quinta-feira, novembro 05, 2009
Poder
O poder apenas usado para enfeitar não tem sentido. Os discursos saem bem, até podem encher os egos, mas que sentido tem isso se o poder não servir para seguir no rumo que se quer? O poder de não mandar? É um poder do medo, de poderosos assustados. E tudo fica impune.
segunda-feira, novembro 02, 2009
A reforma urgente
Continuam a existir centros de saúde sem sistema informático ou com banda demasiado estreita! Isto significa desperdício, duplicação de exames, terapêuticas repetidas, quebra de continuidade de cuidados, desinformação, solicitação inadequada de consultas, em resumo, esbanjamento de recursos. Com isto estão a ir-nos ao bolso, a delapidar os impostos dos pagantes.
Isto deveria ser motivo de título em parangona grande em todos os jornais, infelizmente, muito mais ocupados com as misérias futebolísticas ou com as formas de estar na política. Isto é corrupção activa por passividade. Tão grave quanto a outra. Isto é, de longe, muito mais importante que a saga da gripe A.
Só uma visão muito estreita pode, nestes dias, recusar a banda larga. E quem não consegue ver, o melhor é reformar-se... com urgência.
Isto deveria ser motivo de título em parangona grande em todos os jornais, infelizmente, muito mais ocupados com as misérias futebolísticas ou com as formas de estar na política. Isto é corrupção activa por passividade. Tão grave quanto a outra. Isto é, de longe, muito mais importante que a saga da gripe A.
Só uma visão muito estreita pode, nestes dias, recusar a banda larga. E quem não consegue ver, o melhor é reformar-se... com urgência.
Cepticismo ou visão?
Ontem ouvi um russo dizer que a preocupação deles não era tanto a gripe, mas mais a tuberculose multirresistente. Pareceu-me haver ali sabedoria. Por cá vejo que alguns com o receio da gripe, precipitam decisões na tentativa de ficar bem na fotografia e de obter o silêncio cordato dos media. Tudo fazem para que a gripe corra bem. O problema é o da manta curta, neste caso mais agudizado. Tapam de um lado, mas sobra o descoberto do outro. Acabam por evitar a ameaça, mas assumem a exposição das chagas reais. Fazem gripar o funcionamento da máquina, pelo receio dos fantasmas.
Boa sorte e que Deus os acompanhe, que eu não creio.
Boa sorte e que Deus os acompanhe, que eu não creio.
quinta-feira, outubro 29, 2009
Jornalismo básico
As circunstâncias da morte não estão esclarecidas e a história tem algumas fragilidades. Uma ideia mais aproximada do que terá acontecido talvez venha a ter-se depois da autópsia.
O que se lamenta desde já é mais esta expressão de jornalismo básico, a exibição da raiva para se venderem mais uns jornais e uns anúncios de televisão, de forma irresponsável, incitando a população a ir aos hospitais exigir análises, contaminar-se e ser contaminada. COM SINAIS DE GRIPE FICA-SE EM CASA E SEGUEM-SE AS INSTRUÇÕES DO SERVIÇO TELEFÓNICO QUE FOI CRIADO! O internamento hospitalar, nesta fase do processo, é para quem necessita de cuidados diferenciados e intensivos.
Estranho também a miséria moral da exibição de uns pais a quem acaba de morrer um filho. Não vi quase expressão de dor, esmagada que estava pela raiva e desejo de vingança. Vivo num mundo de seres diferentes.
Lamento também a asfixia informativa das autoridades de saúde. Há momentos em que a táctica de escapar por entre as gotas da chuva, esperando que passe, não resulta e é necessário dar um murro na mesa.
O que se lamenta desde já é mais esta expressão de jornalismo básico, a exibição da raiva para se venderem mais uns jornais e uns anúncios de televisão, de forma irresponsável, incitando a população a ir aos hospitais exigir análises, contaminar-se e ser contaminada. COM SINAIS DE GRIPE FICA-SE EM CASA E SEGUEM-SE AS INSTRUÇÕES DO SERVIÇO TELEFÓNICO QUE FOI CRIADO! O internamento hospitalar, nesta fase do processo, é para quem necessita de cuidados diferenciados e intensivos.
