sexta-feira, novembro 20, 2009

Jet lag

E cá estou de novo, regressado, a este país. Este país, onde geralmente acontecem coisas que só neste país. Ou só acontecerão neste país porque a maior parte dos que cá estão pensam que é o único país do mundo que ainda não está no mundo, no outro, onde os outros já estão há muito tempo, porque o isolamento ficou-lhe entranhado nos genes, na genética da sua impotência de transformar, de fazer diferente, porque encontram sempre um obstáculo fora deles, mas que lhes mora dentro.
Neste país de todos os corruptos, menos o que acusa os outros de corruptos. Esquece-se o idiota que no julgamento de cada um dos outros está também ele. Neste país onde todos fogem aos impostos, menos o que o diz, esquecendo-se de novo que no dizer de todos os outros também ele não os paga. Neste país onde o fado avança com as novas Amálias, o papa virá a Fátima em breve,o FCP continuará a ser campeão com intermitências do Benfica e a selecção é o orgulho de todos depois das vitórias recentes. Neste país em que lá fora identificam o seu Obama chamando-lhe Ronaldo ou Figo. Neste país que nem já é de plástico, mas de sucata.
Sempre a mesma irritação quando apanho o último avião de ligação para Lisboa.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Coisas da vida

Nesta coisa da vida parece que há uma boa e outra má. Mas andar na má-vida até não será assim tão mau pelo sabor bom que pode ter e estar à boa-vida também não parece ser assim tão bom, pela monotonia que acarreta. Verdadeiramente mais importante ainda é rejeitar a sobrevida, adiando sempre a vida desejável.

quarta-feira, novembro 18, 2009

KSC

Há sítios onde a História se sente de forma próxima. Em Sagres talvez assim seja, aqui, em Cape Canaveral, é com certeza (embora alguns fiquem eternamente cépticos sobre a chegada à Lua). Mas o que se passa aqui vai muito além do folclore. Naquele tempo em que a economia planificada ainda funcionava e permitia inovação tecnológica de ponta, um belo dia esta gente ficou surpreendida e assustada com uma bolinha que andava em órbita e, mal refeitos do susto, eis que um tal de Gagarine foi dar uma volta ao espaço. Preocuparam-se as almas, que as maldades do comunismo ainda um dia lhes haveriam de acertar nas cabeças e um Presidente inovador, veio acalmá-los e dizer-lhes que haviam de ir à Lua. Caíram foguetes uns atrás dos outros antes que o tiro de Julio Verne batesse no alvo. Esta é a história inocente que se vende no Kennedy Space Center, porque a verdadeira razão do desenvolvimento era a sobrevivência ameaçada, pensavem eles, do seu regime. Foi com esta pesquisa que muitas outras coisas feias, muito feias e aqui não mostradas, se tornaram possíveis. Foi também com isto que o Império cresceu.
Mas para além das realidades feias, há aqui uma mensagem simpática: o objectivo é o erro zero e para isso é necessário fazer o esforço máximo. Sim, falhar não é permitido e é necessário pôr tudo na acção. É a parte boa, optimista, no meio da sordidez oculta.

terça-feira, novembro 17, 2009

Apreciação da lucidez

A lição mais importante deste congresso chegou-me, de surpresa, numa comunicação sobre obesidade. Finalmente, começo a ouvir alguém que entende as causas das causas e que diz sem rodeios que de nada vale andar a tentar mudar as pessoas, os seus comportamentos e força de vontade, porque elas irão continuar iguais a si próprias na busca dos caminhos simples e satisfatórios da sua sobrevivência. Sim, insistir na busca da pílula mágica ou da cura pela cirurgia, é uma escolha errada de alvo e quando nem o inimigo se consegue identificar como poderão ganhar-se as guerras. É o ambiente, estúpidos! É, uma vez mais a ganância que neste campo também leva è ruína.
Fico grato a Deborah Cohen pela clareza do discurso, longe das nebulosas diatribes à volta das calorias dos hidratos de carbono, das proteínas e dos lípidos, longe das técnicas de reparação do desastre que são as cirurgias.
Sorrio a pensar que no próximo fim de semana, lá se encontrarão uma vez mais no repouso agitado de mais uma congresso de obesidade, os nacionais-cientistas na mesma discussão de sempre.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Onde está Orlando?

