sexta-feira, novembro 05, 2010

Cancun prático

Cancun é uma tira de hotéis estendida ao longo de muitos quilómetros a norte do aeroporto. O que se faz em Cancun? Vai-se à praia que tem água azul-turquesa com temperatura generosa. Compram-se viagens para ir ver algo diferente (além de ir à praia) em locais a 2-3 horas de viagem. Portanto, e como há praias  perto desses locais, o mais sensato é ir para um hotel nesses sítios e poupar umas horas de sono no hotel mal substituídas por sestas nos autocarros.
Ficando em Cancun pode facilmente andar-se de uma ponta à outra da tira dos hotéis de autocarro a custo baixo (0,5€/viagem). Há centros comerciais e clubes nocturnos e praias onde os hotéis não cobriram o chão. Também restaurantes para vários gostos. E polícia a fazer barreiras e a revistar carros, que o narcotráfico não dá tréguas.
Portanto, o melhor quando se vem a Cancun é sair de cá e ir até Chichen Itza, Tulum e a parques de diversões como Xeh-la e Xcaret. Nos primeiros vemos calendários gigantes e fica-se parvo como foi possível fazer aquilo naqueles tempos. Nos parques, goza-se a água quente a céu aberto ou em rios subterrâneos (artificiais?) ou pode caminhar-se no fundo de um aquário de 7 metros de profundidade (carregando uma máscara à maneira de astronauta ligado à cápsula por um tubo que nos garante o oxigénio), para ver uns tipos dar de comer aos peixes enquanto outros mayapaparrazi nos tiram fotografias. Há também postais ilustrados onde se pode ficar deitado à sombra e gente geralmente bem educada por perto que tenta ser prestável (quando por exemplo se cai de um passeio abaixo... os passeios à beira da estrada têm um desnível de cerca de 30 cm!). Há ainda a versão de tormenta com ventos fortes de dobrar copas de palmeiras em que começa a ser complicado descobrir algo que fazer. A ida a downtown apenas confirma que Cancun não existe ou como diz um dos guias, em busca da propina, aqui não se produz nada, vivemos da vossa generosidade. Voltem sempre! E, na verdade, apetece fazer-lhes a vontade pela temperatura da água e pelos locais onde o sossego é possível desde que se não ande no contra relógio do guia turístico. Também pelo conhecimento que noutros tempos aqui houve. Para reflectir e ficar longe do pequeno mundo.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Mais maias

O erro dos maias poderá ter sido a auto-satisfação com o conhecimento. a arrogância da razão, eventualmente. Qualquer político hoje em dia sabe que não basta a razão e que mais importante do que isso pode mesmo ser a estratégia de vender a não-razão. Isso é que rende. Eles não souberam e pereceram. Ao olhar os seus relógios, sente-se a injustiça da sua história, sobretudo quando se vê que as irracionalidades e o obscurantismo das diferentes variantes de fé têm conseguido bem mais no que ao poder diz respeito. Mas esse tem sido também o mecanismo de grandes recuos ou paragens no tempo. O deles processava-se em ciclos determinados por realidades cósmicas, sem hipóteses de paragens. E ainda continua.
Estes saberes despertam curiosidade de quem lhes sente a razão.

terça-feira, novembro 02, 2010

Bolsa de emoções

Deve estar certo porque o esquema está globalizado e não tem grandes variações entre os locais e as gentes que lá vivem. Há um jogo de simpatias e simultaneamente de falsidade em que a comunicação das emoções decide o resultado. Analisando friamente a questão conclui-se que o preço acaba por nem variar tanto de um caso para outro, mas o que decide o negócio não é a racionalidade, mas a empatia emocional entretanto criada pelo processo de comunicação. Mesmo tentando actuar no negócio com a frieza possível, sinto que acabo por ceder por razões não necessariamente racionais. A bolsa dos valores das excursões acaba por não diferir muito das outras bolsas de valores, onde também são factores irracionais a decidir os negócios. Interrogo-me se não seremos capazes de conseguir algo melhor do que isto.
Não vale mesmo a pena invocar boas razões para o sucesso, que ele depende de outras causas, mas não necessariamente das boas razões da cultura que não busque a opressão. Assim parece ter acontecido aos maias, uma cultura avançada, mas que não usou o conhecimento que possuía para dominar. Acabaram a fazer, nos dias de hoje, os trabalhos mais básicos e mais mal pagos nos hotéis de Cancun. De nada lhes valeu estarem avançados, porque outros factores são ainda mais importantes que a cultura. Pelos vistos já há várias centenas de anos.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Santa Morte


