domingo, junho 28, 2009

Enxerto de passado recente

Não me enganava no último post. À chegada a questão magna era a ida de Obama com a Michele ao teatro em véspera de falência da GM, como se um luto resolvesse alguma coisa do que o liberalismo desenfreado dos agora críticos tinha determinado. É uma estratégia bem conhecida que lembra o caso BPN: também aí se tenta tapar a asneira dos fraudulentos com a falta de eficácia do regulador, como se o ladrão pudesse ser perdoado porque o polícia não previne o crime. Dentro quase do registo conhecido de que roubar só é crime quando se é apanhado, no mais é iniciativa privada de boa qualidade e geradora de valor para a organização.
Mas estava de férias e estas coisas tinham de ser relativizadas.
Chegar à noite a Washington e ir para o hotel pode não ser fácil, quando apenas se dispõe de uma orientação Googlearth do trajecto a partir do aeroporto: o rent a car fica afastado e tudo fica modificado no plano. Vai-se então, à maneira antiga, de estação de serviço em estação de serviço sendo-se (des)orientado pelos residentes. Mas acabamos sempre por chegar ao destino.
O dia seguinte acordou pardacento e chuviscoso, mas foi mau tempo de pouca dura. Logo à saída de DC, o sol já brilhava e a jornada foi longa, à volta de 1000 km num dia é obra, sobretudo quando se decide intervalar a I-95 e ir mais à beira mar. São umas 3 vias duplas costa abaixo, quase paralelas, numa abundância de estradas que ainda agora se contestam como investimento lá do outro lado, onde por acaso, nascemos. Por aqui andaram escravos em tempos que foram, hoje persistem outros um pouco menos, mas não é este o padrão de gente americana que encontramos nas fitas do Império. As casas frágeis prontas à renovação no próximo tornado. Nas pessoas raras que se encontram, lá estava uma que sabe associar o nome de Ronaldo a Portugal. Este país reduzido a isto... Bom mesmo é sentir a ausência e a insignificância de MMG, Sócrates e outros tão importantes na pequenez do além-mar.
Já bem no escuro, entrámos, finalmente, no passado de Savannah.
No dia seguinte começámos a perceber que esta é uma terra passada renovada, um quadrado de ruas e praças encostado ao rio. A rua empedrada à beira-rio de onde já saíram os eléctricos que aí deixaram as linhas e por onde agora passam autocarros em forma de eléctricos. O calor húmido no limite do tolerável, a convidar sempre a entrar nas lojas. Vamos seguindo as sugestões e entrando nas casas-museus, onde os guias nos vão contando sempre as histórias curiosas de vidas que nos esqueceremos muito em breve, ficando a lembrança da prosperidade de outros tempos alicerçada no import-export do algodão e no trabalho escravo. Dos fracos não reza a história ou quando muito ficam imagens que a evocam ao mesmo tempo vão perdendo significado com o decorrer dos anos.
Sabe bem o refresco das praças arborizadas, onde agora descansam os descendentes dos que outrora fizeram a cidade e daqui a uns anos lembrar-me-ei da comida do sul na mesa colectiva no Wilkis, à porta do qual pela uma da tarde se forma fila na Jones St e, enquanto s espera, se vai assistindo à saída dos que, mais ou menos barrigudos, nos incitam a não desistir de esperar. Vale a pena, dizem. Mais logo seremos nós também a dizê-lo.
E há algum mistério, histórias de fantasmas e uma estranha calmaria à noite, onde parece que a cidade fecha pelas 10 pm. Arriscámos o jazz do Jazzed como nos recomendaram, mas apenas nos serviram folk a acompanhar as tapas, que justificam a deslocação se nos esquecermos da música.
De Savannhah ficará também a recordação da câmara fotográfica esquecida no Dot, o transporte público para turistas, que funciona a partir das 10 am. Circula pela zona histórica (Historic District) da cidade parando aqui e além. Depois de sair, senti a falta da Canon para registar o Market e lá fui a correr atrás do Dot, animado pelas paragens frequentes nos sinais vermelhos. Só que a cada arranque no verde, me faltava a força nas pernas, que logo ressurgia no vermelho seguinte. Percebi nesse exercício que a força está, certamente, mais na cabeça do que nas pernas. E finalmente, a história acabou bem. Ao fim de mais um circuito pela cidade, pude ver a câmara deixada no segundo banco do Dot. Recuperação com palmas dos turistas em circuito. Mais do que a perda da máquina que me acompanha desde a Nova Zelândia, era o trabalho de quase um dia que se perdia.
Ao fim de 2 dias, já pouco há a fazer na cidade além de perceber que é bem maior do que o turista vê no centro histórico e como turista bem orientado pelos Lonely Planets fomos até Tybee (que significa sal na língua original) e hoje é acumulação de praia e hotel com um jetty a lembrar-nos outras paragens e companhias de viagem. Os mundos vão sendo todos muito semelhantes, muitas vezes a diferença dos instantes são os amigos com quem os percorremos.
De Savannhah até Orlando é um tempo de ligação que se poderia bem melhor fazer por translocação futurista. Nada a registar, excepto a visão das nuvens carregadas à entrada do estado do sol e a confirmação da chuva na chegada a Orlando. Por Orlando passámos também, vendo ao longe mais uma das skylines sempre idênticas desta terra. Finalmente, o Grand Vaccances Hilton, confortável e igual a tantos outros locais de repouso pseudo-sofisticados. Repouso na véspera da ida às brincadeiras de infância que sabem ainda bem nos tempos de agora. O mundo do senhor Walt é isso mesmo, sendo agora possível perceber que Paris e quejandos são amostras para abrir o apetite à casa mãe. Há para todos os gostos, mar, futuro e magia servidos sempre da mesma forma descontraída, organizada e obrigatoriamente feliz. Um dia só nos permitiu optar pela Magia e lá andamos entre a Branca de Neve e o Peter Pan, por montanhas russas tenebrosas e salpicos de água refrescantes. A paisagem humana é aqui diferente de Paris: os americanos mascaram-se dos heróis para virem ao Reino da Magia e deslocam-se aqui para celebrar os mais variados eventos. Irritação só mesmo à saída. Ao dirigir-mo-nos para o barco que nos havia de levar ao monorail e como gente normal ensaiámos uma passagem sobre uma corrente que nos evitava mais um precurso de uma centena de metros. Logo uma senhora rosnou um sonante there is a reason for the chain!! Ela acredita que há, porque alguém lhe disse que havia. Mas ela não sabia nem desta razão nem de todas as razões que lhe dizem que há para não fazer as mais variadas coisas. Deve ser fácil governar uma gente assim, que nunca pergunta o porquê das correntes e das cadeias. Gente que parte para guerras em locais que desconhece e tolera Guantanamos porque mais do que o temor a uma divindade, aceitam os dogmas dos governantes sem pestanejar e afirmar convictos, afinal, que há uma razão para as correntes e cadeias. Ninguém lhe spergunte qual, porque não sabem. Pior, nem entendem o significado da pergunta. Aliás, quem a fizer deve ser ou talibã ou no mínimo comunista.
Depois do incidente não o céu, mas as nuvens caíram-nos em cima da cabeça e do corpo todo. Era o prenúncio do clima dos dias seguintes.
No dia seguinte, o time-sharing roubou-nos a manhã antes de seguirmos mais para o sul. O suficiente para inviabilizar a visita ao Kennedy Space Center. Da porta ainda avistámos foguetões e o space shuttle. Fica para a próxima na esperança de ter sido a única perda do dia.
Pelo sul abaixo, há um contínuo de praias mais ou menos privadas, com casas particulares sobre a areia e impossibilidade do comum dos mortais chegar à água. Numa tentativa desesperada passámos pela Fonte da Juventude em St Augustine. A água bebemos, mas os resultados devem ser os que teve o inicial descobridor e cada vez mais os senior moments se irão apoderando mais e mais de nós. Houve também o insólito de na beira da estrada se encontrar um casino com mais de 200 slot machines, gerido por uma confissão religiosa, da miríade de organizações destas que vamos encontrando a cada momento. Uma crise de fé geradora de muitas fés, ao que parece de duvidosa ética. Miami é quase no fim da estrada.
As sugestões dos livros de viagens resultam algumas vezes. Ficámos ao sul, em Coral Gables, algo que lembra Estoril-Cascais, num hotel velho e charmoso,cheio de história e encantos múltiplos. Do 10º andar do Biltmore avistamos a grandeza do campo de Golfe e um céu de chumbo quase a cair de novo. Soubémos no dia seguinte, que em Miami Norte os carros nadaram na enxurrada. Tudo acontece em meia hora, a chuva desaba e logo seca, religiosamente ao fim da tarde.
Na manhã seguinte, já voltou o céu absolutamente azul e o calor húmido. Antes que chuva volte, fomos a Key Largo e resistimos aos perto de 200 quilómetros de estrada sobre ilhas que leva a Key West, quase junto a Cuba. Era um desperdício de tempo de viagem na incerteza de haver uma balsa para rumarmos à Ilha...
Ficámos pelo mergulho a ver peixinhos, experimentando eu a angústia da desorientação e o sabor áspero da água na garganta. Alguém me fez sem barbatanas.
Miami depois foi a visão da praia, de uma costa estragada por grandes hotéis e finalmente com a descoberta de um resto de passado na zona Art Deco, obviamente só na arquitectura. De resto é a Ocean Drive para comer e a Collins para vestir. Nos pisos de cima das duas, descansa-se nas camas dos hotéis. É curioso que nesta ânsia de conservação politicamente correcta, acaba-se quase sempre por destruir as especificidades dos locais e torná-los iguais a tantos outros noutros sítios. Há alguma globalização na afirmação da originalidade local.
Mais própria a skyline que brota da Downtown e Little Habana onde se encontram cubanos desgostosos com a realidade da Ilha, aparentemente não muito bem de vida, perdidos na cidade de acolhimento. Em vários casos nem integrados na língua, apenas entendendo o castelhano.
Um último dia para sobreviver aos mosquitos do Jardim Botânico e passar por Vizcaya a contemplar glórias e passados de bem estar.
Antes do regresso a Washington, a experiência de um aeroporto onde se faz check-in na rua.
Em Washington já o tempo é de trabalho e menos de passeio. A cidade está mais aberta que há uns anos e por todo o lado há a glorificação de Obama. Ainda assim, Georgetown permitiu bons momentos de passeio e a passagem pelos memoriais não deixou de causar a estranheza da sua existência. Nomeadamente, não consigo perceber qual a glória dos americanos que morreram no Vietname. They never forget o quê? O erro de uma guerra onde se meteram contra o sentido da história? A sua derrota inglória? Provavelmente esqueceram ou pelo menos não aprenderam grande coisa com a história e lá vão saltando de Iraque em Afeganistão na construção de novos memoriais. Até quando?
E basta de intromissão do passado recente no presente.