Não é bem uma cidade, mas antes um gigantesco e disperso parque de diversões, onde só se anda de carro ou monorail, sem a oportunidade de se poder caminhar no aperto de passeios que ligam destinos.
Boa mesmo só para gozar o clima de Primavera-Verão em tempo de Inverno. Mas há um grande vazio neste recreio gigante. Ao fim de uns dias ainda nem se percebe muito bem onde se está e onde estão os que aqui trabalham. Sim, porque as cidades, mais que os que as visitam, são os que as habitam. E no meio destes castelos e fantasias de Walt Disney nem sombra se vê das tocas onde estão.

domingo, novembro 15, 2009

A fuga da arbitragem

Temos esta condição de agirmos mesmo quando nos furtamos a agir e das nossas acções sempre resultam consequências. Muitas vezes, em termos pessoais, a acção é mais incómoda que a sua ausência, mas tanto agir como a negação da acção acabam por ter consequências nas vítimas do acto, ainda que efectivamente seja uma inacção. Sempre qualquer decisão de agir ou não deve estar subordinada, por todas estas razões, não à nossa comodidade, mas Às consequências que resultam. Ou seja, os nossos actos devem estar orientados por princípios éticos e não por eventuais cobardias auto-satisfatórias. Contudo, infelizmente, é raro que seja estritamente a ética a ditar a acção. Daí a grande disponibilidade para a desistência perante a incomodidade, agora que se acha ser esperteza o que dantes era cobardia.

sexta-feira, novembro 13, 2009

O isolamento da liberdade

De repente, sou assaltado pela nostalgia daquela imagem de ver uma plateia imensa dentro de um avião em movimentos convulsivos de riso, a verem uma fita do Mr Bean. Era o tempo em que havia uns ecrãs grandes na parede, onde os filmes eram projectados para visão colectiva dos passageiros.
Agora, temos um ecrã pequenino, nas costas do banco da frente e a chamada liberdade de escolha. Cada um vê, ouve, joga aquilo que lhe apetece. Visto da cadeira da coxia da fila 33 há um ecrã de cada cor e assunto diferente nas cadeiras avistadas. Cada um isolado dos outros, sem a liberdade de uma experiência comum. Uma vez por outra vê-se alguém isolado perdido de vontade de rir, mas contendo a extravasão da gargalhado pelo receio do ridículo de se pôr ali no meio dos outros a convulsivar. Dantes era mais fácil pela solidariedade cúmplice dos parceiros de gargalhada. E, desta forma, lá se vai a liberdade individual, afinal. Nas pequenas coisas o mundo vai mudando e eu fico cheio de dúvidas sobre o mérito do sentido da mudança.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Corrupção!

Finalmente uma capa do Correio da Manhã citando um verdadeiro escândalo!

Racionamento

Fez sucesso durante vários encontros de família nos tempos que se seguiram o desejo que manifestei, imediatamente depois de receber um barco naquele Natal dos meus 3 anos de idade. Procurando chaminé acima o Pai Natal, encantado com o barco de plástico beije e vermelho, apertado nas minhas pequenas mãos, expliquei ao ofertante que «agora só falta o mar». Aos 3 anos é ambição para recordar depois com um sorriso.
Passados estes anos, percebo o problema do não racionamento dos desejos. No mundo real da oferta e da procura, percebe-se com facilidade que os nossos desejos estão limitados pelas nossas capacidades de os obter. Geralmente, o poder aquisitivo é o limite. É uma forma triste de nos limitarmos, mas é a que existe.
Quando se introduzem regras de gratuitidade, a tendência natural é para o desregramento do consumo induzido pelo desejo de tudo ter. Esta é a origem da necessidade das regras que racionem os bens desejados. No caso do consumo da saúde, competirá aos técnicos a elaboração das regras, que, tornando acessíveis os cuidados, não levem ao desperdício. E mais vale gastar o tempo na busca dessas regras, do que na procura angustiada da resolução do caos. Pena é, que os técnicos de quem se espera a decisão tenham, na sua ordenação de preocupações muito perto do fim da lista, a resolução dos problemas dos doentes. No cimo da lista estão sempre as preocupações de imagem e os receios das más notícias. É uma estratégia que, ironicamente, os leva com frequência às primeiras páginas dos jornais pelos motivos que menos desejam.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Livro das definições

