sábado, novembro 20, 2010

Dúvida

Da fome, da peste e da guerra, livrai-nos Senhor” oração do século XIV.
«... e também dos mercados», oração do século XXI


Sete séculos depois, a mesma história. Uns capitulam perante o compromisso que eles próprios engendraram, outros resistem. Foi assim em 1383, assim está a ser em 2010. Há por aí muito nobre ajoelhado (ou até em prece maometana) face aos ditos mercados, esperando, quase ansiosos o único desfecho possível, a estocada final. E há também o povo sempre capaz de resistir e atirar pela janela alguns andeiros indesejáveis. Será que ainda há energia para um gesto necessário?

sexta-feira, novembro 19, 2010

Estratégia de coping

É bom não antecipar nunca as desgraças. Mais que não seja porque não vale a pena vivê-las duas vezes, no momento em que as antecipamos e, depois, quando ocorrem. Ou então nem chegam a acontecer e estivemos a perder tempo sofrendo de forma inútil.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Estratégia de risco

Estar aqui com a urgência de estar além, mais que não seja porque adiar a ida pode ser (espera-se que não seja) uma impossibilidade. Saber que a liberdade é ali e continuar preso a esta espécie de prisão aqui. Está-se dividido entre o dever e o prazer, o que torna mais penosa ainda a obrigação de ficar. Pergunta-se para quê e a resposta não chega, restando a vontade não garantida de que um dia... É uma estratégia de alto risco, mais do que uma inércia e com o passar do tempo fica a sensação de que o prazer de lá estar seria agora e não depois, quando a percepção e a memória já poderão não permitir gozar a plenitude dos instantes. O sol vai nascer e pôr-se todos os dias, mas as árvores vão, cada vez, dar menos sombra. Poderá ser que ainda se possa ficar debaixo, quieto, à espera do momento final na paz do espaço e do tempo. Mas nada o pode garantir e isso é que inquieta.

domingo, novembro 14, 2010

Uma tarde mal passada

Primeiro estranhei a multidão numa sexta-feira à tarde, mas é sabido que o contacto com um possível futuro ministro os leva aos maiores sacrifícios e poucos foram os que lá não estiveram. Depois os sábios, optaram pela teorização da gestão da saúde em tempos de crise e fugiram, com excepção do potencial ministro, à apresentação de medidas concretas. A mais significativa, a necessidade da separação do trabalho dos médicos entre sector privado e público. É mais que tempo de parar com esta coisa de ir fazer umas horas de manhã a um hospital e depois ir ganhar dinheiro no sector privado. Pois é, mas continua. Tornar transparente a gestão através da accountability do que é feito, outra necessidade imperiosa. Mas ninguém quer saber. O resto foi a negação da realidade e a insistência no erro da promoção das corporações. Maldito Salazar que impregnou os genes desta malta!
E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!

quarta-feira, novembro 10, 2010

Os mercados


Hoje tive uma consulta triste pelo confronto com a gente desesperançada, derrotada. A verdade da televisão entra-lhes no corpo e corrói-lhes a alma. Alguns chegaram mesmo a despedir-se até à consulta seguinte, no próximo ano, como se já cá não voltassem por tão perto lhes parecer estar o cadafalso. Onde anda a capacidade de resistência? Há uma diferença para os outros tempos em que às escondidas com a PIDE/DGS cantávamos. A juventude aí liderava o processo com a sua energia e os velhos, às vezes, refreavam a luta, pelo temor; agora os velhos estão sem energia a relembrar o seu passado e os novos estão assumidos e engolidos pela doutrina oficial e a tentarem, uns contra os outros, encontrar um emprego que não surge, impotentes para identificarem o real inimigo e descobrirem a palavra necessária: SOLIDARIEDADE.

terça-feira, novembro 09, 2010

Diagnóstico

Esta fase da dúvida, em que se procuram os caminhos, exige uma gestão de muito cuidado para se não transmitir essa inquietude ao objecto. Vive-se num tempo em que não há tempo para a reflexão, para a análise das hipóteses e em que se parte para a acção em busca da solução não considerada previamente, como se o objectivo fosse encontrar algo satisfatório de surpresa. Cada vez mais, crentes da potencialidade sem limites da tecnologia, se vê esse jogo a ser promovido na pressa do tempo. Vamos e logo se vê e, muitas vezes, o que parece estar a ser visto é enganador e nos faz saltar para outros desconhecidos, como se andássemos numa navegação sem bússola no tempo do GPS. Fica-se então perdido e vai-se andando ao sabor dos palpites, criando uma entropia cada vez maior em que a probabilidade de acertar vai sendo reduzida pelo aumento exponencial das hipóteses. Até no processo do diagnóstico passámos a ser imediatistas, como num jogo rápido de xadrez onde se não consideram todas as hipóteses antes de decidir a jogada. Joga-se primeiro, corrige-se depois e segue-se de correcção em correcção até ao xeque mate final. A estratégia deu lugar ao consumo desregrado e gera-se uma enxurrada de informação que se não consegue coordenar e implica um gigantesco desperdício de recursos. E quando o doente questiona, recorre-se à autoridade da ciência dos sábios e, paternalmente, sugere-se-lhes que não se ralem com o assunto, que os sábios estão a fazer o que é necessário e chegarão à solução. Mas na avalanche dos exames em que os tubos são enfiados por todos os orifícios possíveis do corpo e os corpos são passados pelos mais variados scanneres, o objecto da análise deverá sentir-se confundido com tanta pesquisa. Isso deve inquietar. Afinal, que raio andam eles a procurar?

segunda-feira, novembro 08, 2010

Proposta

Parece óbvio que a substituição do Prof. Correia de Campos foi um recuo na Saúde em Portugal e ainda está para se perceber a origem e identificar quem desencadeou a campanha mediática, que motivou a sua queda. No entanto, ainda se está a tempo de corrigir o erro. Há alternativa.

domingo, novembro 07, 2010

De regresso

São sempre simpáticos os americanos que se sentam ao nosso lado. Têm qualquer problema de estarem sozinhos e calados, pelo que à primeira oportunidade disparam o where do you come from, e a conversa está engatada. Desta vez calhou ser um luso-descendente na terceira geração com o português já completamente esquecido, mas curioso de saber onde e como serão os Azores de onde veio a avó. Viajado, já com vasta experiência de Caraíbas desde Cancun à Jamaica em várias idas. Recomendei-lhe a ida à ilha que lhe faltava, mas como me disse não lhe é permitido (curioso não ter dito que lhe é proibido) lá ir. De Fidel informou-me que não compreende como um presidente mata os seus. Já por pudor não lhe disse que os seus presidentes também são especialistas nesse campo, mas preferem fazê-lo fora de portas, no Iraque ou no Afeganistão. Mas sempre o fui informando que na ilha que lhe não é permitido visitar há gente com cuidados de saúde e educação garantida, não havendo a miséria que se pode observar noutros locais das Caraíbas, ou mesmo na sua homeland. Have a nice trip!
Na minha trip desta vez tive a necessidade de, estando em trânsito, entrar duas vezes na homeland, o que está a tornar-se um exercício cada vez mais complexo com filas de meia hora para chegar ao cidadão verificador da nossa identidade. Se as impressões digitais se gastassem, já não conseguia marcar o ponto no hospital de tanta vez que tive que apoiar os dedos das mãos no registo e já conhecem melhor a minha íris do que eu próprio. Só que estes tipos não têm memória e, de todas as vezes, a história se repete. Com uma excepção que acontece quando se tem um nome frequente ou suspeito, o que dá direito a uma segunda verificação, mais tempo gasto e dúvidas sobre onde estarão as malas e se ainda se irá a tempo do voo de ligação, tudo sem explicações nem desculpas. Será que nunca pensaram que mal terão andado a fazer pelo mundo fora para terem tanto medo de toda a gente? Parecem acreditar pouco que Deus abençoe a América… Eles acreditar talvez acreditem (foram ensinados a fazê-lo), pensar é que não (foram educados a não o fazer).

