sexta-feira, novembro 19, 2010

Estratégia de coping

É bom não antecipar nunca as desgraças. Mais que não seja porque não vale a pena vivê-las duas vezes, no momento em que as antecipamos e, depois, quando ocorrem. Ou então nem chegam a acontecer e estivemos a perder tempo sofrendo de forma inútil.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Estratégia de risco

Estar aqui com a urgência de estar além, mais que não seja porque adiar a ida pode ser (espera-se que não seja) uma impossibilidade. Saber que a liberdade é ali e continuar preso a esta espécie de prisão aqui. Está-se dividido entre o dever e o prazer, o que torna mais penosa ainda a obrigação de ficar. Pergunta-se para quê e a resposta não chega, restando a vontade não garantida de que um dia... É uma estratégia de alto risco, mais do que uma inércia e com o passar do tempo fica a sensação de que o prazer de lá estar seria agora e não depois, quando a percepção e a memória já poderão não permitir gozar a plenitude dos instantes. O sol vai nascer e pôr-se todos os dias, mas as árvores vão, cada vez, dar menos sombra. Poderá ser que ainda se possa ficar debaixo, quieto, à espera do momento final na paz do espaço e do tempo. Mas nada o pode garantir e isso é que inquieta.

domingo, novembro 14, 2010

Uma tarde mal passada

Primeiro estranhei a multidão numa sexta-feira à tarde, mas é sabido que o contacto com um possível futuro ministro os leva aos maiores sacrifícios e poucos foram os que lá não estiveram. Depois os sábios, optaram pela teorização da gestão da saúde em tempos de crise e fugiram, com excepção do potencial ministro, à apresentação de medidas concretas. A mais significativa, a necessidade da separação do trabalho dos médicos entre sector privado e público. É mais que tempo de parar com esta coisa de ir fazer umas horas de manhã a um hospital e depois ir ganhar dinheiro no sector privado. Pois é, mas continua. Tornar transparente a gestão através da accountability do que é feito, outra necessidade imperiosa. Mas ninguém quer saber. O resto foi a negação da realidade e a insistência no erro da promoção das corporações. Maldito Salazar que impregnou os genes desta malta!
E também houve disparates gigantes: desde a consideração que é um atentado à liberdade individual haver numerus clausus para entrar no curso de Medicina (os meninos riquinhos que estudem mais, tá?) até à promoção da responsabilidade individual dos doentes pela sua patologia (e as condições que a sociedade lhes impõe e os discrimina, ou querem sugerir que estamos todos no mesmo patamar?). Já para não falar da insistência na culpabilização dos cuidados primários na crise sem se mencionar que eles têm apenas um terço dos médicos. Enfim mais do mesmo, ausência de surpresas. Uma tarde mal perdida.
E logo a seguir veio a Senhora da Gripe dizer que a culpa vai ser da gestão se não conseguir produzir mais com menos euros. Esta senhora nunca se engana, o problema é que não sabe. Obviamente, demita-se!

quarta-feira, novembro 10, 2010

Os mercados


Hoje tive uma consulta triste pelo confronto com a gente desesperançada, derrotada. A verdade da televisão entra-lhes no corpo e corrói-lhes a alma. Alguns chegaram mesmo a despedir-se até à consulta seguinte, no próximo ano, como se já cá não voltassem por tão perto lhes parecer estar o cadafalso. Onde anda a capacidade de resistência? Há uma diferença para os outros tempos em que às escondidas com a PIDE/DGS cantávamos. A juventude aí liderava o processo com a sua energia e os velhos, às vezes, refreavam a luta, pelo temor; agora os velhos estão sem energia a relembrar o seu passado e os novos estão assumidos e engolidos pela doutrina oficial e a tentarem, uns contra os outros, encontrar um emprego que não surge, impotentes para identificarem o real inimigo e descobrirem a palavra necessária: SOLIDARIEDADE.

