sexta-feira, abril 30, 2004

Impressões na sede do ex-Império

23-4-04
Janto no Transatlântico a pensar noutro jantar em que me apetecia estar, lá junto ao Atlântico e em boa companhia.
A Itália do sul surge depois de algum atraso por tempestade na chegada a Munique. Cheguei a um estado em que andar às voltas no ar não me preocupa minimamente. Tudo vai correr bem como sempre.
Por que será, então, que me preocupa manter esta economia do olhar e evito o esbanjamento consumista das palavras? É muito melhor olhar o sol a pôr-se vermelho por cima da asa do avião e a recortar de vermelho os contornos das nuvens do que participar na conversa estafada da comida de companhias aéreas ou das últimas compras de limoncello. Mas, de qualquer modo, às vezes até apetecia ser diferente. Refugio-me no La Republica, onde fico a saber que em Itália, tortura é só da segunda vez. Agora, a polícia pode usar meios menos convencionais com alguém, porque por uma lei deste governo, tortura implica a ideia de repetição. À primeira vale tudo! Estes italianos são loucos!
Mas os médicos vão manifestar-se na rua, amanhã, pela defesa do Serviço Nacional de Saúde.
Tinha uma vaga ideia de Sorrento. As casas penduradas escarpa. Desta vez posso ver o mar aqui por baixo da janela do quarto. É noite e o Vesúvio dorme sossegado do outro lado da baía.

24-4-04
Herculano fica a cerca de uma hora de comboio de Sorrento. Na fila para o bilhete de comboio, uma americano exige o money back, porque o autocarro não chega há uma hora. Os comboios pinchados e com ar suburbano, de outros tempos, funcionam a horas (melhor, aos minutos). Têm excesso de música ambiente, de crianças a tocar acordeão e outros saxofones bufados por alguns com ar de desemprego que não promete terminar aos cinquentas anos. Nos placards de rua, Berlusconi, lembra-me Santana Lopes, anunciando a obra feita. Cada vez mais me parece que devia ser vedado aos políticos comprarem espaço com o dinheiro dos impostos para propagandearem a sua acção. É um insulto à inteligência.
As ruínas da cidade, menos imponentes, mais limitadas que as de Pompeia, são ainda assim, curiosas. Mais não seja pela novidade de as casas chegarem a ter 3 pisos. A visita é rápida pela necessidade do trabalho que espera.
Sente-se a pobreza destes sítios. Nos olhos dos miúdos, na forma de vestir a lembrar-me a minha terra alguns vinte anos antes. E a desordem urbanística total e o trânsito caótico com sinais luminosos possivelmente para colorirem as cidades. Só para isso, que, por aqui, ninguém os vê. Estou snob de civilização.
Mas gosto de ver toda esta roupa estendida nas varandas, a apanhar sol. Um hino do sul onde a roupa vai respirar depois de dormir.

25-4-04
Desencantam-me estas companhias que passam por este dia, meio envergonhados com a lembrança, como se nada tivesse acontecido. É bom lembrar, ainda que sozinho.
Há 30 anos era dia de ir ver a nota de Anatomia Topográfica. Era, mas não foi. Foi dia de estar de orelha no rádio e depois na televisão espreitando a vida que começava a acontecer lá fora. Já perto da noite, foi quando comecei a ir à rua comprar jornais e o República anunciava que não estava censurado. Havia caras novas nas pessoas da rua ou era a minha forma de as ver. Alguma descontracção de irreversibilidade depois de, ainda a meio da tarde, uns rumores terem falado de GNR a resistir. Mas foi irreversível, apesar de à noite, uns quantos generais terem aparecido a prometer Evolução. Tiveram apenas uma vitória transitória como são todas as que contrariam o sentido da história (mas houve uma que durou mil anos!). Há pois que ter cuidado, que eles continuam a andar por aí e até já fazem que alguns se envergonhem da lembrança.
A tarde serve para uma redescoberta de Positano com tempo para fotografias antes de mais uma cerimónia gastronómica. Cansativos estes dias de conversas ocas.

