias público-privadas

Qualquer negócio envolve duas partes. Quando uma das partes negociadora é eleita, há pelo menos uma outra parte envolvida de forma indireta, porque os que negociaram o fizeram a mandado dos eleitores.
Feito o negócio e, uns tempos depois, conclui-se que uma das partes perdeu, perdeu mesmo imenso, com o acordo. Nisto de negócios, quando alguma das partes perde é porque outra ganha. Neste caso parece que ganhou e se prepara para continuar muito, mesmo muito, excessivamente.
Perceberam então os eleitores que as consequências do negócio vão deitar tudo a perder e viram-se qual horda destemperada contra os que antes elegeram e, em seu nome, fizeram o tal mau negócio. Pedem-se responsabilidades e cabeças, para aliviar o engano do voto feito.
O problema é que essa vingança, aliviará a raiva, será catártica, mas em nada emenda o negócio e a catástrofe.
Ao mesmo tempo, a outra parte do negócio, a que fez mesmo um grande negócio continua impune e todos a acham inocente? Ou perante a catástrofe vai-se punir a safadeza e a ganância de alguns que se aproveitaram do negócio, da forma matreira com que quase sempre atuam?
Que se castiguem politicamente os que erraram e se deixaram enganar, mas corrija-se o erro punindo economicamente quem do erro beneficiou e agora ri e vai assobiando para o lado na desportiva. Mesmo que o Direito diga que não, a Justiça aprovaria.
E há instantes na História em  que o Direito se deve submeter à Justiça, a forma ao conteúdo, o virtual ao real. Ou então, a descrença cresce, a esperança cede e estão criadas as condições do caos.

quarta-feira, novembro 02, 2011

É a Democracia, estúpidos!

Democracia ("demo+kratos") é um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos. (Wikipedia) Uma criação grega, direi eu.


Por estes dias constato o nervosismo que entrevejo em certos comentadores e jornalistas a propósito do referendo na Grécia. Quase que se lhes nota a vontade de chamar nomes à decisão. Mas quais? Sempre tão rápidos a associar a anti-democracia a tudo o que não vá ao encontro do desejo do poder dos mercados, desta vez não dá jeito dizer que uma consulta ao Povo possa ser não democrática. Chatice! Há um conflito entre a mercadocracia e a democracia. Os mercosystas estão em dificuldades.

quarta-feira, outubro 26, 2011

A causa das coisas

Perante o Porsche estacionado à porta do Hospital do Divino Espírito Santo, interroguei-me sobre a razão das opções das pessoas relativamente às coisas. Afinal porquê um carro de corridas numa ilha tão pequena? A coisa pode ser um sonho, um projecto de vida, mas continua a ter algo de muito absurdo.

terça-feira, outubro 25, 2011

Relvas daninhas

No fundo, o chato é que nos chamem estúpidos enquanto fazemos aquela tarefa difícil que agora anda aí em voga de «apertarmos o cinto e baixarmos as calças ao mesmo tempo», tentando assumir a posição dos alemães quando perderam a guerra ou de outros quando se viram para Meca.
Vem isto a propósito daquele insulto à nossa inteligência feito pelo defesa direito (nº 2, não é?) do governo, quando explicou (sem se rir) que em países de economias mais avançadas que a nossa não havia subsídios de férias nem de Natal. Realmente, sempre achei que não era a forma mais correta de os empregadores retribuírem o trabalho, porque mais não era do que reterem uma parte do salário durante uns meses para só o pagarem ao 6º mês, com o fito de que fosse gasto de imediato, ou seja, de alguma forma voltar a quem o pagou.
Uma melhor alternativa (muito melhor, mesmo) era o pagamento do salário anual em Janeiro! Só um pagamento por ano correspondendo à totalidade do que era pago antes do roubo de 14% agora instituído.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Memória recente

