segunda-feira, junho 28, 2010

Do tempo e do espaço



Não apreciei especialmente a depressão da reunião, onde as novidades foram poucas e as pessoas eram menos que noutros anos. Pouca alegria a que uma cidade entristecida também não ajudava a despertar. No Civic Center andam agora muitos mais a arrastar todos os seus bens em triciclos, uns silencioso outros praguejando sozinhos com olhar vago, alheado, espreitando coisa nenhuma, que a fé se acabou numa qualquer guerra onde os meteram e de onde voltaram gaseados. Mais abaixo, em Gaslamp a euforia de sempre das despedidas de solteiros a caminho das despedidas de casados uns tempos depois, que a vida não pode parar nunca.
Dois dias de estadia e tinha um sentimento de perda, uma longa viagem para tão pouca coisa. Sobretudo a perda de um sítio onde o tempo existe, onde o sol nasce e se põe todos os dias, numa sucessão de tempos e instantes quase perfeitos. Ao fim de todo um tempo, tenho agora o instante do sopro quente do vento a percorrer-me o corpo e o mundo à volta acaba nesse instante. Estranha esta sensação de a partir de um dos cantos da água todo o mundo visível me pertencer. E eu a ele. Finalmente, sou proprietário do tempo e do espaço. Tive sorte, apenas isso.

sexta-feira, junho 18, 2010

até sempre

em Filadélfia na espera do segundo avião o professor chegou-se subitamente e disse-me sabe morreu o saramago. pois afinal também morremos disse assim numa tomada de consciência repentina que sempre as mortes nos despertam. iludidos na vida julgamo-nos eternos até que as mortes nos acordam. mas na verdade o escritor não morreu apenas deixou de escrever. só morremos os outros que arrastamos a falta de obra connosco.

quarta-feira, junho 16, 2010

Os riscos dos números

Vivemos num tempo de observatórios que fazem diagnósticos rápidos sobre quantificação de tudo. Quantifica-se o tempo de espera de consultas no SNS e os números espantam por maus. É claro que é preferível ter números ainda que maus a não ter números nenhuns, porque de alguma forma geram discussão dos problemas. Contudo, uma boa análise das situações exige um cuidadoso estudo dos métodos, para que se não retirem dos dados conclusões mais ideológicas que científicas. Rapidamente, a jornalice nacional dominada pelos grupos económicos privados, terá tendência a crucificar o serviço público salientando as maravilhas do privado e mais uma vez clamará pelo desperdício que é pagar impostos e argumentos habituais, deixando à populaça a sugestão de que tivéssemos acesso livre (sem custos ou com custos suportados pelo Estado ou pelas Seguradoras) tudo estaria resolvido. Só que a realidade é diversa destas análises apressadas. Antes de mais há que ver o efeito racionalizador do custo pago pelo utilizador na procura das consultas, pois ir a um hospital público é acessível, mas ir a um hospital privado não será assim tanto. Isto faz toda a diferença e é necessário perceber até que ponto o pedido indiscriminado de consultas aos hospitais públicos não acaba por limitar o acesso a quem dele precisa em tempo útil. É fundamental, além dos números, perceber a sua qualidade.

terça-feira, junho 15, 2010

Sempre igual

Há 30 mil modos diferentes de passar pela crise, todas com apelos mais ou menos éticos, mas tentando preservar o essencial, que, pasme-se, acaba por ser a razão da crise. Não chega a imaginação a tentar descobrir outro meio de vida,embora se reconheça que este não é o ideal. Só que a cegueira não deixa enxergar mais adiante, porque se não ousam novos horizontes. Por preguiça? Não, apenas porque os modelos são feitos pelo poder. Aos sem-poder resta a alienação, as imagens e o mundo virtual. Assim, dói menos.
Sempre me intriga que haja tão poucos economistas disponíveis para dar lições sobre os nossos males. Contam-se pelos dedos das mãos os Bagões, Salgueiros, Ricardos e que tais. Sempre o mesmo discurso de quem tem agora todas as soluções depois de ter tanto contribuído para causa de tudo isto. Até parece ser a Economia uma ciência exacta, onde a ideologia não entra na definição das estratégias. É mentira, a luta de classes existe!

sábado, junho 12, 2010

Realidades virtuais

A educação da imagem chega para encher o olho de quem vê, mas não acrescenta à observação. Sentem-se os maiores por transmitirem uma boa imagem, depois tentam passar pelo desastre da inconsistência da sua realidade vazia, virtual. Ansiosamente criticam tudo e todos à volta, esquecendo o exercício elementar de olhar para dentro de si, pelo enorme incómodo que isso seria. Que bom é produzir um parafuso! Ainda que com a rosca meio defeituosa, será certamente mais útil que a crítica do parafuso produzido por outro. É necessária e urgente a produção palpável ou a crise será a única produção real porque, afinal, vivemos num mundo de matéria.

quinta-feira, junho 03, 2010

Disparate do século (ou irá continuar a verborreia?)

Na imensa circulação de mails idiotas, chegou-me um rotulado de a frase do século. Dizia o economista autor “Não sei para que é que querem gastar dinheiro no TGV se podem perfeitamente oferecer um Porsche a cada português gastando menos”. Enche o ego da populaça ouvir um ex-ministro dar assim uma no Governo maldito (é curioso que todos os governos são sempre malditos enquanto governam e uma esperança quando estão na oposição).
Mas o dito é de uma infelicidade imensa pois tal realização embora pudesse ser uma bênção para os alemães produtores da máquina, seria certamente um pesadelo para a economia, porque primeiro iam as divisas na aquisição dos míticos bólides, depois sairiam ainda mais na importação do combustível para alimentar os ditos. Haveria certamente ainda a lamentar uns milhares de mortos por acidentes de aviação. Em resumo, ainda bem que o cidadão já não é ministro.
É uma pena que o debate político seja reduzido a coisas destas, que eu gostaria de ser informado, em detalhe, das vantagens e desvantagens das opções concretas para ter um ideia da sua relativa justeza.
A despropósito fica a referência lida hoje da percentagem da dívida pública em relação ao PIB nos EUA: 88% (ou será 110%?)!! Em Portugal, em 2009, 76,8% (www.Pordata.pt).

quarta-feira, junho 02, 2010

Um dia a mais que ontem (ou o day after)

Há instantes que são meras formalidades e a que à partida pouco importância atribuo. Mas de repente, podem ser oportunidades de debate necessário. São as surpresas dos instantes, que os tornam, algumas vezes, notáveis.
O mais intolerável de tudo é o apagamento das personagens da história. Pior ainda quando para pôr na frente a sua imagem raspam da fotografia quem esteve no primeiro plano. A imagem que alguns são peritos em criar não consegue vencer a memória de quem esteve na história e, nessa altura, há uma obrigação ética de sobrepor a realidade à imagem. Doa a quem doer, tem de ser feito e fez-se.
Muitas vezes fica-me a dúvida se é por mera maldade ou por distorção do sentimento da realidade que usam a tesoura na fotografia. De uma ou outra forma é doentio e inútil a ilusão da importância que se atribuem, porque o verdadeiro significado dos nossos curriculla deverá, sempre e só, ser a análise que os outros deles fazem.
Estar em bicos dos pés é um um equilíbrio difícil e mesmo um primeiro passo para a queda. Não faltar muito para o tombo do esquecimento é, desde já, uma certeza e consolo e fica-se bem quando se reafirma a história bem contada, com realidade.
É isto que me fica neste um dia a mais que ontem. O resto é, provavelmente, secundário.

terça-feira, junho 01, 2010

Erros e segredos

Se o apoio do PS a Alegre pode ser fatal ainda não sabemos. O que já sabemos é que foi um disparate o apoio do PS a Mário Soares há uns anos atrás. Que bom seria conhecermos as razões ocultas de certos ditos. Esclarecê-los seria uma atitude nobre, mas possivelmente a força do oculto não o permite.

sábado, maio 15, 2010

Riscos

Nas doenças e morte precoce dos amigos, vou encontrando a necessidade de ser muito responsável no dia-a-dia da vida. Aí se percebe que não há justificação para a distracção do tempo nem para o adiar da apreciação do quadro, do livro, da peça de teatro ou da partilha de um vinho tinto com queijo em fim de tarde. É muito imprudente guardar as garrafas na adega à espera do dia certo, porque qualquer um pode, afinal, ser o último. A lição é que a vida é urgente todos os dias e a eternidade um privilégio dos crentes. A nós, se não nos cuidarmos, resta-nos a pequena consolação de ficarmos a beber sozinhos, com a lembrança deles, num esforço quase vão de os imortalizar. Mas isso, não é a mesma coisa.

quinta-feira, maio 13, 2010

Mar e mar

Podem dizer que era um mar de gente, porque os mares são de muitos tamanhos e até os há que são mortos de nome. E gente também a há de muitas formas, se bem que às massas mediáticas nem sei se gente se pode, em boa verdade, chamar. Pode dar-se o caso de quando só se vê, nem se estar verdadeiramente a existir, que isso é mais agir e pensar que observar embevecido na contemplação. Aí, pode mesmo mergulhar-se numa alienação de existência. Custa-me a entender a diferença entre um concerto roqueiro na Bela Vista e o tal mar de gente na Cova da Iria. Há outra energia noutros rios de gente, (porque os rios fluem e os mares estão estagnados), como foram aqueles do 1º de Maio de 74 ou o da despedida ao Álvaro Cunhal (onde nem sequer houve necessidade de tolerância de ponto).

quarta-feira, maio 12, 2010

Tristes

Chega quase a ser angustiante ver gente assim mal amada e sem paixão. Alheados do mundo, perseguidos por ideias, medrosos de nunca irem atingir os seus sonhos de domínio. Pena não se apaixonarem por algo que valha a pena e ao mesmo tempo, neste seu desespero, tornarem-se repelentes da paixão dos outros.

terça-feira, maio 11, 2010

Deixem-nos trabalhar!

Deixem-nos trabalhar! Disse um dia o timoneiro que raramente se enganava. Estranhamente desta vez nada disse. Só por leviandade ou mau cálculo político se pode ter tomado a decisão de dar tolerância de ponto por causa da visita do Papa. De uma assentada, perderam toda a argumentação da justificação do não às greves pela situação económica miserável em que se está. Ou não será o prejuízo da falta de um dia de actividade o mesmo por uma ou outra razão cujo efeito é idêntico?
Mais estranho, o facto de a tolerância ser limitada ao sector público. Parece a aceitação da ideia que aqui nada se faz e, por isso, mais folga menos folga, tudo bem. Será que a decisão, afinal, não foi assim tão leviana e tem por objectivo, uma vez mais, desacreditar o sector, identificando os seus trabalhadores como calaceiros? A confusão adensa-se quando alguns decidem vir trabalhar, porque o trabalho lhes parece inadiável.
Obviamente, nada me move contra o senhor e até tenho alguma solidariedade para com alguém que está privado das mais elementares liberdades e tem, por exemplo, de se deslocar num ridículo carro envidraçado, não pode ir ao quiosque comprar o jornal, não pode dizer ou escrever o que lhe vai na cabeça (no caso parece que, realmente, às vezes melhor será estar calado). Há nesta função uma esquizofrenia de poder e de sofrer a sua prisão e isso faz-me sentir alguma pena, sinceramente, do sujeito.

