sábado, outubro 18, 2008

Desgostos

Se calhar até exagero na apreciação que faço, por o Jardim não me deixar ser completamente independente na análise, mas há qualquer coisa que desencanta no contacto com os habitantes desta ilha.
Não gosto aqui, da mesma forma que não aprecio em Marrocos, na Tunísia ou na Turquia, por exemplo, que os táxis tenham um objecto de adorno chamado taxímetro. Nem que me peçam 15 euros para me trazerem do Monte à baixa e que invoquem que já acabaram o dia de trabalho, mas que, me fazem o favor de me levar. Regateado, fica mais barato. Na viagem até parece que o homem se transforma. Fica simpático, vai mostrando a terra, revela-me a casa do Senhor Doutor (assim, exactamente e por extenso) Alberto João a meio da encosta, uma casa alugada, precisa.
Não aprecio que generalizadamente os artigos expostos nas montras não tenham o preço explicitado. Estas coisas também são manifestações de subdesenvolvimento.
Há uma técnica mal aprendida fazer parecer que se gosta do turista.
E já agora chateia-me ter de esperar para jantar quando o representante do governo local chega atrasado à função e que a partir do momento em que chega tudo gire à sua volta de forma subserviente.
Houve tempos em que também por cá o Diário da Manhã e os telejornais falavam de Sua Excelência o Senhor Presidente do Concelho Professor Doutor qualquer coisa. Hoje, em bom português, diz-se simplesmente Sócrates ou Cavaco. Mas não em madeirense.

sexta-feira, outubro 17, 2008

As causas das coisas

Nas medidas para prevenir as complicações cardiovasculares da diabetes, a necessidade de mudar os estilos de vida, é consensual. Qualquer comunicação politicamente correcta não deixa de expressar, num dos 20 minutos que demora, essa necessidade. Nos outros 19 minutos falam-se de drogas e relatórios de consenso, isto é, acredita-se nos novos deuses e espalha-se a sua mensagem entre os fiéis ouvintes. Constata-se que os doentes não aderem aos tratamentos, que existe um mundo real e outro ideal cheio de objectivos bem definidos e cada vez mais estritos, que potenciam o esforço de vendas. Só que raramente atingidos (menos de 10%!). Porquê então a persistência numa mensagem que repetidamente já falhou?
À partida parece ser claro que investir na prevenção da doença, será mais eficaz que no seu controlo, mas não é isso que se faz. Pior, quando se pensa que se está a fazer, faz-se errando o alvo: culpabiliza-se o doente que não cumpre o que se lhe diz para fazer, sem se perceber que se lhe está a propor o impossível. Não eles não podem comer de forma diferente, nem deixar de ser sedentários. Isso eles sabem, só não fazem, porque não podem e não podem porque a comida tem custos e a melhor relação custo-benefício se consegue comendo o que se não deve e deixando de comer o que se deveria comer mas não se pode. Comer exige a compra dos alimentos, a sua confecção e depois a ingestão. Além dos custos, tem tempo gasto associado, o tempo que cada vez mais o sistema da máxima exploração da força de trabalho não fornece, porque maximiza o tempo de produção. A epidemia da síndrome da globalização não é controlável sem a destruição das causas que a geraram: é necessário alterar os valores, mudar o emprego, melhorar o rendimento da força de trabalho, encurtar o tempo de deslocação diária casa-trabalho, aumentar os tempos livres em vez de os aniquilar, libertando tempo para o exercício e para se estar e, até, reflectir. Então a ansiedade diminuirá e serão possíveis hábitos de vida mais racionais e humanos. Será, pois, determinante investir no lado certo (na prevenção) e não no lado mais fácil (a promoção da cura farmacológica/cirúrgica). Até agora tem-se feito exactamente o contrário.
E tentar controlar o caudal do rio junto à foz em vez de o normalizar a montante, só nos fará ir na enxurrada.
Garante mais facilmente, é claro, a continuação da boa vida de grupos excursionistas divulgadores da missão e das suas orgias alimentares. A Indústria continuará a agradecer, os contribuintes a pagar.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Jardim

Foi necessário chegar à Madeira e tomar consciência da dimensão desta realidade (cerca de 300000 pessoas) para ficar espantado com o alarido que se faz à volta do seu eterno governante. O negócio deste homem devia ter a importância política da actividade do Presidente da Câmara do Barreiro.
Desde que se chega e durante o percurso até ao hotel, vai-se percebendo a destruição ecológica desta ilha: a Madeira que outros viram e, por isso, assim a chamaram, seria hoje por eles chamada possivelmente Cimento ou, se a vissem mais ao perto, talvez toca de toupeira.
Quem pagará as facilidades de acessibilidade do tipo do túnel que chega ao Curral das Freiras, qual o custo de oportunidade de uma obra destas? Como se pode exigir o pagamento de auto-estradas no interior do país, quando aqui se esbanja desta forma e benefício de tão poucos? Se à mesma escala, algum Presidente de Câmara, fizesse assim obras, certamente teria também garantida a maioria absoluta em todas as eleições, mas seria apenas até ao dia da falência económica que traria trás de si, o fim dessas eleições. E tudo isso já teria acontecido, possivelmente, há vários anos.

CABARET-FML

Independentemente da motivação, não é fácil fazer encher o Coliseu e mantê-lo cheio durante 5 horas. O resto são incidências da idade, anomalias de técnicas que se não dominam e desejo excessivo de mostrar habilidades. Mais velho era eu e tinha expectativas que vissem todas as fotos de uma viagem... Há missões impossíveis.
Mas o enredo, as horas de sono perdidas na execução, o prazer ganho na produção são ganhos de crescimento e, desde já, valeram a pena. A maioria das vezes não importa ser perfeito, basta o entusiasmo e a boa vontade associado à consciência de que não se é nunca o supra-sumo.
Quem percebe que esta sua Faculdade pode ser um imenso Cabaret é alguém atento, que pode fazer a diferença. Um dia os tiques futebolísticos desaparecerão e a realidade acabará por se impor sem cedências ao mais fácil.

terça-feira, outubro 14, 2008

segunda-feira, outubro 13, 2008

Partida


Tiveste sempre uma forma voluntarista de estar, cheiraste tudo sem cessar e raramente alguma vez te escapou do faro uma chegada de qualquer um de nós. Ainda há dois dias, soubeste que a Ana tinha voltado de fora. Nada te escapou. Nunca fugiste, foste sempre procurar alguma coisa. E obrigaste-nos a procurar-te muitas vezes. Mandaste em todos nós e mesmo nos acessos de «ternura» em que deixaste as tuas marcas nalgum calcanhar próximo do teu jantar, sempre se encontrou algo que te justificava. Lá no fundo, eras um tipo fixe, que gostava de ver o rebanho caseiro recolhido antes de te deitares. Sim, muitas vezes, dormias com um olho aberto, se faltava algum. Com dificuldade aprendeste a não fazer barulho depois das horas convenientes, quando chegávamos. Mas a idade torna-nos mais sensatos e tu também isso aprendeste.
Ontem, quando cheguei, tinhas um ar de quem quase pedia desculpa de se ir embora. Ainda abriste o olho, mas ficaste a olhar no vazio. Nem a água, nem o frango te abriram a boca. OK, já chegava,tropeçaste e ficaste de barriga no fresco do chão. Estavas a despedir-te. Voltaste a não fugir, simplesmente, partiste na madrugada sem ir à procura de nada, desta vez. Estas coisas são sempre uma partida.

domingo, outubro 12, 2008

Afinal havia outras


Há dois dias que as Bolsas de Valores não descem. Vivam os fins-de-semana continuados
(Figura na revista Time)

sábado, outubro 11, 2008

Morte

Há mortos nas fotografias a habitar em todas as paredes. Para qualquer lado para onde me vire.Têm esta função perversa as fotografias: mostram-nos os mortos a sorrir. Ou serão a vida depois da morte? O que resta dela na memória revigorada. Mas a sua memória é também o avivar da perda. Definitiva.
Há, nestes dias, um cerco de morte na memória que persiste. E fica-se mais perto, percebe-se melhor a vulnerabilidade da nossa, afinal, não-eternidade. É fácil imaginarmos que, algum dia, também nós acabaremos dentro de uma moldura a inquietar quem passar e nos vir.
Mas também é verdade que se assim acontecer, significa isso, que há alguém que resiste à ideia de termos acabado, alguém que afirma que somos outra coisa diferente do que partiu: «Isto não é o meu pai» escreveu um filho num bilhete no dia do funeral do pai. (Comunicação pública de António Lobo Antunes). Pois é, os nossos heróis,como nos filmes, também não morrem nunca.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Tiros no pé

Citando João César das Neves (com subtítulos meus):

O prenúncio da crise?
Os maiores desastres do século XX foram gerados por pessoas e grupos autonomeados progressistas e donos do futuro. Quando alguém, iluminado pelas forças da modernidade, despreza a realidade que o rodeia como obsoleta e tacanha, impõe sem contemplações as suas opiniões. Então surge o horror. Não é preciso ir longe para encontrar exemplos devastadores deste erro.

A propósito do fundamentalismo?
A cegueira ideológica não é simples aldrabice. Ao contrário do que se diz, este fenómeno não consiste em má-fé, hipocrisia ou estupidez. O aspecto exterior costuma ser semelhante, mas o processo conducente é muito diferente. Quando alguém está plenamente convencido de uma causa porque lutou durante anos, a evidência do seu fiasco implica a negação da própria identidade. Mesmo perante resultados tão assustadores, como se pode dar o braço a torcer, assumir o erro, inverter a orientação? A cegueira nasce do orgulho.

Uma tomada de consciência?
Vivemos num mundo de espelhos, numa fogueira de ilusões. Consideramo-nos informados e esclarecidos mas nos assuntos sérios, opções estratégicas, problemas de fundo, novas infra-estruturas, escândalos empresariais, temos de admitir que ninguém se entende.

A mudança será possível?
Estar fechado a outras possibilidades foi sempre o maior obstáculo à descoberta da verdade.

Fossa

A Fossa de Mindanau tem 11524 metros de profundidade. Parece ser o único fundo previsível por estes dias.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Imagem da tarde


A sombra da velha árvore estendida por mais de 200 metros de terra vazia, vista de dentro dos limites de um cordel limitante de um espaço de futuro repousante. No ideal se renasce.