26-4-04
Há dias assim, predestinados para uma coisa e sai tudo diferente. De manhã, espreitando pela janela, o mar lembrava-me Peniche e a travessia para as Berlengas. Não, não me pareceu boa ideia ir a Capri. O Vesúvio, ali do outro lado, pareceu-me mais sensato.
No meu comboio já familiar até Herculano. Lá, logo à saída da estação, tive de esperar quase uma hora pelo Blue Bus, que trepa pelo monte, numa estrada alpina, em esforço na subida. Nas margens da estrada, a terra é pedra pomes cheia de vegetação, duma verdura reconfortante depois do fogo. O Blue Bus tem uma primeira paragem onde nos entra pela porta um simpático velhote de 70s, que num inglês perfeito, pergunta se alguém fala italiano. Não, ninguém, mas todos estávamos prontos para o ouvir em inglês. E conta-nos a história dele, do guarda do Vesúvio. Andrea De Gregorio viu o vulcão explodir em 1944, ainda jovem. Depois, em 1952, foi destacado para lá e isso permitiu-lhe fugir à fome que diz imperava por estas bandas. Criou uma loja de vendas de recordações e ali ficou a receber turistas de todo o lado, entrando pelos autocarros. Mostra-nos o local onde existiu o funicular que fez existir a Funiculi funicola, a canção popular napolitana, e depois o teleférico, acabado quando um raio o partiu. Pensou-se na reedificação o teleférico, mas foi então que uns tipos do greenpeace acharam que o impacte ambiental era excessivamente negativo. Por isso, actualmente algumas centenas de autocarros vão para cima e para baixo a bem do ambiente. E nós, pobres curiosos, depois de o autocarro subir mais um pouco, contornando um rio de lava até chegar ao parque final ladeado de bares e tendas das vendas habituais nestes casos, temos de trepar durante um quarto de hora um caminho com 14% de inclinação para chegarmos à beira da cratera e ver uns fumitos do bicho que dorme 8 quilómetros por baixo, perturbando o sono de algumas centenas de milhar de habitantes lá em baixo, nas margens do golfo de Nápoles que se avista daqui de forma única. Mas Andrea, que vive ali há 52 anos, garante que o Vesúvio está tranquilo, ele que já o viu zangado. Tem um ar tranquilo, este Andrea. Mas gostava que o teleférico viesse.
Depois é a descida até ao parque de estacionamento, onde, incautamente, o alívio da bexiga distendida custa nos WC pré-fabricados de plástico a módica quantia de 1€. Mais vale, por esse preço, descer mais um pouco até ao bar, beber um café e ir tranquilamente à casa de banho... antes de tomar o Blue que vai serpentear encosta abaixo fazendo as curvas todas na contra-mão, em tangentes aos pares com que se cruza, obrigando ao recuo dos carros pequenos que sobem. Um verdadeiro festival de condução napolitana.
Quando chego ao Hotel, fico contente por hoje não haver jantar programado. Apetece-me ficar aqui na varanda, ao pôr do sol, a olhar o Vesúvio que se vai apagando lentamente até amanhã. Um barco de cruzeiro apita na partida, estragando o instante. O mar está calmo, para me levar amanhã até Capri?

