sábado, maio 01, 2004

Estive fora, mas li e chateei-me

Para os novos ricos da democracia, gostava de lembrar que naquele tempo nem tudo era desaproveitável. O Totas era o reitor do Camões, uma figura sinistra meio padre, meio pide. Mas teria sido boa escola para alguns ministros do estado a que isto chegou. O Totas era implacável. Quem mascasse pastilha elástica na aula era posto na rua. Bons exemplos que se perderam.
Além de intriga mal educada, que produziu até hoje tal personagem? Que dívida terá o país a pagar a gentinha desta?

Foi diferente nessa altura

Foi há 30 anos. O primeiro dos Primeiros de Maio. As ruas de Lisboa alagadas de gente renascida. O povo unido jamais será vencido! A pele arerpia-se ainda hoje, quando a memória reaparece. Naquele tempo havia uma fúria de vida. Não, não era evolução que queríamos naquele dia. Era um grito que exigia mais. O grito do fim do medo. Era a certeza de que unidos venceríamos. Mas a evolução nos dividiu. O meu Primeiro de Maio foi este ano em Itália há uns dias atrás.

sexta-feira, abril 30, 2004

Impressões na sede do ex-Império

23-4-04
Janto no Transatlântico a pensar noutro jantar em que me apetecia estar, lá junto ao Atlântico e em boa companhia.
A Itália do sul surge depois de algum atraso por tempestade na chegada a Munique. Cheguei a um estado em que andar às voltas no ar não me preocupa minimamente. Tudo vai correr bem como sempre.
Por que será, então, que me preocupa manter esta economia do olhar e evito o esbanjamento consumista das palavras? É muito melhor olhar o sol a pôr-se vermelho por cima da asa do avião e a recortar de vermelho os contornos das nuvens do que participar na conversa estafada da comida de companhias aéreas ou das últimas compras de limoncello. Mas, de qualquer modo, às vezes até apetecia ser diferente. Refugio-me no La Republica, onde fico a saber que em Itália, tortura é só da segunda vez. Agora, a polícia pode usar meios menos convencionais com alguém, porque por uma lei deste governo, tortura implica a ideia de repetição. À primeira vale tudo! Estes italianos são loucos!
Mas os médicos vão manifestar-se na rua, amanhã, pela defesa do Serviço Nacional de Saúde.
Tinha uma vaga ideia de Sorrento. As casas penduradas escarpa. Desta vez posso ver o mar aqui por baixo da janela do quarto. É noite e o Vesúvio dorme sossegado do outro lado da baía.

24-4-04
Herculano fica a cerca de uma hora de comboio de Sorrento. Na fila para o bilhete de comboio, uma americano exige o money back, porque o autocarro não chega há uma hora. Os comboios pinchados e com ar suburbano, de outros tempos, funcionam a horas (melhor, aos minutos). Têm excesso de música ambiente, de crianças a tocar acordeão e outros saxofones bufados por alguns com ar de desemprego que não promete terminar aos cinquentas anos. Nos placards de rua, Berlusconi, lembra-me Santana Lopes, anunciando a obra feita. Cada vez mais me parece que devia ser vedado aos políticos comprarem espaço com o dinheiro dos impostos para propagandearem a sua acção. É um insulto à inteligência.
As ruínas da cidade, menos imponentes, mais limitadas que as de Pompeia, são ainda assim, curiosas. Mais não seja pela novidade de as casas chegarem a ter 3 pisos. A visita é rápida pela necessidade do trabalho que espera.
Sente-se a pobreza destes sítios. Nos olhos dos miúdos, na forma de vestir a lembrar-me a minha terra alguns vinte anos antes. E a desordem urbanística total e o trânsito caótico com sinais luminosos possivelmente para colorirem as cidades. Só para isso, que, por aqui, ninguém os vê. Estou snob de civilização.
Mas gosto de ver toda esta roupa estendida nas varandas, a apanhar sol. Um hino do sul onde a roupa vai respirar depois de dormir.

25-4-04
Desencantam-me estas companhias que passam por este dia, meio envergonhados com a lembrança, como se nada tivesse acontecido. É bom lembrar, ainda que sozinho.
Há 30 anos era dia de ir ver a nota de Anatomia Topográfica. Era, mas não foi. Foi dia de estar de orelha no rádio e depois na televisão espreitando a vida que começava a acontecer lá fora. Já perto da noite, foi quando comecei a ir à rua comprar jornais e o República anunciava que não estava censurado. Havia caras novas nas pessoas da rua ou era a minha forma de as ver. Alguma descontracção de irreversibilidade depois de, ainda a meio da tarde, uns rumores terem falado de GNR a resistir. Mas foi irreversível, apesar de à noite, uns quantos generais terem aparecido a prometer Evolução. Tiveram apenas uma vitória transitória como são todas as que contrariam o sentido da história (mas houve uma que durou mil anos!). Há pois que ter cuidado, que eles continuam a andar por aí e até já fazem que alguns se envergonhem da lembrança.
A tarde serve para uma redescoberta de Positano com tempo para fotografias antes de mais uma cerimónia gastronómica. Cansativos estes dias de conversas ocas.

26-4-04
Há dias assim, predestinados para uma coisa e sai tudo diferente. De manhã, espreitando pela janela, o mar lembrava-me Peniche e a travessia para as Berlengas. Não, não me pareceu boa ideia ir a Capri. O Vesúvio, ali do outro lado, pareceu-me mais sensato.
No meu comboio já familiar até Herculano. Lá, logo à saída da estação, tive de esperar quase uma hora pelo Blue Bus, que trepa pelo monte, numa estrada alpina, em esforço na subida. Nas margens da estrada, a terra é pedra pomes cheia de vegetação, duma verdura reconfortante depois do fogo. O Blue Bus tem uma primeira paragem onde nos entra pela porta um simpático velhote de 70s, que num inglês perfeito, pergunta se alguém fala italiano. Não, ninguém, mas todos estávamos prontos para o ouvir em inglês. E conta-nos a história dele, do guarda do Vesúvio. Andrea De Gregorio viu o vulcão explodir em 1944, ainda jovem. Depois, em 1952, foi destacado para lá e isso permitiu-lhe fugir à fome que diz imperava por estas bandas. Criou uma loja de vendas de recordações e ali ficou a receber turistas de todo o lado, entrando pelos autocarros. Mostra-nos o local onde existiu o funicular que fez existir a Funiculi funicola, a canção popular napolitana, e depois o teleférico, acabado quando um raio o partiu. Pensou-se na reedificação o teleférico, mas foi então que uns tipos do greenpeace acharam que o impacte ambiental era excessivamente negativo. Por isso, actualmente algumas centenas de autocarros vão para cima e para baixo a bem do ambiente. E nós, pobres curiosos, depois de o autocarro subir mais um pouco, contornando um rio de lava até chegar ao parque final ladeado de bares e tendas das vendas habituais nestes casos, temos de trepar durante um quarto de hora um caminho com 14% de inclinação para chegarmos à beira da cratera e ver uns fumitos do bicho que dorme 8 quilómetros por baixo, perturbando o sono de algumas centenas de milhar de habitantes lá em baixo, nas margens do golfo de Nápoles que se avista daqui de forma única. Mas Andrea, que vive ali há 52 anos, garante que o Vesúvio está tranquilo, ele que já o viu zangado. Tem um ar tranquilo, este Andrea. Mas gostava que o teleférico viesse.
Depois é a descida até ao parque de estacionamento, onde, incautamente, o alívio da bexiga distendida custa nos WC pré-fabricados de plástico a módica quantia de 1€. Mais vale, por esse preço, descer mais um pouco até ao bar, beber um café e ir tranquilamente à casa de banho... antes de tomar o Blue que vai serpentear encosta abaixo fazendo as curvas todas na contra-mão, em tangentes aos pares com que se cruza, obrigando ao recuo dos carros pequenos que sobem. Um verdadeiro festival de condução napolitana.
Quando chego ao Hotel, fico contente por hoje não haver jantar programado. Apetece-me ficar aqui na varanda, ao pôr do sol, a olhar o Vesúvio que se vai apagando lentamente até amanhã. Um barco de cruzeiro apita na partida, estragando o instante. O mar está calmo, para me levar amanhã até Capri?

27-4-04
Acabou a reunião, duas horas antes para mim para estar a tempo no jetboat que me levou a Capri neste dia quase de Verão. A viagem neste barco dura 20 minutos durante os quais a península de Sorrento vai desaparecendo à esquerda e surge em frente Capri como um tricórnio. Deste lado da ilha, a paisagem não impressiona, são simplesmente casas brancas, banais dispostas pela encosta acima. Antes de sair do porto sou vítima de publicidade enganosa: Visite a gruta azul 8€. Na bilheteira, um aviso breve de que não inclui o barco a remos para ir à gruta. Isto é, não se trata de visita à gruta, mas da viagem até ao barco a remos que vai à gruta. A viagem faz-se ao longo da parede da ilha e à chegada uma multidão de barcos destes, aguardam a abordagem de pequenos barcos a remos para onde saltamos e vamos de cú no chão por motivos que daí a pouco iremos perceber. Com sorte fiquei na proa, sozinho. O par da popa teve prémio de uma americana jovem para aí com uns 120 kg... It’s cold in Ontario! Já no barquito a remos lá nos leva o barqueiro até outro barco maior, onde somos abordados para comprar o bilhete de ingresso (4€) e os serviços do barqueiro (4,3€). Achei piada que ele ainda se fez ao troco! Pois então são 8,3€ para entrar num buraco, onde subitamente ficamos às escuras até que as pupilas se adaptem e comecemos a ver a água de cor azul turquesa. Depois, em não mais de dois minutos, damos uma volta para nos dizerem que o Tibério ia ali tomar banho e ainda temos tempo de ver que a reflexão da luz na parede branca da gruta a pinta de azul num breve instante antes de sairmos. Na pior das hipóteses este barqueiro ganharia 100€/hora, muito acima de um especialista hospitalar em tempo completo prolongado. Claro, que quem ganha é o dono do barco (essa é ainda uma hipótese pior). Isto durará há muito tempo? Não sei, mas para os que lerem e para mim (si retornare a Capri) gruta azul nunca mais! Regressemos à Marina Grande para ir ver Capri.
Foi bom comer tostone, uma tosta mista com mozarella e tomate, no Caffe Caso na Praça Umberto I, uma das esplanadas francesas que ocupam a praça toda deixando um corredor ao meio para os turistas chocarem uns com os outros. Combustível suficiente para dar um passeio primeiro por uma viela desabitada, à direita de quem entra na praça vindo do elevador, onde os gatos comem restos de comida de turista (cuidado bichos que ficam gordos). Arcos e portas de madeira, mas sempre a descer a convidar ao regresso à praça, que nunca se sabe até onde se desce...
Da próxima desci pela ruela da esquina da praça e fui-me deixando andar. Um mundo diferente, cheio de turistas, barulho e hotéis, que são anunciados pelos guias como custando a noite 350€. Isto agora é moda por aqui, já há dias tinha ouvido outra falar com admiração destes preços. Já fizeram as contas a cada minuto de sono? Nem pensar dormir, companhia obrigatória. Já tinha visto numa imobiliária que alugavam casas em Agosto por 30000€ por semana.
Deixei-me ir em direcção aos Farilhões, uns pedregulhos espetados no mar como os das Berlengas. Junto deles um hotel onde Churchill e Eisenhower definiram os destinos do mundo. Ao menos tinham bom gosto estes tipos, não iam para uma base aérea metida no meio do Atlântico. E fumavam puros, eram gordos e pensavam. Os tempos têm recuos de vez em quando. E volto à praça de onde partem todos os caminhos. Agora em direcção ao Arco Natural (saída por um arco no meio de um prédio amarelo). É só seguir as setas, mas o caminho a certa altura parecia não terminar. Mas lá cheguei após novo susto de escadarias no fim do percurso sempre a descer, e muito!, e com ritorno pelo mesmo caminho. É um recanto repousante para depois da caminhada, com visão do verde do mar lá no fundo. A correr que o barco de volta é às 4.20. Cheguei a tempo com descida pelo descedor, que já não houve tempo para voltar a pé pela estrada ou por outro lado qualquer. Anacapri fica no segredo dos deuses ou das sereias. Que a guardem.