sexta-feira, novembro 05, 2010

Cancun prático

Cancun é uma tira de hotéis estendida ao longo de muitos quilómetros a norte do aeroporto. O que se faz em Cancun? Vai-se à praia que tem água azul-turquesa com temperatura generosa. Compram-se viagens para ir ver algo diferente (além de ir à praia) em locais a 2-3 horas de viagem. Portanto, e como há praias  perto desses locais, o mais sensato é ir para um hotel nesses sítios e poupar umas horas de sono no hotel mal substituídas por sestas nos autocarros.
Ficando em Cancun pode facilmente andar-se de uma ponta à outra da tira dos hotéis de autocarro a custo baixo (0,5€/viagem). Há centros comerciais e clubes nocturnos e praias onde os hotéis não cobriram o chão. Também restaurantes para vários gostos. E polícia a fazer barreiras e a revistar carros, que o narcotráfico não dá tréguas.
Portanto, o melhor quando se vem a Cancun é sair de cá e ir até Chichen Itza, Tulum e a parques de diversões como Xeh-la e Xcaret. Nos primeiros vemos calendários gigantes e fica-se parvo como foi possível fazer aquilo naqueles tempos. Nos parques, goza-se a água quente a céu aberto ou em rios subterrâneos (artificiais?) ou pode caminhar-se no fundo de um aquário de 7 metros de profundidade (carregando uma máscara à maneira de astronauta ligado à cápsula por um tubo que nos garante o oxigénio), para ver uns tipos dar de comer aos peixes enquanto outros mayapaparrazi nos tiram fotografias. Há também postais ilustrados onde se pode ficar deitado à sombra e gente geralmente bem educada por perto que tenta ser prestável (quando por exemplo se cai de um passeio abaixo... os passeios à beira da estrada têm um desnível de cerca de 30 cm!). Há ainda a versão de tormenta com ventos fortes de dobrar copas de palmeiras em que começa a ser complicado descobrir algo que fazer. A ida a downtown apenas confirma que Cancun não existe ou como diz um dos guias, em busca da propina, aqui não se produz nada, vivemos da vossa generosidade. Voltem sempre! E, na verdade, apetece fazer-lhes a vontade pela temperatura da água e pelos locais onde o sossego é possível desde que se não ande no contra relógio do guia turístico. Também pelo conhecimento que noutros tempos aqui houve. Para reflectir e ficar longe do pequeno mundo.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Mais maias

O erro dos maias poderá ter sido a auto-satisfação com o conhecimento. a arrogância da razão, eventualmente. Qualquer político hoje em dia sabe que não basta a razão e que mais importante do que isso pode mesmo ser a estratégia de vender a não-razão. Isso é que rende. Eles não souberam e pereceram. Ao olhar os seus relógios, sente-se a injustiça da sua história, sobretudo quando se vê que as irracionalidades e o obscurantismo das diferentes variantes de fé têm conseguido bem mais no que ao poder diz respeito. Mas esse tem sido também o mecanismo de grandes recuos ou paragens no tempo. O deles processava-se em ciclos determinados por realidades cósmicas, sem hipóteses de paragens. E ainda continua.
Estes saberes despertam curiosidade de quem lhes sente a razão.

terça-feira, novembro 02, 2010

Bolsa de emoções

Deve estar certo porque o esquema está globalizado e não tem grandes variações entre os locais e as gentes que lá vivem. Há um jogo de simpatias e simultaneamente de falsidade em que a comunicação das emoções decide o resultado. Analisando friamente a questão conclui-se que o preço acaba por nem variar tanto de um caso para outro, mas o que decide o negócio não é a racionalidade, mas a empatia emocional entretanto criada pelo processo de comunicação. Mesmo tentando actuar no negócio com a frieza possível, sinto que acabo por ceder por razões não necessariamente racionais. A bolsa dos valores das excursões acaba por não diferir muito das outras bolsas de valores, onde também são factores irracionais a decidir os negócios. Interrogo-me se não seremos capazes de conseguir algo melhor do que isto.
Não vale mesmo a pena invocar boas razões para o sucesso, que ele depende de outras causas, mas não necessariamente das boas razões da cultura que não busque a opressão. Assim parece ter acontecido aos maias, uma cultura avançada, mas que não usou o conhecimento que possuía para dominar. Acabaram a fazer, nos dias de hoje, os trabalhos mais básicos e mais mal pagos nos hotéis de Cancun. De nada lhes valeu estarem avançados, porque outros factores são ainda mais importantes que a cultura. Pelos vistos já há várias centenas de anos.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Santa Morte


Será a praia onde se chega como diz A. Lobo Antunes ou uma mulher de gadanha ou uma Velha vestida de preto, tudo isso pode ser esse instante certo e inevitável para onde todos caminhamos, mas aqui é aparentemente diferente, chegando mesmo a ser Santa Muerte. Há uma atitude de brincadeira e veneração neste dia em que os mortos regressam e lhes oferecem bolos, cigarros ou mesmo uma bala que não irá ser utilizada numa rixa de cartéis de narcotráfico. Os  naturais mascaram-se como se estivéssemos  num carnaval neste dia e há uma alegria mal percebida por quem não é daqui. Há um ambiente de festa no ar porque a morte está presente.
Este breve contacto de turista não dá para entender até que ponto as aparências estarão a iludir e tudo não possa passar de esconjuro ou catarse para liquidar medos ocultos, mas propicia uma nova forma de encarar um problema que cada dia se vai tornando mais actual «à medida que se nada para a praia». Mas se o rumo é necessário, porque fugir e temê-lo. É possível, que a razão para isso, esteja na consciência de ainda haver algo mais para acabar (mas estamos programados para alguma obra em especial?) e não termos ainda tido o tempo suficiente ou poderá ser apenas o hábito de ir seguindo, fazendo o que se faz sem se dar conta até ao momento de despertar final quando a areia nos põe de pé. O risco não é pois a morte, mas a vida desperdiçada, essa sim irrecuperável. Disso é que é mais difícil desculparmo-nos. A morte é, desta forma, um estímulo para a vida. Pode, por isso, ser celebrável. 

domingo, outubro 31, 2010

Deixem os velhos descansar

É frequente ver sobretudo nas companhias de aviação americanas velhas hospedeiras arrastando uma actividade que a necessidade lhes impõe, mas de que a vida as deveria poupar. Aliás, é uma realidade que já observara noutras actividades, mas que, na minha inocência, associava a participações em actividades de voluntariado e não de coacção social.
Mas, neste voo da US Airwais não é disso que se trata, mas de uma sórdida obrigatoriedade que o liberalismo vai impondo ou como diz o Coelho com passos de veludo, as garantias do Estado existem enquanto forem economicamente viáveis. Refere-se ele, é claro, às garantias das pessoas, que não às da Banca que garantidamente não terá nunca risco de falência. Realmente, os recursos não são ilimitados e há opções na forma como os distribuímos. Opções de classe, era assim que se dizia num conceito dito passado de prazo, mas que permanece, na verdade, completamente actual.

sábado, outubro 30, 2010

De partida

Poderá ser que sejam os meus olhos ainda mal acordados às seis da manhã, mas mesmo depois da tentativa de os estimular com o café do aeroporto, eles continuam a perceber que não há nos que por aqui andam os mesmos risos nem muito menos os abraços que se encontram na zona das chegadas. Como se existisse uma dificuldade de sair de um lugar onde, realmente, se pertence ainda que esse sentimento tenha, garanto, excepções. Mas mesmo não pertencendo a  um lugar, a uma pátria, o aconchego da pertença continua presente no apego da pertença a uma causa, o que pode ser uma sensação mais solitária, porque menos comungada com um grupo de partilha. É aí que pertenço com a minha impossibilidade de sentir a ideia de pátria. Deve ser por isso, que as partidas não me custam.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Certezas de médico

