terça-feira, outubro 19, 2010

Morto súbito

A primeira reacção deve ser de surpresa, porque não é de todo esperado ser-se, de repente, um morto súbito, sem aviso, sem a surpresa de um diagnóstico e a ilusão do êxito de uma quimioterapia, por exemplo. A seguir deve aparecer uma enorme sensação de injustiça por se não perceber a razão da escolha, quando afinal há por aí tanto filho da mãe a quem poderia ter saído esta sorte. Esta injustiça deve acompanhar-se de irritação e revolta contra o mandante da coisa. E de frustração porque, na verdade, ali chegado já nada se pode fazer para evitar a situação. Nem já há tempo para dar os beijos que faltaram dar!
Mas, quase de certeza, haverá também lugar para a reflexão sobre as opções, os caminhos que se escolheram e todas as oportunidades que se perderam, porque se apostava numa vida mais longa,  sempre adiada, que justificava os sacrifícios e os sapos a engolir, porque depois é que ia ser. Este logro deve ser o mais difícil de digerir, porque, na aparência, era o único que poderia ter sido controlado se tivesse sido feita a aposta no cavalo certo. Deve dar uma vontade enorme de berrar para os amigos que se deixaram por aí: mandem tudo às urtigas, porque a vossa vida é hoje! Mas valerá a pena esse grito? O mais provável é que eles não acreditem na sabedoria de um morto súbito, porque o sonho é imprudente, mas comanda a vida. É o engano que seduz os homens, de tal forma que entregaram a propriedade do futuro a um Deus qualquer, satisfeitos que ficaram com a ilusão da posse da vida. Tanta ilusão e impotência!

segunda-feira, outubro 18, 2010

Esperança

Sempre tenho alguma admiração e esperança pelos franceses. Por estes que têm um ar de República nos olhos.
Curiosamente, andam escondidos nos pasquins e televisões da terra, mas já dizem que Maio pode voltar a ser possível

Défice de vida


Na cidade grande, na pressa dos dias cada vez mais escassos pela jornada de trabalho que não pára de crescer, na urgência de chegar, ninguém sabe onde nem para quê, porque as viagens cada vez têm menos um sentido e são apenas mais um destino, um objectivo, um visto que se coloca no quadrado da verificação dos deveres. São curiosas estas câmaras que enxameiam as cidades e deixam memórias dos instantes, que aos humanos foram roubados. Primeiro, foram os bons-dias!, boas-tardes!, que sumiram. Agora até os olhares deixaram de ver nestes locais movimentados, onde vai tudo em grande correria. Mas que pressa é esta, oh gentes, que cega a realidade ali ao lado? Já só há olhos para as imagens virtuais, para a realidade da TV, que a outra, a realidade verdadeira foi comida pela cegueira. Na pequenez da dimensão dos corpos que se movem, quase que sinto a presença dos fios que os suspendem e deslocam. Como num teatro de marionetas, também estes bonecos seguem suspensos pela invisibilidade dos cordéis que os movem, sem vida real. A isto estão reduzidos. Isolados, perdidos e cegos, sem vontade, vão com o destino, mas sem rumo. Cruzam-se com a realidade, mas a cegueira já não os deixa vê-la.
Há também um que sentado terá ouvido a gritaria da discussão e o som do corpo a estatelar-se no chão. Automaticamente, passados uns instantes, levanta-se e segue o seu caminho, na tranquilidade do seu vácuo nem olhando, por curiosidade, a enfermeira romena que morreu na superfície da cidade, em pleno dia, perante a distracção dos que passavam depois de um conflito miserável provavelmente ditado pela pressa de ter um bilhete. Este é o défice de vida, infinitamente mais grave que os outros que nos vão vendendo de forma obsessiva nos dias de agora.

quinta-feira, outubro 14, 2010

PDCA

Olhando alguns dos serviços existentes sou forçado a concluir que obedecem efectivamente a uma estratégia de  subordinada ao princípio PDCA. Não, não me refiro à melhoria contínua da qualidade que Deming ensina, mas apenas à tese que afirma Porque Devemos Continuar Assim. Realmente se liderados por chefes que chegaram onde estão porque o sistema é o existente (e havendo sérias dúvidas que lá estivessem se o rigor fosse a regra), por que raio se esperaria que agissem de outra forma? O seu objectivo estratégico para o Serviço está atingido, por isso defendem o seu PDCA com toda a energia que têm. Deles, mais se não pode esperar.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Ainda há notícias boas?

