quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Lyrics


Porque o som dificulta a percepção do conteúdo, aqui fica a ajuda:

Sou da geração sem remuneração
E não me incomoda esta condição
Que parva que eu sou
Porque isto está mal e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
Sou da geração "casinha dos pais"
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
Sou da geração "vou queixar-me pra quê?"
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou
Sou da geração "eu já não posso mais!"
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Renascimento

Ainda a manhã ia saindo do escuro da noite e veio-me à memória uma das antigas músicas, onde afinal eram as palavras o importante:

Num registo pessimista que me persegue os dias, na desesperança de ver uma juventude acomodada, cheia de fado e conformada, logo pensei nas diferenças entre a música que vivi e a música que agora se vive, onde as palavras minimalizaram e a música embruteceu as cabeças sacudidas até à exaustão impulsionadas por múltiplos shots em fim de noite madrugada adiante.
Mas já ao fim da tarde deparei com isto
e surpreendi-me e ri. Parece que ainda há esperança de que os conteúdos se sobreponham à alienação do já não posso. Agora, sim, vamos dar a volta a isto! Música de intervenção outra vez. Boa!

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Senhor Presidente

Uma das guerras para onde presumivelmente nos vão querer enviar é a guerra da destruição do Estado Social, onde o fim do Serviço Nacional de Saúde será uma batalha decisiva. Por isso aqui fica:

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Loucos


Poema Pero Ya No Hay Locos de Leon Felipe


Ya no hay locos, amigos, ya no hay locos. Se murió aquel manchego, aquel estrafalario fantasma del desierto y … ni enEspaña hay locos. Todo el mundo está cuerdo, terrible, monstruosamente cuerdo.
Oíd … esto,
historiadores … filósofos … loqueros …
Franco … el sapo iscariote y ladrón en la silla del juez repartiendo castigos y premios,
en nombre de Cristo, con la efigie de Cristo prendida del pecho,
y el hombre aquí, de pie, firme, erguido, sereno,
con el pulso normal, con la lengua en silencio,
los ojos en sus cuencas y en su lugar los huesos …
El sapo iscariote y ladrón repartiendo castigos y premios …
y yo, callado, aquí, callado, impasible, cuerdo …
¡cuerdo!, sin que se me quiebre el mecanismo del cerebro.
¿Cuándo se pierde el juicio? (yo pregunto, loqueros).
¿Cuándo enloquece el hombre? ¿Cuándo, cuándo es cuando se enuncian los conceptos
absurdos y blasfemos
y se hacen unos gestos sin sentido, monstruosos y obscenos?
¿Cuándo es cuando se dice por ejemplo:
No es verdad. Dios no ha puesto
al hombre aquí, en la Tierra, bajo la luz y la ley del universo;
el hombre es un insecto
que vive en las partes pestilentes y rojas del mono y del camello?
¿Cuándo si no es ahora (yo pregunto, loqueros),
cuándo es cuando se paran los ojos y se quedan abiertos, inmensamente abiertos,
sin que puedan cerrarlos ni la llama ni el viento?
¿Cuándo es cuando se cambian las funciones del alma y los resortes del cuerpo
y en vez de llanto no hay más que risa y baba en nuestro gesto?
Si no es ahora, ahora que la justicia vale menos, infinitamente menos
que el orín de los perros;
si no es ahora, ahora que la justicia tiene menos, infinitamente menos
categoría que el estiércol;
si no es ahora … ¿cuándo se pierde el juicio?
Respondedme loqueros,
¿cuándo se quiebra y salta roto en mil pedazos el mecanismo del cerebro?
Ya no hay locos, amigos, ya no hay locos. Se murió aquel manchego,
aquel estrafalario fantasma del desierto
y … ¡Ni en España hay locos! ¡Todo el mundo está cuerdo,
terrible, monstruosamente cuerdo! …
¡Qué bien marcha el reloj! ¡Qué bien marcha el cerebro!
Este reloj …, este cerebro, tic-tac, tic-tac, tic-tac, es un reloj perfecto …,
perfecto, ¡perfecto



E no ciclo da vida se progride da hiperactividade e défice de  atenção enquanto crianças, para a depressão da idade adulta e a demência na velhice. Quase todos... loucos.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Vender a dívida?

É seguramente mais chique e dá muito mais status. A partir de agora sugiro que se não peçam mais empréstimos aos bancos. Na verdade o que devemos fazer é vender-lhes dívida, pois o estatuto do vendedor é bem  superior ao do comprador, quem vende tem a propriedade da coisa, não é um maltrapilho qualquer que precisa de comprar devido às suas necessidades. Mesmo que a propriedade seja a dívida, vender a dívida é bem melhor que pedir (horror!) um empréstimo. Nós não somos pedintes, mas proprietários... da dívida.

domingo, janeiro 16, 2011

Crise... de valores

Aos poucos desapareceram das páginas dos jornais as críticas de cinema. Em substituição, dão-nos agora a informação do número de espectadores que cada filme em exibição tem. A opinião especializada foi substituída pela opinião do consumo.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A dívida e as dúvidas

Implica a lucidez que se percebam coisas básicas. Por exemplo, uma máquina produz algo, gera valor, contudo, não vive. É manipulada pelo dono para executar. Viver é algo mais do que fazer coisas, produzir. Viver é entender o que se passa a nossa volta, conseguir ter opinião, fugindo a todos os potenciais manipuladores sempre prontos a fazer-nos achar alguma coisa. Ou seja, a induzir-nos na «verdade» da opinião publicada. Primeiro, dizem o que deve ser pensado, depois esperam que se palre a história dando a possibilidade histórica de se aparecer na televisão a debitar a coisa. Cinco minutos de fama. Este é o orgasmo vital de tantos a quem se pergunta nos telejornais o que acham das mais variadas coisas.
Há por hábito, até de educação,  procurar o fácil e desvalorizar o rigor. Até porque o rigor exige pesquisa, dá trabalho, e o que se ensina é o êxito fácil, havendo mesmo uma cultura de eficiência que privilegia o desenrascanço e desmerece o investimento no trabalho. (É como achar normal aplicar num investimento 100 e retirar 240, sem nada ter sido acrescentado além da habilidade da escolha). E a vida está actualmente cheia de uma complexidade crescente, agravada pela vertigem que nos é imposta, pela avalanche exponencial do crescimento do conhecimento, que torna cada vez mais difícil a compreensão do mundo. O desenrascanço, negando o esforço, leva ao refúgio no grupo para o qual emocionalmente somos atraídos, o que garante a comodidade de sabermos que outros estão connosco, mas não a razão das opções feitas. Esta tendência tem como resultado natural a procura dos grupos maiores, por ser aí maior o apoio dos pares, com marginalização das franjas, onde quase sempre se localizam as elites e o progresso. Assim, quase sempre, mais do que ser-se por uma solução, é-se fundamentalmente contra a solução do grupo opositor e quando um resultado não é o desejado intimamente, diz-se que foi um bom resultado para os outros nossos adversários. Daí o título sugestivo de Boas Notícias para o Governo. Terá sido apenas para o Governo?