28-4-04
Era para ser um dia de viagem sem história.
Pela janela espreitei, recostado na cama do quarto, pela última vez, o Vesúvio a despedir-me dele e deixei-me ficar ali sossegado, enquanto o mar da baía mais parecia um lago por baixo da porta da janela. Acordei com sabor a domingo.
Chegados ao aeroporto, foi a festa. As imagens de Abril nas bandeiras vermelhas da CGIL e de outros sindicatos, os locais de check-in todos ocupados. Não há check-in, ninguém voa em Itália hoje, que os sindicatos desencadearam uma greve sem aviso. Os olhares da esperança e do saber da força descoberta. Sem eles, o mundo pára se for preciso. É isso que gritam os apitos, num coro de cigarras ensurdecedor sempre que alguém dá alguma informação nos altifalantes do aeroporto. A polícia de choque ainda chegou a aparecer, mas foi-se embora. Pelas 6 da tarde, a luta acabava por hoje. Amanhã irá continuar. Amanhã e sempre que eles quiserem. Tudo termina com um comunicado à população lido pelos grevistas. Será esta a via correcta, a das greves politicamente incorrectas?
A solução foi a deslocação do grupo para o aeroporto de Bolonha de onde, em princípio, partiremos amanhã. Uma viagem de autocarro pela Itália, por esta terra que também já foi Império. Pela auto-estrada fora, senti-me como se estivesse a passear nos States e, por momentos, imaginei que será assim que um dia se passeará nos EUA: com o sentimento de que aquela terra também foi, há muitos anos, sede de Império. Os Impérios acabam sempre. Com esta tranquilidade cheguei a Florença para uma noite de recurso no Villa Medici. 650€ por noite! Estes italianos estão loucos! E já não são só eles, pelos vistos.

29-4-04
Por Madrid até ao sossego de Lisboa. O retorno às imagens de que gosto ou a substância da saudade.


sexta-feira, abril 23, 2004

Intervalo

Intervalo por uns dias, com 25 de Abril pelo meio. A menos que, os hotéis da Europa tenham já dado o salto para a Internet por cabo.
Saiam à rua pelo 25 de Abril, sempre. Há um R necessário na evolução.

quarta-feira, abril 21, 2004

A banda maaazca

A obesidade é um drama de terras onde os dramas maiores da fome não existem. Pessoas bem adaptadas geneticamente para a privação, são actualmente confrontadas com a abundância e grandes poupadores que eram, aforram e distendem o seu capital de adipocitos. Sem perceberem, pondo ar de vítimas. São vítimas de quase tudo. Dos comprimidos, da água, dos nervos, das glândulas. Quase tudo, porque da comida que comem não são vítimas. Na verdade, não é a comida que nos engorda. Aliás, nem se percebe como comendo tão pouco, se aumenta assim de peso. Pois é, são apenas vítimas da genética e da alimentação idiota que existe a cada esquina.
Mas não se identificando o inimigo, o combate torna-se mais complicado, mesmo sem solução. Na verdade, as glândulas funcionam bem (por que raio continuarão a ir aos endocrinoilogistas?), a água não tem calorias, os comprimidos também não e os nervos coitados deles. Engordam só porque ingerem mais energia do que a que gastam. Ponto final! De maneira que a única solução é modificarem-se os hábitos depois de se identificarem os erros.
Mas não, ouvi falar na televisão de uma coisa, uma banda maaazca (mágica) que as pessoas põem e depois ficam magrinhas. Era isso que queria que o senhor doutor me pusesse. Para eu emagrecer e deixar de ter dores nas costas e melhorar da tensão e da diabetes. Ai se eu soubesse pôr bandas maazcas! Diga-me lá, minha senhora, como é que acha que a banda gástrica faz perder peso? Os olhos ficaram incrédulos, sem perceberem bem a pergunta. Será que eu não sabia o que é a maaazca (magia)? Então eu explico, essa magia é deixar de poder comer nas quantidades que fazem engordar, é ter um tirocínio de vómitos mais ou menos longo sempre que se tenta comer mais, é sensivelmente o que se propõe com uma dieta com baixas calorias. No fundo, nem difere muito de cirurgias ao estômago que se faziam sem propaganda televisiva. O grande avanço que justifica tais notícias é que o empecilho ao apetite agora é fabricado industrialmente e há uma pressão de vendas importante. E mais não digo, que não sou mágico (maaazco).

Notícias da TSF nesta tarde de chuviscos

Quando ouço perguntar, quais acha que podem ser as consequências das detenções do futebol para o país quando o Euro é dentro de 2 meses?, fico com a impressão estranha de se a pergunta não será, não acha que se devia ter adiado esta cena mais uns tempos?. Parece-me haver alguma tristeza nestes perguntadores. Mais uma vez parece que a táctica deve prevalecer sobre os princípios e aquela expressão, doa a quem doer, cai por terra. Tudo se submete a interesses circunstanciais, isto é a imagens que devem ser defendidas contra o que tiver de ser. Saber viver, assim chamado.
E fiquei a saber que à porta do Tribunal se distribuíam bonés de apoio ao Major (fraca carreira militar esta, major na sua idade não é muito...) e que o povo enfiava o boné e gritava, Major amigo, o povo está contigo. São imagens deste país e deste povo (exacto, tudo com minúsculas, exepto o Major, claro!)

segunda-feira, abril 19, 2004

Notícias a que temos direito

O título é Ministro nega epidemia. Assim lido fico sem saber se alguém a afirma. Na verdade, só faz sentido negarmos alguma coisa que outros afirmaram ou então estamos a falar de não-realidades. Ora se são não-realidades, não devem ou não deveriam ser notícias. E tudo isto parece que começou por ser uma notícia de um telejornal. Não fosse isso e seria como todos os anos tem sido. Mas é assim, não havendo notícias, haja desejos de notícia, suspeitas de notícias, qualquer coisa. Tudo menos mostrar-se a realidade, essa é demasiado chata e não é para nos chatear que existe a Informação. A função da informação pode muito bem ser fazer-nos sonhar, mais do que mostrar-nos a vida. Chomsky falaria em doutrinação, talvez.
E já agora se o Ministro diz que não há epidemia, é caso para ficarmos de pé atrás, que estes políticos, a gente já sabe como são... Daí o título da notícia nada tranquilizante.

domingo, abril 18, 2004

Fim de tarde na TVI

Foi divertido hoje ir à missa de domingo à tarde na TVI. O Bispo Marcelo, inspirado como sempre, mostrou como Bush e DB são inteligentes, o ministro da administração interna ingénua e os líderes de esquerda incompetentes. E nós seguimos em paz e que o senhor nos acompanhe. Ri-me um bom bocado. Recomendo.
Esteve razoável sobre o adenovírus. Afinal, o tal bicho já nos tinha visitado noutros anos, só que agora estamos mais despertos para o problema. Depois a tranquilização de que o problema não é motivo para alarme. Vindo dele o país vai passar a dormir tranquilo, já que a mesma afirmação feita reiteradamente pela Direcção Geral de Saúde é sempre suspeita. Este é o país onde o parecer técnico é sempre subjugado pela pergunta de um jornalista ignorante. A técnica é nunca esclarecer as dúvidas questionando técnicos, por exemplo, nas Universidades. Mais vale a opinião do primeiro transeunte que cai à frente do microfone de um jornalista inquieto.
E depois, nem sei a que propósito, aquela nota de rodapé a chamar a atenção para a ponte sob o Guadina. É o preço das políticas de baixos custos com pessoal. Em vez de pontes, temos túneis (informação subterrânea).

sábado, abril 17, 2004

Mais estupidez

Assassinado mais um líder palestiniano. Mais umas centenas de milhares de mísseis e o problema do médio oriente fica resolvido, pensa Sharon.

sexta-feira, abril 16, 2004

Basta de estupidez!