Hoje foi um dia grande no Chile. Trinta e três homens foram arrancados do buraco negro que os tinha engolido. Um dia grande no mundo também, porque 33 vidas foram resgatadas sem olhar à relação custo-benefício da sua libertação. E é tão raro encontrar exemplos deste desprendimento material e da valorização da vida humana. Um dia que só não é tão grande porque noutros sítios muitas 33 vidas vezes n são desvalorizadas e morrem anonimamente perante a indiferença do mundo. Já deixei de fazer contas, mas 30 e tal eram os mortos diários no Iraque depois da «libertação». É o contraste entre a terra que pare e a terra que sepulta, entre o valor do homem e valor do petróleo. No meio das trevas, soube-me bem esta luz ao cimo do túnel numa montanha que pariu 30 e tal vidas. E o mais incrível é que foi notícia, mesmo não sendo tragédia. Um quase milagre a 13 de Outubro.

Professor na sala dos alunos

Custou-me, apesar de tudo, um pouco a cena deste almoço. Na mesa corrida, o velho professor comia sozinho na sala agitada e cheia dos novos alunos. Mastigava devagar com ar pesado, possivelmente, interiorizando a sua nova solidão e constatando a fugacidade do poder que teve. Ele que se terá julgado grande e eterno nalguns instantes do passado, estava ali no confronto com a nova realidade do seu anonimato. Por que terá ido ali almoçar? Talvez uma romagem de saudade, mas possivelmente à procura de algum sorriso de gratidão, que é isso que sempre se busca pela vida fora. Não calhou, nenhum dos seus ex-colaboradores por ali passou numa coincidência que lhe teria adiado a azia do olhar vago pela sala. Mastigava, aparentemente, sereno, mas obviamente inquieto. Os seus touchpoints nunca foram tão vazios e as vénias académicas sumiram para outros. Mastigava lentamente. Procuraria a obra, algum sorriso de uma mãe agradecida ou estaria simplesmente descrente pensando se terá valido a pena ter estado naquela casa de que um dia se achou pilar? Sempre me desperta alguma nostalgia este regresso, que suponho dever-se à ausência de raízes a outros lugares e realidades. A solidão sem pontos de contacto... nem regresso.

terça-feira, outubro 12, 2010

Sobre a cobardia

Há também um limite para a resiliência e ultrapassado esse ponto, os materiais quebram sem piedade. Plim, é a fractura indomável. Mas há também limites para a decência e isso é que me impede de aceitar como intelectualmente honestos os revolucionários do mal menor. Ainda se entende que os reaccionários apoiem este caminho e até que queiram mais, porque ainda acham poder ir-se mais além no esticar da corda. É da sua natureza. Cumpre-nos mostrar que estão errados. Agora, que o aconchego mesmo do pequeno poder, quebre a coluna de alguns é que não consigo entender. A cobardia do fim do caminho não serve de desculpa, apenas destapa a cobardia moral da sua essência. Há estes momentos na História em que saber o lado em que se está é determinante e não chega dizermos, estou deste embora o meu coração esteja do outro, porque é arriscado pôr a bomba contra o organismo: morrerão os dois.

segunda-feira, outubro 11, 2010

É o poder, estúpidos!