Olhando para a evolução da dívida pública de vários estados europeus em percentagem do PIB desde 2008 a 2009, parece evidente que alguma coisa de estranho aconteceu em 2008, porque quase de forma invariável em todos os Estados, os valores aumentaram de forma considerável.
Curiosamente, Portugal nem parece ser o país em que a progressão é mais acentuada:
                     2008           2009           Aumento
 Alemanha      66,3            73,4                10,7
 Espanha         39,8            53,2               33,7
 França           62,5            78,1               25,0
 Grécia          110,3         126,8                15,0
 Irlanda           44,3           65,5                47,9
 Portugal         65,3           76,1                16,5
 Reino Unido   52,1          68,2                 30,9
Conclusão: a percentagem da dívida em relação ao PIB não é das maiores (muito maior é na Itália, Bélgica ou na Grécia) nem um resultado apenas da administração do actual governo. O agravamento foi generalizado sendo o de Portugal apenas intermédio.
Ter um valor baixo da dívida em relação ao PIB não é propriamente bom sinal se tomarmos como referência os valores dos vários estados mundiais, onde as maiores percentagens se encontram no Japão, América do Norte e Europa:
Portanto, o problema não é ter uma grande dívida, mas saber onde se está a empregar o dinheiro que foi pedido. De que forma se está a regular a coisa que permite, por exemplo, que no ano passado as vendas dos porches tenham subido mais de 70%, fazendo-nos duvidar da existência de uma crise realmente séria. Como se pode assim compreender a necessidade de penalizar grupos subtanciais de cidadãos, impondo-lhes sacrifícios objectivos e dificilmente suportáveis, quando se antevê que desse efeito resulte mais constrangimento económico e recessão? Por que razão há uma urgência da destruição do Estado investidor para se suportarem privados que, nesta conjuntura de risco acrescido, dificilmente o assumirão? Não seria bem mais lógica a promoção do investimento público bem gerido, estimulante da produção e do emprego? O risco do Estado, dada a sua não-necessidade de lucro, seria sempre inferior e por isso mais viável, desde que isso não significasse criação de benefícios para um grupo, mas para o colectivo. É aqui que entram os homens e se iniciam as dificuldades...
  

terça-feira, janeiro 11, 2011

E os mercados em Lisboa?



Quando os invadidos de ontem se juntam aos seus invasores para invadirem com eles os novos invadidos, tem de haver aqui alguém que se refugie algures e que resista. Nestas alturas, é sabido, que há sempre alguns dos invadidos que anseiam a invasão na esperança, nem sempre vã, de virem a participar no festim. Tem sido sempre assim, mas sempre também a resistência tem sido mais forte e, aonde ainda não triunfou, também a vitória será certa, porque haverá sempre uma janela por onde sairão, mais cedo ou mais tarde, porque a história não vai acabar aqui.

Indoor

Gostei deste indoor.
É necessário, imperioso e urgente! Uma questão estética e seria excelente se a mancha não alastrasse por mais cinco anos durante os quais, para cúmulo, é bem possível que um Coelho de passos mais que duvidosos  lhe venha a fazer companhia. Será com amargura e tristeza que veremos, então, fechar as portas que Abril abriu e o tratamento é sempre mais complexo que a profilaxia. Mas o risco, na República, é real. É preciso avisar toda a gente!

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Elogio da poesia

A formação económica, afinal, é fundamental para o sucesso e o problema de todos nós, os comuns, é que não somos professores de Economia.
Se fossemos professores de Economia, saberíamos como fazer para investir as nossas poupanças com sucesso de 140% em 2 anos e teríamos  também estes desempenhos notáveis. Como não sabemos nada de Economia, vamos ficando desempregados ou com os ordenados reduzidos, sobrevivendo apenas. A culpa foi nossa que nunca aprendemos Economia e, por isso, não entendemos nada deste mundo e pensamos que os mercados são apenas os locais onde se vão comprar as couves. Ai, se nos fossemos todos professores de Economia! Sabíamos o que é gerar valor e não tínhamos a noção lírica que os poetas têm da ganância.
Se fossemos, se calhar, os professores de Economia iam ter algumas dificuldades, porque, realmente, só conseguem ser professores num mundo cheio de ignorantes em Economia ou num país de poetas.
Celebre-se a arte do senhor Professor de Economia, mas tenha-se a consciência que, o que faz por si, afinal não tem a generosidade de fazer pelo país a que preside. Imagine-se se conseguisse investir com a sua mestria as poupanças de todos nós! Era uma vez uma crise! Pensando, melhor, para que nos serve um Presidente professor de Economia que não usa os seus grandes conhecimentos a nosso favor? Mais vale, certamente, acreditarmos nas virtudes da Poesia.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Cinzento


Cinzento começou o ano, com ameaças de preto absoluto no horizonte. E como precisávamos de um ano, pelo menos, Alegre, na impossibilidade real do vermelho triunfar!
Cinzento mas não só, demasiado pantanoso e desinteressante. Ainda sem o mau cheiro de Badwater no Vale da Morte, mas infinitamente menos belo.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Cartão de Natal

«Não devia haver Dezembro». Assim dito na consulta, como um disparo do peso que a solidão implica. O olhar entre o desistente e a revolta pela pressão da alegria virtual do Natal a toda a volta. O Natal como quase insulto para quem ficou sem marido e um filho há alguns anos num acidente estúpido, como são todos os acidentes. A vida, algumas vezes, transforma-se num caminho por entre gotas de chuva numa ânsia de chegar nem se sabe bem aonde. Andar apenas pelo tempo fora sem motivo de caminhada ficando o mais enxuto que for possível. Neste tempo da solidariedade institucionalizada, que ao menos os recordemos, aqueles que, correm por este mês desejosos que acabe rapidamente até, de novo, mergulharem nos restantes meses em que a solidão se generaliza a todos e se podem sentir menos diferentes.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Optimismo racional

