sexta-feira, junho 03, 2011

Verdade e mentiras


Não há argumentos, apenas o medo prevalece. Com efeito, não resiste a qualquer análise racional esta negação dos poderes reinantes quer seja na Grécia, na Irlanda, em Espanha, na Itália, mas também na Alemanha.Os povos são simples e estão estupidificados, não têm ideologia (que os poderes se encarregaram de arrasar), não têm outra qualquer noção que seja a fuga para a frente e uma esperança (quase sempre demonstrada como vã ao longo da história) de que o que vier será um pouco melhor. A desilusão vem cerca de meio ano depois, onde já ninguém assume as escolhas que foram feitas. Assim vai ser aqui e agora.
Desta vez o paradoxo foi levado ao extremo com a elaboração de um programa prévio por uma entidade estranha, que os que agora se guerreiam, vão escrupulosamente executar (ou pensam que executarão) contra as necessidades dos que, por momentos, conseguiram iludir. A decisão é muito maior que entre opções clubistas por partidos, mas exige a coragem de mudar quase tudo nas nossas vidas e isso é aquilo que o medo não deixa vencer.
Este sistema de vida teve um pequeno terramoto em 2008, mas a lição que poderia ser tirada foi ocultada, escondida para que a «vida» pudesse continuar a ser como dantes. Estão, momentaneamente, refeitos. Só que as contradições internas e a insustentabilidade da mentira dessa vida voltarão a emergir num maremoto que tem de acontecer. Não, a história ainda não acabou e a onda haverá de chegar para os engolir, porque o progresso não é o avanço de uns cada vez em menor número, deixando de fora outros cada vez em maior número separados por um fosso que não pára de os afastar.
Naturalmente, entretanto, assaltarão os turistas no Algarve, roubarão as casas, pilharão o que puderem, devido à insustentabilidade da mentira. A real, não a de Sócrates, porque a deste é igual à de Portas e Coelho. Estes todos mentem à vez, tentando fazer-nos consumir a bebida inebriante da democracia do alterne. Meros instrumentos, como as outras, do dono da Casa, o Poder Financeiro.
(Imagem roubada (ladrão que rouba ladrão....) em http://devaneiosaoriente.blogspot.com/2011/05/passos-coelho-paulo-portas-e-jose.html)

segunda-feira, maio 23, 2011

Lá há aquele tempo que começa logo bem cedo antes do calor chegar e que dura como as pilhas do anúncio. Depois há o calor e a urgência de recolher ou da sesta e finalmente o dia recomeça já perto de acabar antes do mergulho final do sol, antes da ascensão da lua. Ali há tudo, com momentos e com cheiros com chilrear de pássaros e com silêncios como nas interpretações da Maria João Pires. Naquele sítio, nunca um dia é igual a outro, mesmo tendo ciclos de chegada e de partida, Nunca a rotina, que destrói o tempo daqui. Lá há momentos sempre irrepetíveis, únicos que se agarram à memória renovando-a. Aí percebo que a Vida é uma sucessão de momentos, não de rotinas geradoras de demências, os contornos são nítidos e não esfumados por uma mistura de cores sem sentido, redutora, aquilo que resulta da mistura ao acaso na paleta, a cor de merda.

sexta-feira, maio 20, 2011

A biblioteca em fogo


E agora que os estou a transplantar das urnas escondidas, onde os tinha enterrado há espera de melhores dias, e finalmente os levo para o novo local de vida, constato o tempo todo que perdi no adiamento da sua leitura e, por instantes, vem à ideia o risco de já não haver tempo para a tarefa de os consumir. Passamos demasiado tempo distraídos, convencidos, que o tempo não é urgente, que vai existir sempre até que um dia, de repente, percebermos a sua finitude. Há cada vez mais esse risco, à medida que o tempo passa. Ainda só uma constatação da razão, felizmente, sem a sensação dessa realidade. Mas só imaginar, já é suficientemente angustiante. É necessário, cada vez mais a cada dia que passa, caber no tempo. É imperioso e urgente ganhar o tempo, não perdendo nem um milésimo de segundo do seu escoar.

quinta-feira, maio 19, 2011

Fs

Depois de ver mais um debate:
O grande problema é a necessidade de encontrar uma solução global para 10 milhões numa terra onde há 10 milhões de soluções para a resolução de cada caso pessoal. Uma nação é muito mais que um somatório de indivíduos ou de seitas, é uma construção coletiva e solidária. E há anos que se anda a matar a solidariedade como valor.
Já nem se estranha que os telejornais abram e se demorem na visão da euforia do FCP (uma nação! li num cartaz...) . A isso se está reduzido, ontem, Fátima, hoje o Futebol, sempre, o mesmo Fado.
Há uma urgência de Fuga

.

Leituras e traduções

1. Elogios dos Soares (os grandes ratos) a Portas. Tradução: quanto mais votarem nele, menos votos tem o Coelho, logo mais possibilidades terá o Grande Líder de continuar a ser o mais votado.
2. Diz o Grande Líder que o PR tem de escolher o partido mais votado para chefiar o governo . Tradução: só assim consegue ser PM e depois logo se vê... Talvez o Portas venha a «sacrificar-se» uma vez mais pela Nação como acabou recentemente de fazer ao apoiar o pacto com o «Triunvirato».
3. Coelho só será PM, se for o mais votado. Tradução: (Deve ser um bom jogador de poker este Coelho). Bluff absoluto! Se  querem um governo à direita, concentrem os votos no PSD. É a única forma de este se distanciar do PS e reforçar a sua legitimidade como partido maioritário de Governo. Depois dará uns lugarzitos ao Portas.
4. É possível um governo maioritário PSD/CDS, diz Portas. Tradução: Já desistiu de ser PM e  o seu objetivo é levar o maior número de ministros para o governo.
Eles não dizem, mas pensam (ou será que só calculam?).
E o Povo, pá? não entra na equação?