Estranho também a miséria moral da exibição de uns pais a quem acaba de morrer um filho. Não vi quase expressão de dor, esmagada que estava pela raiva e desejo de vingança. Vivo num mundo de seres diferentes.
Lamento também a asfixia informativa das autoridades de saúde. Há momentos em que a táctica de escapar por entre as gotas da chuva, esperando que passe, não resulta e é necessário dar um murro na mesa.
terça-feira, outubro 27, 2009
O dia é hoje
Enquanto ainda não tinha adormecido na acção de sensibilização à gripe A, pensava para com os meus botões, que a morte só assusta quem está à espera de amanhã para começar a viver. Tranquilo é viver hoje e sorrir virado para o passado fugindo de medos paralisantes. Quando olhamos à volta, percebemos que estamos cheios desta sabedoria, mas alguém necessita, quase de forma desesperada, que tenhamos medo e acreditemos na vida eterna, só que nos não dizem onde nem quando. Não, obrigado!
segunda-feira, outubro 26, 2009
Os sem-médico
Contam-me sempre histórias parecidas de abandono. Para uma receita têm de ir para a porta do Centro de Saúde às cinco da manhã, falam-me de médicos de recurso, um hoje, outro amanhã, na negação da continuidade de uma relação de confiança médico-doente. Outras vezes também me custa ver a falta de confiança nos seus médicos de família. Sempre lhes vou dizendo que os médicos de família são os mais importantes na promoção da sua saúde, mas quase sempre desconfiam, cheios que estão também desta cultura dominante hospitalocêntrica. Assim, aos poucos vou também sendo médico de família num hospital central.
Não é fácil inverter uma situação onde os recursos estão no sítio errado, quase dois terços nos hospitais e o resto na Medicina Geral e Familiar. Já me choca ver um Ministério centrado quase e só numa gripe (que não h)Á, sem atender aos grandes problemas da Saúde. Por isso, sempre que a oportunidade surge, os incito a usarem os livros de reclamações, a manifestarem-se se necessário, porque não ter médico de família é bem mais grave que não ter um pseudo-serviço de urgência ao fundo da rua. Pena é, que a Imprensa do regime a nada disto consiga dar eco. E vamos criando, mais hospitais uns atrás dos outros, cada vez mais privados com dinheiros públicos a pagarem as contas da sua gestão. Lixados, continuam os sem-médico. E todos nós.
Não é fácil inverter uma situação onde os recursos estão no sítio errado, quase dois terços nos hospitais e o resto na Medicina Geral e Familiar. Já me choca ver um Ministério centrado quase e só numa gripe (que não h)Á, sem atender aos grandes problemas da Saúde. Por isso, sempre que a oportunidade surge, os incito a usarem os livros de reclamações, a manifestarem-se se necessário, porque não ter médico de família é bem mais grave que não ter um pseudo-serviço de urgência ao fundo da rua. Pena é, que a Imprensa do regime a nada disto consiga dar eco. E vamos criando, mais hospitais uns atrás dos outros, cada vez mais privados com dinheiros públicos a pagarem as contas da sua gestão. Lixados, continuam os sem-médico. E todos nós.
domingo, outubro 25, 2009
Leituras

Parece ser agora, politicamente correcto, fazer a crítica de Saramago, não lhe permitindo ter da Sagrada Bíblia a leitura literal. Quer-se pôr simbolismo e poesia onde sempre se procurou a aceitação literal da dor, do sofrimento terreno para, literalmente, se obter a gratificação por cima das nuvens. Podem os Sagrados livros não dizerem nada do que dizem na escrita fria das palavras, mas alguém se esqueceu descodificar a sua leitura anos demais. E, realmente, dessa forma foi pelo menos usada como livro de maus costumes e de justificação das guerras, pelos seus leitores ou por aqueles que foram transmitindo a sua mensagem para facilitação do poder da classe dominante ao longo dos tempos. Deus pode não ser mau, mas alguém leu as suas obras e omissões de forma a que a injustiça pudesse vingar, impedindo, quantas vezes, a expressão da vontade da correcção do erro por parte dos homens. O Todo-Poderoso foi, com frequência, demasiado liberal abdicando da utilização do Poder, permitindo demasiada liberdade à iniciativa privada. Era bom que tivesse tido uma atitude mais reguladora, impondo a orientação certa do seu enorme conhecimento, mostrando a sua existência. Não o fazendo, tornou-se, literalmente, inexistente, simbólico, talvez. Por isso, Saramago tem razão, porque a Vida é a vida e não uma entidade simbólica, com uma multiplicidade de códigos, que a interpretam.
