quarta-feira, novembro 30, 2005

Sinais dos espaços

Deve ser um sinal dos espaços, mas agora tenho sido saudado com bom-dia, boa tarde ou boa-noite consoante se está antes do almoço, antes do jantar ou depois do jantar. Os espaços são fechados, acabaram as janelas e o relógio é o do estômago cheio ou vazio. O sol escondeu-se do outro lado do bunker condicionando-nos o tempo na luminosidade constante da luz fluorescente. Referências do betão.

A crueldade da insistência

A exuberância da homenagem pode incomodar não, exactamente, pelo acto, mas pelo receio que se tem do seu significado. Realmente, custa a acreditar que quem sempre gostou de corte e bem-estar, recuse o louvor público como se de repente se tivesse tornado uma pessoa simples. O louvor apetecerá em vida, mas como coisa natural, como reconhecimento do príncipe que se pensa ser e não como anunciador de um fim, sobretudo, quando se não sabe muito bem que fazer além desse final. Mesmo percebendo a força desta razão, tenho pena. Mas também a sensibilidade suficiente para não insistir naquilo que, se calhar, até já fiz. Insistir seria crueldade.

terça-feira, novembro 29, 2005

Clique

Fosse eu capaz de arrumar o tempo em dossiês, como se faz às folhas soltas. Depois fazia um índice. Só que ele é contínuo, e são ilusões os saltinhos dos ponteiros dos segundos dos relógios de quartzo. Na verdade, o tempo não se deixa armazenar nem aceita começo nem fim. Todo o instante é irrepetível, pouco interessa o que esteve antes e o que virá depois no momento em que é. Mesmo o registo não é o momento, mas apenas ele. Independentemente, da abertura e da velocidade. É indomável o tempo.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Uma mão cheia de notícias

Paulo Bento começou a animar-me o dia logo pela manhã: «O todo é maior que a soma das partes». Desta forma, iniciamos uma revolução na matemática cujas consequências só o futuro poderá esclarecer, mas como dizia o outro mestre, prognósticos só no fim do jogo.
O Banco Alimentar reuniu mais nem sei quantas toneladas de alimentos em comparação ao efectuado no ano passado. Conclui-se pela generosidade do Povo português, nisto se incluindo Gente com ordenado mínimo e reformados, que sabem o que custa estar sem arroz em casa. Não sei se no tal Povo devem ser incluídos os proprietários das grandes superfícies, que lucraram com a venda do acréscimo de produtos. Mas também já sabíamos que eles são devotos da Economia muito mais que generosos. Não fosse isso disponibilizariam, gratuitamente!, umas quantas toneladas nestes eventos de solidariedade. Na verdade, preferem também engordar à custa da generosidade do tal Povo. Por isso, os excluo do grupo.
Não bastassem já estes acontecimentos fiquei a saber que se pagam 3 milhões de contos/ano de horas extraordinárias a médicos no hospital onde trabalho.
Algumas reflexões:
1. Se um médico ganhasse em média 6000 contos/ano (e não ganham, em média, nada que se pareça, pois a maioria não irá além dos 3000/ano!!!!), teríamos capacidade com essas horas extra de contratar 500 médicos (full-time!!!) para fazer esse trabalho ou seja teríamos quase uma equipa B do hospital.
2. Se pagam 3 milhões de contos de horas extra, o senhor Ministro anda enganado quando diz que há médicos a mais. Ou não será evidente? Horas extra, é porque os quadros não chegam para assegurar o serviço ordinário...
3. Como contribuinte, exijo que os gestores comecem a gerir... até porque hoje os trabalhadores que recolhem o lixo nas ruas do Porto iniciaram uma greve, porque parece que é ilegal pagarem-lhes um suplemento pelo trabalho que fazem. Explicando melhor, geralmente ganham cerca de 500 euros por mês dos quais 25% são o tal excedente ilegal... Portanto, Rio e companhia decidiram cumprir a Lei e querem pagar-lhes 375 €/mês. Depois não se admirem se o lixo se acumular e eles começarem a fazer fogueiras na cidade, mesmo antes do S. João. É que com estes chorudos vencimentos legais, a malta não tem dinheiro para o aquecimento central...