sexta-feira, junho 19, 2009

Uma semana de volta

Ao fim de uma semana, quase me retiram a rotina da iminência do furacão. Esta terra está estagnada, um pantanal com os mesmos bichos de sempre.
Há uns meninos eufóricos com a vitória que parece nem eles saberem muito bem como aconteceu. São as mais gozadas, mas também as, possivelmente, menos repetíveis. A ver se vai. A política é imagem e a grande discussão actual é se um animal feroz se está a converter em português suave. Do que fez e não fez, nada se diz, até porque, se fosse dizer-se ver-se-ia que os que se propõem fazer daqui em diante, afinal, teriam feito de forma semelhante aquilo que foi feito pelos incapazes de fazer. Um eterno alterne da mesma coisa com moscas diferentes, sempre e só.
Para animar a coisa há momentos de suspense à maneira de J E Moniz. Ao fim do dia, de gravata vermelha e papel vermelho na mão deixou o país azul. Afinal não é candidato a presidente do Benfica. Ficou tudo como dantes: Moniz em banho-maria (ou será em banho-(com) a Manuela?). Já espero pela sexta-feira em que ela o vai desancar em público: então você afinal é como os outros, diz que avança e pára a meio sem consumar o acto! Impotente! (Mais um pico de audiência)
Mas o mais sintomático deste país sem viabilidade são coisas como a discussão das obras públicas ou as provas dos alunos. Na primeira há uma divergência fundamental, uns acham que o investimento público é negativo porque limita o esbanjamento privado e se deveriam apoiar os pequenos e médios empresários que tantas provas têm dado (provas ou votos?) e outros o contrário. Há 30 anos vivi num país que os governos anteriores não hipotecaram, num país grande que demorava muitas horas a ir de ponta a ponta. Era um país lento onde não se tinha feito investimento público. Sempre me pareceu melhor que tivessem investido, dando-nos vida apesar das dívidas.
As provas dos alunos são de uma óbvia facilidade (para mostrar melhor resultados na Europa!) e os pequenos ainda assim chumbam ou nem têm notas por aí além. Criticam então os professores a facilidade dos exames. Deveriam ser de maior complexidade, levando a razias mais abundantes. Perante isto, interrogo-me que andarão os professores a fazer, que os alunos nem provas simples resolvem a 100%. Para que lhes pagam ao fim do mês, se não conseguem transmitir o conhecimento? Ou será que o mal de toda a facilidade dos exames é desincentivar os pais a pagarem explicações particulares, porque as notas estão garantidas?

sábado, maio 30, 2009

Quarto poder

As viagens de avião servem para me começar a sentir de férias. Mesmo quando o pior deste país ainda persiste nos jornais do avião, que nunca de outra forma leria. Fico a saber que o combate Manuela Moura Guedes - Marinho e Pinto se está a converter numa coisa séria de análise da qualidade de informação da TVI. Uma vez mais as bocas da MMG voltam a colocá-la no pódio da informação e o excelso marido defende a qualidade do seu jornalismo afirmando que o seu telejornal é o preferido dos portugueses. É um argumento absolutamente distorcido. Qualquer tipo de análise objectiva levaria a considerar isso como um não elogio, tal a deficiente e histórica tendência para a asneira da opinião desses opinadores e escolhedores do mau caminho.
MMG é um produto caracteristicamente nacional e daí, seguramente, a sintonia. Como a maioria escolhe o caminho mais fácil, não busca a verdade, mas o que tem impacte, não procura nunca formar informando, o objectivo é despertar as emoções, incendiar, que nestas coisas o que o povinho gosta é fazer um roda a gritar porrada!porrada! enquanto lá no meio dois se esmurram até à exaustão. Nunca reflectir, mas agir emocionalmente é tudo o que pede a facilidade, a manuelamoraguedização desta gente. É preciso mantê-los quentes emocionalmente, impedi-los de pensar no sentido das coisas que se fazem. MMG é um instrumento eficaz do poder, hoje para gáudio da oposição procura entalar o poder e, amanhã, trocados os personagens, irá continuar a fazer exactamente o mesmo, criando a miserável sensação de que são todos iguais. Como convém. Já é tempo de ter uma medalha a 10 de Junho. Esta é uma mulher que vive, como muitos outros jornalistas, do alterne da política. Enche-nos o copo da emoção da notícia, não consome, que o seu papel é apenas e só levar-nos a consumir, aumentando as vendas da casa.
Fico contente porque me afasto a 900 km/h disto. Mas estou certo que me aproximo à mesma velocidade de algo pouco diferente. É o quarto poder, estúpido.

quarta-feira, maio 27, 2009

No free lunch!

Que eles façam o que têm de fazer, percebe-se e outra coisa não é de esperar. O inaceitável é ver a intelectualidade a ser ensinada pelo marketing. Absolutamente acríticos, não imaginam o ridículo que mostram ao manifestarem uma ânsia súbita de aprender as directrizes, prontos a actuar de forma automática, sempre às ordens. Perante isto quase que não consigo deixar de ter alguma admiração pelos corruptos, que percebendo o jogo, o aproveitam. Ao menos são vermes com restos de inteligência, podendo sempre despertar para um caminho mais razoável. Mais grave são os idiotas sem esperança possível.
Apetece-me fugir para a horta. Cada vez mais.

segunda-feira, maio 25, 2009

Red wine

“PS e PSD são um pouco como a Pepsi e a Coca-Cola.”
Miguel Portas, “24 Horas”, 25-05-09
Exactamente, viva o vinho tinto! Bem vermelho e aromático.

sábado, maio 23, 2009

Gran Torino

É a solidez de um homem estruturado na vida real, que adquiriu ao longo da vida as suas ferramentas, todas com nome e uma função bem precisa. Nele não há lugar para instantes de marketing. À sua volta, esvoaçam imagens de vendedores que nunca viveram a alegria de construir uma direcção e destroem o seu tempo na elaboração de estratégias, convencidos de que com a sua actividade imaterial, constroem algo. São dimensões de vida que se não encontram nunca, vidas paralelas sem paralelo possível. Dois momentos do mundo, ocasionalmente desencontrados num tempo indefinido.
Pelo contrário, no vazio envolvente cresce uma vida sem esperança, oca, onde se sente a ausência de futuro a todo o instante. Sim, apesar de tudo, a polícia, nestes casos, acaba sempre por ganhar confinando-os ao presente. Eles são sempre os bons e os maus vão presos. Este mundo indefinido, de contornos imprecisos é, por paradoxo, a consequência de, no mundo normal, o êxito ter passado a depender do nível de vendas e não da realização de motores, direcções e transmissões como no tempo em que se faziam Gran Torinos.
A fita mostra-nos também a morte e o seu potencial de salvação e liberdade. Revela a possibilidade de se não temer aquilo que afinal se sabe certo, deixando o espaço para fazer o que tem de ser feito, ou seja, continuar a dar lições de viver, mesmo que isso implique não prolongar os anos de sobrevivência.
Finalmente, a sabedoria reside no encontrar da eficácia da acção e não na vingança mal pensada ditada pela emoção.
Quanto mais vejo Clint Eastwood, mais pressinto que está para Woody Allen, como Saramago para Lobo Antunes. De um lado, o mundo real nas fábulas sem lugar para mariquices, do outro as inquietações e as cólicas da pieguice burguesa.

quinta-feira, maio 21, 2009

Bailout for dummies

Mas tudo isto é um jogo de ilusões, como se percebe pela história que hoje me chegou num mail:
Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece.

A crise sente-se.

Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.

Subitamente, um rico turista russo, chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de E100 sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.

O dono do hotel pega na nota de E100 e corre ao fornecedor de carne aquem deve E100, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar E100 que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os E100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os E100 e corre ao hotel aquem devia E100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.

Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos E100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.

Contudo, todos liquidaram as suas dividas e este elementos da pequena vila costeira encaram agora optimisticamente o futuro.


Ou o bailout explicado a tipos como eu, que ainda pensam que deve existir um mundo real. Ou será que a realidade só deixou de o ser pela interferência artificial do conceito de propriedade? Como se vê nesta história, o dinheiro é apenas um artifício que pode deprimir uma sociedade que, sem ele, poderia trocar e funcionar de forma real. Esta abstracção é, afinal, a causa de todas as crises.

O bilhete de avião

Comprar um bilhete de avião é uma emoção. Entra-se por exemplo na expedia.com e marcamos o sítio de onde partimos e para onde desejamos ir. Depois de uns instantes temos, para espanto dos nossos olhos, várias ofertas em que a relação da mais barata à mais cara é de pelo menos 1:6. Ou seja, a mesma distância percorrida por aviões semelhantes, tanto pode usar-se para atravessar o oceano como quase para dar a volta ao mundo. O mais curioso é que é uma questão de instante, no momento seguinte já tudo pode estar diferente e custar metade o que valia o dobro. O jogo da oferta e da procura, a entropia à solta, revelando a irrealidade sobreposta pela sorte do instante. Realmente, o custo não é o custo da gasolina, do pessoal de voo, das taxas de aeroporto,da amortização do custo do avião. Nada disso, é um encontro de procuras, em volume maior ou menor, para a mesma oferta, é apenas sorte ou azar que é a outra forma da sorte a que se não aspira nunca. Adora-se a incerteza, a dúvida e a satisfação de podermos enganar o parceiro do lado em cada momento. Ainda assim, quem oferece e quem procura poderão não estar em igualdade e isso é o vício deste jogo, onde a oferta faz a regra as mais das vezes.

segunda-feira, maio 18, 2009

Forças de bloqueio

E quando as pessoas bloqueiam, ainda é razoável continuar a tê-las em conta? Há uma espécie de gente estacionada, a ocupar lugar, sem andar nem deixar andar, que na sua falta de tempo, não deixa o tempo dos que o têm avançar. São respeitáveis pela condição de seres, pela história que contêm, mas sem serem descartáveis, exigem reciclagem. E deve restar-lhes a disponibilidade para essa promoção, porque a existência não existe para eles, mas para os outros que querem beneficiar dos avanços mais rápidos dos que ficam bloqueados pelos seus indesejáveis privilégios. Terão histórias deliciosas daquelas que os avós contam aos netos, mas precisam do repouso dos avós e não da prerrogativa de tolher uma geração. Terão até um papel moderador, que a experiência inspira, de eventuais impulsos da inexperiência dos que agora bloqueiam. Essa pode ser a sua nova função e utilidade. Mas forças de bloqueio é que não!