Uma nova dimensão


Lá o tempo volta a ter a dimensão que o tempo tinha. Lá, onde ainda não há televisão nem e-mail, o tempo estica. Mas não é só o tempo, também o espaço tem personalidade, mudando ao ritmo da semana a cor dos pormenores. A distância faz o resto de me fazer sentir mais longo. Lá, quer o espaço, quer o tempo voltam a ter a dimensão da vida. E há instantes em que parece que van Gogh renasceu no contornado das árvores dirigidas às nuvens tormentosas. Pequenos nos fazem as cidades grandes.

quarta-feira, maio 05, 2010

Roubo

Se o dinheiro se não evapora, quando sai de um lado, irá para o outro. Isso faz-me pensar que alguém haverá que ganha com as crises. Por isso, soa-me a roubo, isso de tirarem aos gregos os dois meses de subsídios anuais. Em contas simples, representa uma perda de rendimento de 14%. Para onde vai?

segunda-feira, maio 03, 2010

Este país dava um filme

Quanto mais escasso é o tempo que resta, menos tempo o tempo dura. Não deixa o tempo, tempo para contar o que dele se faz e as pausas ficam maiores cheias de tempo cada dia mais fugaz. Até que chega um dia imprescindível e temos mesmo de ter tempo.
Anda alguém a querer olhar para trás e só isso explica que se dedique a roubar um retrovisor. Dei por isso, num dos automatismos de olhar para a esquerda a ver se vinha alguém. Não, quem não vinha era o retrovisor, impecavelmente destacado do seu lugar e depois foi um dia de aventura. A aventura começa aqui dizia na página da Entreposto Nissan e não era para menos. Liga-se o apoio ao cliente À procura do preço de um retrovisor e uma simpática call center girl, logo nos informa do número para que temos de ligar. Liga-se o número e fica-se a ouvir bips durante 10 minutos passados os quais decido voltar a interpelar a tal call center girl, que desta vez fica com o meu contacto para me contactar logo que possível. Quando? É coisa que nunca se sabe ao certo. Segunda parte do plano, contactar a companhia de seguros, onde tenho ao longo de 10 anos depositado religiosamente mais de 300 euros por ano para um seguro de furto ou roubo. Vamos lá a ver quem furta, que as garantias ainda vão ter de ser confirmadas. Mas que sim, que posso ir comprando a peça, que se for o caso de a apólice cobrir o dano, depois me compensarão. Mas terei de ir participar o roubo à PSP. É então que me dirijo ao centro de atendimento mais perto, no Centro Comercial Colombo, onde um dos 4-funcionários-4, me começa por dizer que a coisa está demorada, tenho 5 clientes à minha frente e apesar de serem 4, o melhor será ir fazer umas compras e voltar umas horas depois ou então ir à superesquadra ali para Benfica. É que aqui, apesar de haver 4 agentes apenas existe um computador e portanto... A informática, penso eu, bloqueia tudo. Mas porque raio não escrevem à mão estes fulanos? Ou então, se aqui não têm que fazer, poderiam talvez andar na rua a ver o que se passa.
Cheio de energia e optimismo chego à tal esquadra super guardada à porta por uns quinze agentes, vestidos de forma trendy com fatos que nem COPS a dizer POLICIA nos costados, em alegre galhofa cheia de bués e chavalos para aqui e para acolá. Ao que venho? Lá lhe explico e dizem-me para aguardar. Tempo é coisa que não falta nestes locais, ao que imagino. E está bem, que só aqui vem quem não tem mais nada que fazer, pois o resultado é antecipadamente conhecido: se não desconfiamos de alguém, que queremos que a polícia faça? E de novo à espera, vou olhando em volta e fico a saber os direitos dos arguidos afixados em cartaz (e os meus?)e vejo o corropio dos agentes dentro e fora e reparo nas enormes botas que usam que devem ser pesadas para burro e não dar jeito nenhum para perseguir alguém. Olho também para a máquina multibanco dentro da esquadra e penso que deve ser um teste à capacidade dos ladrões. Um desafio, tipo vejam lá se tiram esta daqui. Estava eu no meio disto quando uma hora depois lá me chamaram para o depoimento. Feito o dito, comunicam-me que se eu encontrar alguém suspeito posso fazer um processo crime contra o tal ou passados 6 meses o processo será arquivado. Fico tranquilo e dão-me um papel para comunicar à Seguradora. Um dia repousante. Pelo caminho de regresso a casa, penso que este país daria um filme.

quarta-feira, abril 14, 2010

Justiça

De certa forma é consolador que a vida não tenha preço. Já muito alguns roubam, por isso, que ao menos haja uma fronteira para a vida e que assim continue, sem estar à venda. No fim, acabam por durar tanto os ladrões como os roubados e essa é uma justiça divina.
Se há quem ganhe num ano o que os seus colaboradores ganham em 30 ou mais anos de trabalho, ao menos que a esperança de vida seja idêntica. De outra forma, só para gozarem os ganhos ficariam eternos....

segunda-feira, abril 05, 2010

Curtinha

Não são as vitórias que os fazem. Os sorrisos são feitos de cumplicidades.

sábado, março 27, 2010

Verdades

Tantas verdades absolutas hoje, resolvidas nas mentiras de amanhã ou nas suas verdades contrárias. Ao fim de tantos anos, ainda não percebemos que as estratégias certas de agora poderão muito bem ser os objectivos duvidosos que se vão encontrar além. Por que razão tanta veemência na afirmação absolutamente convencida de ideias de duvidosa certeza? Só porque faz parte da forma eficiente da afirmação. Todo o curto-prazo é mau conselheiro e só na distância do tempo somos capaz de nos aproximar da verdade. Mas por estranho que pareça, anda-se num desassossego como se não houvesse mais amanhã, como se uma meia mentira hoje afirmada como verdade fosse mais anestésica do que qualquer reflexão menos imediata. Sem a análise do passado, é com dificuldade que vislumbraremos o futuro. Apetece duvidar da verdade para se chegar à certeza.

sexta-feira, março 26, 2010

Oração breve

Para nos não deixarmos ir na espuma dos dias desaparecendo nas tarefas inadiáveis de que beneficia nem se percebe muitas vezes quem, não deixemos para amanhã o que podemos viver hoje. Ámen.

quarta-feira, março 24, 2010

Maior idade

Estou a chegar a um estado de cansaço desta permanente luta com o mundo. (Pois, os anos não perdoam!!!) Não, que ele me tenha tratado mal, antes pelo contrário, mas a energia de mudar vai-se desvanecendo e cresce uma necessidade de aproveitar tranquilamente o que resta do tempo, que aos poucos se tem vindo a revelar cada vez mais finito. Na verdade, o mundo perfeito não é o único, nem sequer é. A sabedoria implica aprender a viver no que existe. Às vezes fica o silêncio como alternativa confortável. Já consigo sorrir e ir andando

segunda-feira, março 22, 2010

Reforma possível não é a desejável

No Publico:
A partir de 2014, o governo obrigará todos os adultos a ter um seguro de saúde, ou através das apólices de grupo oferecidas pelos empregadores (e que hoje são a forma privilegiada de acesso ao sistema para cerca de 85 por cento da população) ou um mercado individual.
As famílias que tenham rendimentos superiores ao limiar da pobreza, mas que mesmo assim não disponham de recursos para suportar os custos dos seguros, terão acesso a subsídios governamentais. E as pequenas e médias empresas que cobrirem os seus funcionários serão recompensadas com créditos fiscais.

A nova legislação estabelece ainda novas regras para a actividade das companhias de seguro – e os efeitos dessas provisões serão tangíveis mesmo antes da entrada em vigor da reforma, daqui a quatro anos. Por exemplo, as seguradoras não poderão mais unilateralmente cessar as apólices como forma de evitar pagamentos nem impor um tecto máximo para reembolsos de despesas. Também deixarão de poder recusar clientes com base no seu histórico de saúde, garantindo que pessoas que já sofreram acidentes, foram submetidas a cirurgias ou que se debatem com doenças crónicas sejam incluídas nas apólices.

A factura a pagar pelo governo federal ascende aos 940 mil milhões de dólares nos próximos dez anos, de acordo com a avaliação do independente Gabinete de Orçamento do Congresso. A reforma é sustentada financeiramente através de um misto de poupanças com cortes e reajustes em programas federais e da recolha de novas receitas fiscais. Simultaneamente, contribuirá para a diminuição do défice federal em 143 mil milhões de dólares até 2020.


Constitui um avanço, uma saída do estado de barbárie em que estavam os americanos nesta matéria. Mas que não sirva de argumento e exemplo por cá. Mais coisa menos coisa, é um programa de Saúde Negócio certamente apreciado por magistrais economistas dos que anseiam pela privatização de tudo o que dê lucro. Os Antónios Borges por cá não desgostariam de fazer assim a reforma do SNS.
Aliás, o Mercado até apreciou a medida de Obama. E isso é um sinal preocupante da bondade das medidas do «revolucionário» presidente.

sábado, março 20, 2010


Fica a imagem da antecipação da certeza de fins de tarde perfeitos por entre o sussurrar do vento e os chilreios dos pássaros.

