segunda-feira, agosto 23, 2010

O Quadrado


Quadrado porque começámos por ser quatro lados do mesmo plano. O quadrado é uma fuga, um local de resistência longe da multidão e da solidão das cidades vazias de amigos. Aqui não há lugar para miragens, imagens e ilusões na imaterialidade dos sentidos. O quadrado é concreto, tem uma dimensão exacta. Ao contrário, por exemplo, do círculo cujo perímetro depende sempre de um pi de um tamanho infinito e mal definido. Daí esta confessada preferência por um quadrado de amigos em vez de um círculo de amizades. Porque nos círculos não há princípio ou tudo pode sê-lo, enquanto que no quadrado o princípio é sempre um vértice a partir do qual se estende o lado. Ninguém desenha um quadrado começando pelo meio do lado, mas pelo vértice e, depois a cada lado, outro se junta ortogonalmente no plano. Também as amizades têm princípios, não são contactos fugidios de um facebook qualquer. Não são quantidade, mas antes qualidade. Assim, na verdade, o quadrado é o espaço onde chegam todos os amigos. O plano do quadrado não se realiza apenas com quatro lados, é necessário o preenchimento interior. Espera-se, por isso, que venham sempre, que o preencham, realizando-o. E o quadrado não se fica pelos limites no plano, porque para cima se prolonga até às estrelas em noite de lua nova. Aqui irão caber todos os amigos.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Pela massa magra

Ensinaram-me que o objectivo do gestor é a criação de valor para a empresa, ou melhor,para o accionista. Surpreendeu-me esta ideia, mas lá me fui habituando naqueles fins de semana da Católica. Pensava eu na minha ingenuidade que mais importante que criar o tal valor para o accionista seria a satisfação dos valores das pessoas em geral, mesmo dos não accionistas. É isso, que afinal, deve presidir à gestão da coisa pública, isto é, do Estado = conjunto de todos nós, os que não temos acções dessas, mas das outras, os que actuamos trabalhando. Olhando para o que tem sido feito e para a urgência que muitos têm na destruição do Estado, passando o controlo das suas coisas sempre para privados (accionistas!) percebo a vontade que há de não gerir a coisa pública, pois isso impede o crescimento do valor para os accionistas. Mas a tal criação de valor para uns poucos à custa da desvalorização de muitos, apenas conduz ao alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres, deixando pelo meio um mar de sobreviventes anestesiados na perseguição da cenoura que não mais alcançarão. Vai sendo tempo de perceber que este caminho está errado, porque oprime em vez de libertar. Que se lixe a criação do valor para os accionistas!
Vem isto a despropósito de uma surpresa ao ver que o Prof César das Neves (que cromo!) parece ter escrito isto há uns tempos:

O Prof Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polémico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos
abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. "
Segundo o autor, "a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. "
"Os 'cozinheiros' desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados 'profissionais da informação'".
"Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez."

"O problema central está na família e na escola. "
"Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, o
homossexualismo, a permissividade e, não raro, a promiscuidade.
Com uma 'alimentação intelectual' tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular".
Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os abutres", afirma:
"O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."
O texto descreve como os "jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante".
"Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais."

"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve.
Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como "informação".
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”
Prossegue o autor:
"Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou "mico". A arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma 'idade das trevas' e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. "
"Trata- se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental."

(Obesidade mental, por Prof. João César das Neves, publicada no Diário de Noticias em 22/03/2004


O cromo cita o tal Professor que não encontrei no site da Universidade e o livro que não está na Amazon.com Será que a citação do inexistente dá maior credibilidade ao real autor? No mínimo estranho!!