terça-feira, novembro 09, 2010

Diagnóstico

Esta fase da dúvida, em que se procuram os caminhos, exige uma gestão de muito cuidado para se não transmitir essa inquietude ao objecto. Vive-se num tempo em que não há tempo para a reflexão, para a análise das hipóteses e em que se parte para a acção em busca da solução não considerada previamente, como se o objectivo fosse encontrar algo satisfatório de surpresa. Cada vez mais, crentes da potencialidade sem limites da tecnologia, se vê esse jogo a ser promovido na pressa do tempo. Vamos e logo se vê e, muitas vezes, o que parece estar a ser visto é enganador e nos faz saltar para outros desconhecidos, como se andássemos numa navegação sem bússola no tempo do GPS. Fica-se então perdido e vai-se andando ao sabor dos palpites, criando uma entropia cada vez maior em que a probabilidade de acertar vai sendo reduzida pelo aumento exponencial das hipóteses. Até no processo do diagnóstico passámos a ser imediatistas, como num jogo rápido de xadrez onde se não consideram todas as hipóteses antes de decidir a jogada. Joga-se primeiro, corrige-se depois e segue-se de correcção em correcção até ao xeque mate final. A estratégia deu lugar ao consumo desregrado e gera-se uma enxurrada de informação que se não consegue coordenar e implica um gigantesco desperdício de recursos. E quando o doente questiona, recorre-se à autoridade da ciência dos sábios e, paternalmente, sugere-se-lhes que não se ralem com o assunto, que os sábios estão a fazer o que é necessário e chegarão à solução. Mas na avalanche dos exames em que os tubos são enfiados por todos os orifícios possíveis do corpo e os corpos são passados pelos mais variados scanneres, o objecto da análise deverá sentir-se confundido com tanta pesquisa. Isso deve inquietar. Afinal, que raio andam eles a procurar?

segunda-feira, novembro 08, 2010

Proposta

Parece óbvio que a substituição do Prof. Correia de Campos foi um recuo na Saúde em Portugal e ainda está para se perceber a origem e identificar quem desencadeou a campanha mediática, que motivou a sua queda. No entanto, ainda se está a tempo de corrigir o erro. Há alternativa.

domingo, novembro 07, 2010

De regresso

São sempre simpáticos os americanos que se sentam ao nosso lado. Têm qualquer problema de estarem sozinhos e calados, pelo que à primeira oportunidade disparam o where do you come from, e a conversa está engatada. Desta vez calhou ser um luso-descendente na terceira geração com o português já completamente esquecido, mas curioso de saber onde e como serão os Azores de onde veio a avó. Viajado, já com vasta experiência de Caraíbas desde Cancun à Jamaica em várias idas. Recomendei-lhe a ida à ilha que lhe faltava, mas como me disse não lhe é permitido (curioso não ter dito que lhe é proibido) lá ir. De Fidel informou-me que não compreende como um presidente mata os seus. Já por pudor não lhe disse que os seus presidentes também são especialistas nesse campo, mas preferem fazê-lo fora de portas, no Iraque ou no Afeganistão. Mas sempre o fui informando que na ilha que lhe não é permitido visitar há gente com cuidados de saúde e educação garantida, não havendo a miséria que se pode observar noutros locais das Caraíbas, ou mesmo na sua homeland. Have a nice trip!
Na minha trip desta vez tive a necessidade de, estando em trânsito, entrar duas vezes na homeland, o que está a tornar-se um exercício cada vez mais complexo com filas de meia hora para chegar ao cidadão verificador da nossa identidade. Se as impressões digitais se gastassem, já não conseguia marcar o ponto no hospital de tanta vez que tive que apoiar os dedos das mãos no registo e já conhecem melhor a minha íris do que eu próprio. Só que estes tipos não têm memória e, de todas as vezes, a história se repete. Com uma excepção que acontece quando se tem um nome frequente ou suspeito, o que dá direito a uma segunda verificação, mais tempo gasto e dúvidas sobre onde estarão as malas e se ainda se irá a tempo do voo de ligação, tudo sem explicações nem desculpas. Será que nunca pensaram que mal terão andado a fazer pelo mundo fora para terem tanto medo de toda a gente? Parecem acreditar pouco que Deus abençoe a América… Eles acreditar talvez acreditem (foram ensinados a fazê-lo), pensar é que não (foram educados a não o fazer).