terça-feira, março 16, 2010

Memórias recentes

Há instantes em que o silêncio nos ocupa o tempo todo. Fica a voz sufocada, suprimida pela imensidão do que acontece. Esgoto o tempo nas ideias e fico sem tempo para as descrever. É um overflow paralisante. A inacção decorre da intensidade da vida e sem querer percebi que já passou mais de um mês. Na esmagadora força do tsunami vou boiando sem tentar sequer segurar os postes, gozando a velocidade da corrente. Nada fica registado fora da memória da intensidade dos dias.
Por estes dias passados aconteceram terramotos, guerras, consumiu-se o tempo na avidez da busca dos corruptos (que são sempre os outros), optou-se por gastar no que o poder decide, retirando aos mesmos de sempre o pouco que lhes resta, a crise continua como desde há centenas de anos instalada e para ficar a tramar quem pouco pode. Um dia virá uma Bastilha, um qualquer Abril, um palácio Imperial cairá e logo a seguir se reerguerá porque a natureza (humana?) é assim mesmo. De tão igual que importância tem? Estranha esta nossa fixação no pouco relevante, que passa ao lado das nossas vidas.
De registo três eventos deste tempo:
A perda do amigo que surgiu de repente caído do acaso no nosso conhecimento e se revelou imenso na generosidade, na tranquilidade inquieta de estar e na sabedoria que tinha para mostrar a terra que adoptou, a sua forma de olhar o mar, provar a comida do mundo e beber o bom vinho que a terra nos dá. So many wines, so little time, sábia mensagem na t-shirt de Margaret Valley, miseravelmente menos do que o tempo que merecíamos. São instantes destes que me fazem compreender o conceito de persistência e a ideia meio estúpida da imortalidade. Quando há amigos, ficamos mesmo quando não estamos.
Neste tempo também houve o grande conflito interno de decidir entre o que fazer perante o direito de viver por conta a partir dos 55 e o dever de manter actividade útil a quem dela pode usufruir por vivermos num país de civilização onde a saúde é gratuita. Prevaleceu a afirmação a minha história na recusa de servir o negócio da saúde. É uma decisão meio quixotesca, economicamente pouco justificável, que não resiste à mais elementar análise custo-benefício material. Mas a vida vai além da matéria e depois da decisão isso ficou bem claro para mim. Pode ter sido uma escolha errada, mas até agora, foram as escolhas sempre certas. Por isso, tenho, ainda assim, o direito de me enganar alguma vez.
Finalmente, foi também tempo de saborear o charme, de materializar a poesia. Um dia assim pode ser quase perfeito. Foi a escolha deles, que já voaram bastante e prometem desta forma manter-se na busca de novos rumos e destinos. As viagens são sempre novas descobertas, gostosas surpresas sem fim, por vezes também turbulências, que com o treino e a vontade se vencem acabando por enriquecer as experiências. Em cada viagem nos acrescentamos um pouco mais, fica-se mais grande. É esse o rumo.
E se ainda me não reformei das viagens, tenho a boa sensação do gozo que é ver voar quem o faz bem. Como, quando miúdo, íamos para o terraço do aeroporto ver descolagens e aterragens.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Fragilidade

Em termos políticos, Vítor Constâncio é uma espécie de Manuela Ferreira Leite inspirado por outros ares. Quando foi líder partidário era notória a sua falta de jeito para aquilo onde há que tem que ter a habilidade de fazer erros, de forma a que a gentalha goste. A posteriori dizem que errou quando devia ter regulado e vai regular agora de novo. Foi usado como responsável por não ter percebido quem era responsável e roubava à tripa forra. Fácil é fazer o julgamento da história passada, sem ter tido, na altura, a clarividência de afirmar os erros do presente. Mas esta é uma tendência actual de alguns dos nossos génios. Também aqueles que em Maio passado atafulharam as dispensas lá de casa de Tamiflu, apareceram depois a afirmar que sempre tinham percebido o negócio enorme da gripe A e criticam as medidas que tomaram os que na altura tiveram de decidir. Quem tem de falar, que fale no presente, ou para sempre se cale.
Mas é complicado perceber que a competência não é defesa bastante face à criatividade dos criminosos. Estamos frágeis.

domingo, fevereiro 14, 2010

Ensino

A atracção pelo ensino advém da facilidade da Medicina matemática. Infinitamente mais complexo é tratar doentes, porque cada um deles é um caso que não vem nos livros. Há uma ciência-evidência que diz respeito à população, mas que não se aplica sempre. Essa é a parte fácil que está nos livros e na Internet acessível a quem sabe ler. Mas a ciência difícil é a compaixão, o passarmos para o lado do doente. A tarefa necessária do ensino parece-me ser a transmissão desta mensagem, que demora anos a aprender. O resto é search, copy and paste ao alcance de qualquer aluno.

sábado, fevereiro 13, 2010

Corrida ao Sol no país dos cuscos

Há ocasiões em que o silêncio me incomoda, sobretudo porque nele o estrondo da cobardia está presente. Que Manuelas funcionárias públicas aplicadas, a quem noutros tempos nunca lhes acudiria à mente a revolta contra o sufoco da opinião, por aí andem a pregar asfixia até percebo. Que Silvas paranoicos de escutas se tranquilizem quando são outros, REALMENTE, os escutados, não se aceita, mas também se entende. Efectivamente, o que custa é não ver ninguém dizer que a cusquice é abjecta e ver a parolagem deliciada com toda esta pouca vergonha. É a populaça formada pelo big brother sempre sequiosa por novos Zés Marias que lhes encham a alma oca.
Proclama-se por aí que a liberdade de expressão está em causa. É bem revelador da ignorância do que isso é. É triste que à boleia dos vendedores de papel e de spots de intervalo de jornal televisivo se pendure tanta mediocridade em votos de ascensão. Numa rábula triste em véspera de lançar livro diz-se que alguém disse que ouviu dizer e logo a coisa rola como grande escândalo. Era uma boca aparentemente séria que, de um momento para o outro, ficou semelhante a uma grande boca (ainda para mais ampliada pelo silicone). Numa clara estratégia de venda de papel, brilha o Sol, com as notícias bombásticas da coscuvilhice. Mentindo sobre a falta de liberdade, faz edições duplas, factura bem. Objectivo cumprido: aumento de vendas, mas nada mais além disso. Preço? Ausência de ética.
OK, o Chefe estava farto da continuada sacanice e manobrou para calar os sacanas. É próprio de quem é Chefe e não dono da sacanagem. Certamente que não haverá mais liberdade de Imprensa em Itália onde se chega a Chefe, começando por chefiar a sacanagem. Na vida tudo tem um custo e se quisermos ter informação objectiva e independente teremos de começar por abrir os cordões à bolsa e comprá-la ao custo que ela tem, isto é, jornais e televisões sem publicidade, custeados por nós. De outra forma teremos imprensa manipulada pelo poder económico de grupos (curiosa a forma ternurenta como o Expresso divulga o Sol destes dias)necessariamente ligados ao capital ou ao Estado. Entre uma e outra hipótese ainda me inclino para o mal menor, aquele onde, remotamente, ainda posso intervir.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

O negro e o vermelho

Não, a história ainda não acabou. Apesar da longa pausa. Só que a história tem de ter assunto, que nem sempre existe. Este país tem estado chato ou, talvez pior, inclinado para baixo. Há uma depressão cinzenta cada vez mais densa, mais negra.
Pelo meio ficou a certeza de que o Natal não acabou e que o investimento nos faz sobreviver além do tempo e quando chegar a altura. E também o enorme gozo de ir jantar à pala na comemoração de um primeiro ordenado. Vermelho.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Fumo

Num instante fica-se amputado da memória de um tempo que tínhamos guardado numa caixinha metálica e não se percebe como isso é possível. Também se não compreende como tinha sido possível lá pôr toda a memória desse tempo ao longo de um ano. Mas a magia tem destes coisas, como vem também vai. Afinal, apenas sobrevivem os registos que tinham sido impressos, nessa actividade de que nos auto-acusamos de destruirmos as árvores. Tanta campanha do paper free e agora se constata que a liberdade da recordação depende, realmente, do que o papel regista. Tudo o resto mora não se sabe bem aonde, se não morto, em transformação, se o outro tinha razão. Até é possível que, um dia, também estes registos feitos não sei onde, acabem por se esconder de vez, reduzidos ao silêncio de algum interesse. Tudo é efémero.

sábado, dezembro 12, 2009

Evolução

Quase os mesmos sorrisos, mas com maior consistência. Há árvores que não havia antes. O futuro é já ali.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O ónus da prova

Foi num Natal de há muitos anos. Apareci em casa com um burro de plástico cuja origem não se percebia de onde vinha. Era uma pequena figura de presépio. Acontece que os meus rendimentos na altura não eram compatíveis com a propriedade que exibia. Porque não havia, na altura, direitos constitucionais sobre o ónus da prova, a questão foi resolvida rapidamente depois de um inquérito sumário em que ficou demonstrado que o bicho fora adquirido por via anómala.
Se fosse agora tudo seria diferente. Caberia à Justiça descobrir a origem do cavalo, ir ao local do furto, marcar com umas plaquinhas numéricas os pontos de vestígios do furto, encontrar, cientificamente com DNA e tudo, as provas e depois de construírem uma teoria sobre o caso lá me viriam confrontar com a acusação. Seria possível que nessa altura já eu não me lembrasse da história…
Sem a protecção constitucional, a história acabou com a confissão do delito, a devolução do burro a quem de direito e com umas chineladas do rabo.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Palhaços?

Tenho saudades das boas discussões políticas no tempo em que a política era a discussão das ideias que resolveriam problemas. Hoje em vez de o fazerem, os políticos limitam-se à discussão dos problemas de carácter dos adversários. É um festim para os jornalistas, mas nada resolve. No público reforça-se a ideia de que são todos iguais, quando, na verdade, nem é bem assim. Há uns mais palhaços do que os outros.

terça-feira, dezembro 08, 2009

ST

Boas são as viagens que nos levam à descoberta dos caminhos de que são feitas.

Quinta livro

Quase ao cimo, o poço que descido nos permite ver, de dentro da terra, o céu no alto. E de lá se sai atravessando as águas. Mas não só, toda esta quinta é uma sucessão de pedras que falam numa obra de criação induzida pelo conhecimento do mundo. Fica-se sempre grande quando se conhecem novos mundos nas viagens que se fazem. Uma casa pode além de ser um abrigo, um livro que conta uma história que interpreta uma concepção de mundo.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

A difícil economia

Raciocínios macroeconómicos feitos por uma médico devem comportar os mesmos riscos que uma cirurgia feita por economistas. Mas se estes são capazes de elaborar sobre medicina, também a um médico não deve ser vedada a ousadia de perorar sobre economia. Assim nos podemos sorrir uns dos outros.
Ao contrário da Medicina que sendo uma ciência estatística, é bem sabido não ter rigor matemático, a Economia é uma ciência conotada com os números, só que são tantas as formas de apresentar as contas que conseguem obter-se resultados para todas as explicações. E quanto a previsões, recorrem geralmente à teoria do João Pinto sobre os prognósticos.
A Economia é uma ciência tão complicada que nem se ousa ensiná-la ao comum dos mortais. Por isso, todos a temos de aprender na Vida. Para um simples médico a Economia é uma diferença entre o que se produz e o que se gasta, sendo que não é sustentável gastar-se sempre mais do que o produzido. Nas interacções que temos, conseguimos atingir um estádio em que, nas várias intermediações que temos uns com os outros, a produção da riqueza consegue eximir-se à diferença entre produção e consumo. E assim nasceram os actuais ricos, que muitas vezes nada produziram, uns estimulando apenas o consumo, outros elaborando fantasias emocionais sobre como expandir o capital no Grande Casino. Quem manda tem mantido a ilusão com os sobressaltos conhecidos. Até quando durará?