Tempos de esperança


Greed is the selfish desire for or pursuit of money, wealth, power, food, or other possessions, especially when this denies the same goods to others. It is generally considered a vice, and is one of the seven deadly sins in Catholicism. Wikipedia
O «motor da história», o Santo Mercado, determinou que o pecado era virtude e mostrou-se que afinal a história ainda não tinha acabado. A História continua, o Estado renasce e, um destes dias, ainda vamos ter de volta a luta de classes, o regresso da solidariedade e dos caminhos comuns a percorrer. Aos poucos, regressaremos à realidade e o valor deixa de ser um conceito etéreo e voltará a ter tradução material. Avançaremos de uma forma mais globalizada, no mesmo tempo e não como até aqui se «progredia», porque ficar menos pobre não é ter acesso a mais migalhas, mas a mais igualdade. Haverá, enfim um tempo, em que o motor não tenha de ser necessariamente a ganância, mas a satisfação de se ser solidário e o progresso possa ser procurado sem a «necessária» vantagem unilateral. Com sorte nem será preciso ter a promessa do reino dos céus e sonhos de imortalidade para adiarmos a vida.

Figuras originais aqui e aqui

segunda-feira, outubro 06, 2008

Realidade e virtual

Servirá o vendaval para reerguer o ideal da tranquilidade e da bonança ou, porque a memória é curta, em breve estaremos, de novo, mergulhados na vertigem, na ânsia da adrenalina, como se precisássemos de ir muito depressa sem nos questionarmos sobre o destino: o abismo?
Nesta vertiginosa queda do valor gerado, podemos compreender a natureza virtual de que era feito. Quem ganhou com a ilusão, que pague agora a realidade. Isso é o que falta garantir. E que se não peça, outra vez, a quem já no passado e sempre se costuma pedir.
É urgente um neo-realismo em que o valor seja a expressão do produto e não uma qualquer ilusão criada por habilidosos de todos os marketings. É necessário andar com menos pressa de chegar ao vazio e elevar o valor da estabilidade e da segurança, procurando os verdadeiros valores, que antes espezinharam.
Aos irritados donos do mundo e da verdade liberal, estará a chegar a hora de fecharem o Casino?

domingo, outubro 05, 2008

Citação bíblica

Leitura de hoje:
# Mateus 18:21 Então Pedro chegou perto de Jesus e perguntou: - Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?
# Mateus 18:22 - Não! - respondeu Jesus. - Você não deve perdoar sete vezes, mas setenta e sete vezes.
# Mateus 18:23 Porque o Reino do Céu é como um rei que resolveu fazer um acerto de contas com os seus empregados.
# Mateus 18:24 Logo no começo trouxeram um que lhe devia milhões de moedas de prata.
# Mateus 18:25 Mas o empregado não tinha dinheiro para pagar. Então, para pagar a dívida, o seu patrão, o rei, ordenou que fossem vendidos como escravos o empregado, a sua esposa e os seus filhos e que fosse vendido também tudo o que ele possuía.
# Mateus 18:26 Mas o empregado se ajoelhou diante do patrão e pediu: "Tenha paciência comigo, e eu pagarei tudo ao senhor."
# Mateus 18:27 - O patrão teve pena dele, perdoou a dívida e deixou que ele fosse embora.
# Mateus 18:28 O empregado saiu e encontrou um dos seus companheiros de trabalho que lhe devia cem moedas de prata. Ele pegou esse companheiro pelo pescoço e começou a sacudi-lo, dizendo: "Pague o que me deve!"
# Mateus 18:29 - Então o seu companheiro se ajoelhou e pediu: "Tenha paciência comigo, e eu lhe pagarei tudo."
# Mateus 18:30 - Mas ele não concordou. Pelo contrário, mandou pôr o outro na cadeia até que pagasse a dívida.
# Mateus 18:31 Quando os outros empregados viram o que havia acontecido, ficaram revoltados e foram contar tudo ao patrão.
# Mateus 18:32 Aí o patrão chamou aquele empregado e disse: "Empregado miserável! Você me pediu, e por isso eu perdoei tudo o que você me devia.
# Mateus 18:33 Portanto, você deveria ter pena do seu companheiro, como eu tive pena de você."
# Mateus 18:34 - O patrão ficou com muita raiva e mandou o empregado para a cadeia a fim de ser castigado até que pagasse toda a dívida.
# Mateus 18:35 E Jesus terminou, dizendo: - É isso o que o meu Pai, que está no céu, vai fazer com vocês se cada um não perdoar sinceramente o seu irmão.

sábado, outubro 04, 2008

O valor das coisas

Convergimos, numa manhã de sol, partidos de vários sítios do país, na velha fábrica para determinar o valor da coisa.
De há uns tempos para cá, é sempre um mistério para mim a determinação do valor das coisas. Dizem que é o encontro da oferta e da procura, mas como se do lado da oferta se espera que a procura dê o máximo e do lado da procura se pretende comprar ao mínimo? E como tornar suficientemente abrangente a procura?
Desisto de responder, porque entro em círculos sem resposta.
Entrei na velha fábrica, desactivada, morta de produção, mas incrivelmente de pé, digna. Era para ali que ia às vezes nas férias. Nos corredores andei de carrinhos de mão em corridas com outros miúdos. Ali moldei o barro dando à perna na roda. Vi o barro comprimir-se nos moldes, parindo tijolos de 2, 3 e 4 buracos e outros mais inteiriços e impressionava-me com o arame que com todo o rigor os cortava a espaços iguais. Ouvi falar dos braços decepados de operários caídos em tempos de pouca segurança no trabalho. De mortos até. Ainda me lembro do cheiro morno dos fornos. Nessa altura, andaria a ler Aquilino, Alves Redol e outros que me falavam do Trabalho e de quem o explora e tomava conhecimento ao vivo de quem fazia as telhas e os tijolos. Eram, claro, os que lá deixavam os braços, que não há memória de nenhum proprietário, de nenhum banco financiador, alguma vez lá ter deixado o que quer que fosse. No meu radicalismo de então, era óbvio, que apenas lá iam buscar os Mercedes e os Saab. Lembro-me também, de que era um tempo de patrões que faziam refeitórios para os funcionários, os conheciam, bebiam uns copos no fim do dia de trabalho, todos às vezes. Não tinham saído de escolas de Gestão nem procuravam exclusivamente criar valor para o accionista. Era, apesar de tudo, um capitalismo com rosto.
Por ali a vaguear, espreitando recibos pelo chão e amontoados de abóboras, onde antes moraram tijolos a secar, não consegui perceber qual o valor daquela coisa, tarefa que ali nos tinha feito ir. Mas descobri, que para mim, o verdadeiro valor daquela coisa são as memórias que me desperta. Outros fizeram o preço. Eu assino por baixo, seguro que vou ganhar (já ganhei) mais que a parte que me couber.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Momento

E se voltar aos 20s estando nos 50s, só nos fizer perceber que estamos, afinal, trinta e tal mais velhos? Mas tem-se este chamamento da imortalidade alguma vez: tanta coisa para fazer ainda, que o recuo no tempo se torna necessário e urgente.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Amarrado na margem


Há momentos de ficar na margem, reforçando as amarras, esperando que a enxurrada passe lá longe. Será que chega, será que não? Sabe a injustiça a inquietação.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Inventário

Pensando bem nem são assim tantas as coisas de que realmente necessitamos. Talvez um sorriso de compreensão e um ou outro olhar de aprovação nos reforcem a dose necessária de confiança que nos faça estar destemidos. O doutor tirou-me os nervos, e eu a saber que não fiz assim tão grande coisa. Alimento para o estômago, a alma e demais órgãos a nutrir. Instrumentos para comunicar como a língua, os berros, e outros para telecomunicar. Estar aqui a comunicar comigo no futuro. E será que lá, irei ter saudades do presente? Tempo de estar a ouvir o silêncio e os ruídos interiores. Sim, os ruídos interiores têm que ser cuidadosa e exaustivamente ouvidos. São eles que geram a nossa compreensão de nós próprios. E percebemos melhor os outros quando nos compreendemos a nós.
Se calhar, basta termos um sonho e tudo o resto perde significado.

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

terça-feira, setembro 30, 2008

segunda-feira, setembro 29, 2008

Fim de tempo?



Afinal, tudo não passa de um PREC em Washington. Uma sublevação a bordo está em curso e aquela gajada de congressistas decidiu afundar-se com o barco.
Quem defendia o fim da CGD, a privatização da Segurança Social, o fim do Estado não quererá também agora fazer o seu glu-glu político? Está na hora!
O Comunismo foi também um sonho lindo que os homens destruíram e o Muro caiu. Chegou o momento de perceber que a solução de todos os problemas, o Mercado, foi também aniquilado pelos homens. Estes homens estragam tudo... depois renascem. Assim tem sido sempre e, neste momento, indianos, chineses, sul-americanos estão quase no fim do tempo. Há um parto anunciado. Vamos ser obrigados a ser «generosos», que a dívida já vai grande.

Dinheiro

Inicialmente, o homem comercializava através de simples troca ou escambo. A mercadoria era avaliada na quantidade de tempo ou força de trabalho gasta para produzi-la. Com a criação de moedas o valor da mercadoria se tornou independente da força de trabalho. Com o surgimento dos bancos apareceu uma nova actividade financeira em que o próprio dinheiro é uma mercadoria. (Wikipedia)

De uma maneira geral, não tem uma conotação positiva: chama-se-lhe vil metal e lavam-se as mãos depois de se lhe mexer, por se considerar ser coisa suja. Depois todos querem ter muito, mas imaterializado e em quantidade que se não confessa facilmente. Na verdade, o dinheiro revela o esquizofrénico que há em nós. Ostenta-se o que permite, mas esconde-se o que se tem. O dinheiro talvez tenha sido o que possibilitou que o negócio tenha alma, uma forma poética de segregar o valor da coisa do que se recebe com a sua venda. Um ganho que não traduz o trabalho que se tem, mas o confronto de dois desejos, o de manter de quem vende e o de comprar de quem adquire. Algo inquantificável e onde moram alguns pecados, que tornam a transacção secreta (o segredo do negócio!)
Desde que se mercantilizou, tornou-se abstracto. Nos últimos tempos, assistimos ao resultado desta evolução: a mesma coisa, pode valer o seu valor e menos de metade com dias de intervalo. Tudo depende da confiança no Mercado. E é este jogo de emoções que nos fazem viver, sem nos ouvirem os desejos de ser de forma diferente. Porque assim, alguém, decidiu que tinha de ser e não pode estar-se de outra forma. Decisão grave, destituída de qualquer ética, impôs-se como a ética.
E tudo parece andar à deriva quando se assiste à irracionalidade dos que actuam o Mercado e descrêem quando a «salvação» foi finalmente acordada. Resultado, os índices da bolsa sofrem forte baixa. Os teóricos explicar-nos-ão a razão: o preço do petróleo, a injecção dos bancos federais insuficiente, mais isto e mais aquilo, tudo, geralmente explicando um resultado e o seu contrário. Resta-nos acreditar no sábio César das Neves que nos tranquiliza com a sedução felina do sistema, também ele com sete vidas. Terá?

sábado, setembro 27, 2008

A inconveniência da verdade?

