sábado, dezembro 12, 2009
Evolução
Quase os mesmos sorrisos, mas com maior consistência. Há árvores que não havia antes. O futuro é já ali.
quinta-feira, dezembro 10, 2009
O ónus da prova
Foi num Natal de há muitos anos. Apareci em casa com um burro de plástico cuja origem não se percebia de onde vinha. Era uma pequena figura de presépio. Acontece que os meus rendimentos na altura não eram compatíveis com a propriedade que exibia. Porque não havia, na altura, direitos constitucionais sobre o ónus da prova, a questão foi resolvida rapidamente depois de um inquérito sumário em que ficou demonstrado que o bicho fora adquirido por via anómala.
Se fosse agora tudo seria diferente. Caberia à Justiça descobrir a origem do cavalo, ir ao local do furto, marcar com umas plaquinhas numéricas os pontos de vestígios do furto, encontrar, cientificamente com DNA e tudo, as provas e depois de construírem uma teoria sobre o caso lá me viriam confrontar com a acusação. Seria possível que nessa altura já eu não me lembrasse da história…
Sem a protecção constitucional, a história acabou com a confissão do delito, a devolução do burro a quem de direito e com umas chineladas do rabo.
Se fosse agora tudo seria diferente. Caberia à Justiça descobrir a origem do cavalo, ir ao local do furto, marcar com umas plaquinhas numéricas os pontos de vestígios do furto, encontrar, cientificamente com DNA e tudo, as provas e depois de construírem uma teoria sobre o caso lá me viriam confrontar com a acusação. Seria possível que nessa altura já eu não me lembrasse da história…
Sem a protecção constitucional, a história acabou com a confissão do delito, a devolução do burro a quem de direito e com umas chineladas do rabo.
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Palhaços?
Tenho saudades das boas discussões políticas no tempo em que a política era a discussão das ideias que resolveriam problemas. Hoje em vez de o fazerem, os políticos limitam-se à discussão dos problemas de carácter dos adversários. É um festim para os jornalistas, mas nada resolve. No público reforça-se a ideia de que são todos iguais, quando, na verdade, nem é bem assim. Há uns mais palhaços do que os outros.
terça-feira, dezembro 08, 2009
Quinta livro
Quase ao cimo, o poço que descido nos permite ver, de dentro da terra, o céu no alto. E de lá se sai atravessando as águas. Mas não só, toda esta quinta é uma sucessão de pedras que falam numa obra de criação induzida pelo conhecimento do mundo. Fica-se sempre grande quando se conhecem novos mundos nas viagens que se fazem. Uma casa pode além de ser um abrigo, um livro que conta uma história que interpreta uma concepção de mundo.
segunda-feira, dezembro 07, 2009
A difícil economia
Raciocínios macroeconómicos feitos por uma médico devem comportar os mesmos riscos que uma cirurgia feita por economistas. Mas se estes são capazes de elaborar sobre medicina, também a um médico não deve ser vedada a ousadia de perorar sobre economia. Assim nos podemos sorrir uns dos outros.
Ao contrário da Medicina que sendo uma ciência estatística, é bem sabido não ter rigor matemático, a Economia é uma ciência conotada com os números, só que são tantas as formas de apresentar as contas que conseguem obter-se resultados para todas as explicações. E quanto a previsões, recorrem geralmente à teoria do João Pinto sobre os prognósticos.
A Economia é uma ciência tão complicada que nem se ousa ensiná-la ao comum dos mortais. Por isso, todos a temos de aprender na Vida. Para um simples médico a Economia é uma diferença entre o que se produz e o que se gasta, sendo que não é sustentável gastar-se sempre mais do que o produzido. Nas interacções que temos, conseguimos atingir um estádio em que, nas várias intermediações que temos uns com os outros, a produção da riqueza consegue eximir-se à diferença entre produção e consumo. E assim nasceram os actuais ricos, que muitas vezes nada produziram, uns estimulando apenas o consumo, outros elaborando fantasias emocionais sobre como expandir o capital no Grande Casino. Quem manda tem mantido a ilusão com os sobressaltos conhecidos. Até quando durará?
Ao contrário da Medicina que sendo uma ciência estatística, é bem sabido não ter rigor matemático, a Economia é uma ciência conotada com os números, só que são tantas as formas de apresentar as contas que conseguem obter-se resultados para todas as explicações. E quanto a previsões, recorrem geralmente à teoria do João Pinto sobre os prognósticos.