Há certezas que nos restam e, depois da tempestade, vem o dia 24 à noite e não pensamos mais nas filas, nos engarrafamentos de trânsito, nem nas meninas que fazem embrulhos nas lojas já cansadas de embrulhar. É a pausa na bagunça e o preparar para o novo tempo em que teremos de ter presente que para pior já basta assim e  acreditarmos que o sol sempre surge depois das nuvens e é inevitável que, um destes dias, a alvorada cante. Porque a história continua e sempre se renova por novos caminhos, apesar de, muitas vezes, ser necessário chegar a becos sem saída.
Só para chatear, no fundo da depressão, sabe bem ficar racionalmente optimista.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Mais um

É realmente um dia como todos os outros. Ou seria, não fossem os amigos torná-lo especial e diferente. São melhores os dias que fazemos em conjunto. Que haja mais e vejamos todos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Prendinhas

Chegou-se a um tempo em que se trocam prendas sem conhecer o ofertante como se fosse possível escolher uma prenda sem que nos metamos um pouco na oferta que se faz. Podemos até não ser capazes de identificar a impressão digital, mas ela está lá, na ironia ou no sorriso que estas prendas sempre trazem. Mas não deixa de ser estranho dar algo a quem se não conhece, quando substituímos uma mensagem por uma oferta universal. De certa maneira não damos à pessoa, mas ao Natal e fica a imensa dúvida se terá valido a pena ou se estaremos de perfeito juízo quando o fazemos.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Caos

Ali, ligeiramente descentrado, na paisagem cinzenta e desfocada estava eu. E, de repente, um estrondo nunca ouvido, exactamente sobre mim. Sem luz de relâmpagos, porque tudo ocorre numa penumbra necessária para a visão dos contornos do horizonte onde, por todo o lado, a toda  a volta, há explosões e colunas de fumo, gigantescas, como nunca tinha visto, incontáveis, renovando-se no meio de um absoluto silêncio até ao meu acordar espantado no meio de uma absoluta e real tranquilidade.
Às vezes sabe bem saborear a completa desorganização do tempo e do espaço, o caos total.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Dor da gente

Já não é o trabalho de as fazer que cansa, o que me vai cansando agora nas consultas é a tristeza das pessoas, uma tristeza entranhada nos olhares e nas queixas, uma envolvência de dor de alma que amachuca o diálogo. E quase por certo não contribuíram para a dívida, para a ausência de crédito que a outros justifica a supressão dos seus empregos. Há uma anestesia da crise com que os bombardeiam a toda a hora e apenas lhes sobra a vergonha em vez de revolta, consumida que foi a energia na audição dos medos. Dói esta dor da gente, depois de lhes terem roubado a esperança.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Como os cães

É na hora da despedida que Coimbra tem mais encanto e é no afastamento das pessoas que a comunicação se torna imperiosa. Também ninguém faz jantares na altura do ingresso e frequentes são os feitos no momento da saída. Em tudo isto há um desaproveitamento do tempo presente em que se não desfruta a paisagem, porque se sonha com a viagem que talvez se não venha a fazer nunca, em que se não fala directamente com os outros, a menos que nos afastemos e então vamos a correr para os telemóveis dizer que está um dia de sol só pelo gozo de comunicarmos, em que não desencantamos estratégias comuns e muitas vezes planeamos tramar o colega do trabalho e deixamos para a altura em que deixa a nossa companhia o momento de todas as homenagens e a afirmação de quanto lhe queremos bem. Apreciamos, quando deixamos de ter por perto e,então quando morrem, todos ficam absolutamente perfeitos, por muito que deles tenhamos discordado ou mesmo mal tratado. O momento máximo de se ser magnânimo é aquele em que a sombra do outro já se não projecta sobre nós e deixa o caminho livre, finalmente.
No fundo, age-se pelo medo. Como os cães que rosnam, mesmo que saciados, quando alguém se aproxima do osso que esconderam. À distância abanam o rabo. Mas, o tempo é agora e não depois, nem no passado que já não é. Desperdiçá-lo é perder vida.

terça-feira, dezembro 07, 2010

A grande matilha

Bem sabemos que acontece com os cães o que com os homens também vai acontecendo. Vão-se os bons, ficando os outros. A imagem tem mais de 100 anos e permanece bem actual. Hoje é a  matilha dos mercados. Que me perdoem os cães, que estes são mesmo vadios (= quem não quer trabalhar).

Vampiros

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Sem futuro

No final, José, frágil, segue amparado pela solidariedade de Pilar percorrendo um vasto hall de um aeroporto. Vão-se cruzando com outros passageiros mais ou menos apressados, sem que ninguém os reconheça. Indiferentes. De repente, os caçadores de autógrafos e os jornalistas que fazem sempre as mesmas perguntas desapareceram da circulação. Ainda bem?
Por aqui passamos e andamos anónimos e nada parece garantir que sobreviveremos ao momento inevitável em que deixamos de ser. De pouco valerá a obra feita e todos seremos sem futuro e quase iguais. Ao menos, neste limite, a equidade surge, contrariando toda a ânsia de diferença, que alguns insistem em proclamar, ignorando a sua limitação fundamental, a impossibilidade da eternidade do tempo. Porque o tempo dos outros, é o deles e não o de cada um. Na verdade, o importante parece ser a tranquilidade com que se passa por aqui, despertando algum sorriso nos que nos vêem passar, os amigos, e observando as árvores que nascem, o sol que se põe e as rãs que saltam na estrada ao luar, porque a vida se enche de coisas banais e se esvazia nas singularidades.
Antes da fita, soube-me bem ter ficado tranquilo e condescendente quando o funcionário da bilheteira me perguntou se o bilhete era de sénior. Nada me faria supor tal oferta e fiquei um pouco sem saber se seria o jovem o desatento deste diálogo.

domingo, dezembro 05, 2010

Visão nocturna

A vida é esta coisa de não passar por estradas assépticas, completamente normalizadas onde nada acontece enquanto se passa a não ser ter passado mais um carro. A vida encontro-a nesta estrada onde as rãs saltam na noite e subitamente se imobilizam para que possamos passar ao lado. Longe da cidade, debaixo da via láctea as rãs atravessam a estrada como se estivessem a celebrar a vida. E eu vejo-as.

sábado, dezembro 04, 2010

Greve descontrolada

É complicado para mim perceber o que está por trás e permite que seja possível levar à prática uma greve sem aviso, sem organização (!?) e sem controlo sindical. Estaremos no início de novos tempos em que a comunicação fácil de hoje permite mobilizar instantaneamente uma classe? Mas isso só é conceptualmente possível se imaginarmos uma enorme unanimidade e sentimento comum de maus-tratos entre os contactados. Ao mesmo tempo que assusta, a ideia seduz, pela possível eficácia. Possivelmente, fará história esta descontrolada greve dos controladores espanhóis.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Censura?!