É curiosa esta reflexão sobre a forma de entrevistar banqueiros e políticos. Curiosa porque reveladora da escala do Poder. A pirâmide do capitalismo que reproduzi num texto recente mudou efectivamente. Nos dias de agora no cimo da pirâmide está a Banca e o Poder financeiro, logo abaixo o Poder dos Media (controlado economicamente pela cúpula da pirâmide), depois virão os Políticos (obedientes ao Poder Financeiro e dos Media que fazem a chamada Opinião Publicada). Logo abaixo vem a anestesiante indústria do Entretenimento (o novo ópio do Povo) e as Forças desta Ordem, dominadas pelos níveis superiores. Uma visando levar o Povo às boas, derrama emoções desportivas e histórias de socialite para que o sonho e a perseguição da cenoura se mantenha activo; quando as coisas se não controlam devidamente desta forma, recorre-se então ao bastão e jacto de água. Nos dois níveis inferiores estão a Classe Média, ávida de comer as migalhas que de cima vão caindo e sugada mais ou menos consoante as épocas pelo real poder financeiro e finalmente, no fundo, quem faz as coisas (este grupo está cada vez mais constituído por asiáticos e indianos e por pequenos grupos de «dispensáveis» no mundo ocidental). Fora da pirâmide, porque já lhes foram sugados os recursos que em tempos os tornavam interessantes e porque não existe pachorra para a corrupção e ainda há uma vaga esperança que a malária tome definitivamente conta deles, os Africanos, que passaram de dispensáveis a dispensados.
Não é pois de admirar que, pela posição ocupada neste esquema, os «jornalistas» sejam reverentes com os banqueiros e maltratem os políticos. É o poder, estúpidos. Os políticos cada vez mais convertidos em testas de ferro do verdadeiro poder (oculto para melhor dominar) e, quem sabe, inspirado por um Deus supremo. Um regresso inesperado a um Absolutismo de trevas, ainda sem o despertar de um novo Iluminismo. Mas a história continua...

domingo, outubro 10, 2010

Guerra e Paz


Andando por arquivos de fotos, encontrei  esta, perdida, feita num memorial de guerras em Washington. Colori-a de preto e branco, porque assim é a Guerra e a Paz e ficava mal o verde do arvoredo. A celebração da guerra sempre me confunde, pelo que achei feliz ter encontrado aqueles dois repousados no banco do jardim A vida é, muitas vezes, feita de instantes, de olhares ou até de coincidências contrastantes que só mais tarde se tornam aparentes. Preciso é continuar a olhar e voltar a ver não passando nunca ausente pela existência fugaz das pressas do tempo.

sábado, outubro 09, 2010

É a luta de classes, estúpido!

Como dizia a velha cantiga, é necessário, imperioso e urgente informar, avisar toda  malta... que por inércia e derrota se arrasta por aí na sobrevivência.
Em vez de, por rotina, ler o Expresso e ouvir de forma apática toda a doutrina económica dos sábios da terra e porque a história está longe de ter chegado ao fim e precisa ser mudada,  propõe-se:


What Classless Society?