Com o passar do tempo, a maior certeza que se aprende é que a incerteza e a surpresa são a regra desta profissão. Não nas grandes séries onde a tendência para a normalidade gaussiana é uma inevitabilidade, mas nos casos concretos, onde sempre é possível morar-se nas franjas e nos outliers. Por isso, frente ao doente individual e à medida que cá andamos há mais tempo, temos que ter sempre a dúvida e não a arrogância da verdade matemática própria de médicos jovens. Essa é uma das grandes lições que o tempo ensina e uma mensagem necessária para transmitir aos mais novos que connosco se cruzam. Esta é uma profissão de incertezas e dúvidas metódicas e nunca de verdades absolutas que só a arrogância ignorante de alguns pode exprimir. Há um equilíbrio complexo entre o bom-senso que a matemática ensina e o reconhecimento da excepção à normalidade, com a realidade sempre presente de que o erro é inevitável e simultaneamente inaceitável porque, ao contrário dos jogos, aqui só há uma vida. Por isso esta profissão é tão aliciante se não houver a cedência ao charlatanismo da infalibilidade, infelizmente existente nalguns dos seus praticantes. Mau é haver quem a use para a sua afirmação pessoal e ponha em causa a dúvida necessária. Nesse caso melhor fora que fossem matemáticos, gestores ou tivessem outras profissões onde o substrato com que se lida não fosse a vida. Por isso, ser-se médico é uma vida inteira.
Depois há também uma imperiosa necessidade de fugir à tentação do raro e do que não dá esperança aos doentes. É fútil e apenas revela um prazer doentio de alguns praticantes, que sobrepõem o gozo pessoal da sua promoção, aos bons resultados para os objectos da sua actividade.

quinta-feira, outubro 28, 2010

O Baile do Alterne

No país pequenino é assim: enquanto uns se dedicam ao baile mandado, os outros optam pelo Vira, de um lado para o outro de forma a ficar sempre no mesmo lugar. Aí estão hoje as sondagens a mostrar que agora se roda para a Lapa virando as costas ao Rato e daqui a uns tempos logo se rodará ao contrário, que este povo gosta é do alterne. O maior problema é que esta gente toda não tem memória e pode votar. Mudam a cruzinha e queixam-se, porque esse é o seu fado. Ficam satisfeitos e vão ao fundo lentamente, que nem submarinos os hão-de salvar.

terça-feira, outubro 26, 2010

Voto contra


Está na hora de ficar farto da desesperança e dos prognósticos acertados sobre o passado  dos sábios economistas, que nunca se cansam de mostrar como a Economia tem regras que explicam toda a catástrofe a que se chegou, sem terem tido há uns anos atrás a mais pequena inspiração na previsão do desastre que agora tão bem sabem explicar. Esta cultura não serve, porque é pouco culta, não tem reflexão nem método analítico. E até mais do que cultura, a carência agora é de sonho, de inspiração, daqueles sentires que antes de acontecer já sabiam e anunciavam:


Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal

É de novo o tempo de subjugar a economia à Poesia, porque é pelo sonho que vamos.  E depois de acontecer, logo os economistas explicarão o passado, na sua impotência de traçar rumos para o Futuro. Da mesma forma que o microfone falou e houve um acordar numa madrugada de Abril, também agora é necessário sair deste unanimismo controleiro que nos oprime a vida e come a esperança. Há, seguramente, mais vida além da economia.
Neste momento, não é possível a cobardia da crítica fácil e da não participação. É hora de optar entre o que há, quando nos não propomos como opção e perante a ementa disponível, a decisão está tomada sendo inúteis as reservas que sempre haverá, porque os mundos e as pessoas não são perfeitos, mesmo que a opção seja sobretudo um voto de protesto contra o cálculo e  a manha da economia.
Que seja até um voto contra Cavaco, mas leve-se Alegre a Presidente!

domingo, outubro 24, 2010

Frutos

Na aparente calmaria, há um constante sobressalto dos elementos, nada desaparece e tudo se transforma. Aqui do aparente lixo nascem frutos. Estes foram os primeiros, com expressão e visibilidade. Inesperados, chegaram um destes dias e merecem o registo que aqui se deixa.

sexta-feira, outubro 22, 2010

:)

Segundo ouvi foram mais de 300000 páginas digitalizadas por um grupo de entusiastas em actividade de fim de semana e de borla!! Assim, Pessoa é dado ao mundo. Ainda há imaterialidade nas acções de alguns. Obrigado, sabe bem saber destas coisas!

Risco Sistémico

Não é preciso ter-se uma inteligência superior e basta estar de ouvidos abertos às explicações dos nossos sábios economistas, para se compreender que o Estado Social, tal como o temos actualmente, é insustentável. Percebe-se bem que o Estado (o do Sistema, o não o Social) não pode oferecer o que não tem, isto é, se não tem receita não pode pagar. É essa a regra que o domina. Mas mais uma vez se confirma o provérbio e também esta realidade tem uma excepção: mesmo não tendo dinheiro, temos a certeza que é coisa que nunca faltará quando algum banco tiver alguma dificuldade. Houve um incêndio no BPN e foram queimados mais de 5 mil milhões de euros. Logo, o Estado acudiu a essa catástrofe social e salvou-nos do risco sistémico. Esta coisa do sistémico tem que ver com o Sistema, não é?  O Risco Sistémico deve ser continuarmos a viver sob as regras do Sistema.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Elogio do holocausto

Ao lado do empreendedor privado explorado pelo Estado vivem os novos judeus que directamente os sugam e que justificarão ao seu olhar um extermínio sem piedade. Está na hora de ser feita história e purificar o ambiente eliminado essa corja parasitária que agora se percebe ser a causa de todos os males: os funcionários públicos, os novos judeus.
Se o país avança deve-o às parcerias público-privadas, isto é, à iniciativa empreendedora dos privados paga pelo Orçamento do Estado, que lhes garante o negócio sem risco. De outra forma era a paralisia.
E que seria de nós se o Governo não recorresse  aos pareceres técnicas dos especialistas do sector privado? Certamente, comprariam (mesmo assim é o que se viu com os submarinos)  gato por lebre e as pontes cairiam no dia seguinte ao da construção. E não foi o sector Privado da Saúde, em grande progresso recentemente,  que reduziu a mortalidade infantil da forma que aconteceu nos últimos 30 anos? Mas, sem dúvida o ponto alto da reforma seria a substituição dos funcionários das Finanças por uma confederação patronal qualquer que aplicaria os impostos, em especial sobre os rendimentos de quem trabalha, reduzindo a carga fiscal dos empreendedores. Aí estaria quase realizado o Céu. Faltaria apenas criar um Governo também privatizado (não é preciso que o sistema de alterne já nos garante naturalmente essa realidade).
 Sim, liquidar todos esses judeus, é o desígnio maior desta febre nazi-fascista anti-Estado, purificando a raça dos empreendedores. Acabe-se com a estruturação, a regulamentação, a organização e deixe-se fluir o Mercado. Promova-se a instabilidade, a insegurança, a precariedade. Que os mais aptos  devorem sem piedade os menos capazes e os tornem seus escravos e para sempre seja proibida a palavra solidariedade. Força, que os ventos deste progresso encham as velas da Nave dos Loucos em direcção ao Caos.

terça-feira, outubro 19, 2010

Ensinamentos de França

E quando o mundo for feito para as pessoas e não para o lucro do poder financeiro, será provavelmente assim.

Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Contre nous de la tyrannie,
L'étendard sanglant est levé, (bis)
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats?
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes!
 
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchons, marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons!

