terça-feira, dezembro 14, 2010
Prendinhas
Chegou-se a um tempo em que se trocam prendas sem conhecer o ofertante como se fosse possível escolher uma prenda sem que nos metamos um pouco na oferta que se faz. Podemos até não ser capazes de identificar a impressão digital, mas ela está lá, na ironia ou no sorriso que estas prendas sempre trazem. Mas não deixa de ser estranho dar algo a quem se não conhece, quando substituímos uma mensagem por uma oferta universal. De certa maneira não damos à pessoa, mas ao Natal e fica a imensa dúvida se terá valido a pena ou se estaremos de perfeito juízo quando o fazemos.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Caos
Ali, ligeiramente descentrado, na paisagem cinzenta e desfocada estava eu. E, de repente, um estrondo nunca ouvido, exactamente sobre mim. Sem luz de relâmpagos, porque tudo ocorre numa penumbra necessária para a visão dos contornos do horizonte onde, por todo o lado, a toda a volta, há explosões e colunas de fumo, gigantescas, como nunca tinha visto, incontáveis, renovando-se no meio de um absoluto silêncio até ao meu acordar espantado no meio de uma absoluta e real tranquilidade.
Às vezes sabe bem saborear a completa desorganização do tempo e do espaço, o caos total.
Às vezes sabe bem saborear a completa desorganização do tempo e do espaço, o caos total.
quinta-feira, dezembro 09, 2010
Dor da gente
Já não é o trabalho de as fazer que cansa, o que me vai cansando agora nas consultas é a tristeza das pessoas, uma tristeza entranhada nos olhares e nas queixas, uma envolvência de dor de alma que amachuca o diálogo. E quase por certo não contribuíram para a dívida, para a ausência de crédito que a outros justifica a supressão dos seus empregos. Há uma anestesia da crise com que os bombardeiam a toda a hora e apenas lhes sobra a vergonha em vez de revolta, consumida que foi a energia na audição dos medos. Dói esta dor da gente, depois de lhes terem roubado a esperança.
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Como os cães
É na hora da despedida que Coimbra tem mais encanto e é no afastamento das pessoas que a comunicação se torna imperiosa. Também ninguém faz jantares na altura do ingresso e frequentes são os feitos no momento da saída. Em tudo isto há um desaproveitamento do tempo presente em que se não desfruta a paisagem, porque se sonha com a viagem que talvez se não venha a fazer nunca, em que se não fala directamente com os outros, a menos que nos afastemos e então vamos a correr para os telemóveis dizer que está um dia de sol só pelo gozo de comunicarmos, em que não desencantamos estratégias comuns e muitas vezes planeamos tramar o colega do trabalho e deixamos para a altura em que deixa a nossa companhia o momento de todas as homenagens e a afirmação de quanto lhe queremos bem. Apreciamos, quando deixamos de ter por perto e,então quando morrem, todos ficam absolutamente perfeitos, por muito que deles tenhamos discordado ou mesmo mal tratado. O momento máximo de se ser magnânimo é aquele em que a sombra do outro já se não projecta sobre nós e deixa o caminho livre, finalmente.
No fundo, age-se pelo medo. Como os cães que rosnam, mesmo que saciados, quando alguém se aproxima do osso que esconderam. À distância abanam o rabo. Mas, o tempo é agora e não depois, nem no passado que já não é. Desperdiçá-lo é perder vida.
No fundo, age-se pelo medo. Como os cães que rosnam, mesmo que saciados, quando alguém se aproxima do osso que esconderam. À distância abanam o rabo. Mas, o tempo é agora e não depois, nem no passado que já não é. Desperdiçá-lo é perder vida.
terça-feira, dezembro 07, 2010
A grande matilha
Bem sabemos que acontece com os cães o que com os homens também vai acontecendo. Vão-se os bons, ficando os outros. A imagem tem mais de 100 anos e permanece bem actual. Hoje é a matilha dos mercados. Que me perdoem os cães, que estes são mesmo vadios (= quem não quer trabalhar).