A Economia é uma ciência tão complicada que nem se ousa ensiná-la ao comum dos mortais. Por isso, todos a temos de aprender na Vida. Para um simples médico a Economia é uma diferença entre o que se produz e o que se gasta, sendo que não é sustentável gastar-se sempre mais do que o produzido. Nas interacções que temos, conseguimos atingir um estádio em que, nas várias intermediações que temos uns com os outros, a produção da riqueza consegue eximir-se à diferença entre produção e consumo. E assim nasceram os actuais ricos, que muitas vezes nada produziram, uns estimulando apenas o consumo, outros elaborando fantasias emocionais sobre como expandir o capital no Grande Casino. Quem manda tem mantido a ilusão com os sobressaltos conhecidos. Até quando durará?
sexta-feira, dezembro 04, 2009
Salto à Vara no país dos pico-nanos
A grande tese da direita mais assumida é que estando o emprego dependente fundamentalmente das pequenas e médias empresas, o combate ao desemprego passa pelo apoio a esses empresários. Nos últimos tempos, tenho tido alguns contactos com eles, com donos de alguns negócios (as chamadas empresas) onde se produzem janelas, portas, instalações de águas, aquecimentos e por aí e tenho-me apercebido da sua iliteracia, do seu saber adquirido apenas e muitas vezes por tradição familiar, da sua facilidade da concepção do trabalho, lentidão da sua execução, incumprimento de prazos, alheamento da inovação e já nem se fala da falta de vontade de pagar impostos. São gente que não aprendeu a gerir, executa tradicionalmente e não tem vontade de aprender, orgulhosa do que faz e com sentimentos de que todos (isto é, o abominável Estado que lhes cobra impostos) lhe devem porque eles são o motor da economia. Andam de Mercedes modelo antigo e vestem roupa de marca comprada na feira para afirmarem o seu trabalho. Têm um infinito objectivo de safar o seu, sem grandes preocupações de outra natureza, nomeadamente o bem-estar dos que lhe fazem a produção. E fico a pensar que é para o peditório destes pequenos ou pico-nanos que nos querem convencer a contribuir e encho-me de dúvidas se essa não é uma forma de perpetuar uma classe que entretém, mas não cria, isto é, de meramente adiar um problema, pois o seu destino será sempre o da falência mais tarde ou mais cedo. Penso mesmo se não seria mais justo serem empregados de alguém que soubesse gerir os seus negócios, que é mais isso que têm e não empresas. Nestes pico-nanos vejo muito do que sempre estão prontos a criticar: os golpes dos políticos e parceiros neste país, como dizem, parecendo que não são de cá. Mas, lá no fundo, fica a impressão da inveja que estes pico-nanos têm do salto à Vara. Mas há saltos que só algumas pernas conseguem dar, tenham paciência.
quinta-feira, dezembro 03, 2009
Há luar no Alentejo
quarta-feira, dezembro 02, 2009
Doutrina
Têm sempre um ar angélico do bem estes economistas que, reiteradamente, nos tentam convencer que só a criação de riqueza permitirá o alcançar do bem-estar. Sem esse esforço (de quem?) restar-nos-á a continuação eterna desta crise de mal-estar. E andamos nisto há décadas. Melhorámos muito apesar dos discursos da desgraça, só que quando uns comem migalhas e os outros as fatias do bolo produzido, mesmo que os migalheiros fiquem de estômago menos vazio, são os que comem quase tudo que quem realmente se enche. No final do processo da criação da riqueza assim concebida não temos ricos menos ricos e pobres menos pobres, enquanto isso suponha aproximação de classes, mas um aumento mais acentuado da riqueza dos já ricos. Não há repartição equitativa e proporcional da riqueza. Mas a tese continua a ser-nos soprada todos os dias como sendo uma necessária maldição.
segunda-feira, novembro 30, 2009
A denúncia da porcaria do sistema

Andava intrigado com alguma má crítica à nova fita do Michael Moore. «Morde a mão que lhe dá de comer» rezava o Expresso, por exemplo. Só isso já prenunciava que o documentário valeria a pena. Há uma identificação precisa do inimigo. Não são os ricos, mas os que vivem entrincheirados no Grande casino por trás da Wall Street. A cena do crime é aí que se passa, aí e em todas as sucursais espalhadas pelo mundo fora. Esta denúncia teria necessariamente de levar ao desespero os que mamam na verdadeira porca, não a da política, mas a do sistema capitalista.
domingo, novembro 29, 2009
Clã
Há alguma aura no clã, mais não seja pelas fotografias Kennedy-like. Agora reparei que todos são médicos e escritores com livros editados. Cada um compila em livro o que tem: um, as conferências, outro as crónicas de jornais, finalmente, o mais escritor, as angústias. Subentende-se a inteligência de que são providos, mas pressente-se a necessidade da eternidade, como se o estar lhes não bastasse.
