sexta-feira, outubro 08, 2010
Euromilhões
Quanto vale um instante de esperança, um sonho quase irrealizável, mas remotamente possível? Depois de entregar o papel há, pelo menos instantaneamente, um período em que tudo é possível, mesmo que, depois, a razão mostre que a probabilidade do possível é infinitamente pequena. Mas nota-se algum brilho nos olhos que ainda há pouco estavam completamente apagados pelo simples facto de momentaneamente se ter conseguido afastar a racionalidade e caminhar pela emoção. Mais logo se perceberá que as cruzinhas foram colocadas caprichosamente no quadrado do lado e que «foi por muito pouco» e «que azar», que se esteve mesmo perto. Pronto, uma vez mais, cumpriu-se a sugestão que a razão ditava, mas, ainda assim, soube bem ter aquele instante de esperança, porque a racionalidade é o cinzento dos dias e são as emoções que os tornam coloridos.
quinta-feira, outubro 07, 2010
terça-feira, outubro 05, 2010
Refundar a República
Andam os tempos confusos e está em curso um novo golpe, não de Estado que isso era contra os princípios dos executantes, que visa acabar com a República (do latim Res publica, "coisa pública") e instaurar uma Resprivada(?).
A diferença é que o poder na «coisa comum» é exercido pelos representantes eleitos pelo Povo de acordo com a sua vontade, na Resprivada, o poder advém de agências de rating e dos Mercados, que impõem as leis aos representantes do Povo que se prestam à sua execução. As decisões não são democráticas, porque quem as dita não foi eleito e emanam da verdade única do Liberalismo visando satisfazer a sua sobrevivência e os interesses dos grupos dominantes. É o totalitarismo da ganância que incita ao fim do Estado, da solidariedade e ao triunfo da selva.
Começa a ser tempo de refundar a República.
segunda-feira, outubro 04, 2010
Rumo ao caos
Embora a definição de imposto da Wiki reze que Imposto é uma quantia em dinheiro, paga obrigatoriamente por pessoas ou organizações a um governo, a partir da ocorrência de um fato gerador, calculada mediante a aplicação de uma alíquota a uma base de cálculo., na prática imposto é a diferença entre a receita que se tem e o capital que fica disponível após a obrigação que nos é imposta. Por exemplo, se ganhamos 1000 e apenas depositamos no Banco 700, 300 foram-nos retirados para imposto. É pois com estranheza, que tanta berraria contra os Impostos se não traduza por igual algazarra contra o que recentemente foi feito. Considerando que a taxa se mantinha nos 30%, aos funcionários públicos acontece uma coisa curiosa: a quem ganhava 1000 foi imposta uma redução média de 5%, isto é 50, logo passa a ganhar 950, que multiplicados por 0,3 levam a um depósito de 665. Moral da história com esta retenção na fonte de 5%, o tal imposto efectivamente pago passou de 30% para 33,5%, isto é, os funcionários públicos tiveram com esta habilidade um aumento de 3,5% de imposto, em média. Passos Coelho e toda a intelectualidade economista que desfila pelas televisões aplaudem, quando ainda há dias vociferavam contra o aumento dos impostos. Meus senhores, os funcionários públicos acabam de ter um aumento de 3,5% de imposto! Com efeito quem no sector privado ganhava 1000 e recebia 700, com as alterações actuais irá receber os mesmos 700, sem ter tido qualquer agravamento dos impostos.
Os funcionários públicos foram discriminados em relação à generalidade da população ou seja foi criado um imposto que apenas os afecta a eles! Ao menos os impostos eram dantes iguais para todos, mas com esta proposta do Governo a coisa mudou. O que mais revolta não é o aumento dos impostos (se vivemos acima das posses alguma vez teremos de pagar), mas esta diferenciação entre portugueses de segunda e de primeira, pois bem mais equitativo seria que tivessem aumentado os impostos da generalidade da população, conseguindo-se dessa forma, possivelmente, que o nível mais baixo de vencimento sobre o qual incidiriam os impostos fosse não 1500 € por mês, mas algo mais elevado, ou reduzir a taxa de imposto a pagar por cada nível salarial. A receita para fazer face à dita crise até seria a mesma!!! Injusto também porque, na verdade, quem vai pagar desta vez a crise é apenas um subsector, que, com alta probabilidade, não foi quem contribuiu particularmente para o défice. Não há moralidade, por isso não pagam todos e, sobretudo, não paga quem o devia fazer. Mas será que o país funcionará sem médicos, professores, pessoal da administração públicos? Não é isto um incentivo à fuga para os privados, mais um episódio da Santa Marcha pelo fim do Estado e pelo fim da capacidade de controlo dos serviços essenciais de um país civilizado? Rumo ao caos do descontrolo que tanto santificaram e levou ao descalabro de há 2 anos? Mas esta gente não aprende mesmo...