sexta-feira, outubro 23, 2009
A lição do sol
Já algumas vezes me levantei de madrugada para fazer a tolice de ir ver o nascer do sol. Muitas mais, me pus sentado à beira-mar a vê-lo esconder-se no fim da tarde. Há um encanto diferente nos dois momentos. A frescura da manhã e a passagem do azul escuro com estrelas ao azul claro aliada ao sono com que se presencia o evento, fazem do nascer do sol, seja no Uluru seja no Saara, um momento belo, mas associado a algum desconforto. É preciso algum cansaço no corpo para se aproveitar todo o encanto destas coisas. O nascer do sol é também mais brusco, dura menos e logo se segue a banalidade da subida e o desconfortável aumento da temperatura. Nalgum instante, a pujança do sol, faz-nos procurar a sombra, tentarmos que se esconda. E assim se passa a maior parte do dia, até ao fim da tarde, quando o horizonte se vai alaranjando naquilo que, dizia a minha avó, seria prenúncio de dia solarengo amanhã. Aqui o tempo é mais gostoso e demorado, na mudança progressiva das tonalidades, no avermelhar das nuvens esfarrapadas. Apetece a música, a companhia e, tantas vezes, pão, queijo e um copo de vinho, ajudam ao inebriar dos sentidos. Aos poucos tudo acaba.
A vida é também um dia de sol, mas ao que me parece, sem nascimento no dia seguinte. Por isso, é fundamental que o apogeu, necessariamente agitado, seja rápido, de forma a que o longo caminho final tenha toda a magia colorida do entardecer.
quarta-feira, outubro 21, 2009
Poderes
Raio de sorte esta que nos faz sentir o poder como dever e não como privilégio, porque se é da natureza do trabalho e não da natureza da honraria. Resta a surpresa de ver os quem me dera nos olhares que nos contemplam. Nessa altura também temos o quem nos dera ser, ainda que só por alguns momentos, dessa forma. Assim, simples, virado somente para o lúdico da coisa e não ter sempre às costas o peso de fazer ou a necessidade de dar utilidade ao poder. Complicado, isto de ter sempre uma missão. Que os resultados nos façam rir aqui e além como compensação do sacrifício do poder.
terça-feira, outubro 20, 2009
O deputado aiatolá
O disparate é livre. E este pindérico eurodeputado não se inibiu na procura dos seus 5 minutos de notoriedade. A diferença de estatuto é total, do crítico nada ficará na memória do tempo, nem mesmo, talvez, a crítica; o criticado será eterno apesar da crítica. A diferença é que um é português e tem a dimensão do mundo. O outro mais um portuguesito apoiante da selecção nacional, de bandeirita à janela.
Serve talvez o episódio para revelar a verdadeira asfixia, a anti-democrática. A bem da Verdade (essa palavra mentirosa em certas bocas) reconheça-se que são reincidentes, os canalhas. Todos nos lembramos do episódio da rejeição do Evangelho, menos serão os que se lembram do nome do autor, que a fama do absurdo é coisa breve. Mas provinha da mesma Inquisição.
Este país é uma pena. Pequeno até nos aiatolás que gera, sem a dimensão dos perseguidores de Rushdie. Onde estavam eles, que disseram sobre ofensas à fé, quando os Versículos vieram a lume?