terça-feira, agosto 17, 2010

Um homem de Massamá

Massamá entrou no mapa da argumentação política. Nesta terra, a grande questão não é tanto saber se é feito de boa ou má massa, mas se se vive ou não em Massamá. Os massamaenses são povo e o grande líder vive no seu seio. São perigosos estes tipos que vêm de Massamá com aspiração de se mudarem para São Bento, apenas com a preparação do populismo e cheios da fúria liberal sem o entendimento da história. Bem maquilhados e bem parecidos podem vir de Massamá, mas o seu objectivo escondido é mudar de bairro e defender os interesses dos seus amigos da Linha e da Foz.
Este homem de Massamá tem a vantagem de ser claro, mostrar as garras e já o fez, quando se propôs atacar de forma insana o Serviço Nacional de Saúde, quando defende menos segurança no trabalho, mais precariedade, enfim, melhores «condições de trabalho» para os seus amigos empreendedores que não moram em Massamá. Este homem de Massamá é anti-social, é um self-made man. Por isso, todo o cuidado é pouco, pois, ao contrário do outro com nome de filósofo, este não se esconde por trás dos desejos e em bom rigor pode, se o mudarem para a Lapa, dizer que não se queixem, ele já tinha dito ao que ia.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Desadaptado

A minha percepção do ambiente pode estar a mudar ou isto tudo era muito diferente há uns anos, quando havia um conflito com luta de ideias em vez da ideia do conflito constante cheio do vazio dos dias. Parece-me que existe um catabolismo incessante como programa de vida mal abro os jornais ou ouço as notícias na rádio ou na televisão. Como alternativa, são servidas doses esmagadoras de análise científica dos resultados da última jornada no dia seguinte ou no prolongamento. Apaixonadamente, porque esta ciência é de emoções. No fim, que história ficará de tudo isto?
Pelo meio disto e apesar da catástrofe de vida em que se está, vive-se mais tempo (ou tempo a mais?), porque o significado de viver perdeu a conotação do anabolismo e passou a ser apenas a soma de mais um dia em cada dia sem que ninguém pergunte para que serve. Fica-se, mesmo sem se ir a parte alguma. Tá-se bem, dizem. Acredite quem puder.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Pudor necessário

Andam as revistas e os textos do coração tão cheios de doenças das celebridades, que chego a pensar se não será a forma que têm de pagar as contas dos hospitais privados onde se tratam. Com efeito, acho estranho que alguém venha expor publicamente as suas mazelas, mas isso ainda seria o menos. Pior que tudo é a novela que fazem à volta de situações cujo desfecho é demasiado negro, afirmando esperanças pouco reais, esquecendo que outros menos colunáveis e padecendo de males parecidos podem agarrar-se às suas ilusões até ao dia em que a notícia da morte surge. Nessa altura como sentirão a situação aqueles que sonharam? Há, talvez, um dever de pudor para se não gerarem choques inevitáveis, uma necessidade de poder finalmente viver o escasso tempo que lhes resta fora da ribalta. Ou assim seria desejável. Não é preciso ter a militância da exposição da esperança, que até, talvez, não tenham, porque dela ninguém aproveita. A realidade acaba sempre por ficar por cima da imagem, como o azeite sobre a água.

terça-feira, agosto 10, 2010

Lucidez

A lucidez são os óculos que usam os neurónios maduros para perceberem com maior detalhe a realidade que nos envolve. Mas primeiro é preciso ter os olhos bem abertos, quer-se dizer, ter crescido.

segunda-feira, agosto 09, 2010

A vida são dois dias

Deve ter sido das maiores pausas. Um mês sem aqui estar.
Talvez o reflexo daquele inevitabilidade de começar a sentir que o tempo escasseia e de que nada impede o avanço dos dias nem justifica a sua recordação. A lucidez de se saber que daqui a um tempo pequenino nem no registo do Blogger se irá sobreviver como curiosidade de arqueologia futura.
Por agora a vida são dois dias... com cinco de intervalo, em ciclos repetidos até um dia.