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    segunda-feira, novembro 29, 2010

    Special one

    Recebo sempre com alguma satisfação a quebra dos mitos. Aliás, os mitos são uma das influências mais nefastas que por aí andam, porque levam muitos a acreditar na perfeição ou, pior, a aceitar as imperfeições de forma pacífica. Pelo contrário, as nossas imperfeições serão sempre uma oportunidade de melhorar, a menos que pensemos perigosamente que a melhoria só está ao alcance de alguns predestinados e nos esqueçamos do imenso que podemos aprender com as nossas insuficiências ou mesmo com os nossos erros. É reagindo que se lá chega, ou, ainda melhor, se formos realmente pró-activos mudando o que achamos estar errado. A propaganda dos mitos que nos afastam da acção levando-nos a uma atitude paralisante de contemplação é instigada exactamente para nos tornar dóceis e conformados com a sorte. Por isso, sempre que um mito cai, isso me agrada. Ver o auto-intitulado melhor treinador do mundo ser derrotado por 5-0 é, por isso tudo, motivo de festa.
    Vai sendo tempo de se não hipervalorizar tanto a diferença (a real e a criada pelo marketing) e apostar mais na realização comum e solidária da vida. Que o special one me desculpe.

    sábado, novembro 27, 2010

    Adeus

    Sabia que estavas à beira do precipício, mas que raio te deu para ires embora sem esperares que eu chegasse? Sempre determinado fizeste como te deu a vontade e valente não esperaste por uma festa de pieguice que fica na minha mão. Vai ser diferente entrar em casa sem ouvir a tua voz forte. Nem um pulo, nem uma ameaça de rabo a agitar-se. Descansa, miúdo, foste um bom companheiro durante estes anos.

    domingo, novembro 21, 2010

    A luz da sombra

    Pode, por vezes, não ser no objecto que se encontra a compreensão da realidade, mas na sombra que ela própria produz. É através dos jogos de luz que se chega à compreensão mais abrangente das formas. São múltiplos os caminhos para se atingir a essência das coisas e nunca as entenderemos se as olharmos apenas da forma mais comum. Às vezes é pelos efeitos que descobrimos as causas. O importante é estar atento e olhar para se poder ver. Ou como dizia Saramago "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

    sábado, novembro 20, 2010

    Dúvida

    Da fome, da peste e da guerra, livrai-nos Senhor” oração do século XIV.
    «... e também dos mercados», oração do século XXI


    Sete séculos depois, a mesma história. Uns capitulam perante o compromisso que eles próprios engendraram, outros resistem. Foi assim em 1383, assim está a ser em 2010. Há por aí muito nobre ajoelhado (ou até em prece maometana) face aos ditos mercados, esperando, quase ansiosos o único desfecho possível, a estocada final. E há também o povo sempre capaz de resistir e atirar pela janela alguns andeiros indesejáveis. Será que ainda há energia para um gesto necessário?

    sexta-feira, novembro 19, 2010

    Estratégia de coping

    É bom não antecipar nunca as desgraças. Mais que não seja porque não vale a pena vivê-las duas vezes, no momento em que as antecipamos e, depois, quando ocorrem. Ou então nem chegam a acontecer e estivemos a perder tempo sofrendo de forma inútil.

    quinta-feira, novembro 18, 2010

    Estratégia de risco

    Estar aqui com a urgência de estar além, mais que não seja porque adiar a ida pode ser (espera-se que não seja) uma impossibilidade. Saber que a liberdade é ali e continuar preso a esta espécie de prisão aqui. Está-se dividido entre o dever e o prazer, o que torna mais penosa ainda a obrigação de ficar. Pergunta-se para quê e a resposta não chega, restando a vontade não garantida de que um dia... É uma estratégia de alto risco, mais do que uma inércia e com o passar do tempo fica a sensação de que o prazer de lá estar seria agora e não depois, quando a percepção e a memória já poderão não permitir gozar a plenitude dos instantes. O sol vai nascer e pôr-se todos os dias, mas as árvores vão, cada vez, dar menos sombra. Poderá ser que ainda se possa ficar debaixo, quieto, à espera do momento final na paz do espaço e do tempo. Mas nada o pode garantir e isso é que inquieta.

    domingo, novembro 14, 2010

    Uma tarde mal passada

    Primeiro estranhei a multidão numa sexta-feira à tarde, mas é sabido que o contacto com um possível futuro ministro os leva aos maiores sacrifícios e poucos foram os que lá não estiveram. Depois os sábios, optaram pela teorização da gestão da saúde em tempos de crise e fugiram, com excepção do potencial ministro, à apresentação de medidas concretas. A mais significativa, a necessidade da separação do trabalho dos médicos entre sector privado e público. É mais que tempo de parar com esta coisa de ir fazer umas horas de manhã a um hospital e depois ir ganhar dinheiro no sector privado. Pois é, mas continua. Tornar transparente a gestão através da accountability do que é feito, outra necessidade imperiosa. Mas ninguém quer saber. O resto foi a negação da realidade e a insistência no erro da promoção das corporações. Maldito Salazar que impregnou os genes desta malta!
    E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
    E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!

    quarta-feira, novembro 10, 2010

    Os mercados


    Hoje tive uma consulta triste pelo confronto com a gente desesperançada, derrotada. A verdade da televisão entra-lhes no corpo e corrói-lhes a alma. Alguns chegaram mesmo a despedir-se até à consulta seguinte, no próximo ano, como se já cá não voltassem por tão perto lhes parecer estar o cadafalso. Onde anda a capacidade de resistência? Há uma diferença para os outros tempos em que às escondidas com a PIDE/DGS cantávamos. A juventude aí liderava o processo com a sua energia e os velhos, às vezes, refreavam a luta, pelo temor; agora os velhos estão sem energia a relembrar o seu passado e os novos estão assumidos e engolidos pela doutrina oficial e a tentarem, uns contra os outros, encontrar um emprego que não surge, impotentes para identificarem o real inimigo e descobrirem a palavra necessária: SOLIDARIEDADE.