The so-called growing rich-poor gap in “classless” America is a euphemism for the existence of an accelerated class struggle against American workers and the poor by a relatively small minority that possesses or has access to great wealth and power.
The Census Bureau reported September 24 that the income differential between rich and poor Americans was greater in 2009 than any time since such records were kept.
Another Census report two weeks earlier revealed that America’s largest year-to-year increase in poverty took place in 2009, although its estimate of 43.6 million people living in poverty is considered a serious undercount based on outmoded measurement criteria. Young workers and children are fast falling to the bottom of the heap. The biggest poverty jump last year was among 18 to 24 year old “less-skilled” adults, and 20% of our children live in poverty.
The Associated Press reported September 28, “The top-earning 20% of Americans — those making more than $100,000 each year — received 49.4% of all income generated in the U.S., compared with the 3.4% earned by those below the poverty line, according to newly released Census figures. That ratio of 14.5-to-1 was an increase from 13.6 in 2008 and nearly double a low of 7.69 in 1968.
A different measure, the international Gini index, found U.S. income inequality at its highest level since the Census Bureau began tracking household income in 1967. The U.S. also has the greatest disparity among Western industrialized nations in the Organization for Economic Cooperation and Development.
Following are some recent statistics and statements that show how wide is the chasm between the upper class and the rest of American society, from the poorest of the poor through the working class and middle class.
(Note in following paragraphs the difference between “income,” meaning what you earn each year, and “wealth,” meaning income plus assets — assets being everything you own, from your house, car and furnishings to all your property, savings, stocks and bonds, yachts, jewelry, etc.
According to the Wall St. Journal, a 2008 study of wealth in the United States found that the richest .01% (that’s one-hundredth of one percent, or 14,000 American families) possess 22.2% of the nation’s wealth. The bottom 90%, or over 133 million families, control just 4% of the nation’s wealth. The remaining top 9.99% made ends meet with what’s left, 73.8%.
David DeGraw also has written that “a recent study done by Capgemini and Merrill Lynch Wealth Management found that a mere 1% of Americans are hoarding $13 trillion in investable wealth…and that doesn’t even factor in all the money they have hidden in offshore accounts.”
A recent report by Ray B. Williams points out that “The U.S. Census Bureau and the World Wealth Report 2010 both report increases for the top 5% of households even during the current recession. Based on Internal Revenue Service figures, the richest 1% have tripled their cut of America’s income pie in one generation. In 1980 the richest 1% of America took 1 of every 15 income dollars. Now they take 3 of every 15 income dollars…. Income inequality has been rising since the late 1970s, and now rests at a level not seen since the Gilded Age (1870 to 1900), a period in U.S. history defined by the contrast between the excesses of the super-rich and the squalor of the poor.”
According to Paul Buchheit of DePaul University “In 1965, the average salary for a CEO of a major U.S. company was 25 times the salary of the average worker. Today, the average CEO’s pay is more than 250 times the average worker’s.” The New York Times reported March 31, 2010, “Top hedge fund managers rode the 2009 stock market rally to record gains, with the highest-paid 25 earning a collective $25.3 billion, according to the survey, beating the old 2007 high by a wide margin.” The annual GDP of nearly 90 UN member nations is lower than what these people took home last year. The highest paid manager on the list was David Tepper of Appaloosa Management, who made $4 billion last year.”
Year 2009 may have been an economic disaster for a record number of Americans, but the U.S. billionaire caste — and millionaires as well, of course — had an excellent year. According to Forbes magazine, 2009 “was a billionaire bonanza,” with Bill Gates profiting by $13 billion (enlarging his wealth to $53 billion), and Warren Buffett getting $10 billion richer (increasing his fortune to $47 billion).
There are 1,011 billionaires in the world (40% are Americans) with an average net worth of $3.6 billion — a relative trifle more than the “wealth” possessed by the bottom half of the entire world population.
Throughout their lives, average Americans are taught by their school, church and corporate mass media that theirs is a classless society, and that the notion of classes, class struggle, or class war is just left wing propaganda.
Differences in income are acknowledged — but it is claimed that since upward mobility and attainment of the American Dream are available to everyone if they work hard enough, there is only one class despite gradations in wealth. It’s called the middle class, presumably with statistical subsections for the very rich and very poor. But the “dream” and upward mobility have never been available to everyone, and over the last three decades have been substantially reduced for many new generations of working families.
How often do you hear the politicians of the two ruling parties or the government they administer referring to the working class, lower middle class, the lower class or the upper class and the ruling class?
In America, virtually everyone seems to be lumped into the middle class if they are earning between $25,000 and $250,000 a year, which is a preposterous parody of real class relations. Representatives of these two income variants have little to nothing in common except the class to which they appear to have been assigned.
The millions living in poverty are called “the poor” and are in the public mind often blamed for their own plight (lazy, shiftless, ignorant). The very rich are called the “top 1%,” and the simply rich are termed the “top 10%,” and are often admired and thanked because they create the jobs that prevent the inhabitants of the middle class from falling into the ranks of the poor.
For the past three or four decades the upper class and its agents have been accelerating a campaign against the wages and living standards of the working class/lower middle class and more recently the middle class as well, pushing more and more people into the lower classes. One example of this is that wages no longer correlate to productivity increases, as they did in the first three decades after World War II; another is the erosion of progressive taxation.
In addition, the influence of wealth on the White House and Congress has seen to it that hardly any significant social service legislation has come out of Washington for 40 years. President Obama promotes his health care legislation as a major progressive achievement, but this apex of the current administration’s social contribution is to the right of Democrat President Harry Truman’s proposals in 1948 and Republican President Richard Nixon’s program of 1972. Truman and Nixon failed, and there has been such political regress over these decades that Democratic Party programs now emanate from the center/center-right.
The problem isn’t just the disproportion of money in the hands of a small minority while the standards of most American families are eroding, but it is what’s done with all that money. It elects Presidents, governors and mayors in most of the major cities. It elects members of the House and Senate and state legislatures. If you have millions to spend without batting an eye, you have political clout in America, often decisive clout, and it’s principally deployed to further the interests of the “haves,” as opposed to the “have nots.”
This is what is meant by class war, and it seems to be waged these days only by the top 10% (the upper class) that controls 96% of the wealth against the 90% (working class to middle class and lower class) which controls 4%. The bottom 50% by the way accounts for a pathetic 1% of America’s wealth.
Isn’t it time for the “bottom” 90% to stand up, fight back, and claim their share?