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Salto à Vara no país dos pico-nanos

A grande tese da direita mais assumida é que estando o emprego dependente fundamentalmente das pequenas e médias empresas, o combate ao desemprego passa pelo apoio a esses empresários. Nos últimos tempos, tenho tido alguns contactos com eles, com donos de alguns negócios (as chamadas empresas) onde se produzem janelas, portas, instalações de águas, aquecimentos e por aí e tenho-me apercebido da sua iliteracia, do seu saber adquirido apenas e muitas vezes por tradição familiar, da sua facilidade da concepção do trabalho, lentidão da sua execução, incumprimento de prazos, alheamento da inovação e já nem se fala da falta de vontade de pagar impostos. São gente que não aprendeu a gerir, executa tradicionalmente e não tem vontade de aprender, orgulhosa do que faz e com sentimentos de que todos (isto é, o abominável Estado que lhes cobra impostos) lhe devem porque eles são o motor da economia. Andam de Mercedes modelo antigo e vestem roupa de marca comprada na feira para afirmarem o seu trabalho. Têm um infinito objectivo de safar o seu, sem grandes preocupações de outra natureza, nomeadamente o bem-estar dos que lhe fazem a produção. E fico a pensar que é para o peditório destes pequenos ou pico-nanos que nos querem convencer a contribuir e encho-me de dúvidas se essa não é uma forma de perpetuar uma classe que entretém, mas não cria, isto é, de meramente adiar um problema, pois o seu destino será sempre o da falência mais tarde ou mais cedo. Penso mesmo se não seria mais justo serem empregados de alguém que soubesse gerir os seus negócios, que é mais isso que têm e não empresas. Nestes pico-nanos vejo muito do que sempre estão prontos a criticar: os golpes dos políticos e parceiros neste país, como dizem, parecendo que não são de cá. Mas, lá no fundo, fica a impressão da inveja que estes pico-nanos têm do salto à Vara. Mas há saltos que só algumas pernas conseguem dar, tenham paciência.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Há luar no Alentejo


E só o silêncio interrompido pelo piar de um mocho, que vem de algures, no início da noite. No nosso primeiro luar ali.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Doutrina

Têm sempre um ar angélico do bem estes economistas que, reiteradamente, nos tentam convencer que só a criação de riqueza permitirá o alcançar do bem-estar. Sem esse esforço (de quem?) restar-nos-á a continuação eterna desta crise de mal-estar. E andamos nisto há décadas. Melhorámos muito apesar dos discursos da desgraça, só que quando uns comem migalhas e os outros as fatias do bolo produzido, mesmo que os migalheiros fiquem de estômago menos vazio, são os que comem quase tudo que quem realmente se enche. No final do processo da criação da riqueza assim concebida não temos ricos menos ricos e pobres menos pobres, enquanto isso suponha aproximação de classes, mas um aumento mais acentuado da riqueza dos já ricos. Não há repartição equitativa e proporcional da riqueza. Mas a tese continua a ser-nos soprada todos os dias como sendo uma necessária maldição.

segunda-feira, novembro 30, 2009

A denúncia da porcaria do sistema


Andava intrigado com alguma má crítica à nova fita do Michael Moore. «Morde a mão que lhe dá de comer» rezava o Expresso, por exemplo. Só isso já prenunciava que o documentário valeria a pena. Há uma identificação precisa do inimigo. Não são os ricos, mas os que vivem entrincheirados no Grande casino por trás da Wall Street. A cena do crime é aí que se passa, aí e em todas as sucursais espalhadas pelo mundo fora. Esta denúncia teria necessariamente de levar ao desespero os que mamam na verdadeira porca, não a da política, mas a do sistema capitalista.

domingo, novembro 29, 2009

Clã

Há alguma aura no clã, mais não seja pelas fotografias Kennedy-like. Agora reparei que todos são médicos e escritores com livros editados. Cada um compila em livro o que tem: um, as conferências, outro as crónicas de jornais, finalmente, o mais escritor, as angústias. Subentende-se a inteligência de que são providos, mas pressente-se a necessidade da eternidade, como se o estar lhes não bastasse.

sábado, novembro 28, 2009

m2

Há coisas assim, chatas sem relevo, por falta de uma dimensão. É o problema do metro quadrado, que com outra dimensão conseguiria finalmente ter volume, exactamente o volume da altura que tivesse.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Sexo genérico

Na fachada da escola secundária ali em Belém, de um lado lê-se sexo feminino, do outro sexo masculino. Era um tempo em que a escola era liceu e, sobretudo, ainda havia sexos. Entretanto, acabaram os sexos e nasceram os géneros. Ainda não percebi por que tiraram o sexo às pessoas. Nos medicamentos não me entusiasmam muito as marcas, mas neste caso suspeito um pouco dos genér(ic)os. Qual a vantagem de ser do género em vez de ser do sexo? Preciosismos ou dúvidas da Biologia?

segunda-feira, novembro 23, 2009

Surpresa

O momento transforma a nossa percepção do acontecimento ou, como é costume dizer-se, só quando passamos por elas sabemos como reagimos. Aquilo que sempre imaginei fosse o sentimento de uma grande festa, não foi exactamente isso quando aconteceu. De repente, dei comigo a sentir um alívio pouco entusiasmado na altura em que passei a esta condição de médico sénior que deixou da fazer serviços de urgência. Será que fui acometido por uma crise demencial súbita e me esqueci de como era incómodo? De uma maneira ou de outra e, exceptuando-se improváveis catástrofes, possivelmente acabou.

sábado, novembro 21, 2009

A casa

É uma casa de muitas histórias. A história de um país onde o pai incitou a filha a emigrar para não limitar o mundo a um país pequeno, para ir cheirar a liberdade. A história de uma vida sofrida, sempre revoltada no sentido certo da liberdade sem tabús. A história das mulheres que vão conquistando cara de homens e, progressivamente, lhes tiram o poder da força, substituindo-o pela força do poder. Provocadora mais que louca, a esta artista vale sempre a pena voltar.
Vale também a visita à Casa sobretudo quando se pode usufruir de uma visita guiada, onde tudo é explicado de forma expressa, quase provocadora também. Sabe bem estar, por um bocadinho que seja, fora, longe, do politicamente correcto.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Jet lag

E cá estou de novo, regressado, a este país. Este país, onde geralmente acontecem coisas que só neste país. Ou só acontecerão neste país porque a maior parte dos que cá estão pensam que é o único país do mundo que ainda não está no mundo, no outro, onde os outros já estão há muito tempo, porque o isolamento ficou-lhe entranhado nos genes, na genética da sua impotência de transformar, de fazer diferente, porque encontram sempre um obstáculo fora deles, mas que lhes mora dentro.
Neste país de todos os corruptos, menos o que acusa os outros de corruptos. Esquece-se o idiota que no julgamento de cada um dos outros está também ele. Neste país onde todos fogem aos impostos, menos o que o diz, esquecendo-se de novo que no dizer de todos os outros também ele não os paga. Neste país onde o fado avança com as novas Amálias, o papa virá a Fátima em breve,o FCP continuará a ser campeão com intermitências do Benfica e a selecção é o orgulho de todos depois das vitórias recentes. Neste país em que lá fora identificam o seu Obama chamando-lhe Ronaldo ou Figo. Neste país que nem já é de plástico, mas de sucata.
Sempre a mesma irritação quando apanho o último avião de ligação para Lisboa.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Coisas da vida

Nesta coisa da vida parece que há uma boa e outra má. Mas andar na má-vida até não será assim tão mau pelo sabor bom que pode ter e estar à boa-vida também não parece ser assim tão bom, pela monotonia que acarreta. Verdadeiramente mais importante ainda é rejeitar a sobrevida, adiando sempre a vida desejável.

quarta-feira, novembro 18, 2009

KSC

Há sítios onde a História se sente de forma próxima. Em Sagres talvez assim seja, aqui, em Cape Canaveral, é com certeza (embora alguns fiquem eternamente cépticos sobre a chegada à Lua). Mas o que se passa aqui vai muito além do folclore. Naquele tempo em que a economia planificada ainda funcionava e permitia inovação tecnológica de ponta, um belo dia esta gente ficou surpreendida e assustada com uma bolinha que andava em órbita e, mal refeitos do susto, eis que um tal de Gagarine foi dar uma volta ao espaço. Preocuparam-se as almas, que as maldades do comunismo ainda um dia lhes haveriam de acertar nas cabeças e um Presidente inovador, veio acalmá-los e dizer-lhes que haviam de ir à Lua. Caíram foguetes uns atrás dos outros antes que o tiro de Julio Verne batesse no alvo. Esta é a história inocente que se vende no Kennedy Space Center, porque a verdadeira razão do desenvolvimento era a sobrevivência ameaçada, pensavem eles, do seu regime. Foi com esta pesquisa que muitas outras coisas feias, muito feias e aqui não mostradas, se tornaram possíveis. Foi também com isto que o Império cresceu.
Mas para além das realidades feias, há aqui uma mensagem simpática: o objectivo é o erro zero e para isso é necessário fazer o esforço máximo. Sim, falhar não é permitido e é necessário pôr tudo na acção. É a parte boa, optimista, no meio da sordidez oculta.

terça-feira, novembro 17, 2009

Apreciação da lucidez

A lição mais importante deste congresso chegou-me, de surpresa, numa comunicação sobre obesidade. Finalmente, começo a ouvir alguém que entende as causas das causas e que diz sem rodeios que de nada vale andar a tentar mudar as pessoas, os seus comportamentos e força de vontade, porque elas irão continuar iguais a si próprias na busca dos caminhos simples e satisfatórios da sua sobrevivência. Sim, insistir na busca da pílula mágica ou da cura pela cirurgia, é uma escolha errada de alvo e quando nem o inimigo se consegue identificar como poderão ganhar-se as guerras. É o ambiente, estúpidos! É, uma vez mais a ganância que neste campo também leva è ruína.
Fico grato a Deborah Cohen pela clareza do discurso, longe das nebulosas diatribes à volta das calorias dos hidratos de carbono, das proteínas e dos lípidos, longe das técnicas de reparação do desastre que são as cirurgias.
Sorrio a pensar que no próximo fim de semana, lá se encontrarão uma vez mais no repouso agitado de mais uma congresso de obesidade, os nacionais-cientistas na mesma discussão de sempre.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Onde está Orlando?