sexta-feira, novembro 05, 2010

Cancun prático

Cancun é uma tira de hotéis estendida ao longo de muitos quilómetros a norte do aeroporto. O que se faz em Cancun? Vai-se à praia que tem água azul-turquesa com temperatura generosa. Compram-se viagens para ir ver algo diferente (além de ir à praia) em locais a 2-3 horas de viagem. Portanto, e como há praias  perto desses locais, o mais sensato é ir para um hotel nesses sítios e poupar umas horas de sono no hotel mal substituídas por sestas nos autocarros.
Ficando em Cancun pode facilmente andar-se de uma ponta à outra da tira dos hotéis de autocarro a custo baixo (0,5€/viagem). Há centros comerciais e clubes nocturnos e praias onde os hotéis não cobriram o chão. Também restaurantes para vários gostos. E polícia a fazer barreiras e a revistar carros, que o narcotráfico não dá tréguas.
Portanto, o melhor quando se vem a Cancun é sair de cá e ir até Chichen Itza, Tulum e a parques de diversões como Xeh-la e Xcaret. Nos primeiros vemos calendários gigantes e fica-se parvo como foi possível fazer aquilo naqueles tempos. Nos parques, goza-se a água quente a céu aberto ou em rios subterrâneos (artificiais?) ou pode caminhar-se no fundo de um aquário de 7 metros de profundidade (carregando uma máscara à maneira de astronauta ligado à cápsula por um tubo que nos garante o oxigénio), para ver uns tipos dar de comer aos peixes enquanto outros mayapaparrazi nos tiram fotografias. Há também postais ilustrados onde se pode ficar deitado à sombra e gente geralmente bem educada por perto que tenta ser prestável (quando por exemplo se cai de um passeio abaixo... os passeios à beira da estrada têm um desnível de cerca de 30 cm!). Há ainda a versão de tormenta com ventos fortes de dobrar copas de palmeiras em que começa a ser complicado descobrir algo que fazer. A ida a downtown apenas confirma que Cancun não existe ou como diz um dos guias, em busca da propina, aqui não se produz nada, vivemos da vossa generosidade. Voltem sempre! E, na verdade, apetece fazer-lhes a vontade pela temperatura da água e pelos locais onde o sossego é possível desde que se não ande no contra relógio do guia turístico. Também pelo conhecimento que noutros tempos aqui houve. Para reflectir e ficar longe do pequeno mundo.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Mais maias

O erro dos maias poderá ter sido a auto-satisfação com o conhecimento. a arrogância da razão, eventualmente. Qualquer político hoje em dia sabe que não basta a razão e que mais importante do que isso pode mesmo ser a estratégia de vender a não-razão. Isso é que rende. Eles não souberam e pereceram. Ao olhar os seus relógios, sente-se a injustiça da sua história, sobretudo quando se vê que as irracionalidades e o obscurantismo das diferentes variantes de fé têm conseguido bem mais no que ao poder diz respeito. Mas esse tem sido também o mecanismo de grandes recuos ou paragens no tempo. O deles processava-se em ciclos determinados por realidades cósmicas, sem hipóteses de paragens. E ainda continua.
Estes saberes despertam curiosidade de quem lhes sente a razão.