Mas será neste pântano que queremos, realmente, viver? Não, não é o governo, o sócrates nem o ministro das finanças (com minúsculas para ser condizente com a realidade que são), a culpa de tudo isto. Isto é o sistema, a culpa é do sistema! Há que entender a mentira deste modelo de desenvolvimento agora, como já se entendia no passado. Isto não pode continuar a ser tolerado:

sexta-feira, outubro 08, 2010

Euromilhões

Quanto vale um instante de esperança, um sonho quase irrealizável, mas remotamente possível? Depois de entregar o papel há, pelo menos instantaneamente, um período em que tudo é possível, mesmo que, depois, a razão mostre que a probabilidade do possível é  infinitamente pequena. Mas nota-se algum brilho nos olhos que  ainda há pouco estavam completamente apagados pelo simples facto de momentaneamente se ter conseguido afastar a racionalidade e caminhar pela emoção. Mais logo se perceberá que as cruzinhas foram colocadas caprichosamente no quadrado do lado e que «foi por muito pouco» e «que azar», que se esteve mesmo perto. Pronto, uma vez mais, cumpriu-se a sugestão que a razão ditava, mas, ainda assim, soube bem ter aquele instante de esperança, porque a racionalidade é o cinzento dos dias e são as emoções que os tornam coloridos.

terça-feira, outubro 05, 2010

Refundar a República


Andam os tempos confusos e está em curso um novo golpe, não de Estado que isso era contra os princípios dos executantes, que visa acabar com a República (do latim Res publica, "coisa pública") e instaurar uma Resprivada(?).
A diferença é que o poder na «coisa comum» é exercido pelos representantes eleitos pelo Povo de acordo com a sua vontade, na Resprivada, o poder advém de agências de rating e dos Mercados, que impõem as leis aos representantes do Povo que se prestam à sua execução. As decisões não são democráticas, porque quem as dita não foi eleito e emanam da verdade única do Liberalismo visando satisfazer a sua sobrevivência e os interesses dos grupos dominantes. É o totalitarismo da ganância que incita ao fim do Estado, da solidariedade e ao triunfo da selva.
Começa a ser tempo de refundar a República.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Rumo ao caos