Os funcionários públicos foram discriminados em relação à generalidade da população ou seja foi criado um imposto que apenas os afecta a eles! Ao menos os impostos eram dantes iguais para todos, mas com esta proposta do Governo a coisa mudou. O que mais revolta não é o aumento dos impostos (se vivemos acima das posses alguma vez teremos de pagar), mas esta diferenciação entre portugueses de segunda e de primeira, pois bem mais equitativo seria que tivessem aumentado os impostos da generalidade da população, conseguindo-se dessa forma, possivelmente, que o nível mais baixo de vencimento sobre o qual incidiriam os impostos fosse não 1500 € por mês, mas algo mais elevado, ou reduzir a taxa de imposto a pagar por cada nível salarial. A receita para fazer face à dita crise até seria a mesma!!! Injusto também porque, na verdade, quem vai pagar desta vez a crise é apenas um subsector, que, com alta probabilidade, não foi quem contribuiu particularmente para o défice. Não há moralidade, por isso não pagam todos e, sobretudo, não paga quem o devia fazer. Mas será que o país funcionará sem médicos, professores, pessoal da administração públicos? Não é isto um incentivo à fuga para os privados, mais um episódio da Santa Marcha pelo fim do Estado e pelo fim da capacidade de controlo dos serviços essenciais de um país civilizado? Rumo ao caos do descontrolo que tanto santificaram e levou ao descalabro de há 2 anos? Mas esta gente não aprende mesmo...
quarta-feira, setembro 29, 2010
Ingenuidade (frente ao tsunami)
Que diabo, não havia necessidade. Se o problema é já não emprestarem ao Estado dinheiro a menos de 6%, falem connosco, os tugas, que a gente empresta a 4%. Vale ou são obrigados a pedir aos bancos alemães?
Passou-me agora esta ingenuidade pela cabeça.
Passou-me agora esta ingenuidade pela cabeça.
terça-feira, setembro 28, 2010
Notas políticas
1. Os nossos patuscos jornalistas não encontraram melhor, ontem, do que dizer que Chavez perdeu a maioria de dois terços que tinha na Assembleia, depois de já no dia das eleições terem afirmado que «parecia não ter havido fraudes nas eleições»! É óbvio que para esta gente, Chavez nunca poderia ter ganho e muito menos eleições livres e participadas. É contra a natureza da propaganda da imprensa livre...
Quantas vitórias em eleições são obtidas por maioria de dois terços?
Melhor fariam se procurassem as causas de mais esta vitória do ditador reiteradamente eleito!
2. Por cá a fita continua à volta do Orçamento. Ou será que o homem de Massamá decidiu dar um jeito ao de Belém para o apresentar como o salvador da pátria, facilitando a sua pré campanha?
Quantas vitórias em eleições são obtidas por maioria de dois terços?
Melhor fariam se procurassem as causas de mais esta vitória do ditador reiteradamente eleito!
2. Por cá a fita continua à volta do Orçamento. Ou será que o homem de Massamá decidiu dar um jeito ao de Belém para o apresentar como o salvador da pátria, facilitando a sua pré campanha?
quinta-feira, setembro 23, 2010
Outono
Que encanto pode o outono ter? Não é o rastejar das folhas ao sabor da corrente de ar que pode animar a vida, que só desperta na emergência das flores e dos frutos. O fim do ciclo não tem graça nenhuma, por mais piedoso que se seja.Valerá a pena enganarmo-nos com a poesia depressiva ou as árvores morrem simplesmente caídas pelo chão?
quinta-feira, setembro 16, 2010
História de burros
No Resistirinfo e porque uma boa explicação dos fenómenos merece ser mais tarde relembrada:
Dívidas e burros
por Insurgente
Foi solicitado a um prestigioso assessor financeiro que explicasse esta crise de uma forma simples, para que toda a gente pudesse entender as suas causas. O seu relato foi este:
Um certo cavalheiro foi a um aldeia onde nunca havia estado antes e ofereceu aos seus habitantes 100 euros por cada burro que lhe vendessem.
Boa parte da população vendeu-lhe os seus animais.
No dia seguinte voltou e ofereceu um preço melhor: 150 euros por cada burrico. E outro tanto da população vendeu-lhe os seus.
A seguir ofereceu 300 euros e o resto das pessoas vendeu os últimos burros.
Ao ver que não havia mais animais, ofereceu 500 euros por cada burrico, dando a entender que os compraria na semana seguinte. E foi embora.
No dia seguinte enviou o seu ajudante à mesma aldeia com os burros que comprara, para que os oferecesse a 400 euros cada um.
Diante do possível lucro na semana seguinte, todos os aldeões compraram os seus burros a 400 euros e quem não tinha o dinheiro pediu-o emprestado. De facto, compraram todos os burros do município.
Como era de esperar, este ajudante desapareceu, tal como o cavalheiro inicial. E nunca mais foram vistos.