quarta-feira, maio 18, 2011

Dois consensos e incongruências

É curioso observar sta consensualidade relativamente ao futuro programa de governo escrito pelo FMI e Cia. São provavelmente mais de 80 % dos portugueses que vão apoiar nas urnas tal coisa. Presumivelmente, 6 meses depois de o futuro governo ter tomado posse, todos terão vtado nos restantes 20%. Pobre democracia de voto secreto!
Aliás, gerou-se outro consenso: a grande maioria das pessoas já percebeu que os portugueses andaram a gastar mais do que produziam e que, não restam dúvidas, eles (os outros) terão de produzir mais e gastar menos. Só que isso se aplica ao todo, mas não às partes, a cada um, porque, cada um, considera que produz o máximo e consome o mínimo possível. A culpa é deles (dos outros), como habitualmente. Ou seja, este é um país onde o todo não é a soma das partes.

domingo, maio 15, 2011

Coelho fica à porta

Cuidado com eles que não têm o ar agressivo e aguerrido dos lobos ou de outros predadores, mas, bem vistos os efeitos não deixam de ser igualmente destrutivos, ainda que tenham aquele ar dócil e fofinho que pode encantar até as crianças. Quem os vir sempre cautelosos e tímidos não lhes imagina a argúcia e a capacidade de ultrapassar obstáculos e destruir a produção. Atacam geralmente durante o escuro, trabalhando afincadamente pelos seu objetivos perversos.
Este foi um fim-de-semana em que iniciei a luta contra o coelho, mostrando-lhe que, no quadrado se não entra sem autorização, que este espaço é para desenvolver e obter os frutos do trabalho e não para entregar a parasitas manhosos.
Aqui o coelho fica de fora.

quinta-feira, abril 14, 2011

Três perguntas sobre a motivação das coisas

  1. Será que se construiriam hospitais se não houvesse doentes?
  2. A existência de médicos, só por si, justificaria o investimento? 
  3. E, já agora, os construtores civis seriam motivo suficiente para ter de os fazer? 

terça-feira, abril 12, 2011

Do virtual ao real

Começaram por dançar o tango, amuaram, depois foi às escondidas. E quem começou por dizer que tinha sido só (virtualmente) ao telefone, assume agora finalmente a relação real. Pelos vistos correu mal e foi um ato interrompido com todos os malefícios que isso traz à saúde e ao bem-estar.
Do virtual ao real ou os (maus) passos do coelho na busca da toca poderia ser o título longo da novela.
Mais coisa menos coisa estamos condenados a seguir os episódios deste amor mal-assumido, que acabará possivelmente em casamento com chispas de ódio e traições à primeira oportunidade.

segunda-feira, abril 11, 2011

Coelhos

Quando chego pela noite, encaro-os especados na beira da estrada indecisos no caminho a seguir. Geralmente, decidem-se pela travessia brusca ou atiram-se contra as cercas de arame procurando enfiar-se onde calha. Nervosos, sem rumo, os coelhos. São novitos, pouco refletidos, inseguros no caminho, a tentarem mostrar a eficácia de que são capazes em zigue-zagues sem fim, com passos rápidos e precipitados.
Algo de semelhante acontece ao outro Coelho, que agora escolheu um nobre sem tradição para lhe liderar uma lista que a primeira escolha tinha recusado. Nobre de segunda escolha e logo candidato a segunda figura do estado. Boa escolha para quem não quer  dar só um tiro no pé, mas auto-amputar-se sem demora!

sexta-feira, abril 08, 2011

Privilégios

No dicionário define-se como «Vantagem concedida a uma ou mais pessoas, com exclusão de outros e contra a regra geral: os privilégios da nobreza». Ainda uma herança de tempos de feudalismo, foram-se renovando, aperfeiçoando, atenuando também alguns, mas mesmo que muito decepados, resistem como as hidras.Chegam a estar dissimulados com o meio ambiente, mas estão lá em tudo o que resta de poder não controlado de forma objetiva e transparente. Acontece mesmo que na irracionalidade do destreino do pensamento, pode até acontecer que os próprios beneficiários já nem disso dêem conta de tal forma os incorporaram nos seus direitos naturais, que isto da natureza humana tem muito que se lhe diga. Enchem os dias das gentes e são trasnversais aos níveis sociais. Aliás, os níveis sociais só se percebem porque eles existem e só eles os justificam e mantêm. Momentos há na história em que têm crises de atenuação determinadas pelas circunstâncias e importa, que nessas alturas, o regulador da nova ordem não faça desaparecer uns para acentuar outros. Este é um momento onde isso pode acontecer se não se for suficientemente vigilante.

quinta-feira, abril 07, 2011

Salvadores

Afinal a crise está a ser resolvida. Os desempregados, os reformados e todos os enrascados, conhecedores do funcionamento destas coisas, tinham comprado, na véspera, acções da Banca aos milhões,  saindo dessa forma da situação desesperada em que se encontravam.
PSDPSPSDPSPSD (ler ao longo dos últimos 30 anos pela ordem que se achar melhor com mais ou menos D é igual) fizeram, mais uma vez, a opção certa  e o país vai em frente (depois de estar na beira do precipício).
(foto roubada no Público online)

quarta-feira, abril 06, 2011

Ao Fundo!


Meu país meu pais
Do céu límpido calmo
De campos cultivados
De praias e montanhas.

É para ti meu canto
A minha esperança.

Ouço a tua voz triste
Oh, meu país sem culpa
Ouço-a nos dias mornos
No amanhecer cinzento.

E é para ti meu canto
A minha esperança.

Meu país onde a traição domina
E o medo assoma nas encruzilhadas
Meu país de prisões e covardias
E de ladrões de estradas.

Meu país de operários
Cavadores, marinheiros
Meu país de mãos grossas
Plebeu, sensual, resistente.

É para ti meu canto
A minha esperança.

Para ti meu país
Levanto a minha voz sobre o silêncio
Desta noite de angústias
E de medos.

Nada pode calar
O nosso riso aberto
Ei-lo que invade
A terra portuguesa
E vozes juvenis formam o coro.

Por isso é para ti meu canto
A minha esperança.