Começa a ser necessário rever a Constituição, não tanto para introduzir limitações ao défice, mas para criar uma espécie de contrato em que fique estabelecido que o Presidente tenha de demitir obrigatoriamente os governantes que fizerem este tipo de discursos antes de serem eleitos e reneguem tudo o que disseram depois na governação:

É preciso assumir responsabilidades. E se depois de eleitos encontrarem um mundo que não conheciam, o que têm que fazer é ir de novo a jogo e prometerem o que, informados, achem que podem cumprir, porque assim, como este faz, é mesmo muito feio.

terça-feira, outubro 18, 2011

Carta ao futuro

Olá Tomás,
deixa que te escreva estas palavras, mesmo que ainda as não possas ler. Mas ali, no meio daquele quarteirão de Gente, percebi que ainda há uma possibilidade, mesmo pequenina, de o mundo não ser só aquilo que os novatos aiatolás do liberalismo instalados recentemente no poder querem fazer dele. Sim, era só um quarteirão de Gente, mas já noutros tempos foi assim. Esta Gente sempre foi uma minoria, mas escreve-se com maiúscula. Foram eles também, que há mais de 30 anos, mudaram num dia de Abril um país ainda bem mais triste do que este que estamos a viver. Foram eles, afinal, que que se lembraram de começar a dar escola aos analfabetos, saúde aos doentes e vida aos reformados. Graças a eles foram criadas as conquistas que os jovens aiatolás agora liquidam como os subsídios de férias e de Natal. Foi um tal Vasco, que fazia discursos emocionados em Almada. Talvez, se tudo correr bem, um dia na Escola te venham a  falar do tal sujeito. Pelo menos, passou-me isso pela cabeça, quando vi os sorrisos tímidos dos roubados da esperança, dispostos nos passeios feitos margens do rio vermelho que avançava. Aceitavam, sem recusa, os autocolantes e havia neles algum olhar agradecido, quase raiando a inveja de a sua timidez os não fazer saltar, desde já, para a torrente. Mas sabes, nenhum rio é grande quando nasce, é preciso tempo para engrossar e, no fim, não há mais barragens que o possam deter.
Vamos ter que alimentar este rio e chamar de novo ao percurso todos aqueles que não vi hoje por lá. Tive saudades de muitos que conheci em tempos, mas que hoje deviam estar a trabalhar enfiados nos seus consultórios privados e lá não foram. Mas também são Gente de confiança e vão aparecer noutros dias. Podes estar certo que isso vai acontecer e o rio vai ser mar, porque afinal não podes nascer numa terra sem esperança e sem futuro. Tu e os teus amigos merecem que o rio cresça. Vamos fazer por isso e  gritar bem alto, porque todos sabemos que «quanto mais calados, mais roubados»

domingo, outubro 16, 2011

quinta-feira, outubro 13, 2011

Cuidado


Sintam-se aliviados vocês os trabalhadores privados, mas aproveitem para ler:

Na Alemanha,
Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada porque não era comunista.
Depois vieram pelos judeus, e eu não disse nada porque não era judeu.
Depois vieram pelos sindicalistas, e eu não disse nada porque não era sindicalista.
Depois vieram pelos católicos, e eu não disse nada porque era protestante.
Depois vieram por mim e, nessa altura, já não havia ninguém para erguer a voz.


PASTOR MARTIN NIEMOLLER
(Sobrevivente do Holocausto)

Guerra aos cidadãos de segunda

Os funcionários públicos  e pensionistas não irão perder os subsídios de férias e de Natal. Vão ter reduzidos os seus vencimentos nos dois próximos anos em 14,3%!! Não contando com o agravamento de impostos... Abatidos os funcionários públicos, irão emergir como cogumelos os empreendedores....Ou não!!
Como Sócrates, Passos Coelho usa estes cidadãos de segunda como escudo. Até quando a resiliência?