Será a praia onde se chega como diz A. Lobo Antunes ou uma mulher de gadanha ou uma Velha vestida de preto, tudo isso pode ser esse instante certo e inevitável para onde todos caminhamos, mas aqui é aparentemente diferente, chegando mesmo a ser Santa Muerte. Há uma atitude de brincadeira e veneração neste dia em que os mortos regressam e lhes oferecem bolos, cigarros ou mesmo uma bala que não irá ser utilizada numa rixa de cartéis de narcotráfico. Os  naturais mascaram-se como se estivéssemos  num carnaval neste dia e há uma alegria mal percebida por quem não é daqui. Há um ambiente de festa no ar porque a morte está presente.
Este breve contacto de turista não dá para entender até que ponto as aparências estarão a iludir e tudo não possa passar de esconjuro ou catarse para liquidar medos ocultos, mas propicia uma nova forma de encarar um problema que cada dia se vai tornando mais actual «à medida que se nada para a praia». Mas se o rumo é necessário, porque fugir e temê-lo. É possível, que a razão para isso, esteja na consciência de ainda haver algo mais para acabar (mas estamos programados para alguma obra em especial?) e não termos ainda tido o tempo suficiente ou poderá ser apenas o hábito de ir seguindo, fazendo o que se faz sem se dar conta até ao momento de despertar final quando a areia nos põe de pé. O risco não é pois a morte, mas a vida desperdiçada, essa sim irrecuperável. Disso é que é mais difícil desculparmo-nos. A morte é, desta forma, um estímulo para a vida. Pode, por isso, ser celebrável. 

domingo, outubro 31, 2010

Deixem os velhos descansar

É frequente ver sobretudo nas companhias de aviação americanas velhas hospedeiras arrastando uma actividade que a necessidade lhes impõe, mas de que a vida as deveria poupar. Aliás, é uma realidade que já observara noutras actividades, mas que, na minha inocência, associava a participações em actividades de voluntariado e não de coacção social.
Mas, neste voo da US Airwais não é disso que se trata, mas de uma sórdida obrigatoriedade que o liberalismo vai impondo ou como diz o Coelho com passos de veludo, as garantias do Estado existem enquanto forem economicamente viáveis. Refere-se ele, é claro, às garantias das pessoas, que não às da Banca que garantidamente não terá nunca risco de falência. Realmente, os recursos não são ilimitados e há opções na forma como os distribuímos. Opções de classe, era assim que se dizia num conceito dito passado de prazo, mas que permanece, na verdade, completamente actual.

sábado, outubro 30, 2010

De partida

Poderá ser que sejam os meus olhos ainda mal acordados às seis da manhã, mas mesmo depois da tentativa de os estimular com o café do aeroporto, eles continuam a perceber que não há nos que por aqui andam os mesmos risos nem muito menos os abraços que se encontram na zona das chegadas. Como se existisse uma dificuldade de sair de um lugar onde, realmente, se pertence ainda que esse sentimento tenha, garanto, excepções. Mas mesmo não pertencendo a  um lugar, a uma pátria, o aconchego da pertença continua presente no apego da pertença a uma causa, o que pode ser uma sensação mais solitária, porque menos comungada com um grupo de partilha. É aí que pertenço com a minha impossibilidade de sentir a ideia de pátria. Deve ser por isso, que as partidas não me custam.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Certezas de médico

Com o passar do tempo, a maior certeza que se aprende é que a incerteza e a surpresa são a regra desta profissão. Não nas grandes séries onde a tendência para a normalidade gaussiana é uma inevitabilidade, mas nos casos concretos, onde sempre é possível morar-se nas franjas e nos outliers. Por isso, frente ao doente individual e à medida que cá andamos há mais tempo, temos que ter sempre a dúvida e não a arrogância da verdade matemática própria de médicos jovens. Essa é uma das grandes lições que o tempo ensina e uma mensagem necessária para transmitir aos mais novos que connosco se cruzam. Esta é uma profissão de incertezas e dúvidas metódicas e nunca de verdades absolutas que só a arrogância ignorante de alguns pode exprimir. Há um equilíbrio complexo entre o bom-senso que a matemática ensina e o reconhecimento da excepção à normalidade, com a realidade sempre presente de que o erro é inevitável e simultaneamente inaceitável porque, ao contrário dos jogos, aqui só há uma vida. Por isso esta profissão é tão aliciante se não houver a cedência ao charlatanismo da infalibilidade, infelizmente existente nalguns dos seus praticantes. Mau é haver quem a use para a sua afirmação pessoal e ponha em causa a dúvida necessária. Nesse caso melhor fora que fossem matemáticos, gestores ou tivessem outras profissões onde o substrato com que se lida não fosse a vida. Por isso, ser-se médico é uma vida inteira.
Depois há também uma imperiosa necessidade de fugir à tentação do raro e do que não dá esperança aos doentes. É fútil e apenas revela um prazer doentio de alguns praticantes, que sobrepõem o gozo pessoal da sua promoção, aos bons resultados para os objectos da sua actividade.