27-4-04
Acabou a reunião, duas horas antes para mim para estar a tempo no jetboat que me levou a Capri neste dia quase de Verão. A viagem neste barco dura 20 minutos durante os quais a península de Sorrento vai desaparecendo à esquerda e surge em frente Capri como um tricórnio. Deste lado da ilha, a paisagem não impressiona, são simplesmente casas brancas, banais dispostas pela encosta acima. Antes de sair do porto sou vítima de publicidade enganosa: Visite a gruta azul 8€. Na bilheteira, um aviso breve de que não inclui o barco a remos para ir à gruta. Isto é, não se trata de visita à gruta, mas da viagem até ao barco a remos que vai à gruta. A viagem faz-se ao longo da parede da ilha e à chegada uma multidão de barcos destes, aguardam a abordagem de pequenos barcos a remos para onde saltamos e vamos de cú no chão por motivos que daí a pouco iremos perceber. Com sorte fiquei na proa, sozinho. O par da popa teve prémio de uma americana jovem para aí com uns 120 kg... It’s cold in Ontario! Já no barquito a remos lá nos leva o barqueiro até outro barco maior, onde somos abordados para comprar o bilhete de ingresso (4€) e os serviços do barqueiro (4,3€). Achei piada que ele ainda se fez ao troco! Pois então são 8,3€ para entrar num buraco, onde subitamente ficamos às escuras até que as pupilas se adaptem e comecemos a ver a água de cor azul turquesa. Depois, em não mais de dois minutos, damos uma volta para nos dizerem que o Tibério ia ali tomar banho e ainda temos tempo de ver que a reflexão da luz na parede branca da gruta a pinta de azul num breve instante antes de sairmos. Na pior das hipóteses este barqueiro ganharia 100€/hora, muito acima de um especialista hospitalar em tempo completo prolongado. Claro, que quem ganha é o dono do barco (essa é ainda uma hipótese pior). Isto durará há muito tempo? Não sei, mas para os que lerem e para mim (si retornare a Capri) gruta azul nunca mais! Regressemos à Marina Grande para ir ver Capri.
Foi bom comer tostone, uma tosta mista com mozarella e tomate, no Caffe Caso na Praça Umberto I, uma das esplanadas francesas que ocupam a praça toda deixando um corredor ao meio para os turistas chocarem uns com os outros. Combustível suficiente para dar um passeio primeiro por uma viela desabitada, à direita de quem entra na praça vindo do elevador, onde os gatos comem restos de comida de turista (cuidado bichos que ficam gordos). Arcos e portas de madeira, mas sempre a descer a convidar ao regresso à praça, que nunca se sabe até onde se desce...
Da próxima desci pela ruela da esquina da praça e fui-me deixando andar. Um mundo diferente, cheio de turistas, barulho e hotéis, que são anunciados pelos guias como custando a noite 350€. Isto agora é moda por aqui, já há dias tinha ouvido outra falar com admiração destes preços. Já fizeram as contas a cada minuto de sono? Nem pensar dormir, companhia obrigatória. Já tinha visto numa imobiliária que alugavam casas em Agosto por 30000€ por semana.
Deixei-me ir em direcção aos Farilhões, uns pedregulhos espetados no mar como os das Berlengas. Junto deles um hotel onde Churchill e Eisenhower definiram os destinos do mundo. Ao menos tinham bom gosto estes tipos, não iam para uma base aérea metida no meio do Atlântico. E fumavam puros, eram gordos e pensavam. Os tempos têm recuos de vez em quando. E volto à praça de onde partem todos os caminhos. Agora em direcção ao Arco Natural (saída por um arco no meio de um prédio amarelo). É só seguir as setas, mas o caminho a certa altura parecia não terminar. Mas lá cheguei após novo susto de escadarias no fim do percurso sempre a descer, e muito!, e com ritorno pelo mesmo caminho. É um recanto repousante para depois da caminhada, com visão do verde do mar lá no fundo. A correr que o barco de volta é às 4.20. Cheguei a tempo com descida pelo descedor, que já não houve tempo para voltar a pé pela estrada ou por outro lado qualquer. Anacapri fica no segredo dos deuses ou das sereias. Que a guardem.


28-4-04
Era para ser um dia de viagem sem história.
Pela janela espreitei, recostado na cama do quarto, pela última vez, o Vesúvio a despedir-me dele e deixei-me ficar ali sossegado, enquanto o mar da baía mais parecia um lago por baixo da porta da janela. Acordei com sabor a domingo.
Chegados ao aeroporto, foi a festa. As imagens de Abril nas bandeiras vermelhas da CGIL e de outros sindicatos, os locais de check-in todos ocupados. Não há check-in, ninguém voa em Itália hoje, que os sindicatos desencadearam uma greve sem aviso. Os olhares da esperança e do saber da força descoberta. Sem eles, o mundo pára se for preciso. É isso que gritam os apitos, num coro de cigarras ensurdecedor sempre que alguém dá alguma informação nos altifalantes do aeroporto. A polícia de choque ainda chegou a aparecer, mas foi-se embora. Pelas 6 da tarde, a luta acabava por hoje. Amanhã irá continuar. Amanhã e sempre que eles quiserem. Tudo termina com um comunicado à população lido pelos grevistas. Será esta a via correcta, a das greves politicamente incorrectas?
A solução foi a deslocação do grupo para o aeroporto de Bolonha de onde, em princípio, partiremos amanhã. Uma viagem de autocarro pela Itália, por esta terra que também já foi Império. Pela auto-estrada fora, senti-me como se estivesse a passear nos States e, por momentos, imaginei que será assim que um dia se passeará nos EUA: com o sentimento de que aquela terra também foi, há muitos anos, sede de Império. Os Impérios acabam sempre. Com esta tranquilidade cheguei a Florença para uma noite de recurso no Villa Medici. 650€ por noite! Estes italianos estão loucos! E já não são só eles, pelos vistos.