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Sem futuro
No final, José, frágil, segue amparado pela solidariedade de Pilar percorrendo um vasto hall de um aeroporto. Vão-se cruzando com outros passageiros mais ou menos apressados, sem que ninguém os reconheça. Indiferentes. De repente, os caçadores de autógrafos e os jornalistas que fazem sempre as mesmas perguntas desapareceram da circulação. Ainda bem?
Por aqui passamos e andamos anónimos e nada parece garantir que sobreviveremos ao momento inevitável em que deixamos de ser. De pouco valerá a obra feita e todos seremos sem futuro e quase iguais. Ao menos, neste limite, a equidade surge, contrariando toda a ânsia de diferença, que alguns insistem em proclamar, ignorando a sua limitação fundamental, a impossibilidade da eternidade do tempo. Porque o tempo dos outros, é o deles e não o de cada um. Na verdade, o importante parece ser a tranquilidade com que se passa por aqui, despertando algum sorriso nos que nos vêem passar, os amigos, e observando as árvores que nascem, o sol que se põe e as rãs que saltam na estrada ao luar, porque a vida se enche de coisas banais e se esvazia nas singularidades.
Antes da fita, soube-me bem ter ficado tranquilo e condescendente quando o funcionário da bilheteira me perguntou se o bilhete era de sénior. Nada me faria supor tal oferta e fiquei um pouco sem saber se seria o jovem o desatento deste diálogo.
Por aqui passamos e andamos anónimos e nada parece garantir que sobreviveremos ao momento inevitável em que deixamos de ser. De pouco valerá a obra feita e todos seremos sem futuro e quase iguais. Ao menos, neste limite, a equidade surge, contrariando toda a ânsia de diferença, que alguns insistem em proclamar, ignorando a sua limitação fundamental, a impossibilidade da eternidade do tempo. Porque o tempo dos outros, é o deles e não o de cada um. Na verdade, o importante parece ser a tranquilidade com que se passa por aqui, despertando algum sorriso nos que nos vêem passar, os amigos, e observando as árvores que nascem, o sol que se põe e as rãs que saltam na estrada ao luar, porque a vida se enche de coisas banais e se esvazia nas singularidades.
Antes da fita, soube-me bem ter ficado tranquilo e condescendente quando o funcionário da bilheteira me perguntou se o bilhete era de sénior. Nada me faria supor tal oferta e fiquei um pouco sem saber se seria o jovem o desatento deste diálogo.
domingo, dezembro 05, 2010
Visão nocturna
A vida é esta coisa de não passar por estradas assépticas, completamente normalizadas onde nada acontece enquanto se passa a não ser ter passado mais um carro. A vida encontro-a nesta estrada onde as rãs saltam na noite e subitamente se imobilizam para que possamos passar ao lado. Longe da cidade, debaixo da via láctea as rãs atravessam a estrada como se estivessem a celebrar a vida. E eu vejo-as.
sábado, dezembro 04, 2010
Greve descontrolada
É complicado para mim perceber o que está por trás e permite que seja possível levar à prática uma greve sem aviso, sem organização (!?) e sem controlo sindical. Estaremos no início de novos tempos em que a comunicação fácil de hoje permite mobilizar instantaneamente uma classe? Mas isso só é conceptualmente possível se imaginarmos uma enorme unanimidade e sentimento comum de maus-tratos entre os contactados. Ao mesmo tempo que assusta, a ideia seduz, pela possível eficácia. Possivelmente, fará história esta descontrolada greve dos controladores espanhóis.
quarta-feira, dezembro 01, 2010
Censura?!