Resultado: A aldeia ficou cheia de burros e endividada.
Até aqui foi o que contou o assessor.
Vejamos o que se passou depois.
Os que haviam pedido emprestado, ao não venderem os burros não puderam pagar o empréstimo.
Aqueles que haviam emprestado o dinheiro queixaram-se à municipalidade dizendo que se não recebessem ficariam arruinados; então não poderiam continuar a emprestar e todo o povo ficaria arruinado.
Para que os prestamistas não se arruinassem, o presidente da municipalidade, em vez de dar dinheiro às pessoas do povo para pagarem as dívidas, deu-o aos próprios prestamistas. Mas estes, já cobrada grande parte do dinheiro, entretanto não perdoaram as dívidas do povo, que continuou endividado.
O presidente da dilapidou o orçamento da municipalidade, a qual também ficou endividada.
Então pede dinheiro a outras municipalidades. Mas estas dizem-lhe que não podem ajudá-lo porque, como está na ruína, não poderão receber depois o que lhe emprestarem.
O resultado: Os espertos do princípio, enganados.
Os prestamistas, com os seus ganhos resolvidos e um monte de gente à qual continuarão a cobrarem o que lhes emprestaram mais os juros, apropriando-se inclusive dos já desvalorizados burros que nunca chegaram a cobrir toda a dívida.
Muita gente arruinada e sem burro para toda a vida.
A municipalidade igualmente arruinada.
O resultado final?
Para solucionar tudo isto e salvar todo o povo, a municipalidade baixou o salário dos seus funcionários.
05/Setembro/2010
O original encontra-se em www.insurgente.org/...
Aos poucos me libertarei da dependência energética. Falta só produzir electricidade. Depois, haverá couves, batatas, uns frangos e coelhos bravos. As árvores darão sombra, alguns frutos e talvez azeite. Mais coisa menos coisa, caçador recolector me libertarei da síndrome metabólica e com fornecimento de hidratos de carbono, proteínas e gordura mediterrânica a sobrevivência estará garantida. Para as deslocações maiores, talvez um burro para pequenas nomadices até à cidade ou a um banho na barragem (se os campos de golfe a não isolarem). Está garantida a viabilidade económica. O resto é especulação sem importância. Desde que não termine em holocausto nuclear ou a ser expulso para uma qualquer Roménia por ter tal meio de transporte. Isto, afinal, anda tudo ligado.
Dívidas e burros
por Insurgente
Foi solicitado a um prestigioso assessor financeiro que explicasse esta crise de uma forma simples, para que toda a gente pudesse entender as suas causas. O seu relato foi este:
Um certo cavalheiro foi a um aldeia onde nunca havia estado antes e ofereceu aos seus habitantes 100 euros por cada burro que lhe vendessem.
Boa parte da população vendeu-lhe os seus animais.
No dia seguinte voltou e ofereceu um preço melhor: 150 euros por cada burrico. E outro tanto da população vendeu-lhe os seus.
A seguir ofereceu 300 euros e o resto das pessoas vendeu os últimos burros.
Ao ver que não havia mais animais, ofereceu 500 euros por cada burrico, dando a entender que os compraria na semana seguinte. E foi embora.
No dia seguinte enviou o seu ajudante à mesma aldeia com os burros que comprara, para que os oferecesse a 400 euros cada um.
Diante do possível lucro na semana seguinte, todos os aldeões compraram os seus burros a 400 euros e quem não tinha o dinheiro pediu-o emprestado. De facto, compraram todos os burros do município.
Como era de esperar, este ajudante desapareceu, tal como o cavalheiro inicial. E nunca mais foram vistos.
Resultado: A aldeia ficou cheia de burros e endividada.
Até aqui foi o que contou o assessor.
Vejamos o que se passou depois.
Os que haviam pedido emprestado, ao não venderem os burros não puderam pagar o empréstimo.
Aqueles que haviam emprestado o dinheiro queixaram-se à municipalidade dizendo que se não recebessem ficariam arruinados; então não poderiam continuar a emprestar e todo o povo ficaria arruinado.
Para que os prestamistas não se arruinassem, o presidente da municipalidade, em vez de dar dinheiro às pessoas do povo para pagarem as dívidas, deu-o aos próprios prestamistas. Mas estes, já cobrada grande parte do dinheiro, entretanto não perdoaram as dívidas do povo, que continuou endividado.
O presidente da dilapidou o orçamento da municipalidade, a qual também ficou endividada.
Então pede dinheiro a outras municipalidades. Mas estas dizem-lhe que não podem ajudá-lo porque, como está na ruína, não poderão receber depois o que lhe emprestarem.
O resultado: Os espertos do princípio, enganados.
Os prestamistas, com os seus ganhos resolvidos e um monte de gente à qual continuarão a cobrarem o que lhes emprestaram mais os juros, apropriando-se inclusive dos já desvalorizados burros que nunca chegaram a cobrir toda a dívida.