    terça-feira, novembro 09, 2010

    Diagnóstico

    Esta fase da dúvida, em que se procuram os caminhos, exige uma gestão de muito cuidado para se não transmitir essa inquietude ao objecto. Vive-se num tempo em que não há tempo para a reflexão, para a análise das hipóteses e em que se parte para a acção em busca da solução não considerada previamente, como se o objectivo fosse encontrar algo satisfatório de surpresa. Cada vez mais, crentes da potencialidade sem limites da tecnologia, se vê esse jogo a ser promovido na pressa do tempo. Vamos e logo se vê e, muitas vezes, o que parece estar a ser visto é enganador e nos faz saltar para outros desconhecidos, como se andássemos numa navegação sem bússola no tempo do GPS. Fica-se então perdido e vai-se andando ao sabor dos palpites, criando uma entropia cada vez maior em que a probabilidade de acertar vai sendo reduzida pelo aumento exponencial das hipóteses. Até no processo do diagnóstico passámos a ser imediatistas, como num jogo rápido de xadrez onde se não consideram todas as hipóteses antes de decidir a jogada. Joga-se primeiro, corrige-se depois e segue-se de correcção em correcção até ao xeque mate final. A estratégia deu lugar ao consumo desregrado e gera-se uma enxurrada de informação que se não consegue coordenar e implica um gigantesco desperdício de recursos. E quando o doente questiona, recorre-se à autoridade da ciência dos sábios e, paternalmente, sugere-se-lhes que não se ralem com o assunto, que os sábios estão a fazer o que é necessário e chegarão à solução. Mas na avalanche dos exames em que os tubos são enfiados por todos os orifícios possíveis do corpo e os corpos são passados pelos mais variados scanneres, o objecto da análise deverá sentir-se confundido com tanta pesquisa. Isso deve inquietar. Afinal, que raio andam eles a procurar?

    segunda-feira, novembro 08, 2010

    Proposta

    Parece óbvio que a substituição do Prof. Correia de Campos foi um recuo na Saúde em Portugal e ainda está para se perceber a origem e identificar quem desencadeou a campanha mediática, que motivou a sua queda. No entanto, ainda se está a tempo de corrigir o erro. Há alternativa.

    domingo, novembro 07, 2010

    De regresso

    São sempre simpáticos os americanos que se sentam ao nosso lado. Têm qualquer problema de estarem sozinhos e calados, pelo que à primeira oportunidade disparam o where do you come from, e a conversa está engatada. Desta vez calhou ser um luso-descendente na terceira geração com o português já completamente esquecido, mas curioso de saber onde e como serão os Azores de onde veio a avó. Viajado, já com vasta experiência de Caraíbas desde Cancun à Jamaica em várias idas. Recomendei-lhe a ida à ilha que lhe faltava, mas como me disse não lhe é permitido (curioso não ter dito que lhe é proibido) lá ir. De Fidel informou-me que não compreende como um presidente mata os seus. Já por pudor não lhe disse que os seus presidentes também são especialistas nesse campo, mas preferem fazê-lo fora de portas, no Iraque ou no Afeganistão. Mas sempre o fui informando que na ilha que lhe não é permitido visitar há gente com cuidados de saúde e educação garantida, não havendo a miséria que se pode observar noutros locais das Caraíbas, ou mesmo na sua homeland. Have a nice trip!
    Na minha trip desta vez tive a necessidade de, estando em trânsito, entrar duas vezes na homeland, o que está a tornar-se um exercício cada vez mais complexo com filas de meia hora para chegar ao cidadão verificador da nossa identidade. Se as impressões digitais se gastassem, já não conseguia marcar o ponto no hospital de tanta vez que tive que apoiar os dedos das mãos no registo e já conhecem melhor a minha íris do que eu próprio. Só que estes tipos não têm memória e, de todas as vezes, a história se repete. Com uma excepção que acontece quando se tem um nome frequente ou suspeito, o que dá direito a uma segunda verificação, mais tempo gasto e dúvidas sobre onde estarão as malas e se ainda se irá a tempo do voo de ligação, tudo sem explicações nem desculpas. Será que nunca pensaram que mal terão andado a fazer pelo mundo fora para terem tanto medo de toda a gente? Parecem acreditar pouco que Deus abençoe a América… Eles acreditar talvez acreditem (foram ensinados a fazê-lo), pensar é que não (foram educados a não o fazer).

    sexta-feira, novembro 05, 2010

    Cancun prático

    Cancun é uma tira de hotéis estendida ao longo de muitos quilómetros a norte do aeroporto. O que se faz em Cancun? Vai-se à praia que tem água azul-turquesa com temperatura generosa. Compram-se viagens para ir ver algo diferente (além de ir à praia) em locais a 2-3 horas de viagem. Portanto, e como há praias  perto desses locais, o mais sensato é ir para um hotel nesses sítios e poupar umas horas de sono no hotel mal substituídas por sestas nos autocarros.
    Ficando em Cancun pode facilmente andar-se de uma ponta à outra da tira dos hotéis de autocarro a custo baixo (0,5€/viagem). Há centros comerciais e clubes nocturnos e praias onde os hotéis não cobriram o chão. Também restaurantes para vários gostos. E polícia a fazer barreiras e a revistar carros, que o narcotráfico não dá tréguas.
    Portanto, o melhor quando se vem a Cancun é sair de cá e ir até Chichen Itza, Tulum e a parques de diversões como Xeh-la e Xcaret. Nos primeiros vemos calendários gigantes e fica-se parvo como foi possível fazer aquilo naqueles tempos. Nos parques, goza-se a água quente a céu aberto ou em rios subterrâneos (artificiais?) ou pode caminhar-se no fundo de um aquário de 7 metros de profundidade (carregando uma máscara à maneira de astronauta ligado à cápsula por um tubo que nos garante o oxigénio), para ver uns tipos dar de comer aos peixes enquanto outros mayapaparrazi nos tiram fotografias. Há também postais ilustrados onde se pode ficar deitado à sombra e gente geralmente bem educada por perto que tenta ser prestável (quando por exemplo se cai de um passeio abaixo... os passeios à beira da estrada têm um desnível de cerca de 30 cm!). Há ainda a versão de tormenta com ventos fortes de dobrar copas de palmeiras em que começa a ser complicado descobrir algo que fazer. A ida a downtown apenas confirma que Cancun não existe ou como diz um dos guias, em busca da propina, aqui não se produz nada, vivemos da vossa generosidade. Voltem sempre! E, na verdade, apetece fazer-lhes a vontade pela temperatura da água e pelos locais onde o sossego é possível desde que se não ande no contra relógio do guia turístico. Também pelo conhecimento que noutros tempos aqui houve. Para reflectir e ficar longe do pequeno mundo.