domingo, novembro 27, 2005

Fundos seguros ou seguros ao fundo

Vivemos no tempo do horror à segurança social. Segurança nos tempos actuais significa empresa privada de protecção contra os vizinhos dos subúrbios. Social já quase nada significa. Segurança social é algo de que Estados e Empresas se tentam livrar de qualquer forma. Será que já não desejamos estar socialmente seguros? Por mim, apesar de tudo, fico algo inseguro com notícias de fundos Seguros como esta de hoje do New York Times. Mais mecanismos de geração de dinheiro sem produto, sempre me deixam inseguro e com receio de ir ao fundo, seguro... e ficar seguro no fundo, ancorado, sem respirar

sexta-feira, novembro 25, 2005

O pesadelo americano

Parece um filme ao contrário. Enquanto nos vendem de forma obsessiva o sonho americano, imagine-se que alguém, decide fazer um retrato de um pesadelo, estilo o homem auto-desfeito. Uma história de insucesso (provavelmente a única naquele sacro país) em que um jovem cria um par de sapatos que se vem a revelar um grande par de botas: mil milhões de dólares de prejuízo. O sucesso, subitamente terminado. Logo no início do filme, quando um camião faz marcha atrás sobre nós, despejando-nos em cima o sucesso recusado, o fiasco.
Curiosamente, é também a descoberta de que há mais mundos. Um filme que vale todos os minutos.
Um pesadelo num dia que celebra outro há 30 anos. E sempre se descobre outra saída, algumas duram mais do que outras a perceber, porque nem sempre alguém nos faz um roteiro.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Mediquês

Colesterol, quanto menor, melhor - o título da conferência.
Mensagem:
Os ensaios clínicos, randomizados, enfatizam a necessidade de baixar o colesterol de forma reduzir os eventos coronários. O racional desta afirmação é tirado das conclusões da avaliação do folouape (?) de doentes e passa a incorporar as gaidelaines (?) das Sociedades ....
Não foi bem isto que ele disse, mas disse assim.

terça-feira, novembro 22, 2005

Os limites da prescrição

Mulher, 37 anos, vem à consulta por execsso de peso. Refere que tem aumentado de peso desde os 22, altura em que casou. Questionada, refere que foi também essa a idade em que começou a trabalhar fora de casa. A fazer o quê? Manipuladora de frangos. Eu também não sabia o que isso era. Informou-me que consiste basicamente em matar os pobres dos bichos. No caso dela fá-lo de noite, desde as 2 da manhã, por vezes até ao meio dia. Doze horas seguidas. Sem se mexer, com tempos limitados para ir à casa de banho. A linha dos frangos pendurados não pára, senhor doutor. Informo-a de que as hormonas estão bem, felizmente. Que fazer? Percebo que não é normal recomendar-lhe que não esteja mais de 3 horas sem comer, que sempre pode comer uma peça de fruta (com as luvas cheias de sangue de frango? imagino), fazer exercício? ao fim de 12 horas de linha de depenagem, a ver passar frangos pendurados pelas patas? Tenho dó e contenho-me sem soluções de prescrição. A que teria para lhe dar, dir-me-ão que não é ética, por isso me contenho. Mas fico com alguma coisa atravessada.

domingo, novembro 20, 2005

Os números e a guerra


Não é por causa disto....


















nem por causa disto sequer, que se deve pôr em causa a participação numa Guerra. As razões para se fazer uma guerra, são seguramente outras e prendem-se com o que se acha serem os riscos que corremos e a justiça de os corrermos. Depois, há que ver no «nós», o que diz nos diz respeito, realmente. Até que ponto o majestático «nós», não diz respeito exclusivamente a alguns, a «eles», que, por terem o poder falam por nós. Não é por se poder morrer que se não vai à guerra, mas deve ir-se só quando se percebe, realmente, por que se vai.