Hoje comecei mal o dia. Na TSF dizia-se que o DB tinha criticado o Primeiro Ministro espanhol por este admitir retirar as tropas do Iraque. E fê-lo em termos perfeitamente lamentáveis agora que já nem é jovem militante do MRPP. O fulano teve uma recaída e insinuou que o motivo da retirada seria tentar-se ficar mais imune a um qualquer atentado terrorista e que essa retirada não tornava a Espanha mais segura do que nós estaríamos mantendo os nossos GNRs por lá.
A história é outra bem diferente. Primeiro, que se saiba Zapatero e o PSOE sempre se manifestaram contra a entrada da Espanha na guerra do Iraque. Segundo, apresentatram-se às eleições com a promessa de retiraraem se o quadro da invasão não fosse entretanto alterado. Terceiro, ainda parece haver na política pessoas que depois de prometerem nas campanhas eleitorais, uma vez eleitos, honram as promessas feitas. É que ao votarem como votaram, os espanhóis, também votaram na retirada. Da mesma forma que os portugueses terão votado com a ideia de que os impostos iriam baixar, as reformas iriam aumentar, por exemplo. Só que uns cumprem, outros não. O que faz perder a cabeça ao DB é que os argumentos que o fizeram optar pelo seguidismo em relação ao Império, vão caindo um depois do outro. As armas de destruição maciça continuam muito bem escondidas e o célebre argumento de que alinhávamos com os nossos aliados mais antigos e os nossos vizinhos também começa a desmoronar-se. Realmente, alinhámos porque não somos capazesde ter perante os americanos, outra posição que não seja aquela em que se perdem as guerras. Por isso não escolhemos a posição dos franceses e alemães. Há que procurar um alinhamento europeu, a América fica longe e esta então é uma miragem até Novembro...
Finalmente, o que não pode admitir-se a um PM é que admita que as opções de participar ou não numa guerra sejam determinadas pelo cálculo dos riscos. As guerras são justas ou não e quando são justas todos os riscos são toleráveis e aceitáveis. Quando não têm razão de ser (como a actual) persistir no erro é simplesmente estupidez. O problema não é errar, é não aprender com os erros. Ainde se lembrará disto, DB?
E não se pode admitir que a estupidez possa pôr em causa relações entre países, que terão de ser vistas sempre com o chamado sentido de Estado. Sinceramente, para estúpido já nos basta ter que aturar o Imperador!

quinta-feira, abril 15, 2004

Globalização do feudalismo

Terá sido Deus quem pôs os ricos e os pobres na Terra? E de quem era o planeta, antes de cá chegarmos? O problema é que naqueles tempos não havia Conservatória do registo de Propriedade. A história de tudo isto anda a ser muito mal contada e está muito longe de ter chegado ao fim. Arqueólogos, precisam-se! É gigantesco o trabalho a fazer. Não é fácil perceber este crescimento, sim, o crescimento do afastamento entre um grupo cada vez mais pequeno de senhores e um grupo cada vez maior de servos. Esta globalização do feudalismo.
Nem sei a que propósito vem isto, talvez dos romances ou da falta de notícias. Ou da paz. Da paz da lucidez em que algumas vezes mergulho; seguramente não seria da que o Bin Laden nos oferece...

quarta-feira, abril 14, 2004

Para além dos trópicos

Nestes dias os raptos no Iraque já são banais, as pneumonias por adenovírus triviais, os discursos do Imperador simplesmente iguais. Nada me surpreende. Melhor mesmo é não ouvir notícias, olhas só para elas, todos os dias marginais à rotina. Mesmo bom nestes dias assim a leitura de um romance. Equador, só ele me causa alguma surpresa.

terça-feira, abril 13, 2004

Mistérios da minha terra

Parece que em Junho vamos ter o Euro 2004. Para ajudar os portugueses a comprarem os bilhetes para o Euro, o Governo anuncia para essa altura um aumento da pensão mínima de 2%, isto é para 212,16€. Está certo, conferi, é mesmo assim com a vírgula colocada no sítio certo. E pensaríamos nós que esta fortuna é o que ganha uma minoria muito mínima dos portugueses. Santa ignorância! A coisa atinge mais de 2500000 portugueses. Portanto, o investimento de 4 € por cabeça em mês de eleições até é capaz de ser razoável. Bem hajam os nossos grandes governantes!
Parece pouco, mas quase dá para o leasing do Mercedes que inclui revisões e seguros (500€/mês) Oh pai, 500€ não é muito dinheiro, pois não? E eu que ainda não tinha entendido por que se estavam a vender tantos Mercedes...

segunda-feira, abril 12, 2004

Rebeldes ou patriotas?

No fim do fim de semana, ouço com espanto no noticiário que neste dia os rebeldes iraquianos tinham atingido um helicóptero americano em Bagdade. Não recuam nos adjectivos os jornalistas objectivos que temos. Rebeldes são os que contestam o invasor. Noutras circunstâncias seriam o quê, patriotas? Sim, uns tipos que defendem o país deles da presença de um invasor, o que são, rebeldes ou patriotas?
Nota, estes rebeldes não terão dantes apoiado o ditador e não têm em seu poder, que se saiba, armas de destruição maciça. São apenas rebeldes como todos os que não gostam de hambúrgueres e coca-cola. Just that!

Diferenças

Lembro-me, vagamente, de umas semanas santas com muito roxo em que o tempo ficava cinzento a condizer com uns discursos de padres tenebrosos, os padres e os discursos. Desta vez, o sol brilhou e o céu ficou azul e o tempo frio. Só eu me constipei. Mas os tempos estão mudados.

sexta-feira, abril 09, 2004

Santa sexta-feira

Rigorosamente, todos os anos à sexta-feira a prolongar o fim de semana para 3 dias. Valeu-lhe, com toda a justiça, o título de santa.

quinta-feira, abril 08, 2004

Erro genérico do jornalismo

No Hospital de Lagos, morreram duas pessoas jovens, aparentemente sem grande justificação. A Inspecção Geral de Saúde concluiu, erro humano. A Ordem dos Médicos, fala de genéricos.
Ainda continuo sem perceber para que serve a Ordem dos Médicos. Afinal, a humana que errou já está suspensa e os genéricos em causa continuam a usar-se aparentemente sem que grande mal venha ao mundo. Mas alguma coisa me faz adivinhar que é a suspensão que vai ser levantada e os genéricos que vão ser suspensos.
E que tal informarem-nos depois de se ter esclarecido tudo isto nos locais próprios. Ou será que o jornalismo tem por função primordial pressionar os investigadores e não tanto o objectivo de informar?

Desta já me safei ou os outros que se lixem!

Que bom que deve ser para as famílias dos militares que partiram agora para o Iraque verem estes que regressam, quase, unanimemente, dizerem, para o Iraque nunca mais! Será que pensavam que iam só buscar tapetes? Custa-me a aturar este tipo de coisas!
Ainda assim, prefiro a história da mãe americana que foi lá ao quartel levar bolinhos ao filhote...
Pessoas, umas mais outras menos, todas vítimas de uma guerra idiota.

É o desporto, estúpidos!

É bom que nos informem, que saibamos as causas das coisas. Assim, ficamos mais tranquilos, ainda que fiquemos exactamente a perceber o mesmo que tínhamos percebido antes de sermos informados. A tranquilidade que dá saber que o Feher morreu porque tinha hipertrofia moderada do coração! Finalmente, vamos dormir mais tranquilos, pensando que temos uma hipotrofia do coração porque não fazemos desporto. E ficamos tranquilos de coração pequenino. Afinal, o nosso coração destreinado, minúsculo até pode ser uma vantagem. De vez em quando vem dizer-nos que o exercício físico é saudável. Mas cuidado, aumenta-nos o coração! Certas notícias, por contraditórias, deixam-me inquieto. Mas é só aqueles que como eu, sabem que o exercício físico aumenta o tamanho do coração. Do coração e dos outros músculos todos. A única coisa saudável, é rir. Rir com o ar com que os nossos pivots televisivos nos anunciam, com o ar mais sério deste mundo, que a causa da morte do Feher foi a hipertrofia moderada do miocárdio. Sem apontarem o culpado, eles que tanto gostam de culpar alguma coisa: é o desporto, estúpidos!

quarta-feira, abril 07, 2004

Pequeno contributo para mais uma teoria da relatividade

Arrepíamo-nos com 200 mortos em Madrid ou 3000 em Nova Iorque. Os meios de informação falam à exaustão do problema, repetindo vezes sem conta as imagens para engrandecerem a tragédia. Curiosamente, até me parece, pelo que vejo, que os 200 de Madrid são mais que os 3000 de Nova Iorque. A dimensão do drama varia geometricamente na razão inversa da distância. Temos esta sábia capacidade de relativizar.
Só por isso, há dez anos, tolerámos sem uma intervenção civilizacional o drama do Ruanda. Bem por isso, porque a maior parte das pessoas pensa que o Ruanda é noutro planeta e porque os líderes da civilização tinham já concluído que naquele lugar os recursos naturais não justificariam os custos de uma intervenção...
Um milhão de mortos é como se morressemos todos sem excepção em Lisboa, não é? Todas as ruas cheias de cadáveres amontoados. Bom, aqui era pior, porque o branco da pele contrastaria mais com o alcatrão.

terça-feira, abril 06, 2004

Atenção miúdos!

Vá, para vocês todos, os miúdos que têm a paciência de virem aqui, façam o favor de ler e divulgar o blog deste link. Há lá histórias que vocês não sabem. Já agora os mais velhos recuem também 30 anos e se puderem acrescentem mais alguma coisa. Como se dizia (ainda se diz?): 25 de Abril sempre!

O Cunha

Posso escrever o nome. Cunha. O Cunha é um dos protótipos do doente bem sucedido que fica incomodado com os deveres que tem para o seu médico. Chega a horas à consulta. Cumpre a medicação. Só a dieta é que não. Não haverá comprimidos que ajudem? Não, Cunha, só a sua vontade o ajudará. Mas gosta de comer e de beber também. O Cunha trabalha, empreendedor vai aumentando os empregados, mas acha-os sócios. Quase chora se a recessão o obriga a mandar alguns embora. O Cunha deve odiar a esquerda. E reconheçamos, certa esquerda pode ser odiável. Aquela que não tem a generosidade do Cunha. Uma esquerda cheia de direitos, desumanizada. Há de tudo. O Cunha é um português de sucesso. Tudo sem recibos. Economia livre. O Cunha é alérgico aos impostos. Um papelinho chega. O Cunha gosta de oferecer borregos pela Páscoa e para isso lá vai a esposa dedicada, de casa em casa daqueles de quem o Cunha gosta, distribuir o rebanho. O Cunha está na oficina. Um ritual anual. O Cunha é assim empreendedor e generoso. Doutor, quando arranja um consultório? O Cunha acha que isto da medicina no hospital é um mal menor sem deixar de o ser. Um consultório nas avenidas é que era.

segunda-feira, abril 05, 2004

As árvores ficaram brancas

Subitamente percebi as obras do parque de estacionamento das traseiras do hospital e mais aquilo que para mim tinha sido um mistério nos dias anteriores. Por que raio teriam pintado de branco as bases das árvores até à altura de perto de 2 metros. O parque estava vazio, mostrando melhor as árvores com as bases brancas. Seguranças do hospital, polícias de trânsito e outros cavalheiros bem mais altos e de óculos escuros olhavam em volta e sugeriam a procura de outros locais para estacionar. Depois soube que o DB estava de visita ao hospital. A pintura das árvores seria para ver melhor sacos e mochilas? Deve ser tramado passar diariamente por isto e pensar em toda a tinta que se faz gastar.

Fim de tarde

A delícia do Big Sur à portuguesa. Perto do fim da tarde pela costa de Torres Vedras até Sintra, com passagem pela Ericeira e pelo miradouro de Ribeira d'Ilhas. Vale a pena experimentar.

sábado, abril 03, 2004

O poder do povo

No meio do zapping, passei pelo concurso onde a jovem se confrontava coma questão magna de saber « segundo a Constituição da República, quem era o dententor do poder político». Três hipóteses, o Presidente da República, o Povo ou o Primeiro Ministro? Tentou a exclusão de partes, o presidente não manda nada; o povo? claro que não; ok, por exclusão, o Primeiro Ministro. O apresentador lembra os seus conhecimentos de direito e afirma, entusiasmado, claro que é o Povo. Mais, havia uns oponentes na assistência. Fomos ver as respostas. Erraram todos. Moral da história: 1)ninguém lê a Constituição (excepto os que desistiram do curso de Direito) e 2)pelo menos não acreditamos nos poderes que temos. Têm a certeza que temos? Ou será só uma ilusão, angustiadamente, gritada como doutrina por apresentadores televisivos.

sexta-feira, abril 02, 2004

Continuemos...