Morto súbito

A primeira reacção deve ser de surpresa, porque não é de todo esperado ser-se, de repente, um morto súbito, sem aviso, sem a surpresa de um diagnóstico e a ilusão do êxito de uma quimioterapia, por exemplo. A seguir deve aparecer uma enorme sensação de injustiça por se não perceber a razão da escolha, quando afinal há por aí tanto filho da mãe a quem poderia ter saído esta sorte. Esta injustiça deve acompanhar-se de irritação e revolta contra o mandante da coisa. E de frustração porque, na verdade, ali chegado já nada se pode fazer para evitar a situação. Nem já há tempo para dar os beijos que faltaram dar!
Mas, quase de certeza, haverá também lugar para a reflexão sobre as opções, os caminhos que se escolheram e todas as oportunidades que se perderam, porque se apostava numa vida mais longa,  sempre adiada, que justificava os sacrifícios e os sapos a engolir, porque depois é que ia ser. Este logro deve ser o mais difícil de digerir, porque, na aparência, era o único que poderia ter sido controlado se tivesse sido feita a aposta no cavalo certo. Deve dar uma vontade enorme de berrar para os amigos que se deixaram por aí: mandem tudo às urtigas, porque a vossa vida é hoje! Mas valerá a pena esse grito? O mais provável é que eles não acreditem na sabedoria de um morto súbito, porque o sonho é imprudente, mas comanda a vida. É o engano que seduz os homens, de tal forma que entregaram a propriedade do futuro a um Deus qualquer, satisfeitos que ficaram com a ilusão da posse da vida. Tanta ilusão e impotência!

segunda-feira, outubro 18, 2010

Esperança

Sempre tenho alguma admiração e esperança pelos franceses. Por estes que têm um ar de República nos olhos.
Curiosamente, andam escondidos nos pasquins e televisões da terra, mas já dizem que Maio pode voltar a ser possível

Défice de vida


Na cidade grande, na pressa dos dias cada vez mais escassos pela jornada de trabalho que não pára de crescer, na urgência de chegar, ninguém sabe onde nem para quê, porque as viagens cada vez têm menos um sentido e são apenas mais um destino, um objectivo, um visto que se coloca no quadrado da verificação dos deveres. São curiosas estas câmaras que enxameiam as cidades e deixam memórias dos instantes, que aos humanos foram roubados. Primeiro, foram os bons-dias!, boas-tardes!, que sumiram. Agora até os olhares deixaram de ver nestes locais movimentados, onde vai tudo em grande correria. Mas que pressa é esta, oh gentes, que cega a realidade ali ao lado? Já só há olhos para as imagens virtuais, para a realidade da TV, que a outra, a realidade verdadeira foi comida pela cegueira. Na pequenez da dimensão dos corpos que se movem, quase que sinto a presença dos fios que os suspendem e deslocam. Como num teatro de marionetas, também estes bonecos seguem suspensos pela invisibilidade dos cordéis que os movem, sem vida real. A isto estão reduzidos. Isolados, perdidos e cegos, sem vontade, vão com o destino, mas sem rumo. Cruzam-se com a realidade, mas a cegueira já não os deixa vê-la.
Há também um que sentado terá ouvido a gritaria da discussão e o som do corpo a estatelar-se no chão. Automaticamente, passados uns instantes, levanta-se e segue o seu caminho, na tranquilidade do seu vácuo nem olhando, por curiosidade, a enfermeira romena que morreu na superfície da cidade, em pleno dia, perante a distracção dos que passavam depois de um conflito miserável provavelmente ditado pela pressa de ter um bilhete. Este é o défice de vida, infinitamente mais grave que os outros que nos vão vendendo de forma obsessiva nos dias de agora.

quinta-feira, outubro 14, 2010

PDCA

Olhando alguns dos serviços existentes sou forçado a concluir que obedecem efectivamente a uma estratégia de  subordinada ao princípio PDCA. Não, não me refiro à melhoria contínua da qualidade que Deming ensina, mas apenas à tese que afirma Porque Devemos Continuar Assim. Realmente se liderados por chefes que chegaram onde estão porque o sistema é o existente (e havendo sérias dúvidas que lá estivessem se o rigor fosse a regra), por que raio se esperaria que agissem de outra forma? O seu objectivo estratégico para o Serviço está atingido, por isso defendem o seu PDCA com toda a energia que têm. Deles, mais se não pode esperar.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Ainda há notícias boas?

Hoje foi um dia grande no Chile. Trinta e três homens foram arrancados do buraco negro que os tinha engolido. Um dia grande no mundo também, porque 33 vidas foram resgatadas sem olhar à relação custo-benefício da sua libertação. E é tão raro encontrar exemplos deste desprendimento material e da valorização da vida humana. Um dia que só não é tão grande porque noutros sítios muitas 33 vidas vezes n são desvalorizadas e morrem anonimamente perante a indiferença do mundo. Já deixei de fazer contas, mas 30 e tal eram os mortos diários no Iraque depois da «libertação». É o contraste entre a terra que pare e a terra que sepulta, entre o valor do homem e valor do petróleo. No meio das trevas, soube-me bem esta luz ao cimo do túnel numa montanha que pariu 30 e tal vidas. E o mais incrível é que foi notícia, mesmo não sendo tragédia. Um quase milagre a 13 de Outubro.

Professor na sala dos alunos

Custou-me, apesar de tudo, um pouco a cena deste almoço. Na mesa corrida, o velho professor comia sozinho na sala agitada e cheia dos novos alunos. Mastigava devagar com ar pesado, possivelmente, interiorizando a sua nova solidão e constatando a fugacidade do poder que teve. Ele que se terá julgado grande e eterno nalguns instantes do passado, estava ali no confronto com a nova realidade do seu anonimato. Por que terá ido ali almoçar? Talvez uma romagem de saudade, mas possivelmente à procura de algum sorriso de gratidão, que é isso que sempre se busca pela vida fora. Não calhou, nenhum dos seus ex-colaboradores por ali passou numa coincidência que lhe teria adiado a azia do olhar vago pela sala. Mastigava, aparentemente, sereno, mas obviamente inquieto. Os seus touchpoints nunca foram tão vazios e as vénias académicas sumiram para outros. Mastigava lentamente. Procuraria a obra, algum sorriso de uma mãe agradecida ou estaria simplesmente descrente pensando se terá valido a pena ter estado naquela casa de que um dia se achou pilar? Sempre me desperta alguma nostalgia este regresso, que suponho dever-se à ausência de raízes a outros lugares e realidades. A solidão sem pontos de contacto... nem regresso.

terça-feira, outubro 12, 2010

Sobre a cobardia

Há também um limite para a resiliência e ultrapassado esse ponto, os materiais quebram sem piedade. Plim, é a fractura indomável. Mas há também limites para a decência e isso é que me impede de aceitar como intelectualmente honestos os revolucionários do mal menor. Ainda se entende que os reaccionários apoiem este caminho e até que queiram mais, porque ainda acham poder ir-se mais além no esticar da corda. É da sua natureza. Cumpre-nos mostrar que estão errados. Agora, que o aconchego mesmo do pequeno poder, quebre a coluna de alguns é que não consigo entender. A cobardia do fim do caminho não serve de desculpa, apenas destapa a cobardia moral da sua essência. Há estes momentos na História em que saber o lado em que se está é determinante e não chega dizermos, estou deste embora o meu coração esteja do outro, porque é arriscado pôr a bomba contra o organismo: morrerão os dois.

segunda-feira, outubro 11, 2010

É o poder, estúpidos!

É curiosa esta reflexão sobre a forma de entrevistar banqueiros e políticos. Curiosa porque reveladora da escala do Poder. A pirâmide do capitalismo que reproduzi num texto recente mudou efectivamente. Nos dias de agora no cimo da pirâmide está a Banca e o Poder financeiro, logo abaixo o Poder dos Media (controlado economicamente pela cúpula da pirâmide), depois virão os Políticos (obedientes ao Poder Financeiro e dos Media que fazem a chamada Opinião Publicada). Logo abaixo vem a anestesiante indústria do Entretenimento (o novo ópio do Povo) e as Forças desta Ordem, dominadas pelos níveis superiores. Uma visando levar o Povo às boas, derrama emoções desportivas e histórias de socialite para que o sonho e a perseguição da cenoura se mantenha activo; quando as coisas se não controlam devidamente desta forma, recorre-se então ao bastão e jacto de água. Nos dois níveis inferiores estão a Classe Média, ávida de comer as migalhas que de cima vão caindo e sugada mais ou menos consoante as épocas pelo real poder financeiro e finalmente, no fundo, quem faz as coisas (este grupo está cada vez mais constituído por asiáticos e indianos e por pequenos grupos de «dispensáveis» no mundo ocidental). Fora da pirâmide, porque já lhes foram sugados os recursos que em tempos os tornavam interessantes e porque não existe pachorra para a corrupção e ainda há uma vaga esperança que a malária tome definitivamente conta deles, os Africanos, que passaram de dispensáveis a dispensados.
Não é pois de admirar que, pela posição ocupada neste esquema, os «jornalistas» sejam reverentes com os banqueiros e maltratem os políticos. É o poder, estúpidos. Os políticos cada vez mais convertidos em testas de ferro do verdadeiro poder (oculto para melhor dominar) e, quem sabe, inspirado por um Deus supremo. Um regresso inesperado a um Absolutismo de trevas, ainda sem o despertar de um novo Iluminismo. Mas a história continua...

domingo, outubro 10, 2010

Guerra e Paz


Andando por arquivos de fotos, encontrei  esta, perdida, feita num memorial de guerras em Washington. Colori-a de preto e branco, porque assim é a Guerra e a Paz e ficava mal o verde do arvoredo. A celebração da guerra sempre me confunde, pelo que achei feliz ter encontrado aqueles dois repousados no banco do jardim A vida é, muitas vezes, feita de instantes, de olhares ou até de coincidências contrastantes que só mais tarde se tornam aparentes. Preciso é continuar a olhar e voltar a ver não passando nunca ausente pela existência fugaz das pressas do tempo.

sábado, outubro 09, 2010

É a luta de classes, estúpido!