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neil
Serve talvez o episódio para revelar a verdadeira asfixia, a anti-democrática. A bem da Verdade (essa palavra mentirosa em certas bocas) reconheça-se que são reincidentes, os canalhas. Todos nos lembramos do episódio da rejeição do Evangelho, menos serão os que se lembram do nome do autor, que a fama do absurdo é coisa breve. Mas provinha da mesma Inquisição.
Este país é uma pena. Pequeno até nos aiatolás que gera, sem a dimensão dos perseguidores de Rushdie. Onde estavam eles, que disseram sobre ofensas à fé, quando os Versículos vieram a lume?
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neil
segunda-feira, outubro 19, 2009
Estratégia
Se o dia está de sol, de que vale pensar em estratégias para contornar as gotas da chuva? Que venha a molha, que logo se enxuga.
domingo, outubro 18, 2009
Estar no tempo
Como uma bênção este esquecimento de tudo o que tenho para fazer permitiu que o domingo fosse dia santo. O tudo seria assim tão importante que justificasse não ter visto a Madama Butterfly, pela crónica falta de tempo?
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
F Pessoa
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
F Pessoa
sábado, outubro 17, 2009
O terrorista professor
Acontecem às vezes períodos de hibernação por falta de assunto ou cansaço e indiferença perante os raros temas de comentário. O desligar ocasional do tempo que nos envolve justifica-se perante a ausência de algo que seja relevante dentro de 5 anos. Muitas coisas fantásticas têm apenas reservado o seu lugar em listas raramente consultadas de eventos. Afinal, quem se lembra de quem ganhou a maratona X ou o prémio Nobel Y? Quanto tempo duram esses momentos fantásticos? O que permanece de todos nós e qual o nosso objectivo? Que sentido tem marcar a existência? Quase sempre existimos como as pegadas deixadas na beira-mar à espera da próxima onda, primeiro muito bem delineadas, logo a seguir apenas esboçadas com os contornos mais imprecisos, finalmente a areia retoma a forma original como se nada tivesse acontecido. Apenas fica a geografia e o permanente diálogo dos elementos no escoar do tempo.
Reflectir é uma actividade cada vez mais perigosa e inconsequente nos tempos em que a moda é das poucas formas de gratificação. Voltando ao mar, ir na onda é a maior tranquilidade. Cair do tsunami, então, é o supremo gozo, a adrenalina na sua forma mais intensa. Há quem consiga, outros não. Quando a genética o não permite, há que procurar outros analgésicos que atenuem a dor do irresolúvel. Deve ter nascido aí a ideia dos valores e da moral. Algo a que poucos se apegam, mas serve de lenitivo a alguns.
Há um endeusamento da sobrevivência que nos faz esquecer a importância da vida. Sem notar a idiotice do que dizia, ouvi há dias um guia de um parque zoológico, afirmar convictamente que ali no parque, em cativeiro, os animais viviam mais 10 ou 20 anos, que no seu ambiente natural. Dizia isto como se de coisa vantajosa se tratasse, o pobre sobrevivente. Curiosa esta cultura do medo da morte, que gera todos os outros medos (da gripe, da carne de vaca, do terrorismo e tantos outros), esquecendo o único medo que se justificará, o de adiar a vida na sobrevivência a todo o custo. A morte surgirá inevitavelmente, quer tenha ou não havido vida. É por isso que um quantificador de vida acrescentado todos os dias é tão importante para que, no momento final, não se constate que o conta-vidas está a zeros...
No meio disto, sorrio da importância dos resultados eleitorais,dos jogos dos pequenos poderes dos desatentos. Fico mais interessado e divertido com o horror ao vazio do terrorista que vive em minha casa. Ele percebe que a vida é para ser feita acompanhado e, sempre que o deixam sozinho, reage, sem piedade, de forma bárbara com um atentado diferente todos os dias. Um dia derruba todos os vasos que apanha, noutro despeja os detergentes arrumados no armário, nunca se detém nem conforma com a vidinha que lhe querem impôr. Depois, olha-me sereno, a explicar-me que sobrevivência não é bem que aprecie. Cordial, pede a minha compreensão perante mais um atentado e oferece-me um dos seus brinquedos. Não é o perdão que quer, porque, para ele, como para qualquer terrorista que se preze, melhor será a morte que tal sorte. Determinado, este terrorista que vive em minha casa. Muitas vezes, mais se aprende com este terrorista professor do que com os homens. E para que conste, aqui fica o perfil.