Muita gente arruinada e sem burro para toda a vida.
A municipalidade igualmente arruinada.
O resultado final?
Para solucionar tudo isto e salvar todo o povo, a municipalidade baixou o salário dos seus funcionários.
05/Setembro/2010
O original encontra-se em www.insurgente.org/...
Aos poucos me libertarei da dependência energética. Falta só produzir electricidade. Depois, haverá couves, batatas, uns frangos e coelhos bravos. As árvores darão sombra, alguns frutos e talvez azeite. Mais coisa menos coisa, caçador recolector me libertarei da síndrome metabólica e com fornecimento de hidratos de carbono, proteínas e gordura mediterrânica a sobrevivência estará garantida. Para as deslocações maiores, talvez um burro para pequenas nomadices até à cidade ou a um banho na barragem (se os campos de golfe a não isolarem). Está garantida a viabilidade económica. O resto é especulação sem importância. Desde que não termine em holocausto nuclear ou a ser expulso para uma qualquer Roménia por ter tal meio de transporte. Isto, afinal, anda tudo ligado.
segunda-feira, setembro 13, 2010
10 notas após as férias
1.As férias correram bem? Perguntam-nos quando regressamos ao trabalho. O que me vem, em primeiro lugar, para resposta é que sim, correram bem depressa. As férias correm sempre tanto, são tão rápidas!
2.Ainda há dias chegávamos atrasados ao aeroporto e tínhamos aquela azáfama de verificação de bagagem com impedimentos de levar frascos com volume superior a 100 mL, mesmo quase vazios, porque o ar pode ser explosivo, certamente. É mau começar férias irritado, mas a irracionalidade chateia. Há uma anestesia neuronal, quando por sistema se recorre apenas à check list, por preguiça, porque não há tempo para reflectir. Mas anular esta função é, em parte, desistir daquilo que nos distingue do resto da bicharada. Anda alguém a roubar-nos propriedades diferenciadoras da espécie.
3. Gosto das chegadas aos aeroportos, de olhar para quem espera e ver aquele instante onde o olhar de procura explode de felicidade. Daquela felicidade autêntica, que parece só ser possível na altura dos reencontros. Possivelmente, é porque se está cansado de viver todos os momentos, que se desperdiçam em coisas de nada os encontros de todos os dias, para se chegar ao tudo em instantes de reencontro.
4. E afinal, sempre se renasce depois das calamidades que surgem. A Madeira está quase igual ao que era, cada vez mais parecida com um queijo emmental de tão furada por túneis que está. Voltei a ler os posts que aqui deixei há dois anos e a sensação continua a ser de estranheza pela distância a que as pessoas estão do meio onde vivem, porque a cabeça não acompanhou a pressa das pernas a correr pelos túneis fora. Há um hiato entre a forma como estão no local onde estão.
5. Mas os jardins continuam lá e o peixe propicia bons instantes. Para mais tarde recordar, se disso for o caso, os restaurantes de Câmara de Lobos Espada Preta e Vila do Peixe e o Barqueiro no Funchal. Não tanto pelo peixe, mas pelo pôr do sol, a Doca do Cavacas.
6. Recordar igualmente o Garajau e a descida à Fajã dos Padres. Mesmo que as subidas possam ser dolorosas e momentaneamente impossíveis, acaba-se sempre por chegar.
7. De longe vêem notícias inquietantes de julgamentos e incertezas de culpas. Em caso de dúvida que se beneficiem os réus, mas até que ponto o circo mediático retira a serenidade à justiça? Ou será que a torna possível e sem ele a impunidade reinaria? Dúvidas e mais dúvidas num tempo que importa esclarecer encontrando as soluções.
8. Há locais onde vamos e não sabemos se voltaremos, porque sentimos que os esgotámos. Mas a Madeira que começou por ser um espaço de turismo para doentes, mantém um sabor de turismo de terceira idade. E para esse repouso todos estamos caminhando.
9. Ainda que seja o repouso inquieto da leitura. É bom termos amigos que nos desejam boas férias presenteando-nos com um livro, porque as férias são também a altura da pausa do JCEM e do New England e o reencontro com algo possivelmente mais importante. Foi isso que aconteceu desta vez e com a vantagem de não ser um best-seller nem um romance histórico escrito pelos produtores dessa literatura anunciada na televisão (um sinal de qualidade, como os produtos que se vendem nas farmácias). Uma Família do Alentejo não é um romance histórico, mas a História contada por quem resistiu à vida e se elevou além da sobrevivência deixando um testemunho para quem o quiser conhecer. Simples, ingénuo como são as verdades. Efectivamente, se aqui estamos não foi por acaso e fica-nos a certeza que dê por onde der, o caminho será sempre na direcção certa e que só a Vitória é possível. A pequena história não dura séculos, ainda que queiram perpetuar-nos as crises.