«Acredita nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram» (André Gide)

O primeiro debate foi morno, como aqueles jogos em que tudo se passa a meio campo e ninguém ataca com convicção, onde as preocupações em não errar acabam por dar um mau espectáculo. Geralmente, acaba num empate, sem glória para ninguém. Ou talvez a igualdade não seja apenas uma questão de forma, mas de conteúdo.
Um bom debate tem de ser quente. Quem debate tem de se afirmar com convicções e procurar mostrar a sua verdade, sem conciliações e por muito espantosa que seja a realidade expressada. Algumas verdades são tão extraordinárias que a primeira reacção é escondê-las, mas, como dizia M L King, a time comes when silence is betrayal. Às vezes, depois de vermos, ouvirmos e lermos, como também dizia a canção, não podemos ignorar. Por isso, aqui deixo o link para que se veja (apesar do tempo que se gasta, parece valer a pena), embora, como a minha avó, quando os viu chegar à Lua, também a mim me custe a acreditar. Mas realmente, era verdade. Quem sabe se aqueles que parecem não saber controlar o desmoronamento da sua Economia, serão peritos em outros desmoronamentos controlados! Sobre tudo têm uma verdade e a sua tem justificado muita coisa nos últimos anos, mas também é sabido que «Uma mentira repetida muitas vezes, torna-se verdade» (Lenine)
De qualquer das maneiras, isto é que dava um debate quente e de larga audiência.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Registo

Citando especialistas:

To the Speaker of the House of Representatives and the President pro tempore of the Senate:

As economists, we want to express to Congress our great concern for the plan proposed by Treasury Secretary Paulson to deal with the financial crisis. We are well aware of the difficulty of the current financial situation and we agree with the need for bold action to ensure that the financial system continues to function. We see three fatal pitfalls in the currently proposed plan:

1) Its fairness. The plan is a subsidy to investors at taxpayers’ expense. Investors who took risks to earn profits must also bear the losses. Not every business failure carries systemic risk. The government can ensure a well-functioning financial industry, able to make new loans to creditworthy borrowers, without bailing out particular investors and institutions whose choices proved unwise.

2) Its ambiguity. Neither the mission of the new agency nor its oversight are clear. If taxpayers are to buy illiquid and opaque assets from troubled sellers, the terms, occasions, and methods of such purchases must be crystal clear ahead of time and carefully monitored afterwards.

3) Its long-term effects. If the plan is enacted, its effects will be with us for a generation. For all their recent troubles, America's dynamic and innovative private capital markets have brought the nation unparalleled prosperity. Fundamentally weakening those markets in order to calm short-run disruptions is desperately short-sighted.

For these reasons we ask Congress not to rush, to hold appropriate hearings, and to carefully consider the right course of action, and to wisely determine the future of the financial industry and the U.S. economy for years to come.


Signed (updated at 9/25/2008 8:30AM CT)

Acemoglu Daron (Massachussets Institute of Technology)
Adler Michael (Columbia University)
Admati Anat R. (Stanford University)
Alexis Marcus (Northwestern University)
Alvarez Fernando (University of Chicago)
Andersen Torben (Northwestern University)
Baliga Sandeep (Northwestern University)
Banerjee Abhijit V. (Massachussets Institute of Technology)
Barankay Iwan (University of Pennsylvania)
Barry Brian (University of Chicago)
Bartkus James R. (Xavier University of Louisiana)
Becker Charles M. (Duke University)
Becker Robert A. (Indiana University)
Beim David (Columbia University)
Berk Jonathan (Stanford University)
Bisin Alberto (New York University)
Bittlingmayer George (University of Kansas)
Boldrin Michele (Washington University)
Brooks Taggert J. (University of Wisconsin)
Brynjolfsson Erik (Massachusetts Institute of Technology)
Buera Francisco J. (UCLA)
Camp Mary Elizabeth (Indiana University)
Carmel Jonathan (University of Michigan)
Carroll Christopher (Johns Hopkins University)
Cassar Gavin (University of Pennsylvania)
Chaney Thomas (University of Chicago)
Chari Varadarajan V. (University of Minnesota)
Chauvin Keith W. (University of Kansas)
Chintagunta Pradeep K. (University of Chicago)
Christiano Lawrence J. (Northwestern University)
Cochrane John (University of Chicago)
Coleman John (Duke University)
Constantinides George M. (University of Chicago)
Crain Robert (UC Berkeley)
Culp Christopher (University of Chicago)
Da Zhi (University of Notre Dame)
Davis Morris (University of Wisconsin)
De Marzo Peter (Stanford University)
Dubé Jean-Pierre H. (University of Chicago)
Edlin Aaron (UC Berkeley)
Eichenbaum Martin (Northwestern University)
Ely Jeffrey (Northwestern University)
Eraslan Hülya K. K.(Johns Hopkins University)
Faulhaber Gerald (University of Pennsylvania)
Feldmann Sven (University of Melbourne)
Fernandez-Villaverde Jesus (University of Pennsylvania)
Fohlin Caroline (Johns Hopkins University)
Fox Jeremy T. (University of Chicago)
Frank Murray Z.(University of Minnesota)
Frenzen Jonathan (University of Chicago)
Fuchs William (University of Chicago)
Fudenberg Drew (Harvard University)
Gabaix Xavier (New York University)
Gao Paul (Notre Dame University)
Garicano Luis (University of Chicago)
Gerakos Joseph J. (University of Chicago)
Gibbs Michael (University of Chicago)
Glomm Gerhard (Indiana University)
Goettler Ron (University of Chicago)
Goldin Claudia (Harvard University)
Gordon Robert J. (Northwestern University)
Greenstone Michael (Massachusetts Institute of Technology)
Guadalupe Maria (Columbia University)
Guerrieri Veronica (University of Chicago)
Hagerty Kathleen (Northwestern University)
Hamada Robert S. (University of Chicago)
Hansen Lars (University of Chicago)
Harris Milton (University of Chicago)
Hart Oliver (Harvard University)
Hazlett Thomas W. (George Mason University)
Heaton John (University of Chicago)
Heckman James (University of Chicago - Nobel Laureate)
Henderson David R. (Hoover Institution)
Henisz, Witold (University of Pennsylvania)
Hertzberg Andrew (Columbia University)
Hite Gailen (Columbia University)
Hitsch Günter J. (University of Chicago)
Hodrick Robert J. (Columbia University)
Hopenhayn Hugo (UCLA)
Hurst Erik (University of Chicago)
Imrohoroglu Ayse (University of Southern California)
Isakson Hans (University of Northern Iowa)
Israel Ronen (London Business School)
Jaffee Dwight M. (UC Berkeley)
Jagannathan Ravi (Northwestern University)
Jenter Dirk (Stanford University)
Jones Charles M. (Columbia Business School)
Kaboski Joseph P. (Ohio State University)
Kahn Matthew (UCLA)
Kaplan Ethan (Stockholm University)
Karolyi, Andrew (Ohio State University)
Kashyap Anil (University of Chicago)
Keim Donald B (University of Pennsylvania)
Ketkar Suhas L (Vanderbilt University)
Kiesling Lynne (Northwestern University)
Klenow Pete (Stanford University)
Koch Paul (University of Kansas)
Kocherlakota Narayana (University of Minnesota)
Koijen Ralph S.J. (University of Chicago)
Kondo Jiro (Northwestern University)
Korteweg Arthur (Stanford University)
Kortum Samuel (University of Chicago)
Krueger Dirk (University of Pennsylvania)
Ledesma Patricia (Northwestern University)
Lee Lung-fei (Ohio State University)
Leeper Eric M. (Indiana University)
Leuz Christian (University of Chicago)
Levine David I.(UC Berkeley)
Levine David K.(Washington University)
Levy David M. (George Mason University)
Linnainmaa Juhani (University of Chicago)
Lott John R. Jr. (University of Maryland)
Lucas Robert (University of Chicago - Nobel Laureate)
Luttmer Erzo G.J. (University of Minnesota)
Manski Charles F. (Northwestern University)
Martin Ian (Stanford University)
Mayer Christopher (Columbia University)
Mazzeo Michael (Northwestern University)
McDonald Robert (Northwestern University)
Meadow Scott F. (University of Chicago)
Mehra Rajnish (UC Santa Barbara)
Mian Atif (University of Chicago)
Middlebrook Art (University of Chicago)
Miguel Edward (UC Berkeley)
Miravete Eugenio J. (University of Texas at Austin)
Miron Jeffrey (Harvard University)
Moretti Enrico (UC Berkeley)
Moriguchi Chiaki (Northwestern University)
Moro Andrea (Vanderbilt University)
Morse Adair (University of Chicago)
Mortensen Dale T. (Northwestern University)
Mortimer Julie Holland (Harvard University)
Muralidharan Karthik (UC San Diego)
Nanda Dhananjay (University of Miami)
Nevo Aviv (Northwestern University)
Ohanian Lee (UCLA)
Pagliari Joseph (University of Chicago)
Papanikolaou Dimitris (Northwestern University)
Parker Jonathan (Northwestern University)
Paul Evans (Ohio State University)
Pejovich Svetozar (Steve) (Texas A&M University)
Peltzman Sam (University of Chicago)
Perri Fabrizio (University of Minnesota)
Phelan Christopher (University of Minnesota)
Piazzesi Monika (Stanford University)
Piskorski Tomasz (Columbia University)
Rampini Adriano (Duke University)
Reagan Patricia (Ohio State University)
Reich Michael (UC Berkeley)
Reuben Ernesto (Northwestern University)
Roberts Michael (University of Pennsylvania)
Robinson David (Duke University)
Rogers Michele (Northwestern University)
Rotella Elyce (Indiana University)
Ruud Paul (Vassar College)
Safford Sean (University of Chicago)
Sandbu Martin E. (University of Pennsylvania)
Sapienza Paola (Northwestern University)
Savor Pavel (University of Pennsylvania)
Scharfstein David (Harvard University)
Seim Katja (University of Pennsylvania)
Seru Amit (University of Chicago)
Shang-Jin Wei (Columbia University)
Shimer Robert (University of Chicago)
Shore Stephen H. (Johns Hopkins University)
Siegel Ron (Northwestern University)
Smith David C. (University of Virginia)
Smith Vernon L.(Chapman University- Nobel Laureate)
Sorensen Morten (Columbia University)
Spiegel Matthew (Yale University)
Stevenson Betsey (University of Pennsylvania)
Stokey Nancy (University of Chicago)
Strahan Philip (Boston College)
Strebulaev Ilya (Stanford University)
Sufi Amir (University of Chicago)
Tabarrok Alex (George Mason University)
Taylor Alan M. (UC Davis)
Thompson Tim (Northwestern University)
Tschoegl Adrian E. (University of Pennsylvania)
Uhlig Harald (University of Chicago)
Ulrich, Maxim (Columbia University)
Van Buskirk Andrew (University of Chicago)
Veronesi Pietro (University of Chicago)
Vissing-Jorgensen Annette (Northwestern University)
Wacziarg Romain (UCLA)
Weill Pierre-Olivier (UCLA)
Williamson Samuel H. (Miami University)
Witte Mark (Northwestern University)
Wolfers Justin (University of Pennsylvania)
Woutersen Tiemen (Johns Hopkins University)
Zingales Luigi (University of Chicago)
Zitzewitz Eric (Dartmouth College)