    quarta-feira, novembro 03, 2010

    Mais maias

    O erro dos maias poderá ter sido a auto-satisfação com o conhecimento. a arrogância da razão, eventualmente. Qualquer político hoje em dia sabe que não basta a razão e que mais importante do que isso pode mesmo ser a estratégia de vender a não-razão. Isso é que rende. Eles não souberam e pereceram. Ao olhar os seus relógios, sente-se a injustiça da sua história, sobretudo quando se vê que as irracionalidades e o obscurantismo das diferentes variantes de fé têm conseguido bem mais no que ao poder diz respeito. Mas esse tem sido também o mecanismo de grandes recuos ou paragens no tempo. O deles processava-se em ciclos determinados por realidades cósmicas, sem hipóteses de paragens. E ainda continua.
    Estes saberes despertam curiosidade de quem lhes sente a razão.

    terça-feira, novembro 02, 2010

    Bolsa de emoções

    Deve estar certo porque o esquema está globalizado e não tem grandes variações entre os locais e as gentes que lá vivem. Há um jogo de simpatias e simultaneamente de falsidade em que a comunicação das emoções decide o resultado. Analisando friamente a questão conclui-se que o preço acaba por nem variar tanto de um caso para outro, mas o que decide o negócio não é a racionalidade, mas a empatia emocional entretanto criada pelo processo de comunicação. Mesmo tentando actuar no negócio com a frieza possível, sinto que acabo por ceder por razões não necessariamente racionais. A bolsa dos valores das excursões acaba por não diferir muito das outras bolsas de valores, onde também são factores irracionais a decidir os negócios. Interrogo-me se não seremos capazes de conseguir algo melhor do que isto.
    Não vale mesmo a pena invocar boas razões para o sucesso, que ele depende de outras causas, mas não necessariamente das boas razões da cultura que não busque a opressão. Assim parece ter acontecido aos maias, uma cultura avançada, mas que não usou o conhecimento que possuía para dominar. Acabaram a fazer, nos dias de hoje, os trabalhos mais básicos e mais mal pagos nos hotéis de Cancun. De nada lhes valeu estarem avançados, porque outros factores são ainda mais importantes que a cultura. Pelos vistos já há várias centenas de anos.

    segunda-feira, novembro 01, 2010

    Santa Morte


    Será a praia onde se chega como diz A. Lobo Antunes ou uma mulher de gadanha ou uma Velha vestida de preto, tudo isso pode ser esse instante certo e inevitável para onde todos caminhamos, mas aqui é aparentemente diferente, chegando mesmo a ser Santa Muerte. Há uma atitude de brincadeira e veneração neste dia em que os mortos regressam e lhes oferecem bolos, cigarros ou mesmo uma bala que não irá ser utilizada numa rixa de cartéis de narcotráfico. Os  naturais mascaram-se como se estivéssemos  num carnaval neste dia e há uma alegria mal percebida por quem não é daqui. Há um ambiente de festa no ar porque a morte está presente.
    Este breve contacto de turista não dá para entender até que ponto as aparências estarão a iludir e tudo não possa passar de esconjuro ou catarse para liquidar medos ocultos, mas propicia uma nova forma de encarar um problema que cada dia se vai tornando mais actual «à medida que se nada para a praia». Mas se o rumo é necessário, porque fugir e temê-lo. É possível, que a razão para isso, esteja na consciência de ainda haver algo mais para acabar (mas estamos programados para alguma obra em especial?) e não termos ainda tido o tempo suficiente ou poderá ser apenas o hábito de ir seguindo, fazendo o que se faz sem se dar conta até ao momento de despertar final quando a areia nos põe de pé. O risco não é pois a morte, mas a vida desperdiçada, essa sim irrecuperável. Disso é que é mais difícil desculparmo-nos. A morte é, desta forma, um estímulo para a vida. Pode, por isso, ser celebrável. 

    domingo, outubro 31, 2010

    Deixem os velhos descansar

    É frequente ver sobretudo nas companhias de aviação americanas velhas hospedeiras arrastando uma actividade que a necessidade lhes impõe, mas de que a vida as deveria poupar. Aliás, é uma realidade que já observara noutras actividades, mas que, na minha inocência, associava a participações em actividades de voluntariado e não de coacção social.
    Mas, neste voo da US Airwais não é disso que se trata, mas de uma sórdida obrigatoriedade que o liberalismo vai impondo ou como diz o Coelho com passos de veludo, as garantias do Estado existem enquanto forem economicamente viáveis. Refere-se ele, é claro, às garantias das pessoas, que não às da Banca que garantidamente não terá nunca risco de falência. Realmente, os recursos não são ilimitados e há opções na forma como os distribuímos. Opções de classe, era assim que se dizia num conceito dito passado de prazo, mas que permanece, na verdade, completamente actual.

    sábado, outubro 30, 2010

    De partida

    Poderá ser que sejam os meus olhos ainda mal acordados às seis da manhã, mas mesmo depois da tentativa de os estimular com o café do aeroporto, eles continuam a perceber que não há nos que por aqui andam os mesmos risos nem muito menos os abraços que se encontram na zona das chegadas. Como se existisse uma dificuldade de sair de um lugar onde, realmente, se pertence ainda que esse sentimento tenha, garanto, excepções. Mas mesmo não pertencendo a  um lugar, a uma pátria, o aconchego da pertença continua presente no apego da pertença a uma causa, o que pode ser uma sensação mais solitária, porque menos comungada com um grupo de partilha. É aí que pertenço com a minha impossibilidade de sentir a ideia de pátria. Deve ser por isso, que as partidas não me custam.