sábado, novembro 19, 2005

Pedras


Também se pode ser pequeno na desgraça. Mas é a isto, que os Impérios reduzem os seus mortos, sob a capa hipócrita da dor. Chamam-lhes os maiores de entre todos, na esperança garantida de que outros mais se disponham a defender (nem eles sabem o quê) a perpetuação dos seus domínios.
Um morto é um drama muito grande. Para alguns, seguramente, não passarão de mais uma pedra cravada no relvado. Por cada uma, pergunte-se, se terá valido a pena. (Imagem: A sementeira do Império - colhida em Arlington, Washington)

sexta-feira, novembro 18, 2005

Os bons e os maus

Ao fim de quatro dias de tentativas consegui suspender o plano 200 minutos que tinha acordado com a PT. Esta empresa privada, que na sua origem teve a mão do Criador, esteve todo este tempo com um sistema informático avariado. Seria de esperar que isso fosse possível em qualquer empresa do Estado, nunca numa empresa cotada na Bolsa. Realmente, desde que aderi à Tele 2, gasto uma ninharia de minutos na PT e estava a pagar o plano na totalidade. Este plano tinha sido contratado numa altura em que o sistema informático funcionava na perfeição e quando tinha bastado um telefonema (deles) para aderir com a garantia de que sairia em qualquer altura bastando um novo telefonema. Mas a natureza das coisas mudou, há coisas que entram bem, mas as saídas são muito mais complexas, sobretudo quando os sistemas informáticos não funcionam. Mas por que será que uma empresa desta dimensão tem sistemas tão frágeis? Terá?
Mais uma notícia de hoje em que fica bem demonstrada a incapacidade do Estado e a boa fé e excelência dos Privados.

Gente sem dúvidas

A economia estagna. Professores, médicos, enfermeiros e até militares são os grandes responsáveis desta crise. Felizmente, temos um Só Sabe Que Nada Sabe, que vai pôr ordem nisto. Passa 24 horas por dia a meditar sobre o assunto, por isso raramente se vê. Tem uns papagaios para dar as notícias enquanto pensa sem parar. O problema dele é que nem sequer sabe que nada sabe e a tal da Economia depende mais dos nossos empresários (que são do melhor que há...) e muito menos dos funcionários públicos (que são uma corja inqualificável). Por isso, apesar do pensamento, a coisa não funciona. Até porque o pensamento também tem défice. No seu lugar, qualquer tipo medianamente inteligente, ficaria preocupado com o apoio ao Orçamento e à Política Económica por parte de Manuela Ferreira Leite e outros superinteligentes. Daria pelo menos para desconfiar do rumo ou não será verdade que quando os nossos adversários nos apoiam tão entusiasticamente estaremos a ser pouco eficazes?

quinta-feira, novembro 17, 2005

Segurança necessária

Anda sua Exa apressado e depois despista-se nas contas. Anda a precisar de ir ao oftalmologista o senhor Ministro que vê médicos a dobrar. Onde vê 59, afinal só há 30...
Sua Exa até deve saber destas coisas da Saúde e nós também sabemos que as coisas poderiam estar bem melhores. Não é bonito é deixar-se ir pela tentação de se atiçar contra os trabalhadores para dar bom ar para a populaça. E se realmente sabe destas coisas, crie as leis, os mecanismos que tornam a Saúde um negócio apetecível. Seja empreendedor. Aqui bem perto do Hospital que o senhor diz ter mil pessoas a mais, erguem-se hospitais como cogumelos em bosque molhado; diariamente, basta ouvir rádio para ver como nos querem tratar da saúde; toda a banca e seguros a investir alegremente e, como é óbvio, não o fazem para perder dinheiro. Este sector é rentável! Desenvolva as condições para que o seu sector seja competitivo, criativo e gerador de receita e não o ataque, não o destrua, para dar lugar à concorrência. A República precisa de um Serviço Nacional de Saúde de qualidade, competente e prestigiado com gente empenhada em defendê-lo contra as iniciativas do capital privado. Há gente a mais, talvez. Possivelmente, muitos dos que gerem hoje os seus serviços já com a ideia de destruindo-os, desacreditando-os, poderem amanhã instalar-se ao serviço dos privados. Estão, obviamente, a mais. Que fazer? Acabar com a promiscuidade, criar dois sectores concorrenciais e que ganhem os melhores. De outra forma, uns irão ter saúde com os seguros que vão pagar, os outros ficarão à porta por não estarem seguros. Segurança é preciso!

quarta-feira, novembro 16, 2005

Relatório breve sobre taxas moderadoras

Introdução
Andam a dizer que vão aumentar as taxas moderadoras. Será verdade?