Achei curioso como muitos bloquistas mentirosos ontem tiveram a mesma ideia de ameaçar terminar a blogosfera. Que pode isto significar? Algumas semelhanças dos que por aqui andam, algum sentimento de provocação. Gostamos possivelmente de tentar provocar e temos a ilusão de às vezes o conseguirmos. Haja tempo, não faltem os assuntos e cá irei continuar nos meus cinco minutos de edital quase diário.

quinta-feira, abril 01, 2004

Acabou

O início dos meses pode levar-nos para momentos de lucidez. Há uma série de meses aqui tenho vindo quase diariamente deixar umas linhas. Algumas almas pacientes têm-se dado ao cuidado de aqui virem ler e algumas até deixar um ou outro comentário. Só que já começo a estar farto e a perceber que esta manifestação narcísica tem de ter um fim. Foi hoje. Bem hajam todos!

quarta-feira, março 31, 2004

Cuidado não-cidadãos!

Já não se trata de votar em branco, mas de nos assumirmos como não cidadãos. Que se estará a passar numa sociedade em que este tipo de coisas é possível? E são precisamente os jovens, aqueles que mais interesse teórico teriam na melhoria da sociedade que assim procedem. Parece que nos transformamos em meros consumidores. Também dos actos dos políticos. Uma geração desengraçada conveceu os jovens que têm direito a tudo, que o esforço é um bem negativo, que o bem-estar um direito inalienável, que deve ser conseguido o máximo com o mínimo esforço. Isso é uma boa relação custo-benefício. Alienados, preparam-se para comer os restos. Mas ainda estão a tempo de perceber que ninguém dá nada a ninguém e que os que os convenceram dos direitos todos, são os mesmos que lhes tiram os contratos colectivos de trabalho e lhes impõem contratos individuais, que lhes tiram as garantias no emprego, na saúde, na educação, em resumo que lhes oferecem tudo para eles consumirem, ficando à espera de amealhar com o investimento deles. É urgente reflectir, não ir com as outras (da boa vida, por sinal, mas só delas). Não há almoços grátis, lembram-se? É altura de fazer uma sociedade de mais acção e menos reacção e para isso é fundamental que nos assumamos como cidadãos intervenientes.

terça-feira, março 30, 2004

Voto de cruz

Ontem foi uma noite diferente. Como antigamente, de ouvido na telefonia. Na TSF, a ouvir o debate sobre o livro do Saramago. A lucidez do voto em branco. Será o voto em branco uma forma de contestar o sistema? Dizer não consumo destes pratos que me apresentam, muito obrigado. Mas, será que devemos ser apenas consumidores, recusando eventualmente, o consumo, ou temos a obrigação de ser produtores, criando pratos alternativos? Até ver, penso que não nos podemos demitir de ser cidadãos; se não aceitamos o que nos dão, vamos criar diferente.

segunda-feira, março 29, 2004

Dois sobrinhos num país de tias (e tios)

Valeu a pena ir à Gulbenkian esta tarde ouvir o Professor Luís Sobrinho falar sobre hormonas, vida e doenças. Não porque tivesse dito alguma coisa de especialmente inovador. Mais pela forma simples de abordar coisas complicadas. A simplicidade fruto da reflexão sobre os temas. Depois de se pôr o ovo de pé, a coisa é simples. Difícil foi a reflexão que levou à hipótese. O génio é a criação da pergunta.
Lá mais para o Verão, teremos no ICE 2004, o outro Professor Sobrinho Simões. Das vezes que o ouvi, enconteri a mesma atitude de quem tem mais perguntas que respostas, dos que fazem as perguntas que se não forem feitas outros as farão. Pela simples razão de que as respostas eram necessárias. As publicações não são objectivos em si, acabam por ser a necessidade de dar a notícia aos outros de que se pode passar a outras perguntas, que estas que agora se publicam já tiveram resposta.
Curiosamente são os dois Sobrinhos. Raros (muito!) num país de muitas e muitos tios.

Mais uma

Ontem foi em Espanha, hoje em França e amanhã esperemos que noutros locais. Basta de liberalismo cego, procurem-se outros índices de crescimento. Decresça o desemprego, aumente o produto interno individual das pessoas. Cresçam as pessoas!

sábado, março 27, 2004

Aviso

Um acidente anunciado a tempo, pode muito bem evitar outro. Antes de sair para CREL a notícia estava naqueles placards sobre a A5. Dizia acidente na saída da CREL. Uns metros mais adiante, o BMW patinava, fazia um pião e parava encostado no rail. Provavelmente, teria ali havido antes o tal acidente, chovia e algum óleo deve ter ficado na estrada. Travei a tempo, porque mne tinham avisado.

quinta-feira, março 25, 2004

Vida(s)

A ciência de viver nem sempre é fácil de apreender. Algo em nós nos puxa para a acção pouco reflectida, um certo sentimento de manada. De tal forma que muitas vezes nem nos incomoda o pó que se levanta na correria em que estamos. Ficamos enebriados com a cegueira que o pó no ar nos causa. A toda a velocidade, percorremos caminhos e foi sem querer que o fizemos. A ciência de viver passa pela pausa da inacção. Pela reflexão. Há dias em que percebemos que cortar a relva do quintal dos nossos pais é bem mais importante do que brilhar diante de plateias mais ou menos invejosas e desejosas de espectáculo. A opção certa acaba por nos dar um instante de vida bem mais cheio e recordável. A vida tem muito de recordação. É também essa a atracção da fotografia. O que se vive a folhear os álbuns!

quarta-feira, março 24, 2004

Reincidência

A primeira vez foi a apropósito da manifestação pela Paz no sábado passado. O senhor acha que não pode haver manifestações perto de um tribunal ali para as bandas da CML. Pronto, SL, no próximo ano nada de meninos com bandeirinhas vermelhas e verdes no 5 de Outubro e atenção quando o Sporting ganhar o campeonato lá terá de os receber noutras bandas (Alcochete?).
Mas hoje o homem reincidiu. Não autorizou a manifestação estudantil. De onde terá vindo esta ave rara? Não eram os Governadores Civis que eram cargos a extinguir por este Governo?
O que vale é que ele estrebucha e as manifestações passam!
Mas, pelo sim pelo não, é bom estarmos vigilantes.

terça-feira, março 23, 2004

Morning post

O sol levanta-se em frente, do outro lado do Tejo e do cimento, enquanto, sentado neste banco da catedral gótica pós-moderna dos comboios, espero pelo Alfa, que chega rigorosamente para partir às 8.04. Estou na Europa. Hoje, pela primeira vez, reparo que os meus olhos passam por cima de todas as bagagens que, depositadas pelo chão, também esperam embarque. E sei, quase de certeza, que os aviões e os comboios devem ser actualmente os meios mais seguros de me transportar. Difícil é adivinhar como vai ser da próxima vez, porque a imaginação não tem limites.

segunda-feira, março 22, 2004

Simplicidade americana

Pois não, não se combate o terrorismo com o terrorismo. A ideia peregrina do Imperador de os ir caçar todos não vai, resultar. Isto é mais complexo do que uma cowboiada, não haverá nunca cordas que os apanhem a todos. Podem matar um ou outro como hoje, de novo, voltou a acontecer. Mas nos dias que se seguem irão ter a resposta terrorista, ao Estado terrorista. Sharon não é menos criminoso que os que acusa de o serem e como diz o Saramago, sabem pouco estes que não percebem o que pode fazer um homem tornar-se bomba (citado blogue de esquerda, hoje).
Os que diabolizam agora o diálogo tentam confundir realidades. É seguramente possível reflectir, dialogar sobre as causas do terrorismo. Claramente, não aceitando os métodos, mas também recusando a ideia simples dos maus e dos bons e da necessidade de varrer todos os maus. Esta é igualmente uma ideia terrorista. Retirar tropas de uma guerra errada, não é ceder ao terrorismo, mas tão só corrigir um erro, perceber que no Iraque, os iraquianos devem mandar e fazer as suas escolhas. O que se conseguiu com a intervenção foi ouvir um iraquiano dizer que dantes não tinha liberdade, mas que agora a liberdade de nada lhe serve sem a segurança que tinha dantes. A lógica dos cowboys não funciona noutras paragens. Foi também neste fim de semana que ouvi um soldado americano dizer que 98% dos iraquianos eram bons tipos, os outros 2% é que deviam ser abatidos. Assim, com a simplicidade das análises americanas.


quinta-feira, março 18, 2004

Ainda é tempo

"Combatting terrorism with bombs, with operations of shock and awe, with Tomahawk missiles, is not the way to beat terrorism. Not like that. It is a way of generating more radicalism, more people who can wind up being tempted by using violence," Zapatero said.Agrada-me que o Yahoo tenha mensagens destas contidas nos seu textos de notícias. Pelo menos, os americanos ouvem agora de viva voz, que o caminho pode ser diferente. O tratamento do terrosismo é o tratamento as suas causas. O fanatismo trata-se com pão e cultura e não com continuação da exploração e bombardeamentos geradores de mais ódios e mais fanatismo religioso. Teremos de pagar a nossa parte da conta da desigualdade e o caminho não será seguramente o da criação de um sistema de guerra que agrave a situação como é o caminho que tem vindo a ser seguido pela actual administração americana. Alguém vai ter de fazer passar esta mensagem até aquele povo de mais de 250 milhões que pensam que estão isolados no mundo e se consideram a maior democracia do mundo, mas que na realidade são uma sociedade acrítica, incapaz de reflexão e perigosamente fanática por também desinformada. Estamos na hora da Europa dar ao mundo a sua mensagem humanista. E há sempre tempo para a verdade. Sair do Iraque, não é uma derrota, é a correcção de um lamentável erro a que alguns foram induzidos pela mentira da administração americana. Corrigir os erros é sempre bom caminho. persistir neles é mera estupidez que, por vezes, conduz apenas a outros ainda maiores.
Não consigo deixar de me perguntar se sem a administração Bush teria havido o 11 de Setembro


quarta-feira, março 17, 2004

Só faltam mais dois (tanto tempo...)