Saúde para todos


Existem três tipos de sábios, os cadentes, os de sempre, e os emergentes. Na verdade, dos primeiro há apenas um (Medina Carreira), os de sempre são os de sempre (basta ligar a SIC e ouvi-los comentar sempre na mesma direção) e agora há um sábio emergente (António Barreto). Este sábio emergente deu recentemente uma entrevista ao Expresso onde despeja a sua ciência sobre Saúde e o serviço nacional e conclui uma coisa simples: não temos dinheiro para manter um serviço universal e gratuito. Vai daí a solução, os ricos (a definir) que a paguem! Sendo o dinheiro um bem escasso, não é necessariamente um bem inexistente. Existe, importa saber como melhor se pode usar.
O problema da saúde não é económico, é político. E a questão básica no pagamento dos seus custos é decidir quem deve suportá-los: os doentes ou todos os cidadãos, solidariamente. Num Estado solidário, parte-se do princípio político (porque a política tem princípios ao contrário da economia onde só existem fins) de que aos doentes não deve ser acrescentado o ónus de uma situação que não escolheram voluntariamente e, portanto, a eles não deve ser aplicado o princípio do utilizador pagador. É uma questão de justiça e por isso se lhes dá o direito de, na situação de doença, não terem ainda a segunda desvantagem de ter que pagar os seus custos. Partindo deste princípio de solidariedade em que ao Estado cabe assegurar de forma gratuita a saúde dos seus cidadãos, onde se pode encontrar o dinheiro para pagar as despesas da saúde? O Estado só tem uma fonte de recursos, os impostos. Portanto, é aí que terá de recorrer para se suportar os custos da saúde universal e gratuita. Obviamente, que se não deve gastar sem controlo e que é fundamental criar regras de controlo das despesas (ser eficiente), mas isso não significa que se corrompa o princípio básico de que não devem ser os doentes os castigados com o pagamento de uma situação que não desejaram. Nem os ricos merecem o duplo castigo de estar doentes e ser penalizados com os custos do seu tratamento! Mais sentido fará, se houver vontade política de respeitar o tal princípio, que se aumentem os impostos para se gerar a receita que permita garantir a saúde a todos (por exemplo criando um imposto dedicado). Com o reforço da eficiência e eventual aumento de receita fiscal (se necessário) é possível ter o dinheiro que o sábio diz não haver. Pelo menos é isto que pensa um não sábio, que não preside a nenhuma Fundação e não descarrega sabedoria do alto de uma torre das Amoreiras. Eu apenas sei o que é o azar de ter uma doença, porque lido com essa realidade todos os dias.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Steve Jobs (1955-2011)

É verdade: não tenho nem nunca tive um iPod, um iPhone ou um iPad.
Constatei hoje isso. Sobrevivi. Como foi possível?

sexta-feira, setembro 30, 2011

Justiça, a desejada

Um fugitivo à justiça americana foi caçado depois de uma ausência das cadeias durante vários anos. Aparentemente, seria um cidadão reconvertido ao bom caminho (mesmo depois de ter morto alguém e desviado um avião onde terá posto o FBI em cuecas). Deverá agora ir cumprir pena. A prisão não foi o seu instrumento de reconversão ao bom caminho. Foi a vida. Para quê estragar-lhe agora a vida que lhe resta? A função da restrição da liberdade será mais a publicidade do que é proibido fazer ou induzir à reflexão?
Outro fugitivo à justiça por (prováveis) crimes económicos foi também preso. Acredita-se que a habilidade dos advogados o libertará muito em breve. O sinal para a sociedade poderá ser que o crime desde que bem feito pode compensar, porque até nem o será.
Em resumo, o primeiro fica preso e o segundo é libertado, quando, a sociedade provavelmente mais ganharia com a libertação do primeiro e a restrição do segundo. Mas isto é intuição, humanismo, justiça e coisas menores quando comparadas com o grande Direito.
A despropósito, há uma ministra desaparecida em lugar incerto, provavelmente num retiro onde se encontra a escrever, escrever, escrever a grande reforma da Justiça. Espera-se que chegue numa manhã de nevoeiro.