quinta-feira, outubro 28, 2010

O Baile do Alterne

No país pequenino é assim: enquanto uns se dedicam ao baile mandado, os outros optam pelo Vira, de um lado para o outro de forma a ficar sempre no mesmo lugar. Aí estão hoje as sondagens a mostrar que agora se roda para a Lapa virando as costas ao Rato e daqui a uns tempos logo se rodará ao contrário, que este povo gosta é do alterne. O maior problema é que esta gente toda não tem memória e pode votar. Mudam a cruzinha e queixam-se, porque esse é o seu fado. Ficam satisfeitos e vão ao fundo lentamente, que nem submarinos os hão-de salvar.

terça-feira, outubro 26, 2010

Voto contra


Está na hora de ficar farto da desesperança e dos prognósticos acertados sobre o passado  dos sábios economistas, que nunca se cansam de mostrar como a Economia tem regras que explicam toda a catástrofe a que se chegou, sem terem tido há uns anos atrás a mais pequena inspiração na previsão do desastre que agora tão bem sabem explicar. Esta cultura não serve, porque é pouco culta, não tem reflexão nem método analítico. E até mais do que cultura, a carência agora é de sonho, de inspiração, daqueles sentires que antes de acontecer já sabiam e anunciavam:


Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal

É de novo o tempo de subjugar a economia à Poesia, porque é pelo sonho que vamos.  E depois de acontecer, logo os economistas explicarão o passado, na sua impotência de traçar rumos para o Futuro. Da mesma forma que o microfone falou e houve um acordar numa madrugada de Abril, também agora é necessário sair deste unanimismo controleiro que nos oprime a vida e come a esperança. Há, seguramente, mais vida além da economia.
Neste momento, não é possível a cobardia da crítica fácil e da não participação. É hora de optar entre o que há, quando nos não propomos como opção e perante a ementa disponível, a decisão está tomada sendo inúteis as reservas que sempre haverá, porque os mundos e as pessoas não são perfeitos, mesmo que a opção seja sobretudo um voto de protesto contra o cálculo e  a manha da economia.
Que seja até um voto contra Cavaco, mas leve-se Alegre a Presidente!

domingo, outubro 24, 2010

Frutos

Na aparente calmaria, há um constante sobressalto dos elementos, nada desaparece e tudo se transforma. Aqui do aparente lixo nascem frutos. Estes foram os primeiros, com expressão e visibilidade. Inesperados, chegaram um destes dias e merecem o registo que aqui se deixa.

sexta-feira, outubro 22, 2010

:)

Segundo ouvi foram mais de 300000 páginas digitalizadas por um grupo de entusiastas em actividade de fim de semana e de borla!! Assim, Pessoa é dado ao mundo. Ainda há imaterialidade nas acções de alguns. Obrigado, sabe bem saber destas coisas!

Risco Sistémico

Não é preciso ter-se uma inteligência superior e basta estar de ouvidos abertos às explicações dos nossos sábios economistas, para se compreender que o Estado Social, tal como o temos actualmente, é insustentável. Percebe-se bem que o Estado (o do Sistema, o não o Social) não pode oferecer o que não tem, isto é, se não tem receita não pode pagar. É essa a regra que o domina. Mas mais uma vez se confirma o provérbio e também esta realidade tem uma excepção: mesmo não tendo dinheiro, temos a certeza que é coisa que nunca faltará quando algum banco tiver alguma dificuldade. Houve um incêndio no BPN e foram queimados mais de 5 mil milhões de euros. Logo, o Estado acudiu a essa catástrofe social e salvou-nos do risco sistémico. Esta coisa do sistémico tem que ver com o Sistema, não é?  O Risco Sistémico deve ser continuarmos a viver sob as regras do Sistema.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Elogio do holocausto