Embora a definição de imposto da Wiki reze que Imposto é uma quantia em dinheiro, paga obrigatoriamente por pessoas ou organizações a um governo, a partir da ocorrência de um fato gerador, calculada mediante a aplicação de uma alíquota a uma base de cálculo., na prática imposto é a diferença entre a receita que se tem e o capital que fica disponível após a obrigação que nos é imposta. Por exemplo, se ganhamos 1000 e apenas depositamos no Banco 700, 300 foram-nos retirados para imposto. É pois com estranheza, que tanta berraria contra os Impostos se não traduza por igual algazarra contra o que recentemente foi feito. Considerando que a taxa se mantinha nos 30%, aos funcionários públicos acontece uma coisa curiosa: a quem ganhava 1000 foi imposta uma redução média de 5%, isto é 50, logo passa a ganhar 950, que multiplicados por 0,3 levam a um depósito de 665. Moral da história com esta retenção na fonte de 5%, o tal imposto efectivamente pago passou de 30% para 33,5%, isto é, os funcionários públicos tiveram com esta habilidade um aumento de 3,5% de imposto, em média. Passos Coelho e toda a intelectualidade economista que desfila pelas televisões aplaudem, quando ainda há dias vociferavam contra o aumento dos impostos. Meus senhores, os funcionários públicos acabam de ter um aumento de 3,5% de imposto! Com efeito quem no sector privado ganhava 1000 e recebia 700, com as alterações actuais irá receber os mesmos 700, sem ter tido qualquer agravamento dos impostos.
Os funcionários públicos foram discriminados em relação à generalidade da população ou seja foi criado um imposto que apenas os afecta a eles! Ao menos os impostos eram dantes iguais para todos, mas com esta proposta do Governo a coisa mudou. O que mais revolta não é o aumento dos impostos (se vivemos acima das posses alguma vez teremos de pagar), mas esta diferenciação entre portugueses de segunda e de primeira, pois bem mais equitativo seria que tivessem aumentado os impostos da generalidade da população, conseguindo-se dessa forma, possivelmente, que o nível mais baixo de vencimento sobre o qual incidiriam os impostos fosse não 1500 € por mês, mas algo mais elevado, ou reduzir a taxa de imposto a pagar por cada nível salarial. A receita para fazer face à dita crise até seria a mesma!!! Injusto também porque, na verdade, quem vai pagar desta vez a crise é apenas um subsector, que, com alta probabilidade, não foi quem contribuiu particularmente para o défice. Não há moralidade, por isso não pagam todos e, sobretudo, não paga quem o devia fazer. Mas será que o país funcionará sem médicos, professores, pessoal da administração públicos? Não é isto um incentivo à fuga para os privados, mais um episódio da Santa Marcha pelo fim do Estado e pelo fim da capacidade de controlo dos serviços essenciais de um país civilizado? Rumo ao caos do descontrolo que tanto santificaram e levou ao descalabro de há 2 anos? Mas esta gente não aprende mesmo...

quarta-feira, setembro 29, 2010

Ingenuidade (frente ao tsunami)

Que diabo, não havia necessidade. Se o problema é já não emprestarem ao Estado dinheiro a menos de 6%, falem connosco, os tugas, que a gente empresta a 4%. Vale ou são obrigados a pedir aos bancos alemães?
Passou-me agora esta ingenuidade pela cabeça.

terça-feira, setembro 28, 2010

Notas políticas

1. Os nossos patuscos jornalistas não encontraram melhor, ontem, do que dizer que Chavez perdeu a maioria de dois terços que tinha na Assembleia, depois de já no dia das eleições terem afirmado que «parecia não ter havido fraudes nas eleições»! É óbvio que para esta gente, Chavez nunca poderia ter ganho e muito menos eleições livres e participadas. É contra a natureza da propaganda da imprensa livre...
Quantas vitórias em eleições são obtidas por maioria de dois terços?
Melhor fariam se procurassem as causas de mais esta vitória do ditador reiteradamente eleito!
2. Por cá a fita continua à volta do Orçamento. Ou será que o homem de Massamá decidiu dar um jeito ao de Belém para o apresentar como o salvador da pátria, facilitando a sua pré campanha?

quinta-feira, setembro 23, 2010

Outono

Que encanto pode o outono ter? Não é o rastejar das folhas ao sabor da corrente de ar que pode animar a vida, que só desperta na emergência das flores e dos frutos. O fim do ciclo não tem graça nenhuma, por mais piedoso que se seja.Valerá a pena enganarmo-nos com a poesia depressiva ou as árvores morrem simplesmente caídas pelo chão?