Objectivo:
O senhor Ministro é que sabe qual é.

Métodos:
Ir ao google e escrever: taxas moderadoras correia de campos.

Resultados:

2005-04-12 05:50:55
Governo não vai "mexer" nas taxas moderadoras
O Ministro da Saúde garante que o Governo não vai mexer nas taxas moderadoras. Correia de Campos, em declarações à TSF, disse sem margem para equívocos qual a política do Governo nesta questão.
O desmentido de Correia de Campos surge, depois de ter dado uma entrevista à Rádio Renascença, em que a hipótese de subir as taxas moderadoras nos casos de falsas urgências foi noticiada.
Agora o responsável pela pasta da Saúde vem esclarecer, em declarações à TSF, que a única coisa que referiu foi um exemplo teórico de difícil execução.
«Não há nenhuma intenção de a curto prazo fazer qualquer mudança. É uma ilusão completa pensar-se que as taxas moderadoras podem financiar o sistema de saúde», explicou.
«É um exemplo muito difícil de operacionalizar, só se pode realizar quando os cuidados de saúde primários estiverem em contacto com os hospitais em permanência e quando for possível os hospitais conseguirem marcar por computador no dia seguinte a visita ao centro de saúde», acrescentou.
«É uma especulação completamente infundada, sobre um exemplo teórico, concluir que o Governo está a preparar medidas, não está, ponto final parágrafo», rematou ainda Correia de Campos.

Conclusão:
Cada um que a tire... que eu já tenho dito que a moeda tendo duas faces, não deixa de ser a mesma

A comissão é para não fazer nada (haja lucidez)

A comissão procura fazer uma reforma. Analisa-se o problema e é fácil chegar-se aos diagnósticos. Como somos conhecedores, a terapêutica é relativamente fácil. Basta importar o que já foi testado. É a vantagem de ser português, vir-se do atraso. Basta copiar, a inovação é dispensável nas reformas. Definem-se os critérios de actuação com alguma facilidade. O problema surge depois, quando se vai perguntar às pessoas que dirigem o sistema no terreno se querem mudar de acordo com a esperteza que acabámos, unanimente, por definir. Claro que não! Mudar? Ninguém quer mudar, excepto os bébés que têm a fralda molhada (Mark Twain). Pois é, isto está tudo mal, define-se a mudança, mas ninguém quer mudar. E não vale a pena tentar impôr, que o país é pequeno e andamos todos nos mesmos baptizados e casamentos. Há sempre a possibilidade de chegar onde se decide e dizer-se «vê lá, não me lixes!» (sempre com algum sabor de ameaça velada....).
E assim vamos nós, hoje com 430000 desempregados (7,7%!!) e um Ministro, politicamente correcto, a afirmar-se preocupado. Mas afinal a culpa é da nossa amiga Economia, que não há maneira de despertar... Será que os sucessivos Governos não têm tido Ministérios da Economia e das Finanças? É que dizem estas coisas com um ar tão cândido que até parece. Há quantos anos andamos nós nesta dança PS-PSD? Haja vergonha!!

segunda-feira, novembro 14, 2005

O Pro Cavaco

O candidato Cavaco voltou a afirmar o seu não profissionalismo na entrevista de hoje. Mas enquanto afirma uma coisa, confirma outra. Não dizendo nada de substancial, o homem fala, sem falar. Faz de conta. Faz de conta que é amador, mas, profissionalmente, seguindo um guião bem estabelecido pelo marketing, representa o não profissional e, sobretudo, não se compromete com coisa nenhuma. Populisticamente, faz o discurso anti-político; objectivamente, é o mais político possível e de forma profissional: quem vai à frente na política, deve jogar para o empate da coisa, nada de ataques, jogar para o lado ou passar ao guarda-redes, é a táctica. Assim fez ou outro profissional, o Sócrates, e deu-se bem. Assim, está este a fazer, esperançado no resultado. Comportam-se como raposas escondidas na toca. É preciso tirá-las de lá. Se não as obrigarmos a mostrarem-se, só damos conta delas quando virmos a falta das galinhas na capoeira. Aí já é tarde e neste caso são pelo menos cinco anos de espera.
Começa a ser urgente combater a depressão deste país e esta campanha triste. Alegremo-nos!