Como dizia a velha cantiga, é necessário, imperioso e urgente informar, avisar toda  malta... que por inércia e derrota se arrasta por aí na sobrevivência.
Em vez de, por rotina, ler o Expresso e ouvir de forma apática toda a doutrina económica dos sábios da terra e porque a história está longe de ter chegado ao fim e precisa ser mudada,  propõe-se:


What Classless Society?

The so-called growing rich-poor gap in “classless” America is a euphemism for the existence of an accelerated class struggle against American workers and the poor by a relatively small minority that possesses or has access to great wealth and power.
The Census Bureau reported September 24 that the income differential between rich and poor Americans was greater in 2009 than any time since such records were kept.
Another Census report two weeks earlier revealed that America’s largest year-to-year increase in poverty took place in 2009, although its estimate of 43.6 million people living in poverty is considered a serious undercount based on outmoded measurement criteria. Young workers and children are fast falling to the bottom of the heap. The biggest poverty jump last year was among 18 to 24 year old “less-skilled” adults, and 20% of our children live in poverty.
The Associated Press reported September 28, “The top-earning 20% of Americans — those making more than $100,000 each year — received 49.4% of all income generated in the U.S., compared with the 3.4% earned by those below the poverty line, according to newly released Census figures. That ratio of 14.5-to-1 was an increase from 13.6 in 2008 and nearly double a low of 7.69 in 1968.
A different measure, the international Gini index, found U.S. income inequality at its highest level since the Census Bureau began tracking household income in 1967. The U.S. also has the greatest disparity among Western industrialized nations in the Organization for Economic Cooperation and Development.
Following are some recent statistics and statements that show how wide is the chasm between the upper class and the rest of American society, from the poorest of the poor through the working class and middle class.
(Note in following paragraphs the difference between “income,” meaning what you earn each year, and “wealth,” meaning income plus assets — assets being everything you own, from your house, car and furnishings to all your property, savings, stocks and bonds, yachts, jewelry, etc.
According to the Wall St. Journal, a 2008 study of wealth in the United States found that the richest .01% (that’s one-hundredth of one percent, or 14,000 American families) possess 22.2% of the nation’s wealth. The bottom 90%, or over 133 million families, control just 4% of the nation’s wealth. The remaining top 9.99% made ends meet with what’s left, 73.8%.
David DeGraw also has written that “a recent study done by Capgemini and Merrill Lynch Wealth Management found that a mere 1% of Americans are hoarding $13 trillion in investable wealth…and that doesn’t even factor in all the money they have hidden in offshore accounts.”
A recent report by Ray B. Williams points out that “The U.S. Census Bureau and the World Wealth Report 2010 both report increases for the top 5% of households even during the current recession. Based on Internal Revenue Service figures, the richest 1% have tripled their cut of America’s income pie in one generation. In 1980 the richest 1% of America took 1 of every 15 income dollars. Now they take 3 of every 15 income dollars…. Income inequality has been rising since the late 1970s, and now rests at a level not seen since the Gilded Age (1870 to 1900), a period in U.S. history defined by the contrast between the excesses of the super-rich and the squalor of the poor.”
According to Paul Buchheit of DePaul University “In 1965, the average salary for a CEO of a major U.S. company was 25 times the salary of the average worker. Today, the average CEO’s pay is more than 250 times the average worker’s.” The New York Times reported March 31, 2010, “Top hedge fund managers rode the 2009 stock market rally to record gains, with the highest-paid 25 earning a collective $25.3 billion, according to the survey, beating the old 2007 high by a wide margin.” The annual GDP of nearly 90 UN member nations is lower than what these people took home last year. The highest paid manager on the list was David Tepper of Appaloosa Management, who made $4 billion last year.”
Year 2009 may have been an economic disaster for a record number of Americans, but the U.S. billionaire caste — and millionaires as well, of course — had an excellent year. According to Forbes magazine, 2009 “was a billionaire bonanza,” with Bill Gates profiting by $13 billion (enlarging his wealth to $53 billion), and Warren Buffett getting $10 billion richer (increasing his fortune to $47 billion).
There are 1,011 billionaires in the world (40% are Americans) with an average net worth of $3.6 billion — a relative trifle more than the “wealth” possessed by the bottom half of the entire world population.
Throughout their lives, average Americans are taught by their school, church and corporate mass media that theirs is a classless society, and that the notion of classes, class struggle, or class war is just left wing propaganda.
Differences in income are acknowledged — but it is claimed that since upward mobility and attainment of the American Dream are available to everyone if they work hard enough, there is only one class despite gradations in wealth. It’s called the middle class, presumably with statistical subsections for the very rich and very poor. But the “dream” and upward mobility have never been available to everyone, and over the last three decades have been substantially reduced for many new generations of working families.
How often do you hear the politicians of the two ruling parties or the government they administer referring to the working class, lower middle class, the lower class or the upper class and the ruling class?
In America, virtually everyone seems to be lumped into the middle class if they are earning between $25,000 and $250,000 a year, which is a preposterous parody of real class relations. Representatives of these two income variants have little to nothing in common except the class to which they appear to have been assigned.
The millions living in poverty are called “the poor” and are in the public mind often blamed for their own plight (lazy, shiftless, ignorant). The very rich are called the “top 1%,” and the simply rich are termed the “top 10%,” and are often admired and thanked because they create the jobs that prevent the inhabitants of the middle class from falling into the ranks of the poor.
For the past three or four decades the upper class and its agents have been accelerating a campaign against the wages and living standards of the working class/lower middle class and more recently the middle class as well, pushing more and more people into the lower classes. One example of this is that wages no longer correlate to productivity increases, as they did in the first three decades after World War II; another is the erosion of progressive taxation.
In addition, the influence of wealth on the White House and Congress has seen to it that hardly any significant social service legislation has come out of Washington for 40 years. President Obama promotes his health care legislation as a major progressive achievement, but this apex of the current administration’s social contribution is to the right of Democrat President Harry Truman’s proposals in 1948 and Republican President Richard Nixon’s program of 1972. Truman and Nixon failed, and there has been such political regress over these decades that Democratic Party programs now emanate from the center/center-right.
The problem isn’t just the disproportion of money in the hands of a small minority while the standards of most American families are eroding, but it is what’s done with all that money. It elects Presidents, governors and mayors in most of the major cities. It elects members of the House and Senate and state legislatures. If you have millions to spend without batting an eye, you have political clout in America, often decisive clout, and it’s principally deployed to further the interests of the “haves,” as opposed to the “have nots.”
This is what is meant by class war, and it seems to be waged these days only by the top 10% (the upper class) that controls 96% of the wealth against the 90% (working class to middle class and lower class) which controls 4%. The bottom 50% by the way accounts for a pathetic 1% of America’s wealth.
Isn’t it time for the “bottom” 90% to stand up, fight back, and claim their share?