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segunda-feira, novembro 29, 2010
Special one
Recebo sempre com alguma satisfação a quebra dos mitos. Aliás, os mitos são uma das influências mais nefastas que por aí andam, porque levam muitos a acreditar na perfeição ou, pior, a aceitar as imperfeições de forma pacífica. Pelo contrário, as nossas imperfeições serão sempre uma oportunidade de melhorar, a menos que pensemos perigosamente que a melhoria só está ao alcance de alguns predestinados e nos esqueçamos do imenso que podemos aprender com as nossas insuficiências ou mesmo com os nossos erros. É reagindo que se lá chega, ou, ainda melhor, se formos realmente pró-activos mudando o que achamos estar errado. A propaganda dos mitos que nos afastam da acção levando-nos a uma atitude paralisante de contemplação é instigada exactamente para nos tornar dóceis e conformados com a sorte. Por isso, sempre que um mito cai, isso me agrada. Ver o auto-intitulado melhor treinador do mundo ser derrotado por 5-0 é, por isso tudo, motivo de festa.
Vai sendo tempo de se não hipervalorizar tanto a diferença (a real e a criada pelo marketing) e apostar mais na realização comum e solidária da vida. Que o special one me desculpe.
Vai sendo tempo de se não hipervalorizar tanto a diferença (a real e a criada pelo marketing) e apostar mais na realização comum e solidária da vida. Que o special one me desculpe.
domingo, novembro 28, 2010
sábado, novembro 27, 2010
Adeus
Sabia que estavas à beira do precipício, mas que raio te deu para ires embora sem esperares que eu chegasse? Sempre determinado fizeste como te deu a vontade e valente não esperaste por uma festa de pieguice que fica na minha mão. Vai ser diferente entrar em casa sem ouvir a tua voz forte. Nem um pulo, nem uma ameaça de rabo a agitar-se. Descansa, miúdo, foste um bom companheiro durante estes anos.
domingo, novembro 21, 2010
A luz da sombra
Pode, por vezes, não ser no objecto que se encontra a compreensão da realidade, mas na sombra que ela própria produz. É através dos jogos de luz que se chega à compreensão mais abrangente das formas. São múltiplos os caminhos para se atingir a essência das coisas e nunca as entenderemos se as olharmos apenas da forma mais comum. Às vezes é pelos efeitos que descobrimos as causas. O importante é estar atento e olhar para se poder ver. Ou como dizia Saramago "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
sábado, novembro 20, 2010
Dúvida
Da fome, da peste e da guerra, livrai-nos Senhor” oração do século XIV.
«... e também dos mercados», oração do século XXI
Sete séculos depois, a mesma história. Uns capitulam perante o compromisso que eles próprios engendraram, outros resistem. Foi assim em 1383, assim está a ser em 2010. Há por aí muito nobre ajoelhado (ou até em prece maometana) face aos ditos mercados, esperando, quase ansiosos o único desfecho possível, a estocada final. E há também o povo sempre capaz de resistir e atirar pela janela alguns andeiros indesejáveis. Será que ainda há energia para um gesto necessário?
«... e também dos mercados», oração do século XXI
Sete séculos depois, a mesma história. Uns capitulam perante o compromisso que eles próprios engendraram, outros resistem. Foi assim em 1383, assim está a ser em 2010. Há por aí muito nobre ajoelhado (ou até em prece maometana) face aos ditos mercados, esperando, quase ansiosos o único desfecho possível, a estocada final. E há também o povo sempre capaz de resistir e atirar pela janela alguns andeiros indesejáveis. Será que ainda há energia para um gesto necessário?
sexta-feira, novembro 19, 2010
Estratégia de coping
É bom não antecipar nunca as desgraças. Mais que não seja porque não vale a pena vivê-las duas vezes, no momento em que as antecipamos e, depois, quando ocorrem. Ou então nem chegam a acontecer e estivemos a perder tempo sofrendo de forma inútil.
quinta-feira, novembro 18, 2010
Estratégia de risco
Estar aqui com a urgência de estar além, mais que não seja porque adiar a ida pode ser (espera-se que não seja) uma impossibilidade. Saber que a liberdade é ali e continuar preso a esta espécie de prisão aqui. Está-se dividido entre o dever e o prazer, o que torna mais penosa ainda a obrigação de ficar. Pergunta-se para quê e a resposta não chega, restando a vontade não garantida de que um dia... É uma estratégia de alto risco, mais do que uma inércia e com o passar do tempo fica a sensação de que o prazer de lá estar seria agora e não depois, quando a percepção e a memória já poderão não permitir gozar a plenitude dos instantes. O sol vai nascer e pôr-se todos os dias, mas as árvores vão, cada vez, dar menos sombra. Poderá ser que ainda se possa ficar debaixo, quieto, à espera do momento final na paz do espaço e do tempo. Mas nada o pode garantir e isso é que inquieta.