domingo, novembro 13, 2005

Instantes

Sempre me surpreende o aparecimento das nuvens brancas no céu azul intenso, depois dos instantes de nuvens carregadas cinzento escuro na iminência da tempestade. Passa o vento, passa o frio e fica-se num novo gozo de sol tranquilo, na certeza, porém, do regresso da tempestade. Mas apetece prolongar o momento de sol, tranquilamente...

Fico subitamente espantado sempre que acontece olhar aqui em baixo e perceber que afinal é um dia antes. Pois, 14 é só amanhã. Ganhei um dia. :)

quarta-feira, novembro 09, 2005

Dúvida

De Agosto até agora, o crude baixou 15%. Ora segundo uns registos que aqui tenho, o gasóleo está actualmente cerca de 26% mais caro do que em Agosto... Estou a ser roubado, não é? E no Estado de direito, já não se prendem os ladrões e querem que nos sacrifiquemos?
-O quê? O Estado não é de direito, mas de direita? Não há direito...

terça-feira, novembro 08, 2005

Concursos

É possível que escolher objectivamente a qualidade seja uma impossibilidade. Há sempre subjectividade na decisão, o que é qualidade para um, é-o menos para outro. Portanto, o critério de escolha é necessariamente não universal. Parece-me, pois, que este mito da objectividade na selecção de candidatos é apenas isso, um mito. Por mais voltas que dermos, sempre que escolhemos pessoas, são os critérios subjectivos ou emocionais, muito mais importantes que os critérios objectivos e racionais.
Esta fixação dos concursos públicos na objectividade (que tem por trás a noção de justiça) é um risco para os sistemas e para as pessoas envolvidas e nem o recurso a grelhas de características diversas, por mais variados que sejam os critérios a avaliar, resolvem o problema da subjectividade e as inerentes injustiças associadas. Muitas vezes, o problema nem se põe. O que se trata nesses casos é de fazer uma grelha que coloque em primeiro o candidato que se escolheu antecipadamente. É o faz de conta que tantas vezes acontece. Na verdade, o problema só se coloca quando se procura ser objectivo e imparcial. Aí percebe-se que se está a pedir o impossível.
Fazer escolhas em concursos públicos é quase como se fossemos escolher uma mulher para casar com outro. Se gostamos dele, procuramos alguém de quem gostamos, se não gostamos, seleccionaríamos a que achassemos pior. Só que isso seria sempre de acordo com os nossos objectivos e nunca com as necessidades do contemplado. E depois da escolha feita, lavamos as mãos e vamos à nossa vida. Esta ausência de consequências pessoais da escolha que fazemos é que é preocupante para o sistema. Já que a escolha terá sempre critérios de subjectividade a dominá-la, ao mesno que sentíssemos, no futuro, as consequências da escolha. Como quando seleccionamos a mulher com quem vamos viver. A escolha pode não se vir a mostrar a mais acertada, mas na altura em que foi feita, foi a mais honesta possível e o empenhamento na selecção foi total. E, curiosamente, os critérios que usámos foram quase todos subjectivos.
Em resumo, era bem mais honesto e justo que os directores de serviço, simplesmente, escolhessem os seus colaboradores e depois tivessem as consequências das escolhas feitas. Inclusivamente, optando pelo tipo de concurso que melhor achassem conveniente. Se a escolha fosse certa, o serviço produziria, ele continuaria a dirigi-lo. Se as escolhas fossem erradas, sofreria as consequências. O processo ganhava transparência, o sistema público, afinal, usava métodos de selecção usados nos privados, onde ninguém os contesta. E era fácil de implementar isto. Era só garantir o que a lei preconiza, a exigência de os directores o serem em comissão de serviço por 3 anos, com possibilidade de substituição caso não tenham cumprido ou haver outro com melhor programa para o triénio seguinte. Legislam, legislam e não cumprem nada!

segunda-feira, novembro 07, 2005

Que bestas!