Terroristas

Seria útil perceber qual o terrorismo com consequências mais nefastas para os americanos (e para todos os outros inocentes por esse mundo fora), se o da Al Qaeda, se o da especulação e lucro fácil. Na verdade, as práticas do neoliberalismo selvagem poderão estar e vir a causar muito mais vítimas que o ataque às torres gémeas e, desta vez, os Bin Ladens nem necessitarão esconder-se nas montanhas arenosas do Afeganistão, optando, talvez apenas, por gozar «merecidas» férias nas montanhas de Aspen ou ficando no contacto da natureza pescando trutas nos lagos. É estranho como ninguém é preso. É estranha esta socialização da falência de um sistema que era o fim da história. É estranho, também, que não haja já gente na rua a pôr fim a esta história.

quinta-feira, setembro 25, 2008

As duas faces


As duas faces da mesma moeda. Valores diferentes?
Somos agora entretidos com discussões sobre o acessório como os casamentos de homossexuais. Para isto, os senhores deputados discutem se deve ou não haver liberdade de consciência na altura do voto. Não reivindicam o mesmo direito sobre as votações das grandes opções económicas. No primeiro caso a coisa é para mim mais ou menos indiferente (desde que não tornem o casamento homossexual obrigatório!). Importante, era não terem uma atitude de carneirada, naquilo que é fundamental e afecta todos. Cada vez mais a «democracia» é uma prática de alterne, duas faces da mesma moeda (cuidado não se confundam as sonoridades dos termos).

segunda-feira, setembro 22, 2008

domingo, setembro 21, 2008

SOS SNS


Transcrevo de um comentário a uma notícia do Público online: Deixe-se também a livre iniciativa funcionar na saúde, e acabe-se com a saúde subsidiada pelo estado, autêntico escândalo nacional, onde gente que nunca deu nada à sociedade é tratada à borla, à conta dos impostos dos que trabalham. As despesas do estado na saúde não pode continuar.J Antão, dixit
A fragilidade de análise dos crentes do Mercado manifesta-se desta forma impiedosa, SELVAGEM, sobre os mais fracos, os doentes. É necessário desmistificar o conceito de que a Saúde é um bem normal de consumo (ou de luxo como ensinam em cursos de Gestão). Ao contrário de outros bens, recorre-se à saúde, geralmente por necessidade INDESEJADA. Se há consumo abusivo, a culpa é de quem o promove (os markteers de serviço) na ânsia de aumentar o negócio: médicos também, mas sobretudo imprensa e vendedores de medicamentos e meios de diagnóstico e tratamento. E, também, obviamente os novos negociantes (Banca e Seguros) desejosos de quota de mercado.
Sr. Antão, verdadeiro escândalo, não é os saudáveis pagarem a saúde aos que estão doentes. O verdadeiro escândalo é os doentes ficarem sem assistência médica porque a não podem pagar como acontece na pátria do Liberalismo onde apesar de uma percentagem elevada do PIB gasta em Saúde, ficam fora do sistema mais de 30% das pessoas, revelando uma eficiência bem medíocre.
Os fundamentalistas do Liberalismo, nesta fase do processo, melhor era que ficassem calados a meditar no descalabro da livre concorrência e nas mãos invisíveis, em vez de revelarem os seus instintos de barbárie. Parece que lhes custa a aprender, compelidos que estão para voltar ao Casino.

sábado, setembro 20, 2008

Foi o senhor que pediu Esquerda?

É um facto que a Esquerda do passado nada tem a oferecer ao país, porque o país escolheu a direita do presente para o governar. Que tal experimentar a Esquerda no futuro?

Os Estados a que isto chegou

Afinal há um Estado bom. Um pai protector para as traquinadas dos filhotes. CEOs de todo o mundo encomendem o champanhe. O vosso Estado, vai pagar-vos a dívida de jogo. Podem voltar ao Casino. The show must go on.
Ficámos agora a saber que há dois Estados, o mau Estado, que nacionaliza o lucrativo e cobra impostos para redistribuir a riqueza, dando a quem não pode e o bom Estado, que privatiza o que dá lucro e nacionaliza os prejuízos.
Ou seja, como disseram os filósofos desacreditados Engels e Marx:
"A força de coesão da sociedade civilizada é o Estado, que, em todos os períodos típicos, é exclusivamente o Estado da classe dominante e, de qualquer modo, essencialmente uma máquina destinada a reprimir a classe oprimida e explorada".
"O executivo do Estado moderno nada mais é do que um comitê para administrar os assuntos comuns de toda burguesia".
Fica claro que se trata de teoria ultrapassada e reaccionária e que o grande motor da vida é o Mercado.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Os médicos dos anzóis


A pesca é como a Medicina: celebra-se o grande peixe como se celebra o diagnóstico raro. O peixe raro surge quando se está no mar certo, nas condições adequadas e se utiliza a técnica correcta. O resto é sorte, que é sempre algo feito à custa de muita técnica e esforço. Duvidoso seria que o peixe fosse apanhado por se lançarem anzóis aleatoriamente, num desperdício de recursos, à procura que picasse.
Alguns médicos, na ânsia do big fish, usam actualmente uma estratégia diagnóstica de desperdício recorrendo a longas listas de exames, ficando depois à espera que algo venha alterado. Têm a vantagem de não pagarem do seu bolso os anzóis.
A Arte da coisa é outra, é a eficiência: obter o máximo ao menor custo.

segunda-feira, setembro 15, 2008

We can?

A sucessão nauseante dos ciclos, cansa. Repetidamente, Ano Novo, Feira do Livro, Natal e uma série de peripécias intercalares repetidas. Falta criatividade neste tempo que passa sempre mais ou menos igual. Estes anos assim decorridos deixam pouco na memória além de uma sensação de vertigem em que tudo parece, cada vez, mais pequeno. O resto é uma crise que se adensa sem grande esperança de mudança por muito que o marketing sopre a nossa capacidade de fazer. We can? Dá vontade de parar os ciclos e, ao menos, espiralá-los, para outro plano, roubando a bidimensionalidade aos ciclos. Apetece subir. Não se sabe bem é como.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Once de Septiembre


Faz hoje anos... que o Imperialismo derrubou o Presidente eleito Salvador Allende. Algumas datas não devem deixar de ser lembradas.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Recusar o absurdo

A aceitação acrítica da situação conduz à formação de paradigmas mais ou menos absurdos. Na verdade, dificilmente uma norma, elaborada por gente presumivelmente inteligente, poderá ser verdadeiramente absurda. No fundo, haverá sempre uma causa justificativa. Acontece muitas vezes que a suspeita sobre o disfuncionamento aceite como corrente e quase normal, leva as pessoas a negligentemente aceitarem os absurdos com que se confrontam. Outras vezes, pela utilização iterativa destes mecanismos, já o paradigma se instalou e ganhou estatuto de quase rotina incontestável. Mas a verdade, é que mesmo assim, sobreviverá sempre até ao dia em que se contestar.
Os mitos caem quando se lhes resiste.
Fartei-me de justificar como prescrição extra-formulário, medicamentos que moram no dito cujo. Porque era assim! Até hoje. E bastou perguntar, porquê. Na Farmácia, também não percebiam a razão das justificações. Às vezes, basta falar, o que é frequentemente muito difícil nesta sociedade da comunicação, onde geralmente, ouvimos mais do que falamos. Porque nos domaram, sobrecarregando-nos da informação que lhes interessa.

segunda-feira, setembro 08, 2008

A liberdade e a vida

Não tenho dúvidas que é positivo poder ver isto denunciado e que a liberdade de imprensa é um bem. Mas também tenho o dever moral de perceber que a liberdade de imprensa não é a Liberdade e que não basta fazer as denúncias dos crimes para que eles deixem de existir. Melhor que ter a liberdade de dar a notícia era ter a liberdade de a notícia não existir. Os autores destes crimes, arrogando-se em defensores da liberdade (que muitas vezes confundem apenas com Estados Unidos), são useiros e vezeiros nestas práticas. Tudo bem, a guerra é a guerra. O que não defende a Liberdade é a sua não aceitação de serem julgados nos tribunais internacionais respectivos, garantindo o seu direito de fazer o que lhes parecer melhor para a «defesa da América», seu real bem supremo. Matar civis no Afeganistão é tão terrorista como matá-los em Manhattan. Ou mesmo mais, se for tido em conta o grau de desenvolvimento dos criminosos.
Mrs Pallin irá certamente defender a vida dos fetos, mas dormirá tranquila com as mortes das crianças afegãs.

domingo, setembro 07, 2008

A justificação do silêncio


Não resisto a reproduzir o ar enrolhado da fotografia do Público online.
Finalmente, falou. Que disse? Nada, ou quase nada. E ainda por cima baralhou-se, confundiu o todo com a parte, isto é, Portugal com a Madeira:

Considerou ainda que “Portugal está longe de beneficiar da democracia na sua plenitude” e propôs-se contribuir para a sua consolidação e “libertar o país e as instituições do sectarismo partidário”.
A presidente do PSD começou por dizer que “o Governo gasta imensa energia e recursos a tratar da comunicação e imagem”.
“O objectivo é enganar-nos”, acrescentou.


Enigmaticamente, terá talvez justificado os porquês do seu silêncio:

“são cada vez mais abafadas as vozes dos que sabem que isto não vai bem, mas que não podem falar muito alto porque há uma impressionante máquina socialista que controla, que persegue, que corta apoios, que gere favores ou simplesmente que demite”.

Que propõe de diferente? Nada! É mais do mesmo, como o seu passado mostra. Outra coisa não seria de esperar.
Afinal, o silêncio tinha justificação: não tinha nada para dizer.