Coordenador é o tipo que o Chefe escolhe para fazer o trabalho, de que o Chefe receberá os louros quando correr bem depois de nada ter feito além da nomeação. Ao coordenador cabe igualmente sofrer as consequências dos eventuais desastres resultantes do seu trabalho.
Dito de outra forma, coordenador é uma espécie de Ministro do senhor Engenheiro.

sábado, novembro 07, 2009

Era uma casa
Muito engraçada

Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi

Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero

Vinicius

Era uma imaginação de criança, depois cresceu... Quase adulta finalmente.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Se faz favor (continuação)

E continuando temos agora a versão do sff, mude-se o júri que este não convém... No limite, ir-se-á eliminando um júri atrás do outro até se nomear o júri certo... escolhido pelo candidato! E se a moda pega, os júris passarão a ser escolhidos por consenso? E se não houver o consenso, não há concurso?
Se faz favor, alguém pode explicar?

quinta-feira, novembro 05, 2009

Poder

O poder apenas usado para enfeitar não tem sentido. Os discursos saem bem, até podem encher os egos, mas que sentido tem isso se o poder não servir para seguir no rumo que se quer? O poder de não mandar? É um poder do medo, de poderosos assustados. E tudo fica impune.

segunda-feira, novembro 02, 2009

A reforma urgente

Continuam a existir centros de saúde sem sistema informático ou com banda demasiado estreita! Isto significa desperdício, duplicação de exames, terapêuticas repetidas, quebra de continuidade de cuidados, desinformação, solicitação inadequada de consultas, em resumo, esbanjamento de recursos. Com isto estão a ir-nos ao bolso, a delapidar os impostos dos pagantes.
Isto deveria ser motivo de título em parangona grande em todos os jornais, infelizmente, muito mais ocupados com as misérias futebolísticas ou com as formas de estar na política. Isto é corrupção activa por passividade. Tão grave quanto a outra. Isto é, de longe, muito mais importante que a saga da gripe A.
Só uma visão muito estreita pode, nestes dias, recusar a banda larga. E quem não consegue ver, o melhor é reformar-se... com urgência.

Cepticismo ou visão?

Ontem ouvi um russo dizer que a preocupação deles não era tanto a gripe, mas mais a tuberculose multirresistente. Pareceu-me haver ali sabedoria. Por cá vejo que alguns com o receio da gripe, precipitam decisões na tentativa de ficar bem na fotografia e de obter o silêncio cordato dos media. Tudo fazem para que a gripe corra bem. O problema é o da manta curta, neste caso mais agudizado. Tapam de um lado, mas sobra o descoberto do outro. Acabam por evitar a ameaça, mas assumem a exposição das chagas reais. Fazem gripar o funcionamento da máquina, pelo receio dos fantasmas.
Boa sorte e que Deus os acompanhe, que eu não creio.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Jornalismo básico

As circunstâncias da morte não estão esclarecidas e a história tem algumas fragilidades. Uma ideia mais aproximada do que terá acontecido talvez venha a ter-se depois da autópsia.
O que se lamenta desde já é mais esta expressão de jornalismo básico, a exibição da raiva para se venderem mais uns jornais e uns anúncios de televisão, de forma irresponsável, incitando a população a ir aos hospitais exigir análises, contaminar-se e ser contaminada. COM SINAIS DE GRIPE FICA-SE EM CASA E SEGUEM-SE AS INSTRUÇÕES DO SERVIÇO TELEFÓNICO QUE FOI CRIADO! O internamento hospitalar, nesta fase do processo, é para quem necessita de cuidados diferenciados e intensivos.
Estranho também a miséria moral da exibição de uns pais a quem acaba de morrer um filho. Não vi quase expressão de dor, esmagada que estava pela raiva e desejo de vingança. Vivo num mundo de seres diferentes.
Lamento também a asfixia informativa das autoridades de saúde. Há momentos em que a táctica de escapar por entre as gotas da chuva, esperando que passe, não resulta e é necessário dar um murro na mesa.

terça-feira, outubro 27, 2009

O dia é hoje

Enquanto ainda não tinha adormecido na acção de sensibilização à gripe A, pensava para com os meus botões, que a morte só assusta quem está à espera de amanhã para começar a viver. Tranquilo é viver hoje e sorrir virado para o passado fugindo de medos paralisantes. Quando olhamos à volta, percebemos que estamos cheios desta sabedoria, mas alguém necessita, quase de forma desesperada, que tenhamos medo e acreditemos na vida eterna, só que nos não dizem onde nem quando. Não, obrigado!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Os sem-médico