Não é bem uma cidade, mas antes um gigantesco e disperso parque de diversões, onde só se anda de carro ou monorail, sem a oportunidade de se poder caminhar no aperto de passeios que ligam destinos.
Boa mesmo só para gozar o clima de Primavera-Verão em tempo de Inverno. Mas há um grande vazio neste recreio gigante. Ao fim de uns dias ainda nem se percebe muito bem onde se está e onde estão os que aqui trabalham. Sim, porque as cidades, mais que os que as visitam, são os que as habitam. E no meio destes castelos e fantasias de Walt Disney nem sombra se vê das tocas onde estão.

domingo, novembro 15, 2009

A fuga da arbitragem

Temos esta condição de agirmos mesmo quando nos furtamos a agir e das nossas acções sempre resultam consequências. Muitas vezes, em termos pessoais, a acção é mais incómoda que a sua ausência, mas tanto agir como a negação da acção acabam por ter consequências nas vítimas do acto, ainda que efectivamente seja uma inacção. Sempre qualquer decisão de agir ou não deve estar subordinada, por todas estas razões, não à nossa comodidade, mas Às consequências que resultam. Ou seja, os nossos actos devem estar orientados por princípios éticos e não por eventuais cobardias auto-satisfatórias. Contudo, infelizmente, é raro que seja estritamente a ética a ditar a acção. Daí a grande disponibilidade para a desistência perante a incomodidade, agora que se acha ser esperteza o que dantes era cobardia.

sexta-feira, novembro 13, 2009

O isolamento da liberdade

De repente, sou assaltado pela nostalgia daquela imagem de ver uma plateia imensa dentro de um avião em movimentos convulsivos de riso, a verem uma fita do Mr Bean. Era o tempo em que havia uns ecrãs grandes na parede, onde os filmes eram projectados para visão colectiva dos passageiros.
Agora, temos um ecrã pequenino, nas costas do banco da frente e a chamada liberdade de escolha. Cada um vê, ouve, joga aquilo que lhe apetece. Visto da cadeira da coxia da fila 33 há um ecrã de cada cor e assunto diferente nas cadeiras avistadas. Cada um isolado dos outros, sem a liberdade de uma experiência comum. Uma vez por outra vê-se alguém isolado perdido de vontade de rir, mas contendo a extravasão da gargalhado pelo receio do ridículo de se pôr ali no meio dos outros a convulsivar. Dantes era mais fácil pela solidariedade cúmplice dos parceiros de gargalhada. E, desta forma, lá se vai a liberdade individual, afinal. Nas pequenas coisas o mundo vai mudando e eu fico cheio de dúvidas sobre o mérito do sentido da mudança.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Corrupção!

Finalmente uma capa do Correio da Manhã citando um verdadeiro escândalo!

Racionamento

Fez sucesso durante vários encontros de família nos tempos que se seguiram o desejo que manifestei, imediatamente depois de receber um barco naquele Natal dos meus 3 anos de idade. Procurando chaminé acima o Pai Natal, encantado com o barco de plástico beije e vermelho, apertado nas minhas pequenas mãos, expliquei ao ofertante que «agora só falta o mar». Aos 3 anos é ambição para recordar depois com um sorriso.
Passados estes anos, percebo o problema do não racionamento dos desejos. No mundo real da oferta e da procura, percebe-se com facilidade que os nossos desejos estão limitados pelas nossas capacidades de os obter. Geralmente, o poder aquisitivo é o limite. É uma forma triste de nos limitarmos, mas é a que existe.
Quando se introduzem regras de gratuitidade, a tendência natural é para o desregramento do consumo induzido pelo desejo de tudo ter. Esta é a origem da necessidade das regras que racionem os bens desejados. No caso do consumo da saúde, competirá aos técnicos a elaboração das regras, que, tornando acessíveis os cuidados, não levem ao desperdício. E mais vale gastar o tempo na busca dessas regras, do que na procura angustiada da resolução do caos. Pena é, que os técnicos de quem se espera a decisão tenham, na sua ordenação de preocupações muito perto do fim da lista, a resolução dos problemas dos doentes. No cimo da lista estão sempre as preocupações de imagem e os receios das más notícias. É uma estratégia que, ironicamente, os leva com frequência às primeiras páginas dos jornais pelos motivos que menos desejam.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Livro das definições

Coordenador é o tipo que o Chefe escolhe para fazer o trabalho, de que o Chefe receberá os louros quando correr bem depois de nada ter feito além da nomeação. Ao coordenador cabe igualmente sofrer as consequências dos eventuais desastres resultantes do seu trabalho.
Dito de outra forma, coordenador é uma espécie de Ministro do senhor Engenheiro.

sábado, novembro 07, 2009

Era uma casa
Muito engraçada

Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi

Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero

Vinicius

Era uma imaginação de criança, depois cresceu... Quase adulta finalmente.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Se faz favor (continuação)

E continuando temos agora a versão do sff, mude-se o júri que este não convém... No limite, ir-se-á eliminando um júri atrás do outro até se nomear o júri certo... escolhido pelo candidato! E se a moda pega, os júris passarão a ser escolhidos por consenso? E se não houver o consenso, não há concurso?
Se faz favor, alguém pode explicar?

quinta-feira, novembro 05, 2009

Poder

O poder apenas usado para enfeitar não tem sentido. Os discursos saem bem, até podem encher os egos, mas que sentido tem isso se o poder não servir para seguir no rumo que se quer? O poder de não mandar? É um poder do medo, de poderosos assustados. E tudo fica impune.

segunda-feira, novembro 02, 2009

A reforma urgente

Continuam a existir centros de saúde sem sistema informático ou com banda demasiado estreita! Isto significa desperdício, duplicação de exames, terapêuticas repetidas, quebra de continuidade de cuidados, desinformação, solicitação inadequada de consultas, em resumo, esbanjamento de recursos. Com isto estão a ir-nos ao bolso, a delapidar os impostos dos pagantes.
Isto deveria ser motivo de título em parangona grande em todos os jornais, infelizmente, muito mais ocupados com as misérias futebolísticas ou com as formas de estar na política. Isto é corrupção activa por passividade. Tão grave quanto a outra. Isto é, de longe, muito mais importante que a saga da gripe A.
Só uma visão muito estreita pode, nestes dias, recusar a banda larga. E quem não consegue ver, o melhor é reformar-se... com urgência.

Cepticismo ou visão?

Ontem ouvi um russo dizer que a preocupação deles não era tanto a gripe, mas mais a tuberculose multirresistente. Pareceu-me haver ali sabedoria. Por cá vejo que alguns com o receio da gripe, precipitam decisões na tentativa de ficar bem na fotografia e de obter o silêncio cordato dos media. Tudo fazem para que a gripe corra bem. O problema é o da manta curta, neste caso mais agudizado. Tapam de um lado, mas sobra o descoberto do outro. Acabam por evitar a ameaça, mas assumem a exposição das chagas reais. Fazem gripar o funcionamento da máquina, pelo receio dos fantasmas.
Boa sorte e que Deus os acompanhe, que eu não creio.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Jornalismo básico

As circunstâncias da morte não estão esclarecidas e a história tem algumas fragilidades. Uma ideia mais aproximada do que terá acontecido talvez venha a ter-se depois da autópsia.
O que se lamenta desde já é mais esta expressão de jornalismo básico, a exibição da raiva para se venderem mais uns jornais e uns anúncios de televisão, de forma irresponsável, incitando a população a ir aos hospitais exigir análises, contaminar-se e ser contaminada. COM SINAIS DE GRIPE FICA-SE EM CASA E SEGUEM-SE AS INSTRUÇÕES DO SERVIÇO TELEFÓNICO QUE FOI CRIADO! O internamento hospitalar, nesta fase do processo, é para quem necessita de cuidados diferenciados e intensivos.
Estranho também a miséria moral da exibição de uns pais a quem acaba de morrer um filho. Não vi quase expressão de dor, esmagada que estava pela raiva e desejo de vingança. Vivo num mundo de seres diferentes.
Lamento também a asfixia informativa das autoridades de saúde. Há momentos em que a táctica de escapar por entre as gotas da chuva, esperando que passe, não resulta e é necessário dar um murro na mesa.

terça-feira, outubro 27, 2009

O dia é hoje

Enquanto ainda não tinha adormecido na acção de sensibilização à gripe A, pensava para com os meus botões, que a morte só assusta quem está à espera de amanhã para começar a viver. Tranquilo é viver hoje e sorrir virado para o passado fugindo de medos paralisantes. Quando olhamos à volta, percebemos que estamos cheios desta sabedoria, mas alguém necessita, quase de forma desesperada, que tenhamos medo e acreditemos na vida eterna, só que nos não dizem onde nem quando. Não, obrigado!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Os sem-médico

Contam-me sempre histórias parecidas de abandono. Para uma receita têm de ir para a porta do Centro de Saúde às cinco da manhã, falam-me de médicos de recurso, um hoje, outro amanhã, na negação da continuidade de uma relação de confiança médico-doente. Outras vezes também me custa ver a falta de confiança nos seus médicos de família. Sempre lhes vou dizendo que os médicos de família são os mais importantes na promoção da sua saúde, mas quase sempre desconfiam, cheios que estão também desta cultura dominante hospitalocêntrica. Assim, aos poucos vou também sendo médico de família num hospital central.
Não é fácil inverter uma situação onde os recursos estão no sítio errado, quase dois terços nos hospitais e o resto na Medicina Geral e Familiar. Já me choca ver um Ministério centrado quase e só numa gripe (que não h)Á, sem atender aos grandes problemas da Saúde. Por isso, sempre que a oportunidade surge, os incito a usarem os livros de reclamações, a manifestarem-se se necessário, porque não ter médico de família é bem mais grave que não ter um pseudo-serviço de urgência ao fundo da rua. Pena é, que a Imprensa do regime a nada disto consiga dar eco. E vamos criando, mais hospitais uns atrás dos outros, cada vez mais privados com dinheiros públicos a pagarem as contas da sua gestão. Lixados, continuam os sem-médico. E todos nós.

domingo, outubro 25, 2009

Leituras


Parece ser agora, politicamente correcto, fazer a crítica de Saramago, não lhe permitindo ter da Sagrada Bíblia a leitura literal. Quer-se pôr simbolismo e poesia onde sempre se procurou a aceitação literal da dor, do sofrimento terreno para, literalmente, se obter a gratificação por cima das nuvens. Podem os Sagrados livros não dizerem nada do que dizem na escrita fria das palavras, mas alguém se esqueceu descodificar a sua leitura anos demais. E, realmente, dessa forma foi pelo menos usada como livro de maus costumes e de justificação das guerras, pelos seus leitores ou por aqueles que foram transmitindo a sua mensagem para facilitação do poder da classe dominante ao longo dos tempos. Deus pode não ser mau, mas alguém leu as suas obras e omissões de forma a que a injustiça pudesse vingar, impedindo, quantas vezes, a expressão da vontade da correcção do erro por parte dos homens. O Todo-Poderoso foi, com frequência, demasiado liberal abdicando da utilização do Poder, permitindo demasiada liberdade à iniciativa privada. Era bom que tivesse tido uma atitude mais reguladora, impondo a orientação certa do seu enorme conhecimento, mostrando a sua existência. Não o fazendo, tornou-se, literalmente, inexistente, simbólico, talvez. Por isso, Saramago tem razão, porque a Vida é a vida e não uma entidade simbólica, com uma multiplicidade de códigos, que a interpretam.