10. Por fim, na paisagem mais morna de agora, por entre o silêncio, encontrei as libelinhas. A sorte não deixa de me acompanhar.
2.Ainda há dias chegávamos atrasados ao aeroporto e tínhamos aquela azáfama de verificação de bagagem com impedimentos de levar frascos com volume superior a 100 mL, mesmo quase vazios, porque o ar pode ser explosivo, certamente. É mau começar férias irritado, mas a irracionalidade chateia. Há uma anestesia neuronal, quando por sistema se recorre apenas à check list, por preguiça, porque não há tempo para reflectir. Mas anular esta função é, em parte, desistir daquilo que nos distingue do resto da bicharada. Anda alguém a roubar-nos propriedades diferenciadoras da espécie.
3. Gosto das chegadas aos aeroportos, de olhar para quem espera e ver aquele instante onde o olhar de procura explode de felicidade. Daquela felicidade autêntica, que parece só ser possível na altura dos reencontros. Possivelmente, é porque se está cansado de viver todos os momentos, que se desperdiçam em coisas de nada os encontros de todos os dias, para se chegar ao tudo em instantes de reencontro.
4. E afinal, sempre se renasce depois das calamidades que surgem. A Madeira está quase igual ao que era, cada vez mais parecida com um queijo emmental de tão furada por túneis que está. Voltei a ler os posts que aqui deixei há dois anos e a sensação continua a ser de estranheza pela distância a que as pessoas estão do meio onde vivem, porque a cabeça não acompanhou a pressa das pernas a correr pelos túneis fora. Há um hiato entre a forma como estão no local onde estão.
5. Mas os jardins continuam lá e o peixe propicia bons instantes. Para mais tarde recordar, se disso for o caso, os restaurantes de Câmara de Lobos Espada Preta e Vila do Peixe e o Barqueiro no Funchal. Não tanto pelo peixe, mas pelo pôr do sol, a Doca do Cavacas.
6. Recordar igualmente o Garajau e a descida à Fajã dos Padres. Mesmo que as subidas possam ser dolorosas e momentaneamente impossíveis, acaba-se sempre por chegar.
7. De longe vêem notícias inquietantes de julgamentos e incertezas de culpas. Em caso de dúvida que se beneficiem os réus, mas até que ponto o circo mediático retira a serenidade à justiça? Ou será que a torna possível e sem ele a impunidade reinaria? Dúvidas e mais dúvidas num tempo que importa esclarecer encontrando as soluções.
8. Há locais onde vamos e não sabemos se voltaremos, porque sentimos que os esgotámos. Mas a Madeira que começou por ser um espaço de turismo para doentes, mantém um sabor de turismo de terceira idade. E para esse repouso todos estamos caminhando.
9. Ainda que seja o repouso inquieto da leitura. É bom termos amigos que nos desejam boas férias presenteando-nos com um livro, porque as férias são também a altura da pausa do JCEM e do New England e o reencontro com algo possivelmente mais importante. Foi isso que aconteceu desta vez e com a vantagem de não ser um best-seller nem um romance histórico escrito pelos produtores dessa literatura anunciada na televisão (um sinal de qualidade, como os produtos que se vendem nas farmácias). Uma Família do Alentejo não é um romance histórico, mas a História contada por quem resistiu à vida e se elevou além da sobrevivência deixando um testemunho para quem o quiser conhecer. Simples, ingénuo como são as verdades. Efectivamente, se aqui estamos não foi por acaso e fica-nos a certeza que dê por onde der, o caminho será sempre na direcção certa e que só a Vitória é possível. A pequena história não dura séculos, ainda que queiram perpetuar-nos as crises.
10. Por fim, na paisagem mais morna de agora, por entre o silêncio, encontrei as libelinhas. A sorte não deixa de me acompanhar.
segunda-feira, agosto 30, 2010
Fim de tarde
quarta-feira, agosto 25, 2010
Guerra
A vida é, muitas vezes, a consequência de um instante em que se tropeça e todo o percurso teria sido diferente se o escolho tivesse sido outro. Umas vezes escolhe-se o caminho, outras nos é imposto e o resto é sobrevivência. Pode mesmo fazer-se toda a vida e a própria eternidade com origem num stresse pós-traumático que se entranha em tudo o que se é. Pode muito bem passar-se de psiquiatra banal ou mesmo catedrático de Psiquiatria, que nestas coisas a genética tem sempre uma palavra, a quase prémio Nobel porque em, certo momento, se esteve nos limites da sobrevivência e rodeado de morte. A vida, depois disso, exige uma catarse do medo que se engoliu e explode-se em catadupas de livros, numa sobrevivência que dói a quem lê e possivelmente alivia quem escreve. Não interessa que seja arrogante e imagine o mundo centrado em si próprio, porque quando se olha mais ao perto, sente-se o imenso sofrimento de arrastar, a vida toda, o peso dos medos passados. Poderá mesmo acontecer que nalgum momento se seja traído pelo delírio, mas o que se lê no episódio recente sobre as revelações de A Lobo Antunes sobre a guerra colonial não merecerá nunca que lhe vão ao focinho. Das duas uma, ou é delírio e terá de haver condescendência para com o delirante, ou é real e então importa ser impiedoso com a realidade passada. Será que temos de sobreviver na dúvida?