A história continua

Government assumes control over mortgage giants Fannie Mae and Freddie Mac. Desculpem, mas então o maldito Estado pode ser mais eficiente que a Santa Iniciativa Privada? Vão renegar o Conto de Fadas do Sagrado Mercado?
A falência do Mercado continua. As passadas foram maiores do que as pernas e surgiu o trambolhão. Enquanto caminharam, receberam os proveitos, agora que se precipitam, vamos todos pagar as despesas. Esta é a superior ética do Mercado liberal! Não vai sendo tempo de serem os ricos a pagarem a crise e ir sacar às fortunas, selectivamente, a sustentação dos monstros que criaram? Ou vão querer continuar a receber os dividendos e a não pagar impostos?
A História vai continuar. O fim que lhe anunciaram foi uma precipitação de desejos nervosos e insustentados. Todos os finais de História, geram em si contradições, que, mais cedo ou mais tarde, reiniciam as Eras.

sábado, setembro 06, 2008

Tropa de Elite

Para quem acha que vivemos num país inseguro e para todos os outros, porque a cultura geral e a informação boa nunca serão demais, é obrigatório ver Tropa de Elite. A sensação é de que não é um filme, mas um documentário. Estão lá a corrupção, os limites da acção em democracia, a hipocrisia de certa esquerda bem pensante e de certa direita benfeitora, os limites (ou a sua ausência) da guerra, mas sobretudo a revelação de que a luta de classes está viva. A realidade brasileira, com um gigantesco fosso entre ricos e pobres, emerge a cada instante. A insegurança é absoluta, a violência incontável. Este é, possivelmente, o fim da história do liberalismo se não lhe soubermos fazer frente. Será uma imensa imagem branca, silenciosa, como se vê no fim do filme.
Curiosamente, sendo de uma violência enorme nas imagens neo-realistas, parece-me menos violento que o massacre gratuito de violência, a rondar o pornográfico, da quase generalidade das séries mais ou menos policiais americanas que enxameiam as tardes e noites das televisões. A violência deste filme não é banal, ligeira, sabe a horror. Por isso não se impregna, rejeita-se.
Ao mesmo tempo, é um filme de dilemas pessoais, nomeadamente, o de se assegurar que o nosso posto de trabalho só acaba no dia em que alguém o puder desempenhar, sobre a responsabilidade ética de estar até esse momento.
Percebe-se que tenha sido premiado, que seja fonte de enorme discussão, que possivelmente nada diga, quer à senhora Pallin, quer, até, ao senhor Obama.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Medicina ou política?

Fazemo-nos médicos para aumentarmos a vida e a qualidade da vida vivida, curarmos as doenças e, mais do que isso, prevenirmos o sofrimento que causam. A evolução dos últimos anos, cada vez mais, porém, me faz pensar que não é sendo médico que esses objectivos se conseguem. Não melhoro fundamentalmente a morbilidade e mortalidade associadas com a obesidade, a diabetes ou as doenças cardiovasculares, prescrevendo mais drogas. Esta intervenção que esquece as causas, apenas é fundamentalmente útil para a indústria farmacêutica. Também não é promovendo a investigação, nomeadamente nos campos da genética ou da biologia, gastando aí rios de dinheiro que se promove o aumento da esperança de vida (para todos!)embora se melhore a de alguns mais ricos, dos que têm acesso aos seus progressos.
Um relatório recente da OMS mostra tudo isto de forma bem clara. Curiosamente, a nossa imprensa, tão ocupada com a divulgação dos assaltos de 100 euros, não tem espaço nem tempo para divulgar coisas simples como estas:

Economic growth is raising incomes in many countries but increasing national wealth alone does not necessarily increase national health. Without equitable distribution of benefits, national growth can even exacerbate inequities.

While there has been enormous increase in global wealth, technology and living standards in recent years, the key question is how it is used for fair distribution of services and institution-building especially in low-income countries. In 1980, the richest countries with 10% of the population had a gross national income 60 times that of the poorest countries with 10% of the world's population. After 25 years of globalization, this difference increased to 122, reports the Commission. Worse, in the last 15 years, the poorest quintile in many low-income countries have shown a declining share in national consumption.

Wealth alone does not have to determine the health of a nation's population. Some low-income countries such as Cuba, Costa Rica, China, state of Kerala in India and Sri Lanka have achieved levels of good health despite relatively low national incomes.


Não deixa de ser perturbador pensar, nesta fase da carreira, se foi esta profissão a melhor escolha. A sedução da política existe.

quarta-feira, setembro 03, 2008

A gravidez americana e a pobreza dos nossos ladrões

Na América é assim: não interessa o conteúdo, apenas a imagem. A indústria deles é o Cinema. Quando toca à política, fala-se do deve ser, esquecendo que muitas vezes prega Frei Tomás. E a diferença entre o feito e o que se prega é muitas vezes grande a todos os níveis. Pena é que seja apenas isso que se discute. Que interesse tem que a menina esteja grávida como seguramente muitos milheres de adolescentes americanas o estão? Verdadeiramente importante é saber-se quem é a mãe e que ideias apregoa, é saber-se o que quer fazer da vida privada dos americanos e americanas, é saber-se o que acha da proliferação das armas nos EUA e as implicações que isso tem na segurança, é saber-se se sabe alguma coisa de política internacional e se tudo não ficará na mesma ou ainda pior se algum dia puder chegar a presidente. A conversa paralela da gravidez da filha é inútil, apenas reveladora da falta de interesse em reflectir que os americanos têm. Pelo que se vai sabendo, a menina é filha de uma coisa bastante triste, mas ainda pouco revelada. É isso que é preciso perceber melhor.
Por cá, entretanto, vamos tentando entrar para o guiness do número de roubos de 100 e poucos euros à mão armada. Pobres ladrões os nossos! Têm de olhar para a América para aprenderem a roubar devidamente.

terça-feira, setembro 02, 2008

Erros

Paulo Pedroso foi injustiçado segundo um tribunal. Ficamos a saber que alguém cometeu um erro: ou o primeiro juiz ou este agora.
Errar é humano, mesmo quando o erro é grosseiro. As vítimas devem ser reparadas. No caso dos erros judiciários, é o Estado quem repara; no caso dos erros médicos, são os próprios (ou pelos seguros que têm de pagar).
Duas formas diferentes de estar no mesmo país.

sexta-feira, agosto 29, 2008

A mulher que vem do frio

Há esta forte ideia de fazer a coisa à medida do cliente de acordo com as boas instruções dos markteers. Despudoradamente, na política Imperial, já não se discutem estratégias ou ideais (as ideias já tinham sido há muito abandonadas, quando se concluiu que o Mercado é a única regra válida). Agora procura-se o perfil do candidato por medida, pronto a usar. Acharam que a coisa estava a ficar sisuda demais (qualquer dia já ninguém ia aos votos) e decidiram que o enredo do filme (o que eles sabem é fazer fitas) devia ter para agradar ao público alvo, uma mistura de preto, mulher, jovem e menos jovem. Depois é só agitar bem e servir. Os dois cocktails estão preparados: um jovem mais um menos jovem e a mulher ficou de fora, mais um mais velho e uma mulher que também é jovem. As diferenças da vacuidade das propostas pouco importam. The show must go on. Pena é que não seja de consumo exclusivamente interno e tenhamos que pagar as consequências.

Idade(s)

É incrível o que se pretende roubar nas nossas noites. De madrugada, tentaram sacar-me o pneu suplente. Provavelmente, surpreendidos por algum movimento deixaram a obra a meio. E eu não entendo. Nunca me passaria pela cabeça roubar um pneu a alguém.
Desde há algum tempo deixei de saber as soluções para o Mundo. Desconfio ser isso, o fim da juventude.
Cuidem-se, aqueles que só têm soluções para si próprios: estão irremediavelmente velhos.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Pelas notícias

Não é que hoje faltem notícias. Mas olhando a avidez com que se fazem primeiras páginas das notícias da DECO, quando se faz algum estudo que acaba a denegrir qualquer disfunção do sector público, não deixo de estranhar que uma das manchetes da Revista da DECO, Dinheiro e direitos, tenha passado sem referência. Fala a dita de ALUNOS MAL PROTEGIDOS NAS ESCOLAS PRIVADAS. O silêncio foi de ouro, afinal a quem interessa a novidade?

Notícias do dia:
Até faz sentido, não é? A campanha americana é uma amostra sofisticada do negócio do marketing e já vale quase tudo. A administração Bush já foi também capaz de tudo, desde não apanhar o inimigo principal, manter campos de concentração, ver armas de destruição maciça que mais ninguém encontrou. Por que não mais esta aventura, de quem tem na vida uma atitude de fanatismo?
Até o Papa parece contagiado por algum fanatismo, quando se atira a promover obras de arte. O sapinho teria passado tão bem despercebido...


Resta-me no dia de hoje a lucidez bem-aventurada de Boaventura Sousa Santos no seu artigo de hoje da Visão: «Saúde do Serviço ao Negócio». Referindo-se à «indesejável» expansão da actividade do sector público da saúde, por frustrar as «legítimas» expectativas dos privados, escreveu: Imagine-se que a Polícia Judiciária pudesse ser accionada em tribunal por, ao ampliar os seus serviços de investigação, estar a violar as legítimas expectativas dos detectives particulares? Também não irá ser citado. Para isso, temos o Professor Marcelo e as suas fantásticas análises.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Naquele tempo em que não havia televisão

Naquele tempo em que não havia TV, que se fazia à noite? Apanhados de surpresa, não encontrámos as respostas mais objectivas. Agora me lembro que ouvia rádio, lia os vespertinos (Diário de Lisboa e/ou República) porque era um tempo em que líamos os jornais da tarde, fazíamos as palavras cruzadas e em dias de serão mais prolongado, havia a Rádio Moscovo ou a Rádio Portugal Livre para ouvir. Com um copo de água em cima para afastar as detecções do inimigo. Às vezes, jogava-se a bisca,à sueca ou dominó.
Era tudo muito lento, bem provado. Muito diferente das séries de crimes em série dos dias de hoje. Na lentidão havia tempo de pensar, o que era uma vantagem comparativamente à vertigem de agora. De alguma forma planeávamos a acção, não nos limitando a reagir.

terça-feira, agosto 26, 2008

Fico Zon(zo)


Quando faço compras em Marraqueche já sei como é: regatear, é fundamental. Quando compro alguma coisa nos Estados Unidos, sei que o débito do cartão é sempre mais que o valor da compra (não põem à mostra o custos dos Impostos). Na Europa e em Portugal (que é uma terra que fica na cauda da dita), estou habituado a pagar o preço que me apresentam e sempre identifiquei isso como prova de civilização, de transparência e honestidade. Os tempos estão a mudar.
Depois de passar os olhos pelo site da empresa, dei conta que estava a pagar uma enormidade pela assinatura de um pacote triplo de fornecimento de TV, Internet e telefone, que tinha subscrito na PT Multimédia, entretanto rebaptizada de Zon (hoje percebi o sentido da mudança!). Em resumo, verifiquei que a prestação do serviço que tenho é feita aos novos clientes cerca de 25% abaixo do que estava a pagar!!! São os custos de ser um cliente fiel. Esta gente não premeia a fidelidade, privilegiando a caça ao novo cliente. Depois de meia hora a saltitar entre atendedores de call center ultra-especializados como diria o Engº Sócrates (na verdade são-no porque só sabem responder a uma coisa pequenina de cada vez e agarrados a uma lista de respostas, desabituaram-se de pensar), lá me encaminharam para alguém com quem já era possível um diálogo e me explicou que agora a Zon funciona como o mercado em Marraqueche: de tempos a tempos, o melhor é regatear e solicitar os descontos previstos, mas não automaticamente fornecidos aos clientes. E foi desta forma árabe de negociação que hoje reduzi a prestação à Zon em cerca de 20€ por mês!! Dito de outra maneira, a Zon estava a apropriar-se (qual a diferença para roubar?) mensalmente de 20 € à minha custa. Vezes não sei quantos, está-se a ver a geração de valor na Organização. Gerar valor, não é? Que produto acrescentaram? Nada, sacaram apenas os nossos valores, o que em linguagem corrente se diz, roubaram-nos! Estas coisas põem-me Zon(zo)!

sexta-feira, agosto 22, 2008

quinta-feira, agosto 21, 2008

Todos iguais

Esteticamente, um belo salto de um cidadão descontraído e bem disposto: é do Benfica!
Super Presidente (agarrado a Maria num casamento sem fim) felicita o português nascido na Costa do Marfim. Não o tinha podido fazer antes com a portuguesa nascida em São Tomé, nem com o outro nascido na Nigéria. Mas hoje, não é dia de raças e os parabéns são merecidos. Finalmente, a Pátria está salva. A partir de agora todos os assaltantes de carrinhas de valores, bancos, automóveis e o mais que possa haver, têm de se pôr rapidamente ao fresco, que o país tem um homem com passos de quase 6 metros...
Moral da história: quando africano ganha é herói nacional, quando mora no subúrbio não passa de preto.