sábado, maio 16, 2009

Perigosos estes tempos

Recebi há uns dias uma mensagem a que vinha anexada uma pretensa história das causas que motivaram as formas dos números árabes. Cada um, do 1 ao 9, tem (tinha) um númeero de ângulos correspondente ao valor numérico que representava e o 0, finalmente, era assim redondo por não ter qualquer ângulo. Verdade ou mito faz sentido, é uma explicação para a coisa. Nos dias de hoje, cada vez menos, vejo esta curiosidade de investigar as causas, ou a simples busca das explicações que leve a pôr hipóteses. Há um desrespeito pelas origens e uma fé cega no seguimento das directrizes. A abundância da informação impede a sua digestão individual e fica-se progressivamente mais dependente de quem faz os resumos que nos orientam. Assim, avança o pensamento único, paradoxalmente, num tempo de pensamentos infinitos. Sempre pela falta de tempo e pela busca imperiosa do rigor científico, nem ousamos já pensar de forma independente. Mais automatizados, obedientes, estamos dominados por um pensamento único e politicamente correcto. Prontos para as orientações finais de um qualquer emergente ditador.

sexta-feira, maio 15, 2009

Sonhos de piratas

Mas que esperar de um país de navegadores e viajantes, que não a integração com as novas culturas e sonhos de descoberta? Não é pois de estranhar que, no meio da ciência, os médicos façam umas piratarias ou que, numa visita de Estado, a Primeira Senhora realize sonhos de viagens. A diferença é que os médicos não representam coisa alguma, enquanto que estes dois, em teoria, nos representam a todos nós, dando a imagem de um povo que come bolo-rei de boca cheia, adora jaquinzinhos e se aquece no lar em mantas adquiridas no avião. Bem, possivelmente, tudo isto são mitos urbanos. Mas como diria o outro, os piercings eu já vi!

domingo, maio 10, 2009

Coeficiente de cagaço

O complicado desta profissão é a gestão da incerteza, sobretudo num ambiente social em que se pensa, erradamente, que a tecnologia permite saber toda a verdade. De forma que vivemos sempre mais com a arte do que com a ciência, que é estabelecermos um limiar que nos dê suficiente sensibilidade sem nos arruinar a especificidade. Se calhar o coeficiente de cagaço dos novos engenheiros é o equivalente desta gestão da incerteza, que é sempre mais aguda nos novos médicos. Com o passar dos anos diminui o coeficiente, subimos o limiar da possibilidade da doença, mas nunca eliminamos, absolutamente, a dúvida. É este o desafio que nos perturba o descanso quando jovens e... sempre. O pior de tudo é que a matéria com que lidamos não é susceptível de ter os erros compensados com seguros e temos de aceitar a nossa condição de humanos errantes. Mesmo o cuidado não nos livrará do erro algumas vezes, embora compense a consciência. No entanto, se procurarmos a especificidade a todo o custo, o erro será bem mais frequente. E será a vida possível sem a dúvida? Como seria se soubéssemos o fim da história antes de a fazermos?

sábado, maio 09, 2009

Jogos

Não convém mostrar um ar indignado quando o agente de segurança nos manda parar o carro e nos pede a identificação. Estará em causa o desrespeito pela autoridade.
Agora se quisermos fazer cavalinhos de mota à frente da esquadra, atirar umas pedras ou uns cocktails molotov contra os polícias, parece não haver problema. Ninguém é identificado. Faz parte de um jogo real numa terra de realidade virtual em que a polícia fornece vidas adicionais aos jogadores. Esperemos para ver o end of game.

sexta-feira, maio 08, 2009

Esboço

Apesar do regresso recente de NY, já ando com vontade de nova vad(v)iagem. Descer a Costa Leste a partir de Washington até Miami. Comecei a prospecção: cerca de 1600 km ou como diz o Googlearth, umas 15 horas de viagem. Parece razoável recordar o passado em Savannah, ir brincar a Orlando e mergulhar em Miami. Finalmente, regresso a Washington pelo ar.
Cá por dentro, sou um nómada.

segunda-feira, maio 04, 2009

Ética, onde andas?

1. Vital Moreira não gostou de ser refrescado e acusa o PC de lhe ter atirado um copo de água. Melhor seria que acusasse o agressor amplamente identificado em vídeo e fotografias. Afinal foi um acto público de um selvagem a quem e só a ele devem ser pedidas responsabilidades. O resto é aproveitamento político, vitimização, ou seja poucos princípios éticos.
2. Gilberto Madaíl acha que uma agressão bárbara feita em Espanha por um jogador brasileiro considerado português não implica sanções a nível nacional. Conclusão a selecção aceita bárbaros desde que ajudem no caminho para a África do Sul. É o vale tudo, o oportunismo e a falta de princípios éticos.
3. Jorge Sampaio acha que se for preciso deve haver um governo do Bloco Central juntando PS e PSD. Se for preciso, quer dizer para melhor gerir o liberalismo, até se pode juntar a mentira e a verdade como diria a Dra. Manuela. Fica mostrado, para quem quiser ver, que aos olhos deste Papa, afinal, as diferenças nem serão assim tantas. E tem razão. Só que também aqui há baixa política e falta de princípios éticos.
Os fins não podem justificar os meios ou ninguém se vai safar no meio disto.

sábado, maio 02, 2009

NY sem programa

Há cidades de que só gostei na primeira vez que as vi. Outras há que é possível redescobrir cada vez que lá vou, encontrar-lhes novos sentidos e senti-las de forma nova em cada visita. Nova Iorque começou por ser uma cidade aceite com reservas, de duvidoso interesse. Foi a fase do postal ilustrado conhecido, do preconceito que sempre se associa ao desconhecimento. Foi assim na altura em que tinha um ar de triunfo do sistema e na altura do martírio das torres. Foi já na última vez que lá estive que percebi que é uma cidade onde tem de se voltar para se experimentar de novas maneiras.
Agora, com os museus conhecidos, mesmo os renovados e sem que houvesse alguma exposição temporária marcante nesta altura, foi possível visitá-la sem programa.
Pragmaticamente, desta vez, começou por servir para ir às compras. Longe das loucuras da 5th Avenue, no Outlet da periferia, onde as promessas eram muitas. A viagem de camioneta demora cerca de uma hora e um quarto. Como é frequente acontecer, é importante não desprezar o instante da viagem sacrificando-o à ideia do objectivo. Neste início de Primavera já avançada, ainda são ressonâncias outonais o que me foi dado ver nas árvores desfolhadas. O objectivo prometido, meio mítico, soube-me ao Campera ou ao FreePort. É duvidoso o valor do bilhete do transporte, apesar das poupanças dos artigos comprados, porque se gasta um dia. Mas, desta vez, os dias também não estavam tão contados. Por pouco, as filas do regresso impediam um fim de dia na calma da música de Emílio Santiago servida no Birdland. Valeu a eficácia dos táxis que permitiram ir despejar a tralha ao hotel e chegar uns minutos antes do começo do espectáculo.
O segundo dia começou com a romagem ao Ground Zero, local de mistérios possivelmente por esclarecer, agora a renascer no aço e no betão. A St Paul Chapel salva, em dia de fúria árabe, por uma figueira-do-egipto é agora um monumento de romagem ao naineelevene, cheia de homenagens aos heróis do bem e lembranças dos espíritos do mal. Mas não só as árvores providenciais ou a intervenção divina actuaram na zona, deve também ter sido fruto da acção de uma qualquer mão invisível a salvação do Century 21, onde no meio do lixo sempre se encontra alguma coisa que vale a deslocação, fazendo sentir, que muitas vezes o lugar certo está mesmo perto de nós e não é aquele local distante onde ainda não chegámos. Já libertados das compras, na rua, pude assistir à estratégia de implementação do pleno emprego em tempos de crise: 3-funcionários-3, ajudam os peões a atravessar numa passadeira...
[Filme a estrear em breve neste local]
O shopping cansa e justifica um estágio de preparação para o jazz da noite no Bluenote, onde estava Michel Camilo ao piano, em dia de festa de anos.
O day after começou num resto de compras na Uptown. Breve desta vez, mas suficiente para perceber alguma depressão nos sorrisos mais escassos das empregadas das lojas, certamente porque a crise também deve andar por aí a baixar os proveitos e a ameaçar a ida para casa. Até na rua os sem-casa (as pessoas precisam de casa não apenas de abrigo) são mais frequentes que na última passagem por cá. De resto, está igual, sempre fumegante do chão e com os cafés transportados na mão enquanto se corre para algum lado, com os mesmos ténis que se substituem por sapatos na entrada do emprego. Só as flores surpreendem pela positiva desta vez em que a visito antes do Verão. A 5th Avenida continua a ser um filme passado em ritmo acelerado com milhares de pontos agitados na entropia habitual. Depois de uma manhã assim, sabe bem apanhar o metro e ressurgir do outro lado do rio East, em Brooklin. As lojas da Fulton Mall têm um ar mais à maneira do Martim Moniz, mantendo a mesma agitação de Manhatan. Em minutos as pessoas mudaram de cor e aumentaram de peso, abanam enormes rabos pelas ruas. Caminhando em direcção ao rio, reaparece uma calma nova por entre a zona residencial e encontra-se gente que repousa em bancos de jardim virados para Manhatan, que vista daqui tem uma tranquilidade inesperada, só perturbada por algum helicóptero aqui e além. O passeio acaba no The River Café, quase por baixo da ponte de Brooklin, com Manhatan nos olhos, árias de Ópera nos ouvidos e na boca, degustação de queijos acompanhada de Riesling. O sol descia sobre a grande cidade, alaranjando os ares num fim de tarde morno e gostoso. Tão bem se estava que se esticou o tempo e foi já com alguma ansiedade de chegar atrasado que avançámos para o compromisso musical que tinha sido a causa principal desta deslocação. No Harvey Theatre, de tijolo à vista e colunas metálicas corroídas pelo tempo e pela falta de subsídios certamente, assistimos, no palco, à Paixão Segundo São Mateus, executada por uma orquestra da Academia de Brooklin disposta num círculo no meio do qual evoluía o coro. Sem formalismos de vestuário, em ar de ensaio, pelo exclusivo prazer da música de Bach.
Neste dia 25 de Abril que desde há 35 anos é um dia especial e para sempre como diz o slogan, a deambulação começou na Village onde, passados os cachorros atrelados a alguns seres mais ou menos exóticos, voltámos a não poder ir ao Chumley's, onde a pressa já nos não tinha feito entrar da última vez. Também desta lá não fomos, porque tinha sido fechado (pela ASAE do sítio?). Moral da história, nunca perder uma oportunidade no presente, porque o futuro é sempre incerto. A alternativa morou perto no Pink Tea Cup. A comida do Sul e Obama presente na decoração.
Pelas ruelas da Village ainda foi possível passar noutro local igual a tantos outros por onde se pode andar, mas muito raro, porque celebra a coisa comum e não a excepção. Devidamente assinalado com placa e tudo.