Já ouço passos,
Vêem na distância
Desfraldando bandeiras e cantando
E é para ti oh! meu país liberto
O seu canto de esperança e claridade



(Daniel Filipe)

sexta-feira, abril 01, 2011

Perguntas

Duas perguntas:
  1. Quanto tempo sobreviveu a Humanidade sem a Banca e o poder financeiro?
  2. Quanto tempo mais sobreviverá a Humanidade com a Banca e o Poder Financeiro?
Qualquer estratégia de vitória, exige a definição concreta do inimigo principal. Identificado o alvo, o passo seguinte é acertar-lhe e liquidá-lo. Na luta pela sobrevivência não há limites para o arsenal.

segunda-feira, março 28, 2011

Premiados

A arquitectura é a poesia da edificação. Deve ser por isso que, num país de poetas, 2 portugueses chegaram ao prémio Pritzker. A poesia é o sonho por onde se vai, a engenharia a prosa da obra. Arredados do trabalho e do cálculo matemático, resta o projecto. Ao menos isso, que alguns sejam maiores que o país pequeno e periférico onde nasceram. Isto apesar do escritor António achar que, pelo contrário, Portugal é um país grande e central. Grande e central será porque o tem a ele, certamente. Mas seguramente ainda mais, porque Saramago um dia concebeu uma jangada.
A uns aprecio a linearidade simples e a função dos espaços e da escrita precisa; já o outro me parece ocupar espaço excessivo pela insuflação do ego.

sábado, março 26, 2011

quarta-feira, março 23, 2011

A dois tempos

Primeiro tempo: É difícil parar e não aceitar solicitações adicionais, porque o que se quer não tem limite, nem razão. Assim, até acaba por ser bom ter uma entidade que regula a nossa disponibilidade para fazer sempre mais. A proibição acaba por não ser privação de liberdade, mas a própria liberdade.
Segundo tempo: Estou num país desesperado e quando assim se está  são grandes os riscos de, à beira do abismo, se fecharem os olhos e se dar o passo em frente, saboreando o sopro de uma queda que vai inevitavelmente ter um fim. Só pelo prazer da aragem sentida enquanto o tombo dura. O problema, aqui como no Japão, não é deitar abaixo, mas levantar depois.   


segunda-feira, março 21, 2011

Dia de...

Os poemas, dispostos na folha de papel como ilhas num mar do espaço branco desaproveitado, são a forma menos eficiente de escrever. Mas que ninguém os culpe do abate de árvores inocentes, porque muitas vezes a beleza só aflora quando se não faz o aproveitamento exaustivo dos recursos. No branco da página há o oxigénio que alimenta as palavras.
Deve ser por isso que neste dia se comemoram árvores e também a poesia.

sábado, março 12, 2011

esPECados

De PEC em PEC, aqui ficamos especados como os cavalos na paisagem em dia de chuva fria. Especados e chateados, a arrefecer. Contra, passeando na rua, agora que o cansaço e o fim do crédito impede o consumo de fim-de-semana no Colombo. Perturbador é assistir a esta multidão sem ideologia a deslizar o desabafo avenida abaixo alegres por lutarem, barafustando contra o inimigo de agora, esquecendo que já o fizeram contra o inimigo de outrora que agora até elegeram Presidente. O mesmo a quem, agora esquecidos, pedem a solução... Uma manifestação de descontentes, não politizada, sem liderança, para que serve?
Haverá vontade real de dar a volta a isto, perceber que esta Economia nos não serve ou apenas se quer mudar, esquecendo que para pior já basta assim? Porque já anda de orelhas espetadas quem se prepara para, depois de sair da cartola, nos dizer que afinal a coisa estava ainda mais negra do que se pensava, as contas do Estado são uma calamidade maior e por isso, não só vamos confirmar todos os PECs, como vamos ainda ter necessidade de fazer maiores sacrifícios, por exemplo, pagar a saúde, a educação, limitar as reformas, acabar com qualquer garantia de emprego em troco de umas esmolas aos mais pobrezinhos. O Estado na sua versão mais short, verdadeiramente de tanga.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Qualidade de vida

Mas que sentido faz tornar a viagem mais londa e duradoura, quando o veículo em que se viaja tem vidros opacos e não deixa perceber a paisagem? Que vida é esta sem o contacto e a interpretação?
São coisas assim que vêem à ideia quando se percorre uma enfermaria de Medicina.

domingo, fevereiro 20, 2011

Alguma matemática da felicidade

Na minha maneira simples de olhar as coisas, deixo de parte as intrincadas discussões psicológicas. Este Cisne Negro, basta-me pela denúncia (eventualmente involuntária, mas ainda assim presente) de um mundo de sofrimento dos que visam a perfeição e sofrem por não conseguirem ser a vedeta da companhia. Muito mais gratificante é caminhar ao lado, quando não mesmo empurrar para a frente, os que nos acompanham a jornada.`´E na lembrança deles que se pode sobreviver. Há, necessariamente um horizonte temporal e finito a curto prazo. Sempre. E a humanidade não se justifica pelos seus outliers, mas sim pela sua média. Mantê-la de forma sustentada é promover os dois desvios-padrões acima e abaixo do percentil 50. O resto é infelicidade.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Objectivos

Há muitas maneiras de subir uma montanha. Pode ir-se devagar olhando as flores em volta, as formas das pedras em que nos projectamos vendo cabeças e cães, acompanhando a marcha dos que vão connosco, mostrando uns aos outros o caminho e as descobertas e ser esse o objectivo da caminhada comum ou, por outro lado, olhar para o contorno lá em cima e imaginar que quando lá chegarmos teremos atingido a visão suprema do mundo. Os que assim caminham seguem apressados, perdendo as emoções da paisagem ao passarem por ela, correm, deixam os companheiros progressivamente para trás até deixarem de os ver e chegam ao cimo em primeiro lugar e sozinhos conquistam o seu objectivo da descoberta imaginada. Quantas vezes se não instala nesse instante a decepção, porque afinal não era ali o topo do mundo e lá chegados apenas há mais um vale e um contorno de outra montanha mais além? Valeu a pena ter perdido a paisagem e ter saído do passeio colectivo? Instalada a frustração há quem reaja correndo, alienado, de novo pela próxima montanha acima para chegar ao mesmo resultado e continue mais e mais, em busca de uma ilusão. Sozinhos.
Afinal o Everest está só ao alcance de uma minoria muito escassa e, mesmo esses, quantas vezes regressam  sem se lembrar do que viram deixando a bandeira como prova sem nada terem provado além da provação da dor por que passaram.
Isto de trabalhar por objectivos tem que se lhe diga.

domingo, fevereiro 13, 2011

Se tu queres um amigo, cativa-me!