O pior não é terem passado dois anos, muito mais grave é ainda faltarem dois. O DB diz que arrumou o país e isso é uma notícia menos má. Finalmente, começa a falar verdade. Ainda me lembro das promessas de reduções nos impostos, dos aumentos das pensões de reforma, da melhoria da qualidade de vida, que, se calhar, o puseram onde está. Durante dois anos a mentira continuou. Agora temos mais gente arrumada no desemprego, as pensões hão-de ser aumentadas na véspera das próximas eleições e assim por diante no cumprimento do programa. E se o Imperador permitir, até as tropas vão regressar um destes dias do Iraque (pertinho das eleições de preferência).

terça-feira, março 16, 2004

A nova jangada

Haverá possivelmente agora mais condições para a Europa renascer. Muito mais do que pelo alargamento a Leste, de onde poucas novidades poderão vir tal é a dependência desses Estados em relação aos EUA. Saíram de um adeus a Lenine, ainda não completamente esclarecido, e ainda estão na fase de encantamento do acesso ao consumo, numa tentativa de recuperação de tempo que ainda julgam perdido. Entretanto, têm capital de conhecimento adquirido. Vamos ver se isso inclui substracto que permita análise.
As eleições de Espanha acrescentaram mais uma peça ao motor da Europa. Esperemos, que o eixo Alemanha-França-Espanha possa funcionar orientando o continente não o deixando ir a reboque dos EUA. É curioso ver que a fractura não passa pelas orientações programáticas dos Partidos implicados, mas mais pelas personalidades. Duvido que um cristão-democrata alemão fosse tão subserviente em relação à América quanto o é o Sr. Blair, um socialista (?) seguramente bem diferente do Sr. Zapatero. Por mim gostava muito de ver que os continentes se continuavam a afastar.

segunda-feira, março 15, 2004

Rir de gosto

Este blog não tem fotografias. Espero pacientemente que o Blogger as deixe colocar sem custos. Mas hoje, pela primeira vez, sinto alguma pena de aqui não poder afixar algumas.
Poderei ser tendencioso, mas é assim que vejo as coisas. Já repararam como são felizes os risos da esquerda quando ganha? Há uma ternura imensa, um sentimento de reparação de uma injustiça, quase. A esquerda ri em acção de graças, é feliz, tem uma forma optimista de rir. Não é aquele esgar de vitória agressivo do riso grito da direita, que diz simplesmente, que vai continuar a dominação.
Mas se não acreditam, passeiem os olhos pelas fotografias da vitória em Espanha. Para mim é o rir tolerante e fraterno, que acham?

Só mais um

O contador está no 1999. O próximo que vier não tem prémio, mas é o 2000...

domingo, março 14, 2004

A bomba do PSOE

Acabámos de ver!
Ontem estive em período de reflexão. À noite, ao ver os espanhóis virem para la calle, fui deitar-me com um sorriso. Eles tinham-se organizado pela Net e pelo SMS usando a espontaneidade dos nossos dias. Só este facto já merecia o sorriso com que me deitei. Durante o dia, o ministro espanhol ia fazendo discursos aos tropeções, tentando convencer-se que tinha sido a ETA. Nunca tão fervorosamente eles desejaram que a ETA tivesse feito a matança. Desejaram muito e autoconvenceram-se ou tentaram convencer outros com a mentira. Mas a mentira não convence. Pode durar algumas horas. Ás vezes até um dia ou mesmo alguns. Mas por fim, a verdade vem ao de cima. Quantas vezes mais irão ser precisas para que certos políticos aprendam a não mentir? Hoje, foi um dia em que o marketing político perdeu sentido e a verdade ganhou pontos. Só por isso, este pode ter sido um dia importante.
Mas falta ainda mandar para casa mais alguns mentirosos. Começando pelo Imperador que nos disse que havia armas de destruição maciça no Iraque. Foi com essa mentira que justificou matanças de iraquianos e americanos. Esperemos por Novembro, pode ser que a mentira lhe saia cara. Acabando no nosso DB, a quem agora falta a muleta espanhola. E espero que não seja necessário o dramatismo de Espanha para que os portugueses reflictam. Possamos aprender sem dor.
PS: Não celebro, claro, a vitória do PSOE. Entre eles e o PP que venham os espanhois e escolham (também serão eles quem aguentarão as consequências). Apenas me dá gozo assistir à derrota da manipulação e da mentira. A isso, bebo um copo!

sexta-feira, março 12, 2004

A escolha deles

O grito mantém-se. Entre ETA e Al-Qaeda que venha o diabo e escolha. O Aznar já escolheu obviamente, a ETA dá muito mais jeito e não faz recordar entuasiasmos guerreiros e marcha acelerada atrás do Imperador para guerras que afinal não tinham fundamento, isto é, erros políticos. Nesta altura pré-eleitoral não é nada confortável ter temas que dividam os eleitores e a ETA é um factor de aglutinação e consenso e um reforço conveniente para quem tem tendências securistas como acontece com a direita.
O DB em tempo de Euro também deve apostar forte na ETA. A escolha deles é um desejo (mas só isso) natural. A ver vamos.

quinta-feira, março 11, 2004

11 de Março

Houve um há muitos anos. Estava na aula prática de Psiquiatria, quando o assistente, esbaforido entrou pela sala dentro e disse «a aula acabou, vamos defender a Revolução». Havia uma revolução em curso ou se calhar a começar. Na altura, a reacção atacava o Ralis e depois foram as imagens mais bonitas da guerra. O Dinis de Almeida a explicar pacientemente ao invasor que estavam ali para defender a Revolução e que eles deviam ter sido enganados. No meio do conflito, havia espaço para o diálogo em vez de cegamente se apontarem as armas. Foi lindo de ver. Mas hoje, ninguém irá ver nada disto. Ficámos esmagados informativamente pelas notícias de Espanha, onde o diálogo entre hermanos é difícil. Com todos os nossos defeitos, teremos sempre algumas qualidades, como esta de sermos guerreiros dialogantes. Eram tempos de notícias bonitas...

Um instante de solidariedade

Uma vaia monumental, como nos pontapés de baliza. Nesta reposição do jogo pela ETA, gritemos em coro Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilhoooooooooooooooooooooooooos da puta!

quarta-feira, março 10, 2004

Werther

Os amores felizes não têm história; só os infelizes a têm. Werther é uma dessas histórias. A disputa entre a razão e o coração, entre o dever e o apetecer. Porque a natureza destas coisas não muda, continua a ser um tema actual. Duvidoso seria manter uma encenação clássica. O encenador é também criador e está a fazer a sua arte nos dias de hoje, por isso gostei do que vi e na transição do III para o IV acto, a surpresa reforça a dor, o sofrimento que assim ficou alongado no tempo, aumentando-a mais ainda. Há de certa forma uma noção de tempo perdido pela cedência à razão, um acarretar das consequências pela vida fora, uma demora penalizante. O frio da cena sugere um outro mundo, que podemos imaginar deste lado. De resto, há uma recriação do ambiente romântico em todos os quadros desde o I acto, onde a sugestão de uma paisagem tipo Suiça nos transporta exactamente para essa ideia de romance. Já a música me lembrou mais ópera alemã que propriamente francesa. Gostei de ver este meu primeiro Werther. São Carlos é que continua igual, tem a graça da imagem congelada do início do I acto. As roupas são diferentes, mas as pessoas são de outro tempo.

terça-feira, março 09, 2004

Comissões ou a miragem do poder

A criação de regras é uma actividade complexa quando os grupos que as criam não conseguem abstrair-se das pessoas a quem se dirigem. Entre nós há este hábito maçador de fazer tudo a pensar nas pessoas específicas desses grupos e o que se tolera, quando muito, é algum equilíbrio de poderes. Surge um problema concreto e nomeia-se uma pré-comissão para a qual se escolhem uns quantos iluminados. Depois, estes cozinham a constituição definitiva da comissão em que os critérios são o equilíbrio de poderes entre os seus membros. Depois o tempo passa e a certa altura as pessoas mudam. É chegada a altura de tentar nomear novos pelos que partem num jogo monárquico em que os quie têm de partir ainda assim, possam manter algum poder através daqueles a quem fizeram o favor de indigitar. Mudaram os tempos e as circunstâncias e com a mudança vieram as incongruências e a comissão fica sem sentido, carecendo de lógica, tanto mais que os especialistas de ontem trabalhavam em locais onde hoje estão outros e entretanto apareceram mais locais. O mais cómico e ao mesmo tempo trágico, é que se invoquem princípios éticos para manter a lógica da monarquia e bloquear o acesso a grupos novos. Super cómico é o facto de a comissão estar completamente esvaziada de qualquer poder e apenas garantir um estatuto que não passa de uma imagem que serve para usar poderes noutros lados.
Este é um post obviamente datado, dirigido e exclusivamente para recordar mais tarde. Quem não estiver ligado a este problema concreto, provavelmente, não entenderá nada disto. Mas isto é o meu país onde uns têm estádios que julgam poder partir, porque são deles, outros crianças em que batem, porque as fizeram,outros se vangloriam do que lhes resta, considerando seus os méritos de outros como acontecerá mais logo quando o FCP eliminar o Manchester. Há sempre a esperança de ficarem frustrados... Sinceramente, quanto menos vitórias no futebol, melhor o prognóstico do país.

Grupos de direitos mínimos?

A minha leitura foi que na terra prometida, a tal das oportunidades, me parece que as mulheres continuam com o estatuto de minority, isto é, grupos com menos direitos que os outros. Apesar de tudo, não esperava. É muito suspeito isto de female and minority groups, não acham?

segunda-feira, março 08, 2004

8 de Março

Hoje proponho um jogo interactivo. Sempre quero ver se os comentários aumentam...
Experimentem nos vossos motores de busca procurar «female and minority» e depois «male and minority». Reparem nas diferenças e contem-me.
No dia 8 de Março não escrevo mais nada. Procurem pelos vossos dedos.

domingo, março 07, 2004

A melhor frase da semana

No país da Lili ouvem-se coisas como esta (sempre o Expresso):
«Cinha jardim é muito perspicaz, não se esqueçam que foi ela quem descobriu que o Paulo Portas era mais homem que o Santana Lopes...» Comendador Marques de Correia Expresso

Ora essa!