29-4-04
Por Madrid até ao sossego de Lisboa. O retorno às imagens de que gosto ou a substância da saudade.


sexta-feira, abril 23, 2004

Intervalo

Intervalo por uns dias, com 25 de Abril pelo meio. A menos que, os hotéis da Europa tenham já dado o salto para a Internet por cabo.
Saiam à rua pelo 25 de Abril, sempre. Há um R necessário na evolução.

quarta-feira, abril 21, 2004

A banda maaazca

A obesidade é um drama de terras onde os dramas maiores da fome não existem. Pessoas bem adaptadas geneticamente para a privação, são actualmente confrontadas com a abundância e grandes poupadores que eram, aforram e distendem o seu capital de adipocitos. Sem perceberem, pondo ar de vítimas. São vítimas de quase tudo. Dos comprimidos, da água, dos nervos, das glândulas. Quase tudo, porque da comida que comem não são vítimas. Na verdade, não é a comida que nos engorda. Aliás, nem se percebe como comendo tão pouco, se aumenta assim de peso. Pois é, são apenas vítimas da genética e da alimentação idiota que existe a cada esquina.
Mas não se identificando o inimigo, o combate torna-se mais complicado, mesmo sem solução. Na verdade, as glândulas funcionam bem (por que raio continuarão a ir aos endocrinoilogistas?), a água não tem calorias, os comprimidos também não e os nervos coitados deles. Engordam só porque ingerem mais energia do que a que gastam. Ponto final! De maneira que a única solução é modificarem-se os hábitos depois de se identificarem os erros.
Mas não, ouvi falar na televisão de uma coisa, uma banda maaazca (mágica) que as pessoas põem e depois ficam magrinhas. Era isso que queria que o senhor doutor me pusesse. Para eu emagrecer e deixar de ter dores nas costas e melhorar da tensão e da diabetes. Ai se eu soubesse pôr bandas maazcas! Diga-me lá, minha senhora, como é que acha que a banda gástrica faz perder peso? Os olhos ficaram incrédulos, sem perceberem bem a pergunta. Será que eu não sabia o que é a maaazca (magia)? Então eu explico, essa magia é deixar de poder comer nas quantidades que fazem engordar, é ter um tirocínio de vómitos mais ou menos longo sempre que se tenta comer mais, é sensivelmente o que se propõe com uma dieta com baixas calorias. No fundo, nem difere muito de cirurgias ao estômago que se faziam sem propaganda televisiva. O grande avanço que justifica tais notícias é que o empecilho ao apetite agora é fabricado industrialmente e há uma pressão de vendas importante. E mais não digo, que não sou mágico (maaazco).

Notícias da TSF nesta tarde de chuviscos

Quando ouço perguntar, quais acha que podem ser as consequências das detenções do futebol para o país quando o Euro é dentro de 2 meses?, fico com a impressão estranha de se a pergunta não será, não acha que se devia ter adiado esta cena mais uns tempos?. Parece-me haver alguma tristeza nestes perguntadores. Mais uma vez parece que a táctica deve prevalecer sobre os princípios e aquela expressão, doa a quem doer, cai por terra. Tudo se submete a interesses circunstanciais, isto é a imagens que devem ser defendidas contra o que tiver de ser. Saber viver, assim chamado.
E fiquei a saber que à porta do Tribunal se distribuíam bonés de apoio ao Major (fraca carreira militar esta, major na sua idade não é muito...) e que o povo enfiava o boné e gritava, Major amigo, o povo está contigo. São imagens deste país e deste povo (exacto, tudo com minúsculas, exepto o Major, claro!)