terça-feira, novembro 02, 2010

Bolsa de emoções

Deve estar certo porque o esquema está globalizado e não tem grandes variações entre os locais e as gentes que lá vivem. Há um jogo de simpatias e simultaneamente de falsidade em que a comunicação das emoções decide o resultado. Analisando friamente a questão conclui-se que o preço acaba por nem variar tanto de um caso para outro, mas o que decide o negócio não é a racionalidade, mas a empatia emocional entretanto criada pelo processo de comunicação. Mesmo tentando actuar no negócio com a frieza possível, sinto que acabo por ceder por razões não necessariamente racionais. A bolsa dos valores das excursões acaba por não diferir muito das outras bolsas de valores, onde também são factores irracionais a decidir os negócios. Interrogo-me se não seremos capazes de conseguir algo melhor do que isto.
Não vale mesmo a pena invocar boas razões para o sucesso, que ele depende de outras causas, mas não necessariamente das boas razões da cultura que não busque a opressão. Assim parece ter acontecido aos maias, uma cultura avançada, mas que não usou o conhecimento que possuía para dominar. Acabaram a fazer, nos dias de hoje, os trabalhos mais básicos e mais mal pagos nos hotéis de Cancun. De nada lhes valeu estarem avançados, porque outros factores são ainda mais importantes que a cultura. Pelos vistos já há várias centenas de anos.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Santa Morte


Será a praia onde se chega como diz A. Lobo Antunes ou uma mulher de gadanha ou uma Velha vestida de preto, tudo isso pode ser esse instante certo e inevitável para onde todos caminhamos, mas aqui é aparentemente diferente, chegando mesmo a ser Santa Muerte. Há uma atitude de brincadeira e veneração neste dia em que os mortos regressam e lhes oferecem bolos, cigarros ou mesmo uma bala que não irá ser utilizada numa rixa de cartéis de narcotráfico. Os  naturais mascaram-se como se estivéssemos  num carnaval neste dia e há uma alegria mal percebida por quem não é daqui. Há um ambiente de festa no ar porque a morte está presente.
Este breve contacto de turista não dá para entender até que ponto as aparências estarão a iludir e tudo não possa passar de esconjuro ou catarse para liquidar medos ocultos, mas propicia uma nova forma de encarar um problema que cada dia se vai tornando mais actual «à medida que se nada para a praia». Mas se o rumo é necessário, porque fugir e temê-lo. É possível, que a razão para isso, esteja na consciência de ainda haver algo mais para acabar (mas estamos programados para alguma obra em especial?) e não termos ainda tido o tempo suficiente ou poderá ser apenas o hábito de ir seguindo, fazendo o que se faz sem se dar conta até ao momento de despertar final quando a areia nos põe de pé. O risco não é pois a morte, mas a vida desperdiçada, essa sim irrecuperável. Disso é que é mais difícil desculparmo-nos. A morte é, desta forma, um estímulo para a vida. Pode, por isso, ser celebrável. 

domingo, outubro 31, 2010

Deixem os velhos descansar

É frequente ver sobretudo nas companhias de aviação americanas velhas hospedeiras arrastando uma actividade que a necessidade lhes impõe, mas de que a vida as deveria poupar. Aliás, é uma realidade que já observara noutras actividades, mas que, na minha inocência, associava a participações em actividades de voluntariado e não de coacção social.
Mas, neste voo da US Airwais não é disso que se trata, mas de uma sórdida obrigatoriedade que o liberalismo vai impondo ou como diz o Coelho com passos de veludo, as garantias do Estado existem enquanto forem economicamente viáveis. Refere-se ele, é claro, às garantias das pessoas, que não às da Banca que garantidamente não terá nunca risco de falência. Realmente, os recursos não são ilimitados e há opções na forma como os distribuímos. Opções de classe, era assim que se dizia num conceito dito passado de prazo, mas que permanece, na verdade, completamente actual.