Mas será neste pântano que queremos, realmente, viver? Não, não é o governo, o sócrates nem o ministro das finanças (com minúsculas para ser condizente com a realidade que são), a culpa de tudo isto. Isto é o sistema, a culpa é do sistema! Há que entender a mentira deste modelo de desenvolvimento agora, como já se entendia no passado. Isto não pode continuar a ser tolerado:

sexta-feira, outubro 08, 2010

Euromilhões

Quanto vale um instante de esperança, um sonho quase irrealizável, mas remotamente possível? Depois de entregar o papel há, pelo menos instantaneamente, um período em que tudo é possível, mesmo que, depois, a razão mostre que a probabilidade do possível é  infinitamente pequena. Mas nota-se algum brilho nos olhos que  ainda há pouco estavam completamente apagados pelo simples facto de momentaneamente se ter conseguido afastar a racionalidade e caminhar pela emoção. Mais logo se perceberá que as cruzinhas foram colocadas caprichosamente no quadrado do lado e que «foi por muito pouco» e «que azar», que se esteve mesmo perto. Pronto, uma vez mais, cumpriu-se a sugestão que a razão ditava, mas, ainda assim, soube bem ter aquele instante de esperança, porque a racionalidade é o cinzento dos dias e são as emoções que os tornam coloridos.

terça-feira, outubro 05, 2010

Refundar a República


Andam os tempos confusos e está em curso um novo golpe, não de Estado que isso era contra os princípios dos executantes, que visa acabar com a República (do latim Res publica, "coisa pública") e instaurar uma Resprivada(?).
A diferença é que o poder na «coisa comum» é exercido pelos representantes eleitos pelo Povo de acordo com a sua vontade, na Resprivada, o poder advém de agências de rating e dos Mercados, que impõem as leis aos representantes do Povo que se prestam à sua execução. As decisões não são democráticas, porque quem as dita não foi eleito e emanam da verdade única do Liberalismo visando satisfazer a sua sobrevivência e os interesses dos grupos dominantes. É o totalitarismo da ganância que incita ao fim do Estado, da solidariedade e ao triunfo da selva.
Começa a ser tempo de refundar a República.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Rumo ao caos

Embora a definição de imposto da Wiki reze que Imposto é uma quantia em dinheiro, paga obrigatoriamente por pessoas ou organizações a um governo, a partir da ocorrência de um fato gerador, calculada mediante a aplicação de uma alíquota a uma base de cálculo., na prática imposto é a diferença entre a receita que se tem e o capital que fica disponível após a obrigação que nos é imposta. Por exemplo, se ganhamos 1000 e apenas depositamos no Banco 700, 300 foram-nos retirados para imposto. É pois com estranheza, que tanta berraria contra os Impostos se não traduza por igual algazarra contra o que recentemente foi feito. Considerando que a taxa se mantinha nos 30%, aos funcionários públicos acontece uma coisa curiosa: a quem ganhava 1000 foi imposta uma redução média de 5%, isto é 50, logo passa a ganhar 950, que multiplicados por 0,3 levam a um depósito de 665. Moral da história com esta retenção na fonte de 5%, o tal imposto efectivamente pago passou de 30% para 33,5%, isto é, os funcionários públicos tiveram com esta habilidade um aumento de 3,5% de imposto, em média. Passos Coelho e toda a intelectualidade economista que desfila pelas televisões aplaudem, quando ainda há dias vociferavam contra o aumento dos impostos. Meus senhores, os funcionários públicos acabam de ter um aumento de 3,5% de imposto! Com efeito quem no sector privado ganhava 1000 e recebia 700, com as alterações actuais irá receber os mesmos 700, sem ter tido qualquer agravamento dos impostos.
Os funcionários públicos foram discriminados em relação à generalidade da população ou seja foi criado um imposto que apenas os afecta a eles! Ao menos os impostos eram dantes iguais para todos, mas com esta proposta do Governo a coisa mudou. O que mais revolta não é o aumento dos impostos (se vivemos acima das posses alguma vez teremos de pagar), mas esta diferenciação entre portugueses de segunda e de primeira, pois bem mais equitativo seria que tivessem aumentado os impostos da generalidade da população, conseguindo-se dessa forma, possivelmente, que o nível mais baixo de vencimento sobre o qual incidiriam os impostos fosse não 1500 € por mês, mas algo mais elevado, ou reduzir a taxa de imposto a pagar por cada nível salarial. A receita para fazer face à dita crise até seria a mesma!!! Injusto também porque, na verdade, quem vai pagar desta vez a crise é apenas um subsector, que, com alta probabilidade, não foi quem contribuiu particularmente para o défice. Não há moralidade, por isso não pagam todos e, sobretudo, não paga quem o devia fazer. Mas será que o país funcionará sem médicos, professores, pessoal da administração públicos? Não é isto um incentivo à fuga para os privados, mais um episódio da Santa Marcha pelo fim do Estado e pelo fim da capacidade de controlo dos serviços essenciais de um país civilizado? Rumo ao caos do descontrolo que tanto santificaram e levou ao descalabro de há 2 anos? Mas esta gente não aprende mesmo...

quarta-feira, setembro 29, 2010

Ingenuidade (frente ao tsunami)

Que diabo, não havia necessidade. Se o problema é já não emprestarem ao Estado dinheiro a menos de 6%, falem connosco, os tugas, que a gente empresta a 4%. Vale ou são obrigados a pedir aos bancos alemães?
Passou-me agora esta ingenuidade pela cabeça.

terça-feira, setembro 28, 2010

Notas políticas

1. Os nossos patuscos jornalistas não encontraram melhor, ontem, do que dizer que Chavez perdeu a maioria de dois terços que tinha na Assembleia, depois de já no dia das eleições terem afirmado que «parecia não ter havido fraudes nas eleições»! É óbvio que para esta gente, Chavez nunca poderia ter ganho e muito menos eleições livres e participadas. É contra a natureza da propaganda da imprensa livre...
Quantas vitórias em eleições são obtidas por maioria de dois terços?
Melhor fariam se procurassem as causas de mais esta vitória do ditador reiteradamente eleito!
2. Por cá a fita continua à volta do Orçamento. Ou será que o homem de Massamá decidiu dar um jeito ao de Belém para o apresentar como o salvador da pátria, facilitando a sua pré campanha?

quinta-feira, setembro 23, 2010

Outono

Que encanto pode o outono ter? Não é o rastejar das folhas ao sabor da corrente de ar que pode animar a vida, que só desperta na emergência das flores e dos frutos. O fim do ciclo não tem graça nenhuma, por mais piedoso que se seja.Valerá a pena enganarmo-nos com a poesia depressiva ou as árvores morrem simplesmente caídas pelo chão?

quinta-feira, setembro 16, 2010

História de burros

No Resistirinfo e porque uma boa explicação dos fenómenos merece ser mais tarde relembrada:
Dívidas e burros

por Insurgente
Foi solicitado a um prestigioso assessor financeiro que explicasse esta crise de uma forma simples, para que toda a gente pudesse entender as suas causas. O seu relato foi este:
Um certo cavalheiro foi a um aldeia onde nunca havia estado antes e ofereceu aos seus habitantes 100 euros por cada burro que lhe vendessem.
Boa parte da população vendeu-lhe os seus animais.
No dia seguinte voltou e ofereceu um preço melhor: 150 euros por cada burrico. E outro tanto da população vendeu-lhe os seus.
A seguir ofereceu 300 euros e o resto das pessoas vendeu os últimos burros.
Ao ver que não havia mais animais, ofereceu 500 euros por cada burrico, dando a entender que os compraria na semana seguinte. E foi embora.
No dia seguinte enviou o seu ajudante à mesma aldeia com os burros que comprara, para que os oferecesse a 400 euros cada um.
Diante do possível lucro na semana seguinte, todos os aldeões compraram os seus burros a 400 euros e quem não tinha o dinheiro pediu-o emprestado. De facto, compraram todos os burros do município.
Como era de esperar, este ajudante desapareceu, tal como o cavalheiro inicial. E nunca mais foram vistos.
Resultado: A aldeia ficou cheia de burros e endividada.
Até aqui foi o que contou o assessor.
Vejamos o que se passou depois.
Os que haviam pedido emprestado, ao não venderem os burros não puderam pagar o empréstimo.
Aqueles que haviam emprestado o dinheiro queixaram-se à municipalidade dizendo que se não recebessem ficariam arruinados; então não poderiam continuar a emprestar e todo o povo ficaria arruinado.
Para que os prestamistas não se arruinassem, o presidente da municipalidade, em vez de dar dinheiro às pessoas do povo para pagarem as dívidas, deu-o aos próprios prestamistas. Mas estes, já cobrada grande parte do dinheiro, entretanto não perdoaram as dívidas do povo, que continuou endividado.
O presidente da dilapidou o orçamento da municipalidade, a qual também ficou endividada.
Então pede dinheiro a outras municipalidades. Mas estas dizem-lhe que não podem ajudá-lo porque, como está na ruína, não poderão receber depois o que lhe emprestarem.
O resultado: Os espertos do princípio, enganados.
Os prestamistas, com os seus ganhos resolvidos e um monte de gente à qual continuarão a cobrarem o que lhes emprestaram mais os juros, apropriando-se inclusive dos já desvalorizados burros que nunca chegaram a cobrir toda a dívida.
Muita gente arruinada e sem burro para toda a vida.
A municipalidade igualmente arruinada.
O resultado final?
Para solucionar tudo isto e salvar todo o povo, a municipalidade baixou o salário dos seus funcionários.
05/Setembro/2010
O original encontra-se em www.insurgente.org/...