Há agitação em França? É o resultado do estar social europeu. Nestas coisas o JPP é genial e transparente. Há agitação em New Orleans? A culpa foi dos tipos de esquerda da Europa, que aproveitam todas para se atirar ao Bush.
Adoráveis estes nossos comentaristas políticos, professor Marcelo incluído! A objectividade sempre como espuma que esvoaça no discurso.
Abençoado liberalismo que terminará com todos os males do mundo. Afinal, foram as preocupações sociais que marginalizaram das cidades estes tipos, que os desempregaram, que lhes tiram a esperança. O liberalismo tudo lhes tem dado, só que eles são uns ingratos, uma escumalha, uns burros que nada entendem. Umas bestas! Que cada um identifique as bestas deste processo.

domingo, novembro 06, 2005

Pelos últimos dias

Finalmente a pausa para reflectir ao fim de três dias de entorpecimento executivo.
A obesidade foi o tema de três dias de trabalho de manhã até à noite, que agora quase começa às 5 da tarde. Mais do que a chuva, isto chateia-me no Inverno, os dias curtos.
Durante 3 dias pretendi que algumas pessoas reflectissem sobre a obesidade. Fiz-lhes um programa, que teve mais de metade do tempo para pensar sobre o problema e uns intervalos vespertinos para publicidade que garantisse o tempo das manhãs.
Ainda não percebi a razão por que as reuniões marcadas para as 9 horas têm sempre de começar depois das 9 e meia. Logo isso começa a chatear-me. Mas enfim. Pior que isso é a incapacidade de reflexão. Há qualquer coisa que bloqueia as ideias, que não deixa ir além do óbvio. É claramente, óbvio, que a obesidade está a ter um crescimento absurdo neste mundo globalizado e que esta crise surgiu no últimos 15 anos. Logo, a genética está inocente nesta epidemia. É o ambiente, estúpidos! É, igualmente, óbvio que é a alimentação e o sedentarismo que leva ao problema. Vai daí, a receita até é fácil: melhor comida (menos energia ingerida), mais exercício (mais energia consumida) e toda a gente com obesidade começaria a emagrecer. Só que os gajos são estúpidos e não se portam bem. Deve ser só para chatear os médicos! Os obesos e os pais dos obesos, que esses são outros monstros que passam o tempo a atafulhar os seus filhos de açúcar e batatas fritas. Cambada de preguiçosos e pais negligentes que só lhes dão comida junk. Portanto, para maioria destes crânios, vamos continuar a fazer recomendações, a educar as pessoas (Oh, como gostam de educar a populaça!), a dizerem-lhes para irem cozinhar e fazer corridinhas (de preferência com ténis de marca ou no Ginásio da moda lá da zona). Ok, só que as pessoa há mais de 15 anos, só porque são estúpidos até à última potência, não fazem nada disso e continuam a engordar que nem porcos.
Quando se tenta ir à causa das causas da obesidade, a coisa fica turva. Para mim e até me provarem o contrário, a coisa passa-se assim: 1) é preciso dar cabo daquela sensação chata que nos pede para comermos, aquilo que todos mais ou menos conhecemos; 2)até sabemos que uma pera, seria melhor que uma merendinha lá no bar, mas não há pêras no bar e até não houve tempo ontem para ir comprar fruta ( a mercearia do bairro tem-na mais cara que no supermercado e este foi morar para longe), logo comemos aquilo que há; 3)depois uns franceses e uns americanos, fizeram umas contas e mostraram com toda a clareza que os açúcarados e as gorduras são bem mais baratos que as frutas e os bens da horta, logo, para resolver o problema da tal sensação, o mais sensato em termos de racionalidade económica é mesmo comer aquilo que se não devia comer; 4) isto é o que faz quem conta os euros, os outros até têm empregada para ir ao supermercado comprar o que devem. São os que engordam menos, claro, que isto da obesidade também é privilégio dos mais pobres; 5) são os mesmos que andam diariamente sentados nos carros em filas pelas ICs 19 e que tais ou de pé nos transportes públicos e perdem nisso todos os dias umas 3 horas e depois não têm o tal tempo para ir fazer jogging... (e fazem bem, porque lá nos sítios onde vivem, ainda lhes tiravam as sapatilhas e tinham de ir descalços o resto do precurso até casa); 6)é que os gajos até nem são estúpidos, não têm é dinheiro!
O exercício dirigido à inteligência de todos os crânios que meditam é mais ou menos este: Por que terão eles que morar nas periferias? Por que não têm maiores salários que lhes permitissem escolher melhores alimentos? Por que só têm 1 hora por dia para estarem na cozinha? Ou de outra forma, por que será que o crescimento da Dona Economia, não lhes melhora as condiçõe sde vida? Pois, enquanto o fosso continuar a aumentar, a epidemia aumenta e o vírus que a causa (o capitalismo, neo-liberalismo) prolifera. E vai afirmando que a culpa é das pessoas, elas podem escolher (ouvi isto duas vezes neste Congresso!!!). Não podem nada escolher, ou ainda não perceberam que ter as montras da Hermès não aumenta o poder da escolha a ninguém. Essa opção será só para os mesmos de sempre, eles é que poderão escolher e escolhem pelo bom, como os outros também escolheriam se pudessem. Mas não podem! Conseguiu ser surpresa para mim, que até nesta coisa simples da obesidade, a luta de classes afinal ainda continua a existir. De um lado a Indústria alimentar a berrar a liberdade de escolha e a impossibilidade de proibir regulando, do outro os que não beneficiam com a batata frita a berrar pela legislação proibicionista e reguladora. Proibir a publicidade à junk food, a existência de lojas de comida rápida num raio de distância das escolas, as máquinas de vendas de comida em escolas e locais de trabalho, por exemplo. Regular, manipulando preços de comida, taxando a má comida, subsidiando a boa. Mais Estado, obviamente! E até estou optimista, pois, a despesa com a obesidade promete ser tanta que até o Estado vai estar condicionado a intervir. Pode é ter de ser com outros actores, mas mesmo com os actuais, a coisa promete.
Mas sente-se que este combate é desigual. De um lado, uns que não têm capacidade de marketing porque nada ganham com o investimento publicitário, do outro os todo-poderosos para quem os custos dos anúncios são um factor gerador de maior poder. Poderá o Estado perceber o problema e investir limitando a ganância dos poderosos de agora? Aí começará a controlar-se a epidemia, atacando o vírus, matando-o. Mas não há outro caminho.