segunda-feira, agosto 23, 2010
O Quadrado
Quadrado porque começámos por ser quatro lados do mesmo plano. O quadrado é uma fuga, um local de resistência longe da multidão e da solidão das cidades vazias de amigos. Aqui não há lugar para miragens, imagens e ilusões na imaterialidade dos sentidos. O quadrado é concreto, tem uma dimensão exacta. Ao contrário, por exemplo, do círculo cujo perímetro depende sempre de um pi de um tamanho infinito e mal definido. Daí esta confessada preferência por um quadrado de amigos em vez de um círculo de amizades. Porque nos círculos não há princípio ou tudo pode sê-lo, enquanto que no quadrado o princípio é sempre um vértice a partir do qual se estende o lado. Ninguém desenha um quadrado começando pelo meio do lado, mas pelo vértice e, depois a cada lado, outro se junta ortogonalmente no plano. Também as amizades têm princípios, não são contactos fugidios de um facebook qualquer. Não são quantidade, mas antes qualidade. Assim, na verdade, o quadrado é o espaço onde chegam todos os amigos. O plano do quadrado não se realiza apenas com quatro lados, é necessário o preenchimento interior. Espera-se, por isso, que venham sempre, que o preencham, realizando-o. E o quadrado não se fica pelos limites no plano, porque para cima se prolonga até às estrelas em noite de lua nova. Aqui irão caber todos os amigos.
quinta-feira, agosto 19, 2010
Pela massa magra
Ensinaram-me que o objectivo do gestor é a criação de valor para a empresa, ou melhor,para o accionista. Surpreendeu-me esta ideia, mas lá me fui habituando naqueles fins de semana da Católica. Pensava eu na minha ingenuidade que mais importante que criar o tal valor para o accionista seria a satisfação dos valores das pessoas em geral, mesmo dos não accionistas. É isso, que afinal, deve presidir à gestão da coisa pública, isto é, do Estado = conjunto de todos nós, os que não temos acções dessas, mas das outras, os que actuamos trabalhando. Olhando para o que tem sido feito e para a urgência que muitos têm na destruição do Estado, passando o controlo das suas coisas sempre para privados (accionistas!) percebo a vontade que há de não gerir a coisa pública, pois isso impede o crescimento do valor para os accionistas. Mas a tal criação de valor para uns poucos à custa da desvalorização de muitos, apenas conduz ao alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres, deixando pelo meio um mar de sobreviventes anestesiados na perseguição da cenoura que não mais alcançarão. Vai sendo tempo de perceber que este caminho está errado, porque oprime em vez de libertar. Que se lixe a criação do valor para os accionistas!
Vem isto a despropósito de uma surpresa ao ver que o Prof César das Neves (que cromo!) parece ter escrito isto há uns tempos:
O Prof Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polémico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos
abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. "
Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. "
"Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação'".
"Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez."
"O problema central está na família e na escola. "
"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, o
homossexualismo, a permissividade e, não raro, a promiscuidade.
Com uma 'alimentação intelectual' tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular".
Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os abutres", afirma:
"O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."
O texto descreve como os "jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante".
"Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais."
"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve.
Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como "informação".
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”
Prossegue o autor:
"Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou "mico". A arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma 'idade das trevas' e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. "
"Trata- se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental."
(Obesidade mental, por Prof. João César das Neves, publicada no Diário de Noticias em 22/03/2004
O cromo cita o tal Professor que não encontrei no site da Universidade e o livro que não está na Amazon.com Será que a citação do inexistente dá maior credibilidade ao real autor? No mínimo estranho!!
Vem isto a despropósito de uma surpresa ao ver que o Prof César das Neves (que cromo!) parece ter escrito isto há uns tempos:
O Prof Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polémico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos
abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. "
Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. "
"Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação'".
"Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez."
"O problema central está na família e na escola. "
"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, o
homossexualismo, a permissividade e, não raro, a promiscuidade.
Com uma 'alimentação intelectual' tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular".
Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os abutres", afirma:
"O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."
O texto descreve como os "jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante".
"Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais."
"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve.
Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como "informação".
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”
Prossegue o autor:
"Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou "mico". A arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma 'idade das trevas' e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. "
"Trata- se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental."