Aos poucos me libertarei da dependência energética. Falta só produzir electricidade. Depois, haverá couves, batatas, uns frangos e coelhos bravos. As árvores darão sombra, alguns frutos e talvez azeite. Mais coisa menos coisa, caçador recolector me libertarei da síndrome metabólica e com fornecimento de hidratos de carbono, proteínas e gordura mediterrânica a sobrevivência estará garantida. Para as deslocações maiores, talvez um burro para pequenas nomadices até à cidade ou a um banho na barragem (se os campos de golfe a não isolarem). Está garantida a viabilidade económica. O resto é especulação sem importância. Desde que não termine em holocausto nuclear ou a ser expulso para uma qualquer Roménia por ter tal meio de transporte. Isto, afinal, anda tudo ligado.

segunda-feira, setembro 13, 2010

10 notas após as férias

1.As férias correram bem? Perguntam-nos quando regressamos ao trabalho. O que me vem, em primeiro lugar, para resposta é que sim, correram bem depressa. As férias correm sempre tanto, são tão rápidas!
2.Ainda há dias chegávamos atrasados ao aeroporto e tínhamos aquela azáfama de verificação de bagagem com impedimentos de levar frascos com volume superior a 100 mL, mesmo quase vazios, porque o ar pode ser explosivo, certamente. É mau começar férias irritado, mas a irracionalidade chateia. Há uma anestesia neuronal, quando por sistema se recorre apenas à check list, por preguiça, porque não há tempo para reflectir. Mas anular esta função é, em parte, desistir daquilo que nos distingue do resto da bicharada. Anda alguém a roubar-nos propriedades diferenciadoras da espécie.
3. Gosto das chegadas aos aeroportos, de olhar para quem espera e ver aquele instante onde o olhar de procura explode de felicidade. Daquela felicidade autêntica, que parece só ser possível na altura dos reencontros. Possivelmente, é porque se está cansado de viver todos os momentos, que se desperdiçam em coisas de nada os encontros de todos os dias, para se chegar ao tudo em instantes de reencontro.
4. E afinal, sempre se renasce depois das calamidades que surgem. A Madeira está quase igual ao que era, cada vez mais parecida com um queijo emmental de tão furada por túneis que está. Voltei a ler os posts que aqui deixei há dois anos e a sensação continua a ser de estranheza pela distância a que as pessoas estão do meio onde vivem, porque a cabeça não acompanhou a pressa das pernas a correr pelos túneis fora. Há um hiato entre a forma como estão no local onde estão.
5. Mas os jardins continuam lá e o peixe propicia bons instantes. Para mais tarde recordar, se disso for o caso, os restaurantes de Câmara de Lobos Espada Preta e Vila do Peixe e o Barqueiro no Funchal. Não tanto pelo peixe, mas pelo pôr do sol, a Doca do Cavacas.
6. Recordar igualmente o Garajau e a descida à Fajã dos Padres. Mesmo que as subidas possam ser dolorosas e momentaneamente impossíveis, acaba-se sempre por chegar.
7. De longe vêem notícias inquietantes de julgamentos e incertezas de culpas. Em caso de dúvida que se beneficiem os réus, mas até que ponto o circo mediático retira a serenidade à justiça? Ou será que a torna possível e sem ele a impunidade reinaria? Dúvidas e mais dúvidas num tempo que importa esclarecer encontrando as soluções.
8. Há locais onde vamos e não sabemos se voltaremos, porque sentimos que os esgotámos. Mas a Madeira que começou por ser um espaço de turismo para doentes, mantém um sabor de turismo de terceira idade. E para esse repouso todos estamos caminhando.
9. Ainda que seja o repouso inquieto da leitura. É bom termos amigos que nos desejam boas férias presenteando-nos com um livro, porque as férias são também a altura da pausa do JCEM e do New England e o reencontro com algo possivelmente mais importante. Foi isso que aconteceu desta vez e com a vantagem de não ser um best-seller nem um romance histórico escrito pelos produtores dessa literatura anunciada na televisão (um sinal de qualidade, como os produtos que se vendem nas farmácias). Uma Família do Alentejo não é um romance histórico, mas a História contada por quem resistiu à vida e se elevou além da sobrevivência deixando um testemunho para quem o quiser conhecer. Simples, ingénuo como são as verdades. Efectivamente, se aqui estamos não foi por acaso e fica-nos a certeza que dê por onde der, o caminho será sempre na direcção certa e que só a Vitória é possível. A pequena história não dura séculos, ainda que queiram perpetuar-nos as crises.
10. Por fim, na paisagem mais morna de agora, por entre o silêncio, encontrei as libelinhas. A sorte não deixa de me acompanhar.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Fim de tarde


No final do dia fica apenas o concerto do chocalho tocado nem se sabe bem onde. As armas descansam até à próxima. É o anúncio da noite em que, mais logo, a lua nasce e fica a planície com o ar mágico da luz azul. E é dia sendo noite.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Guerra

A vida é, muitas vezes, a consequência de um instante em que se tropeça e todo o percurso teria sido diferente se o escolho tivesse sido outro. Umas vezes escolhe-se o caminho, outras nos é imposto e o resto é sobrevivência. Pode mesmo fazer-se toda a vida e a própria eternidade com origem num stresse pós-traumático que se entranha em tudo o que se é. Pode muito bem passar-se de psiquiatra banal ou mesmo catedrático de Psiquiatria, que nestas coisas a genética tem sempre uma palavra, a quase prémio Nobel porque em, certo momento, se esteve nos limites da sobrevivência e rodeado de morte. A vida, depois disso, exige uma catarse do medo que se engoliu e explode-se em catadupas de livros, numa sobrevivência que dói a quem lê e possivelmente alivia quem escreve. Não interessa que seja arrogante e imagine o mundo centrado em si próprio, porque quando se olha mais ao perto, sente-se o imenso sofrimento de arrastar, a vida toda, o peso dos medos passados. Poderá mesmo acontecer que nalgum momento se seja traído pelo delírio, mas o que se lê no episódio recente sobre as revelações de A Lobo Antunes sobre a guerra colonial não merecerá nunca que lhe vão ao focinho. Das duas uma, ou é delírio e terá de haver condescendência para com o delirante, ou é real e então importa ser impiedoso com a realidade passada. Será que temos de sobreviver na dúvida?