Os roubos dos bancos

Ao longo dos tempo criou-se a ideia certa ou errada que gentes de baixos rendimentos teriam de receber as suas pensões na Caixa Geral de Depósitos. Ter lá uma conta aberta era também necessário para se reaverem os retornos de pagamentos de algumas despesas de saúde relacionados com a ADSE.
O que resta da banca nacionalizada com o pretexto de ter de viver no mundo real da concorrência, há algum tempo, estabeleceu a criação de despesas de manutenção de conta, cobrando 10 euros de 3 em 3 meses e depois 13 euros de 3 em 3 meses a quem não tenha em património os mínimos exigidos. Dadas as características de muitas das contas de DO obrigatoriamente abertas neste banco, não é difícil imaginar os resultados das esperteza desta medida de gestão e a geração de valor que causará. Numa época de desmaterialização (nem sequer há envio de extractos bancários) em que as contas são bits acumulados me reservas de informação quase infinitas, o que será a despesa de manutenção? Mais de 50 € por ano. Será pouco, mas tem de se considerar a natureza das contas a que se aplica.
Quando entramos num banco, nos dias que correm, não há só o risco do mediático roubo no Banco, há outro roubo bem mais persistente, silencioso, quase despercebido: o roubo do banco.
Nota: O fenómeno ocorre também noutros bancos conforme experiência recente tida no Barclays, isto é, trata-se de um esquema de que também é usado no sector privado. Mas aí já é de esperar dada a conhecida eficiência do sector.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Sardinhada

A minha posição sobre as sardinhas enlatadas? Por amor de Deus, isso não são coisas que se perguntem a alguém como eu. Há por aí opinadores científicos habituados (habilitados?) a debitar sobre todas estas matérias. Há um estudo em curso sobre os seus efeitos no prolongamento da vida? Não me parece ponto de análise que seja de valorizar. Só me interessam os efeitos na redução da jornada de trabalho, no aumento do período de férias, na diminuição do desemprego e coisas deste teor. Isto é, não dou relevância à quantidade de anos de vida, mas à quantidade de vida nos anos. Este era um tema importante para abordagem jornalística, agora as sardinhas enlatadas, francamente, só devem interessar aos Ramirez... e os escribas deviam reflectir um pouco mais nas notícias que dão.
Quanto às sardinhas, que posição? Deitadas sobre broa, mas assadas se faz favor.

terça-feira, agosto 19, 2008

Longe


Nova Zelândia.
Dias há em que apetece estar do outro lado, longe das medalhas que não chegam, dos empregos criados através dos desempregos feitos, dos mutismos que nada vão mudar, felizmente. Pois, para pior já basta assim. A aurora vem longe. Do outro lado, existe, dourada no início dos dias.

domingo, agosto 17, 2008

Olhar

Foi fácil vê-lo ontem, ao lado da auto-estrada. Conhecido e anunciado. Mas, a capacidade de ver o nunca visto e que sempre ali vai estando escancarado à frente dos olhos. Quantos olhos viram a imagem, quantos anos foram necessários para ter sentido?
Sentir a anomalia, no silêncio da observação. Partilhá-la depois. Porque a compreensão do observado quase nunca será um acto de um homem só. Afinal as realizações são sempre muito mais colectivas e complexas. Só por grande necessidade de simplificação se atribuem as descobertas a homens isolados.
E quantas imagens óbvias aí andam que nos podem passar despercebidas se não houver já tempo de olhar o seu silêncio em silêncio.

sábado, agosto 16, 2008

A conveniência da ilusão

A minha avó, que era sábia, sempre me avisou para não acreditar que eles tinham chegado à lua. Aquilo era tudo montado, cinema, essa coisa mentirosa que substituía a verdade do teatro. E eu ficava triste, com pena dela, por o seu analfabetismo lhe não permitir ver a realidade através das interpostas imagens. Era uma época de verdade, em que era credível o que se via. Naqueles anos, ainda tínhamos a certeza de que o mundo estava a mudar, ainda o construíamos com um rumo sonhado. Aos poucos, porém, os tempos mudaram, não como a cantiga nos dizia e os ventos foram-se refazendo, apagando as respostas que o seu sopro nos trazia. Afinal, os homens novos eram tão velhos como os antigos e os muros que, estupidamente, ergueram caíram como teria de ser. Foi assim que chegámos ao fim do mundo e o liberalismo se instalou como verdade definitiva, deixando ao Mercado a realização de todas as questões da vida dos homens. Nessa altura acabaram os sonhos e instalaram-se as ilusões. E por elas vamos andando nos dias de hoje. Ainda.

A beleza e perfeição das coisas tornou-se mais importante que a sua verdade, que cedeu o seu espaço à ilusão. A realidade tornou-se aos poucos intolerável e foi substituída, com aceitação, pela mentira perfeitamente construída. Deve ser por isso que se prefere mostrar uma pequena chinesa a cantar com a voz de outra que, na verdade, tem os dentes tortos e os fogos de artifício são artificiais como nunca antes tinham sido. Pensando bem, a falsidade até estará adequada numa cerimónia de abertura de uns Jogos onde se disfarça de desporto o que somente é competição, desempenho irreal e inútil. Utilizam-se atletas para glória de poderes políticos e económicos. Venham medalhas que façam esquecer a crise ou mostrem a grandeza da China emergente, vendam-se mais sapatos e fatos de treino. Just do it até daqui a quatro anos. Por uma malga de arroz, os miúdos da Índia, Indonésia, Vietname e da China continuarão a produzir os fatos mágicos, os sapatos que têm asas e outros facilitadores de records. É isso que queremos e o marketing promoverá as «nossas necessidades».
Na realidade, a distância aumenta, o mundo dos ricos e dos pobres afasta-se, sem que uns e outros tenham disso percepção, ocupados na ilusão em que estão. E neste caldo germina e cresce a facilidade amoral, que conduz à realização do objectivo de enriquecimento rápido, a qualquer preço. Uns assaltarão bancos na busca dos milhares de euros que os libertem da miséria de forma fácil, outros, seus semelhantes, transmitirão a manipulação de reféns, em tempo real, arriscando mostrar a morte em directo, na busca das audiências que lhes assegurem receitas de milhões. Nuns e noutros a mesma falta de moral, mas só nuns a propriedade da ética, da elaboração das regras.
Vende-se, sem vergonha, a regra de que o Mercado tudo resolve e todos os equilíbrios nele serão encontrados. Mas quando as trapaças dos Bancos os levam ao nível da falência, recorre-se ao Estado salvador. Pagamos todos a despesa, depois dos proveitos terem ficado para os poucos, que causaram a ruína. Mais uma vez, a realidade foi bem diferente da ilusão que nos impingiram.
Deve ser porque a realidade é tão inconveniente, que a ilusão é tão necessária. Deve também ser esse o motivo, porque nos roubaram o sonho. Mas, felizmente, o sonho é estimulante e a ilusão frustrante. Possivelmente, por isso, ainda não chegámos ao fim da história.

terça-feira, agosto 12, 2008

Ekekheiria

I know not with what weapons World War III will be fought, but World War IV will be fought with sticks and stones.
Albert Einstein

Longe vão os tempos em que os jogos suspendiam as guerras. Agora, até parece que as facilitam. Oportunidade mediática para fazer passar despercebida uma agressão.

segunda-feira, agosto 11, 2008

O exemplo Maribel?

Quando são apanhados é assim. De nada lhes vale o argumento de que estariam em desvantagem competitiva face aos que não usam a estratégia auxiliadora do seu êxito. Vão para a rua e toda a gente fica a saber que fizeram batota.
Será que isto pode inspirar a Direcção Geral de Contribuições e Impostos?

sexta-feira, agosto 08, 2008

Anestesia

Há um triste hábito, nesta terra de amadores, de pedir aos transeuntes opiniões, que aos profissionais deveriam ser colocadas. E como este povinho não é de se ficar, sempre sai opinião. O desportista de bancada, opina sobre a táctica da equipa, o pai da criança sobre a qualidade dos cuidados de saúde prestados e sobre estratégias de prevenção da doença, o cidadão comum, julga de imediato o crime sem esperar pela decisão da justiça, os médicos opinam sobre a organização dos cuidados de saúde e por aí adiante. Como somos amadores, geralmente não procuramos os pareceres dos profissionais. São demasiado técnicos, diz-se, e o que se quer são opiniões fáceis, ainda que, geralmente, erradas, quando as coisas são, realmente, complexas.
Mas não pode deixar de se ter em conta que, quando se opina fácil e de forma impreparada, geralmente, mais do que o fácil, o que sai é o que é mais cómodo, mais conveniente para o opinador, ou seja, o que mais favorece os seus interesses. Em vez de se formar opinião fundamentada, obtemos apenas manifestações de interesses, por vezes bem obscuros. E mesmo que não haja a expressão de um desejo consciente expressando e criando uma vantagem pessoal, o que mais se consegue obter é uma expressão de emoção, que ainda assim, lá no fundo, traduz a forma de conseguir a satisfação dos desejos que a essa vantagem conduzem.
As opiniões dos impreparados são rápidas e definitivas. Julgam sem oportunidade de recurso ou de dúvida. Às vezes têm origem onde menos se espera, num Ministro da Administração Interna, que, cedendo inconscientemente às pressões de uso de autoridade à maneira de Paulo Portas, loga veio elogiar o comportamento de uma polícia, mesmo sem ter lido o relatório do inquérito dessa acção. Quando não dá jeito, é necessário ler o relatório detalhadamente, quando parece dar jeito, sai opinião de imediato.
Estranha-se é que, quem estuda as coisas da comunicação, não tenha espaço para o editorial, para a reflexão técnica e se deixe levar pela obtenção desta opinião pública fácil. Tão fácil, quanto absolutamente inútil. Ou será que o Império desta opinião, que tão válida é quanto a sua contrária, facilita o descrédito na existência da solução melhor permitindo a melhor aceitação do erro sistemático do poder? Funciona, assim, como uma espécie de anestesia.