    sexta-feira, outubro 29, 2010

    Certezas de médico

    Com o passar do tempo, a maior certeza que se aprende é que a incerteza e a surpresa são a regra desta profissão. Não nas grandes séries onde a tendência para a normalidade gaussiana é uma inevitabilidade, mas nos casos concretos, onde sempre é possível morar-se nas franjas e nos outliers. Por isso, frente ao doente individual e à medida que cá andamos há mais tempo, temos que ter sempre a dúvida e não a arrogância da verdade matemática própria de médicos jovens. Essa é uma das grandes lições que o tempo ensina e uma mensagem necessária para transmitir aos mais novos que connosco se cruzam. Esta é uma profissão de incertezas e dúvidas metódicas e nunca de verdades absolutas que só a arrogância ignorante de alguns pode exprimir. Há um equilíbrio complexo entre o bom-senso que a matemática ensina e o reconhecimento da excepção à normalidade, com a realidade sempre presente de que o erro é inevitável e simultaneamente inaceitável porque, ao contrário dos jogos, aqui só há uma vida. Por isso esta profissão é tão aliciante se não houver a cedência ao charlatanismo da infalibilidade, infelizmente existente nalguns dos seus praticantes. Mau é haver quem a use para a sua afirmação pessoal e ponha em causa a dúvida necessária. Nesse caso melhor fora que fossem matemáticos, gestores ou tivessem outras profissões onde o substrato com que se lida não fosse a vida. Por isso, ser-se médico é uma vida inteira.
    Depois há também uma imperiosa necessidade de fugir à tentação do raro e do que não dá esperança aos doentes. É fútil e apenas revela um prazer doentio de alguns praticantes, que sobrepõem o gozo pessoal da sua promoção, aos bons resultados para os objectos da sua actividade.

    quinta-feira, outubro 28, 2010

    O Baile do Alterne

    No país pequenino é assim: enquanto uns se dedicam ao baile mandado, os outros optam pelo Vira, de um lado para o outro de forma a ficar sempre no mesmo lugar. Aí estão hoje as sondagens a mostrar que agora se roda para a Lapa virando as costas ao Rato e daqui a uns tempos logo se rodará ao contrário, que este povo gosta é do alterne. O maior problema é que esta gente toda não tem memória e pode votar. Mudam a cruzinha e queixam-se, porque esse é o seu fado. Ficam satisfeitos e vão ao fundo lentamente, que nem submarinos os hão-de salvar.

    terça-feira, outubro 26, 2010

    Voto contra


    Está na hora de ficar farto da desesperança e dos prognósticos acertados sobre o passado  dos sábios economistas, que nunca se cansam de mostrar como a Economia tem regras que explicam toda a catástrofe a que se chegou, sem terem tido há uns anos atrás a mais pequena inspiração na previsão do desastre que agora tão bem sabem explicar. Esta cultura não serve, porque é pouco culta, não tem reflexão nem método analítico. E até mais do que cultura, a carência agora é de sonho, de inspiração, daqueles sentires que antes de acontecer já sabiam e anunciavam:


    Que o poema seja microfone e fale
    uma noite destas de repente às três e tal
    para que a lua estoire e o sono estale
    e a gente acorde finalmente em Portugal

    É de novo o tempo de subjugar a economia à Poesia, porque é pelo sonho que vamos.  E depois de acontecer, logo os economistas explicarão o passado, na sua impotência de traçar rumos para o Futuro. Da mesma forma que o microfone falou e houve um acordar numa madrugada de Abril, também agora é necessário sair deste unanimismo controleiro que nos oprime a vida e come a esperança. Há, seguramente, mais vida além da economia.
    Neste momento, não é possível a cobardia da crítica fácil e da não participação. É hora de optar entre o que há, quando nos não propomos como opção e perante a ementa disponível, a decisão está tomada sendo inúteis as reservas que sempre haverá, porque os mundos e as pessoas não são perfeitos, mesmo que a opção seja sobretudo um voto de protesto contra o cálculo e  a manha da economia.
    Que seja até um voto contra Cavaco, mas leve-se Alegre a Presidente!

    domingo, outubro 24, 2010

    Frutos

    Na aparente calmaria, há um constante sobressalto dos elementos, nada desaparece e tudo se transforma. Aqui do aparente lixo nascem frutos. Estes foram os primeiros, com expressão e visibilidade. Inesperados, chegaram um destes dias e merecem o registo que aqui se deixa.

    sexta-feira, outubro 22, 2010

    :)

    Segundo ouvi foram mais de 300000 páginas digitalizadas por um grupo de entusiastas em actividade de fim de semana e de borla!! Assim, Pessoa é dado ao mundo. Ainda há imaterialidade nas acções de alguns. Obrigado, sabe bem saber destas coisas!

    Risco Sistémico

    Não é preciso ter-se uma inteligência superior e basta estar de ouvidos abertos às explicações dos nossos sábios economistas, para se compreender que o Estado Social, tal como o temos actualmente, é insustentável. Percebe-se bem que o Estado (o do Sistema, o não o Social) não pode oferecer o que não tem, isto é, se não tem receita não pode pagar. É essa a regra que o domina. Mas mais uma vez se confirma o provérbio e também esta realidade tem uma excepção: mesmo não tendo dinheiro, temos a certeza que é coisa que nunca faltará quando algum banco tiver alguma dificuldade. Houve um incêndio no BPN e foram queimados mais de 5 mil milhões de euros. Logo, o Estado acudiu a essa catástrofe social e salvou-nos do risco sistémico. Esta coisa do sistémico tem que ver com o Sistema, não é?  O Risco Sistémico deve ser continuarmos a viver sob as regras do Sistema.