Contam-me sempre histórias parecidas de abandono. Para uma receita têm de ir para a porta do Centro de Saúde às cinco da manhã, falam-me de médicos de recurso, um hoje, outro amanhã, na negação da continuidade de uma relação de confiança médico-doente. Outras vezes também me custa ver a falta de confiança nos seus médicos de família. Sempre lhes vou dizendo que os médicos de família são os mais importantes na promoção da sua saúde, mas quase sempre desconfiam, cheios que estão também desta cultura dominante hospitalocêntrica. Assim, aos poucos vou também sendo médico de família num hospital central.
Não é fácil inverter uma situação onde os recursos estão no sítio errado, quase dois terços nos hospitais e o resto na Medicina Geral e Familiar. Já me choca ver um Ministério centrado quase e só numa gripe (que não h)Á, sem atender aos grandes problemas da Saúde. Por isso, sempre que a oportunidade surge, os incito a usarem os livros de reclamações, a manifestarem-se se necessário, porque não ter médico de família é bem mais grave que não ter um pseudo-serviço de urgência ao fundo da rua. Pena é, que a Imprensa do regime a nada disto consiga dar eco. E vamos criando, mais hospitais uns atrás dos outros, cada vez mais privados com dinheiros públicos a pagarem as contas da sua gestão. Lixados, continuam os sem-médico. E todos nós.

domingo, outubro 25, 2009

Leituras


Parece ser agora, politicamente correcto, fazer a crítica de Saramago, não lhe permitindo ter da Sagrada Bíblia a leitura literal. Quer-se pôr simbolismo e poesia onde sempre se procurou a aceitação literal da dor, do sofrimento terreno para, literalmente, se obter a gratificação por cima das nuvens. Podem os Sagrados livros não dizerem nada do que dizem na escrita fria das palavras, mas alguém se esqueceu descodificar a sua leitura anos demais. E, realmente, dessa forma foi pelo menos usada como livro de maus costumes e de justificação das guerras, pelos seus leitores ou por aqueles que foram transmitindo a sua mensagem para facilitação do poder da classe dominante ao longo dos tempos. Deus pode não ser mau, mas alguém leu as suas obras e omissões de forma a que a injustiça pudesse vingar, impedindo, quantas vezes, a expressão da vontade da correcção do erro por parte dos homens. O Todo-Poderoso foi, com frequência, demasiado liberal abdicando da utilização do Poder, permitindo demasiada liberdade à iniciativa privada. Era bom que tivesse tido uma atitude mais reguladora, impondo a orientação certa do seu enorme conhecimento, mostrando a sua existência. Não o fazendo, tornou-se, literalmente, inexistente, simbólico, talvez. Por isso, Saramago tem razão, porque a Vida é a vida e não uma entidade simbólica, com uma multiplicidade de códigos, que a interpretam.

sexta-feira, outubro 23, 2009

A lição do sol


Já algumas vezes me levantei de madrugada para fazer a tolice de ir ver o nascer do sol. Muitas mais, me pus sentado à beira-mar a vê-lo esconder-se no fim da tarde. Há um encanto diferente nos dois momentos. A frescura da manhã e a passagem do azul escuro com estrelas ao azul claro aliada ao sono com que se presencia o evento, fazem do nascer do sol, seja no Uluru seja no Saara, um momento belo, mas associado a algum desconforto. É preciso algum cansaço no corpo para se aproveitar todo o encanto destas coisas. O nascer do sol é também mais brusco, dura menos e logo se segue a banalidade da subida e o desconfortável aumento da temperatura. Nalgum instante, a pujança do sol, faz-nos procurar a sombra, tentarmos que se esconda. E assim se passa a maior parte do dia, até ao fim da tarde, quando o horizonte se vai alaranjando naquilo que, dizia a minha avó, seria prenúncio de dia solarengo amanhã. Aqui o tempo é mais gostoso e demorado, na mudança progressiva das tonalidades, no avermelhar das nuvens esfarrapadas. Apetece a música, a companhia e, tantas vezes, pão, queijo e um copo de vinho, ajudam ao inebriar dos sentidos. Aos poucos tudo acaba.
A vida é também um dia de sol, mas ao que me parece, sem nascimento no dia seguinte. Por isso, é fundamental que o apogeu, necessariamente agitado, seja rápido, de forma a que o longo caminho final tenha toda a magia colorida do entardecer.