SIC(k)

Hoje não houve quadratura do círculo, porque Por uma má notícia... eles vão até ao fim da rua, até ao fim do mundo. Hoje assim foi. Em directo, estivemos junto à morte em tempo real, com um locutor arrastando as palavras, tentando encontrá-las, sempre ultrapassado pelas imagens, mostradas despudoradamente. A pistola encostada na garganta, na cabeça. A tensão. O imprevisível do momento. Só por acaso, não assistimos à morte em directo dos reféns e também não vimos, porque o raio do ângulo da câmara não deixou ver, o abate dos sequestradores. Provavelmente, hoje, o video será dos mais observados nos youtubes da aldeia. Por agora, repetem-se até à exaustão, os tiros, os movimentos, a feliz fuga da refém.
Há algo de mórbido neste despudor face à morte, mas a verdade é que no próprio local se assistia da janela ao drama tornado espectáculo como em Roma se viam as lutas com os leões. A morte tem um poder fatal de atracção, há um prazer estranho no sangue. A SIC «limitou-se a levar o espectáculo» a todo o lado, democratizou a notícia. Repetiu as imagens, os sons, os ditos e, no fim, quase lamentou o comunicado RACIONAL da PSP. As feras queriam ainda mais emoção, sangue, se possível. SIC(K)NESS de informação.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Cada macaco no seu galho

Ronaldo pediu desculpa da sua aventura na gestão. Assumiu toda a responsabilidade. E se cada um fizesse aquilo que sabe fazer? Se os tecnicamente competentes, se limitassem a exercer com competência a sua função e se abstivessem de dar palpites sobre gestão? O Sr. Ferguson gere a equipa com padrões de excelência e não precisa de ser o elemento com mais habilidade técnica. É assim que as equipas ganham, cada um nos seus postos, de acordo com as suas capacidades. Assim, se obtêm os melhores resultados. Cada macaco no seu galho.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Estado de espírito de quarta-feira

Agir por causas fica bem. Mas o motor das acções são geralmente outras coisas que não causas. Mas as causas enobrecem a acção, quando há coisas a esconder. O problema é que quanto mais se invocam as causas, mais as coisas se evidenciam.
Começo a ficar demasiado farto destas coisas. Ainda acabo a agir por causas!

terça-feira, agosto 05, 2008

Tempos

Recebi hoje, num desses mails que dão a volta às nossas caixas de correio, esta mensagem:
Times are bad.
Children no longer obey their parents, and everyone is writing a book.
- Marcus Tullius Cicero, 106 - 43 BCE

Será que os tempos mudam ou teremos nós pouco tempo para vermos além do nosso tempo infinitesimal? Há, na verdade, uma realidade bem maior do que a que nos é dado perceber. É, por isso, necessário um esforço para vermos mais além.

quinta-feira, julho 31, 2008

A escapadela do Sr. Silva

Assim se provou que também um Presidente pode chatear-se com as férias. Quem sabe as coisas lá por casa não estão bem. Os netos só a pedir coisas e a crise chega mesmo a quem tem reformas chorudas. Depois o Algarve está cada vez mais cheio de europeus pés-descalço. Vai daí, pensa-se, deixa-me ir a Lisboa fazer um discursito para desanuviar. Ninguém vai dizer nada, porque aquilo dos Açores ninguém percebe nada, são umas ilhas onde se farta de chover e o que o povinho quer é sol.
Divertido foi ver os jornalistas tugas a empolar a coisa o dia todo, o que o homem iria dizer, numa demonstração da mais absoluta falta de notícias agora que nem futebol nem Maddies os ajudam. Mostrando uma vez mais que nem só a PJ é incompetente por cá. Só que nuns lados há impunidade, noutros ainda alguns pagam as favas. Durante o dia faz-se uma montanha, a noite o PR páre um ratinho. E agora? Vá de comentar a intervenção. Será que é um puxar de orelhas ao Governo? Como assim, então logo com uma coisa que todos os partidos tinham aprovado. SuperSilva contra todos, é o nome deste filme. A estação está silly, o Algarve uma chatice.

quarta-feira, julho 30, 2008

Com a ajuda de Brecht

Perante a ameaça do baronato ordenado, a Ministra começa a hesitar? Será mesmo que a imposição do fim da promiscuidade causará a terrífica debandada dos médicos? Que médicos irão embora? Os instalados no sistema, os que já hoje têm larga actividade na medicina privada. E que acontecerá aos hospitais se forem embora? Que redução de produtividade acontecerá se certos directores de Serviço que hoje não fazem urgências, nem consultas, nem MCDTs, nem cirurgias quiserem deixar o Serviço Público? Como irão sobreviver os doentes se eles deixarem de lhes fazer o que hoje já não fazem? Não, eles governam, dirigem! Ah, pois, e isso é assim tão complicado?
«Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?» (Brecht seguido de Brecht adaptado):

Quem constrói a Saúde nos hospitais e centros de saúde, o SNS?
Nos livros vem o nome dos Directores,
Mas foram eles que estiveram de Banco?

Se os médicos dos hospitais soubessem observar e fazer prescrições
E se soubessem distinguir uma constipação de um cancro
Não haveria necessidade de Directores de Serviço.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

terça-feira, julho 29, 2008

Mais e melhor Estado, precisa-se

Sabe bem em dois momentos do dia, sentir que o Governo está a cuidar bem do Estado (isto é, de nós).
1. Logo ao acordar, a notícia de que a Ministra Da Saúde tem vontade de profissionalizar os médicos do ServiçoNS. A medida é tardia, mas mais vale tarde do que nunca. O importante é não ficar pela análise do processo eternamente. Força, força, «companheira» Ana! Os doentes, certamente, vão gostar.
Não pude deixar de comentar a notícia: «O dinheiro dos nossos impostos deve ser bem gasto. É o mínimo, que se pode exigir a quem o administra. Os Hospitais são hoje grandes empresas, muito complexas de gerir. Para serem eficientes devem combater o desperdício e dar aos seus colaboradores condições de funcionamento de excelência e exigir-lhes dedicação e empenho. Consequentemente, devem remunerá-los de forma adequada. Os Hospitais estão hoje colocados em concorrência com empresas privadas do mesmo sector. Deixou, pois, de fazer sentido que os seus funcionários trabalhem neles e para a concorrência, em nítido conflito de interesses. Não se pode jogar pelo Benfica e pelo Sporting na mesma época...
Ninguém faz fretes a ninguém e será bom perceber se é o ServiçoNS que ganha com a colaboração que lhe prestam os médicos que têm actividade privada ou se serão estes que beneficiam com a promiscuidade de funções.
Vão-se alguns. Duvido que a Privada tenha mercado para o êxodo que alguns anunciam, porque os seus gestores não gostam de pagar pelo emprego, mas pelo trabalho efectuado. Espera-se que os gestores do público tenham condições para, podendo abdicar da necessidade do lucro, criar um serviço competitivo e mais barato.

2. À tarde fui às Finanças esclarecer as divergências da declaração do IRS. Primeiro saúda-se o facto de haver meios de detectar uma divergência de 400€, o que mostra que a máquina funciona. Já não apreciei tanto, ter de esperar cerca de 2 horas para ser atendido. O que se passou? Declarei que tinha pago à Companhia Ocidental cerca de 400€ de seguros de acidentes. Pelos vistos, a seguradora do grupo Millennium não declarou ter recebido, daí a divergência. Estranho ter sido eu a ter que provar que paguei e não a dita companhia a ter que provar que não recebeu. Afinal, quem «fugiu ao fisco» foi o Millennium, quem perdeu tempo fui eu. Espero que tenha valido a pena e que do esclarecimento do incidente se perceba o erro (erros?) da Ocidental. Volta a provar-se a necessidade de averiguar a origem dos rendimentos máximos nacionais.

segunda-feira, julho 28, 2008

Em resposta ao leitor(a)

Sempre achei fácil, demasiado fácil, criticar a ruindade dos deserdados. Sempre achei simples, demasiado simples, condenar aqueles que são primeiro excluídos de comer o bolo dos ricos e depois convidados a limpar-lhes a mesa. Sempre achei cómodo, demasiado cómodo, dividir os seres entre os que trabalham no duro e os preguiçosos, os sacanas.
A análise sociológico assim feita, parece-me sempre demasiado fácil, simples e cómoda. Alivia as consciências no momento, mas será que é exacta?
Teremos, ao nascer, as mesmas oportunidades, exactamente as mesmas? Dividimos-nos em bons e maus? Porque serão uns trabalhadores e outros indigentes? Poderemos exigir comportamentos idênticos, para realidades diferentes? O mais fácil será sempre impôr a lei do mais forte e subjugar os fracos ao poder. É o mais fácil, simples e cómodo.
A integração consentida para o ser tem custos: é difícil, complicada e incómoda. Duvido que seja razoável abdicar do caminho árduo e reduzir tudo à facilidade do poder.
Também me choca que pessoas não paguem 3 euros de renda de casa e depois tenham os luxos da sociedade de consumo. Mas alguém beneficia com esse consumo, talvez mais do que os consumistas... É preciso elevar a discussão a esse nível, investigar a fundo os rendimentos máximos nacionais e até mais, os internacionais. Depois disso, haverá soluções simples e fáceis, para as injustiças dos injustiçados. Pensando bem só no fim de todos nós, pobres e ricos, brancos, pretos e ciganos, somos iguais. Todos acabamos por morrer de formas muito idênticas, a diferença está nos escassos anos que percorremos até lá. Valerá a pena lutar para impôr tantas diferenças, tamanhas diferenças, cada vez maiores, nesse tempo (70-80 anos)?

domingo, julho 27, 2008

Obviamente, PP

É curioso como quem tanto gostava de os visitar nas feiras, agora anda nisto.
Bem mais interesse tenho eu em que fossem investigados os rendimentos máximos, a forma como são conseguidos. Até para aprendermos alguma coisa. Se calhar, depois disso, até poderíamos acabar com os rendimentos mínimos... Talvez aguçasse a nossa imaginação.