A amizade parece ser agora uma espécie de doença infecto-contagiosa. A cada dia surgem mais propostas de amigos, desconhecidos, que são afinal amigos de algum dos nossos amigos. Se és amigo do meu amigo, meu amigo serás. Basta um contacto breve, ocasional, por interposto parceiro e zás, mais um amigo. Como a transmissão do vírus da sida. A amizade está a ficar doentia e infecciosa.
Peço aqui desculpa de não aceitar todos os convites do Livro das Caras, mas não acho que não devo reduzir a amizade à patologia.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Sem rede

No meio do tempo em que pouco acontece, surge por vezes um estremecimento que convida à paragem. Mediaticamente é dos instantes em que se convidam professores especalistas a comentar o acontecimento, se entrevistam populares emocionados e se fazem mais uns lamentos. Depois de uns dias tudo vai passar e continuar a estar como estava. Sem importância, porque nos habituámos a apenas vlorizar o instante das surpresas!
Que parvos que somos!!!
Somos parvos porque andamos a maior parte do tempo com falta de tempo na lufa-lufa da geração de valor para os poucos que todo o tempo têm e nos esquecemos de desfrutar o nosso tempo e depois, como não bastasse o desperdício, vem o tempo que não tem fim, o da solidão da sobrevivência sem esperança nem objectivo em que se somam aos dias outros dias. É a altura em que os milhares de amigos do facebook se sumem e pouco mais se soma à vida, porque no tempo que se perdeu a adicionar amigos que mal conhecemos, fomos ficando vazios dos amigos reais, dos que têm físico e alma. Anda-se nas nuvens numa sociedade sem rede, num exercício de equilibrismo, começamdo a perceber-se que as redes sociais irão ser completamente inúteis na altura do trambolhão. Esta terra não está feita para velhos. Aceita-se como um fado a que se não pode fugir, que um qualquer poder não bem percebido, meio oculto e inevitável, nos comande e nos deixe ficar fechados, literalmente mortos, durante anos, no prolongamento de uma vida que já há muito estava morta.
Parvos que somos, quando não reivindicamos a nós próprios uma vida diferente da morte. De que se está à espera?

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Lyrics


Porque o som dificulta a percepção do conteúdo, aqui fica a ajuda:

Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
Sou da geração "casinha dos pais"
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
Sou da geração "vou queixar-me pra quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração "eu já não posso mais!"
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Renascimento

Ainda a manhã ia saindo do escuro da noite e veio-me à memória uma das antigas músicas, onde afinal eram as palavras o importante:

Num registo pessimista que me persegue os dias, na desesperança de ver uma juventude acomodada, cheia de fado e conformada, logo pensei nas diferenças entre a música que vivi e a música que agora se vive, onde as palavras minimalizaram e a música embruteceu as cabeças sacudidas até à exaustão impulsionadas por múltiplos shots em fim de noite madrugada adiante.
Mas já ao fim da tarde deparei com isto
e surpreendi-me e ri. Parece que ainda há esperança de que os conteúdos se sobreponham à alienação do já não posso. Agora, sim, vamos dar a volta a isto! Música de intervenção outra vez. Boa!

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Senhor Presidente

Uma das guerras para onde presumivelmente nos vão querer enviar é a guerra da destruição do Estado Social, onde o fim do Serviço Nacional de Saúde será uma batalha decisiva. Por isso aqui fica:

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Loucos


Poema Pero Ya No Hay Locos de Leon Felipe


Ya no hay locos, amigos, ya no hay locos. Se murió aquel manchego, aquel estrafalario fantasma del desierto y … ni enEspaña hay locos. Todo el mundo está cuerdo, terrible, monstruosamente cuerdo.
Oíd … esto,
historiadores … filósofos … loqueros …
Franco … el sapo iscariote y ladrón en la silla del juez repartiendo castigos y premios,
en nombre de Cristo, con la efigie de Cristo prendida del pecho,
y el hombre aquí, de pie, firme, erguido, sereno,
con el pulso normal, con la lengua en silencio,
los ojos en sus cuencas y en su lugar los huesos …
El sapo iscariote y ladrón repartiendo castigos y premios …
y yo, callado, aquí, callado, impasible, cuerdo …
¡cuerdo!, sin que se me quiebre el mecanismo del cerebro.
¿Cuándo se pierde el juicio? (yo pregunto, loqueros).
¿Cuándo enloquece el hombre? ¿Cuándo, cuándo es cuando se enuncian los conceptos
absurdos y blasfemos
y se hacen unos gestos sin sentido, monstruosos y obscenos?
¿Cuándo es cuando se dice por ejemplo:
No es verdad. Dios no ha puesto
al hombre aquí, en la Tierra, bajo la luz y la ley del universo;
el hombre es un insecto
que vive en las partes pestilentes y rojas del mono y del camello?
¿Cuándo si no es ahora (yo pregunto, loqueros),
cuándo es cuando se paran los ojos y se quedan abiertos, inmensamente abiertos,
sin que puedan cerrarlos ni la llama ni el viento?
¿Cuándo es cuando se cambian las funciones del alma y los resortes del cuerpo
y en vez de llanto no hay más que risa y baba en nuestro gesto?
Si no es ahora, ahora que la justicia vale menos, infinitamente menos
que el orín de los perros;
si no es ahora, ahora que la justicia tiene menos, infinitamente menos
categoría que el estiércol;
si no es ahora … ¿cuándo se pierde el juicio?
Respondedme loqueros,
¿cuándo se quiebra y salta roto en mil pedazos el mecanismo del cerebro?
Ya no hay locos, amigos, ya no hay locos. Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto
y … ¡Ni en España hay locos! ¡Todo el mundo está cuerdo,
terrible, monstruosamente cuerdo! …
¡Qué bien marcha el reloj! ¡Qué bien marcha el cerebro!
Este reloj …, este cerebro, tic-tac, tic-tac, tic-tac, es un reloj perfecto …,
perfecto, ¡perfecto



E no ciclo da vida se progride da hiperactividade e défice de  atenção enquanto crianças, para a depressão da idade adulta e a demência na velhice. Quase todos... loucos.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Vender a dívida?