segunda-feira, agosto 23, 2010

O Quadrado


Quadrado porque começámos por ser quatro lados do mesmo plano. O quadrado é uma fuga, um local de resistência longe da multidão e da solidão das cidades vazias de amigos. Aqui não há lugar para miragens, imagens e ilusões na imaterialidade dos sentidos. O quadrado é concreto, tem uma dimensão exacta. Ao contrário, por exemplo, do círculo cujo perímetro depende sempre de um pi de um tamanho infinito e mal definido. Daí esta confessada preferência por um quadrado de amigos em vez de um círculo de amizades. Porque nos círculos não há princípio ou tudo pode sê-lo, enquanto que no quadrado o princípio é sempre um vértice a partir do qual se estende o lado. Ninguém desenha um quadrado começando pelo meio do lado, mas pelo vértice e, depois a cada lado, outro se junta ortogonalmente no plano. Também as amizades têm princípios, não são contactos fugidios de um facebook qualquer. Não são quantidade, mas antes qualidade. Assim, na verdade, o quadrado é o espaço onde chegam todos os amigos. O plano do quadrado não se realiza apenas com quatro lados, é necessário o preenchimento interior. Espera-se, por isso, que venham sempre, que o preencham, realizando-o. E o quadrado não se fica pelos limites no plano, porque para cima se prolonga até às estrelas em noite de lua nova. Aqui irão caber todos os amigos.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Pela massa magra

Ensinaram-me que o objectivo do gestor é a criação de valor para a empresa, ou melhor,para o accionista. Surpreendeu-me esta ideia, mas lá me fui habituando naqueles fins de semana da Católica. Pensava eu na minha ingenuidade que mais importante que criar o tal valor para o accionista seria a satisfação dos valores das pessoas em geral, mesmo dos não accionistas. É isso, que afinal, deve presidir à gestão da coisa pública, isto é, do Estado = conjunto de todos nós, os que não temos acções dessas, mas das outras, os que actuamos trabalhando. Olhando para o que tem sido feito e para a urgência que muitos têm na destruição do Estado, passando o controlo das suas coisas sempre para privados (accionistas!) percebo a vontade que há de não gerir a coisa pública, pois isso impede o crescimento do valor para os accionistas. Mas a tal criação de valor para uns poucos à custa da desvalorização de muitos, apenas conduz ao alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres, deixando pelo meio um mar de sobreviventes anestesiados na perseguição da cenoura que não mais alcançarão. Vai sendo tempo de perceber que este caminho está errado, porque oprime em vez de libertar. Que se lixe a criação do valor para os accionistas!
Vem isto a despropósito de uma surpresa ao ver que o Prof César das Neves (que cromo!) parece ter escrito isto há uns tempos:

O Prof Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polémico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos
abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. "
Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. "
"Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação'".
"Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez."

"O problema central está na família e na escola. "
"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, o
homossexualismo, a permissividade e, não raro, a promiscuidade.
Com uma 'alimentação intelectual' tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular".
Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os abutres", afirma:
"O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."
O texto descreve como os "jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante".
"Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais."

"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve.
Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como "informação".
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”
Prossegue o autor:
"Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou "mico". A arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma 'idade das trevas' e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. "
"Trata- se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental."

(Obesidade mental, por Prof. João César das Neves, publicada no Diário de Noticias em 22/03/2004


O cromo cita o tal Professor que não encontrei no site da Universidade e o livro que não está na Amazon.com Será que a citação do inexistente dá maior credibilidade ao real autor? No mínimo estranho!!

terça-feira, agosto 17, 2010

Um homem de Massamá

Massamá entrou no mapa da argumentação política. Nesta terra, a grande questão não é tanto saber se é feito de boa ou má massa, mas se se vive ou não em Massamá. Os massamaenses são povo e o grande líder vive no seu seio. São perigosos estes tipos que vêm de Massamá com aspiração de se mudarem para São Bento, apenas com a preparação do populismo e cheios da fúria liberal sem o entendimento da história. Bem maquilhados e bem parecidos podem vir de Massamá, mas o seu objectivo escondido é mudar de bairro e defender os interesses dos seus amigos da Linha e da Foz.
Este homem de Massamá tem a vantagem de ser claro, mostrar as garras e já o fez, quando se propôs atacar de forma insana o Serviço Nacional de Saúde, quando defende menos segurança no trabalho, mais precariedade, enfim, melhores «condições de trabalho» para os seus amigos empreendedores que não moram em Massamá. Este homem de Massamá é anti-social, é um self-made man. Por isso, todo o cuidado é pouco, pois, ao contrário do outro com nome de filósofo, este não se esconde por trás dos desejos e em bom rigor pode, se o mudarem para a Lapa, dizer que não se queixem, ele já tinha dito ao que ia.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Desadaptado

A minha percepção do ambiente pode estar a mudar ou isto tudo era muito diferente há uns anos, quando havia um conflito com luta de ideias em vez da ideia do conflito constante cheio do vazio dos dias. Parece-me que existe um catabolismo incessante como programa de vida mal abro os jornais ou ouço as notícias na rádio ou na televisão. Como alternativa, são servidas doses esmagadoras de análise científica dos resultados da última jornada no dia seguinte ou no prolongamento. Apaixonadamente, porque esta ciência é de emoções. No fim, que história ficará de tudo isto?
Pelo meio disto e apesar da catástrofe de vida em que se está, vive-se mais tempo (ou tempo a mais?), porque o significado de viver perdeu a conotação do anabolismo e passou a ser apenas a soma de mais um dia em cada dia sem que ninguém pergunte para que serve. Fica-se, mesmo sem se ir a parte alguma. Tá-se bem, dizem. Acredite quem puder.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Pudor necessário

Andam as revistas e os textos do coração tão cheios de doenças das celebridades, que chego a pensar se não será a forma que têm de pagar as contas dos hospitais privados onde se tratam. Com efeito, acho estranho que alguém venha expor publicamente as suas mazelas, mas isso ainda seria o menos. Pior que tudo é a novela que fazem à volta de situações cujo desfecho é demasiado negro, afirmando esperanças pouco reais, esquecendo que outros menos colunáveis e padecendo de males parecidos podem agarrar-se às suas ilusões até ao dia em que a notícia da morte surge. Nessa altura como sentirão a situação aqueles que sonharam? Há, talvez, um dever de pudor para se não gerarem choques inevitáveis, uma necessidade de poder finalmente viver o escasso tempo que lhes resta fora da ribalta. Ou assim seria desejável. Não é preciso ter a militância da exposição da esperança, que até, talvez, não tenham, porque dela ninguém aproveita. A realidade acaba sempre por ficar por cima da imagem, como o azeite sobre a água.

terça-feira, agosto 10, 2010

Lucidez

A lucidez são os óculos que usam os neurónios maduros para perceberem com maior detalhe a realidade que nos envolve. Mas primeiro é preciso ter os olhos bem abertos, quer-se dizer, ter crescido.

segunda-feira, agosto 09, 2010

A vida são dois dias

Deve ter sido das maiores pausas. Um mês sem aqui estar.
Talvez o reflexo daquele inevitabilidade de começar a sentir que o tempo escasseia e de que nada impede o avanço dos dias nem justifica a sua recordação. A lucidez de se saber que daqui a um tempo pequenino nem no registo do Blogger se irá sobreviver como curiosidade de arqueologia futura.
Por agora a vida são dois dias... com cinco de intervalo, em ciclos repetidos até um dia.

quinta-feira, julho 08, 2010

Velório

Quase de propósito tinha acabado de ler «A sombra do que fomos» do Luís Sepúlveda dias antes de entrar naquele local solene onde encontrei muitos dos que foram. Na verdade, pareceram-me sombras tristes apesar do triunfo a que alguns chegaram sem nunca conseguirem dar forma ao corpo que tiveram. Não, mesmo descontando a ambiente pouco convidativo à boa disposição, olhando-os encontrei sobretudo a tristeza, não por terem falhado, mas sobretudo a de não terem mais a esperança, que, alguma vez, as alvoradas hão-de cantar. Há um conformismo de derrota induzido pela brevidade da vida, que lhes desfoca o olhar que foi vivo e agora morre em vazios sem alternativa. Ainda foram a tempo de bem-estar, mas a grande certeza que têm é que deixam aos que se seguem um mundo de dúvida, virtual e frágil. Há, por isso, uma inquietação do ar e algum alívio por saberem que os que partem o fazem na ignorância vivida do desastre completo.
As sombras vagueiam em movimentos lentos quase não tocando o chão num pudor mal percebido. Os velórios são, geralmente, a celebração dos que ficam, mas aqui notei alguma inquietude no ficar, um quase desejo de acompanhar o que parte numa atitude de demissão final, deixando a pairar a ideia translúcida da solidariedade, que os novos olhos dificilmente conseguem enxergar.