sexta-feira, outubro 23, 2009

A lição do sol


Já algumas vezes me levantei de madrugada para fazer a tolice de ir ver o nascer do sol. Muitas mais, me pus sentado à beira-mar a vê-lo esconder-se no fim da tarde. Há um encanto diferente nos dois momentos. A frescura da manhã e a passagem do azul escuro com estrelas ao azul claro aliada ao sono com que se presencia o evento, fazem do nascer do sol, seja no Uluru seja no Saara, um momento belo, mas associado a algum desconforto. É preciso algum cansaço no corpo para se aproveitar todo o encanto destas coisas. O nascer do sol é também mais brusco, dura menos e logo se segue a banalidade da subida e o desconfortável aumento da temperatura. Nalgum instante, a pujança do sol, faz-nos procurar a sombra, tentarmos que se esconda. E assim se passa a maior parte do dia, até ao fim da tarde, quando o horizonte se vai alaranjando naquilo que, dizia a minha avó, seria prenúncio de dia solarengo amanhã. Aqui o tempo é mais gostoso e demorado, na mudança progressiva das tonalidades, no avermelhar das nuvens esfarrapadas. Apetece a música, a companhia e, tantas vezes, pão, queijo e um copo de vinho, ajudam ao inebriar dos sentidos. Aos poucos tudo acaba.
A vida é também um dia de sol, mas ao que me parece, sem nascimento no dia seguinte. Por isso, é fundamental que o apogeu, necessariamente agitado, seja rápido, de forma a que o longo caminho final tenha toda a magia colorida do entardecer.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Poderes

Raio de sorte esta que nos faz sentir o poder como dever e não como privilégio, porque se é da natureza do trabalho e não da natureza da honraria. Resta a surpresa de ver os quem me dera nos olhares que nos contemplam. Nessa altura também temos o quem nos dera ser, ainda que só por alguns momentos, dessa forma. Assim, simples, virado somente para o lúdico da coisa e não ter sempre às costas o peso de fazer ou a necessidade de dar utilidade ao poder. Complicado, isto de ter sempre uma missão. Que os resultados nos façam rir aqui e além como compensação do sacrifício do poder.

terça-feira, outubro 20, 2009

O deputado aiatolá

O disparate é livre. E este pindérico eurodeputado não se inibiu na procura dos seus 5 minutos de notoriedade. A diferença de estatuto é total, do crítico nada ficará na memória do tempo, nem mesmo, talvez, a crítica; o criticado será eterno apesar da crítica. A diferença é que um é português e tem a dimensão do mundo. O outro mais um portuguesito apoiante da selecção nacional, de bandeirita à janela.
Serve talvez o episódio para revelar a verdadeira asfixia, a anti-democrática. A bem da Verdade (essa palavra mentirosa em certas bocas) reconheça-se que são reincidentes, os canalhas. Todos nos lembramos do episódio da rejeição do Evangelho, menos serão os que se lembram do nome do autor, que a fama do absurdo é coisa breve. Mas provinha da mesma Inquisição.
Este país é uma pena. Pequeno até nos aiatolás que gera, sem a dimensão dos perseguidores de Rushdie. Onde estavam eles, que disseram sobre ofensas à fé, quando os Versículos vieram a lume?

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neil

segunda-feira, outubro 19, 2009

Estratégia

Se o dia está de sol, de que vale pensar em estratégias para contornar as gotas da chuva? Que venha a molha, que logo se enxuga.

domingo, outubro 18, 2009

Estar no tempo

Como uma bênção este esquecimento de tudo o que tenho para fazer permitiu que o domingo fosse dia santo. O tudo seria assim tão importante que justificasse não ter visto a Madama Butterfly, pela crónica falta de tempo?

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.

F Pessoa

sábado, outubro 17, 2009

O terrorista professor

Acontecem às vezes períodos de hibernação por falta de assunto ou cansaço e indiferença perante os raros temas de comentário. O desligar ocasional do tempo que nos envolve justifica-se perante a ausência de algo que seja relevante dentro de 5 anos. Muitas coisas fantásticas têm apenas reservado o seu lugar em listas raramente consultadas de eventos. Afinal, quem se lembra de quem ganhou a maratona X ou o prémio Nobel Y? Quanto tempo duram esses momentos fantásticos? O que permanece de todos nós e qual o nosso objectivo? Que sentido tem marcar a existência? Quase sempre existimos como as pegadas deixadas na beira-mar à espera da próxima onda, primeiro muito bem delineadas, logo a seguir apenas esboçadas com os contornos mais imprecisos, finalmente a areia retoma a forma original como se nada tivesse acontecido. Apenas fica a geografia e o permanente diálogo dos elementos no escoar do tempo.

Reflectir é uma actividade cada vez mais perigosa e inconsequente nos tempos em que a moda é das poucas formas de gratificação. Voltando ao mar, ir na onda é a maior tranquilidade. Cair do tsunami, então, é o supremo gozo, a adrenalina na sua forma mais intensa. Há quem consiga, outros não. Quando a genética o não permite, há que procurar outros analgésicos que atenuem a dor do irresolúvel. Deve ter nascido aí a ideia dos valores e da moral. Algo a que poucos se apegam, mas serve de lenitivo a alguns.

Há um endeusamento da sobrevivência que nos faz esquecer a importância da vida. Sem notar a idiotice do que dizia, ouvi há dias um guia de um parque zoológico, afirmar convictamente que ali no parque, em cativeiro, os animais viviam mais 10 ou 20 anos, que no seu ambiente natural. Dizia isto como se de coisa vantajosa se tratasse, o pobre sobrevivente. Curiosa esta cultura do medo da morte, que gera todos os outros medos (da gripe, da carne de vaca, do terrorismo e tantos outros), esquecendo o único medo que se justificará, o de adiar a vida na sobrevivência a todo o custo. A morte surgirá inevitavelmente, quer tenha ou não havido vida. É por isso que um quantificador de vida acrescentado todos os dias é tão importante para que, no momento final, não se constate que o conta-vidas está a zeros...

No meio disto, sorrio da importância dos resultados eleitorais,dos jogos dos pequenos poderes dos desatentos. Fico mais interessado e divertido com o horror ao vazio do terrorista que vive em minha casa. Ele percebe que a vida é para ser feita acompanhado e, sempre que o deixam sozinho, reage, sem piedade, de forma bárbara com um atentado diferente todos os dias. Um dia derruba todos os vasos que apanha, noutro despeja os detergentes arrumados no armário, nunca se detém nem conforma com a vidinha que lhe querem impôr. Depois, olha-me sereno, a explicar-me que sobrevivência não é bem que aprecie. Cordial, pede a minha compreensão perante mais um atentado e oferece-me um dos seus brinquedos. Não é o perdão que quer, porque, para ele, como para qualquer terrorista que se preze, melhor será a morte que tal sorte. Determinado, este terrorista que vive em minha casa. Muitas vezes, mais se aprende com este terrorista professor do que com os homens. E para que conste, aqui fica o perfil.

terça-feira, setembro 29, 2009

A comunicação

Neste país, o Sr. Silva fez uma comunicação ao país expressando as suas interpretações pessoais. Por ser parecido fisicamente com o Presidente da República, alguns terão pensado que era o supremo magistrado da nação que estava a falar. Mas isso não deve corresponder à realidade, porque um PR não fala assim. Mais uma vez a imagem é enganadora. Em boa verdade, um PR que falasse daquela maneira só teria uma atitude a tomar: demitir-se, obviamente!

O espaço, o tempo e o poder

Citando a velha senhora, é mais ou menos indiferente estar a 14 m ou a 13,5 m de profundidade. Realmente, só de submarino se consegue andar por lá. Fica assim esclarecida a necessidade nacional de ter comprado os ditos cujos.
Já não sei é se será a mesma coisa divulgar estas investigações hoje ou uma semana antes. Realmente, se as diferenças do espaço poderão até nem ser importantes, certas diferenças de tempo são um pedaço suspeitas.
Grandes são os poderes do Ministério Público e da sua câmara de ressonância.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Dá para os dois lados

Também desta vez, a vaga de fundo da tal maioria silenciosa, não surgiu a inquietar o dia 28 de Setembro. Foi calmamente que o dia se iniciou e nem a agitação de rua foi intensa. Afinal, todos foram deitar-se com algum sentimento de derrota depois de cantarem vitória.
O PS ficou no meio, com possibilidade de dar para os dois lados. A dúvida que persiste agora é saber para que lado se volta este PS. Ficou claro que dum lado tem 10% e do outro 2 vezes quase 10%. A par tem a mesma coisa só que com outra cor. Mas como a mistura do laranja com o rosa deve dar uma cor mal definida para lhe não chamar outro nome mais fétido, em princípio, não irá por aí.
Dizem que há uma maioria de esquerda, esquecendo os que o dizem que isso coloca desse lado um PS, que quanto mais se olha em pormenor o que defende em política económica, internacional, por exemplo, mais parece tender para a direita. Visto desta maneira são mais as semelhanças com o CDS do que com o outro lado e não seria inédito nem estranho que, uma vez mais, renegasse a História. A ver vamos, como diz o cego, porque nesta altura é muito difícil prever para qual dos lados se virará o engenheiro. Ou irá tentar ficar com um pé em cada lado, correndo o risco de cair de pernas abertas um destes dias, partido ao meio.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Asfixia informativa

A imagem com que fico é que isto dos assessores de imprensa devem ser uma espécie de delegados de informação médica. Simpáticos, cordiais, com ar de não quererem vender nada, até trazem informação de pretensa qualidade, tudo, segundo dizem, servido sob uma ética irrepreensível. No meio de uns almoços, deslocações e viagens. A busca de informação de qualidade dá trabalho, é preciso ler livros e revistas, analisar os resultados das investigações. Mal dos médicos, que deixam a sua actualização aos cuidados dos delegados de informação médica. Mal dos doentes que se consultam com tais profissionais.
Como alguns médicos, também os jornalistas estão em risco de satisfazerem a preguiça não procurando a notícia, deixando que ela venha até eles por fontes menos recomendáveis. Fazendo eco do que lhes chega prestam um mau serviço aos seus leitores. Mal dos leitores que tal informação consomem.
É arriscado que um Estado deixe aos pruridos éticos de uns e outros a relação entre os assessores e delegados e os jornalistas e os médicos. Em nome de uma prestação de cuidados capaz e de uma informação de qualidade, seria bom que criasse regras de convivência, que impedissem a promiscuidade e a preguiça. Mesmo que isso levasse ao desemprego de alguns destes profissionais da «informação». A vida ficava mais difícil, mas o ambiente mais respirável. Haveria menos asfixia informativa. Pelo menos os conflitos de interesse das redacções e o enunciado bem destacado da propriedade dos meios de comunicação deveria estar bem patente nas primeiras páginas e nos rodapés dos telejornais.
E, já agora, seria bom lembrar aos mais distraídos a filiação partidária dos Presidentes da República e proibir-se que digam que o são de todos os portugueses. É claro que o não são e que há silêncios que gritam.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O homem dos tabús

Nele, o silêncio é cíclico. Neste momento deve estar a devorar bolos-reis uns atrás dos outros à espera do que pensa ser uma maioria silenciosa. Esperemos que no próximo dia 28 de Setembro lhe aconteça o mesmo que no outro, que a reacção não passe e que, não tendo que fugir para Espanha, assuma as suas responsabilidades e actue em conformidade. Sem tabús.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Belemgate

Será que estou a entender bem? Um assessor do PR, em seu nome, tentou manipular informação com vista a comprometer o Governo e por um deslize informático acabámos por saber que assim foi? E o que foi é que existe um jornal de referência (de que é dono o D Belmiro) que se presta a esta manobra. Em nome do direito à verdade, fico à espera (com urgência) dos novos episódios do Belemgate.