À tarde enquanto se faz tempo para o Trovador, anda-se por Central Park salpicado de nova-iorquinos estendidos em piqueniques pela relva, à maneira dos pontos de Seurat. Imagens de antes e agora, reveladoras de que os gostos das gentes não mudaram assim tanto e que a verdadeira vida, a da Street, pouco terá que ver com a apregoada como modelo na Wall Street, uns quarteirões abaixo.


Ao Domingo é dia de brunch com Jazz band de novo no Blue Note. Foi um domingo de calor para passear a pé, no pós-brunch, na visão de mais Seurat vivo junto a Battery Park. Ainda uma nova revisão do grande buraco a renascer antes de ir até South Street Sea Port e acabar na East Village, numa deslocação intencional para visitar, na 7th Street, a MacSorley's, que nasceu 100 anos antes de eu nascer e que se mantém jovem na tradição das duas canecas de cada vez, que uma só deixa a garganta seca na tarde de Verão antecipado na Town. Aqui a serradura anda no chão e as gargalhadas no ar. No ar, pendurados continuam igualmente os wishbones, que os soldados há já muito tempo não vieram buscar. Cobertos de pó sobre o balcão. A história foi-nos contada por uns canadianos que por lá estavam também e é assim: antes de partirem para a guerra os soldados iam ali depositar uns pequenos ossos de frango. Na volta, passavam a retirá-los... os que regressavam. Dos outros sobram aqui os ossos de frango e os deles em Arlingtons por aí. São as pequenas histórias dos lugares grandes que valem a pena.
Acabou o dia no teatro Orpheu, sob o ruído e graça dos Stomp na descoberta do som do lixo reinventado. Ou de como a matéria só existe pelo trabalho do espírito.
Chegados ao último dia, cumprimos a quase tradição de ir a Harlem e ao Sylvia's para saborear a comida do Sul. Era segunda-feira, não havia Gospel, mas foram suficientes os paladares da Louisiana.
À partida sente-se o receio da gripe e a incerteza dos próximos tempos nos alarmes da imprensa ávida de vender e continua a estar presente o desejo de voltar. See (ny)ou soon.
Já no JFK, a imagem muitas vezes vista na cidade, nos cafés e nas ruas. Ao fim de 100 dias tudo está tranquilo e as t-shirts vendem-se bem. Até quando?

sábado, abril 18, 2009

O fruto desejado

Foi estranho estar nesta reunião de rurbanizados. Éramos quase todos cinquentões, aparentemente ignorantes, mas nostálgicos da ruralidade. Havia algum sonho nos olhares, como que a interrogarmo-nos se um dia seremos capazes de comer uma maçã criada por nós. Certamente, serão as maçãs mais caras do mundo, mas sabem à nossa capacidade de o reproduzir. Por fim, a nossa actividade dará frutos. Foi essa a visão daquele instante.

sexta-feira, abril 17, 2009

O limite da verdade

Que é lá isso de irem ver as contas bancárias?! Então e a livre iniciativa privada e o papel regulador do Estado é para ficar ou não?
Pois, a política de verdade tem por limite a mentira possível nas contas.
Assim se vê o que é fracturante e que ainda haverá diferenças.

quinta-feira, abril 16, 2009

Os caciques

Esta pequenez, delirante de grandeza, comove. No fundo este que era um país de doutores e engenheiros, subiu um degrau ficando exactamente no mesmo nível, transformou-se num país de doutores por extenso e professores, que se autoconsideram importantes, mas a quem, na grande maioria dos casos, ninguém reconhece nenhuma autoridade especial. O título não lhes deu, nem é reconhecimento de uma qualquer cultura, permanecendo apenas e somente isso, um título. O conteúdo destes seres é o título, nada mais.
Quando a isso juntam a reivindicação do poder, tornam-se nos caciques que antes foram os doutores e engenheiros. Constroem jogos de poder às escondidas, esquecendo-se que o secretismo é hoje mais complexo que nos tempos idos em que havia ajudas que valorizavam a alma do negócio.
Dá-me gozo ver o incómodo que lhes causa a descoberta dos seus segredos tão bem, pensavam, guardados. Só que realmente, hoje, um segredo não resiste à guarda de mais de uma pessoa. Vai mau o tempo para o caciquismo. E nada justifica a piedade perante o ridículo, antes pelo contrário. Estes deuses com pés de barro são para quebrar com toda a energia possível da verdade.

terça-feira, abril 14, 2009

Um português (ou luso-descendente?) na Casa Branca (primeiro cão ... capado!)


Não se trata do Durão. Esse ia quando lá morava o residente anterior, que cedo, reconheceu que o José teria um grande futuro. E teve, que a história está aí a mostrá-lo. Só que ia e vinha como visita. Agora a coisa é mais séria. Há um português que vai residir, realmente, na Casa Branca. A má notícia é que, conhecedores como são os americanos das potencialidades dos portugueses e dos seus hábitos quando chegam a novas paragens, já lhe preparam um triste destino. Já não bastava aquele colar alegre e colorido que lhe meteram para as primeiras fotos...
Que imagem é esta que querem dar de Portugal? Haja decoro, assumam-se, é um luso-descendente.

segunda-feira, abril 13, 2009

Nuvens

Muito pior que não ter as soluções para o mundo, é começar a ter a sensação que me não interessa ter as ditas. A fase seguinte será possivelmente perder a noção da gravidade destes sentires. Será que vai ficar tudo plano ou desaparecerão mesmo as dimensões e tudo se convertirá primeiro numa recta, depois num ponto, acabando num fade como nos filmes?
O pó será de novo pó ou mesmo coisa nenhuma.

sexta-feira, abril 10, 2009

A primeira Loja da Cidadã (D. Pulquéria)

A Dona Maria Pulquéria decidiu mal servir os cidadãos algarvios e criar, possivelmente, a primeira Loja da Cidadã ou das mães de Faro. Além do mais, deve estar empenhada em prestar um serviço de má qualidade aos utentes. Com efeito, garanto-lhe que qualquer cidadão que goste de um serviço de qualidade aprecia ser atendido por decotes generosos, saias curtas e bom odor ambiente. Quanto à lingerie escura (o vermelho é uma cor alegre ou escura?) fica-me a curiosidade de saber quem iria fazer o controlo das funcionárias e de que forma isso iria ser detectado pelos cidadãos frequentadores da Loja.
Se isto não pudesse ser de alguma forma preocupante, até poderia ser ridículo.

quarta-feira, abril 08, 2009

Analfabetos

A todos os que acusam de tudo os «Eles». «Eles» são os que fazem coisas horrorosas, só porque os impotentes os deixam fazer.

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguer, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política
.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

Berthold Brecht

terça-feira, abril 07, 2009

Médicos e farmacêuticos

Vai quente a luta entre médicos e farmacêuticos. Uns e outros publicam falsos, ainda que politicamente correctos, argumentos. Na verdade, custa-me a crer que alguém como os farmacêuticos que tem um negócio de vendas, onde o lucro depende da percentagem do que se vende, esteja interessado em vender mais barato. Tal caridade não existe na vida real. Também os médicos quando nesta argumentação dizem que os move o supremo interesse dos doentes estão a recorrer à boa causa, mas não à causa verdadeira. Farmacêuticos e médicos têm neste assunto outras motivações bem mais reais, só que inconfessáveis: os primeiros são proprietários de um produto que querem erigir em monopólio e têm interesse directo em vender um determinado fármaco e não o concorrente, ganhando na produção e no comércio; os médicos, não querem abdicar do privilégio de «oportunidades de formação», que a Indústria farmacêutica lhes oferece graças às suas escolhas. Acontece que, transferir este privilégio para os farmacêuticos não acrescenta nada ao sistema e até lhe tira alguma coisa: a possibilidade de alguém habilitado tecnicamente arbitrar de alguma forma este jogo. Tem é de estar menos implicado em eventuais jogos de troca, isto é, o caminho será libertar os médicos desta relação de proximidade com a Indústria, que até podendo não implicar necessariamente formas de corrupção, não a impede. E quando de corrupção possível se trata, tudo deve ser feito para a prevenir, tanto a outros níveis como neste. Portanto, aos médicos a liberdade de prescrição, aos poderes a força para proibir ligações perigosas.
E continuo também sem perceber porque não existe uma rede de farmácias administradas por serviços públicos. Não será certamente por ser um mau negócio e sempre seria forma de dar mais dignidade a licenciados que, por agora, são meros empregados de balcão.

segunda-feira, abril 06, 2009

A vã ilusão

Por muito que a cegueira selectiva possa ajudar, deve haver momentos em que a realidade chega ao córtex. Ainda que por instantes, como flashes no meio da escuridão. Nesses momentos, essas imagens deixarão alguma impressão de lucidez e deve doer a sensação de se estar só e o pior deve ser perceber que as miragens de companhia de nada valem nesses instantes. Em flashback devem então vir à consciência o engano que, na verdade mesmo, nunca chegou a enganar, apesar de, em muitos momentos, se ter tido a sensação de ter podido ludibriar meio mundo nos muitos minutos de audiência que se teve. Mas qual a obra feita? Essa é a questão de todas as inquietações a que se não conseguirá fugir mais vezes do que se desejaria. Dá-me alguma pena, ainda que algum gozo também haja misturado. Pois, apesar de tudo, é bom que a impunidade não seja completa...

quinta-feira, abril 02, 2009

Interregno

Já se sente a pausa que antecede a espera do que aí virá. Entrámos na gestão corrente, incapazes de fazer prognósticos sobre o que será o dia depois. Já não há grande motivação para prosseguir a mudança. Agora, é tempo de estar quieto, não fazer grandes ondas, assobiar, apresentar o sorriso da satisfação insegura pré-eleitoral. Altura de fazer todos os bluffs e esperar que passe e corra bem. No meio da crise, vão-se perder alguns meses a olhar para o lado, porque a democracia tem destes interregnos em que, realmente, ninguém reina. Fica-se simplesmente a respirar num registo de hipometabolismo basal. Apetece ir de férias e voltar depois.

quarta-feira, abril 01, 2009

Surreal

A desrealização pode muito facilmente levar a crer que a hipótese é a verdade, mas, pior do que isso, pode despertar a necessidade de ser profeta de uma mensagem de erro. Nalguns casos pode ser tal a crença, que a simples contradição da fé, leva à angústia do desespero, a uma impotência humanamente insuportável quando, afinal, alguns ousam não ser discípulos. Nalguns casos, o melhor, será mesmo o recurso ao internamento.