Nós até já estamos habituados a que o homem faça umas confusões de quando em vez, que troque os pianos pelos violinos, que afinal até são instrumentos do mesmo tipo. Agora foi a vez de trocar as casas. Este país é mesmo mesquinho. Afinal foi a grande América que comprou a ponte de Londres convencidos que estavam a comprar a Tower Bridge. Deixem lá o homem, baralhar-se nas casas do Eça. Logo agora que parece que começou a ler o Saramago. Anda com azar este candidato a ex-futuro presidente. Estão a imaginar as trocas que poderia fazer nas suas funções? Tudo seria possível... E se o mandássemos para Belém em vez de ir para o Palácio de Belém? Talvez os bombardeamentos dos israelitas o ajudassem a perceber que a realidade é mais do que a noite lisboeta em que parece orientar-se bem e sem enganos. Vá para a Figueira, ou ser presidente do Sporting, também é presidente e eu não tenho nada a ver com isso.

sábado, março 06, 2004

Perplexidades

Pelo Expresso fiquei a saber que Portugal afinal é quase um paraíso. Um quarto dos portugueses tem casa secundária, as nossas casas são mais novas do que as dos europeus, temos os melhores carros, vestimo-nos melhor. Enfim, um país de falsos pobres como referem. Nada é dito sobre as condições de habitação dos outros três quartos, em que transportes se deslocam e como se vestem. Isto é, esta riqueza aparente pode muito bem ser uma capa de uma grande pobreza franciscana, afinal. Tanto mais que parece que já desistimos de ser país e estamos bem anexados pela Espanha, que agora até nos leva os santos (Espanhóis apropriam-se de São Francisco Xavier). O aborto dispara em Espanha com alguma contribuição nacional, certamente. Quem sabe se dos que andam a distribuir imagens de abortos pelas nossas escolas. O Expresso diverte-me, às vezes... Se calhar o nosso record europeu é o da desigualdade, para o que tem contribuído em grande a orientação da economia destes últimos anos neste laranjal à beira mar plantado.

sexta-feira, março 05, 2004

Fim de semana na urgência

Há dias em que a chuva é bem vinda pelo cheiro de erva molhada que deixa pressentir. Do lado de fora da janela, riscos finos hesitantes de água vão fazendo garatujas nas janelas e eu fico do lado de dentro a imaginar o frio. De repente, o tempo fica tranquilo sem a agitação dos dias de trabalho. A surpresa vem-me quando alguém se queixa do tédio dos fins-de-semana, com um ar nauseado. Nessas alturas, tenho medo dos sentimentos possíveis e um desejo enorme de continuar a ser assim. Sim, é bom ter o livro para ler e não o fazer, mesmo só pelo gozo de fazer isso mesmo, o não fazer. Que angústia deve ser a vida da outra maneira!

quarta-feira, março 03, 2004

Em nome da liberdade

Pensando bem só pode ser propaganda anti-capitalista, não acham? Esta agora de ser proibido a um cubano fazer uma publicação em revistas científicas americanas, é excessivo. Mas afinal foi na pátria da liberdade que se fez uma tranmissão em directo da cerimónia de atribuição dos óscares diferida em 5 segundos. Apenas para permitir corrigir alguém que se enganasse nos agradecimentos ou ficasse paralisado pela emoção.
Ou será que os meios de comunicação privatizados e cada vez mais monopolizados a isto levam? O poder de informar nas mãos do poder económico tenderão normalmente a defendê-lo. Por isso não se estranhe o investimentos, por vezes, com prejuízo, que os grupos económicos tendem a fazer na Informação. Será até assim que se explica certa forma de fazer notícias, embrutecendo o que reste de capacidade crítica, doutrinando eficazmente. Nada que leve à reflexão. Tudo pela emoção imediata para esquecer no instante seguinte. Anestesiante.
Até quando se tolerará isto em nome da liberdade? Ou teremos de gritar esta informação é o ópio do povo!?

terça-feira, março 02, 2004

Não, obrigado!

De vez em quando entra-me pela caixa do correio uma felicitação por ter sido seleccionado como candidato a ir viver para os Estados Unidos. É mais uma manifestação de spam, mas este de particular mau gosto. Realmente, não me apetece passar pelo pesadelo de viver num país como aquele. Para pior, já basta assim. Aqui já temos o DB, arriscamos ter o Santana em Presidente, o Alberto João em Presidente da Assembleia da República, mas, pensando bem, mesmo esta troika é melhor que ter o Imperador em Presidente.

segunda-feira, março 01, 2004

Li e ouvi, tinha de registar

São 84 Portugais à fome!. Ouvi dizer pela manhã que mais de metade da população vive com menos de 1 dólar (por dia?). É cruel, mas já pensaram que no último ano ficaram ainda 25% mais pobres, certamente devido à política marciana do Imperador? Para que servem os dólares 25% desvalorizados, sobretudo para que serve um dólar?
A sábia economia do mercado e da globalização continua a acentuar esta realidade. Até quando isto será tolerável?

Por Fevereiro de 30 dias!

Com a quantidade de feriados que este ano temos ao domingo, é uma injustiça que o mês de Fevereiro só tivesse tido 29 dias. Fevereiro de 30 dias e teríamos mais uma série de feriados à segunda-feira e alguns que são à quarta pasasariam para a quinta permitindo pontes bem mais discretas.
Por isso ainda me custa, a esta hora, aceitar que estou a 1 de Março. Este ano apetecia-me rter ficado mais um dia em Fevereiro.

domingo, fevereiro 29, 2004

Viva!

Ali fica o espaço da participação, sem receios de errar, porque a paixão está sempre certa e a ela tudo se perdoa. Vale tudo, insultar, aplaudir, saltar, berrar, tudo é permitido com o apoio do resto da tribo. Os mecanismos de ampliação vão ficar a ecoar os sons durante toda a semana. A este espaço de crítica vamos, cada vez mais, estando confinados, bem doutrinados pelo fenómeno.
Só falta que digam que este post foi ditado pelo empate do Benfica!

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Re(voltado) sempre

Uma semana de pausa na escrita bloquística motivada por outras escritas mais urgentes.
Por estes dias passaram massacres e terramotos em África, jogos de futebol (o tal desporto de todos os ri(s)cos se tivermos em conta os preços dos bilhetes e os investimentos na segurança) e um sem número de pequenas notícias de encher (tele)jornais e outros.
Curioso o estudo da Associação de Farmácias que revela que o Estado teve menos despesas com medicamentos, mas o público (os doentes) tiveram de desembolsar mais. Ficamos todos contentes com a poupança do Estado e com a felicidade do DB a cumprir os compromissos do Estado e os protugueses cada vez mais desempregados ou em vias de o serem, vão pagando cada vez mais enquanto sonham com vitórias do FCP e no Euro 2004... Este é um país de futuro (quando?)

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Bolas!

Vamos riscar os jogos de risco? Acabavam-se e digam-me lá, o que perderíamos nós? Há mais temas de conversa, certamente. A vida não acaba à volta de uma bola.

domingo, fevereiro 22, 2004

Venham mais cinco (nome de música)

Hoje anunciam-se os preparativos de mais uma guerra para os lados do Porto. Vêem aí os ingleses! E agora, sempre que isso acontece, há uma mobilização específica da Polícia portuguesa. Estas guerras do futebiol são fundamentais para este país onde pouco acontece. Enquanto se preparam as tropas para a invasão inglesa, fazem-se cimeiras a três pela Europa, que se calhar prenunciam invasões bem mais reais. E, se calhar desejáveis. Agora que é moda os empresários reclamarem a unificação com Espanha, deixem-se sonhar mais alto e desejar a unificação com a Europa toda, sobretudo pelas vantagens de ser conduzido pelo tal motor anglo-franco-alemão. Uma tradição de boas maneiras, boa cozinha e tecnologia. Sim agrada-me muito mais do que estas pindéricas preparações para conflitos futebolísticos e gritos esganiçados do DB a dizer que cumpriu. Mais até do que prometeu, muito mais! Desemprego, insegurança, xenofobia, pior qualidade de vida. A propósito de DB, vale a pena ir ao Villaret rir de tudo isto.

sábado, fevereiro 21, 2004

Muito simples

Ao princípio de ontem e ao fim de hoje com três anos de permeio. É assim, em cada ano, a realização de uma vida. Parabéns a elas que vão estando cada vez mais crescidas!
O Guincho é sempre belo, quer na Quinta da Marinha quer no Porto de Santa Maria com o mar ali ao lado.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Primeira página

Numa daquelas terras do Alentejo ainda não completamente compradas por alemães, holandeses e outros, os velhos e os novos encontram-se na escola. Os primeiros contam histórias mágicas aos miúdos, estes ensinam-os os avós a usar o Messenger.
Ainda há estas ilhas no mar da globalização. Num dia em que o DB se multiplicou em discursos de auto-elogio sobre o cumprimento do Pacto, foi esta a minha notícia de abertura. Há uma globalização a fazer, o Alentejo ensina-nos.

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Simples

Como nas cantigas do Sérgio, ao princípio é simples, anda-se sozinho. Depois, subitamente, temos a noção que aquele é o primeiro dia do resto da nossa vida, como todos os dias são afinal. Mas nesse dia é mesmo, urgente e de forma definitiva. Fica-se num estado de inquietação tranquila em que o mundo finalmente encontrou o sentido. O caminho fica então com ladeiras, curvas, nós de estrada e descidas por onde vamos avançando já sem a simplicidade do princípio, mas com o prazer da realização. Percebe-se, finalmente, que o prazer nada tem de fácil e que a facilidade é rotina sem graça. Pelo meio até abençoamos a dor que ao prazer nos leva, nesta dialéctica constante dos contrários que se complementam e se descobrem. Aos poucos, a obra vai nascendo, a história faz-se de coisas pequenas, sem revoluções necessariamente, acontecendo simplesmente sem uma rota totalmente definida no início. E cada vez mais o sentido se constrói e faz sentido e vai parecendo que tinha de ser assim e que tudo afinal tinha uma lógica e um destino que podemos agora contemplar na tranquilidade da coisa feita e sempre em construção.
É bom chegar, vinte e cinco anos depois, com um olhar terno sobre a história e ter vontade de dizer obrigado Manela por me teres dado a mão nesta jornada. No fim das contas, é simples, hoje como ontem, é apenas o primeiro dia do resto da nossa vida.


quarta-feira, fevereiro 18, 2004

E não deixo de ser de esquerda, percebem?

Sinceramente, acho que teria desapreciado se me tivessem feito uma dessas. E como não quero para os outros, o que não quero para mim, estou de acordo, por muito que isso custe a certa gente muito politicamente correcta.
Aqui fica o extracto:
Deixar que a criança cresça em "ambiente homossexual" tem consequências que devem ser evitadas, nota. "A comunidade científica mundial sabe hoje que não existe homossexualidade genética"; assim, uma criança que seja educada em ambiente homossexual tenderá "a interiorizar atitudes, aprendizagens, reacções do ambiente onde está", afirma.
Villas-Boas é peremptório quando diz que "a criança não deve nunca ser adoptada por homossexuais", porque tal irá interferir com a sua "sexualidade natural". "Tudo o que seja induzir comportamentos que não correspondem à sua condição sexual é um atentado ao direito das crianças", considera. "A adopção é um veículo do exercício do direito à família de uma dada criança", mas "qualquer criança também tem direito ao exercício da sua sexualidade original". Antes de tudo, considera, está "o primado do direito da criança à sexualidade genética": se for mulher, tem direito a ter filhos, a procriar; o homem tem direito a ser pai. Criar crianças em "ambiente homossexual" é "interferir com o normal percurso do exercício dessa mesma sexualidade". "Ser lésbica não é ser mulher na plenitude natural do termo, porque se assim fosse não haveria o problema da procriação natural", acrescenta.
Villas-Boas vê o carinho transmitido por homossexuais como "um carinho falso. Não é carinho organizado, estruturante - gostam deles próprios através da criança", afirma.