Reflectir é uma actividade cada vez mais perigosa e inconsequente nos tempos em que a moda é das poucas formas de gratificação. Voltando ao mar, ir na onda é a maior tranquilidade. Cair do tsunami, então, é o supremo gozo, a adrenalina na sua forma mais intensa. Há quem consiga, outros não. Quando a genética o não permite, há que procurar outros analgésicos que atenuem a dor do irresolúvel. Deve ter nascido aí a ideia dos valores e da moral. Algo a que poucos se apegam, mas serve de lenitivo a alguns.
Há um endeusamento da sobrevivência que nos faz esquecer a importância da vida. Sem notar a idiotice do que dizia, ouvi há dias um guia de um parque zoológico, afirmar convictamente que ali no parque, em cativeiro, os animais viviam mais 10 ou 20 anos, que no seu ambiente natural. Dizia isto como se de coisa vantajosa se tratasse, o pobre sobrevivente. Curiosa esta cultura do medo da morte, que gera todos os outros medos (da gripe, da carne de vaca, do terrorismo e tantos outros), esquecendo o único medo que se justificará, o de adiar a vida na sobrevivência a todo o custo. A morte surgirá inevitavelmente, quer tenha ou não havido vida. É por isso que um quantificador de vida acrescentado todos os dias é tão importante para que, no momento final, não se constate que o conta-vidas está a zeros...
No meio disto, sorrio da importância dos resultados eleitorais,dos jogos dos pequenos poderes dos desatentos. Fico mais interessado e divertido com o horror ao vazio do terrorista que vive em minha casa. Ele percebe que a vida é para ser feita acompanhado e, sempre que o deixam sozinho, reage, sem piedade, de forma bárbara com um atentado diferente todos os dias. Um dia derruba todos os vasos que apanha, noutro despeja os detergentes arrumados no armário, nunca se detém nem conforma com a vidinha que lhe querem impôr. Depois, olha-me sereno, a explicar-me que sobrevivência não é bem que aprecie. Cordial, pede a minha compreensão perante mais um atentado e oferece-me um dos seus brinquedos. Não é o perdão que quer, porque, para ele, como para qualquer terrorista que se preze, melhor será a morte que tal sorte. Determinado, este terrorista que vive em minha casa. Muitas vezes, mais se aprende com este terrorista professor do que com os homens. E para que conste, aqui fica o perfil.
terça-feira, setembro 29, 2009
A comunicação
Neste país, o Sr. Silva fez uma comunicação ao país expressando as suas interpretações pessoais. Por ser parecido fisicamente com o Presidente da República, alguns terão pensado que era o supremo magistrado da nação que estava a falar. Mas isso não deve corresponder à realidade, porque um PR não fala assim. Mais uma vez a imagem é enganadora. Em boa verdade, um PR que falasse daquela maneira só teria uma atitude a tomar: demitir-se, obviamente!
O espaço, o tempo e o poder
Citando a velha senhora, é mais ou menos indiferente estar a 14 m ou a 13,5 m de profundidade. Realmente, só de submarino se consegue andar por lá. Fica assim esclarecida a necessidade nacional de ter comprado os ditos cujos.
Já não sei é se será a mesma coisa divulgar estas investigações hoje ou uma semana antes. Realmente, se as diferenças do espaço poderão até nem ser importantes, certas diferenças de tempo são um pedaço suspeitas.
Grandes são os poderes do Ministério Público e da sua câmara de ressonância.
Já não sei é se será a mesma coisa divulgar estas investigações hoje ou uma semana antes. Realmente, se as diferenças do espaço poderão até nem ser importantes, certas diferenças de tempo são um pedaço suspeitas.
Grandes são os poderes do Ministério Público e da sua câmara de ressonância.
segunda-feira, setembro 28, 2009
Dá para os dois lados
Também desta vez, a vaga de fundo da tal maioria silenciosa, não surgiu a inquietar o dia 28 de Setembro. Foi calmamente que o dia se iniciou e nem a agitação de rua foi intensa. Afinal, todos foram deitar-se com algum sentimento de derrota depois de cantarem vitória.