segunda-feira, março 30, 2009

A folha em branco

Acontece, algumas vezes, agir-se sem se sentir o rumo da acção. Mas pior ainda será ficar paralisado, esperando que algo aconteça. Resta então a reacção, possivelmente, tarde de mais, só a tempo do arrependimento. Inútil, nessa circunstância.
Usar as palavras, por vezes, é como atirar cores sobre uma tela. É a forma que nasce que vai encorpando o texto, procurando novos contornos e tons diferentes. De quando em vez, pára-se, para contemplar o objecto nascido, para logo depois o acrescentar até, finalmente, se sentir que mais nada se lhe pode pôr. Quantas vezes é nesse instante que o título chega de forma surpreendente. Não havia rumo, mas chega-se, curiosamente, ao destino, não por fado, mas pelo caminho determinado pelos instantes que criamos, uns a seguir aos outros, alinhados. O quadro pode então estar colorido de sentido ou, como também acontece, ficar, simplesmente, côr de merda. Da inacção, porém, apenas nascerá o vazio da cor.

sexta-feira, março 27, 2009

Mares e lagos

Sou sempre mais tentado pela visão do mar que pela visão dos lagos. O mar tem o conflito das ondas com a areia da praia gerando uma renovação constante e surpreende-me quando, a cada vez, vejo a sua construção diferente dos areais. Nos lagos reflectem-se narcisicamente as paisagens e, se falta uma brisa ligeira, nada de novo acontece além de uma cópia precisa. Na estagnação não há novidade, apenas rotina e, por vezes, mesmo algum mau cheiro.
Esta é uma das desgraças dos tempos actuais onde o politicamente correcto varreu o conflito do dia-a-dia e normaliza, cada vez mais, a nossa acção. Tudo se faz de acordo com directrizes ditadas por deuses e segundo a sua vontade. Pensar, gizar o conflito é ou mal visto, ou rotulado de ingenuidade, numa altura em que o fácil impera e o caminho mais rápido para o sucesso é a anuência acrítica. Os homens são também espelhos imóveis das imagens que neles projectam. Pouco a pouco, há uma verdade única que se instala, restando a alguns poucos, cada vez menos(?), sussurrar que fascismo, nunca mais. Mas até nesse rumor há, quantas vezes, apenas o reflexo de outras vontades e não um genuíno desejo reflectido.
Descrente nos homens talvez, mas como negar a evidência?

quinta-feira, março 26, 2009

A persistência na asneira

Eis a nova composição do Hospital de Santa Maria. Noventa «early birds», uns 300 colaboradores de primeira e o resto pessoal mal parado(cada vez com menos vontade de colaborar). Por mim, sinto que mais vale ser pessoa, que colaborador em certas organizações.

quarta-feira, março 25, 2009

Mal parados

Ao início é uma irritação intolerável, depois extravasa-se com quem temos ao lado e finalmente serena-se progressivamente. É assim que nos vão impondo a vontade, aproveitando a ineficácia do que não fazemos. Precisamos de nos mover, mesmo quando o que nos tiram é o estacionamento. Ficamos mal parados, quando a situação exige acção.
Criar um estacionamento para alguns que o não usam, deixando os que o usariam sem lugar, é paradoxal e uma burrice de quem gere. É desperdício de recursos, ineficiência, má utilização dos dinheiros públicos. Não estamos em tempo de subaproveitar recursos em nome de privilégios imerecidos muitas vezes.
Mas não é fácil inverter uma lógica que a não tem. Mas também não podemos aceitar o que é inaceitável, exactamente e só por isso, só por que não é decente. Porque isto da decência tem de vir sempre antes do direito; na verdade, não temos o direito à indecência.
Os direitos devem corresponder e satisfazer necessidades e apenas isso. Tudo o resto é passado.
Por agora, recuaram, mas sem uma explicação cabal da insatisfação, não tarda, avançarão de novo.

quarta-feira, março 18, 2009

Momento de cansaço

Na verdade e como diz o Professor, quando a evidência está nas coisas e a inteligência não está nas pessoas pouco há a fazer.
Há reuniões que cansam e tiques tácticos que me irritam. Farto de marcar a próxima reunião sem estabelecer objectivos e ordená-los por prioridades. Resta-me a liberdade que não parecem ter.

domingo, março 15, 2009

«Tá-se»

Sem querer diminuir a iniciativa, não posso deixar de dizer que algo de estranho se passa quando tanta gente fica contemplativa perante a imagem de uma cegonha, onde tão pouco acontece. Além do depenicar nas penas... Mais extraordinário, é que se façam comentários sobre esta nova forma de cinema mudo, com uma intensidade narrativa digna de Manoel de Oliveira. Curioso, é que frequentemente esses comentários são expressão de felicidade inspirada pela visão.
Pátria de comentadores felizes e de olhares vidrados em quase nada. No fundo, traduz o ritmo a que vamos andando: raramente se voa... como as cegonhas.

sexta-feira, março 13, 2009

Perigosa unidade


Continua-se, culturalmente, a ser do contra. Ouvidos na manifestação de hoje, estão todos contra o Sócrates, sem que ninguém perceba a favor do que estarão. O mais estranho é que por um pudor esquisito, a esquerda em nome de uma unidade táctica, não se demarca da direita que fica no silêncio da contabilização do descontentamento. Esfregam as mãos. Afinal, se a Dra. Manuela fosse poder, as reformas estariam garantidas a 100%, controladas por seguradoras que teriam investido em fundos fantásticos, os funcionários públicos estariam todos empregados pela política de pleno emprego sempre defendida pelo PSD para a Função Pública, os professores continuariam sem qualquer esboço de avaliação. Quando foi ministra da Educação a Dra Manuela nunca tal fez, limitando-se a afrontar os estudantes que lhe mostravam o cú. Até a crise internacional não existiria, porque isso foi um desastre de políticas nunca defendidas por Borges subitamente desaparecidos. Qual era o papel do Estado para eles? Suicidar-se ou morrer naturalmente, não era?
É muito importante ter-se presente que se não deve ir para a cama com o inimigo. Até porque é sempre uma boa forma de se acordar morto.

Negligência

Esqueceu-se do filho dentro do carro e ele morreu. Negligência, claro. De quem? Do pai ou dos ritmos de trabalho loucos que os informáticos de 35 anos têm agora? A concentração absoluta nos objectivos, na produtividade, leva a distracções fatais. A criança ficou abandonada por excepção, mas a vida destes tipos fica esquecida todos os dias. Em nome de deuses bem pequenos.

quarta-feira, março 11, 2009

O medo da vida

Entrou triunfante, mostrando o registo de 24 da pressão arterial. Tinha ultrapassado mais um obstáculo do seu medo de estar doente. Disse que até aos 40 anos se tem uma ideia de imortalidade e que daí para a frente começa a percepção de que somos mortais. Não deixará de ser verdade, mas na contabilidade da vida, há mais a avaliar que a contagem simples dos anos. Até qualquer idade em que nos situemos há sempre a imperiosa necessidade de termos um programa de tarefas a realizar, os objectivos de vida. Se assim procedermos, quanto mais velhos mais tarefas realizadas, mais vida ganha, maior o nosso capital vital. Cada vez mais aliviados, mais capazes de ver a inevitabilidade do final. Por isso ter mais anos não é, necessariamente, dramático. Pode até pode ser leve se não formos sempre, em nome de causas menores, adiando a vida, os prazeres e as responsabilidades. Tenebroso é estar atado pelos medos que nos adiam para amanhã a vida que se pode ter hoje. Por isso, julgo que aqueles que se matam todos os dias para aumentarem o tempo de vida, na verdade pouco mais fazem que aumentar a morte a que já estão confinados. Depois, um dia, a morte chega, sem afinal a vida ter existido. Foi inútil.
Bom mesmo, será contemplar o passado, todos os instantes, numa serena revisão, sentado no banco, debaixo da pereira brava a lembrar-me de Neruda. Com a paz da certeza sentida de, também eu, ter vivido.

segunda-feira, março 09, 2009

Portal do doente, um instrumento para melhor Saúde

O aumento crescente da prevalência das doenças crónicas, tem tornado a prática da Medicina progressivamente mais complexa. Com frequência, no mesmo doente, coexistem patologias de várias especialidades, exigindo apreciação por diferentes especialistas, tendo em vista a optimização dos cuidados médicos. Um doente diabético, por exemplo, tendo a gestão dos seus problemas de saúde centrada idealmente no médico de Medicina Geral e Familiar, carece com frequência de apoio de outras especialidades, como a Endocrinologia, a Cardiologia, a Nefrologia e a Cirurgia, entre outras. Cada vez mais, os médicos deixam de ter os seus doentes, porque os problemas de saúde destes são melhor geridos pela cooperação de vários especialistas, contribuindo cada um com os seus saberes para a sua resolução. Assim, deverão os doentes passar a ter os seus médicos. A gestão das doenças nestes casos implica interacção e comunicação entre os vários técnicos, a qual se não consegue com a actual estrutura de comunicação, resultando, com frequência, uma prestação de cuidados, no mínimo, fragmentada. Nalgumas situações, podem mesmo ocorrer erros, por exemplo, com duplicação quer de prescrições de fármacos, quer de exames auxiliares. Nas condições da prática médica dos nossos dias, com o tempo de duração das consultas progressivamente mais encurtado pela pressão do número crescente de atendimentos, não há muitas vezes disponibilidade para escrever aos colegas a informação necessária. E mesmo que isso se faça, vai muitas vezes escrito com letra dificilmente decifrável… Estes são problemas que, como médico, me confronto quase diariamente e que seriam evitáveis com medidas simples numa altura em que muito facilmente temos (ou deveríamos ter) nos consultórios um instrumento fundamental para prestação de cuidados: um computador com acesso à Internet.
É fácil imaginar que o acesso limitado à informação produzida por outros colegas sobre um doente específico leve não só às já referidas duplicações de meios auxiliares de diagnóstico e mesmo de prescrição de medicamentos, mas também a referenciação indevida a outras especialidades, consumindo consultas desnecessariamente. Mesmo que esta realidade não acarrete directamente complicações dramáticas para a saúde do doente, dela resultam custos acrescidos nos cuidados. Isso traduz-se em ineficiência dos sistemas de saúde, numa altura em que o combate ao desperdício deve ser uma prioridade e uma exigência no Serviço Nacional de Saúde.
O desenvolvimento das Tecnologias de Informação, permite, hoje em dia, obviar a estes problemas do Sistema de saúde e pode contribuir para uma melhor prestação da continuidade dos cuidados médicos, evitando recurso aos serviços hospitalares e de emergência, melhor uso das estratégias de prevenção, melhoria dos cuidados prestados no alívio dos sintomas e controlo da doença, com resultante maior satisfação dos doentes. Com efeito, é possível que os dados clínicos de um doente observado num hospital de Lisboa, possam facilmente ser partilhados pelo seu médico de família e por outros especialistas onde tenha de ir, mesmo quando, deslocado no Porto, tenha um achaque súbito que o leve a um Serviço de Urgência. Com esta rede de informação ganharia o SNS e, obviamente, o doente.
Não deixo, pois, de estranhar que de uma forma generalizada não se implementem as medidas que permitam atingir estes objectivos. Isso, possivelmente, dever-se-á à existência de barreiras ao nível do Sistema, dos médicos e, talvez, dos próprios doentes. Ao Sistema, porque se inibe de investir, mesmo sendo de admitir que o retorno estaria assegurado pelos ganhos de eficiência. Aos médicos, exige-se uma nova atitude cultural, para que deixem de se sentir donos do doente e da informação que deles colhem e passem a sentir-se elementos de uma equipa que concorre para a gestão do processo patológico do doente. Aos doentes, a decisão sobre se a informação que fornecem aos seus médicos, pode ser partilhada pelos que os cuidam e de que forma. Este último problema, que entronca com a questão do segredo médico e com a protecção dos dados individuais, é muitas vezes invocado com fundamentos legais para inviabilizar a partilha da informação clínica dos doentes entre os vários médicos que lhes prestam cuidados e tem obstado, por exemplo, a que nalguns hospitais continue a não existir um processo único do doente. Está-se em abstracto e de forma paternalista a proteger alguém a quem ainda se não perguntou se quer ser protegido dessa maneira. Pessoalmente, colocado na posição de doente, não tenho dúvidas que a minha informação clínica (disponível no meu «portal de doente» - o Google Health disponibiliza um esboço limitado do que isso pode ser- protegida por uma senha de que eu seria o dono, e acessível aos médicos de que, eventualmente, possa necessitar para me tratarem) me protegeria melhor do que a informação dispersa e, eventualmente, inacessível. E se eu posso expressar a minha vontade, julgo que isso é um direito de todos os doentes. Para os mais cépticos a este respeito, sempre se poderá garantir o sigilo da informação, determinando que caberá ao doente fornecer (ou não) aos clínicos a senha de acesso à sua informação. No entanto, e por defeito, a informação deveria estar acessível e ser facilmente partilhável.
Julgo que este é um caminho e um tema de debate que urge iniciar na Saúde em Portugal. Os ganhos parecem ser tão óbvios, que até custa verificar que se não avance nesta direcção desde já e se continue a desperdiçar o dinheiro dos contribuintes e a não fornecer os melhores cuidados possíveis aos doentes. Doentes, médicos e engenheiros, uni-vos!