Ao lado do empreendedor privado explorado pelo Estado vivem os novos judeus que directamente os sugam e que justificarão ao seu olhar um extermínio sem piedade. Está na hora de ser feita história e purificar o ambiente eliminado essa corja parasitária que agora se percebe ser a causa de todos os males: os funcionários públicos, os novos judeus.
Se o país avança deve-o às parcerias público-privadas, isto é, à iniciativa empreendedora dos privados paga pelo Orçamento do Estado, que lhes garante o negócio sem risco. De outra forma era a paralisia.
E que seria de nós se o Governo não recorresse  aos pareceres técnicas dos especialistas do sector privado? Certamente, comprariam (mesmo assim é o que se viu com os submarinos)  gato por lebre e as pontes cairiam no dia seguinte ao da construção. E não foi o sector Privado da Saúde, em grande progresso recentemente,  que reduziu a mortalidade infantil da forma que aconteceu nos últimos 30 anos? Mas, sem dúvida o ponto alto da reforma seria a substituição dos funcionários das Finanças por uma confederação patronal qualquer que aplicaria os impostos, em especial sobre os rendimentos de quem trabalha, reduzindo a carga fiscal dos empreendedores. Aí estaria quase realizado o Céu. Faltaria apenas criar um Governo também privatizado (não é preciso que o sistema de alterne já nos garante naturalmente essa realidade).
 Sim, liquidar todos esses judeus, é o desígnio maior desta febre nazi-fascista anti-Estado, purificando a raça dos empreendedores. Acabe-se com a estruturação, a regulamentação, a organização e deixe-se fluir o Mercado. Promova-se a instabilidade, a insegurança, a precariedade. Que os mais aptos  devorem sem piedade os menos capazes e os tornem seus escravos e para sempre seja proibida a palavra solidariedade. Força, que os ventos deste progresso encham as velas da Nave dos Loucos em direcção ao Caos.

terça-feira, outubro 19, 2010

Ensinamentos de França

E quando o mundo for feito para as pessoas e não para o lucro do poder financeiro, será provavelmente assim.

Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Contre nous de la tyrannie,
L'étendard sanglant est levé, (bis)
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats?
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes!
 
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchons, marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons!

Morto súbito

A primeira reacção deve ser de surpresa, porque não é de todo esperado ser-se, de repente, um morto súbito, sem aviso, sem a surpresa de um diagnóstico e a ilusão do êxito de uma quimioterapia, por exemplo. A seguir deve aparecer uma enorme sensação de injustiça por se não perceber a razão da escolha, quando afinal há por aí tanto filho da mãe a quem poderia ter saído esta sorte. Esta injustiça deve acompanhar-se de irritação e revolta contra o mandante da coisa. E de frustração porque, na verdade, ali chegado já nada se pode fazer para evitar a situação. Nem já há tempo para dar os beijos que faltaram dar!
Mas, quase de certeza, haverá também lugar para a reflexão sobre as opções, os caminhos que se escolheram e todas as oportunidades que se perderam, porque se apostava numa vida mais longa,  sempre adiada, que justificava os sacrifícios e os sapos a engolir, porque depois é que ia ser. Este logro deve ser o mais difícil de digerir, porque, na aparência, era o único que poderia ter sido controlado se tivesse sido feita a aposta no cavalo certo. Deve dar uma vontade enorme de berrar para os amigos que se deixaram por aí: mandem tudo às urtigas, porque a vossa vida é hoje! Mas valerá a pena esse grito? O mais provável é que eles não acreditem na sabedoria de um morto súbito, porque o sonho é imprudente, mas comanda a vida. É o engano que seduz os homens, de tal forma que entregaram a propriedade do futuro a um Deus qualquer, satisfeitos que ficaram com a ilusão da posse da vida. Tanta ilusão e impotência!

segunda-feira, outubro 18, 2010

Esperança

Sempre tenho alguma admiração e esperança pelos franceses. Por estes que têm um ar de República nos olhos.
Curiosamente, andam escondidos nos pasquins e televisões da terra, mas já dizem que Maio pode voltar a ser possível