Asfixia

Há muito que foram abandonados os argumentos programáticos e, agora, todo o cerne das campanhas surge cheio de atribuições morais, sobretudo a denúncia da imoralidade dos adversários. É o paga-não-paga impostos, o tem-não-tem acções e PPRs que enche as notícias, ficando os programas, as soluções sem debate ou discussão. Atribuir a falta de moralidade ao inimigo é o único argumento, sobretudo quando as diferenças de programa até são de difícil enumeração. O debate das ideias não dará votos, concluíram.
E os receptores da mensagem estão, efectivamente, cansados de conteúdo. Cada vez mais, mesmo nas conversas banais do dia-a-dia, o debate das ideias é incómodo, chegando a sentir-se ser o debate político, politicamente incorrecto. O país fica cheio de moralistas, críticos de todos sem excepção, parecendo a multidão que critica um conjunto de virgens impolutas. Todos bons pagadores de impostos, todos trabalhadores cuidadosos na satisfação do próximo, impecáveis pais e mães de família, sem ponta de egoísmo ou ganância nas suas acções. Uma coisa os une, a vontade exclusiva de conversar sobre o tempo que faz, o futebol os mexericos cor-de-rosa. Tudo o mais é tabú neste mundo social asfixiado pelas conveniências de classe. O mais angustiante vazio neste ar que se respira.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Mulher de Lata

Pérolas de Manuela Ferreira Leite que atestam a mentira da verdade. Disse a Senhora nos Açores:
1. "José Sócrates tem um projecto de natureza pessoal para se manter no poder, só pode ser de natureza pessoal, não pode ser pelo País." Em boa verdade, não disse qual era o projecto, é uma convicção dela, sem provas mostradas e grave, porque caluniosa. Dá para fazer títulos de jornais, mas não vai além da calúnia.
2. Sócrates, um homem que, diz, "inventa calúnias" e "só gosta de quem gosta dele e de quem o apoia". "Não é possível em democracia que o apelo ao voto seja feito com base no engano", sublinhou. Pode ser que invente calúnias, mas nada que se compare ao que outros têm feito até agora contra ele nessa matéria. Por outro lado, gostos são gostos e é natural que gostemos dos nossos. Nesta matéria MFL é muito mais radical, quem diverge dela é pura e simplesmente afastado. A intolerante, se não me engano, e com provas dadas é ela. Portanto tem razão na última frase, é indecente fazer apelos ao voto com base no engano.
3. Depois este retrato do país (com anotações minhas): Visto dos Açores (deve ser um problema de visão, coisas da idade), Portugal está pior do que nunca (onde andava ela antes de Abril?). A Saúde está de braços cruzados (inspirada numa imagem dos folhetos de promoção de clínicas privadas), a Educação está de costas voltadas (os professores finalmente começaram a dar aulas e a escrever nos quadros), a Justiça está de joelhos (que me perdoem os muçulmanos, mas seria pior noutras posições de oração), a Segurança está de cabeça perdida (decapitações em esquadras foi noutras ocasiões, se bem me recordo), a Economia está com a corda ao pescoço (é justo depois das falcatruas feitas que sigam o exemplo de Egas Moniz). E como se não bastasse, os trabalhadores protestam nas ruas (preferiria as manifestações de estudantes do tempo em que governou?) e as famílias desesperam na banca (estará a falar do BPN dos seus correlegionários ou será por causa da redução dos spreads?)", realçou.

Esta senhora que tenta dar de si a imagem da Dama de Ferro, não consegue ser,realmente, mais que uma Mulher de Lata.

domingo, setembro 13, 2009

Surpresas

Não é por mal que se pergunta, tudo bem?. É somente por rotina, para calar o silêncio em que nos desabituámos de estar. No meio da bruma destes dias, acena-se que sim, claro! quando a vontade era mais chamar idiota à pergunta, dizer, mas que raio tem você a ver com isso que pergunta. Somos incapazes de respeitar os espaços uns dos outros, por hábitos, por rotinas politicamente certas e nada é feito por mal, embora faça mal e apeteça responder à chicotada.
Mesmo quando ainda nos sentimos como se tivéssemos 30 anos, afinal, quem quase os tem são já os nossos filhos e nós passámos a ter o estatuto e direito a estar com as doenças que aparecem depois dos 50, mesmo que, lendo a sua descrição, achemos que aquilo não nos assenta bem. De repente, envelhecemos uma data de anos. Subitamente, percebi que o envelhecimento não é uma mais-valia de experiências feita, mas um conjunto de sintomas vagos encontrados em muitas doenças. Por isso, o envelhecimento como valor acrescentado é, necessariamente, um diagnóstico de exclusão depois de terem sido eliminadas todas as outras. Apenas, nessa altura.

sábado, setembro 12, 2009

Debate

Do que vi a professora foi a aluna mal preparada e o engenheiro o examinador implacável. Foi tão forte o questionário e tão frágil a candidata, que apenas se pode, honestamente, propor-lhe que volte na próxima época ou que desista da função. Só que desistir é impossível e, pela idade, esta era a última oportunidade. Ao pé desta candidata, quase parece que José Sócrates é o único PM viável. Este país já está mal servido de PR, porque se enganou da outra vez. Será bom que não repita o erro e arranje uma PM ao nível. Com representantes desses, são os representados que perdem, mas a história recente mostra que nos Estados Unidos, ainda há não muito tempo foi isso que aconteceu: uma maioria da população passou pela vergonha de manter Bush a dar aquela miserável imagem da América ao mundo.
Ainda assim, espera-se que daqui a 15 dias, um desastre idêntico não nos venha a afectar. Numa terra de seres pensantes, depois do que se viu, a coisa estaria decidida. Mas nada garante que seja o caso e que mais casos insinuados não venham, no desespero final, alterar o resultado deste jogo. Mas quando as ideias faltam, da direita desesperada todo o terrorismo é de esperar.

sexta-feira, setembro 11, 2009

As aulas começaram?

Havia uma fila maior quando descia a rua hoje de manhã. Será que começaram as aulas? A Ministra da Educação foi uma nódoa, dizem os professores. Mas não me lembro de nos anos anteriores ter havido um início de aulas como este. A ausência de notícias sobre o facto, leva-me a crer que foi um anormal início normal das aulas. Não era a isto que estávamos habituados.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Caminhos

Há caminhos que mais não são que atalhos, estreitas veredas de mau piso. Mas é nas estradas secundárias que mais se aprecia o percurso, não necessariamente nas auto-estradas. O gozo é a atenção ao prazer.

terça-feira, setembro 08, 2009

Como nunca os vimos

Às vezes acontece televisão inteligente e para quem quiser aproveitar poderá ser até mais esclarecedor que aquelas conversas assépticas, regradas por tico-ticos da certificação do debate, onde apenas se assiste à mesma festa do costume de malhar no mesmo. Esses debates que levam a que o título do dia seguinte seja PCP e CDS concordam qualquer coisa, porque no calor da refrega anti-inimigo comum se esquecem de realçar e se atacarem nas suas discordâncias.
Mostrar as pessoas, poderá ser mais esclarecedor, mas será necessário desmontar a eventual representação induzida pelo marketing que se irá adaptar a este tipo de notícia e possivelmente controlar a sua eficácia. Para começar e antes dos truques tiveram a sorte de o primeiro entrevistado ter sido este. Espera-se que faça a diferença, porque, afinal, é diferente e os políticos não são todos iguais, ao contrário, do que a propaganda insinua numa sofisticada desmotivação da participação. Mas não participar é o mais perigoso de tudo como já bem reconhecia Platão: «A penalização por não participares na política é acabares a ser governado pelos teus inferiores.» Ou seja o fenómeno não é novo, antes induzido pelos poderosos de sempre na ânsia de perpetuação do seu poder.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Negro

Há depois aqueles instantes em que se acabam os objectivos, as estratégias e fica um enorme vazio de certezas. Afinal, nem se percebe o percurso andado quanto mais o que falta percorrer e só as dúvidas cavalgam sobre o nosso lombo. Fica um enorme peso no ar e é como se as cores todas tivessem fugido do quadro reduzindo-o a um negro absoluto em que o tempo parou. Onde está a ponta da BIC com que vamos criar a linha raspando o óleo a mais para ressurgir a forma nova?

sexta-feira, setembro 04, 2009

Inseguros

A justeza do lucro privado está no grau de risco que assumem. Dizem. Na teoria, porque na prática, a verdade é outra bem distinta. O lucro privado provem mais da ganância do que de qualquer justiça. Por isso, é normal que as seguradoras ajam desta forma. O que é absolutamente anormal é pensar-se que há formas de substituir o Estado (todos nós, solidariamente) nas despesas da Saúde. Com os privados será sempre assim, quando a coisa der para o torto, venha o Estado pagar. Foi assim com a Banca, é assim com as seguradoras. A natureza deles é o lucro, o não pagamentos dos impostos, a ganância, a geração de valor. Está a fazer um ano que assistimos à hecatombe da economia liberal, mas a memória é curta e a reflexão proibida. Por que aconteceu? Pela natureza do sistema, direi eu.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Ponto final

Se a Verdade fosse a sua preocupação, hoje teríamos a Dra. Manuela a celebrar o fim do escarro jornalístico que eram os telejornais da sexta-feira. Aquele jornalismo caceteiro, manipulador, desinformativo há muito que deveria ter sido posto a andar assim como a sua mentora. A posição CORPORATIVA do Sindicato percebe-se. Às corporações interessará sempre mais defender os seus do que a Ética. Já é um pouco estranho ver esta gentinha muito direitinha da política nacional vir pôr em causa uma decisão de um conselho de administração de uma empresa privada. Ainda mais triste é ver a falta de verticalidade, de coluna vertebral que a esquerda também aqui demonstra ao não denunciar com energia o nojo a que algum jornalismo descia. Realmente, não devia valer tudo, porque a seguir esse princípio, em breve nada vale nada.
E se a grande boca se preparava para amanhã voltar a vomitar o fel que lhe ia dentro, pois que o faça. Certamente, não faltarão locais onde o pode expressar, incluindo a Judiciária onde poderá apresentar as suas provas. Ou será que só tem insinuações felinas (com fel, entenda-se)?