(Obesidade mental, por Prof. João César das Neves, publicada no Diário de Noticias em 22/03/2004
O cromo cita o tal Professor que não encontrei no site da Universidade e o livro que não está na Amazon.com Será que a citação do inexistente dá maior credibilidade ao real autor? No mínimo estranho!!
terça-feira, agosto 17, 2010
Um homem de Massamá
Massamá entrou no mapa da argumentação política. Nesta terra, a grande questão não é tanto saber se é feito de boa ou má massa, mas se se vive ou não em Massamá. Os massamaenses são povo e o grande líder vive no seu seio. São perigosos estes tipos que vêm de Massamá com aspiração de se mudarem para São Bento, apenas com a preparação do populismo e cheios da fúria liberal sem o entendimento da história. Bem maquilhados e bem parecidos podem vir de Massamá, mas o seu objectivo escondido é mudar de bairro e defender os interesses dos seus amigos da Linha e da Foz.
Este homem de Massamá tem a vantagem de ser claro, mostrar as garras e já o fez, quando se propôs atacar de forma insana o Serviço Nacional de Saúde, quando defende menos segurança no trabalho, mais precariedade, enfim, melhores «condições de trabalho» para os seus amigos empreendedores que não moram em Massamá. Este homem de Massamá é anti-social, é um self-made man. Por isso, todo o cuidado é pouco, pois, ao contrário do outro com nome de filósofo, este não se esconde por trás dos desejos e em bom rigor pode, se o mudarem para a Lapa, dizer que não se queixem, ele já tinha dito ao que ia.
Este homem de Massamá tem a vantagem de ser claro, mostrar as garras e já o fez, quando se propôs atacar de forma insana o Serviço Nacional de Saúde, quando defende menos segurança no trabalho, mais precariedade, enfim, melhores «condições de trabalho» para os seus amigos empreendedores que não moram em Massamá. Este homem de Massamá é anti-social, é um self-made man. Por isso, todo o cuidado é pouco, pois, ao contrário do outro com nome de filósofo, este não se esconde por trás dos desejos e em bom rigor pode, se o mudarem para a Lapa, dizer que não se queixem, ele já tinha dito ao que ia.
segunda-feira, agosto 16, 2010
Desadaptado
A minha percepção do ambiente pode estar a mudar ou isto tudo era muito diferente há uns anos, quando havia um conflito com luta de ideias em vez da ideia do conflito constante cheio do vazio dos dias. Parece-me que existe um catabolismo incessante como programa de vida mal abro os jornais ou ouço as notícias na rádio ou na televisão. Como alternativa, são servidas doses esmagadoras de análise científica dos resultados da última jornada no dia seguinte ou no prolongamento. Apaixonadamente, porque esta ciência é de emoções. No fim, que história ficará de tudo isto?
Pelo meio disto e apesar da catástrofe de vida em que se está, vive-se mais tempo (ou tempo a mais?), porque o significado de viver perdeu a conotação do anabolismo e passou a ser apenas a soma de mais um dia em cada dia sem que ninguém pergunte para que serve. Fica-se, mesmo sem se ir a parte alguma. Tá-se bem, dizem. Acredite quem puder.
Pelo meio disto e apesar da catástrofe de vida em que se está, vive-se mais tempo (ou tempo a mais?), porque o significado de viver perdeu a conotação do anabolismo e passou a ser apenas a soma de mais um dia em cada dia sem que ninguém pergunte para que serve. Fica-se, mesmo sem se ir a parte alguma. Tá-se bem, dizem. Acredite quem puder.
quarta-feira, agosto 11, 2010
Pudor necessário
Andam as revistas e os textos do coração tão cheios de doenças das celebridades, que chego a pensar se não será a forma que têm de pagar as contas dos hospitais privados onde se tratam. Com efeito, acho estranho que alguém venha expor publicamente as suas mazelas, mas isso ainda seria o menos. Pior que tudo é a novela que fazem à volta de situações cujo desfecho é demasiado negro, afirmando esperanças pouco reais, esquecendo que outros menos colunáveis e padecendo de males parecidos podem agarrar-se às suas ilusões até ao dia em que a notícia da morte surge. Nessa altura como sentirão a situação aqueles que sonharam? Há, talvez, um dever de pudor para se não gerarem choques inevitáveis, uma necessidade de poder finalmente viver o escasso tempo que lhes resta fora da ribalta. Ou assim seria desejável. Não é preciso ter a militância da exposição da esperança, que até, talvez, não tenham, porque dela ninguém aproveita. A realidade acaba sempre por ficar por cima da imagem, como o azeite sobre a água.
terça-feira, agosto 10, 2010
Lucidez
A lucidez são os óculos que usam os neurónios maduros para perceberem com maior detalhe a realidade que nos envolve. Mas primeiro é preciso ter os olhos bem abertos, quer-se dizer, ter crescido.
segunda-feira, agosto 09, 2010
A vida são dois dias
Deve ter sido das maiores pausas. Um mês sem aqui estar.