Ainda o concurso

É difícil a arte de julgar pelo risco da injustiça. Mesmo a tranquilidade da consciência pode não ser bom padrão de medida.

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Concursos

Quem não é do meio, precisaria de ter uma imaginação delirante para ter uma ideia aproximada do que se passa. Isto é mais uma das manifestações de surrealismo em que vivemos. Passo a contar. Os médicos frequentam serviços considerados idóneos para fazerem a sua especialização por períodos que variam entre quatro e seis anos. Anualmente, têm uma classificação atribuída pelo Director de serviço e por outro médico que é chamado orientador de formação do Interno (o médico em formação). No final, faz-se um concurso de titulação, em que intervêem, além dos que o andaram a classificar nos anos anteriores, outros 3 elementos designados pela Ordem dos Médicos, geralmente de outros serviços do país. Neste concurso há 3 provas, a análise do curriculum do candidato (habitualmente um texto extenso e maçudo com mais de 40 páginas) onde o candidato descreve os sítios por onde andou a especializar-se, uma prova prática, que consiste na observação de um doente e elaboração do relatório, onde se fazem os diagnósticos e se apresenta um plano de tratamento e, finalmente, uma prova teórica de interrogatório livre sobre as matérias da especialidade.
Tentar avaliar as capacidades de alguém através de um exame onde se faz uma prova que consiste na repetição do que essa pessoa fez diariamente durante cinco anos é, obviamente, ridículo. Tanto mais que o modelo de realização desta prova é anquilosado e completamente distinto do que se faz no quotidiano e através do qual se prestam os cuidados de saúde nos hospitais. É um exercício lamentável de faz de conta, que em nada contribui para a avaliação dos doentes nem dos médicos. Mera perda de tempo!
A prova teórica são meia dúzia de perguntas sobre temas genéricos da especialidade, que geralmente podem ser respondidas por qualquer interno no segundo ano da especialidade, sem profundidade, sem se avaliar sequer a perícia do candidato na pesquisa de informação, que cada vez mais, é o que é útil assistencialmente.
Perante este panorama de há alguns anos para cá, as classificações nestes exames terminam geralmente com uma nota que oscila entre 19,5 e 20 valores. Com toda a gente a lamentar que isto aconteça, a falar de inflação e sem ninguém capaz de mexer nesta situação.
Mas por que acontece tudo isto?
Apetece-me dizer que é culpa do Sistema (pois, como no futebol). Este é o modelo que permite melhor impôr a vontade do sistema, porque completamente controlável pelo sistema. No fim de contas, o que se avalia nestas provas são também os serviços onde o candidato se formou. Avaliando, através da avaliação de um terceiro e frágil, a coisa torna-se menos dramática. Mas seria bem mais útil se os serviços fossem classificados através da avaliação objectiva dos cuidados prestados aos doentes, via auditorias externas e independentes. Aí estava algo que poderia pôr o sistema em causa, mas que certamente contribuiria para melhorar o funcionamento real dos serviços. Quanto à prova teórica, a maneira mais objectiva de o fazer seria, seguramente, através de uma prova de escolha múltipla com um número de perguntas acima de 100. Uma vez mais, o sistema perderia o controlo e a sua capacidade de dar classificações politicamente correctas. Mas se isso fosse feito, certamente teríamos médicos especialistas mais bem apetrechados teoricamente, capazes de tratar menos empiricamente os doentes. E que tal submeter os especialistas periodicamente a uma prova destas, para poderem manter o seu título de especialistas?
Mas não, com o método actual continuamos todos a viver no melhor dos mundos. O sistema mantém-se sem abalos. Fica tudo em casa. Só por isto acho que se mantém este método ridículo de avaliação dos médicos.
Só mais uma nota, provavelmente, nunca sairá da Ordem dos Médicos uma proposta que ponha em causa esta metodologia de avaliação. A Ordem é a Liga do sistema.

domingo, fevereiro 15, 2004

Que novidade!

Em Portugal, quem não consegue fazer outra coisa, vai para professor.
António Coutinho no Expresso deste fim-de-semana.
Comentários para quê? É um cientista português! E que tem esta notável capacidade de síntese. Espero bem que os Professores de Medicina não deixem esta «afronta» sem resposta, mas o mais provável é pensarem que os deuses não respondem a este tipo de afirmações dos simples mortais.

sábado, fevereiro 14, 2004

Pela manhã

Às vezes basta espreitar pela janela o céu azul e perceber, sem o sentir, o frio do lado de fora da janela. Afinal, não era tanto, como depois percebi junto do pequeno espelho de água no Jardim da Amália, onde os cães correm a apanhar bolas. É bom que não seja ali o Centro de Congressos de Lisboa, que Botero esteja na rua um pouco acima de onde a escultura do Cargaleiro se mantem em ejaculação aquática contínua.
Ler na esplanada o desejo obsessivo do senhor presidente da Câmara em ser presidente da República, faz pelo menos estremecer e pensar que, com ele, possivelmente, as coisas não estariam como estão ali naquele local. Se não fosse o Centro de Congressos, seria pelo menos uma grande concha e auditório para se ouvirem os famosos concertos de violino de Chopin, não seria Dr. Santana Lopes?

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Dia 13, sexta-feira

É curioso como a sexta-feira, dia 13 acaba por ser um dia diferente só porque as pessoas comentam o facto, obviamente, todas sem se impressionarem absolutamente nada com a coisa. Os comentários, os acontecimentos, cada vez mais, parecem programados, desencadeados por uma ordem. O próprio mundo parece subjugado por uma Ordem intocável. O Mercado apoderou-se de muitas almas, demasiadas, demasiadas almas agrilhoadas e quietas. É preciso urgentemente acreditar e passar a agir sem ter medo de virar tudo do avesso se for preciso. Ou será que o motor da história ainda está gripado ou a precisar de combustível? Há todo um hemisfério Sul e um Oriente à espera de acordar. Será um despertar sozinho ou com um pequeno abanão daqueles que neste resto do mundo, embora poucos, não suportam a leitura do Factbook da CIA. Tanta diferença será sempre um fermento de algum desespero que nem o Imperador poderá conter eternamente, por mais que amece os «malvados» com todo o terror da sua força.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Responsabilidade

Uma maior responsabilização pela nossa saúde parece ser uma obrigação de cada um de nós. É óbvio que é estranho que sejam os nossos impostos que pagam as despesas que resultam de um acidente de viação provocado por um condutor alcoolizado. Ele que pague! Mas a coisa não se fica pelas bebidas, o mesmo é aplicável às comidas. Pagar os medicamentos da diabetes na totalidade, quando quase sempre resulta de excessos alimentares, também não parece ser do mais ajuizado socialmente.
Fica só um pequeno problema. Certos hábitos perniciosos não têm uma distribuição transversal por todos os grupos de cidadãos. É até conhecido que tendem a ser mais prevalentes nos grupos sociais mais desfavorecidos. Neste caso, a visão responsabilizadora do PM Durão, é mais da mesma política, sempre a penalizar os mesmos. Só seria lícita, se houvese um grande esforço de prevenção que tivesse por objectivo o ataque às causas, por exemplo, combater a comercialização do álcool e dos alimentos nefastos à saúde e não apenas através de sugestões às empresas envolvidas, mas através de penalizações objectivas e profilácticas, quye reduzissem eficazmente o consumo dos tóxicos. Será que a dureza chegará a tanto?

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Vanguardas

Não resisto a transcrever uma citação do antiwar.com. É um pensamento de gente jovem, optimista, mas infelizmente pouco ouvido a jovens de hoje. Aflige-me olhar para uma geração que não acredita em certas coisas, mas isso deve ser por já ir estando avançado na idade...
Leiam: Never doubt that a small group of thoughtful, committed people can change the world. Indeed, it is the only thing that ever has.
Margaret Mead

Perceber que o mundo tem de ser mudado é uma aquisição que rapidamente a juventude terá de fazer. No final das contas, é a preparação do seu futuro. Não podem acreditar que tudo está decidido, porque já descoberto. Apostar na inovação é um caminho necessário.


terça-feira, fevereiro 10, 2004

Cuba

Naturalmente, não há mundos perfeitos, mas uns são mais justos, equitativos do que outros. Não há dúvida de que sou suspeito, veja-se o link ao Granma aqui ao lado. Fiquei contente com o post do Luís Rainha. Se calhar somos ainda alguns milhões na terra inteira.

Big fish

A realidade das coisas está fora da física que são. Um lençol é fisicamente branco, mas só o reconhecemos como tal nas ondulações da representação, onde o pintor lhe inscreve diferentes tonalidades para que o possamos ver. Nunca o reconheceríamos como tal numa tela completamente branca que poderia ser tudo sendo nada.
Somos mais que a nossa história. Não nos ficamos pelo currículo chato e cronológico de acontecimentos de vida. Somos aquilo que imaginamos da nossa história. Somos as nossas histórias e fantasias de vida, aquelas que contamos aos outros. Nos outros nos vamos fazendo e neles sobrevivemos à morte naquilo que neles deixamos. No imaginário poderemos estar muito mais perto da verdade que somos, do que nos dados objectivos que vamos somando pela vida. Sem o imaginário nem chegaremos bem a ser. A nossa eternidade fica dispersa pelos relvados onde aqueles com quem contactámos ao longo da vida assistem ao nosso funeral cheios já da nossa memória.Foi pelo menos assim que fiquei ontem depois de ir ao cinema ver o Big Fish, absolutamente imperdível!

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Há sempre outra maneira de olhar para as coisas

.A quietude da alma pode transformar um incómodo em mensagem optimista.

Textos pós-modernos

Subitamente, começaram a ler em inglês e, como os industriais de restauração algarvios, também ficaram seduzidos pela língua. Acontece o mesmo com os nossos artistas, que só conseguem ouvir as baboseiras que escrevem em inglês. Aliás, quem aceitaria cantar uma cama de rosas sem desatar imediatamente a rir? Experimentem traduzir as letras das canções em inglês e depois digam-me! Eu digo já, na maioria dos casos, um pirosismo insuportável quando dito em português. Como, em inglês, às vezes nem se percebe tudo, torna-se audível, não é?
Mas eu falava dos médicos, que cada vez mais tratam pacientes (eles lá sabem o que fazem aos doentes, para os terem convertido em tal). Para minha surpresa, ao ler um texto de Anatomia em português(?), vi que agora externo é lateral e interno medial, que o velho cúbito virou ulna e que o perónio já é fíbula, ou seja um destes dias já nem sei os substantivos da Anatomia....
Até já me tinha habituado a que o exame dos dados objectivos de observação, se tivesse convertido em exame físico, que as doenças tivessem estádios ou estadios e não simplesmente fases (de desenvolvimento), que as tomografias não fossem computadorizadas, mas computorizadas, que as ecografias estejam rapidamente a dar lugar às ultrassonografias, que os resultados de estudos fossem publicados em posteres e não em cartazes e que as provas cada vez mais fossem evidência. Agora que alguns autores reivindiquem a publicação de abstractos, sinceramente deixou-me sem palavras. É que os resumos, afinal, eram facilmente legíveis sem necessidade de qualquer esforço de interpretação. Um destes dias encontramo-nos por aí num mitingue para meditar neste estado de coisas e também para alterar o meu corrector ortográfico, que, desactualizado, foi colocando um risco vermelho ondulado sob estes termos da escrita da medicina pós-moderna?