sábado, novembro 28, 2009
m2
Há coisas assim, chatas sem relevo, por falta de uma dimensão. É o problema do metro quadrado, que com outra dimensão conseguiria finalmente ter volume, exactamente o volume da altura que tivesse.
sexta-feira, novembro 27, 2009
Sexo genérico
Na fachada da escola secundária ali em Belém, de um lado lê-se sexo feminino, do outro sexo masculino. Era um tempo em que a escola era liceu e, sobretudo, ainda havia sexos. Entretanto, acabaram os sexos e nasceram os géneros. Ainda não percebi por que tiraram o sexo às pessoas. Nos medicamentos não me entusiasmam muito as marcas, mas neste caso suspeito um pouco dos genér(ic)os. Qual a vantagem de ser do género em vez de ser do sexo? Preciosismos ou dúvidas da Biologia?
segunda-feira, novembro 23, 2009
Surpresa
O momento transforma a nossa percepção do acontecimento ou, como é costume dizer-se, só quando passamos por elas sabemos como reagimos. Aquilo que sempre imaginei fosse o sentimento de uma grande festa, não foi exactamente isso quando aconteceu. De repente, dei comigo a sentir um alívio pouco entusiasmado na altura em que passei a esta condição de médico sénior que deixou da fazer serviços de urgência. Será que fui acometido por uma crise demencial súbita e me esqueci de como era incómodo? De uma maneira ou de outra e, exceptuando-se improváveis catástrofes, possivelmente acabou.
sábado, novembro 21, 2009
A casa
É uma casa de muitas histórias. A história de um país onde o pai incitou a filha a emigrar para não limitar o mundo a um país pequeno, para ir cheirar a liberdade. A história de uma vida sofrida, sempre revoltada no sentido certo da liberdade sem tabús. A história das mulheres que vão conquistando cara de homens e, progressivamente, lhes tiram o poder da força, substituindo-o pela força do poder. Provocadora mais que louca, a esta artista vale sempre a pena voltar.
Vale também a visita à Casa sobretudo quando se pode usufruir de uma visita guiada, onde tudo é explicado de forma expressa, quase provocadora também. Sabe bem estar, por um bocadinho que seja, fora, longe, do politicamente correcto.
Vale também a visita à Casa sobretudo quando se pode usufruir de uma visita guiada, onde tudo é explicado de forma expressa, quase provocadora também. Sabe bem estar, por um bocadinho que seja, fora, longe, do politicamente correcto.
sexta-feira, novembro 20, 2009
Jet lag
E cá estou de novo, regressado, a este país. Este país, onde geralmente acontecem coisas que só neste país. Ou só acontecerão neste país porque a maior parte dos que cá estão pensam que é o único país do mundo que ainda não está no mundo, no outro, onde os outros já estão há muito tempo, porque o isolamento ficou-lhe entranhado nos genes, na genética da sua impotência de transformar, de fazer diferente, porque encontram sempre um obstáculo fora deles, mas que lhes mora dentro.
Neste país de todos os corruptos, menos o que acusa os outros de corruptos. Esquece-se o idiota que no julgamento de cada um dos outros está também ele. Neste país onde todos fogem aos impostos, menos o que o diz, esquecendo-se de novo que no dizer de todos os outros também ele não os paga. Neste país onde o fado avança com as novas Amálias, o papa virá a Fátima em breve,o FCP continuará a ser campeão com intermitências do Benfica e a selecção é o orgulho de todos depois das vitórias recentes. Neste país em que lá fora identificam o seu Obama chamando-lhe Ronaldo ou Figo. Neste país que nem já é de plástico, mas de sucata.
Sempre a mesma irritação quando apanho o último avião de ligação para Lisboa.
Neste país de todos os corruptos, menos o que acusa os outros de corruptos. Esquece-se o idiota que no julgamento de cada um dos outros está também ele. Neste país onde todos fogem aos impostos, menos o que o diz, esquecendo-se de novo que no dizer de todos os outros também ele não os paga. Neste país onde o fado avança com as novas Amálias, o papa virá a Fátima em breve,o FCP continuará a ser campeão com intermitências do Benfica e a selecção é o orgulho de todos depois das vitórias recentes. Neste país em que lá fora identificam o seu Obama chamando-lhe Ronaldo ou Figo. Neste país que nem já é de plástico, mas de sucata.