sexta-feira, março 06, 2009

Bloco dos instantes

A clareza transparente dos números perturba a opacidade reinante no poder. Deve ser essa a razão por que existe uma espécie de horror aos dados informáticos, frequentemente diabolizados em nome do bom senso dos chefes.

É conveniente não adiar a vida todos os dias, pois pode, simplesmente, chegar a não acontecer.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Concursos

Só neste caso da Endocrinologia, houve 10 médicos que durante dois dias estiveram fora dos seu serviços a trabalharem normalmente. Alguns com ajudas de custo pelas suas deslocações, outros a sair-lhes do bolso. De uma forma talvez optimista, digamos que foram adiadas 300 consultas médicas. É claro que os candidatos, estiveram mais uns meses em trabalhos reduzidos (pelo menos no sector público).
Tudo isto em nome de uma formalidade, uma cerimónia iniciática, para se entrar no grupo dos especialistas. O curioso é que, de forma unânime, todos achamos que este concurso é um non sense, mas continuamos a participar, alguns mais obrigados do que outros.
Depois acabamos todos classificados com 19 vírgula e felizes a beber Moet Chandon.
Será que podemos mudar? Ao menos tentar...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009


Devíamos gerir a vida por objectivos. Alinhavamos os vários pontos e íamos, depois, pondo a cruzinha à medida que fossem realizados. Nesse programa a ninguém seria permitido que o seu objectivo de vida fosse estar vivo daqui a muitos anos, porque isso, é a melhor maneira de passar ao lado da vida. Objectivos só os concretos, específicos, determinados pela imaginação e pela vontade. Quando chegados ao fim da lista, poderíamos passar à fase seguinte, sem o remorso de termos evitado tanta coisa para nada. Felizes, com certeza.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Parasitas

Dificilmente entendo aqueles que da política não têm a ideia de programa de mudanças, mas apenas o objectivo da manutenção das pessoas (amigos)nos sítios que querem. A podridão dos pântanos empesta o ambiente. Confunde-se serviço aos utentes com serviço aos prestadores, como objectivo principal. Assobia-se para ver se ninguém percebe, mas tenta-se que nada mude, porque manter o lugar é o supremo objectivo.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Máscara

Terça-feira gorda (Mardi Gras), o dia a que Cavaco retirou o estatuto de Feriado foi hoje motivo para me incomodar a olhar o espelho. De repente um cara conhecida, como máscara, inquietante, uma revisão de um passado ainda presente e possivelmente futuro. Foi uma grande vontade de mudar. Para já, uma aparadela ao bigode, mas quase seguramente, mais cedo ou mais tarde, a transformação será maior, porque a máscara me perturba.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Claro e exemplar

Claro e exemplar disse o Zé. Claríssimo, direi eu. Atirar o barro à parede, fica barato. Com outros Zés, até deve pegar, embora custe caro. Tentar não custa, o que ficámos a saber é que a tentativa de corrupção aqui e agora não sai cara, o problema é poder não resultar. Mas há mais Zés na terra... e ser Xico esperto, afinal, pode muito bem ser compensador desde que se tenha algum cuidado com a parede.

sábado, fevereiro 21, 2009

Aos 90 anos...

Li há dias que um americano de 90 anos, perdeu 700000 dólares na burla do Sr. Madoff. Agora, voltou a trabalhar, a ganhar 10 dólares a hora. Há comportamentos nos americanos que são exóticos. A menos que tenha ido trabalhar para comprar uma pistola...

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Caminheiros

Trinta anos depois continuam a haver descobertas a fazer. Essa sensação é bem mais importante que olhar esterilmente para trás. Continua a haver um caminho para andar.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Visionário

A Economia é uma ciência que consegue explicar todos os acidentes da Economia ... depois de terem ocorrido. Por outro lado, fazem previsões sempre adequadas... a menos que algo extraordinário aconteça e as invalide. Logo virão, a seguir, explicar que tinham razão, mas aconteceu o que era imprevisível.
Mas houve um que viu antes do tempo, muito antes mesmo:
"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Revolta

Quem ama a vida, a sua e a dos outros que tem à volta, quem sabe distinguir uma maçã de um fruto normalizado, quem sabe gostar de um bom vinho não merece ser traído. A injustiça é indecente.

domingo, fevereiro 15, 2009

Com todos os sentidos


Ali sempre encontro o refúgio da paz na visão do silêncio onde só cabe o chilrear dos pássaros e o anúncio do vento no fim da tarde.
A terra ensopada começa a estar crocante pelos últimos dias de sol. Ao pisá-la tenho a ilusão de estar sobre um gigantesco bolo de chocolate. Um dia hei-de também entender que é o sol que molha o que a chuva quase secou.
Ficarei encantado na visão do fogo que arde antes da noite chegar, sentado no banco debaixo da árvore do tronco retorcido. Imagino que os dias fiquem de um tamanho que agora lhes não conheço aumentados pela audição silêncio, pelo tacto da terra, pelo aroma dos coentros, pela visão do fogo e pelo sabor dos ensopados. Todos os sentidos despertados numa orgia de tempo sem relógios, de sol-a-sol.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Changeling

As histórias reais da América repetem-se. Houve um tempo em que a imprensa ainda poderia contar a história no tempo em que ela se passava. Mas agora, os donos da História são, na maioria dos casos, também já os donos das notícias. Há uma estranha unanimidade na apresentação das novidades, sempre as mesmas, eventualmente, mostradas numa ordenação diferente, mas só vemos o que nos projectam daquilo que seleccionaram. Entretêm-nos com o filme que escolheram, escondem-nos a história real.
Daqui a alguns anos, como fizeram com o Vietname, farão um novo Apocalipse então, revelando os Guantanamos de agora e serão, novamente, candidatos aos seus Óscares que tirarão o sono numa madrugada a uns tantos. É nos filmes que expurgam os seus pecados. E nós continuamos a perdoar-lhes porque alguns deles são quase perfeitos quando representam, como é o caso desta Angelina, verdadeiramente Jolie.

domingo, fevereiro 08, 2009

A inutilidade dos coelhos

A metáfora pode não ter sido completamente feliz. Realmente, duas notas de 100 euros têm tanta capacidade de gerar mais euros quanto o têm dois coelhinhos no tal buraco (na verdade, é preciso que seja um coelhinho e uma coelhinha e mais alguma coisa). Mas tanto num caso como noutro, Louçã tem razão: para haver crescimento tem de haver trabalho, porque dele e apenas dele depende o crescimento. Durante anos pensou-se, na base do tal dito que afirma que o dinheiro gera dinheiro, que bastava investir, para aumentar o capital próprio. O investimento referido deixou de ter a tal dimensão do trabalho e limitou-se muitas vezes ao sonho e os sonhos sempre acabam quando se acorda. Se ao menos os tempos de hoje dessem para perceber que o crescimento depende do trabalho e não do investimento (sem trabalho), certamente que a preocupação dos governantes seria apoiar o primeiro e não criar condições para que o «investimento« ficasse prioritariamente garantido. Realmente, Louçã, nem um coelhinho e uma coelhinha chegam se não houver alguma actividade. É fundamental o trabalho para haver a produção.

sábado, fevereiro 07, 2009

Em rodapé

Aproxima-se uma altura da minha vida em que o pensamento pode ser expresso sem a auto-censura do compromisso, o que transmite uma enorme sensação de liberdade. Realmente num mundo que aspira à liberdade, bem poucas são as vezes em que ela se expressa de forma incondicional, sem a amputação da conveniência, quando não do medo. Essa é uma escravidão muitas vezes ignorada ou geradora de náusea sem aparentes motivos. É, por isso, um bom tempo, esse que aí vem. 


É um espectáculo, para mim inquietante, ver o poder congratular-se com a realidade. Apesar da felicidade ser boa de ver, sempre me parece que a mudança depende fundamentalmente da insatisfação, ao passo que a satisfação é, na maioria das vezes, fonte de paralisia.
Percebo que o poder faça o seu auto-elogio, porque, na verdade, essa é a forma de se justificar, mas sou exigente ao ponto de continuar a achar que se esgota e cristaliza as suas acções quando sente que chegou onde ninguém teria sido capaz de ir. Que se engane, é o menos. Que nos tente enganar é que já não é aceitável. Afinal, não somos parvos.