segunda-feira, abril 19, 2004

Notícias a que temos direito

O título é Ministro nega epidemia. Assim lido fico sem saber se alguém a afirma. Na verdade, só faz sentido negarmos alguma coisa que outros afirmaram ou então estamos a falar de não-realidades. Ora se são não-realidades, não devem ou não deveriam ser notícias. E tudo isto parece que começou por ser uma notícia de um telejornal. Não fosse isso e seria como todos os anos tem sido. Mas é assim, não havendo notícias, haja desejos de notícia, suspeitas de notícias, qualquer coisa. Tudo menos mostrar-se a realidade, essa é demasiado chata e não é para nos chatear que existe a Informação. A função da informação pode muito bem ser fazer-nos sonhar, mais do que mostrar-nos a vida. Chomsky falaria em doutrinação, talvez.
E já agora se o Ministro diz que não há epidemia, é caso para ficarmos de pé atrás, que estes políticos, a gente já sabe como são... Daí o título da notícia nada tranquilizante.

domingo, abril 18, 2004

Fim de tarde na TVI

Foi divertido hoje ir à missa de domingo à tarde na TVI. O Bispo Marcelo, inspirado como sempre, mostrou como Bush e DB são inteligentes, o ministro da administração interna ingénua e os líderes de esquerda incompetentes. E nós seguimos em paz e que o senhor nos acompanhe. Ri-me um bom bocado. Recomendo.
Esteve razoável sobre o adenovírus. Afinal, o tal bicho já nos tinha visitado noutros anos, só que agora estamos mais despertos para o problema. Depois a tranquilização de que o problema não é motivo para alarme. Vindo dele o país vai passar a dormir tranquilo, já que a mesma afirmação feita reiteradamente pela Direcção Geral de Saúde é sempre suspeita. Este é o país onde o parecer técnico é sempre subjugado pela pergunta de um jornalista ignorante. A técnica é nunca esclarecer as dúvidas questionando técnicos, por exemplo, nas Universidades. Mais vale a opinião do primeiro transeunte que cai à frente do microfone de um jornalista inquieto.
E depois, nem sei a que propósito, aquela nota de rodapé a chamar a atenção para a ponte sob o Guadina. É o preço das políticas de baixos custos com pessoal. Em vez de pontes, temos túneis (informação subterrânea).

sábado, abril 17, 2004

Mais estupidez

Assassinado mais um líder palestiniano. Mais umas centenas de milhares de mísseis e o problema do médio oriente fica resolvido, pensa Sharon.

sexta-feira, abril 16, 2004

Basta de estupidez!

Hoje comecei mal o dia. Na TSF dizia-se que o DB tinha criticado o Primeiro Ministro espanhol por este admitir retirar as tropas do Iraque. E fê-lo em termos perfeitamente lamentáveis agora que já nem é jovem militante do MRPP. O fulano teve uma recaída e insinuou que o motivo da retirada seria tentar-se ficar mais imune a um qualquer atentado terrorista e que essa retirada não tornava a Espanha mais segura do que nós estaríamos mantendo os nossos GNRs por lá.
A história é outra bem diferente. Primeiro, que se saiba Zapatero e o PSOE sempre se manifestaram contra a entrada da Espanha na guerra do Iraque. Segundo, apresentatram-se às eleições com a promessa de retiraraem se o quadro da invasão não fosse entretanto alterado. Terceiro, ainda parece haver na política pessoas que depois de prometerem nas campanhas eleitorais, uma vez eleitos, honram as promessas feitas. É que ao votarem como votaram, os espanhóis, também votaram na retirada. Da mesma forma que os portugueses terão votado com a ideia de que os impostos iriam baixar, as reformas iriam aumentar, por exemplo. Só que uns cumprem, outros não. O que faz perder a cabeça ao DB é que os argumentos que o fizeram optar pelo seguidismo em relação ao Império, vão caindo um depois do outro. As armas de destruição maciça continuam muito bem escondidas e o célebre argumento de que alinhávamos com os nossos aliados mais antigos e os nossos vizinhos também começa a desmoronar-se. Realmente, alinhámos porque não somos capazesde ter perante os americanos, outra posição que não seja aquela em que se perdem as guerras. Por isso não escolhemos a posição dos franceses e alemães. Há que procurar um alinhamento europeu, a América fica longe e esta então é uma miragem até Novembro...
Finalmente, o que não pode admitir-se a um PM é que admita que as opções de participar ou não numa guerra sejam determinadas pelo cálculo dos riscos. As guerras são justas ou não e quando são justas todos os riscos são toleráveis e aceitáveis. Quando não têm razão de ser (como a actual) persistir no erro é simplesmente estupidez. O problema não é errar, é não aprender com os erros. Ainde se lembrará disto, DB?
E não se pode admitir que a estupidez possa pôr em causa relações entre países, que terão de ser vistas sempre com o chamado sentido de Estado. Sinceramente, para estúpido já nos basta ter que aturar o Imperador!