quinta-feira, setembro 29, 2011

(I)moderação

Gostamos de chamar nomes suaves às coisas. Assim, a cobardia não transparece nem se mostra como aconteceria com o bom rigor das designações. Uma TAXA MODERADORA como o nome indica é algo que visará impedir um consumo indevido, uma tentativa de condicionar um consumo inútil de recursos. Por isso, dar este nome, como o fez o Ministro Correia de Campos, a uma taxa que era paga quando os doentes eram internados, era abusivo, era cobardia, porque, obviamente, se tratava de um co-pagamento e, possivelmente, inconstitucional por que a saúde era (e espera-se que continue a ser) tendencialmente gratuita.
Agora, o novo ministro veio determinar taxas moderadoras para famílias com rendimento acima de 1000 e tal euros. Não são taxas moderadoras, porque são, de novo, co-pagamentos. Com efeito, se o objetivo é moderar o consumo por que razão se isentam uns e penalizam outros? Com pés de lã, tentam chegar onde efetivamente querem chegar, aos co-pagamentos. É indecente penalizar com uma taxa quem é condicionado pelo médico prescritor a marcar uma consulta ou a fazer exames auxiliares. O doente apenas obedece a uma instrução, que responsabilidade pode ter na ordem que um técnico «habilitado» lhe dá?
Mais sensato, muito mais sensato, seria que os prescritores fossem responsabilizados pelos exames auxiliares que pedem e medicamentos que receitam!! E tanta imoderação que aí grassa e desresponsabilizada.

terça-feira, setembro 27, 2011

Moedas de troca (tintas)

“As pessoas em Portugal não vêem o que se passa no dia-a-dia lá fora, com números negativos a sair todos os dias nos Estados Unidos da América, e ao termos esta incerteza, obviamente que os cenários [macroeconómicos] têm de ser modificados, mas não por não estarmos a fazer o que temos de fazer, mas sim pela situação internacional”,


Uma ajuda: Não, não foi Teixeira dos Santos nem José Sócrates que disseram. Quando eles diziam, quem agora diz, dizia que o problema deles se não explicava pelo que acontecia na conjuntura económica internacional, mas era um problema de má governação nacional. Mas isso era dantes. Bastaram menos de 100 dias para virar o bico ao prego. Moedas com duas faces afinal tão iguais!

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domingo, setembro 25, 2011

Discurso de outro presidente

“O senhor almirante Sarmento Rodrigues quis que eu dissesse algumas palavras. Ei-las. Tenho quase todos os livros que ele escreveu, todos eles com amigas dedicatórias, também um pequeno folheto que ele publicou sobre o canário encarnado porque ele preocupou-se imenso em conseguir um canário que não fosse da cor habitual e de vez em quando lamentava-se de não conseguir obter aquele canário que ele tanto desejaria possuir. E agora mais um simples episódio para juntar àqueles que eu ouvi aqui citar. Ele era muito meu amigo. E uma vez resolveu dar, dar-me dois periquitos, os melhores periquitos que tinha na sua colecção. Cheguei a casa com eles muito contente, mas em casa não receberam bem os periquitos. Resultado: tive de dar que os dar. Um deles sei a quem o dei. Tá aqui presente a pessoa: o almirante Noronha Andrade. Mas não lhe disse nada que me tinha desfeito dos canários (uma voz: dos periquitos), dos periquitos digo. E mais tarde, uns anos depois ele diz-me assim: então o senhor deu os melhores periquitos que eu tinha e que eu lhe tinha dado com tanto gosto? É verdade, dei porque não os podia ter em casa, mas não lhe disse nada para não o desgostar. Afinal de contas houve alguém que deu com a língua nos dentes e você ficou zangado comigo. Zangado não fiquei porque sou muito seu amigo.”


A História não se repete? É procurar as diferenças!