O PS ficou no meio, com possibilidade de dar para os dois lados. A dúvida que persiste agora é saber para que lado se volta este PS. Ficou claro que dum lado tem 10% e do outro 2 vezes quase 10%. A par tem a mesma coisa só que com outra cor. Mas como a mistura do laranja com o rosa deve dar uma cor mal definida para lhe não chamar outro nome mais fétido, em princípio, não irá por aí.
Dizem que há uma maioria de esquerda, esquecendo os que o dizem que isso coloca desse lado um PS, que quanto mais se olha em pormenor o que defende em política económica, internacional, por exemplo, mais parece tender para a direita. Visto desta maneira são mais as semelhanças com o CDS do que com o outro lado e não seria inédito nem estranho que, uma vez mais, renegasse a História. A ver vamos, como diz o cego, porque nesta altura é muito difícil prever para qual dos lados se virará o engenheiro. Ou irá tentar ficar com um pé em cada lado, correndo o risco de cair de pernas abertas um destes dias, partido ao meio.
O PS ficou no meio, com possibilidade de dar para os dois lados. A dúvida que persiste agora é saber para que lado se volta este PS. Ficou claro que dum lado tem 10% e do outro 2 vezes quase 10%. A par tem a mesma coisa só que com outra cor. Mas como a mistura do laranja com o rosa deve dar uma cor mal definida para lhe não chamar outro nome mais fétido, em princípio, não irá por aí.
Dizem que há uma maioria de esquerda, esquecendo os que o dizem que isso coloca desse lado um PS, que quanto mais se olha em pormenor o que defende em política económica, internacional, por exemplo, mais parece tender para a direita. Visto desta maneira são mais as semelhanças com o CDS do que com o outro lado e não seria inédito nem estranho que, uma vez mais, renegasse a História. A ver vamos, como diz o cego, porque nesta altura é muito difícil prever para qual dos lados se virará o engenheiro. Ou irá tentar ficar com um pé em cada lado, correndo o risco de cair de pernas abertas um destes dias, partido ao meio.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Asfixia informativa
A imagem com que fico é que isto dos assessores de imprensa devem ser uma espécie de delegados de informação médica. Simpáticos, cordiais, com ar de não quererem vender nada, até trazem informação de pretensa qualidade, tudo, segundo dizem, servido sob uma ética irrepreensível. No meio de uns almoços, deslocações e viagens. A busca de informação de qualidade dá trabalho, é preciso ler livros e revistas, analisar os resultados das investigações. Mal dos médicos, que deixam a sua actualização aos cuidados dos delegados de informação médica. Mal dos doentes que se consultam com tais profissionais.
Como alguns médicos, também os jornalistas estão em risco de satisfazerem a preguiça não procurando a notícia, deixando que ela venha até eles por fontes menos recomendáveis. Fazendo eco do que lhes chega prestam um mau serviço aos seus leitores. Mal dos leitores que tal informação consomem.
É arriscado que um Estado deixe aos pruridos éticos de uns e outros a relação entre os assessores e delegados e os jornalistas e os médicos. Em nome de uma prestação de cuidados capaz e de uma informação de qualidade, seria bom que criasse regras de convivência, que impedissem a promiscuidade e a preguiça. Mesmo que isso levasse ao desemprego de alguns destes profissionais da «informação». A vida ficava mais difícil, mas o ambiente mais respirável. Haveria menos asfixia informativa. Pelo menos os conflitos de interesse das redacções e o enunciado bem destacado da propriedade dos meios de comunicação deveria estar bem patente nas primeiras páginas e nos rodapés dos telejornais.
E, já agora, seria bom lembrar aos mais distraídos a filiação partidária dos Presidentes da República e proibir-se que digam que o são de todos os portugueses. É claro que o não são e que há silêncios que gritam.