quinta-feira, abril 15, 2004

Globalização do feudalismo

Terá sido Deus quem pôs os ricos e os pobres na Terra? E de quem era o planeta, antes de cá chegarmos? O problema é que naqueles tempos não havia Conservatória do registo de Propriedade. A história de tudo isto anda a ser muito mal contada e está muito longe de ter chegado ao fim. Arqueólogos, precisam-se! É gigantesco o trabalho a fazer. Não é fácil perceber este crescimento, sim, o crescimento do afastamento entre um grupo cada vez mais pequeno de senhores e um grupo cada vez maior de servos. Esta globalização do feudalismo.
Nem sei a que propósito vem isto, talvez dos romances ou da falta de notícias. Ou da paz. Da paz da lucidez em que algumas vezes mergulho; seguramente não seria da que o Bin Laden nos oferece...

quarta-feira, abril 14, 2004

Para além dos trópicos

Nestes dias os raptos no Iraque já são banais, as pneumonias por adenovírus triviais, os discursos do Imperador simplesmente iguais. Nada me surpreende. Melhor mesmo é não ouvir notícias, olhas só para elas, todos os dias marginais à rotina. Mesmo bom nestes dias assim a leitura de um romance. Equador, só ele me causa alguma surpresa.

terça-feira, abril 13, 2004

Mistérios da minha terra

Parece que em Junho vamos ter o Euro 2004. Para ajudar os portugueses a comprarem os bilhetes para o Euro, o Governo anuncia para essa altura um aumento da pensão mínima de 2%, isto é para 212,16€. Está certo, conferi, é mesmo assim com a vírgula colocada no sítio certo. E pensaríamos nós que esta fortuna é o que ganha uma minoria muito mínima dos portugueses. Santa ignorância! A coisa atinge mais de 2500000 portugueses. Portanto, o investimento de 4 € por cabeça em mês de eleições até é capaz de ser razoável. Bem hajam os nossos grandes governantes!
Parece pouco, mas quase dá para o leasing do Mercedes que inclui revisões e seguros (500€/mês) Oh pai, 500€ não é muito dinheiro, pois não? E eu que ainda não tinha entendido por que se estavam a vender tantos Mercedes...

segunda-feira, abril 12, 2004

Rebeldes ou patriotas?

No fim do fim de semana, ouço com espanto no noticiário que neste dia os rebeldes iraquianos tinham atingido um helicóptero americano em Bagdade. Não recuam nos adjectivos os jornalistas objectivos que temos. Rebeldes são os que contestam o invasor. Noutras circunstâncias seriam o quê, patriotas? Sim, uns tipos que defendem o país deles da presença de um invasor, o que são, rebeldes ou patriotas?
Nota, estes rebeldes não terão dantes apoiado o ditador e não têm em seu poder, que se saiba, armas de destruição maciça. São apenas rebeldes como todos os que não gostam de hambúrgueres e coca-cola. Just that!