domingo, novembro 14, 2010
Uma tarde mal passada
Primeiro estranhei a multidão numa sexta-feira à tarde, mas é sabido que o contacto com um possível futuro ministro os leva aos maiores sacrifícios e poucos foram os que lá não estiveram. Depois os sábios, optaram pela teorização da gestão da saúde em tempos de crise e fugiram, com excepção do potencial ministro, à apresentação de medidas concretas. A mais significativa, a necessidade da separação do trabalho dos médicos entre sector privado e público. É mais que tempo de parar com esta coisa de ir fazer umas horas de manhã a um hospital e depois ir ganhar dinheiro no sector privado. Pois é, mas continua. Tornar transparente a gestão através da accountability do que é feito, outra necessidade imperiosa. Mas ninguém quer saber. O resto foi a negação da realidade e a insistência no erro da promoção das corporações. Maldito Salazar que impregnou os genes desta malta!
E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!
E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!
quarta-feira, novembro 10, 2010
Os mercados
Hoje tive uma consulta triste pelo confronto com a gente desesperançada, derrotada. A verdade da televisão entra-lhes no corpo e corrói-lhes a alma. Alguns chegaram mesmo a despedir-se até à consulta seguinte, no próximo ano, como se já cá não voltassem por tão perto lhes parecer estar o cadafalso. Onde anda a capacidade de resistência? Há uma diferença para os outros tempos em que às escondidas com a PIDE/DGS cantávamos. A juventude aí liderava o processo com a sua energia e os velhos, às vezes, refreavam a luta, pelo temor; agora os velhos estão sem energia a relembrar o seu passado e os novos estão assumidos e engolidos pela doutrina oficial e a tentarem, uns contra os outros, encontrar um emprego que não surge, impotentes para identificarem o real inimigo e descobrirem a palavra necessária: SOLIDARIEDADE.
terça-feira, novembro 09, 2010
Diagnóstico
Esta fase da dúvida, em que se procuram os caminhos, exige uma gestão de muito cuidado para se não transmitir essa inquietude ao objecto. Vive-se num tempo em que não há tempo para a reflexão, para a análise das hipóteses e em que se parte para a acção em busca da solução não considerada previamente, como se o objectivo fosse encontrar algo satisfatório de surpresa. Cada vez mais, crentes da potencialidade sem limites da tecnologia, se vê esse jogo a ser promovido na pressa do tempo. Vamos e logo se vê e, muitas vezes, o que parece estar a ser visto é enganador e nos faz saltar para outros desconhecidos, como se andássemos numa navegação sem bússola no tempo do GPS. Fica-se então perdido e vai-se andando ao sabor dos palpites, criando uma entropia cada vez maior em que a probabilidade de acertar vai sendo reduzida pelo aumento exponencial das hipóteses. Até no processo do diagnóstico passámos a ser imediatistas, como num jogo rápido de xadrez onde se não consideram todas as hipóteses antes de decidir a jogada. Joga-se primeiro, corrige-se depois e segue-se de correcção em correcção até ao xeque mate final. A estratégia deu lugar ao consumo desregrado e gera-se uma enxurrada de informação que se não consegue coordenar e implica um gigantesco desperdício de recursos. E quando o doente questiona, recorre-se à autoridade da ciência dos sábios e, paternalmente, sugere-se-lhes que não se ralem com o assunto, que os sábios estão a fazer o que é necessário e chegarão à solução. Mas na avalanche dos exames em que os tubos são enfiados por todos os orifícios possíveis do corpo e os corpos são passados pelos mais variados scanneres, o objecto da análise deverá sentir-se confundido com tanta pesquisa. Isso deve inquietar. Afinal, que raio andam eles a procurar?
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