SNS

Acabo de assistir a um interessante debate sobre o Serviço Nacional de Saúde onde de lés-a-lés se proclamou o óbvio: é uma boa história de sucesso, a precisar, se calhar, de algumas inovações, entre as quais, possivelmente, a mais determinante será a necessidade de o repensar. Repensá-lo ´mantendo sempre a necessidade da solidariedade, que implica que sejam os saudáveis a pagar a doença aos doentes. Assim e de repente, tudo parece consensual, mas, ainda assim, é importante que se pense na obrigatoriedade de medidas para promover a saúde, quer a nível geral, quer a nível individual. Quando se desce dos princípios gerais ao exercício da sua aplicação prática, rapidamente a unanimidade se perde. Se nas metas sobressai o consenso, não deixamos de saber que se uns defendem que as casas de banho do hospital não têm de ser  diferentes para doentes e médicos, todas têm de ter qualidade elevada, outros defendem que os médicos não deverão, quando se dirigem aos seus consultórios, passar por entre os doentes sujeitando-se dessa forma ao escrutínio da hora a  que chegam e deveriam ter uma entrada exclusiva.

Percebo, que não pode haver a ilusão de equidade no consumo de um bem, quando o fosso da desigualdade se alarga em tudo o resto, mas é no campo das decisões concretas e não no campo dos princípios que é preciso intervir de modo a atenuar o que é gritante.

Esta é a dimensão da intervenção geral.

Mas num mundo de importância relativamente crescente do problema das doenças crónicas, embora as mais das vezes determinadas por estratégias erradas da evolução das sociedades, não deve e não pode ser esquecida a responsabilidade individual e dos comportamentos de riscos auto-assumidos. E aqui, a atenuação das diferenças e o objectivo da equidade, poderá ter de passar por um tratamento diferente em termos de comparticipação pessoal nos custos colectivos, isto é, quem se auto-inflige os problemas, deverá ter de ser responsabilizado, em função das suas posses, pelo custo derivado do problema. Haverá que definir situações em que, sendo sabido que as complicações são maioritariamente determinadas por comportamnetos errados e conscientes, não sejam aqueles que pautam a sua vida pelos comportamentos adequados que vão pagar a conta. Serão por isso razoáveis, por exemplo, o aumento do imposto no tabaco, o aumento das multas por excesso de velocidade. Noutro campo, como o da nutrição, tratando-se de uma actividade imprescindível à vida, parece-me já razoável que as consequências sejam tratadas com os meios adequados e os custos suportados de forma diferenciada, pagando os que podem, deixando-se a gratuitidade para os que têm na obesidade e na diabetes um fardo a que não se podem eximir devido às circunstâncias da sociedade em que estão inseridos. E não deve, claramente, esquecer-se a taxação da indústria alimentar produtora dos produtos tóxicos, criando, necessariamente, mecanismos reguladores que impeçam a reflexão desse aumento no custo dos produtos.

Este debate do mundo real, das coisas tangíveis, é o parente pobre das discussões, havendo sempre uma tendência ao privilégio do abstracto e mais consensual. Até porque divergir e assumir a fractura é sempre mais incómodo e todos achamos que devemos obter o máximo com o mínimo do esforço.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Intoxicados

Quem gerou todos estes produtos tóxicos? Sim, Saramago tem razão, os banqueiros não são gente de confiança. Para já causaram meio milhão de desempregados, mas os números aumentam todos os dias. Um crime contra a Humanidade. Tanta irresponsabilidade é punida apenas com o não pagamento de bónus? Era só que que faltava, ser prejudicado e pagar por cima. Os que provocaram a catástrofe ambiental, que intoxicaram, que paguem a crise! Mas é curioso este título do Expresso -Governos socorrem Bancos. Os Governos ou o dinheiro dos governados?
Mas não deixa de ser comovente, assistir a esta imperiosa nacionalização do prejuízo, depois de tanta reclamação nos anos do PREC, de privatização do que, então nacionalizado, dava lucro.
Bom, mas parece que os lucros continuam... Vá lá entender-se isto.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Prenúncio

Este hospital está cada dia mais bonito. Não tendo a arquitectura japónica do da Luz, fica à noite raiado de luzes pela fachada. De dia, é invadido por jardins. Por dentro, aparece agora pintado, não só até onde a vista do Ministro alcança nas visitas. Limpo, asséptico. Bem vestido.
No entanto, quando o olho sou sempre assaltado pela dúvida: será que chega o fato Armani para tornar saudável um doente preenchido de metástases? Se não tratarmos o cancro, o futuro é previsível. Para a cova descerá um morto elegante. Não negando a necessidade do marketing, é importante que se tratem as metástases. O apego à história passada e ao auto-elogio muitas vezes geradora de uma inércia funcional reinante traduzida, por exemplo, por falta de um processo clínico electrónico geral por doente, a persistência em directores que não dirigem e a saída de células de protecção imunitária que combateriam a apoptose são algumas das metástases que lhe corroem o corpo e o matarão por muito bem vestido que se apresente. A auto-satisfação das inaugurações é anestésica, coloca-o num nirvana virtual e ser-lhe-á fatal. A cegueira da quantidade, sem a luz da qualidade comprometerá definitivamente o futuro. E já não falta muito tempo até se atingir o ponto de não retorno.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Sermão do dia de hoje

Naquele tempo a euforia era tão grande que até o grande economista teve um dia que vir dizer que as árvores não cresciam até ao céu. Mas os homens às vezes são surdos ou simplesmente descrentes, que isto de encher o bolso na bolsa era coisa divertida. Que bom que era ganhar sem produzir! A Bolsa, dizia-se naquele tempo, traduzia a saúde da santa Economia. E todos andavam felizes. Já naquele tempo havia uns desgraçados que não viam os seus ordenados a acompanhar os aumentos dos ganhos percentuais do DJ e que tais. Antes pelo contrário, nesse tempo, diziam os santos economistas que era preciso não criar tensões inflacionistas, não perturbar o crescimento da Sua Santidade, a Economia. Uns mais esclarecidos, ganhavam com a coisa, outros, coitados, esperavam e mantinham a coisa a crescer. Lá à frente a cenoura acenava ao burro, sempre no futuro, que de há muito se sabe que a salvação não é coisa deste mundo, mas do outro, sendo que é a esperança que nos salva e, dos que aqui sofrem, a vida eterna.
Desde há algum tempo, a borrasca instalou-se no Templo de Wall Street. Nesses dias nasceu a crise e o desnorte apoderou-se dos esclarecidos. Subitamente, a riqueza começou a evaporar-se nos electrões da Internet. Uma coisa má instalou-se nas cabeças dos que então só conseguiam dizer, Vende! E ninguém comprava, porque Nada era o que se vendia, tudo imaterial, electrónico e impalpável. O problema é que esta imaterialidade, algures criou matéria: propriedade, casas, iates e muitas coisas mais, tendo todas ficado na posse dos mais esclarecidos. É esta transformação da química da ausência da matéria que, nos nossos dias, tem de começar a ser corrigida. Isto é, partindo do princípio que nada se perdeu, tudo se transformou, é agora necessário detectar onde foi parar, redistribuir e dar de novo, acabando com o jogo viciado da matéria virtual. Não se pode, porque não é justo, é pedir aos que já ontem suportaram a ascensão, que sejam agora os primeiros a cair ainda mais, para que os mais esclarecidos se mantenham e possam voltar ao seu jogo fantástico procedendo como faziam naquele tempo.
Uma vez mais é de leste, de França que sopra o vento. Que se transforme em furacão!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Dúvidas de futuro desempregado

“Sentia-me um pouco perdido no modelo de gestão. Não tinha tarefas concretamente definidas. Não tinha cargo e a 19 Abril reuni-me com o doutor António Marta”, na altura vice-governador do Banco de Portugal.

“Disse-lhe: eu estou na SLN, um grupo sujeito à supervisão do Banco de Portugal, e queria dizer-lhe que o modelo de gestão é este. Sinto-me um pouco intranquilo e penso que o Banco de Portugal deveria estar atento”, relatou.

Confessou Dias Loureiro. Bem, é a confissão de intranquilidade de um homem que não tendo cargo, não tendo tarefas bem definidas no emprego, se sentia na iminência do desemprego e, por isso, foi tentar garanti-lo junto da entidade reguladora. São os dramas do pré-desemprego. Quanto ganharia (ou recusou também os vencimentos?) pela sua inactividade na organização?

terça-feira, janeiro 27, 2009

Zeitgeist (Espírito da Época)

"There will be, in the next generation or so, a pharmacological method of making people love their servitude, and producing dictatorship without tears, so to speak, producing a kind of painless concentration camp for entire societies, so that people will in fact have their liberties taken away from them, but will rather enjoy it, because they will be distracted from any desire to rebel by propaganda or brainwashing, or brainwashing enhanced by pharmacological methods. And this seems to be the final revolution." - Aldous Huxley, Tavistock Group, California Medical School, 1961

Toda a atenção é pouca e estar alertado é o caminho. Afinal não são os homens que subitamente entraram em crise, porque os homens são os mesmos, sabem o que sabiam há 2 ou mais anos, têm a sua capacidade de trabalho mantida, não foram eles que falharam. Foi a sua organização ou sistema liberal de vida que aqui nos conduziu, fazendo entretanto a fortuna de uns quantos. Identificar os beneficiários da crise é a tarefa do momento para lhes apresentarmos a conta devida. Não se atribua aos mesmos de sempre a tarefa de pagar a crise. Como dantes se dizia, os enriquecidos com ela, que a paguem.
Porque, possivelmente, não irá estar nunca «brevemente num cinema perto de si», deixo um link para duas fitas importantes neste contexto: zeitgeist.

domingo, janeiro 25, 2009

Cenário

E se Sócrates, dramaticamente, por uma questão de princípio, ousasse a demissão face à dúvida criada e provocasse eleições antecipadas?

A ver almirantes

Mais almirantes que navios, e daí? Pobres são ao países que têm escassez de líderes. Aqui há liderança, bolas! Não, os nossos almirantes não andam por aí a ver navios. Temos uma marinha de tipo novo, em que os navios têm mais que um almirante, possivelmente porque é necessário muito conhecimento para os manter à tona de água dado a presumível ferrugem pelo peso dos anos e a tecnologia de antigamente só conhecida pelos velhos almirantes.

sábado, janeiro 24, 2009

Muito e já!

Li há dias escrito pelo Professor Carmona da Mota que, noutros tempos, os delegados de propaganda médica eram geralmente ex-estudantes de Medicina que não tinham terminado o curso e, em alternativa, visitavam os que seriam seus futuros colegas, mostrando-lhes as últimas novidades produzidas pela indústria farmacêutica. Os tempos mudaram. Nesta reunião a que assisti, chamada Congresso de Endocrinologia, os temas foram escolhidos segundo a lógica de apresentação das últimas drogas lançadas no mercado. Os oradores, os novos delegados de propaganda, são agora não ex-estudantes, mas professores de Medicina e seus colaboradores. Estamos num outro nível de informação. Curioso foi, desta vez, ver não a fundamentação baseada na evidência, mas antes na adivinhação do que a evidência futura, provavelmente, virá a demonstrar. Assim, alguns cautelosos que escreveram recentemente um consenso sobre tratamento da diabetes em que realçam as provas dadas e não as potenciais, passaram a ser tratados como se de um bando de ignorantes se tratasse. Obviamente, querem mais, é preciso adivinhar o futuro. Por isso, começam a tratar-se medicamente as pré-doenças e de preferência a usarem-se as drogas que no futuro irão dar os melhores resultados. São visionários e todos já viram, repetidamente, a saída de cena de fármacos «óptimos» no passado. A falta de prudência e a ganância levaram ao desastre noutros campos, mas nem isso os inspira. O grande objectivo é criar picos de vendas, bater records logo após o lançamento, antes que venha algum efeito colateral estragar a droga. Esta é a lógica de um sistema onde os doentes não são a prioridade.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Estado de esperança



My fellow citizens:

I stand here today humbled by the task before us, grateful for the trust you have bestowed, mindful of the sacrifices borne by our ancestors. I thank President Bush for his service to our nation, as well as the generosity and co-operation he has shown throughout this transition.