É seguramente mais chique e dá muito mais status. A partir de agora sugiro que se não peçam mais empréstimos aos bancos. Na verdade o que devemos fazer é vender-lhes dívida, pois o estatuto do vendedor é bem  superior ao do comprador, quem vende tem a propriedade da coisa, não é um maltrapilho qualquer que precisa de comprar devido às suas necessidades. Mesmo que a propriedade seja a dívida, vender a dívida é bem melhor que pedir (horror!) um empréstimo. Nós não somos pedintes, mas proprietários... da dívida.

domingo, janeiro 16, 2011

Crise... de valores

Aos poucos desapareceram das páginas dos jornais as críticas de cinema. Em substituição, dão-nos agora a informação do número de espectadores que cada filme em exibição tem. A opinião especializada foi substituída pela opinião do consumo.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A dívida e as dúvidas

Implica a lucidez que se percebam coisas básicas. Por exemplo, uma máquina produz algo, gera valor, contudo, não vive. É manipulada pelo dono para executar. Viver é algo mais do que fazer coisas, produzir. Viver é entender o que se passa a nossa volta, conseguir ter opinião, fugindo a todos os potenciais manipuladores sempre prontos a fazer-nos achar alguma coisa. Ou seja, a induzir-nos na «verdade» da opinião publicada. Primeiro, dizem o que deve ser pensado, depois esperam que se palre a história dando a possibilidade histórica de se aparecer na televisão a debitar a coisa. Cinco minutos de fama. Este é o orgasmo vital de tantos a quem se pergunta nos telejornais o que acham das mais variadas coisas.
Há por hábito, até de educação,  procurar o fácil e desvalorizar o rigor. Até porque o rigor exige pesquisa, dá trabalho, e o que se ensina é o êxito fácil, havendo mesmo uma cultura de eficiência que privilegia o desenrascanço e desmerece o investimento no trabalho. (É como achar normal aplicar num investimento 100 e retirar 240, sem nada ter sido acrescentado além da habilidade da escolha). E a vida está actualmente cheia de uma complexidade crescente, agravada pela vertigem que nos é imposta, pela avalanche exponencial do crescimento do conhecimento, que torna cada vez mais difícil a compreensão do mundo. O desenrascanço, negando o esforço, leva ao refúgio no grupo para o qual emocionalmente somos atraídos, o que garante a comodidade de sabermos que outros estão connosco, mas não a razão das opções feitas. Esta tendência tem como resultado natural a procura dos grupos maiores, por ser aí maior o apoio dos pares, com marginalização das franjas, onde quase sempre se localizam as elites e o progresso. Assim, quase sempre, mais do que ser-se por uma solução, é-se fundamentalmente contra a solução do grupo opositor e quando um resultado não é o desejado intimamente, diz-se que foi um bom resultado para os outros nossos adversários. Daí o título sugestivo de Boas Notícias para o Governo. Terá sido apenas para o Governo?

Olhando para a evolução da dívida pública de vários estados europeus em percentagem do PIB desde 2008 a 2009, parece evidente que alguma coisa de estranho aconteceu em 2008, porque quase de forma invariável em todos os Estados, os valores aumentaram de forma considerável.
Curiosamente, Portugal nem parece ser o país em que a progressão é mais acentuada:
                     2008           2009           Aumento
 Alemanha      66,3            73,4                10,7
 Espanha         39,8            53,2               33,7
 França           62,5            78,1               25,0
 Grécia          110,3         126,8                15,0
 Irlanda           44,3           65,5                47,9
 Portugal         65,3           76,1                16,5
 Reino Unido   52,1          68,2                 30,9
Conclusão: a percentagem da dívida em relação ao PIB não é das maiores (muito maior é na Itália, Bélgica ou na Grécia) nem um resultado apenas da administração do actual governo. O agravamento foi generalizado sendo o de Portugal apenas intermédio.
Ter um valor baixo da dívida em relação ao PIB não é propriamente bom sinal se tomarmos como referência os valores dos vários estados mundiais, onde as maiores percentagens se encontram no Japão, América do Norte e Europa:
Portanto, o problema não é ter uma grande dívida, mas saber onde se está a empregar o dinheiro que foi pedido. De que forma se está a regular a coisa que permite, por exemplo, que no ano passado as vendas dos porches tenham subido mais de 70%, fazendo-nos duvidar da existência de uma crise realmente séria. Como se pode assim compreender a necessidade de penalizar grupos subtanciais de cidadãos, impondo-lhes sacrifícios objectivos e dificilmente suportáveis, quando se antevê que desse efeito resulte mais constrangimento económico e recessão? Por que razão há uma urgência da destruição do Estado investidor para se suportarem privados que, nesta conjuntura de risco acrescido, dificilmente o assumirão? Não seria bem mais lógica a promoção do investimento público bem gerido, estimulante da produção e do emprego? O risco do Estado, dada a sua não-necessidade de lucro, seria sempre inferior e por isso mais viável, desde que isso não significasse criação de benefícios para um grupo, mas para o colectivo. É aqui que entram os homens e se iniciam as dificuldades...
  

terça-feira, janeiro 11, 2011

E os mercados em Lisboa?