quinta-feira, julho 08, 2010

Velório

Quase de propósito tinha acabado de ler «A sombra do que fomos» do Luís Sepúlveda dias antes de entrar naquele local solene onde encontrei muitos dos que foram. Na verdade, pareceram-me sombras tristes apesar do triunfo a que alguns chegaram sem nunca conseguirem dar forma ao corpo que tiveram. Não, mesmo descontando a ambiente pouco convidativo à boa disposição, olhando-os encontrei sobretudo a tristeza, não por terem falhado, mas sobretudo a de não terem mais a esperança, que, alguma vez, as alvoradas hão-de cantar. Há um conformismo de derrota induzido pela brevidade da vida, que lhes desfoca o olhar que foi vivo e agora morre em vazios sem alternativa. Ainda foram a tempo de bem-estar, mas a grande certeza que têm é que deixam aos que se seguem um mundo de dúvida, virtual e frágil. Há, por isso, uma inquietação do ar e algum alívio por saberem que os que partem o fazem na ignorância vivida do desastre completo.
As sombras vagueiam em movimentos lentos quase não tocando o chão num pudor mal percebido. Os velórios são, geralmente, a celebração dos que ficam, mas aqui notei alguma inquietude no ficar, um quase desejo de acompanhar o que parte numa atitude de demissão final, deixando a pairar a ideia translúcida da solidariedade, que os novos olhos dificilmente conseguem enxergar.

quinta-feira, julho 01, 2010

Livre

Nunca percebi bem a razão de ser da designação de Assistente livre, que por esta altura me chega todos os anos enviada da FML. Imagino que a liberdade não seja minha, mesmo sendo eu o titular da dita e também não concebo, que sendo a instituição que é, me queira enviar uma mensagem subliminar de que existem outros Assistentes, por oposição à minha condição, presos. Menos ainda que me queiram incitar a ensinar Medicina de uma forma inteligente, livre das tradições de marranço e subserviência da Escola, virada para a descoberta do bem-estar dos doentes. Resta-me, assim, a certeza de que a minha liberdade será exercida numa transmissão do que sei sem vénias académicas às excelências professorais. Pelo que vejo à volta, é grande privilégio!
Há ainda uma outra hipótese para a etimologia do adjectivo, bem mais prosaica, mas não necessariamente menos viável: livre... de encargos. Para uma instituição incapaz de gerar receitas e de baixos recursos que pensa poder fazer a sua missão em regime de low cost, é bem possível que seja este o contexto. Estranho é que os alunos não reivindiquem também a sua qualidade correspondente de alunos livres... do pagamento de propinas para suportar os custos dos pobres Professores aprisionados (a tradições e vénias obsoletas).
Livre é quem, simplesmente, tem o poder de desprezar a força dos poderes.
Embalado sigo no que me ressoa em fundo:
Chi son? Sono un poeta.
Che cosa faccio? Scrivo.
E come vivo? Vivo.

Alguns vejo eu mortos e outros a morrer todos os dias.

quarta-feira, junho 30, 2010

Cegos

A grande confusão que a desistência do Estado causa está à vista de quem quiser ver. Discutem-se pagamentos em estradas, porque são de uma entidade privada e não do Estado. As golden share, da mesma forma, também só são necessárias porque empresas estratégicas foram alienadas. Mas sempre há teimosos que, na cegueira, persistem no seu caminho de um beco sem saída. Façam boa viagem, mas não me levem.

terça-feira, junho 29, 2010

No futebol e não só

Conheço alguns que se acham líderes e sempre se manifestam satisfeitos e contentes com os resultados ainda que eles sejam a eliminação e a derrota. Dantes dizia-se que eram vitórias morais, mas nos tempos em que a moral não vende, afirmam o mesmo para ficarem melhor no retrato, para melhorarem a imagem que nem eles ao espelho conseguem ver. São líderes de plástico, sem programa, sem objectivo e sem estratégia que vá além da liderança a todo o custo. E existem também os liderados que no insucesso responsabilizam os líderes e só no sucesso dão a cara, na posição de desequilíbrio de estar em bicos de pés. Também sem outra preocupação que não seja a defesa a todo o custo da sua imagem.
Uns e outros me parecem perdidos e imagino que na solidão dos seus momentos mais reservados perceberão que a imagem nada lhes vale, porque o desrespeito por tais formas de acção é geral. São generais sem exército e soldados sem comando. Espera-os o esquecimento dos dias que virão, porque a obra exige a insatisfação permanente do seu estado de não terminada e o reconhecimento de quem lhe dá forma.
Tudo o resto é má educação e pouca felicidade tanto no futebol como em outras actividades, teoricamente, muito veneráveis.