Diferenças

Lembro-me, vagamente, de umas semanas santas com muito roxo em que o tempo ficava cinzento a condizer com uns discursos de padres tenebrosos, os padres e os discursos. Desta vez, o sol brilhou e o céu ficou azul e o tempo frio. Só eu me constipei. Mas os tempos estão mudados.

sexta-feira, abril 09, 2004

Santa sexta-feira

Rigorosamente, todos os anos à sexta-feira a prolongar o fim de semana para 3 dias. Valeu-lhe, com toda a justiça, o título de santa.

quinta-feira, abril 08, 2004

Erro genérico do jornalismo

No Hospital de Lagos, morreram duas pessoas jovens, aparentemente sem grande justificação. A Inspecção Geral de Saúde concluiu, erro humano. A Ordem dos Médicos, fala de genéricos.
Ainda continuo sem perceber para que serve a Ordem dos Médicos. Afinal, a humana que errou já está suspensa e os genéricos em causa continuam a usar-se aparentemente sem que grande mal venha ao mundo. Mas alguma coisa me faz adivinhar que é a suspensão que vai ser levantada e os genéricos que vão ser suspensos.
E que tal informarem-nos depois de se ter esclarecido tudo isto nos locais próprios. Ou será que o jornalismo tem por função primordial pressionar os investigadores e não tanto o objectivo de informar?

Desta já me safei ou os outros que se lixem!

Que bom que deve ser para as famílias dos militares que partiram agora para o Iraque verem estes que regressam, quase, unanimemente, dizerem, para o Iraque nunca mais! Será que pensavam que iam só buscar tapetes? Custa-me a aturar este tipo de coisas!
Ainda assim, prefiro a história da mãe americana que foi lá ao quartel levar bolinhos ao filhote...
Pessoas, umas mais outras menos, todas vítimas de uma guerra idiota.

É o desporto, estúpidos!

É bom que nos informem, que saibamos as causas das coisas. Assim, ficamos mais tranquilos, ainda que fiquemos exactamente a perceber o mesmo que tínhamos percebido antes de sermos informados. A tranquilidade que dá saber que o Feher morreu porque tinha hipertrofia moderada do coração! Finalmente, vamos dormir mais tranquilos, pensando que temos uma hipotrofia do coração porque não fazemos desporto. E ficamos tranquilos de coração pequenino. Afinal, o nosso coração destreinado, minúsculo até pode ser uma vantagem. De vez em quando vem dizer-nos que o exercício físico é saudável. Mas cuidado, aumenta-nos o coração! Certas notícias, por contraditórias, deixam-me inquieto. Mas é só aqueles que como eu, sabem que o exercício físico aumenta o tamanho do coração. Do coração e dos outros músculos todos. A única coisa saudável, é rir. Rir com o ar com que os nossos pivots televisivos nos anunciam, com o ar mais sério deste mundo, que a causa da morte do Feher foi a hipertrofia moderada do miocárdio. Sem apontarem o culpado, eles que tanto gostam de culpar alguma coisa: é o desporto, estúpidos!

quarta-feira, abril 07, 2004

Pequeno contributo para mais uma teoria da relatividade

Arrepíamo-nos com 200 mortos em Madrid ou 3000 em Nova Iorque. Os meios de informação falam à exaustão do problema, repetindo vezes sem conta as imagens para engrandecerem a tragédia. Curiosamente, até me parece, pelo que vejo, que os 200 de Madrid são mais que os 3000 de Nova Iorque. A dimensão do drama varia geometricamente na razão inversa da distância. Temos esta sábia capacidade de relativizar.
Só por isso, há dez anos, tolerámos sem uma intervenção civilizacional o drama do Ruanda. Bem por isso, porque a maior parte das pessoas pensa que o Ruanda é noutro planeta e porque os líderes da civilização tinham já concluído que naquele lugar os recursos naturais não justificariam os custos de uma intervenção...
Um milhão de mortos é como se morressemos todos sem excepção em Lisboa, não é? Todas as ruas cheias de cadáveres amontoados. Bom, aqui era pior, porque o branco da pele contrastaria mais com o alcatrão.

terça-feira, abril 06, 2004

Atenção miúdos!

Vá, para vocês todos, os miúdos que têm a paciência de virem aqui, façam o favor de ler e divulgar o blog deste link. Há lá histórias que vocês não sabem. Já agora os mais velhos recuem também 30 anos e se puderem acrescentem mais alguma coisa. Como se dizia (ainda se diz?): 25 de Abril sempre!