Restaurado(s)

Mergulhei então na salvação do vinil. Fui-me aos discos do Luís Cília, do Brel, da Suzanne Vega, do Arlo Guthrie e do Pete Seeger e desatei a passá-los para MP3. O fim-de-semana renasceu nesta actividade de restaurador dos discos e da minha memória.
Com o Cília vim desde antes do 25 de Abril até ao outro 25 do desencanto. Os tempos estão diferentes, mas ainda deveremos ser milhões e milhões na terra inteira. Possivelmente, deixámos só de cantar momentaneamente, cansados da ladeira que nos impuseram. Mas alguns de nós continuamos a acreditar nas novas alvoradas.
Se por acaso virem por aí o Cília a passear o cão, digam-lhe que pelo menos o ponha a ladrar. Silêncio é que não! Não podemos ficar acomodados à espera das anedotas do Alberto João a presidir à Assembleia. Nós queremos rir-nos de verdade.


Caldas

Dormir dez horas seguidas é uma experiência cada vez mais rara. Que direito teremos de nos privarmos do sono? O dia fica mais pequeno, mas para que se querem grandes os dias?
Ainda se chega a tempo às Caldas ou ao que delas é importante, o Mercado com vendedeiras a esta hora já fartas de venda e cheias de vontade de ir tratar dos bichos lá em casa e do pão da Ramalhosa, quente e estaladiço. O resto é paisagem, tios em circulação na Rua das Montras em encontros de fim-de-semana mais ou menos iguais e a olhar ninhadas de cães, em oferta, ao início da rua. Nas montras a louça característica olha os passeantes sem pudor. E já tem jornais em ucraniano no quiosque onde compro o Expresso para me começar a entediar com o fim-de-semana. Mas sempre fico a saber os preparativos para a guerra. Não, não é a do Afeganistão. A outra, a do futebol. Mas ninguém questiona que andem a gastar o nosso dinheiro, o dos impostos, em preparativos de guerra contra os hooligans e quejandos? A TSF, por um lado, o Expresso por outro começaram a chatear-me o fim-de-semana. O melhor é desligar!


sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Aí vou eu

Gosto deste sentimento de A8 a meio das tardes de sexta-feira, sobretudo quando o piso está enxuto e o sol tenta abrir as nuvens no horizonte desta estrada.
Para trás fica uma semana, quase sempre igual a outras e à frente a esperança de dias de maior entusiasmo. É sempre assim às sextas-feiras à tarde. Cada vez entendo menos, aqueles que podendo, se recusam a ir por uma destas estradas de fim-de-semana.


quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Deixou de haver desculpa

A partir de hoje, existe por baixo dos posts a possibilidade de os comentarem. À distância de um simples clique. É tão fácil, experimentem!

Nem depois de mortos trabalham!

Estamos num país difícil. Os funcionários públicos têm um sistema especial de apoio à saúde, que vai sofrer alterações passando por cortes nos subsídios às consultas, análises e meios complementares. Como compensação, naquilo que acho dever ser uma experiência pioneira em termos de apoio social em todo o mundo, esses serviços decidiram criar um sistema de apoio após a morte e começaram a enviar cartões aos funcionários mortos. Não é que logo se levantam vozes contra esta iniciativa!
Esta é uma das histórias em que mais uma vez se vê logo de que lado está a culpa. Como podem eles saber que o funcionário morreu, se eles nem se dão ao trabalho de depois de mortos, lhes fazerem a respectiva comunicação. Do tipo, em papel de 35 linhas:
Eu F...., funcionário público (cansado de funcionar) venho por este meio, comunicar a V. Exas que a partir do dia de hoje me encontro na situação de morto. Peço, por isso, que, para os devidos efeitos, o meu nome deixe a partir desta data de constar nas vossas listas com todas as implicações daí decorrentes, nomeadamente a cessação do envio do respectivo cartão de beneficiário.
Pede deferimento
Data
Fulano (com assinatura reconhecida)
Bom, aqui deixo esta sugestão de minuta aos mortos mais distraídos. Que diabo, não custa nada e poupam-se os incómodos à família.

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

Nuvens negras

Luís Delgado, no Diário digitalde hoje afirma, a propósito do sistema eleitoral americano, que «Existe um problema, contudo: a abstenção é a maioria, o que significa que o homem mais poderoso do mundo é eleito, afinal, por cerca de 25 por cento dos americanos». E eu não acredito que ele esteja convencido do que diz. Ele deve saber muito bem que quem manda não é um homem, mas uma série de companhias que escolhem um representante para fazer que manda. Mas alguém ainda acredita que o poder está concentrado num homem?
Mas o problema não fica por aqui e é bem mais grave. Segundo o mesmo a eleição do Imperrador Americano são favas contadas: entre um presidente em exercício e que já deu provas de não temer os desafios, ou um democrata receoso e desconhecedor, os eleitores tenderão a escolher o mal menor, George Bush, por muitas dúvidas que possam ter.. Realmente ele não teme desafios, ninguém o desafia. Nós é que tememos os desafios deles, da paranóia deles, da visão de armas imaginárias onde lhes apetece vê-las e por aí fora.
Fico, ainda assim, com a secreta esperança que desta vez este palpite de LD tenha o rigor dos anúncios que tem feito da retoma da economia...
Finalmente, como se diz na anedota, se estes gajos mandam no mundo, vamos é reivindicar poder votar para o Presidente!

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Até às últimas consequências?

O Imperador e o amanuense inglês decidiram investigar quem os «enganou». Provavelmente, a coisa vai ser levada às últimas consequências. Para breve teremos um flashback com o Saddam a ser enfiado no buraco, as estátuas dele a serem levantadas em todo o Iraque, os tanques americanos a recuarem no deserto, os soldados americanos a ressuscitarem dos mortos, os misséis a engolirem o fogo dos escapes e a voltarem a aterrar nos porta-aviões. Sim, agora que sabem que não havia as tais armas, a guerra vai voltar para trás e o ditador do bigode irá fazer mais uns discursos explicando que não tem nada a esconder. Mas está tudo maluco, ou pensam que somos parvos?

Nevoeiro

Dia de nevoeiro. Gosto do nevoeiro. Permite avançar, lentamente, sem a correria dos grandes horizontes. Ficamos mais conscientes dos pormenores por onde passamos, aqui ao pé, no strip-tease do espaço, descoberto passo a passo.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Ordens

Estão na moda as Ordens. Hoje ficámos a saber que também os professores querem uma depois de há alguns dias serem os jornalistas. Se querem que vos diga, eu nunca percebi lá muito bem para que serve a dos médicos, sobretudo numa altura em que a medicina privada - aquela em que o médico se confronta em consultório com o doente sem interferência de terceiros - está em vias de extinção e somos cada vez mais funcionários contratados de alguém, ou seja assalariados. Nesse caso, o que é lógico é ter um sindicato que nos proteja. As normas de prática da profissão podem perfeitamente ser estabelecidas pelo Estado, não correndo assim o cidadão o risco de estar subordinado a normas de defesa de corporações, como naturalmente acontece. E não me venham falar de isenção, que antes de sermos isentos ninguém se consegue abstrair de ser gente e como se tem visto, o que é próprio da natureza é a defesa prioritária daquilo que nos interessa com os melhores argumentos, claro.
É que nisto de definir regras, o mais seguro é deixar ao critério de alguém independente e sobretudo que possamos controlar.

Atados

Acabo de ouvir o PM dizer que não pode dizer, por ser PM, aquilo que o Prof Cavaco Silva diz. Fiquei a subentender que até concordaria, mas está atado. Será possível acreditarmos em políticos que se sentem atados? Dizem-nos aquilo que pensam poder dizer e não aquilo que querem dizer e pensam. Pobres políticos estes, manietados. Só que os colegas francês e alemão sabem romper as algemas e não têm esta necessidade patológica de ser obedientes e pequeninos à espera da aprovação sabe-se lá de quem. E depois, pior que tudo, dizem estas coisas despudoradamente, como se falassem para plateias de idiotas. Só falta pedirem que acreditemos em tais políticos e nas suas políticas! O despudor pode até chegar aí.

domingo, fevereiro 01, 2004

Infelicidades

A semana passada foi um industrial, esta um treinador. Eles acham-se mal neste país, apertados talvez pela pequenez da coisa. Mas por amor de Deus, as fronteiras estão abertas, façam o favor de sair e serem felizes. Ou será que precisam de alguma protecção especial para serem grandes cá dentro e, sempre que essa benção lhes falta, se acham com direito a rabujar? Mas nós é que não temos de os aturar. Bem vistas as coisas, pouco nos acrescentaram, mas têm-se acrescentado bastante sobretudo o senhor Melo, que agora tem ânsias de ser súbdito de SM D Juan. Não é que eu seja patriota, que nem sei bem ao certo o que isso seja. Mas fico chateado sempre que as pessoas querem ser grandes dentro da pequenez e não arriscam confrontar a sua dimensão na grandeza do mundo. Aí se vêem os grandes, no espaço global, onde as pátrias (as protecções mesquinhas e pequenas) não existem.
E ao ler o Expresso constato, mais uma vez, que este país anda com azar. Só nos faltava que o Imperador tivesse tido origem nesta raça... Por uma questão de patriotismo, ainda quero crer que seja mentira, que se tenham enganado na árvore genealógica. Ou pelo menos, mostrem que é um mutante.


Vão pelo seguro! Cuidado com eles

Subitamente 6000 portugueses ex-emigrantes na Suíça repararam que deixaram de ter direito a assistência no SNS. Só se tiverem seguro de saúde de 150€ em companhias privadas na Suíça. Agora estes, qualquer dia serão muitos mais. É preciso ter cuidado e ir estando atento aqueles que estão em cruzada não contra ninguém em especial, mas em defesa das seguradoras e banqueiros que vêem aí tentar tomar conta disto. É uma cruzada com objectivo bem definido e por interesses bem altos. Os cruzados não desistem, a menos que os combatamos devidamente.