sábado, outubro 30, 2010

De partida

Poderá ser que sejam os meus olhos ainda mal acordados às seis da manhã, mas mesmo depois da tentativa de os estimular com o café do aeroporto, eles continuam a perceber que não há nos que por aqui andam os mesmos risos nem muito menos os abraços que se encontram na zona das chegadas. Como se existisse uma dificuldade de sair de um lugar onde, realmente, se pertence ainda que esse sentimento tenha, garanto, excepções. Mas mesmo não pertencendo a  um lugar, a uma pátria, o aconchego da pertença continua presente no apego da pertença a uma causa, o que pode ser uma sensação mais solitária, porque menos comungada com um grupo de partilha. É aí que pertenço com a minha impossibilidade de sentir a ideia de pátria. Deve ser por isso, que as partidas não me custam.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Certezas de médico

Com o passar do tempo, a maior certeza que se aprende é que a incerteza e a surpresa são a regra desta profissão. Não nas grandes séries onde a tendência para a normalidade gaussiana é uma inevitabilidade, mas nos casos concretos, onde sempre é possível morar-se nas franjas e nos outliers. Por isso, frente ao doente individual e à medida que cá andamos há mais tempo, temos que ter sempre a dúvida e não a arrogância da verdade matemática própria de médicos jovens. Essa é uma das grandes lições que o tempo ensina e uma mensagem necessária para transmitir aos mais novos que connosco se cruzam. Esta é uma profissão de incertezas e dúvidas metódicas e nunca de verdades absolutas que só a arrogância ignorante de alguns pode exprimir. Há um equilíbrio complexo entre o bom-senso que a matemática ensina e o reconhecimento da excepção à normalidade, com a realidade sempre presente de que o erro é inevitável e simultaneamente inaceitável porque, ao contrário dos jogos, aqui só há uma vida. Por isso esta profissão é tão aliciante se não houver a cedência ao charlatanismo da infalibilidade, infelizmente existente nalguns dos seus praticantes. Mau é haver quem a use para a sua afirmação pessoal e ponha em causa a dúvida necessária. Nesse caso melhor fora que fossem matemáticos, gestores ou tivessem outras profissões onde o substrato com que se lida não fosse a vida. Por isso, ser-se médico é uma vida inteira.
Depois há também uma imperiosa necessidade de fugir à tentação do raro e do que não dá esperança aos doentes. É fútil e apenas revela um prazer doentio de alguns praticantes, que sobrepõem o gozo pessoal da sua promoção, aos bons resultados para os objectos da sua actividade.

quinta-feira, outubro 28, 2010

O Baile do Alterne

No país pequenino é assim: enquanto uns se dedicam ao baile mandado, os outros optam pelo Vira, de um lado para o outro de forma a ficar sempre no mesmo lugar. Aí estão hoje as sondagens a mostrar que agora se roda para a Lapa virando as costas ao Rato e daqui a uns tempos logo se rodará ao contrário, que este povo gosta é do alterne. O maior problema é que esta gente toda não tem memória e pode votar. Mudam a cruzinha e queixam-se, porque esse é o seu fado. Ficam satisfeitos e vão ao fundo lentamente, que nem submarinos os hão-de salvar.

terça-feira, outubro 26, 2010

Voto contra


Está na hora de ficar farto da desesperança e dos prognósticos acertados sobre o passado  dos sábios economistas, que nunca se cansam de mostrar como a Economia tem regras que explicam toda a catástrofe a que se chegou, sem terem tido há uns anos atrás a mais pequena inspiração na previsão do desastre que agora tão bem sabem explicar. Esta cultura não serve, porque é pouco culta, não tem reflexão nem método analítico. E até mais do que cultura, a carência agora é de sonho, de inspiração, daqueles sentires que antes de acontecer já sabiam e anunciavam:


Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal

É de novo o tempo de subjugar a economia à Poesia, porque é pelo sonho que vamos.  E depois de acontecer, logo os economistas explicarão o passado, na sua impotência de traçar rumos para o Futuro. Da mesma forma que o microfone falou e houve um acordar numa madrugada de Abril, também agora é necessário sair deste unanimismo controleiro que nos oprime a vida e come a esperança. Há, seguramente, mais vida além da economia.
Neste momento, não é possível a cobardia da crítica fácil e da não participação. É hora de optar entre o que há, quando nos não propomos como opção e perante a ementa disponível, a decisão está tomada sendo inúteis as reservas que sempre haverá, porque os mundos e as pessoas não são perfeitos, mesmo que a opção seja sobretudo um voto de protesto contra o cálculo e  a manha da economia.
Que seja até um voto contra Cavaco, mas leve-se Alegre a Presidente!