Défice de vida


Na cidade grande, na pressa dos dias cada vez mais escassos pela jornada de trabalho que não pára de crescer, na urgência de chegar, ninguém sabe onde nem para quê, porque as viagens cada vez têm menos um sentido e são apenas mais um destino, um objectivo, um visto que se coloca no quadrado da verificação dos deveres. São curiosas estas câmaras que enxameiam as cidades e deixam memórias dos instantes, que aos humanos foram roubados. Primeiro, foram os bons-dias!, boas-tardes!, que sumiram. Agora até os olhares deixaram de ver nestes locais movimentados, onde vai tudo em grande correria. Mas que pressa é esta, oh gentes, que cega a realidade ali ao lado? Já só há olhos para as imagens virtuais, para a realidade da TV, que a outra, a realidade verdadeira foi comida pela cegueira. Na pequenez da dimensão dos corpos que se movem, quase que sinto a presença dos fios que os suspendem e deslocam. Como num teatro de marionetas, também estes bonecos seguem suspensos pela invisibilidade dos cordéis que os movem, sem vida real. A isto estão reduzidos. Isolados, perdidos e cegos, sem vontade, vão com o destino, mas sem rumo. Cruzam-se com a realidade, mas a cegueira já não os deixa vê-la.
Há também um que sentado terá ouvido a gritaria da discussão e o som do corpo a estatelar-se no chão. Automaticamente, passados uns instantes, levanta-se e segue o seu caminho, na tranquilidade do seu vácuo nem olhando, por curiosidade, a enfermeira romena que morreu na superfície da cidade, em pleno dia, perante a distracção dos que passavam depois de um conflito miserável provavelmente ditado pela pressa de ter um bilhete. Este é o défice de vida, infinitamente mais grave que os outros que nos vão vendendo de forma obsessiva nos dias de agora.

quinta-feira, outubro 14, 2010

PDCA

Olhando alguns dos serviços existentes sou forçado a concluir que obedecem efectivamente a uma estratégia de  subordinada ao princípio PDCA. Não, não me refiro à melhoria contínua da qualidade que Deming ensina, mas apenas à tese que afirma Porque Devemos Continuar Assim. Realmente se liderados por chefes que chegaram onde estão porque o sistema é o existente (e havendo sérias dúvidas que lá estivessem se o rigor fosse a regra), por que raio se esperaria que agissem de outra forma? O seu objectivo estratégico para o Serviço está atingido, por isso defendem o seu PDCA com toda a energia que têm. Deles, mais se não pode esperar.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Ainda há notícias boas?

Hoje foi um dia grande no Chile. Trinta e três homens foram arrancados do buraco negro que os tinha engolido. Um dia grande no mundo também, porque 33 vidas foram resgatadas sem olhar à relação custo-benefício da sua libertação. E é tão raro encontrar exemplos deste desprendimento material e da valorização da vida humana. Um dia que só não é tão grande porque noutros sítios muitas 33 vidas vezes n são desvalorizadas e morrem anonimamente perante a indiferença do mundo. Já deixei de fazer contas, mas 30 e tal eram os mortos diários no Iraque depois da «libertação». É o contraste entre a terra que pare e a terra que sepulta, entre o valor do homem e valor do petróleo. No meio das trevas, soube-me bem esta luz ao cimo do túnel numa montanha que pariu 30 e tal vidas. E o mais incrível é que foi notícia, mesmo não sendo tragédia. Um quase milagre a 13 de Outubro.

Professor na sala dos alunos

Custou-me, apesar de tudo, um pouco a cena deste almoço. Na mesa corrida, o velho professor comia sozinho na sala agitada e cheia dos novos alunos. Mastigava devagar com ar pesado, possivelmente, interiorizando a sua nova solidão e constatando a fugacidade do poder que teve. Ele que se terá julgado grande e eterno nalguns instantes do passado, estava ali no confronto com a nova realidade do seu anonimato. Por que terá ido ali almoçar? Talvez uma romagem de saudade, mas possivelmente à procura de algum sorriso de gratidão, que é isso que sempre se busca pela vida fora. Não calhou, nenhum dos seus ex-colaboradores por ali passou numa coincidência que lhe teria adiado a azia do olhar vago pela sala. Mastigava, aparentemente, sereno, mas obviamente inquieto. Os seus touchpoints nunca foram tão vazios e as vénias académicas sumiram para outros. Mastigava lentamente. Procuraria a obra, algum sorriso de uma mãe agradecida ou estaria simplesmente descrente pensando se terá valido a pena ter estado naquela casa de que um dia se achou pilar? Sempre me desperta alguma nostalgia este regresso, que suponho dever-se à ausência de raízes a outros lugares e realidades. A solidão sem pontos de contacto... nem regresso.