O Cunha

Posso escrever o nome. Cunha. O Cunha é um dos protótipos do doente bem sucedido que fica incomodado com os deveres que tem para o seu médico. Chega a horas à consulta. Cumpre a medicação. Só a dieta é que não. Não haverá comprimidos que ajudem? Não, Cunha, só a sua vontade o ajudará. Mas gosta de comer e de beber também. O Cunha trabalha, empreendedor vai aumentando os empregados, mas acha-os sócios. Quase chora se a recessão o obriga a mandar alguns embora. O Cunha deve odiar a esquerda. E reconheçamos, certa esquerda pode ser odiável. Aquela que não tem a generosidade do Cunha. Uma esquerda cheia de direitos, desumanizada. Há de tudo. O Cunha é um português de sucesso. Tudo sem recibos. Economia livre. O Cunha é alérgico aos impostos. Um papelinho chega. O Cunha gosta de oferecer borregos pela Páscoa e para isso lá vai a esposa dedicada, de casa em casa daqueles de quem o Cunha gosta, distribuir o rebanho. O Cunha está na oficina. Um ritual anual. O Cunha é assim empreendedor e generoso. Doutor, quando arranja um consultório? O Cunha acha que isto da medicina no hospital é um mal menor sem deixar de o ser. Um consultório nas avenidas é que era.

segunda-feira, abril 05, 2004

As árvores ficaram brancas

Subitamente percebi as obras do parque de estacionamento das traseiras do hospital e mais aquilo que para mim tinha sido um mistério nos dias anteriores. Por que raio teriam pintado de branco as bases das árvores até à altura de perto de 2 metros. O parque estava vazio, mostrando melhor as árvores com as bases brancas. Seguranças do hospital, polícias de trânsito e outros cavalheiros bem mais altos e de óculos escuros olhavam em volta e sugeriam a procura de outros locais para estacionar. Depois soube que o DB estava de visita ao hospital. A pintura das árvores seria para ver melhor sacos e mochilas? Deve ser tramado passar diariamente por isto e pensar em toda a tinta que se faz gastar.

Fim de tarde

A delícia do Big Sur à portuguesa. Perto do fim da tarde pela costa de Torres Vedras até Sintra, com passagem pela Ericeira e pelo miradouro de Ribeira d'Ilhas. Vale a pena experimentar.

sábado, abril 03, 2004

O poder do povo

No meio do zapping, passei pelo concurso onde a jovem se confrontava coma questão magna de saber « segundo a Constituição da República, quem era o dententor do poder político». Três hipóteses, o Presidente da República, o Povo ou o Primeiro Ministro? Tentou a exclusão de partes, o presidente não manda nada; o povo? claro que não; ok, por exclusão, o Primeiro Ministro. O apresentador lembra os seus conhecimentos de direito e afirma, entusiasmado, claro que é o Povo. Mais, havia uns oponentes na assistência. Fomos ver as respostas. Erraram todos. Moral da história: 1)ninguém lê a Constituição (excepto os que desistiram do curso de Direito) e 2)pelo menos não acreditamos nos poderes que temos. Têm a certeza que temos? Ou será só uma ilusão, angustiadamente, gritada como doutrina por apresentadores televisivos.

sexta-feira, abril 02, 2004

Continuemos...

Achei curioso como muitos bloquistas mentirosos ontem tiveram a mesma ideia de ameaçar terminar a blogosfera. Que pode isto significar? Algumas semelhanças dos que por aqui andam, algum sentimento de provocação. Gostamos possivelmente de tentar provocar e temos a ilusão de às vezes o conseguirmos. Haja tempo, não faltem os assuntos e cá irei continuar nos meus cinco minutos de edital quase diário.

quinta-feira, abril 01, 2004

Acabou

O início dos meses pode levar-nos para momentos de lucidez. Há uma série de meses aqui tenho vindo quase diariamente deixar umas linhas. Algumas almas pacientes têm-se dado ao cuidado de aqui virem ler e algumas até deixar um ou outro comentário. Só que já começo a estar farto e a perceber que esta manifestação narcísica tem de ter um fim. Foi hoje. Bem hajam todos!