Como alguns médicos, também os jornalistas estão em risco de satisfazerem a preguiça não procurando a notícia, deixando que ela venha até eles por fontes menos recomendáveis. Fazendo eco do que lhes chega prestam um mau serviço aos seus leitores. Mal dos leitores que tal informação consomem.
É arriscado que um Estado deixe aos pruridos éticos de uns e outros a relação entre os assessores e delegados e os jornalistas e os médicos. Em nome de uma prestação de cuidados capaz e de uma informação de qualidade, seria bom que criasse regras de convivência, que impedissem a promiscuidade e a preguiça. Mesmo que isso levasse ao desemprego de alguns destes profissionais da «informação». A vida ficava mais difícil, mas o ambiente mais respirável. Haveria menos asfixia informativa. Pelo menos os conflitos de interesse das redacções e o enunciado bem destacado da propriedade dos meios de comunicação deveria estar bem patente nas primeiras páginas e nos rodapés dos telejornais.
E, já agora, seria bom lembrar aos mais distraídos a filiação partidária dos Presidentes da República e proibir-se que digam que o são de todos os portugueses. É claro que o não são e que há silêncios que gritam.
quarta-feira, setembro 23, 2009
O homem dos tabús
Nele, o silêncio é cíclico. Neste momento deve estar a devorar bolos-reis uns atrás dos outros à espera do que pensa ser uma maioria silenciosa. Esperemos que no próximo dia 28 de Setembro lhe aconteça o mesmo que no outro, que a reacção não passe e que, não tendo que fugir para Espanha, assuma as suas responsabilidades e actue em conformidade. Sem tabús.
segunda-feira, setembro 21, 2009
Belemgate
Será que estou a entender bem? Um assessor do PR, em seu nome, tentou manipular informação com vista a comprometer o Governo e por um deslize informático acabámos por saber que assim foi? E o que foi é que existe um jornal de referência (de que é dono o D Belmiro) que se presta a esta manobra. Em nome do direito à verdade, fico à espera (com urgência) dos novos episódios do Belemgate.
Asfixia
Há muito que foram abandonados os argumentos programáticos e, agora, todo o cerne das campanhas surge cheio de atribuições morais, sobretudo a denúncia da imoralidade dos adversários. É o paga-não-paga impostos, o tem-não-tem acções e PPRs que enche as notícias, ficando os programas, as soluções sem debate ou discussão. Atribuir a falta de moralidade ao inimigo é o único argumento, sobretudo quando as diferenças de programa até são de difícil enumeração. O debate das ideias não dará votos, concluíram.
E os receptores da mensagem estão, efectivamente, cansados de conteúdo. Cada vez mais, mesmo nas conversas banais do dia-a-dia, o debate das ideias é incómodo, chegando a sentir-se ser o debate político, politicamente incorrecto. O país fica cheio de moralistas, críticos de todos sem excepção, parecendo a multidão que critica um conjunto de virgens impolutas. Todos bons pagadores de impostos, todos trabalhadores cuidadosos na satisfação do próximo, impecáveis pais e mães de família, sem ponta de egoísmo ou ganância nas suas acções. Uma coisa os une, a vontade exclusiva de conversar sobre o tempo que faz, o futebol os mexericos cor-de-rosa. Tudo o mais é tabú neste mundo social asfixiado pelas conveniências de classe. O mais angustiante vazio neste ar que se respira.
E os receptores da mensagem estão, efectivamente, cansados de conteúdo. Cada vez mais, mesmo nas conversas banais do dia-a-dia, o debate das ideias é incómodo, chegando a sentir-se ser o debate político, politicamente incorrecto. O país fica cheio de moralistas, críticos de todos sem excepção, parecendo a multidão que critica um conjunto de virgens impolutas. Todos bons pagadores de impostos, todos trabalhadores cuidadosos na satisfação do próximo, impecáveis pais e mães de família, sem ponta de egoísmo ou ganância nas suas acções. Uma coisa os une, a vontade exclusiva de conversar sobre o tempo que faz, o futebol os mexericos cor-de-rosa. Tudo o mais é tabú neste mundo social asfixiado pelas conveniências de classe. O mais angustiante vazio neste ar que se respira.
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