quinta-feira, setembro 16, 2010

História de burros

No Resistirinfo e porque uma boa explicação dos fenómenos merece ser mais tarde relembrada:
Dívidas e burros

por Insurgente
Foi solicitado a um prestigioso assessor financeiro que explicasse esta crise de uma forma simples, para que toda a gente pudesse entender as suas causas. O seu relato foi este:
Um certo cavalheiro foi a um aldeia onde nunca havia estado antes e ofereceu aos seus habitantes 100 euros por cada burro que lhe vendessem.
Boa parte da população vendeu-lhe os seus animais.
No dia seguinte voltou e ofereceu um preço melhor: 150 euros por cada burrico. E outro tanto da população vendeu-lhe os seus.
A seguir ofereceu 300 euros e o resto das pessoas vendeu os últimos burros.
Ao ver que não havia mais animais, ofereceu 500 euros por cada burrico, dando a entender que os compraria na semana seguinte. E foi embora.
No dia seguinte enviou o seu ajudante à mesma aldeia com os burros que comprara, para que os oferecesse a 400 euros cada um.
Diante do possível lucro na semana seguinte, todos os aldeões compraram os seus burros a 400 euros e quem não tinha o dinheiro pediu-o emprestado. De facto, compraram todos os burros do município.
Como era de esperar, este ajudante desapareceu, tal como o cavalheiro inicial. E nunca mais foram vistos.
Resultado: A aldeia ficou cheia de burros e endividada.
Até aqui foi o que contou o assessor.
Vejamos o que se passou depois.
Os que haviam pedido emprestado, ao não venderem os burros não puderam pagar o empréstimo.
Aqueles que haviam emprestado o dinheiro queixaram-se à municipalidade dizendo que se não recebessem ficariam arruinados; então não poderiam continuar a emprestar e todo o povo ficaria arruinado.
Para que os prestamistas não se arruinassem, o presidente da municipalidade, em vez de dar dinheiro às pessoas do povo para pagarem as dívidas, deu-o aos próprios prestamistas. Mas estes, já cobrada grande parte do dinheiro, entretanto não perdoaram as dívidas do povo, que continuou endividado.
O presidente da dilapidou o orçamento da municipalidade, a qual também ficou endividada.
Então pede dinheiro a outras municipalidades. Mas estas dizem-lhe que não podem ajudá-lo porque, como está na ruína, não poderão receber depois o que lhe emprestarem.
O resultado: Os espertos do princípio, enganados.
Os prestamistas, com os seus ganhos resolvidos e um monte de gente à qual continuarão a cobrarem o que lhes emprestaram mais os juros, apropriando-se inclusive dos já desvalorizados burros que nunca chegaram a cobrir toda a dívida.
Muita gente arruinada e sem burro para toda a vida.
A municipalidade igualmente arruinada.
O resultado final?
Para solucionar tudo isto e salvar todo o povo, a municipalidade baixou o salário dos seus funcionários.
05/Setembro/2010
O original encontra-se em www.insurgente.org/...


Aos poucos me libertarei da dependência energética. Falta só produzir electricidade. Depois, haverá couves, batatas, uns frangos e coelhos bravos. As árvores darão sombra, alguns frutos e talvez azeite. Mais coisa menos coisa, caçador recolector me libertarei da síndrome metabólica e com fornecimento de hidratos de carbono, proteínas e gordura mediterrânica a sobrevivência estará garantida. Para as deslocações maiores, talvez um burro para pequenas nomadices até à cidade ou a um banho na barragem (se os campos de golfe a não isolarem). Está garantida a viabilidade económica. O resto é especulação sem importância. Desde que não termine em holocausto nuclear ou a ser expulso para uma qualquer Roménia por ter tal meio de transporte. Isto, afinal, anda tudo ligado.