Quando os invadidos de ontem se juntam aos seus invasores para invadirem com eles os novos invadidos, tem de haver aqui alguém que se refugie algures e que resista. Nestas alturas, é sabido, que há sempre alguns dos invadidos que anseiam a invasão na esperança, nem sempre vã, de virem a participar no festim. Tem sido sempre assim, mas sempre também a resistência tem sido mais forte e, aonde ainda não triunfou, também a vitória será certa, porque haverá sempre uma janela por onde sairão, mais cedo ou mais tarde, porque a história não vai acabar aqui.

Indoor

Gostei deste indoor.
É necessário, imperioso e urgente! Uma questão estética e seria excelente se a mancha não alastrasse por mais cinco anos durante os quais, para cúmulo, é bem possível que um Coelho de passos mais que duvidosos  lhe venha a fazer companhia. Será com amargura e tristeza que veremos, então, fechar as portas que Abril abriu e o tratamento é sempre mais complexo que a profilaxia. Mas o risco, na República, é real. É preciso avisar toda a gente!

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Elogio da poesia

A formação económica, afinal, é fundamental para o sucesso e o problema de todos nós, os comuns, é que não somos professores de Economia.
Se fossemos professores de Economia, saberíamos como fazer para investir as nossas poupanças com sucesso de 140% em 2 anos e teríamos  também estes desempenhos notáveis. Como não sabemos nada de Economia, vamos ficando desempregados ou com os ordenados reduzidos, sobrevivendo apenas. A culpa foi nossa que nunca aprendemos Economia e, por isso, não entendemos nada deste mundo e pensamos que os mercados são apenas os locais onde se vão comprar as couves. Ai, se nos fossemos todos professores de Economia! Sabíamos o que é gerar valor e não tínhamos a noção lírica que os poetas têm da ganância.
Se fossemos, se calhar, os professores de Economia iam ter algumas dificuldades, porque, realmente, só conseguem ser professores num mundo cheio de ignorantes em Economia ou num país de poetas.
Celebre-se a arte do senhor Professor de Economia, mas tenha-se a consciência que, o que faz por si, afinal não tem a generosidade de fazer pelo país a que preside. Imagine-se se conseguisse investir com a sua mestria as poupanças de todos nós! Era uma vez uma crise! Pensando, melhor, para que nos serve um Presidente professor de Economia que não usa os seus grandes conhecimentos a nosso favor? Mais vale, certamente, acreditarmos nas virtudes da Poesia.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Cinzento


Cinzento começou o ano, com ameaças de preto absoluto no horizonte. E como precisávamos de um ano, pelo menos, Alegre, na impossibilidade real do vermelho triunfar!
Cinzento mas não só, demasiado pantanoso e desinteressante. Ainda sem o mau cheiro de Badwater no Vale da Morte, mas infinitamente menos belo.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Cartão de Natal

«Não devia haver Dezembro». Assim dito na consulta, como um disparo do peso que a solidão implica. O olhar entre o desistente e a revolta pela pressão da alegria virtual do Natal a toda a volta. O Natal como quase insulto para quem ficou sem marido e um filho há alguns anos num acidente estúpido, como são todos os acidentes. A vida, algumas vezes, transforma-se num caminho por entre gotas de chuva numa ânsia de chegar nem se sabe bem aonde. Andar apenas pelo tempo fora sem motivo de caminhada ficando o mais enxuto que for possível. Neste tempo da solidariedade institucionalizada, que ao menos os recordemos, aqueles que, correm por este mês desejosos que acabe rapidamente até, de novo, mergulharem nos restantes meses em que a solidão se generaliza a todos e se podem sentir menos diferentes.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Optimismo racional

Há certezas que nos restam e, depois da tempestade, vem o dia 24 à noite e não pensamos mais nas filas, nos engarrafamentos de trânsito, nem nas meninas que fazem embrulhos nas lojas já cansadas de embrulhar. É a pausa na bagunça e o preparar para o novo tempo em que teremos de ter presente que para pior já basta assim e  acreditarmos que o sol sempre surge depois das nuvens e é inevitável que, um destes dias, a alvorada cante. Porque a história continua e sempre se renova por novos caminhos, apesar de, muitas vezes, ser necessário chegar a becos sem saída.
Só para chatear, no fundo da depressão, sabe bem ficar racionalmente optimista.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Mais um

É realmente um dia como todos os outros. Ou seria, não fossem os amigos torná-lo especial e diferente. São melhores os dias que fazemos em conjunto. Que haja mais e vejamos todos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Prendinhas

Chegou-se a um tempo em que se trocam prendas sem conhecer o ofertante como se fosse possível escolher uma prenda sem que nos metamos um pouco na oferta que se faz. Podemos até não ser capazes de identificar a impressão digital, mas ela está lá, na ironia ou no sorriso que estas prendas sempre trazem. Mas não deixa de ser estranho dar algo a quem se não conhece, quando substituímos uma mensagem por uma oferta universal. De certa maneira não damos à pessoa, mas ao Natal e fica a imensa dúvida se terá valido a pena ou se estaremos de perfeito juízo quando o fazemos.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Caos

Ali, ligeiramente descentrado, na paisagem cinzenta e desfocada estava eu. E, de repente, um estrondo nunca ouvido, exactamente sobre mim. Sem luz de relâmpagos, porque tudo ocorre numa penumbra necessária para a visão dos contornos do horizonte onde, por todo o lado, a toda  a volta, há explosões e colunas de fumo, gigantescas, como nunca tinha visto, incontáveis, renovando-se no meio de um absoluto silêncio até ao meu acordar espantado no meio de uma absoluta e real tranquilidade.
Às vezes sabe bem saborear a completa desorganização do tempo e do espaço, o caos total.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Dor da gente

Já não é o trabalho de as fazer que cansa, o que me vai cansando agora nas consultas é a tristeza das pessoas, uma tristeza entranhada nos olhares e nas queixas, uma envolvência de dor de alma que amachuca o diálogo. E quase por certo não contribuíram para a dívida, para a ausência de crédito que a outros justifica a supressão dos seus empregos. Há uma anestesia da crise com que os bombardeiam a toda a hora e apenas lhes sobra a vergonha em vez de revolta, consumida que foi a energia na audição dos medos. Dói esta dor da gente, depois de lhes terem roubado a esperança.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Como os cães