segunda-feira, junho 28, 2010

Do tempo e do espaço



Não apreciei especialmente a depressão da reunião, onde as novidades foram poucas e as pessoas eram menos que noutros anos. Pouca alegria a que uma cidade entristecida também não ajudava a despertar. No Civic Center andam agora muitos mais a arrastar todos os seus bens em triciclos, uns silencioso outros praguejando sozinhos com olhar vago, alheado, espreitando coisa nenhuma, que a fé se acabou numa qualquer guerra onde os meteram e de onde voltaram gaseados. Mais abaixo, em Gaslamp a euforia de sempre das despedidas de solteiros a caminho das despedidas de casados uns tempos depois, que a vida não pode parar nunca.
Dois dias de estadia e tinha um sentimento de perda, uma longa viagem para tão pouca coisa. Sobretudo a perda de um sítio onde o tempo existe, onde o sol nasce e se põe todos os dias, numa sucessão de tempos e instantes quase perfeitos. Ao fim de todo um tempo, tenho agora o instante do sopro quente do vento a percorrer-me o corpo e o mundo à volta acaba nesse instante. Estranha esta sensação de a partir de um dos cantos da água todo o mundo visível me pertencer. E eu a ele. Finalmente, sou proprietário do tempo e do espaço. Tive sorte, apenas isso.

sexta-feira, junho 18, 2010

até sempre

em Filadélfia na espera do segundo avião o professor chegou-se subitamente e disse-me sabe morreu o saramago. pois afinal também morremos disse assim numa tomada de consciência repentina que sempre as mortes nos despertam. iludidos na vida julgamo-nos eternos até que as mortes nos acordam. mas na verdade o escritor não morreu apenas deixou de escrever. só morremos os outros que arrastamos a falta de obra connosco.

quarta-feira, junho 16, 2010

Os riscos dos números

Vivemos num tempo de observatórios que fazem diagnósticos rápidos sobre quantificação de tudo. Quantifica-se o tempo de espera de consultas no SNS e os números espantam por maus. É claro que é preferível ter números ainda que maus a não ter números nenhuns, porque de alguma forma geram discussão dos problemas. Contudo, uma boa análise das situações exige um cuidadoso estudo dos métodos, para que se não retirem dos dados conclusões mais ideológicas que científicas. Rapidamente, a jornalice nacional dominada pelos grupos económicos privados, terá tendência a crucificar o serviço público salientando as maravilhas do privado e mais uma vez clamará pelo desperdício que é pagar impostos e argumentos habituais, deixando à populaça a sugestão de que tivéssemos acesso livre (sem custos ou com custos suportados pelo Estado ou pelas Seguradoras) tudo estaria resolvido. Só que a realidade é diversa destas análises apressadas. Antes de mais há que ver o efeito racionalizador do custo pago pelo utilizador na procura das consultas, pois ir a um hospital público é acessível, mas ir a um hospital privado não será assim tanto. Isto faz toda a diferença e é necessário perceber até que ponto o pedido indiscriminado de consultas aos hospitais públicos não acaba por limitar o acesso a quem dele precisa em tempo útil. É fundamental, além dos números, perceber a sua qualidade.

terça-feira, junho 15, 2010

Sempre igual

Há 30 mil modos diferentes de passar pela crise, todas com apelos mais ou menos éticos, mas tentando preservar o essencial, que, pasme-se, acaba por ser a razão da crise. Não chega a imaginação a tentar descobrir outro meio de vida,embora se reconheça que este não é o ideal. Só que a cegueira não deixa enxergar mais adiante, porque se não ousam novos horizontes. Por preguiça? Não, apenas porque os modelos são feitos pelo poder. Aos sem-poder resta a alienação, as imagens e o mundo virtual. Assim, dói menos.
Sempre me intriga que haja tão poucos economistas disponíveis para dar lições sobre os nossos males. Contam-se pelos dedos das mãos os Bagões, Salgueiros, Ricardos e que tais. Sempre o mesmo discurso de quem tem agora todas as soluções depois de ter tanto contribuído para causa de tudo isto. Até parece ser a Economia uma ciência exacta, onde a ideologia não entra na definição das estratégias. É mentira, a luta de classes existe!