Distração fatal


Várias vezes no passado aqui mostrei alguma admiração por eles. Eles não abandonam familiares nos hospitais, têm um sentido de família interessante, no mínimo. São diferentes, têm valores diversos dos que a manada a que pertencemos professa. Mas as minorias são, às vezes, mais bem esclarecidas do que certas maiorias distraídas. As maiorias que passam ao lado de dois cadáveres de miúdos MORTOS na praia e mantêm indiferentes os seus banhos de sol, nos seus valores maiores do bronzeamento. Chegados a este ponto, onde podemos jogar raquetes e apanhar banhos de sol lado a lado com cadáveres, parece que alguma coisa deve ser feita. É que primeiro serão os ciganos e apanharemos sol, depois serão os africanos e continuaremos a bronzear mais a pele, depois os de todos os credos e ainda não teremnos atingido o bronze de revista de coração, depois serão os trabalhadores dispensáveis e continuaremos refastelados a pôr o bronzeador, depois os jovens sem emprego e ainda não chegámos lá, depois seremos nós, se calhar, e perceberemos que ainda não tínhamos dito nada, envolvidos que estávamos no nosso desejo fútil de um tom de pele que fará a inveja dos nossos amigos. Distraídos do importante.

sexta-feira, julho 25, 2008

Randy's lecture

Randy partiu. Mas às vezes há lições de vida, que só a iminência da morte permite desfrutar. Randy deu-nos uma lição. Falou-nos do que é realmente importante.

quinta-feira, julho 24, 2008

Deitem o muro abaixo

É o tempo dele e da América se aproximarem da Europa. Os muros que ainda nos separam são os do Estado social não tanto os das diferenças de religião ou de côr da pele. É o tempo de perceberem que a Santa Economia neoliberal não é a solução e de criar uma nova, que garanta segurança e estabilidade à vida dos povos, que mostre que o progresso desejado vai muito além do massacre anunciado pelos ditos mais capazes. Este tempo que é nosso é para se realizar em conjunto, sem dispensar negros, nem brancos, nem judeus, nem cristão ou muçulmanos, mas sobretudo para integrar aqueles que a selvajaria neoliberal tem vindo a trucidar de forma igual independentemente da sua cor ou religião. Nesta via nova, não há lugar para os dispensáveis, que hoje vemos acumulados pelas largas avenidas das cidades americanas, vagueando em busca de nada, depois de lhes terem retirado tudo, até a esperança. É tempo de terem Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social, de terem Estado e não apenas Segurança Policial. Este é o tempo da Europa melhorar, mas sobretudo dos Estados Unidos aprenderem o caminho da Solidariedade. É o tempo do muro que separa o indivíduo do colectivo começar a cair. Esse é o caminho que a América do Norte tem que aprender para poder ser mais grande coma Europa.

quarta-feira, julho 23, 2008

Liderança

A tranquilidade a todo o custo é possível? Basta ver os pântanos em dias de calmaria. Nada mexe, a montanha reflecte-se na água. Que beleza! Mas fique-se muito tempo assim e logo surge uma poeirada ofuscante do brilho das águas. Para além do cheiro a podre que começa a surgir logo a seguir. Por muito parados que fiquemos, algo acaba por mexer e estraga a paz podre. A certa altura a pedrada no charco torna-se imperiosa.
Também nas organizações há líderes que, cheios de boas intenções, se iludem com o governo por consenso. Mas a paz eterna não existe e, a certa altura, as contradições afloram e desafiam a tomada de opções. Na verdade, se o consenso fosse permanente nem seriam necessários os líderes, as organizações caminhavam sozinhas. Se quem lidera o fizer para induzir a transformação evolutiva, desiluda-se que não será possível ficar sentado à espera dos acordos permanentes. A liderança não é rolha a andar por aí, é navio com destino, para onde sobem alguns que embarcam na viagem e têm de ser lançados borda fora os sabotadores da rota definida. Nunca é um processo tranquilo, porque, bons como somos, muito gostaríamos de fazer a viagem com todos os embarcados. Mas também a vida é isso mesmo, uma sucessão de opções, onde sempre se perdem umas quantas oportunidades, para se garantirem outras julgadas melhores.

terça-feira, julho 22, 2008

A pátria é uma má desculpa

A pátria é uma desculpa bem pequena. Mas é preciso que a exaltação atinja o absurdo para que o consenso surja. Então tudo se percebe melhor. Fica mais claro que não faz sentido ser-se grande no pequeno mundo e duvida-se até do sentido que fará ser-se grande no mundo grande. Necessidade estranha essa de sentir grande o que se sabe ser pequeno. Para que raio iludir os sentidos, quando sentido faz que se coopere sem domínios para se conseguir a sobrevivência. As pátrias nasceram das pequenas geografias num tempo em que a distância tolhia os movimentos. Esse tempo é do passado. Mas temos ainda no presente as barreiras dos hábitos criados entretanto e, não tendo tempo para perceber como fizemos religiões, credos, propriedades e outras separações, permanecemos agarrados às absurdas concepções que nos entranha a cultura dominante. Somos ilusoriamente todos de um grupo especial, quando, na verdade mais que ser, vamos por aqui estando uns poucos anos, que apenas fazem sentido se partilhados uns com todos no desbravar do que se não conhece. Sou mais dessa Pátria de cooperantes onde não há raças, nem religiões, nem barreiras que só interessam, realmente, aos dominantes. Nesta confusão em que se anda talvez se gere a ameaça global, que obrigue a novos rumos e não faça confusão, a ninguém mais, ser-se cigano ou preto a viver no mesmo bairro.

domingo, julho 20, 2008

Politicamente incorrecto

Não deixa de ser estranho que sejam as desigualdades de pequenas minorias que sejam a notícia. Como se não houvesse desigualdades bem mais gritantes afectando muitos mais. A cada classe as suas preocupações e a luta de classes, por muito que decretem a sua morte, continua viva.

A vista

Ali do cimo, por baixo da velha pereira, há um mundo novo para ver. Há uma urgência de um banco na tarde quente, na espera do tempo a escorrer, como só ali pode acontecer. A companhia de um livro ou Beethoven, talvez a 6ª sinfonia, ou simplesmente à conversa na construção da meia vida que falta (disseste-me «só passaram quase 30 anos»), afastando para longe o momento em que se vai escorregar banco abaixo e se fica calmamente até ao sobressalto de um qualquer pastor.
O resto é paisagem.

sexta-feira, julho 18, 2008

Dores da vida

Diversos são os mundos onde estamos. Que mundo é esse onde se está e para onde se não quer ir preferindo ficar no hospital? Inventando dores, numa tentativa quase desesperada de manter a cama, o jantar mal gostoso, o convívio de um velho que grita a noite toda.
Vai ter alta, apesar de tudo. E provavelmente deixará de administrar a insulina, para voltar em cetoacidose daqui a dias. Tem sido assim, durante meses para irritação de alguns, que habitam outros mundos.

terça-feira, julho 15, 2008

Nevoeiros

Ao mesmo tempo, por estes dias, no ambiente do mundo, há uma nova esperança no Médio Oriente de inspiração francesa. É cómodo sentir que na Europa há a França e não só o Reino Unido ou a Itália ou a Alemanha. Ainda há um resto genético de uma Revolução e de um Maio capaz de inovar sem seguir a condenação do tem de ser, ainda há um espaço para a Carla, sem o receio do protocolo. Ainda há esperança.
Por estes dias, espremem-se os Tesouros na ilusão de salvar as bolhas, numa fuga em frente, mas a borboleta bateu as asas e as cotações afundam-se. Já não há mais ninguém para entrar no jogo, ter-se-ão esgotado os recursos? Cai o preço do barril do petróleo, mas ninguém já acredita, que isso não seja apenas mais uma oportunidade de investimento a muito curto-prazo. Há um naufrágio anunciado e começam a seleccionar-se os que cabem nos salva-vidas.
E se, de repente, o absurdo do irreal, entretanto percebido, nos fizer erguer barreiras e voltarmos a ser aldeias pequeninas, onde as regras da aldeia grande já não funcionam? Será então o momento de reapreciarmos as necessidades e surpreender-mo-nos com as poucas coisas de que realmente precisamos. Descobriremos, então, talvez, que no tempo em que tudo se tinha, só nos faltava o mais importante.

segunda-feira, julho 14, 2008

Vazio

O vazio, como o deste espaço em branco. De onde vem o que lá pomos? Que estranho mundo emaranhado de sinapses é esse que funciona alinhando a linguagem, permitindo o discurso com sentido. Lá se fabricam as visões, os olhares de futuro que nos vão mudando as coisas secundárias, aquelas que muitas vezes julgamos serem as únicas existentes, mas que nada são, quando as comparamos com o resultado que fica depois de um qualquer acidente que nos baralha os circuitos, fazendo os fluxos andar em círculos de pouca coisa ou mesmo nada. De um instante a outro fica-se dócil, patético, perde-se o rumo do que, efectivamente, somos. Que sentimento de ser será o que resta nesse instante? Haverá lugar para a dúvida, para o medo, de que incertezas será feito esse estado?
Quem assiste, na comodidade da manutenção dos circuitos, leva um murro no estômago como nunca sentiu antes.

sábado, julho 12, 2008

Instante breve

Não há silêncio nem momentos de paz. Torna-se imperioso encher o vazio de sons. Todos numa azáfama de oferta, perpetuam um ruído afirmador de vida. Aproveitando os instantes de forma mais sábia que na ausência dos dias passados. A vida fica em registo contínuo com todos os segundos aproveitados. É a celebração da vida. Tantas vezes passamos sem a ver, consumidos na rotina de forma a não percebemos a maravilha que é e é, na iminência do seu esgostamento, que a vamos redescobrir na ansiedade que se não escoe por entre os dedos. E há sempre uma esperança a alimentar-nos para além das estatísticas. Procuramos sempre encontrar os outliers. Porque eles até existem e a sua ideia reconforta permitindo-nos sair da matemática fatal e entrar no sonho. É «pelo sonho que vamos».

sexta-feira, julho 11, 2008

Os tico-ticos

Ninguém diz que o rei vai nu. Nã sei se é cegueira, se esperança que os outros não reparem. De qualquer das maneiras, o rei vai nu!
Comparados com o funcionamento da Ordem, a execução dos ex-burocratas do Leste seria supereficiente. Os papéis andam de secção em secção, de parecer em aparecer, até algumas vezes desaparecerem.
Há também o papel de agente regulador e aí a coisa torna-se ainda mais curiosa. Num mundo pequeno como este, regula-se sem normas de regulação muito precisas de forma a tudo ser possível ao arbítrio de quem resolve. E mesmo quando alguma norma é bem explícita, se não der jeito logo se procura dar-lhe a volta, com boa vontade, usando a lógica de que a norma não se pode aplicar naquele caso concreto e lá vamos procurar a forma de a contornar.
Para alguns há uma obsessão de fazer de conta, de mostrar um resultado, sempre conveniente, claro! São os tico-ticos, como diria o Professor Pardal.