É na hora da despedida que Coimbra tem mais encanto e é no afastamento das pessoas que a comunicação se torna imperiosa. Também ninguém faz jantares na altura do ingresso e frequentes são os feitos no momento da saída. Em tudo isto há um desaproveitamento do tempo presente em que se não desfruta a paisagem, porque se sonha com a viagem que talvez se não venha a fazer nunca, em que se não fala directamente com os outros, a menos que nos afastemos e então vamos a correr para os telemóveis dizer que está um dia de sol só pelo gozo de comunicarmos, em que não desencantamos estratégias comuns e muitas vezes planeamos tramar o colega do trabalho e deixamos para a altura em que deixa a nossa companhia o momento de todas as homenagens e a afirmação de quanto lhe queremos bem. Apreciamos, quando deixamos de ter por perto e,então quando morrem, todos ficam absolutamente perfeitos, por muito que deles tenhamos discordado ou mesmo mal tratado. O momento máximo de se ser magnânimo é aquele em que a sombra do outro já se não projecta sobre nós e deixa o caminho livre, finalmente.
No fundo, age-se pelo medo. Como os cães que rosnam, mesmo que saciados, quando alguém se aproxima do osso que esconderam. À distância abanam o rabo. Mas, o tempo é agora e não depois, nem no passado que já não é. Desperdiçá-lo é perder vida.

terça-feira, dezembro 07, 2010

A grande matilha

Bem sabemos que acontece com os cães o que com os homens também vai acontecendo. Vão-se os bons, ficando os outros. A imagem tem mais de 100 anos e permanece bem actual. Hoje é a  matilha dos mercados. Que me perdoem os cães, que estes são mesmo vadios (= quem não quer trabalhar).

Vampiros

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Sem futuro

No final, José, frágil, segue amparado pela solidariedade de Pilar percorrendo um vasto hall de um aeroporto. Vão-se cruzando com outros passageiros mais ou menos apressados, sem que ninguém os reconheça. Indiferentes. De repente, os caçadores de autógrafos e os jornalistas que fazem sempre as mesmas perguntas desapareceram da circulação. Ainda bem?
Por aqui passamos e andamos anónimos e nada parece garantir que sobreviveremos ao momento inevitável em que deixamos de ser. De pouco valerá a obra feita e todos seremos sem futuro e quase iguais. Ao menos, neste limite, a equidade surge, contrariando toda a ânsia de diferença, que alguns insistem em proclamar, ignorando a sua limitação fundamental, a impossibilidade da eternidade do tempo. Porque o tempo dos outros, é o deles e não o de cada um. Na verdade, o importante parece ser a tranquilidade com que se passa por aqui, despertando algum sorriso nos que nos vêem passar, os amigos, e observando as árvores que nascem, o sol que se põe e as rãs que saltam na estrada ao luar, porque a vida se enche de coisas banais e se esvazia nas singularidades.
Antes da fita, soube-me bem ter ficado tranquilo e condescendente quando o funcionário da bilheteira me perguntou se o bilhete era de sénior. Nada me faria supor tal oferta e fiquei um pouco sem saber se seria o jovem o desatento deste diálogo.

domingo, dezembro 05, 2010

Visão nocturna

A vida é esta coisa de não passar por estradas assépticas, completamente normalizadas onde nada acontece enquanto se passa a não ser ter passado mais um carro. A vida encontro-a nesta estrada onde as rãs saltam na noite e subitamente se imobilizam para que possamos passar ao lado. Longe da cidade, debaixo da via láctea as rãs atravessam a estrada como se estivessem a celebrar a vida. E eu vejo-as.

sábado, dezembro 04, 2010

Greve descontrolada

É complicado para mim perceber o que está por trás e permite que seja possível levar à prática uma greve sem aviso, sem organização (!?) e sem controlo sindical. Estaremos no início de novos tempos em que a comunicação fácil de hoje permite mobilizar instantaneamente uma classe? Mas isso só é conceptualmente possível se imaginarmos uma enorme unanimidade e sentimento comum de maus-tratos entre os contactados. Ao mesmo tempo que assusta, a ideia seduz, pela possível eficácia. Possivelmente, fará história esta descontrolada greve dos controladores espanhóis.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Censura?!

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    segunda-feira, novembro 29, 2010

    Special one

    Recebo sempre com alguma satisfação a quebra dos mitos. Aliás, os mitos são uma das influências mais nefastas que por aí andam, porque levam muitos a acreditar na perfeição ou, pior, a aceitar as imperfeições de forma pacífica. Pelo contrário, as nossas imperfeições serão sempre uma oportunidade de melhorar, a menos que pensemos perigosamente que a melhoria só está ao alcance de alguns predestinados e nos esqueçamos do imenso que podemos aprender com as nossas insuficiências ou mesmo com os nossos erros. É reagindo que se lá chega, ou, ainda melhor, se formos realmente pró-activos mudando o que achamos estar errado. A propaganda dos mitos que nos afastam da acção levando-nos a uma atitude paralisante de contemplação é instigada exactamente para nos tornar dóceis e conformados com a sorte. Por isso, sempre que um mito cai, isso me agrada. Ver o auto-intitulado melhor treinador do mundo ser derrotado por 5-0 é, por isso tudo, motivo de festa.
    Vai sendo tempo de se não hipervalorizar tanto a diferença (a real e a criada pelo marketing) e apostar mais na realização comum e solidária da vida. Que o special one me desculpe.

    sábado, novembro 27, 2010

    Adeus

    Sabia que estavas à beira do precipício, mas que raio te deu para ires embora sem esperares que eu chegasse? Sempre determinado fizeste como te deu a vontade e valente não esperaste por uma festa de pieguice que fica na minha mão. Vai ser diferente entrar em casa sem ouvir a tua voz forte. Nem um pulo, nem uma ameaça de rabo a agitar-se. Descansa, miúdo, foste um bom companheiro durante estes anos.