sábado, junho 12, 2010

Realidades virtuais

A educação da imagem chega para encher o olho de quem vê, mas não acrescenta à observação. Sentem-se os maiores por transmitirem uma boa imagem, depois tentam passar pelo desastre da inconsistência da sua realidade vazia, virtual. Ansiosamente criticam tudo e todos à volta, esquecendo o exercício elementar de olhar para dentro de si, pelo enorme incómodo que isso seria. Que bom é produzir um parafuso! Ainda que com a rosca meio defeituosa, será certamente mais útil que a crítica do parafuso produzido por outro. É necessária e urgente a produção palpável ou a crise será a única produção real porque, afinal, vivemos num mundo de matéria.

quinta-feira, junho 03, 2010

Disparate do século (ou irá continuar a verborreia?)

Na imensa circulação de mails idiotas, chegou-me um rotulado de a frase do século. Dizia o economista autor “Não sei para que é que querem gastar dinheiro no TGV se podem perfeitamente oferecer um Porsche a cada português gastando menos”. Enche o ego da populaça ouvir um ex-ministro dar assim uma no Governo maldito (é curioso que todos os governos são sempre malditos enquanto governam e uma esperança quando estão na oposição).
Mas o dito é de uma infelicidade imensa pois tal realização embora pudesse ser uma bênção para os alemães produtores da máquina, seria certamente um pesadelo para a economia, porque primeiro iam as divisas na aquisição dos míticos bólides, depois sairiam ainda mais na importação do combustível para alimentar os ditos. Haveria certamente ainda a lamentar uns milhares de mortos por acidentes de aviação. Em resumo, ainda bem que o cidadão já não é ministro.
É uma pena que o debate político seja reduzido a coisas destas, que eu gostaria de ser informado, em detalhe, das vantagens e desvantagens das opções concretas para ter um ideia da sua relativa justeza.
A despropósito fica a referência lida hoje da percentagem da dívida pública em relação ao PIB nos EUA: 88% (ou será 110%?)!! Em Portugal, em 2009, 76,8% (www.Pordata.pt).

quarta-feira, junho 02, 2010

Um dia a mais que ontem (ou o day after)

Há instantes que são meras formalidades e a que à partida pouco importância atribuo. Mas de repente, podem ser oportunidades de debate necessário. São as surpresas dos instantes, que os tornam, algumas vezes, notáveis.
O mais intolerável de tudo é o apagamento das personagens da história. Pior ainda quando para pôr na frente a sua imagem raspam da fotografia quem esteve no primeiro plano. A imagem que alguns são peritos em criar não consegue vencer a memória de quem esteve na história e, nessa altura, há uma obrigação ética de sobrepor a realidade à imagem. Doa a quem doer, tem de ser feito e fez-se.
Muitas vezes fica-me a dúvida se é por mera maldade ou por distorção do sentimento da realidade que usam a tesoura na fotografia. De uma ou outra forma é doentio e inútil a ilusão da importância que se atribuem, porque o verdadeiro significado dos nossos curriculla deverá, sempre e só, ser a análise que os outros deles fazem.
Estar em bicos dos pés é um um equilíbrio difícil e mesmo um primeiro passo para a queda. Não faltar muito para o tombo do esquecimento é, desde já, uma certeza e consolo e fica-se bem quando se reafirma a história bem contada, com realidade.
É isto que me fica neste um dia a mais que ontem. O resto é, provavelmente, secundário.

terça-feira, junho 01, 2010

Erros e segredos

Se o apoio do PS a Alegre pode ser fatal ainda não sabemos. O que já sabemos é que foi um disparate o apoio do PS a Mário Soares há uns anos atrás. Que bom seria conhecermos as razões ocultas de certos ditos. Esclarecê-los seria uma atitude nobre, mas possivelmente a força do oculto não o permite.