domingo, outubro 24, 2010

Frutos

Na aparente calmaria, há um constante sobressalto dos elementos, nada desaparece e tudo se transforma. Aqui do aparente lixo nascem frutos. Estes foram os primeiros, com expressão e visibilidade. Inesperados, chegaram um destes dias e merecem o registo que aqui se deixa.

sexta-feira, outubro 22, 2010

:)

Segundo ouvi foram mais de 300000 páginas digitalizadas por um grupo de entusiastas em actividade de fim de semana e de borla!! Assim, Pessoa é dado ao mundo. Ainda há imaterialidade nas acções de alguns. Obrigado, sabe bem saber destas coisas!

Risco Sistémico

Não é preciso ter-se uma inteligência superior e basta estar de ouvidos abertos às explicações dos nossos sábios economistas, para se compreender que o Estado Social, tal como o temos actualmente, é insustentável. Percebe-se bem que o Estado (o do Sistema, o não o Social) não pode oferecer o que não tem, isto é, se não tem receita não pode pagar. É essa a regra que o domina. Mas mais uma vez se confirma o provérbio e também esta realidade tem uma excepção: mesmo não tendo dinheiro, temos a certeza que é coisa que nunca faltará quando algum banco tiver alguma dificuldade. Houve um incêndio no BPN e foram queimados mais de 5 mil milhões de euros. Logo, o Estado acudiu a essa catástrofe social e salvou-nos do risco sistémico. Esta coisa do sistémico tem que ver com o Sistema, não é?  O Risco Sistémico deve ser continuarmos a viver sob as regras do Sistema.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Elogio do holocausto

Ao lado do empreendedor privado explorado pelo Estado vivem os novos judeus que directamente os sugam e que justificarão ao seu olhar um extermínio sem piedade. Está na hora de ser feita história e purificar o ambiente eliminado essa corja parasitária que agora se percebe ser a causa de todos os males: os funcionários públicos, os novos judeus.
Se o país avança deve-o às parcerias público-privadas, isto é, à iniciativa empreendedora dos privados paga pelo Orçamento do Estado, que lhes garante o negócio sem risco. De outra forma era a paralisia.
E que seria de nós se o Governo não recorresse  aos pareceres técnicas dos especialistas do sector privado? Certamente, comprariam (mesmo assim é o que se viu com os submarinos)  gato por lebre e as pontes cairiam no dia seguinte ao da construção. E não foi o sector Privado da Saúde, em grande progresso recentemente,  que reduziu a mortalidade infantil da forma que aconteceu nos últimos 30 anos? Mas, sem dúvida o ponto alto da reforma seria a substituição dos funcionários das Finanças por uma confederação patronal qualquer que aplicaria os impostos, em especial sobre os rendimentos de quem trabalha, reduzindo a carga fiscal dos empreendedores. Aí estaria quase realizado o Céu. Faltaria apenas criar um Governo também privatizado (não é preciso que o sistema de alterne já nos garante naturalmente essa realidade).
 Sim, liquidar todos esses judeus, é o desígnio maior desta febre nazi-fascista anti-Estado, purificando a raça dos empreendedores. Acabe-se com a estruturação, a regulamentação, a organização e deixe-se fluir o Mercado. Promova-se a instabilidade, a insegurança, a precariedade. Que os mais aptos  devorem sem piedade os menos capazes e os tornem seus escravos e para sempre seja proibida a palavra solidariedade. Força, que os ventos deste progresso encham as velas da Nave dos Loucos em direcção ao Caos.