segunda-feira, setembro 13, 2010

10 notas após as férias

1.As férias correram bem? Perguntam-nos quando regressamos ao trabalho. O que me vem, em primeiro lugar, para resposta é que sim, correram bem depressa. As férias correm sempre tanto, são tão rápidas!
2.Ainda há dias chegávamos atrasados ao aeroporto e tínhamos aquela azáfama de verificação de bagagem com impedimentos de levar frascos com volume superior a 100 mL, mesmo quase vazios, porque o ar pode ser explosivo, certamente. É mau começar férias irritado, mas a irracionalidade chateia. Há uma anestesia neuronal, quando por sistema se recorre apenas à check list, por preguiça, porque não há tempo para reflectir. Mas anular esta função é, em parte, desistir daquilo que nos distingue do resto da bicharada. Anda alguém a roubar-nos propriedades diferenciadoras da espécie.
3. Gosto das chegadas aos aeroportos, de olhar para quem espera e ver aquele instante onde o olhar de procura explode de felicidade. Daquela felicidade autêntica, que parece só ser possível na altura dos reencontros. Possivelmente, é porque se está cansado de viver todos os momentos, que se desperdiçam em coisas de nada os encontros de todos os dias, para se chegar ao tudo em instantes de reencontro.
4. E afinal, sempre se renasce depois das calamidades que surgem. A Madeira está quase igual ao que era, cada vez mais parecida com um queijo emmental de tão furada por túneis que está. Voltei a ler os posts que aqui deixei há dois anos e a sensação continua a ser de estranheza pela distância a que as pessoas estão do meio onde vivem, porque a cabeça não acompanhou a pressa das pernas a correr pelos túneis fora. Há um hiato entre a forma como estão no local onde estão.
5. Mas os jardins continuam lá e o peixe propicia bons instantes. Para mais tarde recordar, se disso for o caso, os restaurantes de Câmara de Lobos Espada Preta e Vila do Peixe e o Barqueiro no Funchal. Não tanto pelo peixe, mas pelo pôr do sol, a Doca do Cavacas.
6. Recordar igualmente o Garajau e a descida à Fajã dos Padres. Mesmo que as subidas possam ser dolorosas e momentaneamente impossíveis, acaba-se sempre por chegar.
7. De longe vêem notícias inquietantes de julgamentos e incertezas de culpas. Em caso de dúvida que se beneficiem os réus, mas até que ponto o circo mediático retira a serenidade à justiça? Ou será que a torna possível e sem ele a impunidade reinaria? Dúvidas e mais dúvidas num tempo que importa esclarecer encontrando as soluções.
8. Há locais onde vamos e não sabemos se voltaremos, porque sentimos que os esgotámos. Mas a Madeira que começou por ser um espaço de turismo para doentes, mantém um sabor de turismo de terceira idade. E para esse repouso todos estamos caminhando.
9. Ainda que seja o repouso inquieto da leitura. É bom termos amigos que nos desejam boas férias presenteando-nos com um livro, porque as férias são também a altura da pausa do JCEM e do New England e o reencontro com algo possivelmente mais importante. Foi isso que aconteceu desta vez e com a vantagem de não ser um best-seller nem um romance histórico escrito pelos produtores dessa literatura anunciada na televisão (um sinal de qualidade, como os produtos que se vendem nas farmácias). Uma Família do Alentejo não é um romance histórico, mas a História contada por quem resistiu à vida e se elevou além da sobrevivência deixando um testemunho para quem o quiser conhecer. Simples, ingénuo como são as verdades. Efectivamente, se aqui estamos não foi por acaso e fica-nos a certeza que dê por onde der, o caminho será sempre na direcção certa e que só a Vitória é possível. A pequena história não dura séculos, ainda que queiram perpetuar-nos as crises.
10. Por fim, na paisagem mais morna de agora, por entre o silêncio, encontrei as libelinhas. A sorte não deixa de me acompanhar.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Fim de tarde


No final do dia fica apenas o concerto do chocalho tocado nem se sabe bem onde. As armas descansam até à próxima. É o anúncio da noite em que, mais logo, a lua nasce e fica a planície com o ar mágico da luz azul. E é dia sendo noite.