Sempre a mesma irritação quando apanho o último avião de ligação para Lisboa.
quinta-feira, novembro 19, 2009
Coisas da vida
Nesta coisa da vida parece que há uma boa e outra má. Mas andar na má-vida até não será assim tão mau pelo sabor bom que pode ter e estar à boa-vida também não parece ser assim tão bom, pela monotonia que acarreta. Verdadeiramente mais importante ainda é rejeitar a sobrevida, adiando sempre a vida desejável.
quarta-feira, novembro 18, 2009
KSC
Há sítios onde a História se sente de forma próxima. Em Sagres talvez assim seja, aqui, em Cape Canaveral, é com certeza (embora alguns fiquem eternamente cépticos sobre a chegada à Lua). Mas o que se passa aqui vai muito além do folclore. Naquele tempo em que a economia planificada ainda funcionava e permitia inovação tecnológica de ponta, um belo dia esta gente ficou surpreendida e assustada com uma bolinha que andava em órbita e, mal refeitos do susto, eis que um tal de Gagarine foi dar uma volta ao espaço. Preocuparam-se as almas, que as maldades do comunismo ainda um dia lhes haveriam de acertar nas cabeças e um Presidente inovador, veio acalmá-los e dizer-lhes que haviam de ir à Lua. Caíram foguetes uns atrás dos outros antes que o tiro de Julio Verne batesse no alvo. Esta é a história inocente que se vende no Kennedy Space Center, porque a verdadeira razão do desenvolvimento era a sobrevivência ameaçada, pensavem eles, do seu regime. Foi com esta pesquisa que muitas outras coisas feias, muito feias e aqui não mostradas, se tornaram possíveis. Foi também com isto que o Império cresceu.
Mas para além das realidades feias, há aqui uma mensagem simpática: o objectivo é o erro zero e para isso é necessário fazer o esforço máximo. Sim, falhar não é permitido e é necessário pôr tudo na acção. É a parte boa, optimista, no meio da sordidez oculta.
Mas para além das realidades feias, há aqui uma mensagem simpática: o objectivo é o erro zero e para isso é necessário fazer o esforço máximo. Sim, falhar não é permitido e é necessário pôr tudo na acção. É a parte boa, optimista, no meio da sordidez oculta.
terça-feira, novembro 17, 2009
Apreciação da lucidez
A lição mais importante deste congresso chegou-me, de surpresa, numa comunicação sobre obesidade. Finalmente, começo a ouvir alguém que entende as causas das causas e que diz sem rodeios que de nada vale andar a tentar mudar as pessoas, os seus comportamentos e força de vontade, porque elas irão continuar iguais a si próprias na busca dos caminhos simples e satisfatórios da sua sobrevivência. Sim, insistir na busca da pílula mágica ou da cura pela cirurgia, é uma escolha errada de alvo e quando nem o inimigo se consegue identificar como poderão ganhar-se as guerras. É o ambiente, estúpidos! É, uma vez mais a ganância que neste campo também leva è ruína.
Fico grato a Deborah Cohen pela clareza do discurso, longe das nebulosas diatribes à volta das calorias dos hidratos de carbono, das proteínas e dos lípidos, longe das técnicas de reparação do desastre que são as cirurgias.
Sorrio a pensar que no próximo fim de semana, lá se encontrarão uma vez mais no repouso agitado de mais uma congresso de obesidade, os nacionais-cientistas na mesma discussão de sempre.
Fico grato a Deborah Cohen pela clareza do discurso, longe das nebulosas diatribes à volta das calorias dos hidratos de carbono, das proteínas e dos lípidos, longe das técnicas de reparação do desastre que são as cirurgias.
Sorrio a pensar que no próximo fim de semana, lá se encontrarão uma vez mais no repouso agitado de mais uma congresso de obesidade, os nacionais-cientistas na mesma discussão de sempre.
segunda-feira, novembro 16, 2009
Onde está Orlando?
Não é bem uma cidade, mas antes um gigantesco e disperso parque de diversões, onde só se anda de carro ou monorail, sem a oportunidade de se poder caminhar no aperto de passeios que ligam destinos.
Boa mesmo só para gozar o clima de Primavera-Verão em tempo de Inverno. Mas há um grande vazio neste recreio gigante. Ao fim de uns dias ainda nem se percebe muito bem onde se está e onde estão os que aqui trabalham. Sim, porque as cidades, mais que os que as visitam, são os que as habitam. E no meio destes castelos e fantasias de Walt Disney nem sombra se vê das tocas onde estão.
Boa mesmo só para gozar o clima de Primavera-Verão em tempo de Inverno. Mas há um grande vazio neste recreio gigante. Ao fim de uns dias ainda nem se percebe muito bem onde se está e onde estão os que aqui trabalham. Sim, porque as cidades, mais que os que as visitam, são os que as habitam. E no meio destes castelos e fantasias de Walt Disney nem sombra se vê das tocas onde estão.
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