    domingo, novembro 21, 2010

    A luz da sombra

    Pode, por vezes, não ser no objecto que se encontra a compreensão da realidade, mas na sombra que ela própria produz. É através dos jogos de luz que se chega à compreensão mais abrangente das formas. São múltiplos os caminhos para se atingir a essência das coisas e nunca as entenderemos se as olharmos apenas da forma mais comum. Às vezes é pelos efeitos que descobrimos as causas. O importante é estar atento e olhar para se poder ver. Ou como dizia Saramago "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

    sábado, novembro 20, 2010

    Dúvida

    Da fome, da peste e da guerra, livrai-nos Senhor” oração do século XIV.
    «... e também dos mercados», oração do século XXI


    Sete séculos depois, a mesma história. Uns capitulam perante o compromisso que eles próprios engendraram, outros resistem. Foi assim em 1383, assim está a ser em 2010. Há por aí muito nobre ajoelhado (ou até em prece maometana) face aos ditos mercados, esperando, quase ansiosos o único desfecho possível, a estocada final. E há também o povo sempre capaz de resistir e atirar pela janela alguns andeiros indesejáveis. Será que ainda há energia para um gesto necessário?

    sexta-feira, novembro 19, 2010

    Estratégia de coping

    É bom não antecipar nunca as desgraças. Mais que não seja porque não vale a pena vivê-las duas vezes, no momento em que as antecipamos e, depois, quando ocorrem. Ou então nem chegam a acontecer e estivemos a perder tempo sofrendo de forma inútil.

    quinta-feira, novembro 18, 2010

    Estratégia de risco

    Estar aqui com a urgência de estar além, mais que não seja porque adiar a ida pode ser (espera-se que não seja) uma impossibilidade. Saber que a liberdade é ali e continuar preso a esta espécie de prisão aqui. Está-se dividido entre o dever e o prazer, o que torna mais penosa ainda a obrigação de ficar. Pergunta-se para quê e a resposta não chega, restando a vontade não garantida de que um dia... É uma estratégia de alto risco, mais do que uma inércia e com o passar do tempo fica a sensação de que o prazer de lá estar seria agora e não depois, quando a percepção e a memória já poderão não permitir gozar a plenitude dos instantes. O sol vai nascer e pôr-se todos os dias, mas as árvores vão, cada vez, dar menos sombra. Poderá ser que ainda se possa ficar debaixo, quieto, à espera do momento final na paz do espaço e do tempo. Mas nada o pode garantir e isso é que inquieta.

    domingo, novembro 14, 2010

    Uma tarde mal passada

    Primeiro estranhei a multidão numa sexta-feira à tarde, mas é sabido que o contacto com um possível futuro ministro os leva aos maiores sacrifícios e poucos foram os que lá não estiveram. Depois os sábios, optaram pela teorização da gestão da saúde em tempos de crise e fugiram, com excepção do potencial ministro, à apresentação de medidas concretas. A mais significativa, a necessidade da separação do trabalho dos médicos entre sector privado e público. É mais que tempo de parar com esta coisa de ir fazer umas horas de manhã a um hospital e depois ir ganhar dinheiro no sector privado. Pois é, mas continua. Tornar transparente a gestão através da accountability do que é feito, outra necessidade imperiosa. Mas ninguém quer saber. O resto foi a negação da realidade e a insistência no erro da promoção das corporações. Maldito Salazar que impregnou os genes desta malta!
    E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
    E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!

    quarta-feira, novembro 10, 2010

    Os mercados


    Hoje tive uma consulta triste pelo confronto com a gente desesperançada, derrotada. A verdade da televisão entra-lhes no corpo e corrói-lhes a alma. Alguns chegaram mesmo a despedir-se até à consulta seguinte, no próximo ano, como se já cá não voltassem por tão perto lhes parecer estar o cadafalso. Onde anda a capacidade de resistência? Há uma diferença para os outros tempos em que às escondidas com a PIDE/DGS cantávamos. A juventude aí liderava o processo com a sua energia e os velhos, às vezes, refreavam a luta, pelo temor; agora os velhos estão sem energia a relembrar o seu passado e os novos estão assumidos e engolidos pela doutrina oficial e a tentarem, uns contra os outros, encontrar um emprego que não surge, impotentes para identificarem o real inimigo e descobrirem a palavra necessária: SOLIDARIEDADE.

    terça-feira, novembro 09, 2010

    Diagnóstico

    Esta fase da dúvida, em que se procuram os caminhos, exige uma gestão de muito cuidado para se não transmitir essa inquietude ao objecto. Vive-se num tempo em que não há tempo para a reflexão, para a análise das hipóteses e em que se parte para a acção em busca da solução não considerada previamente, como se o objectivo fosse encontrar algo satisfatório de surpresa. Cada vez mais, crentes da potencialidade sem limites da tecnologia, se vê esse jogo a ser promovido na pressa do tempo. Vamos e logo se vê e, muitas vezes, o que parece estar a ser visto é enganador e nos faz saltar para outros desconhecidos, como se andássemos numa navegação sem bússola no tempo do GPS. Fica-se então perdido e vai-se andando ao sabor dos palpites, criando uma entropia cada vez maior em que a probabilidade de acertar vai sendo reduzida pelo aumento exponencial das hipóteses. Até no processo do diagnóstico passámos a ser imediatistas, como num jogo rápido de xadrez onde se não consideram todas as hipóteses antes de decidir a jogada. Joga-se primeiro, corrige-se depois e segue-se de correcção em correcção até ao xeque mate final. A estratégia deu lugar ao consumo desregrado e gera-se uma enxurrada de informação que se não consegue coordenar e implica um gigantesco desperdício de recursos. E quando o doente questiona, recorre-se à autoridade da ciência dos sábios e, paternalmente, sugere-se-lhes que não se ralem com o assunto, que os sábios estão a fazer o que é necessário e chegarão à solução. Mas na avalanche dos exames em que os tubos são enfiados por todos os orifícios possíveis do corpo e os corpos são passados pelos mais variados scanneres, o objecto da análise deverá sentir-se confundido com tanta pesquisa. Isso deve inquietar. Afinal, que raio andam eles a procurar?