    quinta-feira, outubro 21, 2010

    Elogio do holocausto

    Ao lado do empreendedor privado explorado pelo Estado vivem os novos judeus que directamente os sugam e que justificarão ao seu olhar um extermínio sem piedade. Está na hora de ser feita história e purificar o ambiente eliminado essa corja parasitária que agora se percebe ser a causa de todos os males: os funcionários públicos, os novos judeus.
    Se o país avança deve-o às parcerias público-privadas, isto é, à iniciativa empreendedora dos privados paga pelo Orçamento do Estado, que lhes garante o negócio sem risco. De outra forma era a paralisia.
    E que seria de nós se o Governo não recorresse  aos pareceres técnicas dos especialistas do sector privado? Certamente, comprariam (mesmo assim é o que se viu com os submarinos)  gato por lebre e as pontes cairiam no dia seguinte ao da construção. E não foi o sector Privado da Saúde, em grande progresso recentemente,  que reduziu a mortalidade infantil da forma que aconteceu nos últimos 30 anos? Mas, sem dúvida o ponto alto da reforma seria a substituição dos funcionários das Finanças por uma confederação patronal qualquer que aplicaria os impostos, em especial sobre os rendimentos de quem trabalha, reduzindo a carga fiscal dos empreendedores. Aí estaria quase realizado o Céu. Faltaria apenas criar um Governo também privatizado (não é preciso que o sistema de alterne já nos garante naturalmente essa realidade).
     Sim, liquidar todos esses judeus, é o desígnio maior desta febre nazi-fascista anti-Estado, purificando a raça dos empreendedores. Acabe-se com a estruturação, a regulamentação, a organização e deixe-se fluir o Mercado. Promova-se a instabilidade, a insegurança, a precariedade. Que os mais aptos  devorem sem piedade os menos capazes e os tornem seus escravos e para sempre seja proibida a palavra solidariedade. Força, que os ventos deste progresso encham as velas da Nave dos Loucos em direcção ao Caos.

    terça-feira, outubro 19, 2010

    Ensinamentos de França

    E quando o mundo for feito para as pessoas e não para o lucro do poder financeiro, será provavelmente assim.

    Allons enfants de la Patrie,
    Le jour de gloire est arrivé!
    Contre nous de la tyrannie,
    L'étendard sanglant est levé, (bis)
    Entendez-vous dans les campagnes
    Mugir ces féroces soldats?
    Ils viennent jusque dans vos bras
    Égorger vos fils, vos compagnes!
     
    Aux armes, citoyens,
    Formez vos bataillons,
    Marchons, marchons!
    Qu'un sang impur
    Abreuve nos sillons!

    Morto súbito

    A primeira reacção deve ser de surpresa, porque não é de todo esperado ser-se, de repente, um morto súbito, sem aviso, sem a surpresa de um diagnóstico e a ilusão do êxito de uma quimioterapia, por exemplo. A seguir deve aparecer uma enorme sensação de injustiça por se não perceber a razão da escolha, quando afinal há por aí tanto filho da mãe a quem poderia ter saído esta sorte. Esta injustiça deve acompanhar-se de irritação e revolta contra o mandante da coisa. E de frustração porque, na verdade, ali chegado já nada se pode fazer para evitar a situação. Nem já há tempo para dar os beijos que faltaram dar!
    Mas, quase de certeza, haverá também lugar para a reflexão sobre as opções, os caminhos que se escolheram e todas as oportunidades que se perderam, porque se apostava numa vida mais longa,  sempre adiada, que justificava os sacrifícios e os sapos a engolir, porque depois é que ia ser. Este logro deve ser o mais difícil de digerir, porque, na aparência, era o único que poderia ter sido controlado se tivesse sido feita a aposta no cavalo certo. Deve dar uma vontade enorme de berrar para os amigos que se deixaram por aí: mandem tudo às urtigas, porque a vossa vida é hoje! Mas valerá a pena esse grito? O mais provável é que eles não acreditem na sabedoria de um morto súbito, porque o sonho é imprudente, mas comanda a vida. É o engano que seduz os homens, de tal forma que entregaram a propriedade do futuro a um Deus qualquer, satisfeitos que ficaram com a ilusão da posse da vida. Tanta ilusão e impotência!

    segunda-feira, outubro 18, 2010

    Esperança

    Sempre tenho alguma admiração e esperança pelos franceses. Por estes que têm um ar de República nos olhos.
    Curiosamente, andam escondidos nos pasquins e televisões da terra, mas já dizem que Maio pode voltar a ser possível

    Défice de vida


    Na cidade grande, na pressa dos dias cada vez mais escassos pela jornada de trabalho que não pára de crescer, na urgência de chegar, ninguém sabe onde nem para quê, porque as viagens cada vez têm menos um sentido e são apenas mais um destino, um objectivo, um visto que se coloca no quadrado da verificação dos deveres. São curiosas estas câmaras que enxameiam as cidades e deixam memórias dos instantes, que aos humanos foram roubados. Primeiro, foram os bons-dias!, boas-tardes!, que sumiram. Agora até os olhares deixaram de ver nestes locais movimentados, onde vai tudo em grande correria. Mas que pressa é esta, oh gentes, que cega a realidade ali ao lado? Já só há olhos para as imagens virtuais, para a realidade da TV, que a outra, a realidade verdadeira foi comida pela cegueira. Na pequenez da dimensão dos corpos que se movem, quase que sinto a presença dos fios que os suspendem e deslocam. Como num teatro de marionetas, também estes bonecos seguem suspensos pela invisibilidade dos cordéis que os movem, sem vida real. A isto estão reduzidos. Isolados, perdidos e cegos, sem vontade, vão com o destino, mas sem rumo. Cruzam-se com a realidade, mas a cegueira já não os deixa vê-la.
    Há também um que sentado terá ouvido a gritaria da discussão e o som do corpo a estatelar-se no chão. Automaticamente, passados uns instantes, levanta-se e segue o seu caminho, na tranquilidade do seu vácuo nem olhando, por curiosidade, a enfermeira romena que morreu na superfície da cidade, em pleno dia, perante a distracção dos que passavam depois de um conflito miserável provavelmente ditado pela pressa de ter um bilhete. Este é o défice de vida, infinitamente mais grave que os outros que nos vão vendendo de forma obsessiva nos dias de agora.

    quinta-feira, outubro 14, 2010

    PDCA

    Olhando alguns dos serviços existentes sou forçado a concluir que obedecem efectivamente a uma estratégia de  subordinada ao princípio PDCA. Não, não me refiro à melhoria contínua da qualidade que Deming ensina, mas apenas à tese que afirma Porque Devemos Continuar Assim. Realmente se liderados por chefes que chegaram onde estão porque o sistema é o existente (e havendo sérias dúvidas que lá estivessem se o rigor fosse a regra), por que raio se esperaria que agissem de outra forma? O seu objectivo estratégico para o Serviço está atingido, por isso defendem o seu PDCA com toda a energia que têm. Deles, mais se não pode esperar.