Key words used by President Barack Obama in his inaugural address.

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Forty-four Americans have now taken the presidential oath. The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms.

At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because we, the people, have remained faithful to the ideals of our forbearers, and true to our founding documents.

So it has been. So it must be with this generation of Americans.

Serious challenges

That we are in the midst of crisis is now well understood. Our nation is at war, against a far-reaching network of violence and hatred. Our economy is badly weakened, a consequence of greed and irresponsibility on the part of some, but also our collective failure to make hard choices and prepare the nation for a new age. Homes have been lost; jobs shed; businesses shuttered. Our health care is too costly; our schools fail too many; and each day brings further evidence that the ways we use energy strengthen our adversaries and threaten our planet.

We have chosen hope over fear, unity of purpose over conflict and discord

These are the indicators of crisis, subject to data and statistics. Less measurable but no less profound is a sapping of confidence across our land - a nagging fear that America's decline is inevitable, and that the next generation must lower its sights.

Today I say to you that the challenges we face are real. They are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this, America - they will be met.

On this day, we gather because we have chosen hope over fear, unity of purpose over conflict and discord.

On this day, we come to proclaim an end to the petty grievances and false promises, the recriminations and worn out dogmas, that for far too long have strangled our politics.

Nation of 'risk-takers'

We remain a young nation, but in the words of scripture, the time has come to set aside childish things. The time has come to reaffirm our enduring spirit; to choose our better history; to carry forward that precious gift, that noble idea, passed on from generation to generation: the God-given promise that all are equal, all are free, and all deserve a chance to pursue their full measure of happiness.

In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of short-cuts or settling for less. It has not been the path for the faint-hearted - for those who prefer leisure over work, or seek only the pleasures of riches and fame. Rather, it has been the risk-takers, the doers, the makers of things - some celebrated but more often men and women obscure in their labour, who have carried us up the long, rugged path towards prosperity and freedom.

For us, they packed up their few worldly possessions and travelled across oceans in search of a new life.

For us, they toiled in sweatshops and settled the West; endured the lash of the whip and ploughed the hard earth.

For us, they fought and died, in places like Concord and Gettysburg; Normandy and Khe Sahn.

'Remaking America'

Time and again these men and women struggled and sacrificed and worked till their hands were raw so that we might live a better life. They saw America as bigger than the sum of our individual ambitions; greater than all the differences of birth or wealth or faction.

The state of the economy calls for action, bold and swift

This is the journey we continue today. We remain the most prosperous, powerful nation on earth. Our workers are no less productive than when this crisis began. Our minds are no less inventive, our goods and services no less needed than they were last week or last month or last year. Our capacity remains undiminished. But our time of standing pat, of protecting narrow interests and putting off unpleasant decisions - that time has surely passed. Starting today, we must pick ourselves up, dust ourselves off, and begin again the work of remaking America.

For everywhere we look, there is work to be done. The state of the economy calls for action, bold and swift, and we will act - not only to create new jobs, but to lay a new foundation for growth. We will build the roads and bridges, the electric grids and digital lines that feed our commerce and bind us together. We will restore science to its rightful place, and wield technology's wonders to raise health care's quality and lower its cost. We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars and run our factories. And we will transform our schools and colleges and universities to meet the demands of a new age. All this we can do. All this we will do.

Restoring trust

Now, there are some who question the scale of our ambitions - who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short. For they have forgotten what this country has already done; what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose, and necessity to courage.

We reject as false the choice between our safety and our ideals

What the cynics fail to understand is that the ground has shifted beneath them - that the stale political arguments that have consumed us for so long no longer apply.

The question we ask today is not whether our government is too big or too small, but whether it works - whether it helps families find jobs at a decent wage, care they can afford, a retirement that is dignified. Where the answer is yes, we intend to move forward. Where the answer is no, programs will end. And those of us who manage the public's dollars will be held to account - to spend wisely, reform bad habits, and do our business in the light of day - because only then can we restore the vital trust between a people and their government.

Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched, but this crisis has reminded us that without a watchful eye, the market can spin out of control - that a nation cannot prosper long when it favours only the prosperous. The success of our economy has always depended not just on the size of our gross domestic product, but on the reach of our prosperity; on the ability to extend opportunity to every willing heart - not out of charity, but because it is the surest route to our common good.

'Ready to lead'

As for our common defence, we reject as false the choice between our safety and our ideals. Our founding fathers, faced with perils we can scarcely imagine, drafted a charter to assure the rule of law and the rights of man, a charter expanded by the blood of generations. Those ideals still light the world, and we will not give them up for expedience's sake. And so to all other peoples and governments who are watching today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman, and child who seeks a future of peace and dignity, and we are ready to lead once more.

We will not apologise for our way of life, nor will we waver in its defence

Recall that earlier generations faced down fascism and communism not just with missiles and tanks, but with the sturdy alliances and enduring convictions. They understood that our power alone cannot protect us, nor does it entitle us to do as we please. Instead, they knew that our power grows through its prudent use; our security emanates from the justness of our cause, the force of our example, the tempering qualities of humility and restraint.

We are the keepers of this legacy. Guided by these principles once more, we can meet those new threats that demand even greater effort - even greater cooperation and understanding between nations. We will begin to responsibly leave Iraq to its people, and forge a hard-earned peace in Afghanistan. With old friends and former foes, we will work tirelessly to lessen the nuclear threat, and roll back the spectre of a warming planet. We will not apologise for our way of life, nor will we waver in its defence, and for those who seek to advance their aims by inducing terror and slaughtering innocents, we say to you now that our spirit is stronger and cannot be broken; you cannot outlast us, and we will defeat you.

'Era of peace'

For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus - and non-believers. We are shaped by every language and culture, drawn from every end of this earth; and because we have tasted the bitter swill of civil war and segregation, and emerged from that dark chapter stronger and more united, we cannot help but believe that the old hatreds shall someday pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that as the world grows smaller, our common humanity shall reveal itself; and that America must play its role in ushering in a new era of peace.

To the Muslim world, we seek a new way forward, based on mutual interest and mutual respect. To those leaders around the globe who seek to sow conflict, or blame their society's ills on the West - know that your people will judge you on what you can build, not what you destroy. To those who cling to power through corruption and deceit and the silencing of dissent, know that you are on the wrong side of history; but that we will extend a hand if you are willing to unclench your fist.

To the people of poor nations, we pledge to work alongside you to make your farms flourish and let clean waters flow; to nourish starved bodies and feed hungry minds. And to those nations like ours that enjoy relative plenty, we say we can no longer afford indifference to suffering outside our borders; nor can we consume the world's resources without regard to effect. For the world has changed, and we must change with it.

'Duties'

As we consider the road that unfolds before us, we remember with humble gratitude those brave Americans who, at this very hour, patrol far-off deserts and distant mountains. They have something to tell us, just as the fallen heroes who lie in Arlington whisper through the ages. We honour them not only because they are guardians of our liberty, but because they embody the spirit of service; a willingness to find meaning in something greater than themselves. And yet, at this moment - a moment that will define a generation - it is precisely this spirit that must inhabit us all.

What is required of us now is a new era of responsibility

For as much as government can do and must do, it is ultimately the faith and determination of the American people upon which this nation relies. It is the kindness to take in a stranger when the levees break, the selflessness of workers who would rather cut their hours than see a friend lose their job which sees us through our darkest hours. It is the firefighter's courage to storm a stairway filled with smoke, but also a parent's willingness to nurture a child, that finally decides our fate.

Our challenges may be new. The instruments with which we meet them may be new. But those values upon which our success depends - honesty and hard work, courage and fair play, tolerance and curiosity, loyalty and patriotism - these things are old. These things are true. They have been the quiet force of progress throughout our history. What is demanded then is a return to these truths.

What is required of us now is a new era of responsibility - a recognition, on the part of every American, that we have duties to ourselves, our nation, and the world, duties that we do not grudgingly accept but rather seize gladly, firm in the knowledge that there is nothing so satisfying to the spirit, so defining of our character, than giving our all to a difficult task.

'Gift of freedom'

This is the price and the promise of citizenship.

This is the source of our confidence - the knowledge that God calls on us to shape an uncertain destiny.

This is the meaning of our liberty and our creed - why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall, and why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.

So let us mark this day with remembrance, of who we are and how far we have travelled. In the year of America's birth, in the coldest of months, a small band of patriots huddled by dying campfires on the shores of an icy river. The capital was abandoned. The enemy was advancing. The snow was stained with blood. At a moment when the outcome of our revolution was most in doubt, the father of our nation ordered these words be read to the people:

"Let it be told to the future world... that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive... that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet [it]."

America. In the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words. With hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come. Let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.

Thank you. God bless you. And God bless the United States of America.


Ficou o mundo em estado de esperança, quando ouviu alguém que parece estar mais perto de nós, que faz um discurso que tem preocupações quase parecidas com as nossas, as da gente normal. Apesar das dúvidas, pressentem-se diferenças entre este homem e esta mulher e sobretudo aqueles que hoje foram apeados. Simbolicamente Cheney nem saiu a pé, mas de cadeira de rodas, traduzindo alegoricamente a impotência e fragilidade da governação cessante. Bush tinha um olhar vago de quem está aliviado e pronto para alguma boémia texana. Que a História lhe não seja leve.
Mas vamos lá a ver se o estado de esperança, um dia chegará a estado de bem-estar. Tenho dúvidas, mas eu sou um céptico.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Embrulhados

Mais do que a prenda, o importante é o papel em que se embrulha. Foi fiel a este conceito que o PM nos serviu a última prenda de suplemento de orçamento. Embrulhou-a sabiamente com a questão dos ditos casamentos homossexuais e pronto ficou tudo a falar do papel. Genial, uma vez mais. Desta vez nem os bloquistas do costume abriram a boca, sensibilizados que ficaram com o embrulho, também estes esqueceram a prenda. No resto, a D. Manuela vai dando umas ajudas com mais umas gafes. Porreiro, pá!