Talvez o reflexo daquele inevitabilidade de começar a sentir que o tempo escasseia e de que nada impede o avanço dos dias nem justifica a sua recordação. A lucidez de se saber que daqui a um tempo pequenino nem no registo do Blogger se irá sobreviver como curiosidade de arqueologia futura.
Por agora a vida são dois dias... com cinco de intervalo, em ciclos repetidos até um dia.
Talvez o reflexo daquele inevitabilidade de começar a sentir que o tempo escasseia e de que nada impede o avanço dos dias nem justifica a sua recordação. A lucidez de se saber que daqui a um tempo pequenino nem no registo do Blogger se irá sobreviver como curiosidade de arqueologia futura.
Por agora a vida são dois dias... com cinco de intervalo, em ciclos repetidos até um dia.
quinta-feira, julho 08, 2010
Velório
Quase de propósito tinha acabado de ler «A sombra do que fomos» do Luís Sepúlveda dias antes de entrar naquele local solene onde encontrei muitos dos que foram. Na verdade, pareceram-me sombras tristes apesar do triunfo a que alguns chegaram sem nunca conseguirem dar forma ao corpo que tiveram. Não, mesmo descontando a ambiente pouco convidativo à boa disposição, olhando-os encontrei sobretudo a tristeza, não por terem falhado, mas sobretudo a de não terem mais a esperança, que, alguma vez, as alvoradas hão-de cantar. Há um conformismo de derrota induzido pela brevidade da vida, que lhes desfoca o olhar que foi vivo e agora morre em vazios sem alternativa. Ainda foram a tempo de bem-estar, mas a grande certeza que têm é que deixam aos que se seguem um mundo de dúvida, virtual e frágil. Há, por isso, uma inquietação do ar e algum alívio por saberem que os que partem o fazem na ignorância vivida do desastre completo.
As sombras vagueiam em movimentos lentos quase não tocando o chão num pudor mal percebido. Os velórios são, geralmente, a celebração dos que ficam, mas aqui notei alguma inquietude no ficar, um quase desejo de acompanhar o que parte numa atitude de demissão final, deixando a pairar a ideia translúcida da solidariedade, que os novos olhos dificilmente conseguem enxergar.
As sombras vagueiam em movimentos lentos quase não tocando o chão num pudor mal percebido. Os velórios são, geralmente, a celebração dos que ficam, mas aqui notei alguma inquietude no ficar, um quase desejo de acompanhar o que parte numa atitude de demissão final, deixando a pairar a ideia translúcida da solidariedade, que os novos olhos dificilmente conseguem enxergar.
quinta-feira, julho 01, 2010
Livre
Nunca percebi bem a razão de ser da designação de Assistente livre, que por esta altura me chega todos os anos enviada da FML. Imagino que a liberdade não seja minha, mesmo sendo eu o titular da dita e também não concebo, que sendo a instituição que é, me queira enviar uma mensagem subliminar de que existem outros Assistentes, por oposição à minha condição, presos. Menos ainda que me queiram incitar a ensinar Medicina de uma forma inteligente, livre das tradições de marranço e subserviência da Escola, virada para a descoberta do bem-estar dos doentes. Resta-me, assim, a certeza de que a minha liberdade será exercida numa transmissão do que sei sem vénias académicas às excelências professorais. Pelo que vejo à volta, é grande privilégio!
Há ainda uma outra hipótese para a etimologia do adjectivo, bem mais prosaica, mas não necessariamente menos viável: livre... de encargos. Para uma instituição incapaz de gerar receitas e de baixos recursos que pensa poder fazer a sua missão em regime de low cost, é bem possível que seja este o contexto. Estranho é que os alunos não reivindiquem também a sua qualidade correspondente de alunos livres... do pagamento de propinas para suportar os custos dos pobres Professores aprisionados (a tradições e vénias obsoletas).
Livre é quem, simplesmente, tem o poder de desprezar a força dos poderes.
Embalado sigo no que me ressoa em fundo:
Chi son? Sono un poeta.
Che cosa faccio? Scrivo.
E come vivo? Vivo.
Alguns vejo eu mortos e outros a morrer todos os dias.
Há ainda uma outra hipótese para a etimologia do adjectivo, bem mais prosaica, mas não necessariamente menos viável: livre... de encargos. Para uma instituição incapaz de gerar receitas e de baixos recursos que pensa poder fazer a sua missão em regime de low cost, é bem possível que seja este o contexto. Estranho é que os alunos não reivindiquem também a sua qualidade correspondente de alunos livres... do pagamento de propinas para suportar os custos dos pobres Professores aprisionados (a tradições e vénias obsoletas).
Livre é quem, simplesmente, tem o poder de desprezar a força dos poderes.
Embalado sigo no que me ressoa em fundo:
Chi son? Sono un poeta.
Che cosa faccio? Scrivo.
E come vivo? Vivo.
Alguns vejo eu mortos e outros a morrer todos os dias.
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