Se faz favor...

No futebol temos notícia de que os árbitros são encomendados, rejeitados, aprovados ao longo da semana em múltiplos telefonemas por vezes gravados às escondidas dos autores. O jogo sai depois como se sabe.
Na carreira médica a coisa é mais linear: pede-se, por escrito, a um dos candidatos a um concurso que nomeie o júri que há-de escolher quem virá a ter o lugar em disputa. O resultado é conhecido antes do próprio jogo. Para que se vai ao campo?
Ainda aqui, o futebol, pela sua discrição, parece ser uma escola melhor, com algum savoir faire.

quarta-feira, setembro 02, 2009

O bobo da SIC

Tem um ar de avozinho matreiro e arranjou uma cantiga que vai repetindo ora aqui, ora acolá. O refrão anda à volta de qualquer coisa do género os políticos não valem nada, o país está a ir ao fundo. Soluções, deve haver, embora as não saiba. É um Dr. House, sem terapêuticas para salvar o doente. Temos de produzir mais e consumir o que pudermos é uma mensagem do senso comum que não necessitaria ser dita por um professor, economista e com outros títulos. Mas quando fala em produzir, apenas se refere a batatas e couves, numa visão muito rural do problema. Tecnologia não parece dizer-lhe nada. À primeira vez, o espanto colhe-nos pelo insólito; à segunda ainda sorrimos, pela traquinice; mas depois, o cansaço instala-se e resta-nos a visão condescendente de que estamos perante o bobo da SIC. Sem medidas e com pouca carreira.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Costumes

Por agora, a diferença aparente é a modernidade e a tradição. A política é de costumes e a Economia não é tema. Só que no final de cada mês, mais que os costumes, é a Economia que impera. Mas manda o marketing que se mostrem as diferenças e nalgumas coisas as igualdades gritam. Se calhar nas mais fundamentais. Começo a pensar que mais coisa menos coisa, acabarão em união de facto abençoados pelo Papa e sem direito a separação.

domingo, agosto 30, 2009

Também o vento leste

Nos Estados Unidos, foi por já ninguém suportar mais o discurso guerreiro da mentira e pelo trambolhão económico em que caíram com a ilusão do fim do Estado. No Japão, onde são teimosos e tementes ao poder como os burros, também hoje o Estado vai começar a existir mais um pouco, possivelmente.
São as duas maiores economias mundiais a perceberem o óbvio. Por cá anda a mentira travestida de verdade a tentar convencer-nos do contrário.

Obviamente, mais Estado

À estafada cantiga do menos Estado, bom seria que outros o afirmassem, promovendo o melhor Estado. A memória é curta ou a ambição excessiva e as saudades imensas, mas menos Estado foi o que permitiu a evolução recente da História, a roubalheira desenfreada do poder e seus amigos. É o menos Estado que encalhou recentemente a linha Saúde 24, o outsourcing incontrolável. Mas esta gente sem memória não aprende, ou não quer aprender, governados que estão pelo desejo inconfessado do regresso à liberdade individual dos mesmos de sempre, gerador da opressão do mesmo colectivo conhecido. Melhor Estado, como já se vai tendo, quando as certidões são passadas na hora, quando se espera menos por consultas e cirurgias, quando mais jovens são educados mais tempo. Melhor Estado necessário, quando a Justiça for acelerada, dependendo menos das artimanhas processuais de advogados privados, quando se simplificarem processos na busca da eficiência. Melhor Estado fundamental, quando houver Imprensa independente, não controlada pelo poder económico, debitadora de um pensamento único.
Duvido da bondade dos homens, individualmente considerados. Se isso ainda puder ser dito e fazer sentido. Obviamente, é necessário mais Estado.

sexta-feira, agosto 28, 2009

A fuga dos médicos

A empresa GlobalMediRec colocou um anúncio no portal da Ordem dos Médicos para contratar 15 clínicos portugueses para hospitais públicos ingleses, pagando entre 6750 e 7900 euros brutos por mês. Médicos e sindicatos alertam para o perigo de muitos profissionais abandonarem o País numa altura em que também faltam recursos nas nossas unidades de saúde Publicado em DN de hoje com alarme e comentários de fazer chorar a rir.
Muitos profissionais abandonarem o país!!? De acordo com a própria notícia, serão 15!! Ainda há poucos dias foram recrutados uns 40 e tal cubanos... para virem trabalhar em Portugal. Este pânico da saída para os privados é recorrente, como se os privados fossem tão pouco criterioso como os serviços públicos na gestão dos recursos. Trata-se do mercado, estúpidos! Ou como diria o PM, são as novas oportunidades.

domingo, agosto 23, 2009

O vale tudo da alta competição

O jamaicano que voa não será o mais importante do actual campeonato do mundo de atletismo. A revelação, uma vez mais, da ausência de ética do «desporto» de alta competição será o factor mais marcante destes jogos. Há uma menina de 18 anos, que perante todo o mundo vê o seu género sexual ser posto em causa. Como isto é diferente dos cuidados que temos, naturalmente, perante uma jovem adulta com síndrome de insensibilidade aos androgénios, por exemplo. Apesar de atleta, por trás disso há uma pessoa. Mas parece que a este nível, apenas existem, resultados, promoções de marcas e as pessoas, na verdade, pouco contam.

sábado, agosto 22, 2009

Simplex informativo

Caiu uma arriba no Algarve, obviamente, por culpa do governo. Tenho quase a certeza que, se nesta altura houvesse um atentado que destruísse a ponte sobre o Tejo, a imprensa não hesitaria em condenar o Governo pela falha numa qualquer medida de prevenção. Dificilmente, nesse caso se poderia assacar alguma responsabilidade à alternativa aos males da terra, o Hospital de Santa Maria. E não sendo esse o culpado, restava o outro. Expressamente, a imprensa simplex: então já sabiam há dois anos e nada?

sexta-feira, agosto 21, 2009

Território

No início havia os ares, as terras e os mares e nenhum registo predial atribuía a alguém cada uma das suas partes. Depois, possivelmente, pelo medo das fomes ou então pela malvadez da natureza humana, essa realidade ainda inexpugnável, tudo passou a ficar delineado em confrontações referenciadas por pedras colocadas nas pontas do mundo de cada qual. Nasceram os vizinhos, as fronteiras e as guerras também para desenvolver a economia e dar consistência ao sistema. Com certeza, que os homens aprenderam isto na escola dos cães.
Foi o dia adequado para ver The Visitor, um exercício de reflexão sobre a América cercada por medos internos e intensos, negando a sua maior virtude, a tolerância dos estranhos.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Jesusalém

Havendo uma história para contar é possível escrevê-la, mas disso pode apenas resultar um livro policial ou um best-seller, quando se anda na televisão. Diferente será fazer um livro de contos ou um romance. Para isso não basta haver uma história apenas, tem de haver também a escolha das palavras que a contam. Podem imaginar-se as palavras todas emaranhadas dentro de uma enorme caixa, a caixa das palavras, coberta por um pano preto, por onde entram mãos sábias na busca das melhores palavras. Quando as mãos são realmente sábias, as palavras saem lá de dentro alinhadas num texto que mostra os cheiros, as cores, as texturas, um mundo todo novo e inesperado. Um romance deve nascer como uma escultura, da pedra, pela eliminação da pedra excedente. Ao fim de muito martelar fica a maciez da forma capaz de encantar os olhos.
É também disto que as férias se fazem, do tempo de leitura. Nestas fui levado a Jesusalém (Mia Couto) numa viagem parecida com outra há já muitos anos, também numa praia, quando apreciei igualmente surpreendido a lisura do texto da construção do convento de Mafra. Agora, senti-me menino à volta da fogueira, em noites quentes com silêncios de rastos de bichos e luzes lá no alto, muito longe. Os romances permitem sentir o rigor da extração da pedra supérflua. Nada têm que ver com os best-sellers.

terça-feira, agosto 18, 2009

Tempo esticado

Na maioria dos dias vamos andando no tempo e acontece-nos chegar ao fim do dia sem ter percebeido o caminho que fizemos nele, como se não tivésemos saído do mesmo lugar no passeio que nele se faz.
Nas férias, ao fim de uns dias, acontece um tempo diferente, o tempo de férias. Chega-se às 2 da tarde, encontra-se a vizinha que vem a chegar e digo, bom-dia com a sensação de serem 11 da manhã. O tempo esticou. Estou de férias, então. Sem qualquer necessidade de relógio.

segunda-feira, agosto 17, 2009

A economia nas Caldas

Ao lado fica um prédio já em pré-ruína na ferrugem dos vãos e nas paredes a descascar. Era antiga fábrica. Subsiste apenas um amplo espaço onde os restos das colecções ainda vão preenchendo prateleiras entre outras já vazias. As peças expostas a preços de oferta têm pressa de sair dali. Existe essa pressa no ar e até no olhar ainda sorridente da funcionária e no outro mais cansado do segurança sentado lá num canto junto à porta. Há uma súplica de esvaziamento em tudo isto. Uma vontade de fim neste resto de memória de uma empresa produtora de cerâmica, exportadora, geradora nesses tempos de receitas para o lado certo da balança comercial.
A pouca distância ergueu-se um modernaço shopping-center de arquitectura viva, preenchido de loja e de gentes ambulantes frente às montras. Um eucaliptal de comércio a secar o tradicional da rua das Montras. na sua pujança criou emprego. Talvez alguns tenham até transitado da Secla ali ao lado. As lojas são as mesmas de sempre com os nomes ingleses e italianos que os donos espanhóis lhes puseram. Tudo a gerar receitas para a coluna errada da balança comercial.
Esta tem sido a história económica deste país nos últimos anos. A destruição da produção e a implementação crescente do consumo num país entregue às vedetas do alterne PS-PSD/CDS. Estas são as políticas que, realmente, hipotecam o país.

domingo, agosto 16, 2009

Com Sul e sem sol

Dois dias depois, começo a ter saudades do sol. Sobretudo por estar a ler o Sul do Miguel Sousa Tavares. Fico envergonhado ao perceber que a escrita pode fazer-nos sentir o sol, mesmo quando no texto sobressai um elitismo, talvez bem intencionado. Tendencioso, com certeza, quando em Cabo Verde ouve gritar os golos do FCP. O que eu vi foram as bandeiras do Benfica! São os caminhos diferentes que nos mostram mundos diversos.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Greve

Estar de férias é ficar num sítio diferente. Aqui tem-se essa ilusão, ouve-se inglês nas falas dos vizinhos e sente-se a humidade do nevoeiro. Fico longe das notícias do país ainda que dentro dele. De férias foi o sol para parte incerta.

quinta-feira, agosto 13, 2009

CV

Missão cumprida. Um texto pequeno a resumir uma vida. Bastaram duas dúzias de páginas e fica tudo contado por agora. Um dia logo se vê.