Foi curioso passar pela SIC a dizer estas coisas. Foi curioso, perceber que aquela imagem cativante dos estúdios que nos mostram em casa, é afinal um espaço escasso, frio, quase um armazém de paredes negras a toda a volta, exceptuando o que está na frente das câmaras. E viver aquele frenesim, aquela falta de tranquilidade. Perceber, finalmente, que de cada vez que falei da casa das causas a pobre jornalista sentia uma necessidade incontida de passar à frente para outro tema. Foi bom sentir-me incómodo.

terça-feira, novembro 01, 2005

Nem amadores, nem maus profissionais, s.f.f.

Isto tem tudo andado tão sem sabor, que nem apetece escrever. A campanha eleitoral vai andando sendo o facto de maior realce o elogio do amadorismo feito pelo professor. O homem assume-se como não profissional, logo será amador. E faz o elogio dos políticos amadores. A crise vai grande e, finalmente, começa a perceber-se a razão: temos sido governados por amadores. É o que dá! Só que também já chega, agora é necessário alguém que na política, seja político. Mas cuidado, isso não basta. Além de ser profissional deve sê-lo de uma política que interesse, porque do que menos precisamos será de um político profisional ao serviço de uma política errada.
Parece que os transportes públicos aumentaram hoje 4%. Nós os que andamos de carro, teremos de concordar que esta foi mais uma medida popular (foi para o povo, né?), do senhor engenheiro. Este parece ser profissional, a política é que é a errada.